Arquivo do mês: agosto 2015

Mães não podem sangrar

O plano era perfeito: hoje é dia do aniversário da minha mãe. Eu gostaria muito de encontrá-la e cumprimentá-la pessoalmente, mas precisava viajar cedo. Assim, planejei pedir uma carona até a rodoviária e, desta maneira, conseguiria cumprir com a minha intenção.

Era um plano perfeito, mas deu errado, muito errado. Por que eu esqueci a data. Tão logo entrei no carro, começamos a conversar sobre diversos assuntos, acho até que discutimos em alguns momentos, eu ri dos palavrões que a mãe fala no trânsito, discutimos o preço para se mandar fazer chaves e tratamos até do peso das escrivaninhas. Esqueci por completo. Quando estava na rodoviária, lembrei e imediatamente telefonei para me desculpar. Conversamos pelo telefone, mas não foi a mesma coisa.

Enquanto tomava café, pensei na extrema dificuldade que deve ser para uma mulher ser mãe de uma criatura, alguém que é, ao mesmo tempo, parte sua, parte de outro e, não bastando, uma pessoa completamente inédita. Um cadinho de sonhos, vontades e DNA. Em especial, pensei na dificuldade que devia ser para a dona Elizabeth Melo Czekster ser a mulher que o Destino e a biologia escolheram para se tornar a minha mãe. Não é uma tarefa fácil. Deve ser um exercício de paciência diário.

Quando criança, tinha certeza de que a minha mãe me abandonaria. Ela iria encontrar uma forma de se livrar do fardo que eu representava. Muitas vezes, quando ela buscar o carro ou me deixava sozinho em algum lugar, eu pensava: é hoje. É hoje que a minha mãe não volta. Cansou de me aguentar. Quer uma chance de ser feliz de novo, de recuperar a vida que tinha e que a minha presença lhe roubou. Durante vários anos, tive esta certeza oculta, a de que seria deixado para trás. O pior é que nem a culpava por isto; eu a entendia. Até que a paciência dela durara muito. A única alternativa lógica para o nó górdio chamado Gustavo era descartá-lo. Eu fazia simulações virtuais de como seria a minha vida agora que fora abandonado, e pensava que não conseguiria sobreviver sem a minha mãe, mas ela tinha o direito de ser feliz, e eu não a incomodaria pedindo para voltar. Teria hombridade o suficiente.

Contudo, a minha mãe sempre voltou. Aliás, até hoje ela volta. E nem suspeita o quão aliviado eu me sinto ao perceber que ainda não me abandonou, ainda não desistiu.

Não existe ser na Terra que brigue mais comigo do que a minha mãe. Nossas brigas e discussões se contam aos magotes. Por semana, desligamos o telefone um na cara do outro várias vezes. Nós mutuamente nos exasperamos, e somos muito bons nisto, naquele nível de ganhar medalha olímpica. Já chegamos ao ponto de brigarmos por não lembrar quem causara a briga anterior.  No entanto, nunca colocamos em dúvida o fato de nos amarmos, ainda que seja deste jeito abrupto. E eu sei que o mundo pode desmoronar por inteiro que a minha mãe estará ao meu lado – provavelmente me xingando e vendo se estou agasalhado. E isto não é um clichê.

A única pessoa no planeta que me ama de verdade é a minha mãe, e saber disto me enche de medo. Meu calcanhar de Aquiles tem aproximadamente 1,70m e anda por aí cometendo loucuras e andando em calçadas desparelhadas. Em tempos recentes, minha mãe passou mal diante dos meu olhos – uma grande quantidade de sangue jorrou do seu nariz, assim, do nada. Depois que a situação se estabilizou, mandei uma mensagem para ela: “mãe, nunca mais faça isto. Nunca mais sangre na minha frente. Eu não tenho estrutura para aguentar de novo. NÃO.” Devo dizer que, desde então, ela tem se comportado e mantido o sangue por dentro da pele. Mães não podem sangrar – simplesmente não é certo.

Como sempre acontece nesta data, perco um precioso tempo pensando no presente que poderia dar para a minha mãe, e não chego a uma resposta. É estarrecedor o quão pouco conheço de alguém tão importante. Não sei quais as musicas favoritas dela. Não sei quais são os seus livros prediletos. Não consigo recordar nem qual cor é mais abundante no seu guarda roupa. Não sei quanto calça, quanto mede e quanto pesa, só tenho suposições. Sei que ela gosta de chicletes, mas não posso dar uma caixa de Tridents de presente de aniversário. Não sei nem a idade que está completando (quando perguntam, afirmo que ela tem 40 anos, e logo viverei a esdrúxula situação de ser mais velho do que a minha própria mãe). 

Sempre digo que as pessoas precisam ser observadoras e criativas, e a minha mãe é a prova viva de que também fracasso: se no observei nada relevante nestes 38 anos, como posso dizer para os outros fazerem algo de que sou incapaz com alguém que está ao meu lado? A minha mãe, esta esfinge, até assim me ensina a ser humilde. Decifra-me ou te devoro, e ainda não decifrei nada. Mas a triste verdade é que não a considero um ser humano. Para mim, ela nunca foi. Minha mãe é uma força da Natureza. Simplesmente está ali. Alguém pergunta a cor da tempestade, o sabor do vento, a estrutura da chuva? Não presto atenção na minha mãe por que ela está em todos os lugares, em especial dentro de mim, e a minha consciência, moral e ética tem a voz dela. Minha mãe está em tudo que sou – inclusive neste texto.

Tenho uma política interna de escritura. Existem assuntos sobre os quais não escrevo, prefiro sentir a pureza dos meus pensamentos do que distorcê-los com palavras, e família é um deles. Nunca escrevi sobre a minha mãe e, se estou rompendo esta regra, não é por estar me sentindo culpado (hum, certo: PODE SER). Na verdade, escrevi o texto foi para falar sobre Michel de Montaigne. O filósofo francês era muito amigo de um intelectual chamado La Boétie: os dois passavam os dias juntos, conversavam como irmãos, dividiam sonhos e visões de mundo. Um dia, La Boétie adoeceu, no meio de um surto de praga. Montaigne o levou para seu castelo. Quando a morte se aproximou, o moribundo pediu para a família deixar o quarto e só que Montaigne ficasse. A morte do amigo devastou psiquicamente o filósofo, mas Montaigne resolveu publicar os seus “Ensaios” como uma forma de homenagem. Certa vez, perguntaram para ele o motivo de gostar tanto de La Boétie, e Montaigne respondeu: “por que ele era ele, e por que eu sou eu”, o que virou o mote de todo o Romantismo. Para mim, é uma das maiores de todas as declarações de amor: saber que não existe lógica alguma para tal sentimento, saber que ele simplesmente é por eu ser eu, mãe, e por tu seres tu, estes dois seres repletos de carinho e de raiva que não conseguem viver um sem o outro.

Feliz aniversário. Daqui a pouco te passo em idade.

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Diógenes e as pessoas que carregam privadas

Escrever é a arte de observar o mundo.

Sou uma pessoa que caminha muito. Alguns dizem que sou um flâneur na melhor tradição de Baudelaire, andando pelas cidades e me embebendo da alma oculta delas, mas me considero alguém que conceitua a vida como um esporte de contato – só é possível sentir correndo riscos e “colidindo” com os outros. Tentar entendê-los, mas sem perder a essência do pensamento particular. Em muitos momentos, devemos perdoar os outros, pois não sabem o que fazem. Em outros, admirar a glória um tanto patética do ser humano, como ajudar uma senhora idosa a atravessar a rua e, no meio do mesmo gesto nobre, xingar com um palavrão alguém que passou com a camisa de um partido político.

Não é ficando dentro de um carro ou tirando fotos de forma enlouquecida que as pessoas irão entender o mundo. O único jeito que eu conheço – e é uma maneira dolorosa, acreditem – é convivendo com os outros. Caminhando e observando. Intervindo. Sentindo-se a engrenagem de uma grande máquina que move tudo e todos, “a máquina do mundo” de Drummond, cujo poema recordo agora e tem muito a ver com a maneira com que vejo as coisas ao redor.

Há algum tempo que observo, em vários pontos da cidade, uma privada solitária junto a um poste ou perto de uma árvore. Percebi esta privada nos locais mais estranhos de Porto Alegre, desde as calçadas algo esnobes da Padre Chagas até a periferia sombria da vila Bom Jesus. A onipresença silenciosa e ostensiva deste objeto chamou minha atenção; é algo que quebra a monotonia da paisagem com um toque de fantástico.

A privada na Avenida Protásio Alves.

A privada na Avenida Protásio Alves.

 

Tal observação me levou a concluir que ou existe uma pessoa carregando uma privada por aí ou um grupo de carregadores anônimos de privadas planejando alguma intervenção. Qualquer uma das duas hipóteses é interessante e abre perspectivas novas sobre a realidade em que vivemos.

A visão desta privada fez-me recordar de Diógenes, o Cínico.

Nas ruas de Atenas, andava Diógenes, vestido com seus farrapos. Ele virou um mendigo, acreditando que somente a pobreza extrema revelaria alguma virtude de caráter. Mais do que tudo, Diógenes – inventor do cinismo como forma de pensamento – pregava uma vida natural, sem os confortos da civilização e sem instituições para regrar os seres humanos. A felicidade consistia em ser livre dos domínios civilizatórios e das instituições, assim como o ideal grego do auto-domínio e do controle das emoções. Ele acreditava que a virtude não devia ser abordada, mas praticada, e isto – na minha opinião – o coloca na frente de muitos filósofos antigos e até mesmo atuais.

Poderia falar muitas histórias sobre Diógenes, como o fato de ele acreditar que o ideal humano deveria ser observar os cachorros e se espelhar no exemplo deles (o filósofo tinha uma relação quase simbiótica com os cachorros, de onde inclusive acabou derivando o termo “cinismo”). Ou a anedota absolutamente maravilhosa do encontro dele com Alexandre, o Grande, um dos maiores generais de todos os tempos, e o pedido para que Alexandre parasse de fazer sombra ao sol com que se deliciava, “deixa-me ao meu sol!”.

No entanto, prefiro lembrar de que Diógenes andava por Atenas, inclusive durante o dia, carregando um lampião aceso. Quando lhe perguntavam o motivo, ele dizia estar procurando uma pessoa honesta.

"Diogenes", de Jules Bastien-Lepage (1873)

“Diogenes”, de Jules Bastien-Lepage (1873)

Não direi o óbvio, que um Duchamp chamaria a privada de arte e ganharia dinheiro com ela, mas prefiro pensar em Diógenes na sua busca eterna por um homem honesto, portando somente um lampião. Hoje alguém anda por aí carregando uma privada, e não sei se existe melhor metáfora da modernidade do que esta.

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O nascimento de uma biblioteca

Ano passado, durante evento realizado na Feira do Livro de Porto Alegre, em uma mesa que realizei com Alberto Manguel, perguntei-lhe qual o tamanho da sua biblioteca. Afinal, existiam divergências entre todas as fontes que consultei sobre a real quantidade de livros que ele, um amante feroz da leitura, possuía. Manguel riu e começou a resposta desconversando: afirmou que os homens geralmente são fixados com o tamanho das coisas, tamanho do carro, tamanho da casa, tamanho do poder e outros tipos de tamanho. Perguntou-me se tinha algum problema com o assunto e eu respondi que não, óbvio. Homens com 1,89m – como é o meu caso – não se preocupam tanto assim com o tamanho, pois a proporção é uma das regras da natureza.

Em seguida, Manguel respondeu com mais seriedade. O tamanho de uma biblioteca é irrelevante, o importante é o uso que se faz dos livros. Ter uma biblioteca enorme e não usufruí-la é algo completamente inútil. Elas existem para serem lidas e aproveitadas, não como fonte de acumulação. Encerrou a sua fala dizendo que, para ele, a biblioteca mais importante do mundo tinha somente 08 exemplares, e era a Biblioteca Infantil de Auschwitz, que foi muito utilizada como fonte de esperança e sonho pelas crianças enviadas para o campo de concentração. Foi uma resposta muito emocionante; se me recordo bem, a plateia aplaudiu.

Não tira o mérito da resposta de Manguel o fato dele ter uma biblioteca estimada entre 30 e 40 mil exemplares. O importante é a mensagem. A criança que faz uma estante com seus livros preferidos e chama de biblioteca tem tanto valor quanto a biblioteca de um teórico da literatura formada por milhares de exemplares. Competir por quantidade de livros ou de leituras – conforme vejo tantas pessoas fazendo por aí – é algo que demonstra o prazer humano pela quantificação, e mais nada. Afinal, nem sempre quantidade é garantia de qualidade.

Escrevo isto por que, nesta semana, doei alguns livros meus para a biblioteca ainda nascitura de um instituto de educação. Foi doloroso livrar-me de livros, era como se estivesse os traindo. Ainda sinto olhos queimantes a me acompanharem das prateleiras de casa quando passo por elas.

biblioteca ifrs sapiranga  2015

Assim nasce uma biblioteca. 🙂

Boa parte dos livros doados eram exemplares que eu possuía em duplicata. Saber tal fato não simplificou muito a minha tarefa. Por exemplo, “Moby Dick”, de Melville: lembro quando comprei o livro, lembro de cada um dos dias em que o li, e sempre associei a sua capa amarela/azul à caça da baleia branca. No entanto, ganhei um exemplar novo, atualizado, com ensaios críticos e até mesmo os mapas da caçada insana do Capitão Ahab. Não havia mais necessidade de ter a minha surrada “Moby Dick” original. Era hora dela sair das minhas prateleiras para, quem sabe, encantar outra pessoa.

O mesmo digo de “A metamorfose”, de Kafka. Recordo até a banca de jornais em que o comprei (fica até hoje na Rua da República), recordo o nome do vendedor (o Patrick), recordo que gastei uma parte significativa da minha mesada para adquiri-lo e recordo o sentimento esdrúxulo de triunfo ao voltar para casa carregando um clássico da literatura que era só meu. Recordo das noites mal dormidas tentando digerir um conteúdo acima da minha compreensão de mundo, e o esforço que foi ler algo que estava ali, diante dos meus olhos, mas escapava de ser entendido como as escamas douradas de uma carpa ondulando em meio ao lago.

Recordo da primeira vez em que saí com uma moça, ainda no colégio, depois da aula, e ela cometeu o erro de perguntar o que eu estava lendo. Recordo da minha tentativa de explicar “A metamorfose” durante duas longas horas e lembro muito bem a minha consternação ao vê-la me evitando o resto do ano letivo. Até hoje não sei se o livro teve algo a ver ou se foi a minha tentativa de resumi-lo que acabou o estragando, mas, assim como K., subitamente virei um inseto para ela.

Também doei os meus exemplares do Perry Rhodan. Quando criança, não tinha muito dinheiro para comprar livros, então aproveitava o que me dessem. Um vizinho idoso tinha uma enorme coleção de literatura pulp, constituída por livros de faroeste (tipo “Tex”), terror e ficção, todos livrinhos de bolso, e costumava me dar os exemplares que não gostava. Foi assim que li alguns livros do Perry Rhodan. Eram histórias muito malucas, da mais absoluta fantasia. Elas me ensinaram a ver outros mundos, outras possibilidades.

Em alguns momentos da minha vida literária, acho que, no dia em que algum computador decompor os Perry Rhodan em palavras e reordená-las, irá acabar encontrando meu livro inteiro dentro dele. No entanto, esta época da minha vida passou. Perry Rhodan hoje mora dentro da minha escrita. Foi digerido, assimilado e transformado em outro estilo. Relendo alguns exemplares, não tive mais a mesma sensação inicial, pois li material bem melhor e impactante depois. É hora de Perry Rhodan seguir para outro inóspito e excitante planeta, que são as prateleiras de outra pessoa.

Cada exemplar que doei tinha a sua própria história, algumas muito engraçadas, mas talvez nenhuma me seja mais dolorosa e implacável do que a do meu próprio livro, “O homem despedaçado”, que doei junto. Levei três anos para escrevê-lo e mais cinco para publicá-lo. Não me reconheço como seu autor, não lembro mais qual Gustavo prendi dentro das suas páginas. No entanto, recordo de muitas noites escrevendo, recordo como cada história surgiu, recordo como cada maldita linha se aprumou dentro do texto. Recordo das festas que perdi enquanto estava escrevendo, recordo das dores nos dedos (que então começavam), recordo de como foi o primeiro dia em que vi uma mosca despegar-se do cadáver de um cachorro e pensei na ordem inversa da situação, recordo de como ri enquanto escrevia sobre homens tridimensionais (e o meu espanto ao saber que o conto foi recebido não como ironia, mas como tragédia).

Recordo também dos fantasmas, das palavras e frases eliminadas, das conclusões fáceis removidas, das histórias abortadas. Não foi à toa que, no trecho IV do meu conto “Divertissements sobre a dilatação dos porcos”, faço uma homenagem justamente à “Moby Dick” – oh, meus amigos, não existem pontas soltas em mim, e muito menos coincidências – e menciono esta questão dos “fantasmas de histórias que habitam os livros”:

“As histórias não são escritas somente com palavras, elas também são feitas de intenções, sonhos e fragmentos que aderem à sua essência como pedaços de carne dura entre os dentes. Tal circunstância conduz à idéia de que todo livro é infinito, pois em cada palavra há o espectro de outra, ou uma idéia nova que deixou de ser aproveitada por motivos escusos, ou um corte feito pelo autor na sua revisão final.”

Livros não são formados por histórias, eles também possuem histórias ao redor. A minha biblioteca não é somente formada por histórias no formato de livros, mas existem histórias adejando ao redor de cada volume, por mais simples que seja. A pessoa que tocar qualquer exemplar poderá receber uma informação completa de como ele foi adquirido, de como ele foi lido ou de como eu acabei o mencionando ou trazendo alguma lição para a minha vida.

No entanto, às vezes, o passado precisa sair das prateleiras de nossas vidas para formar os presentes e futuros de outras pessoas. Por isto, a doação de livros é, mais do que tudo, um ato de esperança. A ideia de que um livro pode encontrar uma mente fértil onde irá frutificar e gerar novos frutos. A fé irrestrita de que não interessa o seu tamanho, mas a biblioteca de alguém precisa começar por algum lugar, e o começo e fim de todas elas é exatamente um simples livro.

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Percy Bysshe Shelley e a inevitável decadência

Dia 04 de agosto celebramos 223 anos que Percy Bysshe Shelley chegou ao mundo, e o mínimo que se pode dizer de um cara que foi casado com Mary Godwin Wollstonecraft (sim, Mary Shelley) e foi amigo de Lord Byron e de John Keats é que sabia escolher muito bem as suas companhias.

Diga-me com quem andas e te direi quem és, mas Shelley não tinha problema algum em escolher os seus amigos, o que comprova uma das minhas máximas: os grandes seres humanos procuram naturalmente a companhia dos seus pares. Não têm muito tempo a perder com gente mesquinha ou de pensamentos pequenos.

shelley
Adoro o “Em defesa da poesia”. Poucos ensaios podem ser mais poéticos do que este, em que Shelley fala da função social do poeta, de como o poeta também é um profeta dos seus tempos, de que existe uma ética em fazer poesia (sim, existe – ao contrário do que pensam por aí, poesia não é só um monte de palavrinhas bonitas em um papel). Shelley defende ardorosamente a ideia de que a poesia é essencial para a formação do caráter do homem, “que ela é mais filosófica e rigorosa do que a história”, e daria para ficarmos por dias debatendo o ensaio, estou fazendo um resumo lamentável do seu brilhantismo.
Neste ensaio ainda, Shelley fala uma frase singela que, de tão bonita, infelizmente virou lugar comum: “As almas encontram-se nos lábios dos enamorados.” Isto sim é ser poeta: ver a beleza do mundo em qualquer lugar, por menor que seja.

 

Outra definição dele é também importante: “A poesia tudo conduz para o belo: exalta a beleza do que é mais belo e acrescenta beleza à mais deformada das coisas; casa o júbilo e o horror, a pena e o prazer, o eterno e o mutável; submete à união, sob o seu brando jugo, todas as coisas irreconciliáveis. Transmuta tudo quanto toca.” Shelley pertencia à classe de poetas que buscava o Belo, recapturando o ideal grego de que o Belo conduz necessariamente ao Bom e ao Justo. Não é uma visão muito aceita pela pós-modernidade, mas, como ideal estético a ser buscado, não considero como algo tão absurdo assim.
Serei clichê e ficarei com o poema dos poemas, uma das obras máximas de Shelley (sou mais “O Triunfo da Vida” ou “Ode to the west wind”, mas tudo bem, seguirei a multidão), o incomparável “Ozymandias”, a noção de que todas as nossas obras e desesperos e alegrias e conquistas um dia desaparecerão, pois somos somente uma passagem melancólica e fugaz – com rastros de insuperável beleza – pelo planeta:

 

“Eu encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse:—Duas gigantescas pernas de pedra sem torso
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio afundada, jaz um rosto partido, cuja expressão
E lábios franzidos e escárnio de frieza no comando
Dizem que seu escultor bem aquelas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas partes sem vida,
A mão que os zombava e o coração que os alimentava.
E no pedestal estas palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”
Nada resta: junto à decadência
Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas
As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância.”

A decadência é algo inevitável. Achamo-nos tão grandes e indestrutíveis que esquecemos que muitos dos nossos antecessores pensavam o mesmo. Temos que colocar a nossa vida na perspectiva correta, e a leitura de “Ozymandias” é um lembrete amargo que ecoa muito uma poesia do Neruda, aquela em que ele afirma estarmos caminhando sobre bilhões de cadáveres de sonhos que outrora transitaram pelo nosso planeta.

A melhor maneira de degustar o poema é através da sua declamação, e a leitura do Bryan Cranston do original em inglês é simplesmente arrepiante:

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Texto novo no Literatortura (08/08/2015): “O estranho mistério de um sabonete Phebo”

Hoje é o Dia dos Pais, e para quê serviria homenagear o meu pai sem que ele escutasse o que eu tenho a dizer, depois que fosse tarde demais? Não, vai ter homenagem, sim, e será pública.

O texto seguinte, que está na coluna no Literatortura, foi de testar os nervos. Eu estava em Passo Fundo, palestrando sobre a Literatura Inglesa Escrita por Mulheres. Somente no retorno para Porto Alegre, dentro do ônibus, que consegui escrevê-lo, o iPad sobre o colo, o ônibus sacolejando, o corretor ortográfico mudando caprichosamente as minhas palavras, eu lembrando os pais da Literatura sem poder conferir nenhuma fonte (confiando só na memória), a internet surgindo e desaparecendo no meio da viagem de 4 horas e 20 minutos… mas o sacrifício compensou, pois alguns leitores vieram me confessar que o texto os emocionou e os fez lembrar dos pais, então valeu a pena tanto desconforto (pois escrever um texto dá uma descarga de adrenalina que, no meu caso, demora um bom tempo para passar).

Espero que gostem.

 

O estranho mistério de um sabonete Phebo

 

atlas

Quando era criança, um dos maiores mistérios da minha existência acontecia no Dia dos Pais. Todos os anos, eu e meus irmãos presenteávamos meu pai com um sabonete; de acordo com as especificações do gosto dele, ou algum antigo ritual, precisava ser o sabonete Phebo preto, com odor de rosas. Na manhã do Dia dos Pais, minha mãe distribuía os sabonetes e dizia que ele jamais desconfiaria. Ao entregarmos o pacote, meu pai, normalmente uma pessoa comedida nos seus arroubos emocionais, transtornava-se. Gritava que era o melhor presente que já tinha recebido na vida. Abraçava cada sabonete Phebo como se fosse a mais preciosa joia, acariciando a embalagem. Cheirava o papel, antecipando a sua abertura e soltando uivos de alegria. Arrancava promessas nossas de que nunca tocaríamos no seu sabonete Phebo, que somente ele poderia tomar banho com o seu presente, que era só dele e de ninguém mais. Tínhamos a absoluta certeza de que era o melhor presente de todos os tempos, e que nós – por intermédio do dinheiro da minha mãe – tínhamos atingido o objetivo de presentear de forma épica o meu pai.
Por muitos anos, achei que o sabonete Phebo fosse mágico.
Não são muitos os livros que tratam da relação de um pai com os filhos. Talvez seja reflexo da cultura machista que impede um homem de declarar seus sentimentos por outro, talvez seja fruto da criação familiar que nos diz que homens não se emocionam ou talvez seja descaso mesmo. No entanto, é necessário dois para dançar este tango, e um filho não existe sem os dois pais. Ao contrário da mãe, cuja relação com os filhos é fartamente explorada por todas as formas artísticas (onde estava José enquanto Maria retirava o corpo do filho da cruz?), paira um silêncio incômodo sobre os pais. Um silêncio altivo: nós, pais, não precisamos ser lembrados. Ainda mais realçado por aqueles clichês que tanto dissemos a título de consolo, “pai não é quem faz, é quem cria” ou “mãe é só uma, pai pode ser qualquer um”. O pai é um detalhe, e o silêncio quase completo da literatura nos lembra disto.

Mas exceções escapam. Em “Quase memória”, do Carlos Heitor Cony, um filho reconstrói a figura paterna através de uma mala extraviada no passado que chega às suas mãos. O pai surge por pedaços de histórias e de memórias; nunca completamente formado, é uma figura etérea com laivos de concretismo, não raro surgindo através da brutalidade (pois, se um pai aparece na obra, algum fato violento acontecerá. O pai é o contraponto brutal da delicadeza da mãe). Em “Pais e filhos”, do Turgueniev, o filho retorna para casa e a sua descrença com tudo colide com força contra o rochedo das convicções morais e políticas do seu pai. E como esquecer do poema lancinante de Drummond, “Viagem na Família”, em que ele conversa e grita com a sombra silenciosa e cansada do próprio pai enquanto caminham “no deserto de Itabira”, com a frase final das estrofes reverberando o nada, “porém ele nada dizia”? Também podemos lembrar de Atticus Finch, de “To kill a mockinbird”, de Harper Lee, um pai delicado, mas rigoroso, terno, mas implacável.

Os pais também aparecem em contextos tristes, como figuras nada edificantes ou imersos em sofrimentos. Em uma lembrança mais triste, recordamos de Jean-Joachim Goriot, de “O pai Goriot”, do Balzac, traído pelas duas filhas e reduzido à miséria, em um claro eco do “Rei Lear” de Shakespeare. Particularmente, lembro de dois pais esquecidos pelos filhos: o protagonista de “Antes do baile verde”, de Lygia Fagundes Telles, e o narrador de “A morte de Ivan Ilitch”, de Tolstoi, em que os pais moribundos viram obstáculos para as vidas dos próprios filhos, impedindo-os de aproveitarem da juventude. Nesta situação, pai bom é pai que não dá trabalho.
No entanto, para mim, a relação que melhor expressa a paternidade não está na literatura, mas nos quadrinhos. Em Super-Homem, Jor-el tem uma chance de salvar a si da destruição de Krypton, mas prefere dar oportunidade para o filho recém-nascido, Kal-el. No filme homônimo, uma gravação deixada pelo pai, interpretado por Marlon Brando, sintetiza a trajetória de vida de um ser humano: “o filho vira o pai e o pai vira o filho”. É o ciclo da vida: cuidamos e seremos cuidados. Os pais formam os filhos para o mundo: eis o verdadeiro conceito de paternidade, e é uma pena que nem todos pensam assim.
Estou na fase de virar o pai do meu pai. Muitas vezes o recrimino por sua ingenuidade e bondade, e vejo ele sorrindo. Digo para não ser uma boa pessoa, que o mundo é cruel com gente boa, e ele solta uma risada. Meu pai acredita na bondade alheia e que o mundo não é um local tão ruim. E sabe que eu penso como ele, apesar de recriminá-lo pelo contrário. Hoje tenho a felicidade de não ter um pai, mas conviver com o meu melhor amigo.
Levei anos para descobrir a verdade sobre o Dia dos Pais. Não tínhamos uma boa condição financeira para comprar presentes caros, pois meus pais trabalhavam dia e noite para custear os nossos estudos, sacrificando a própria felicidade para que eu e meus irmãos tivéssemos a melhor chance possível. Então, eles criaram esta mitologia ao redor do sabonete Phebo. Compravam o sabonete (um item pequeno e fora da nossa realidade cotidiana) e, para meu pai não mostrar nenhuma decepção aos filhos, ele fazia todo este teatro para nos enganar. Acreditem, o meu pai é um excelente ator, nunca desconfiei que estivesse mentindo. Quando recebia o sabonete, era como se tivéssemos lhe dado o maná dos céus.
Hoje, compramos ainda o sabonete Phebo e presenteamos o nosso pai. Virou uma tradição de família. É oportuno lembrar das épocas ruins, e de que elas passaram; é igualmente oportuno lembrar que meus pais criaram três pessoas boas. Não as melhores, mas não foi por falta de vontade deles, estamos ainda em construção. É bom rir e lembrar do passado, do que ficou para trás. Que a época de trevas passou e que eu e meus irmãos correspondemos à confiança louca, maluca, linda, que nos foi concedida desde o início das nossas vidas.
E sabem o pior? O meu pai ainda vibra muito quando recebe o sabonete Phebo, talvez mais agora do que no passado. Faz um verdadeiro escândalo. Grita e comemora. Diz que é o melhor presente de todos que já recebeu.
Talvez o sabonete Phebo seja realmente mágico.

 

(Texto original no link http://literatortura.com/2015/08/a-estranha-magia-de-um-sabonete-phebo/ )

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Em busca da alma: impressões rápidas sobre Joseph Conrad

Ontem, 03 de agosto, lembramos 91 anos da morte de Joseph Conrad e, por este motivo, fui dar uma folheada nos livros dele.

Recordei o meu fascínio quando li “O coração das trevas” pela primeira vez, contando a chegada de Marlow ao rio Congo, com a missão de trazer Kurtz de volta à civilização. Apesar de respeitar “Apocalypse Now”, do Coppola, penso que o livro é superior em muitos aspectos ao filme, em especial na ideia de que, como diria Aristóteles, um homem solitário ou vira um animal ou vira Deus e, no final, existe pouca diferença entre ambos.

Gosto muito de um trecho de “O coração das trevas”, quando Marlow encara Kurtz pela primeira vez e percebe, com certo pavor, que não existe mais um homem ali, mas uma alma tão distorcida que virou a mais ampla das insanidades, um parafuso que girou tanto no próprio eixo que perdeu a própria essência:

“Mas sua alma havia enlouquecido. Estava sozinha na selva, havia olhado para dentro de si e, por Deus, não tenho dúvida de que enlouquecera. Nenhuma eloquência poderia ter sido tão devastadora à nossa crença na humanidade como sua explosão final de sinceridade. Lutava contra ele próprio também. Presenciei isso tudo, vendo-o… ouvindo-o. Vi o mistério inconcebível de uma alma que não conhecia limite, nem fé, nem medo, embora lutasse cegamente contra si própria.”

 

Todos temos um Kurtz esperando no nosso local mais secreto, no centro do templo inominado que forma cada alma humana. É uma criatura descontrolada que, no fundo, tememos encontrar, pois ela nos parece o único ser lógico em um mundo despedaçado. Uma presença ancestral, sábia, cujo conhecimento remonta aos primórdios da raça humana e fala, com a sua língua bífida, a voz dos medos primitivos.

Evitamos falar ou pensar nisto, mas todos conseguem entender a ideia de que existe alguém que mora na nossa sombra – alguém que não gostaríamos de encontrar. Toda a existência dos homens é uma tentativa de fugir do encontro com esta criatura.

Encontrar o Kurtz que mora dentro de cada um de nós e fazê-lo aflorar é muito mais interessante do que passar a vida esperando Godot, que a ressaca dos olhos de Capitu enfim dissipe ou mesmo saber – como Hamlet – se somos ou não somos, mas daí é uma questão de visão de mundo – e de prioridades.

(Observem que não citei Moby Dick. Para mim, as pessoas passam a vida em um movimento pendular: para dentro, procuram o Kurtz que dá energias para a sua alma, buscam o auto-conhecimento; para fora, estão caçando a morte, essa baleia branca, desde que o primeiro ar entrou nos pulmões, em uma luta insensata na qual a vitória é impossível. Kurtz e Moby Dick – eis os dois polos por onde a experiência humana transita).

No entanto, meu livro favorito do Conrad é o “Lord Jim”. Toda a pessoa já esteve no mesmo dilema: salvar-se de forma indigna de um perigo ou “morrer” com honra. É um dos grandes temas da Literatura – Heitor na “Ilíada” de Homero, I-Juca Pirama, do Gonçalves Dias, o Dahlmann de “O sul”, do Borges. Viver desonrado ou correr o risco de morrer com honra, é uma dúvida que só saberemos responder quando chegar a hora – que é impiedosa. A decisão precisa ser tomada em milésimos de segundos e, depois de tomada, teremos uma vida inteira para conviver com ela. Só sabemos se somos o herói ou o covarde depois que o momento passou. Eu sou capaz de lembrar alguns momentos da minha vida em que estive diante de tal dilema, e posso afirmar, com humildade, que ainda não sei o que sou.

Relendo trechos de Conrad, notei algo: ele devia ser um grande contador de histórias. Daqueles que dizia “pega uma bebida e senta aí que vou contar!”, entregando-se à volúpia de narrar uma longa e tortuosa trama, repleta de detalhes. E é disto que a literatura – e a vida – é feita, no final do dia: de HISTÓRIAS. Estamos sempre criando, vivendo ou contando histórias, e alguns poucos, como Conrad, são mestres nesta arte de nos envolver em outros mundos, deixando-nos mais próximos das questões que tanto tememos.

Joseph Conrad

Joseph Conrad

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Uma agradável noite escrevendo na residência dos Brontë

Parênteses necessário: no final de semana passado, recebi três e-mails de seguidores do blog reclamando que só me seguem aqui e eu não coloco os textos produzidos no Facebook neste espaço. Vocês têm razão. Isto ocorre provavelmente por desconsiderar o Facebook como meio válido de publicação de textos e de ideias. Sempre pensei o FB um pouco como fast food, algo para ser rapidamente consumido e, em seguida, esquecido. Começarei a colocar os textos aqui também, mas, como a mídia é diferente, o texto será um pouco diferenciado – com óbvias vantagens para os seguidores do blog, que lerão versões mais amplas e ligeiramente  mais elaboradas, pois, quando escrevo no FB, em geral faço pelo celular, na rua, sem muita revisão e sem muita extensão.

 

Uma agradável noite escrevendo

 

Imaginem: uma mesa simples, de madeira, iluminada por velas. As chamas dançam nas paredes ligeiramente umedecidas. É noite, e mesmo a Lua se recusou a sair de trás do conforto das nuvens. Lá fora, o som do vento passeia pelos campos gelados, levantando uma neblina tão dolorosa que a relva parece se dissolver em espasmos de dor silenciosa. Na casa, a lareira crepita, convidativa, ameaçadora.

Ao redor da mesa, três mulheres escrevem. Estão em silêncio, e só conseguimos ouvir o som das penas sobre o papel, alternando-se com os soluçares da lareira. De vez em quando trocam ideias: ou é uma palavra que escapa da memória ou é uma situação em que não é possível ver o desenlace (às vezes, os personagens entram em enrascadas que deixam os autores tão perdidos quanto eles). Talvez alguma pergunte para as outras como se definiria em palavras o bigode de um determinado cavalariço, talvez outra tenha dúvidas se seria crível prender uma mulher louca dentro de uma casa.

Elas provavelmente tomavam chá e, com certeza, deveriam trocar espirros ocasionais, em uma antecipação daquilo que seria o seu fim. Eram mulheres tímidas, não muito acostumadas com os ritos sociais; só deviam se sentir bem entre si, entre irmãs, enquanto mundos fantásticos saíam das mãos ligeiras.

(Pergunto-me se alguma não brincou que elas seriam a representação perfeita das Três Moiras, mas é possível que a mais sombria das três respondesse que estavam mais para as Erínias, o que estragaria o chá – e os escritos).

Assim devia ser uma agradável noite na casa dos Brontë, com Charlotte, Emily e Anne escrevendo enquanto o mundo se contorcia ao redor da sala.

Sala principal da residência das Irmãs Brontë

Sala principal da residência das Irmãs Brontë

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