Arquivo do mês: agosto 2012

Show: “Maroon 5 – Overexposed Tour”

 

Em uma antológica sequência do filme “O clube da luta”, o personagem de Brad Pitt leva uma improvável surra de um homem que, visivelmente, era mais fraco. Ao término da sova, encarado pelos incrédulos companheiros, ele lhes dá um tema de casa: no outro dia, devem procurar uma pessoa mais fraca, iniciar uma briga e perder a luta até o ponto de ser espancado. Somente assim saberiam o que é a verdadeira derrota.

Com base nesta cena, vou dizer algo: no dia 24 de agosto de 2012, resolvi viajar para assistir ao show de uma banda cujas músicas não conhecia e cujo estilo não gosto. Não bastando, é uma banda adorada em especial pelo público feminino, cujos integrantes eu desconheço o nome e – para ficar ainda melhor – não sabia sequer o tipo de música que poderiam tocar e a duração do show. Desconhecia tudo.

No entanto, no melhor dos espíritos esportivos, fui.

Na cabeça, meu tema de casa era: hoje você irá assistir ao show de uma banda que não conhece, não faz questão de conhecer e nunca mais assistirá. Minha voz interna vaticinava – assim saberás dar valor aos shows em que acabas indo! Esta voz interna funciona mais ou menos como o escravo que ficava atrás dos imperadores romanos durante a celebração dos triunfos, murmurando “Lembra-te que és um homem”. Gustavo, lembra-te que faz parte da vida assistir coisas que também não gostamos. Em seguida, acrescentava: Gustavo, não ria.

A cidade era Curitiba, capital do Paraná. Ou melhor, Pinhais, que fica na região metropolitana de Curitiba. A banda era o Maroon 5, a qual – como já referi – não sei de onde veio e muito menos para onde vai, mas cujos ingressos estavam esgotados há algumas semanas, o que demonstrava que, ao contrário do que ocorria comigo, talvez os outros espectadores do show soubessem o que iam ouvir.

O show era no Expotrade de Pinhais, e o horário de abertura dos portões era 17 horas. Chegamos às 19 horas e eles ainda estavam fechados. A fila era descomunal, dava voltas e voltas em torno de si mesma, chegando àquele ponto em que é quase impossível localizar o seu final. Os portões só foram abertos às 22 horas. Detalhe importante: o show deveria ter começado às 21h30 min. Ou seja: os portões foram abertos já com atraso e o show iria demorar para sair.

Na fila, as confusões de sempre. A desorganização do evento era evidente. Não existia um funcionário sequer para orientar. Malandros tentando furar, amigos distantes virando íntimos para conseguirem brechas, estranhos puxando conversas para ver se o tempo passava mais depressa. Amizades de shows, tão efêmeras quanto estrelas cadentes. Continuo achando intrigante as pessoas que bebem até cair – vendiam caipirinha na fila, e duvido que fosse somente para maiores de idade – e não conseguem assistir ao show pelo qual pagaram caro. Cada um com suas opções. Um especial aplauso ao público de Curitiba, que, ao contrário de Porto Alegre, respeita as áreas de fumantes (sim, tem um fumódromo na área do show, para onde quem queria fumar se dirigia naturalmente) e, o mais incrível de tudo, não consumiam maconha, esta droga cada vez mais disseminada e tida como recreacional. Foi um dos poucos shows que retornei para casa com a minha roupa ainda aproveitável.

A diferença do público era gritante em relação aos estilos musicais que eu gosto. Uma quantidade impressionante de mulheres, de todos os tipos possíveis e imagináveis. Uma pequena quantidade de homens, a maioria bocejando e com expressões de enfado que lembravam o meu próprio rosto.

O show começou 00:30, ou seja, três horas após o programado. A esta altura do campeonato, estando de pé desde as 19 horas, eu não sentia mais minhas pernas.

Quem diz que um público majoritariamente feminino é um Paraíso de educação e civilidade com certeza nunca foi em um show que devia ter em torno de 18.000 mulheres. Quando a banda entrou no palco, o grito foi tão insano que, tenho certeza, cachorros morreram ou ensurdeceram há quadras de distância. O meu tímpano esquerdo ainda não voltou ao normal, tamanho o susto que levou. E, meus amigos, eu já estive em vários shows de heavy metal sem sentir tamanho incômodo na audição. Parafraseando Bruce Dickinson ao cantar “Running Free” na arena de Long Beach, Califórnia (vejam o DVD do “Live After Death”, do Iron Maiden), “I wanna come back home and say to eveyone that EXPOTRADE DE PINHAIS destroy my EARING!”.

Quanto ao show, o que posso dizer? Bem, primeiro um elogio: os caras foram profissionais. A banda tocou, mesmo com tanto atraso (que não foi causado por culpa deles, o problema foi a greve na Polícia Federal conjugado à desorganização do evento). Como eu não estava ligado nas músicas, percebi um certo cansaço deles, uma vontade de acabar logo o show, mas pelo menos subiram no palco e se esforçaram. Eles também deviam ter se estressado horrores com tamanha bagunça. Quase não falaram com o público e tocaram uma música quase colada na outra.

Aliás, este é outro detalhe importante a destacar. As músicas eram tão parecidas e estavam tão coladas que era quase como se fosse uma faixa contínua. Como eles estavam todos vestidos de branco, o efeito era quase lisérgico: pareciam ovelhas cantando e saltitando em um campo repleto de luzes feéricas (talvez fosse o sono se apoderando do meu corpo).

Pelo o que percebi, o Maroon 5 está concentrado em torno do vocalista da banda. Ele até apresentou os outros membros da banda, em um dos momentos mais chatos do show, por que ele falava, falava, falava, contava historinha, fazia pseudo-piada e, no final, dizia o nome do integrante do grupo. Já vi apresentações de banda melhores, e neste momento estou me controlando para não dizer momentos do show do Maiden ou até mesmo a apresentação dos integrantes do Green Day, que foi rápida, discreta e dentro da melodia.

Esta concentração do show em torno do vocalista – pelo visto, o sonho e a razão de ser da plateia feminina – faz com que o cara tenha de se desdobrar em vários. É uma coisa meio esquizofrênica, pois ele não pode ocupar muitos espaços ao mesmo tempo, mas extremamente engraçada de vê-lo tentar. Além de cantar, ele tocou guitarra, e, para minha surpresa, foi bem neste instrumento. Também tocou bateria, em um cover de “Seven Nation Army” do White Stripes (única música que eu reconheci), mas imitar a Meg White não é a tarefa mais complicada do mundo, queria ver ele tocar uma música do Rush.

O show alternou momentos rápidos com outros mais lentos. Não chegou a ser vibrante ou ruim, mas foi eficiente. As meninas da plateia adoraram. O público destas bandas que não são de heavy metal é muito esquisito. As mulheres se encarapitam nos ombros dos namorados para ver melhor o palco e, com esta conduta, tiram a visibilidade de quem está atrás do casal de gênios. Bem, se eles fizessem isto em um show de heavy metal, levariam tabefes até a guria abaixar, ou garrafinhas cheias de água ou mijo. A única hipótese de uma menina subir nos ombros de alguém e ser perdoada em um show de heavy metal é se ela tirar a blusa.

Há muitos anos tenho a teoria de que os shows de heavy metal são os mais tranquilos para se assistir. Já me estressei assistindo música clássica, mas não em shows de metal. Já bati boca em uma apresentação da ópera “Carmem”, com chutes na poltrona que me fizeram levantar e dizer para o cara para irmos na rua resolvermos nossos problemas. Já fui expulso por briga do Teatro do Sesi no intermezzo da “Cavalleria Rusticana”. Com raras exceções, o público metaleiro é muito respeitador, pois sabe que qualquer probleminha pode resultar em uma briga de consequências imprevisíveis, então todo mundo é muito calmo. Sempre brinco que, em shows de heavy metal, se alguém pisa acidentalmente no pé do outro, todo mundo começa a pedir desculpas, até quem não pisou. No show do Maroon 5, não existia muito respeito, as pessoas se empurravam e faziam de tudo para avançar. Mulheres brigando ou dão joelhaço ou cotovelada, não são golpes fáceis de suportar. Cheguei ao ponto de me incomodar com um imbecil que empurrou a minha esposa como se fosse um cachorro. Empurrei ele de volta e acho que teria dado problemas se o babaca não tivesse consultado seus deuses e desistido da peleia ao ver meu tamanho. Depois minha mulher jurou de pés juntos que ele pediu licença antes de passar, mas eu, que estava atrás, não vi nenhum pedido, vi o cretino empurrando ela para longe como se fosse uma mosquinha ou um saco de batatas. Ainda bem que não deu nada, uma briga no show do Maroon 5 – para quem já brigou em show do Sepultura (longa história) – iria manchar meu currículo.

Aos trancos e barrancos, apesar dos pesares, o show evoluiu bem. Pelo visto, o pessoal que conhecia a banda se divertiu bastante. Eles saíram do palco e voltaram para o bis mais rápido da história (não sei se chegou a um minuto e não sei nem por que fizeram tanta mise en scène para voltarem tão rapidamente). Por questões logísticas, tivemos que sair antes da última música, pois o nosso retorno seria longo, complicado e ainda precisávamos achar um táxi em uma cidade desconhecida quase duas horas da madrugada.

Minha opinião pessoal? Acho que todo mundo devia fazer isto uma vez na vida: assistir um show de uma banda que desconhecem. Faz com que os sentidos escapem do óbvio e o grau de percepções seja alterado. Não foi uma experiência tão detestável como temi. Show é bom até mesmo quando é ruim. A vibração, a energia, as vozes cantando juntas é muito asfixiante. Não sei se voltarei a assistir a um show do Maroon 5 (que Deus me poupe que este raio caia duas vezes no mesmo lugar), mas posso dizer que já assisti a banda. No entanto, apesar disso, me desculpem, mas este é um show que, com certeza, vou apagar do meu currículo e deixar somente como uma nota de rodapé no passado.

P.S.: para provar minha isenção, me dei ao trabalho de colocar na postagem uma foto do material de divulgação dos caras. Assim, não sou tachado de radical ou contrário ao esforço dos moços, apesar do discurso me desmentir. E a foto abaixo revela o momento em que a minha presença foi registrada neste show, um instante que se acredita ser épico. A minha cara foi o máximo de sorriso que consegui produzir diante das circunstâncias. Como diria meu irmão, para inimigo não se mostra os dentes.

Eu no Maroon 5. Este foi o máximo de sorriso que consegui largar em momento tão doloroso.

Eu no Maroon 5. Este foi o máximo de sorriso que consegui largar em momento tão doloroso.

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O Tempo e os relógios

Tenho certeza de que os relógios mentem. Mario Quintana escreveu que “a nossa própria alma apanha-nos em flagrante nos espelhos que olhamos sem querer”. O que os relógios fazem quando não estamos os olhando? Meu palpite é que eles brincam com as engrenagens do Tempo e tentam enganá-lo – ou tentam nos iludir de que existe mesmo um Tempo.

O relógio escraviza o Tempo. Faz o que deseja com ele. Pode acelerar ou retardar, pode apagar ou criar fantasmas sombrios. Pode até mesmo criar a ilusão de que o controlamos, o que é outra forma de mentira. Achamos que a memória nos salva, mas quem disse que a memória não serve ao relógio? Podemos confiar tanto na memória a ponto de dizer, com 100% de certeza, de que estávamos fazendo aquilo que imaginamos no horário ditado pelo relógio? Podemos mesmo?

“A Persistência da Memória” (1931), de Salvador Dali. O tempo escoa lentamente, levando consigo a memória. Mole, flexível, o tempo se ajusta e cura tudo – até aquilo que não deseja ser curado.

Eu não sei se o Tempo existe. Sei que ele está aprisionado no meu pulso. Também não sei se o Tempo é maleável ou previamente determinado; não sei sequer se estou no mesmo calendário das outras pessoas. Bem, para ser bem sincero, eu não sei nem se existo, os outros que insistem em me confirmar tal fato.

Mas sei que os relógios mentem. Por isto os horários errados nos diferentes relógios, por isto as horas que passam rápido quando se faz algo que se gosta, por isto o tempo que se derrama em gotas lentas quando se faz algo detestável. Às vezes os relógios são piedosos, quando dizemos que o Tempo não passa para uma determinada pessoa. Às vezes, contudo, eles são cruéis, e deixam cicatrizes impiedosas nos espíritos e nos corpos alheios. Quando brincam com a memória, então, são especialmente maldosos. Deixam cravada a dúvida, deixam flutuando a incerteza.

Rematados mentirosos.

E não posso deixar de pensar: o que irá acontecer no dia em que os relógios combinarem as suas pequenas mentiras em uma única grande inverdade?

Continuo rezando pela ignorância dos relógios.

Foto da Devianart.com. Dois relógios que não conversam acabam apresentando divergências temporais.

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A minha dissertação de mestrado em Literatura Comparada / UFRGS: “Horacio Quiroga e Cyro Martins: Fronteiras, confluências”

Em 2003, eu apresentei a minha dissertação de mestrado na área de Letras, na UFRGS. Fiz um estudo comparatista entre as obras de Horacio Quiroga e Cyro Martins, abordando a questão das fronteiras não só geográficas, mas também entre as suas noções de vida e morte.

O mestrado foi uma experiência bem legal. Foram dois anos intensos e divertidos. Meus colegas eram pessoas inteligentíssimas, e extremamente pacientes com as minhas constantes indagações. Minha orientadora, a profesora Léa Masina, guiou-me com a sabedoria de um timoneiro cercado por rochedos e contornando uma tempestade. Em tudo, foi uma experiência memorável. Até as eventuais chateações foram engraçadas e tranquilas, ou seja, já passei por experiências muito piores.

O único senão é que não sei a nota que tirei. Não prestei atenção neste detalhe. mas deve ter sido uma boa nota, pois as correções feitas no meu texto foram mínimas. De qualquer jeito, segue o texto para quem está interessado:

http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/6865/000448322.pdf?sequence=1

Boa leitura!

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Analisando estatísticas – parte 4

Um mês. Exatos trinta dias. Foi o tempo necessário para fechar mais 1000 acessos. Quase mais rápido do que consigo postar no blog. Obrigado, leitores anônimos e outros nem tanto, que insistem em frequentar estas páginas e – espero – se divertirem um pouco com os meus escritos.

Algumas conclusões chego ao atingir esta marca. A primeira é que não tenho a mínima ideia do que será lido ou não. A mínima. Não acerto um prognóstico sequer. Outra conclusão é que não sei se estou agradando com o que escrevo ou sendo repudiado. Bem, isto não deveria importar. Continuo mantendo a regularidade, lançando garrafas repletas de mensagens no oceano virtual, esperando que os bytes sejam lidos por aí. Aos que podem pensar que planejo o que escreverei, adianto que não tenho também a mínima ideia do caminho para o qual as palavras me conduzirão. Não é anormal que eu comece de um jeito a postagem e termine de outro. É um método completamente Montaigne, autor que eu tenho lido cada vez mais.

Agradeço também aos leitores que se ocuparam do meu livro de contos e mandaram e-mails e mensagens com considerações, pensamentos e reflexos. Este é um dos propósitos do blog, e logo retomarei as postagens em que respondo aos comentários dos leitores de “O Homem Despedaçado”. Ao contrário do clichê DEZENAS de vezes repetido, não penso que tenho 13 ou 14 leitores (tantos escritores usam isto com falsa modéstia que chega a me dar sono), mas que tenho mais de 10.000 leitores tímidos, que leram o livro e não tem coragem de me contatar. Retomarei as postagens em homenagem a vocês, os silenciosos. Sempre preferi os discretos.

Vamos à clássica análise estatística, a qual, como não canso de referir, é feita de forma irregular e quase criminosa por alguém que mal e mal sabe aquilo que está analisando:

-Direto da tumba (literal e figurativamente), ANAXIMENES voltou a ser um dos assuntos mais buscados no blog. Achei que a onda de interesse tinha passado, mas errei, foi apenas uma queda no gráfico. O mistério desta busca continua me intrigando. Às vezes penso que, se escrevesse um blog somente sobre Anaximenes, seria um dos mais vistos da história da internet. Meu único óbice é que toda a informação existente sobre ele não dá mais que duas ou três páginas de um livro. Anaximenes foi um dos pré-socráticos que sumiram na areia do Tempo e algumas poucas ideias sobreviveram na obra de outros admiradores. Aliás, os fãs de Anaximenes vêm desde Aristóteles e Platão. Ou seja: aí está um cara que interessou muita gente, mesmo antes da minha postagem.

– Nas 100 postagens que antecederam a chegada aos 4000 acessos, depois de três semanas sendo ignorado, ANAXAGORAS experimentou um renascimento no interesse dos leitores. Incompreensível.

– “As crônicas de gelo e fogo – Um jogo de tronos” também continua despertando atenção. A julgar pela quantidade de acessos que colocaram o nome do livro seguido da expressão “crítica real” ou “crítica imparcial”, as pessoas sentem falta de uma apreciação verdadeira e distante do incensamento da mídia. Vamos combinar, é um bom livro para entretenimento, mas somente isto. Ver mais do que uma coisa realmente significa é característica de quem não sabe refletir sobre aquilo que viu.

– Não sabia que existia tantas pessoas no mundo interessadas pela forma de um hexágono. Bem, de qualquer jeito, para quem não sabe o formato, existe um desenho auto-explicativo na postagem.

– Nunca comentei, mas algumas postagens mantém a sua regularidade. Montaigne e Van Gogh nunca apresentaram um excesso de visualizações, mas são regulares no sentido de que toda semana 10 ou 20 pessoas entram para ler o que escrevi sobre estes assuntos. O clássico nunca falha, por isto é clássico.

– E temos uma nova postagem recordista de acessos diários. A postagem que fiz sobre o livro do Juarez Guedes Cruz, “Antes que os espelhos se tornem opacos”, empurrada pela informação veiculada na internet pela Dublinense, bateu recorde de visualização em um dia. Juarez, sempre catapultando o interesse dos seus inúmeros fãs.

– Vou novamente destacar algumas buscas estranhas que chegaram ao meu blog. Ao mesmo tempo em que me apavoro de como o Google pôde pensar tais coisas a meu respeito, tenho certeza de que os “buscadores” se decepcionaram ao não encontrar o que estavam buscando. Vamos a elas: “homem ama akira” (talvez seja minha ignorância, mas o cruzamento entre um homem e um cachorro da raça akira é possível?), “van gogh, qual a planta medicinal que ele descobriu” (até onde sei, Van Gogh era pintor, e não um botânico), “fatos curiosos acontecidos em alegrete” (como o Alegrete chegou aqui no meu blog?), “as musicas de beethoven e o diabo” (a já clássica busca diabólica do mês, desta vez entrelaçando Beethoven com o diabo), “como fazer stripes para homens” (não entendo do assunto muito bem, mas acredito que dançando enquanto tira a roupa é um bom início), “não vivemos sem ar” (existem pessoas que acordam e pensam o que irá acontecer se elas trancarem a respiração de forma indefinida – bem, vocês acabarão morrendo, não façam isto), “pessoas que cairam de predio e morre despedaçado” (além da busca diabólica do mês, sempre existem pessoas com curiosidades macabras), “simples assim, para homem” (existe alguma coisa simples assim para homem?) e, por fim, “quem canta a música to chegando de viagem com passaporte falso” (com certeza alguém que não tardará a ser expatriado).

E assim se encerra aquela que pretendo que seja a penúltima análise de estatísticas. Quando chegar aos 500o acessos (um latifúndio), pretendo encerrar estas análises e distribuí-las por outras postagens. Como o número de acessos está crescendo, não tardará muito para as estatísticas demonstrarem a minha pouca produção em matéria de postagens. O ritmo é muito intenso, pois, quanto mais escrevo, mais acessos ocorrem. E, como eu já disse, conseguir mil acessos em um blog através da palavra e textos escritos (sem imagens e fotos) era um luxo. Tendo ultrapassado esta barreira, tudo que vinha era lucro, e já quadrupliquei as minhas expectativas. Novamente agradeço ao interesse dos leitores, às mensagens de carinho deixadas e aos acessos silenciosos. Vocês fazem este blog todo dia e, apesar da minha constante descrença de que existam leitores interessados no que escrevo, vocês continuam confiando e continuam lendo. Valeu, e vamos aos 5000 mil.

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Dentro do olho

E justo na semana em que decido retornar aos óculos, após um longo período sem utilizá-los, após aguentar dores de cabeça no final da tarde e sentir os olhos lacrimejarem diante da abusiva carga de leituras e escrituras, sou surpreendido com a imagem infinita de um olho.

Poucas partes do corpo humano se prestam mais a clichês e imagens batidas do que o olho. Olhos de ressaca, olhos entrecerrados, olhos sombrios, olhos apaixonados… quase tudo já foi dito sobre eles. E, apesar disso, ainda existem detalhes que não foram falados. Talvez esta seja a circunstância de ser mágico – sempre ter algo a dizer a respeito, nunca esgotar o assunto.

Diante da imagem do olho capturado pela indiscrição de uma visão mecânica centenas de vezes mais desenvolvida do que a capacidade humana, eu percebo uma superfície mais interessante do que as planícies de Marte. Percebo um fractal morando dentro de cada pessoa. Percebo colinas, aderências, sutis sombras cercando o negro eterno da pupila. Percebo que o deserto mora dentro de cada pessoa, e constato que somos desertos comunicando-se através de olhares. Visto de perto, o olho parece um sol derretendo, uma supernova no segundo que antecede a explosão, as ondas que rompem a superfície impassível do lago.

De repente, a expressão “os olhos são a janela da alma” adquire um novo significado, um colorido inédito. Adquire sabedoria. Qual o deserto que não tem alma, qual o abismo que não sente dor? Isto justifica o nosso incessante piscar; precisamos matar a solidão do olho, apascentar a sua fúria ignata, regá-lo com um pouco de esperança. Precisamos refrescar o seu medo de se auto-consumir em desespero.

Neste contexto, lágrimas também adquirem um novo significado. São o oásis tentando escapar do deserto, são a fonte que brota do meio do nada.

E não consigo deixar de pensar nos bilhões de pessoas que andam por aí compartilhando fractais, enlaçando imensidões, fazendo eternidades colidirem. Se as pessoas soubessem do invisível que mora dentro dos olhos de cada uma, tudo seria diferente. E talvez eu não desrespeitasse tanto os meus olhos desgastando-os em leituras sem o devido aparato para protegê-los. Talvez as pessoas não desrespeitassem os olhos vendo as bobagens que assistem por aí. Talvez elas aprendessem a valorizar o sentido da visão, não desperdiçá-lo com aquilo que não merece. No entanto, são só pensamentos vãos; o primeiro objetivo, agora, é retornar aos óculos, estes velhos companheiros. Se possível, com um pedido de desculpas.

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Mais uma resenha no Amálgama

Dando continuidade às resenhas de livros que faço para o Amálgama (http://www.amalgama.blog.br/), tem uma nova no site. Desta vez, trato do livro da Sarah Bakewell, “Como viver ou uma biografia de Montaigne em uma pergunta e vinte tentativas de resposta”, que já comentei anteriormente aqui no blog quando falei da biblioteca do escritor francês (http://wp.me/p24M2p-8r). Vale muito a pena conhecer a vida e a obra de Montaigne, foi uma experiência inspiradora ler a forma com que ele construiu “Os Ensaios”, um dos livros mais egocentristas e importantes que a Humanidade já recebeu. Além disso, aprendi muito sobre a Idade Média na França, sobre os filósofos e as escolas gregas de pensamento, sobre como um livro pode ser lido e reinterpretado ao longo dos séculos dependendo das mudanças sociais.

Vale a pena a leitura do livro. E da resenha, claro.

Segue o link:

http://www.amalgama.blog.br/08/2012/montaigne-sarah-bakewell/

Boa leitura!

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Livro: “O Livro de Monelle”, de Marcel Schwob

Desde a leitura que fiz do livro “A cruzada das crianças / Vidas imaginárias”, do Marcel Schwob (coloquei a resenha aqui no blog – http://wp.me/p24M2p-1Z ), confesso que fiquei positivamente impressionado pela força da narrativa do escritor francês, pelas imagens poderosas que ele criava através de metáforas e pela sua criatividade. Esta leitura acabou sendo decisiva para que eu procurasse outra das suas obras, “O Livro de Monelle”, lançado pela Hedra em 2011.

Não podia ficar mais surpreso com a leitura deste outro livro. Ele é diametralmente oposto ao “A cruzada das crianças / Vidas imaginárias”. Não existe nenhuma base com a realidade ou com a História. O estilo ainda é o mesmo, mas o autor se refugia de forma incessante na beleza plástica das ideias, no cicio das palavras, na construção de imagens poéticas através da prosa. Em alguns momentos, ele chega ao nível da incompreensão. De tanto buscar imagens e alegorias, Schwob se esquece da história, que deixa de servir aos seus propósitos narrativos para se tornar o veículo de condução da beleza meramente estética. É uma história bela como uma catedral, porém pouco narrativa ou inventiva. Jamais imaginei que diria isto a respeito de um livro, mas é uma história feita para sonhar com imagens, ainda que pouco eficaz para transmitir uma narrativa. Muitas palavras para um excesso de imagens poéticas, e quase nenhuma história.

“O Livro de Monelle” se divide em três partes: “Palavras de Monelle”, “As irmãs de Monelle” e “Monelle”. O primeiro segmento se aproxima de um evangelho para entender os motivos de Monelle. Uma prostituta de idade indefinida aproxima-se de um homem e traça uma série de postulados, envolvendo o espaço e o tempo, dissecando os seus motivos e pensamentos particulares. É uma leitura muito bonita. Monelle é uma poeta e, após homenagear outras prostitutas que se perderam na História e na Literatura (e que representaram papel capital para Bonaparte, Thomas de Quincey e Dostoiévski), lança-se a uma série de postulados simples, sintetizando uma espécie de credo pessoal que justifica o fato do capítulo se chamar de “Palavras de Monelle”. Irei transcrever um trecho:

Destrói todo bem e todo mal. Os escombros são semelhantes.

Destrói as antigas habitações de homens e as antigas habitações de almas; as coisas mortas são espelhos que deformam.

Destrói, pois toda a criação vem da destruição.

O capítulo inteiro é dedicado aos pensamentos de Monelle, que são desordenados, sem nenhuma coerência lógica e, por isto mesmo, deve ser lido somente pela impressão que os aforismos causam. Não existe história ou fio narrativo segurando estas frases. Sabemos que é Monelle por que o autor anunciou, mas poderia ser qualquer pessoa. A única menção a uma estrutura narrativa é o fato de que a narradora anuncia que vai falar sobre um assunto (por exemplo, “formação”, “morte”, “arte”, usando a expressão “E Monelle disse ainda: eu te falarei da formação”, em um discurso que parece o Sermão da Montanha consoante a Bíblia) e desfila quatro ou cinco aforismas, sendo que o último dá uma dica de qual será o próximo tema. Poderia ser extremamente enfadonho, mas a forma ritmada e vibrante com que as imagens são transmitidas através das palavras dão o tom exato para o leitor se ambientar e continuar preso à história, curioso em saber quais são os pensamentos de Monelle.

O segundo capítulo, “As irmãs de Monelle”, foi aquele que achei mais interessante. São uma série de pequenos contos, abordando diferentes meninas e as suas características principais. Cada capítulo aborda uma menina e a forma com que ela se relaciona com o mundo ou com as outras pessoas. Desta forma, temos “A selvagem”, “A desiludida”, “A sonhadora” e outras. Em todas elas, existem facetas da Monelle exposta na primeira parte do livro. Neste capítulo, Marcel Schwob mostra extrema maestria literária. As histórias se relacionam de forma íntima com as características das ditas irmãs de Monelle e, além de visuais, são contos perfeitos acaso sejam individualmente consideradas. Alguns segmentos terminam com a força de um conto bem urdido, deixando uma sensação de ter levado um soco no estômago. Em compensação, outras partes terminam com mais dúvidas e mistérios do que quando iniciaram. Uma leitura prazerosa, ainda que nada simples.

No terceiro e último capítulo, chamado simplesmente “Monelle”, o narrador encontra a moça, que conta histórias esparsas da sua vida. São repletas de simbolismos e chaves de leitura, assim como o uso de metáforas cria belas imagens. Novamente o autor opta por pequenos contos, que fecham a história entre si e se encaixam no panorama global. São histórias interessantes, mas, pelo menos na minha ótica, causou um anti-clímax, em especial após a leitura do capítulo anterior. No entanto, eu considero que este último capítulo foi a fusão dos dois primeiros capítulos e, no objetivo do livro, ele acaba se tornando essencial, indispensável. É a primeira vez que o leitor é apresentado à vida de Monelle, sem ouvir a sua filosofia de vida e sem escutar histórias de outras meninas das quais poderia retirar um paralelo com a própria personagem que dá ensejo ao livro. Monelle aparece como uma guia, uma Beatriz, levando o autor a conhecer a sua vida. No final, o surgimento de Lovette, duplo de Monelle, causa confusão para o leitor, em especial por que agora é Monelle, a guia da narrativa, quem precisa ser buscada. Interpretei este fato como se Monelle estivesse tão ligada ao cerne da narrativa que entregou a própria existência fictícia para a história, escondendo-se dentro do livro e forçando o leitor/personagem a adentrar na história para ver a sua essência espalhada pelas páginas. Senti-me como o pescador que fisga um peixe único e mergulha fundo na própria alma para retirá-lo da água, confundindo-se com o peixe até que ambos sejam somente um. Por causa deste efeito, considerei “O Livro de Monelle” como uma narrativa tentacular, daquelas que pegam o leitor, envolvem-no com lentidão e o sugam para dentro da página, para as nuances de uma história que se revela e se esconde a cada momento.

Não é um livro fácil de resumir. As frases contém múltiplas possibilidades interpretativas. O ensaio inicial do livro revela que Monelle existiu e que Marcel Schwob teve um relacionamento com ela. A intensidade da história até dispensaria esta explicação, mas foi difícil não ficar na dúvida. É um livro muito impressionista. O leitor não procura a narrativa pelo simulacro de vida, e sim pelas impressões que a história causa. Em alguns momentos, a ruptura da imagem que o escritor passa em relação à trama que está transmitindo chega ao ponto de deixar a narrativa incompreensível, etérea demais. É com esforço que o leitor acaba se prendendo na história, curioso em saber como ela terminará, mergulhando fundo na personagem Monelle, este grande e labiríntico quebra-cabeça em torno do qual Marcel Schwob erigiu o seu livro.

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