Arquivo do mês: fevereiro 2012

O quadro imaginário

O restaurante Marzana, local onde almoço quando estou em Porto Alegre, possui particularidades interessantes. A iniciar pela prateleira repleta de livros no fundo do restaurante, um chamariz para quem gosta de literatura e de livros (mas que se revela uma grande decepção quando nos aproximamos, pois percebemos que são livros comprados em algum “saldo”, constituindo-se de obras técnicas ou repetidas, demonstrando que o critério para a sua aquisição foi meramente estético, o que é uma pena).

Outra curiosidade é o acúmulo de objetos dependurados nas paredes, assim como quadros feitos com reportagens de revistas antigas, propagandas recortadas de jornais do passado e uma série impressionante de pinturas e expressões de uma arte que considero típica de cafés europeus (quadros ostentando a logomarca de produtos há muito desaparecidos, figuras enigmáticas esculpidas em bronze, placas de ruas em castelhano, tudo remetendo a um tempo em que tomar café devia ser uma expressão cultural). Além disso, espalhados pelas paredes, existem dezenas de quadros e pinturas, dos mais variados tamanhos, e, até onde posso ver, sem nenhum tema específico.

Suspeito que existe uma mensagem cifrada interconectando todos os livros, todos os quadros, todos os objetos decorativos, todas as reportagens, mas igualmente tenho a sensação de que decifrar esta mensagem é chegar no conceito de anima mundi de Jung, ou olhar dentro do Aleph, ou ter uma experiência misto de psicodelia e esquizofrenia. Mais fácil acreditar que é uma junção casual de fatores decorativos do que imaginar a mente perversa que tentou transmitir uma mensagem por meio de objetos tão díspares.

Anima mundi, de acordo com Jung

Na semana passada, enquanto estava esperando para pagar, meus olhos acabaram vagando pelas paredes e encontraram um quadro. Ele estava atrás da coluna decorada com dezenas de lápis de cor colados, algo que chama atenção de todos. Era um quadro pequeno, singelo, esquecido no meio da profusão de outras obras ostentadas nas paredes. Eu diria até que ele estava em um ponto pouco privilegiado, pois ficava próximo da porta, ou seja, as pessoas olhariam o quadro sempre de forma fugaz, ou chegando ou saindo do restaurante.

No quadro, três homens com vestimentas antigas, que associei à Inglaterra vitoriana, estavam sentados ao redor de uma mesa, enquanto outro homem estava de pé. Eles pareciam estar negociando um acordo ou um contrato, pois um livro estava no canto da mesa, um papel entre eles e a caneta de bico de pena se exibia no centro do quadro, demonstrando que algo seria assinado. No extremo direito da pintura, um pedestal mostrava o busto de mármore de alguém que imaginei ser romano ou grego.

Algo no semblante do homem sentado na mesa me fez lembrar da representação clássica de William Shakespeare. Outro me recordou vagamente Miguel de Cervantes. Quando fiz este reconhecimento visual, estremeci. O que os meus olhos estavam vendo era a representação idílica de um fato que jamais ocorreu. Era costume que Shakespeare pegasse obras literárias e adaptasse para as suas peças. Assim aconteceu com “Romeu e Julieta”, que se baseou em antigas histórias tais como “A Trágica História de Romeu e Julieta” (1562), de Arthur Brooke, e “Palácio do Prazer” (1582), de William Painter, ou o próprio “Hamlet”, baseado em uma obra chamada “Uma Tragédia Espanhola” (1590), de Thomas Kyd, hoje mais conhecida como “Ur-Hamlet”. Existe uma evidência frequentemente citada nas biografias de que Shakespeare estivesse planejando ou até mesmo tivesse rascunhado uma peça baseada em “Dom Quixote”, de Cervantes. Seria o encontro de dois cânones literários.

Quando vi este quadro, pensei na genialidade do artista, que tinha colocado Shakespeare e Cervantes em uma mesa, discutindo os termos da adaptação da obra para o teatro cercados por outras duas pessoas (na minha imaginação, eu insistia em ver o Luiz de Camões, mas não podia ser até por uma incongruência temporal). Logo me acomodei com a ideia de que os outros dois participantes do quadro seriam editores ou agentes, ou até mesmo advogados. O busto continuou sendo um mistério, mas estava disposto a procurar nas vidas dos dois cânones uma referência comum na filosofia ou na literatura da Antiguidade para encaixar a imagem.

Durante uma semana, procurei em vão mais referências sobre este quadro. Tentei todas as variações possíveis de busca na internet, começando por “Shakespeare e Cervantes” e terminando em “writers reunion”. Vi dezenas de quadros, mas não encontrava aquele que eu buscava.

Continuei almoçando no Marzana, olhando o quadro em busca de qualquer detalhe da autoria. Era encantador saber que uma pintura tão única, um momento da vida de dois cânones literários pinçado da imaginação de um artista, mantinha um lugar tão longe da visão dos curiosos e dos clientes. Parecia um mistério a própria existência daquele quadro e confesso que, em alguns momentos, pensei que talvez aquele fosse a versão original e única, a qual, após uma vida transitando em antiquários e galerias de arte empoeiradas, acabou sendo adquirida por alguém para efeitos somente decorativos, desconhecendo o seu real valor. A moldura antiga do quadro ajudava a alimentar a minha fantasia.

Este é o Restaurante Marzana. Ignorem as pessoas da foto, pois não sei quem são. Atrás do rapaz, está a coluna formada por lápis de cor. Atrás do ombro dele, à direita, preso na parede, está o quadro. Destaco a habilidade do quadro de se esconder da máquina fotográfica e manter o mistério.

Na sexta passada, eu atingi a iluminação. Olhando com maior atenção o quadro, concluí que o homem que eu achava parecido com o Luiz de Camões, na verdade, era Dom Pedro I. Procurando imagens de Dom Pedro I, encontrei reproduções quase idênticas. Suspeito que a reunião constante no quadro era alguma reunião pós-Independência do Brasil. A magia do quadro inteiro se desfez diante dos meus olhos. Tudo aquilo que eu tinha pensado, inclusive a genialidade do artista que conseguiu captar um momento único não-existente na História da Literatura, também se desvaneceu. Fiquei triste pela descoberta, mas acredito que, para as dezenas de clientes do restaurante, eu devo ser o único que se decepcionou por ver que o quadro imaginário era muito melhor que a realidade.

Meu único consolo é que o quadro imaginado persiste dentro de minha cabeça. Posso vê-lo quando quiser. Nunca será objeto de mostra artística, nunca será admirado ou comentado por críticos. O pintor não existe, a moldura pode ser qualquer uma, o quadro é tão imaginário quanto o encontro narrado nele. Mas nem por isto ele deixa de existir.

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Livro: “A cruzada das crianças / Vidas Imaginárias”, de Marcel Schwob

Existem livros que, quando chegam ao final, deixam uma forte marca na memória. Não entendo muito de vinhos, mas existem livros que perduram por longo tempo na recordação do leitor, livros tão fortes que ultrapassam as suas barreiras físicas e se encravam no espírito alheio como se fossem ferro em brasa.

O livro inicia com o conto “A cruzada das crianças”,  genial mosaico literário feito por uma pluralidade de vozes entrecortadas, todas contando a história das crianças que saíram de casa na França e na Alemanha com a pretensão de retomarem Jerusalém. Nos tempos atuais, este expediente de contar a mesma história em diferentes perspectivas é quase um lugar comum. No entanto, acredito que, quando Schwob escreveu o conto, esta era uma estrutura ainda inovadora. Nem sempre tal técnica funciona. Nos tempos atuais, quando leio contos ou livros que utilizam esta forma de contar a história, parece forçado, mais um vôo de exibição de técnica literária do que uma submissão diante da história a ser contada. Não raro penso que a história ficaria bem melhor se tivesse sido utilizada outra estrutura. Por tal motivo, chamou a minha atenção que a única forma que Marcel Schwob tinha de contar a história da cruzada das crianças era através de uma estrutura multifacetada, pois nenhum dos lados possui razão e todos possuem justificativas para as suas atitudes. Por meio da utilização desta técnica, o escritor francês conseguiu descrever os prós e contras de cada um dos lados, sem juízos de valor, e deixar para o leitor decidir. Detalhe significativo é que boa parte da história do conto se constrói no espaço não-escrito, ou seja, nos interstícios entre uma narrativa e outra.

Não é à toa que já li este conto em várias antologias e coletâneas, pois é um exemplo de construção de personagens, de descrição de cenários, de exposição de angústias humanas. Os trechos dedicados aos dois papas são empolgantes: revelam toda a empáfia, o orgulho, a soberba dos homens que se achavam donos da fé enquanto as crianças marchavam. Os pedidos de intercessão divina sobre as crianças – e a própria construção de um memorial pós-morte – chegam a soar irônicos e dissonantes dos próprios xingões destinados a elas.

(Falando em pluralidade de vozes, só consigo pensar no Bakthin e no seu “Problemas da Poética de Dostoiévski”. Não sei se Marcel Schwob leu Dostoiévski, mas pegou muito bem o espírito, em especial as relações dialógicas e o conceito de romance polifônico).

Com relação ao “Vidas Imaginárias”, outra leitura de excelente qualidade. Borges sempre admitiu que ele foi a sua maior influência para escrever “História universal da infâmia”, mas, lendo a obra em que ele se baseou, posso ver que Marcelo Schwob foi ainda mais vibrante e direto nos seus propósitos do que Jorge Luis Borges. Desde o prefácio, em que o autor francês detecta os problemas recorrentes das biografias existentes até então, já se percebe a força dos seus argumentos, uma vez que ele ataca Plutarco e Suetônio, dizendo que a verdadeira biografia deveria se deter não somente naquilo que destaca os homens, mas sim nas manias e características pessoais que os diferenciam.

Tendo esta ideia como norte, Marcel Schwob traça biografias de personagens esquecidos pelos livros de História, mas que tiveram participação decisiva nos eventos mundiais. Assim, ele nos apresenta Empédocles, Deus presumido, homem com poderes divinos que, de certa forma, antecedeu o advento dos profetas bíblicos (e faz refletir sobre quantos profetas já existiram e cuja história não foi divulgada). Fala de Crates, um cínico, que abdicou de todas as posses materiais para viver nas ruas como um cão. Retira das brumas da história Clódia, matrona impudica, que utilizava o sexo como moeda de troca em todas as suas relações. Dá um final alternativo para Petrônio, romancista, autor do Satyricon, que deixou de morrer por ordem de Nero na versão de Schwob e passou a trafegar como um indigente pelas cidades romanas, vivendo novas possibilidades muito mais ricas do que as experimentadas na sua vida de nobreza. Apresenta Cecco Angiolieri, poeta rancoroso, que competia com Dante e passou uma vida inteira imersa em raiva contra outras pessoas, sem saber que a maior raiva que possuía era contra si próprio. Ressuscita dos mortos a história de Nicolas Loyseleur, juiz, o qual julgou Joanna D’Arc e manobrou-a de tal forma que causou a sua morte. Destaque especial para a história de Paolo Uccello, contemporâneo de Donatello, artista consumido pela arte, que desejava “transmudar todas as linhas num só aspecto ideal”.

Em todas as biografias, é possível reconhecer o traço humano de cada personagem deixado de lado pela História. A prosa de Marcel Schwob é agradável, constituindo-se de uma riqueza lexical única, em especial pela utilização das imagens, das paráfrases e das metonímias. É possível entender por que este livro foi tão admirado, pois a imaginação do autor francês para suprir as lacunas deixadas pelas narrativas históricas, associadas ao seu evidente conhecimento enciclopédico, tornam a leitura fluida e distante de qualquer ranço moralizante.

Não existe nada como ir até o passado para descobrir o novo. E Marcel Schwob vale inteiramente a descoberta.

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Outra possibilidade em “Um mundo de moscas”

Desde antes mesmo de lançar “O Homem Despedaçado”, as poucas pessoas que tinham lido o conto “Um mundo de moscas” me relatavam ter encontrado outras referências literárias às moscas como analogia do despedaçamento humano. Eu próprio achei algumas menções espalhadas por outros livros e em outras obras, inclusive pinturas e esculturas. Foi um pouco perturbador perceber que a minha ideia não era tão original e, ao mesmo tempo, foi espantoso constatar a quantidade de pessoas que, no decorrer das eras, teve a mesma obsessão por moscas.

Após lançar o livro, tais descobertas se multiplicaram. Outros leitores me informaram que tinham encontrado referências filosóficas e detalhes biográficos que confirmariam a teoria de Anton Lopez. Eu prometi que, com o tempo, iria colocar estas pesquisas e descobertas no blog.

Começarei por uma descoberta recente. Lendo o prólogo de “Vidas imaginárias”, de Marcel Schwob (logo será objeto de postagem neste blog), deparei-me com esta narrativa:

“Ele [o biógrafo John Aubrey] nada nos diz sobre a Oceana de James Harrington, mas conta que o autor ‘A.D. 1660 foi mandado como prisioneiro à Torre, onde o mantiveram, e em seguida a Portsey Castle. Sua estada nestas prisões (sendo ele um cavalheiro de espírito elevado e cabeça quente) foi a causa procatártica de seu delírio ou loucura, a qual não foi furiosa – já que conversava de modo bastante razoável e era uma companhia bem agradável; mas acometeu-o a fantasia de que seu suor se transformava em moscas, às vezes em abelhas, ad cetera sobrius; e mandou construir uma casinha versátil de madeira no jardim do sr. Hart (defronte ao St. James’s Park) para fazer a experiência. Voltava-a para o sol e sentava-se diante dela; depois mandava trazer suas caudas de raposa para espantar e massacrar todas as moscas e abelhas que nela se encontrassem; em seguida fechava os caixilhos. Ora, ele só realizava esta experiência na estação quente, de modo que algumas moscas se dissimulavam nas frestas e dobras dos drapejados. Ao cabo de um quarto de hora, talvez, o calor enxotava uma mosca, duas, ou mais para fora da toca. Ele então exclamava: ‘Não estão vendo que, claramente, elas saem de mim?'”

(SCHWOB, Marcel. A cruzada das crianças / Vidas imaginárias. São Paulo: Hedra, 2011, p. 52).

Neste trecho, Marcel Schwob trata de como as biografias podem ser enriquecidas quando mencionam os detalhes e manias do biografado (no entanto, ele critica John Aubrey justamente por se deter somente neste aspecto do biografado, esquecendo as suas realizações maiores). Interessante que ele tenha escolhido esta parte da vida de Harrington para destacar o estilo de Aubrey. Entre tantos outros exemplos, Schwob acabou escolhendo aquele que pareceu o mais estranho e díspare: a história de um homem que acreditava que moscas nasciam do seu corpo. No caso, o filósofo James Harrington, autor de Oceana, uma sociedade utópica criada para fortalecer a governança de Cromwell.

Não pude deixar de notar que a loucura de James Harrington se confunde com a de Anton Lopez. Ambos acreditavam que moscas saíam do seu corpo, e não pousavam sobre ele. O esforço que Aubrey faz para destacar a loucura do biografado, desde a sua gênese na prisão até a construção de uma casa para servir de palco para suas experimentações, situa Harrington como uma pessoa mentalmente desequilibrada. No entanto, um detalhe se destaca: “ele conversava de modo bastante razoável e era uma companhia bem agradável”. Não parece ser uma postura típica de alguém enlouquecido. A própria palavra “razoável” transmite desconforto, pois, quem possui razão, não pode estar louco, posto que loucura seria a falta de razoabilidade.

Eu imagino o horror de James Harrington, sentado dentro de um quente caixote de madeira, vendo as gotas de suor descendo pelo seu corpo nu. De repente, a delicada estrutura da gota de suor começa a adquirir diminutas pernas líquidas, uma cabecinha se forma, centenas de olhos microscópicos aparecem naquilo que era uma pequena, inocente gota, até ganhar asas e sair voando, um pedaço de Harrington prestes a voejar sobre as imundícies de Londres. Pior do que essa visão é saber que irá contar a história e as pessoas, incrédulas, encontrarão dezenas de explicações lógicas para o fato vivenciado, quando a verdade – ah, a verdade, esta palavra que todo mundo busca e ninguém quer encontrar! – será desacreditada.

Pobre Harrington: aposto que, nesta hora, ele se arrependeu amargamente de ter atingido notoriedade construindo uma utopia, ou seja, algo que não existe. Todas as suas experiências, por mais empíricas e verdadeiras que fossem, seriam para sempre vistas sob a lente opaca da descrença. Como acreditar em alguém que cria utopias? Como acreditar em alguém que vê moscas saindo do seu próprio corpo, ao invés de pousar sobre ele?

Uma das minhas únicas ressalvas a Charles Darwin é essa. Desde “A Origem das Espécies”, deixaram de existir os intrépidos pesquisadores que pensavam no impensável, utilizando o próprio corpo como seu experimento e fonte de pesquisa. Desde Darwin e suas teorias evolucionistas, o mundo ficou bem mais chato. Acho que nunca terei a invulgar chance de ver alguém se prendendo no meio do Parque Farroupilha e depois vindo a público defender que moscas nasceram do seu suor. Até os loucos possuem pruridos imaginativos ao pensar em uma loucura tão grande.

Ser louco, tudo bem. Mas, louco sem critério, nunca.

James Harrington, predecessor de Anton Lopez, pobre filósofo atormentado por moscas

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