Arquivo do mês: abril 2017

As perguntas que devemos nos fazer

… como as pessoas conseguem dormir sabendo que um mundo terrível as espreita a cada dia, ansioso para cravar as suas garras e destroçá-las tão sem piedade quanto uma coruja destrincha os segredos e tripas da sua presa?

…  como se sentir tranquilo quando um grito desesperado no meio da noite impregnada de silêncio é subitamente interrompido em seu meio?

… como manter a esperança quando um homem transformou o seu sangue em música e ela agora cavalga por aí, chutando cachorros, esgueirando-se por bueiros, cobiçando a sua vida?

… como acreditar que tudo vai acabar bem quando Sennarcheb, rei da Assíria entre 704-681 a. C., jactou-se dos horrores e mortes que espalhou inscrevendo-os em um prisma de pedra (“O Prisma de Taylor”), um objeto que sobrevive aos séculos com sua memória de gritos, de sangue derramado, de cabeças arrancadas?

O Prisma de Taylor

… como podemos estar no mesmo mundo em que Cervantes e Dante conseguiram conter por muitos anos, dentro dos seus frágeis corpos, o Inferno e o Fantástico?

… como respirar com inocência sabendo que uma borboleta tem uma vida mais interessante do que a nossa?

… como sobreviver à ideia de que, um dia, Hieronymus Bosch caminhou pelas ruas embarradas da cidade, um outro e impossível universo se retorcendo dentro da sua cabeça?

… como aceitar que a realidade nos esmaga se fomos justamente nós quem a criamos?

… como acreditar que somos livres se não controlamos sequer as batidas de um coração, se somos impelidos a respirar, se o Destino faz o que bem deseja conosco, tratando-nos como tábuas perdidas de um naufrágio,

… como não dar risada ao escutar o 3o movimento do Concerto para Trompa número 4 de Mozart? Aliás, como não sorrir por ter vivido na mesma realidade que abrigou Mozart, Tchaikovsky e Bach?

… como saber se não estamos nesse exato momento em um labirinto, e ainda estamos indecisos se somos Teseu ou o Minotauro?

… como não ter medo do que o dia nos reserva tão logo abrimos os olhos?

… como amar sem saber que, na verdade, o verdadeiro amor mora existe somente quando o perdemos?

… como saber se existem perguntas certas ou se estamos vagando por aí em busca de respostas inexistentes?

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Obras Inquietas: 28 – “Retrato de um coração” (2013), Christian Schloe

Nessa semana, na minha coluna no “Obras Inquietas”, eu cedi à arte digital (também posso ser moderno, não?) e falei sobre “Retrato de um coração” (2013), do austríaco Christian Schloe, que se especializou em mostrar mulheres e seu mundo interno de uma forma poética, mas ainda assim brutal.

No caso da pintura que escolhi, é uma metáfora para o amor morto, cujas brasas continuam queimando mesmo depois que ele já se foi.

Boa leitura.

 

 

Queima como o inferno. Por mais que você tente esquecer, não consegue: está ali, uma chaga viva, cada mínima memória despertando novas dores e ressuscitando as chamas dos gestos não realizados. Tenta pensar em outra coisa, mas a imagem do ente amado insiste em acompanhar os seus passos. Cada mínimo som, cada cheiro mais almiscarado, cada risada surpreendida em um canto do apartamento basta para trazer à tona a ausência tão presente de quem se foi, e isso faz o coração queimar com insuspeitada ardência. Você sufoca em silêncio, e tudo o que gostaria de fazer é mergulhar no poço de lava de recordações que dilacera o seu peito, mas o mundo continua girando ao seu redor, e o tempo vira um amálgama de sensações indefinidas, uma ninfa sombria que tortura os seus pensamentos. Devastado, o sentimento se despedaça em um mar de cinzas incandescentes que insistem em lhe perseguir como milhares de lâminas quentes que se cravam em cada segundo do seu dia, lembrando: você perdeu o amor da sua vida. Pode ser que existam outros amores no futuro, mas, naquele momento de perda, o seu coração triturado jura que é a última pessoa que você amou e que irá lhe amar da mesma maneira (tem razão, pois não existem dois sentimentos iguais). Nunca mais ninguém lhe beijará da mesma forma; nunca mais o corpo da outra será seu. Saber disso lhe machuca mais do que qualquer outra chibata. O coração queima, vulcão que se imaginava pacificado, mas, na verdade, só irrompe quando explode na dor do irremediavelmente perdido. O coração queima em um enterro viking dentro do seu peito, juntando todas as efígies e sonhos de quem um dia lhe amou, e o ar falta, e o mundo encolhe ao redor, e a pessoa que você foi queima junto; a inocência dos sentimentos vai aos poucos se corroendo, até que só resta um animal escorreito, uma criatura sem alma, outro ser que desaprendeu a amar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/04/16/obras-inquietas-28-retrato-de-um-coracao-2013-christian-schloe/

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“Variações de Casanova”, ou como um cavalheiro deveria responder a essa questão?

Quando estou em dor, é na escrita que acalmo minhas turbulências e pacifico o pensamento. Então, perdoem-me a divagação em momento tão impróprio, mas faz parte do meu procedimento de luto, e 2017 tem sido um ano – pelo menos para mim – bafejado pela morte, que está caminhando mais próxima do que eu gostaria. Quanto mais perto ela chega, mais eu falo da vida.

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Ontem fui assistir a um filme, “Variações de Casanova” (2014). Quem me conhece sabe da minha predileção por filmes que versam sobre assuntos literários, em especial personagens e autores, e Giacomo Casanova (1725-1798) sempre me interessou. Ele teve uma vida muito intensa. Foi uma pessoa que se descolou de tal forma da realidade que acabou virando personagem ficcional. Escreveu mais de 28 diários descrevendo as suas aventuras e proezas sexuais. Aquilo que o Marquês de Sade fazia com uma sexualidade violenta, Casanova conseguia através do dom da sedução. Tão forte era a lenda de Casanova que, por muitos anos, se acreditou que ele virou uma espécie de Judeu Errante, um homem que aparecia nas cidades, causava uma onda de seduções e ia embora, deixando no seu rastro várias donzelas grávidas.

Logo na entrada do cinema, a bilheteira me estendeu o ingresso e disse “tomara que o senhor não durma” – um comentário nada auspicioso. A sala estava relativamente vazia – além de mim, mais seis espectadores – e um fato que posso garantir é que todos os seis odiaram o filme. Antes mesmo dele acabar, três pessoas tinham ido embora, e as outras foram embora assim que a luz acendeu.

Por meu lado, gostei bastante. Não tenho essas veleidades de gostar de algo pelo simples prazer de ser do contra, mas apreciei o alto desafio a que o roteiro se propôs. Se teve sucesso em transmitir a intenção é um outro caso, mas a proposta ficcional era ambiciosa: por meio de uma colagem de ficção, história e realidade, “Variações de Casanova” apresentaria trechos do livro “Memórias de Casanova”, dos filmes “Casanova” feito por Ettora Scola e da versão de Fellini para o mesmo personagem, além de músicas das óperas de Mozart  e citações ao filme “Quero ser John Malkovich”. Tudo dentro do espaço dramático por excelência, o Teatro São Carlos, em Lisboa.

Então, é uma peça de teatro que intercala óperas, que intercala literatura, que intercala realidade, que intercala cinema… tudo misturado e em alternância. Muito pós-moderno, muito contemporâneo. Normalmente acho imposições criativas esses voos estilísticos (no estilo de “qual é a necessidade de tanta estrutura para contar uma simples história?”), para não dizer que parecem exercícios de presunção intertextual do autor, mas, dessa vez, foi algo feito com tamanha habilidade que pareceu natural. A única maneira de mostrar um personagem como Casanova, tão multifacetado entre realidade e ficção, é sendo igualmente multifacetado. Nunca vemos o personagem por completo, somente aquilo que queremos ver.

Na interpretação de John Malkovich e de outros atores – um deles é inclusive uma atriz -, Giacomo Casanova é mais do que um personagem unidimensional que só deseja transar com todas as mulheres, mas alguém usando palavras para seduzir todos, não interessa se homens ou mulheres. É um escritor por natureza – ou um mentiroso, como fazem questão de frisar. Ele está preso em um papel eterno da qual não consegue se desvencilhar: o de sedutor. É algo a que ele se submete às vezes com cansaço, como afirma no seu livro: “Se há um aspecto que possa redimir alguém por seduzir virgens ingênuas é que, dessa forma, as estará salvando de um destino pior, tratando-as de maneira mais gentil do que a maioria, como parceiras sexuais no mesmo nível, e que a partir daí elas usariam seus conhecimentos sobre os homens. Fora isso, seria realmente deselegante recusar suas carícias a uma menina que vem até sua cama para submeter-se a elas.”

Não à toa que, em algumas ocasiões, a mesma frase é repetida por diferentes Casanovas: o importante não é realizar algo sempre igual, mas as variações. Todas as seduções são diferentes entre si, não existem duas iguais, e a capacidade de variar é mais atraente do que a existência de uma fórmula fixa. Casanova está mais interessado pelas variações da sedução do que eme stabelecer um vínculo formal. Recordei de um conto do meu primeiro livro, “O homem despedaçado”, e que tem por título“Várias variantes variáveis variam com variações invariáveis”. Quanto mais tentamos variar, mais caímos em um lugar comum: a própria variação. Assim, a variação é uma armadilha pois, dentro de qualquer mínimo ato, existem múltiplas variações que o esgotam. Pensar isso ao extremo esgota o conceito de criatividade, e a transforma em uma variação presa dentro de outra, e ambas presas dentro de outra, e assim por diante. Assim, estamos eximidos do fardo de sermos sempre criativos quando aceitamos que a criatividade é somente uma pequena faceta de livre espírito enfadonhamente prevista no interior de outras.

Tão preso Casanova estava ao destino de sedutor nato que, quando a própria filha o requisitou para um caso amoroso, ele deixou a ideia de incesto de lado e cedeu à sedução. Outra ideia muito bem explorada no filme e que está na base de “Memórias de Casanova”: a noção de liberdade. Para o autor veneziano, o homem sempre tem o espírito livre e, quanto mais fiel for à sua natureza, maior será a sua capacidade de experimentar tal liberdade. Assim, não existe casamento, convenção social, religião ou governo que submeta um homem. Nas suas palavras, “vou começar com esta confissão: o que tenho feito no curso da minha vida, quer seja bom ou mal, foi feito livremente, pois sou um agente livre.” Observem que, para Casanova, não existe certo ou errado, moralidade ou ética. Somente a liberdade traça os seus limites, o que o exime de qualquer culpa. Um pensamento muito semelhante ao do Marquês de Sade, mas, nesse caso, foi usado de forma diferente.

Um filme muito c0mplexo, o que explica a dificuldade de conexão dos espectadores com a história. No palco, John Malkovich interpreta o papel de Casanova. Cai, aparentemente fulminado por um ataque cardíaco, e o drama é tão pungente que os funcionários do teatro correm procurando um médico. Na plateia, uma espectadora vai até o palco, identificando-se como médica. John Malkovich levanta-se, rindo, pois era parte da encenação. Casanova fez de conta que sofreu um ataque cardíaco e a espectadora achou que o homem John Malkovich estivesse morrendo, e essa cena ilustra o quanto os limites entre ficção e realidade estão borrados. Em seguida, o filme muda para o passado, em que o Casanova dito real (ou representado) está preso em uma casa onde as serviçais passam o dia inteiro inventando tormentos psicológicos para ele. Casanova sequer possui mais um nome: inventou tantas peles e pretextos que até o seu nome é uma mentira.

Uma das cenas mais interessantes é quando, no palco de teatro, descem inúmeros espelhos do teto, e todos os Casanovas (o Casanova  da ópera, o do teatro, o do cinema, o real) interagem com todas as Elisas von der Heck, com os espelhos multiplicando as imagens enquanto Casanova brinda, se embebeda e entra em briga corporal entre as suas várias identidades. Uma cena que diz muito sobre a capacidade de fragmentação de qualquer pessoa; estamos sempre em luta contra os outros eus que nos habitam. Nem todos nós somos Fernando pessoa, que conseguiu se dividir em vários.

Por fim, a idêntica pergunta repetida em inúmeros contextos: como um cavalheiro deveria responder a essa questão? Aliás, uma pergunta boa para inúmeras oportunidades do cotidiano em que vivemos.

Na primeira vez, na realidade, Elisa pergunta se é verdade que ele dormiu com a própria filha, e Casanova pergunta “como um cavalheiro deveria responder a essa questão?“. Presume-se que a pergunta é tão abominável que alguém educado não poderia sequer responder. Na segunda ocasião, no segmento da ópera, uma mulher pergunta a quantidade de conquistas amorosas de Casanova, e ele responde com a mesma pergunta, mas o seu sorriso é de vitória, como se a resposta não importasse – ou o valor apontado, 1.003, estivesse defasado.

Na terceira vez, a médica do mundo real que foi socorrer o ator aproveita um momento de interlúdio da peça e pergunta para John Malkovich se é ele é gay ou não. Quando vem a resposta, “como um cavalheiro deveria responder a essa questão?”, percebe-se que o ator desconversou habilmente para não fechar a questão com uma resposta definitiva. Na derradeira ocasião em que Casanova é confrontado, dessa vez durante a peça de teatro, a atriz que interpreta uma criada pergunta se é verdade que John Malkovich (o homem) dormiu com mais de 1.000 mulheres. Quando ele dá a resposta, a mulher sente-se seduzida pela sua discrição, e os dois arranjam um encontro somente com olhares. Responder perguntas com outras perguntas é uma estratégia muito inteligente, e ver a maneira com que a mesma resposta pode ser ressignificada dependendo da intenção do falante foi algo instrutivo.

Não é um filme fácil, e tem uma proposta arrojada, à medida que Casanova se encontra com suas diferentes facetas em inúmeras representações artísticas. Falando em termos de roteiro, é um prodígio juntar tantas expressões de arte sob a mesma batuta e fazer cada uma funcionar em uníssono com as outras. Existem algumas falhas, é claro, mas nada que comprometa o projeto criativo exposto nas duas horas de filme. No meio da história, um momento de desconstrução, quando uma amiga de John Malkovich – para quem ele pediu que produzisse um filme chamado “Variações de Casanova”, em um momento metacinematográfico – vai visitá-lo no camarim e diz que não está gostando de nada, pois não entende o que está acontecendo, e essa foi a reação dos espectadores no meu mundo real. Creio inclusive ter escutado um aplauso tímido quando, na tela, a atriz externou o que estavam pensando na minha realidade de espectador de cinema.

Como eu gosto de filmes que escapam do convencional em termos de roteiro, achei interessante “Variações de Casanova” por demonstrar a tese do meu primeiro livro de contos: cada homem é formado por inúmeros homens que existiram ou não chegaram a surgir. Até mesmo Casanova, o mestre de todos os sedutores, um homem aprisionado pela sua própria fama. Isso explica outra frase recorrente dita por Casanova nos mais diferentes sotaques e acepções: “Eu preciso de variações, eu exijo variações”. É o que nos deixa vivos – a certeza de que sempre podemos fazer algo costumeiro de uma forma alternativa.

 

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Obras Inquietas – 26. “Adão e Eva lamentando a morte de Abel” (1818), Antonio Canova

Na minha coluna de duas semanas atrás no “Obras Inquietas” – esqueci de publicar aqui , acidentes acontecem -, eu falei de uma escultura em terracota de Antonio Canova, “Adão e Eva lamentando a morte de Abel” (1818). Para mim, essa escultura representa a dor que está além das palavras, além do corpo, além do mundo. A sensação de se desfazer em um mar de ácido desespero.

Boa leitura.

“Adão e Eva lamentando a morte de Abel” (1818), Antonio Canova

A dor. A dor incapaz de ser expressa em palavras. A dor que mora no nosso corpo, em estado adormecido, até o dia em que vem à tona e arrasta tudo de roldão. A dor daquilo que é irrecuperável e, agora, se perdeu para sempre. A dor do sorriso que nunca mais veremos, do cheiro que começa a desaparecer assim que a morte toma posse do corpo, do brilho mortiço que se adonou dos olhos até então repletos de vivacidade. A dor de continuar vivo em um mundo no qual o ser amado não está mais. A dor que desfaz o corpo em uma onda de desespero que nunca mais cessará. A dor daqueles que foram privados da voz. Ela nunca acaba, a dor. Só em alguns instantes fugazes da vida conseguimos esquecer de que a dor é o derradeiro destino possível da Humanidade, a única alternativa viável. Existir é desfiar um rosário quase infinito de dores que se escondem em cada recanto, ansiosas por nos engolfar. A dor do arrependimento: tantas maneiras de evitar aquela dor, tantos avisos de que ela iria acontecer, e não percebemos nada. Fomos cegos ao que estava acontecendo e, se hoje nos lamentamos, foi por que fizemos por merecer. A agonia de perder não somente um filho, mas dois – de perder tudo aquilo que foi arduamente conquistado em um único gesto, em uma pedra só. O homem leva o braço do filho assassinado até o peito, esperando que um pouco da sua vida passe para ele, mas nada acontece; no chão, a mulher enlaça a cabeça arrebentada, o rosto tentando reter o calor do corpo sem vida, mas nada acontece. Desesperados demais para conseguirem chorar ou gritar, o casal sente-se sufocar diante da presença maligna do Deus que conseguiu, enfim, a sua vingança, mostrando que, se da terra viemos, é para ela que um dia iremos voltar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/03/26/obras-inquietas-26-adao-e-eva-lamentando-a-morte-de-abel-1818-antonio-canova/

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A felicidade de viver no mesmo mundo em que Tolstói esteve

Cansados dos homens medíocres que nos rodeiam e de seus pensamentos mesquinhos, ínfimos, ridículos? Também estou. Pois bem, então vamos falar de quando lendas caminhavam pela Terra.

Estou lendo a autobiografia de Constantino Stanislavski, “Minha vida na arte”, e quase não consigo sair da cadeira, de tão eletrizante a leitura. Em primeiro lugar pelo estilo: Stanislavski elenca fatos e maravilhas em um ritmo fluido que deixa impossível não mergulhar nas suas vicissitudes, seguindo uma trajetória que atravessou dois séculos e mudou a História do Teatro. Ele é o criador do Sistema Stanislavski de interpretação que, em um resumo grosseiro, afirma que o ator deve interpretar um personagem através de ações físicas que refletem o espírito do papel, usando a sua própria imaginação e vida para ficar o mais próximo possível da verdade, não da representação. O sistema explica os procedimentos de imersão dos atores não só no texto da peça, mas na época, na sociedade, na vida do autor da peça, na sua própria vida, em tudo.

Em segundo lugar, Stanislavski conheceu algumas das maiores mentes da sua época. Entre os homens e mulheres com quem conviveu, pode-se listar Ivan Turgueniev, Leon Tolstói, Anton Tchekhov, Isadora Duncan, Máximo Gorki, Henrik Ibsen, As suas indiscrições e comentários sobre essas fascinantes pessoas estão dispostas de forma tão natural que as risadas surgem de maneira natural, incontida.

Constantino Stanislavski

No entanto, o encontro com Leon Tolstói foi especialmente marcante, tanto que há alguns dias só consigo pensar nele.

Logo no início, o momento em que Constantino Stanislavski pela primeira vez esteve diante do autor de “Guerra e Paz”:

“Um dia, andava tudo ali em polvorosa, quando surge à porta, de repente, a figura imponente de um homem vestido de camponês. Aquele velho de longas barbas brancas, botas de feltro, blusa cinzenta e cinto de couro, entra na sala de jantar, onde o recebem dando gritos de alegria. Custei um pouco a perceber que era Leon Tostói em pessoa: fotografia nenhuma, retrato nenhum poderia representar exatamente a expressão daquele rosto, e sobretudo daqueles olhos, a um tempo agudos e penetrantes, doces e risonhos! Quando Tolstói fixava o olhar em alguém, ficava imóvel, concentrado, como se tentasse aspirar na alma do outro tudo que nela havia de bom ou de mau. Depois, os olhos de Tolstói escondiam-se sob as sobrancelhas, como o sol por trás das nuvens. E se acaso respondia ao gracejo de uma criança, um riso encantador iluminava-lhe a fisionomia. E os olhos, emergindo das espessas sobrancelhas, rebrilhavam de alegria. Às observações de qualquer pessoa, Tolstói reagia imediatamente. E esse entusiasmo, essa vivacidade juvenil, acendia-lhe no olhar centenas de gênio.

(…)

Quando lhe fomos apresentados, ele segurou na sua a mão de cada um de nós, apoiando longamente o olhar no nosso. Eu tive a perfeita impressão de estar sendo atravessado por uma seta.

Esse encontro inesperado desnorteou-me, a ponto de tirar-me a consciência do que se passava em mim e em torno a mim. E quem sabe em que conta os russos tinham Leon Nicolaevitch, disso não se espantará.

Enquanto ele vivia, dizíamos ‘que felicidade viver na época de Tolstói!’. E quando nos sentíamos tristes, impressionados pela maldade dos homens, a ideia de existir lá longe, em Iasnaia-Poliana, um Tolstói, nos consolava e nos reanimava.”

Qual homem ou mulher atual de quem podemos dizer o mesmo, “que felicidade viver na época de Fulano ou Beltrana!” A nossa decadência mede-se pela incapacidade de escolhermos modelos de conduta. Tolstói funcionava não só como um escritor, mas era o farol e baluarte ético da sua época e de todo um país. Quanta responsabilidade estava sobre os seus ombros! Claro que existem revisões atuais do papel de Tolstói, mas ninguém viveu a época com a mesma intensidade que Stanislavski, e o fato dele reconhecer que, mais do que um escritor, a aura de Tolstói impunha-se sobre o ambiente e caía como um manto protetivo sobre o país diz muito a respeito da fraqueza moral que assola os países da atualidade, que trocaram modelos de vida pelos grasnados enganosos da publicidade.

Também gosto de ver a percepção de Stanislavski: Tolstói observava o mundo com tamanha intensidade que parecia atravessá-lo através do olhar. É algo que falo sobre a criação literária. O importante nem é escrever ou o domínio das técnicas, mas saber observar o mundo com intensidade, percebendo que tudo tem um significado e, se determos os sentidos por tempo suficiente, é possível extrair uma história de qualquer coisa.

Leon Tolstói

No jantar daquela noite, o encenador russo continuou passando vergonha. Na cabeceira da mesa, o anfitrião perguntou qual era a peça que seria representada em Toula, e Stanislavski esqueceu por completo o nome. Alguém avisou que era um trabalho de Ostrovski, que Tolstói confessou não conhecer, pedindo para que lhe contassem o enredo. De novo Stanislavski bloqueou diante do olhar quente do grande escritor, sendo incapaz de resumir o enredo da peça que seria encenada. Tolstói se divertiu bastante com as atrapalhações do convidado.

No meio do jantar, o maior autor russo pediu para que Stanislavski tirasse “O poder das trevas” da censura, encenando-a em Moscou. A solicitação foi recebida com tamanho entusiasmo que, ali mesmo, na sala de jantar, a trupe de Stanislavski distribuiu entre si os papéis da peça, fazendo um ensaio geral diante de Tolstói.

No calor do momento, os atores perceberam que o final do quarto ato interrompia a ação justo no seu ponto culminante e, aproveitando a presença de Leon Tolstói no recinto, pediram para que ele “corrigisse” aquele problema. Na mesma hora se calaram, percebendo a loucura do que estavam pedindo. Tolstói riu e respondeu:

– Bom… Expliquem-me por escrito como acham que devo fazer a ligação das cenas no quarto ato, que eu torno a escrever a peça de acordo com as suas indicações.

Ao perceber a perturbação que essa frase gerou no ambiente – quem eles pensavam que eram para corrigir justo Tolstói? – o escritor russo os tranquilizou:

– Acreditem, vocês me prestariam um grande favor. Vocês são especialistas.

Ainda assim, o desconforto continuou, e a peça – após ser liberada pela censura – foi encenada com o defeito no quarto ato. Muitos anos se passaram até o dia em que Constantino Stanislavski recebeu uma carta de Leon Tolstói pedindo uma reunião. Foi ao encontro do escritor na sua casa em Moscou. Para seu espanto, mal tinha entrado e Tolstói anunciou que assistira várias encenações de “O poder das trevas” e, sim, o quarto ato estava irremediavelmente errado. Ele precisava corrigir aquilo o quanto antes, pois o assunto era angustiante, e precisava da ajuda de Stanislavski.

Os dois estavam conversando, e deixarei Stanislavski assumir o controle da narrativa para compartilhar com o leitor a cena que se sucedeu:

Conversamos longamente. Encontrava-se por acaso na sala vizinha a mulher de Tolstói, Sofia Andreevna, que, como todos sabem, era ciumentíssima. Que estaria ela pensando daquele idiota, que se atrevia a criticar a peça e aconselhar o seu genial marido a modificá-la? Que desaforo! Que audácia inaudita! Tanto mais que ela não sabia o que se passara dantes, em Toula.

Não podendo mais conter-se, a senhora Tolstói precipita-se na saleta, dá-me um tapa e um valente empurrão. E ninguém sabe o que aconteceria se a filha do casal, Maria Lvovna, não entrasse e não procurasse acalmar a mãe. Quanto a Leon Tolstói, nem sequer se mexera, não saíra do seu lugar, nem dissera uma palavra em minha defesa. Limitara-se a puxar, o tempo todo, pela barba. Sofia Andreevna acabou indo embora. E ele, vendo-me ali de pé, envergonhado, sorriu amavelmente e disse-me:

– Não faça caso. Ela é mesmo muito nervosa.

Depois acrescentou, mudando de assunto:

– Vamos lá! Onde é mesmo que estávamos?”

Tolstói e Sofia

Esse pequeno drama familiar mascara o motivo pelo qual Leon Tolstói se tornou um dos maiores escritores que existiu no mundo: a capacidade de reconhecer que podia errar, e estar sempre disposto a aprender com quem entende mais. A reação de Sofia Andreevna foi um pouco extremada, mas, para o escritor, não importavam a mulher, o encenador, os conselhos pedidos, mas somente o fato de que a peça de teatro tinha um intolerável defeito que lhe comprometia por completo.

Existiu uma época em que pessoas de grande espírito como Tolstói andaram por esse mesmo chão que hoje tocamos. Pessoas dispostas a observar as virtudes e vícios do mundo e despi-lo com um olhar penetrante; pessoas dispostas a corrigirem seus erros a qualquer custo.

Que felicidade viver no mesmo mundo em que outrora Leon Tolstói esteve.

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Obras Inquietas: 27 – “Melancolia e mistério de uma rua” (1914), Giorgio de Chirico

No meu texto dessa semana no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon, eu falei sobre “Melancolia e Mistério de uma Rua” (1914), quadro repleto de mistérios pintado por Giorgio de Chirico. Uma obra que inquieta por nos colocar na desconfortável posição de testemunhas – voyeurs – de um crime que pode estar acontecendo ou existir somente na nossa imaginação, e não sei qual das duas alternativas é pior.

Boa leitura.

 

“Melancolia e Mistério de uma Rua” (1914), Giorgio de Chirico

 

Na placidez dos eventos mais calmos existe um universo furioso de átomos e de intenções que se esboroam e lutam entre si, ansiosos por se revelarem ao mundo. Essa é a história de um crime: se vai acontecer ou não é irrelevante, pois ele existe somente na nossa expectativa. Podemos ser os assassinos, ou a vítima, ou os salvadores, e ter tais possibilidades nos transforma em indesejados voyeurs da cena que não deveríamos – ou preferíamos – ver. A menina brinca na rua; a sua solidão mede-se através do som dos passos amortecidos pela areia, a sábia areia que sorve sangue humano desde que o início, a indiferente areia que esconde segredos, cadáveres, sonhos. A sua infância tem o sabor doce de um futuro que não conseguimos ver, mas pode ser glorioso ou medíocre, assim como são todas as inocências antes de se transformarem em flores ou em medos. A rua inteira dorme, mas a tensão se esconde nas reentrâncias das paredes, nos bocejos dos arcos, no céu impregnado de azul que ondula em meio às nuvens invisíveis. Longe do olhar sonolento da rua, a sombra espreita a alegria da menina, cobiçando a vida que se esgueira por entre as esquinas. Não existem coincidências, e a carreta com portas abertas também espera o momento em que será acionada. Somente o tempo sabe o que vai acontecer naquela anônima rua que reconhecemos como a paisagem incômoda de um pesadelo sem fim; a rua continua dormindo, enquanto a criança corre, a sombra se angustia de expectativa e a carreta espera ser acionada. Os melhores mistérios são aqueles que não serão nunca resolvidos, sobrevivendo no campo exíguo da imaginação, equilibrando-se no vazio. A menina gira a roda e corre em direção ao destino que nunca saberemos qual é, mas a sombra no horizonte sabe – e espera com a sabedoria daqueles que estão mortos antes mesmo de nascerem.

Texto originalmente publicado em https://artrianon.com/2017/04/09/obras-inquietas-27-melancolia-e-misterio-de-uma-rua-1914-giorgio-de-chirico/

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