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Obras Inquietas – 47. “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Em virtude de ter passado duas semanas viajando e palestrando por aí, atrasei as colunas do “Obras Inquietas”, motivo pelo o qual me puxaram as orelhas em mensagens.

No meu retorno, tratei de “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714) do pintor holandês Jan van Neck. Poderia ter escolhido outras versões da mesma ideia, inclusive mais famosas, como a de Rembrandt: existiu uma época na História da Arte em que era frequente pintores retratarem aulas de anatomia, o que por si só daria um longo texto. Optei por essa de van Neck por que, entre elas, é a que mais recordo, talvez pelo fato de ser a autópsia de um recém-nascido, talvez pelo detalhe destoante da criança assombrada que segura um esqueleto no canto da imagem. Existe algo de perturbador na calmaria aparente dessa pintura e, se não sou capaz de detectar, o quadro merece estar elencado nessa minha lista de perturbações.

Boa leitura.

“A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Um corpo não passa de um aglomerado de órgãos, músculos e sangue impulsionados por um espírito. Por favor, esqueçam o horror enquanto presenciam a curiosidade quase sádica dos homens ao redor da mesa, para quem o cadáver da criança é um mero objeto de estudo, e nada mais. Eles não pensam na vida que animava esse corpo ainda fresco até alguns minutos atrás, não pensam no ronco de esperança que brotou dos pulmões e, em seguida, desapareceu, não pensam no aspecto lívido da pele que esperávamos rosada, macia, tenra, e agora tem o tom marmóreo da ausência, não pensam no choro da mãe ou nos soluços do pai a ecoar pelo corredor vazio. A ciência não pode se dar ao luxo de ter piedade. Ignoram o olhar espantado do menino que segura o esqueleto do bebê; ele não consegue entender que sentimentos atrapalham o progresso e que os homens reunidos naquela sala, que dissecam o cadáver como se estivessem olhando uma borboleta morta, fazem aquilo pelo bem de todos. Somente quem se afasta da Humanidade é capaz de desvendar o humano. Mesmo assim, por maior o nosso desejo de frieza, impossível não olhar o cadáver diminuto estendido sobre a mesa e pensar em tudo aquilo que ele deixou de viver, em todas as sensações que não teve tempo de sentir, em todos os sorvetes que não comerá, em todos os sorrisos que não dará, em todos os beijos que lhe serão negados, enquanto a curiosa pinça esgravateia o corpo sem defesas e a placenta jaz sobre a mesa, morta. Pior do que morrer é nem ter a chance de ter vivido.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/22/obras-inquietas-47-a-licao-de-anatomia-do-dr-frederik-ruysch-1714-jan-van-neck/

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Obras Inquietas – 45. “Cão atacando gansos” (1769), Jean-Baptiste Huet

Quem acompanha minhas colunas sabe que gosto de quadros que narram cenas de alta tensão e que estão concentradas em um momento no qual o terror e a beleza confluem como uma pororoca, e esse é o caso da pintura que tratei no “Obras Inquietas”. Em “Cão atacando gansos” (1769), de Jean-Baptiste Huet, a cena revela uma luta feroz pela vida, em que um lado está fragilizado por causa do amor e o outro se sente poderoso pela imposição física – algo que vemos muito por aí.

Boa leitura.

“Cão atacando gansos” (1769), Jean-Baptiste Huet

É no silêncio do anônimo desfiladeiro que se travará a luta decisiva. De um lado, o cão imerso em ferocidade mal esconde a raiva com que contempla as suas futuras vítimas, os dentes salivando de antecipação; do outro, o casal de gansos antepõe seus corpos diante do inimigo, protegendo a ninhada ainda indefesa de filhotes. Sob a pata do cão, os gritos agônicos de um ganso demonstram que esse é um cadáver que ainda respira por uma mera questão de tempo. Os gansos sabem que não possuem chance alguma, mas precisam lutar a batalha impossível e o farão com dignidade. Não existe a possibilidade de virar as costas e fugir, não podem abandonar os filhotes à própria sorte (apesar desse pensamento incômodo às vezes surgir como uma sombra no meio dos olhos injetados de pavor). Eles agitam as asas e grasnam com tons ameaçadores, rezando para assustar o cão, mas o inimigo traz consigo o hálito sombrio da morte, e sustenta a posição, premido pela fome que o faz investir contra a família de animais. A morte nunca é algo pessoal, mas necessário: hoje são os gansos, amanhã quem sabe se não será o cão quem restará acuado? A angústia da cena é palpável, assim como a impressão de que somos os gansos encarando a inexorabilidade do assassino que enfim colocará um termo à nossa vida, e tudo o que podemos fazer é rezar para que o inimigo mostre piedade, só um pouco, e que seja rápido e indolor com nossos entes queridos. Ave caesar imperatori, morituri te salutant, e assim os gansos lutam não para vencer, mas para que seus filhotes possam sobreviver mais alguns minutos em meio a esse mundo impregnado de crueldades e certezas.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/24/obras-inquietas-45-cao-atacando-gansos-1769-jean-baptiste-huet/

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Obras Inquietas – 43. “Mulher chorando” (1947), Cândido Portinari

Nessa semana, na minha coluna no Artrianon, eu falei sobre uma obra pouco comentada de Cândido Portinari, “Mulher chorando” (1947). A postura pasma e um tanto bovina da desconhecida revela uma mulher acostumada a sofrer e que, ainda assim, deixou a dor assumir o controle dos seus atos. Temos mais dúvidas do que certezas, mas todos nos identificamos de alguma forma com essa mulher e seu choro dolorido.

Boa leitura.

“Mulher chorando” (1947), Cândido Portinari

No silêncio da imagem, um olho mal consegue esconder o espanto, a incredulidade, a dor. As mãos desajeitadas, disformes depois de tantos anos de maus-tratos e de serem usadas até os limites das suas forças, amparam o rosto como se nunca tivessem tocado a pele que envelhece mais rápido do que o tempo. Ela não é uma mulher acostumada a acariciar e, no gesto paralisado, existe algo de mecânico, de desconforto. Do olho fechado, o silêncio dolorido cede diante do peso da sua existência e brota na forma de uma lágrima impregnada de desespero. Ela não é bonita, e sequer sabe se vestir com a elegância irreal que a sociedade exige. A mulher não se preocupa com ser, e sim com o que é, e, nesse momento, ela está preenchida pela dor, que se espalha no mundo através do olho ainda cheio de surpresa, pelo outro semicerrado que permitiu a fuga da lágrima traiçoeira. Ninguém sabe o motivo pelo qual a mulher ali jaz em silenciosa contemplação. Ninguém conhece o seu nome, ou qual o peso que angustia a sua consciência. Ainda assim, reconhecemos nela o incômodo reflexo das vezes em que choramos sozinhos no escuro, das ocasiões em que nos sentimos sufocar no meio do cotidiano, dos momentos em que perdemos o controle. Não perguntes por quem a mulher chora, pois ela pranteia todos nós.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/04/obras-inquietas-43-mulher-chorando-1947-candido-portinari/

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Obras Inquietas – 42. “O boxeador de Quirinal” (330-50 a. C.), Anônimo

Na minha coluna dessa semana no Artrianon, eu tratei da escultura “O boxeador de Quirinal”, feita por um artista cujo nome se perdeu no tempo, estimativamente concluída entre os anos de 330 e 50 a. C., ou seja, existem fundadas dúvidas sobre a sua idade. Acredita-se que ela mostre o famoso boxeador Theogenes, campeão absoluto de boxe na Grécia por muitos anos.

Ainda que muitas pessoas considerem a postura do boxeador como se ele estivesse repousando – inclusive intitulam a estátua como “O boxeador em descanso” -, eu percebo, pelo olhar meio agoniado que ele dirige a um interlocutor invisível, a pergunta que todos temem ter que responder: chegou a hora das derrotas se tornarem mais frequentes do que as vitórias? Passei do meu apogeu?

Enfim, são reflexões. Quem estiver disposto, sugiro ler esse texto com a bela música “The Boxer” do Simon e Garfunkel como fundo sonoro.

Boa leitura!

“O boxeador de Quirinal” (330-50 a.C.), Anônimo

 

Sentado, o boxeador não tem somente o peso da idade a prostrar a sua coluna, mas também a sombra de algo desconhecido que desce sobre seu corpo e lhe preenche de medo, algo que se mistura ao gosto amargo do sangue e à bile que tenta escalar a sua garganta. É a derrota que experimentou pela primeira vez e, agora, crava dentes ansiosos no seu espírito até então confiante e invencível. Então, é assim que os fracassados se sentem: cercados por rostos indiferentes, por risadinhas desconfortáveis, pela pena. Ele ainda está atordoado; não imaginava que o adversário fosse tão rápido, que seus golpes fossem tão potentes, que a sua resistência fosse tão fácil de ser batida. Os dedos cobertos de cortes e machucados ainda recendem a uma mistura enjoada de sândalo e de esperança; no rosto, cicatrizes espreitam os olhos impregnados de abismo e de angústia. A batalha está cada vez mais se afastando no passado, mas ele sente os grãos da areia do ringue ainda queimarem no seu rosto onde o sangue crava marcas ciumentas por entre riscos, feridas, hematomas. Perdeu alguns dentes, seu nariz está quebrado, os dedos fraturados, mas o pior é o espírito que, jogado sobre a pedra, sabe que aquela é só a primeira de uma sequência de derrotas. Agora que ele tombou diante da arrogância dos jovens, a tendência é cair cada vez mais, até se transformar em uma sombra do lutador inexpugnável de outrora, um andrajo que se arrasta por ringues cada vez mais fedidos e menores. A primeira derrota queima na sua memória, mas nada é pior do que a vergonha de descobrir que, afinal de contas, Theogenes, o boxeador, é só mais um humano prestes a ser engolido pela Velhice e pelo Medo.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/08/27/obras-inquietas-42-o-boxeador-de-quirinal-330-50-a-c-anonimo/

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O sonho do arco-íris e o persistente cheiro de sangue humano

Às vezes perguntam-me o segredo de escrever bem – como se existisse algum segredo nisso, e como se escrever fosse algo mensurável – e eu respondo com o sábio conselho da minha orientadora de Mestrado e professora Léa Masina: ler e decorar um poema em jejum, assim que acordar.

Por alguns anos consegui fazer essa “dieta” com moderado sucesso, mas, nos últimos tempos, percebo que os poemas outrora decorados estão sumindo. Um lado meu lastima que as leituras posteriores estejam apagando os poemas memorizados com tamanho afinco, mas outro lado exulta, pois não quer dizer que os poemas estejam sumindo, mas que estão se mesclando ao meu estilo. Não são poucas as ocasiões em que escrevo frases e sinto fantasmas de palavras que não são minhas, mas de Drummond, de Camões, de Shakespeare, de Petrarca. Estão todos dentro do texto, meus antigos amigos.

Eles surgem nas horas mais inesperadas, e abrem passagem aos trambolhões. Percebi um fenômeno muito interessante: a persistência das imagens poéticas. Assim como o marisco que gruda no rochedo e luta contra a onda, as imagens poéticas marcantes continuam vivas dentro da minha memória, revolvendo-se e surgindo quando o “gatilho” é acionado. Esses dias alguém me comentou “Raimundo”, e eu respondi automaticamente com o verso de Drummond, “mundo mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”. Outra pessoa comentou que seu filho escrevia ótimos poemas mas nunca mostrou para ninguém, e eu mencionei o “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, “o mundo é para quem nasce para o conquistar, mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, ainda que não more nela”. Uma escritora falou da sua dificuldade de escrever poemas e eu sugeri, sem pensar, “Penetra surdamente no mundo das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário”, e só depois notei que estava citando Drummond e a “Procura da poesia”.

As imagens poéticas não seguem a métrica original, como se pode ver por esses exemplos. Estão sintetizadas, cortadas, reduzidas àquilo que mais me impactou, em uma forma selvagem que lembra não somente os autores originais mas também as minhas reflexões sobre o assunto – e a de outros escritores. Quando deixada sem controle, a memória é mais feroz do que um tigre acuado.

Ao contrário de alguns colegas, que forçam a recordação para que ela traga à tona os poemas escondidos debaixo da sua camada de gelo, eu me resignei. Deixo a memória solta para fazer a associação que bem entender, e não me esforço em lembrar o desinteressante, mas prefiro destacar aquilo que me marcou. As imagens poéticas estão por todos os lados a me atormentar, podendo surgir quando menos se espera.

Não faz muito tempo assisti a um documentário, “The truth is in the stars”, uma série de entrevistas que William Shatner – o eterno Capitão Kirk da Enterprise – fez com uma série de físicos e artistas para ver o quanto Star Trek influenciou as suas vidas, indo de Ben Stiller até Stephen Hawking. Entre as entrevistas, ele passeou por Cambridge, a faculdade que, desde o seu surgimento em 1208, viu passarem pelos seus pátios Isaac Newton, Charles Darwin e o próprio Stephen Hawking.

Enquanto estava lá, Shatner contou a história do chinês Xu Zhi Mo que, em 1928, estudando em Cambridge, escreveu um poema que se tornou muito famoso na China, mesclando a visão oriental de mundo com as formas poéticas ocidentais. Ele costumava sentar em um banco debaixo de uma árvore, na frente do lago que corta a Universidade, e escreveu o poema “On Leaving Cambridge” desse ponto de vista.

On Leaving Cambridge

Softly I am leaving,
Just as softly as I came;
I softly wave goodbye
To the clouds in the western sky.

The golden willows by the riverside
Are young brides in the setting sun;
Their glittering reflections on the shimmering river
Keep undulating in my heart.

The green tape grass rooted in the soft mud
Sways leisurely in the water;
I am willing to be such a waterweed
In the gentle flow of the River Cam.

That pool in the shade of elm trees
Holds not clear spring water, but a rainbow
Crumpled in the midst of duckweeds,
Where rainbow-like dreams settle.

To seek a dream? Go punting with a long pole,
Upstream to where green grass is greener,
With the punt laden with starlight,
And sing out loud in its radiance.

Yet now I cannot sing out loud,
Peace is my farewell music;
Even crickets are now silent for me,
For Cambridge this evening is silent.

Quietly I am leaving,
Just as quietly as I came;
Gently waving my sleeve,
I am not taking away a single cloud.

Tão famoso ficou esse poema que o governo chinês mandou encravá-lo em uma rocha, a qual foi colocada em Cambridge, próxima ao banco onde Xu Zhi Mo se sentou e teve a sua inspiração. Hoje é um ponto famoso de visita, e é muito legal ver quando algo sai da literatura e invade a realidade.

“On Leaving Cambridge”, de Xu Zhi Mo

Desde o momento em que soube essa história e li o poema, encantei-me por uma imagem: a água que está debaixo da sombra dos olmos que se projetam sobre o rio e contém, no seu interior, os sonhos do arco-íris. Tão poderosa essa construção que não consegui mais olhar as cenas filmadas em Cambridge sem imaginar como seriam os sonhos do arco-íris escondidos pelos multifacetados cristas de água que ondulam, sábios, na corrente tão enganadoramente pacífica.

Coincidência ou não, na mesma época em que assisti a esse documentário, estava lendo “Conversas com Francis Bacon”, escrito por Franck Maubert, reunindo algumas das conversas mantidas pelo jornalista com o pintor sobre arte, sobre literatura e sobre o mundo. Admiro muito a carnalidade quase obscena das obras de Francis Bacon – é o tipo de quadro que não entendo o motivo pelo qual me fascina, mas não consigo afastar os olhos. Uma explicação possível, quase indiferente, é dada pelo próprio artista: ele tenta pintar a carne fora do corpo que lhe confina, ou seja, a carne é algo que se despeja para fora do limite corporal. Essa ideia é absolutamente fascinante: quem nos garante que o corpo não é uma prisão, e a carne seria algo ansioso para explodir e se libertar da sua materialidade constrangedora?

Irritei-me um pouco com a tentativa explícita de Maubert de ver as influências da fotografia, do cinema e de outros pintores sobre o trabalho de Francis Bacon, quando o artista afirma diversas vezes que a sua fonte maior de inspiração eram as imagens presentes nos poemas de Shakespeare, de Racine, de Dante, de Yeats, de T. S. Eliot. Por que é tão difícil acreditar que a literatura pode ser fonte de criação para outras formas de expressão artística? O fato dela não possuir imagens não quer dizer que somente imagens podem inspirar outras.

“Estudo para um retrato” (1952), Francis Bacon

Nas ocasiões em que citou a literatura como meio de inspiração, o pintor menciona a inquietação que alguns textos geravam na calma do seu espírito, tão forte que a única maneira encontrada para expiar o sentimento era através da pintura. Da mesma forma que acontece comigo, Francis Bacon não lembrava os poemas completos, mas as imagens poéticas evocadas pela memória, tão poderosas que tinham sobrevivido à erosão da memória e do tempo, e assim citou de cabeça versos de Yeats e de Eliot.

Foi numa dessas recordações que Francis Bacon mencionou um verso de Ésquilo nas “Eumênides”, algo tão impactante que cravara os dentes na sua personalidade e acabara se transformando quase em um credo pessoal. O verso era “O cheiro do sangue humano não desgruda seus olhos de mim”.

No entanto, esse verso não existe. Como o jornalista fez questão de destacar em uma nota de rodapé, apesar de ter sido citada pelo pintor por inúmeras vezes dessa maneira, o verso constante na obra de Ésquilo era “O cheiro do sangue humano me sorri”. Mauteck levanta a hipótese de que Bacon tenha se apossado desse verso das “Eumênides”, deixando de ser do dramaturgo grego e passando a ser propriedade sua. Era uma criação nova, cheia de vida e de ferocidade, engendrada por uma memória que não só recordava, mas era igualmente uma força inventora dotada de mecanismos próprios.

Foi algo que acabou me trazendo um consolo: não esqueci aquilo que levei tantos anos para saber, mas estou digerindo os poemas de muitos autores inesquecíveis e, no meio dessa confusão, existem estrelas – imagens poéticas – que reluzem com raiva indômita, aparecendo nos momentos mais inesperados. Tantas pessoas reclamam da falta de memória, mas eu acredito que a minha, em um processo de sobrevivência, está se canibalizando. A memória escolhe os temas e eu dou gume, alada rima, fazendo deles flechas exímias que, após lançadas, voarão certeiras até que a presa, nosso inimigo, se lamente. Nada como acabar um texto invocando a sombra de Aleksandr Pushkin – ou a minha, já não sei mais quem está falando aqui dentro.

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Obras Inquietas – 36. “As tentações de Santo Antônio” (1646), Salvator Rosa

Quem me conhece sabe bem da minha admiração pelas inúmeras versões de “As tentações de Santo Antônio” que foram pintadas no decorrer da História da Arte. É um tema que fascinou – ou, melhor dizendo, inquietou – vários artistas, e é algo bem legal de ver o quanto o mesmo assunto recebeu visões diferentes, algumas mais sombrias, outra mais leves.

Para minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, optei por essa versão da história pintada pelo Salvator Rosa, um artista conhecido pelas suas pinceladas distorcidas, quase góticas. E aproveitei para falar sobre as sombras que habitam nosso quarto e roubam nosso sono à noite. Vocês sabem do que estou falando. Eu sei que sabem.

Boa leitura.

“As tentações de Santo Antônio” (1646), de Salvator Rosa

Toda vez que você repousa a cabeça em um travesseiro, eles se alvoroçam na escuridão. Estão sempre lá, à espreita, vigiando o seu sono e a sua sanidade, ansiosos para cravar os dentes na paz de espírito. Ninguém sabe os nomes dos demônios que dormitam nas trevas à espera do momento em que você finalmente vai relaxar. Alguns os chamam de preocupações, outros de medos, e ainda tem aqueles que os chamam de vida. São eles que impedem o seu sono à noite e, quando você dorme, são quem aguilhoam a sua memória e trazem à tona os piores pesadelos. No abismo ainda insondável das regiões oníricas, as tentações, com línguas bífidas e cicios impregnados de ilusões, esperam o momento de surgirem na sua mente e deixarem atrás de si o espectro das palavras não ditas, as dores dos sentimentos sufocados, as angústias dos gestos que jamais fizemos. Não adianta rezar; seu deus não servirá de nada quando a tentação vier sugar a sua tranquilidade e tirar o seu sono. Você lutará toda a noite contra os próprios pensamentos e dúvidas, sempre inseguro, sempre com medo, enquanto os demônios chicoteiam em silêncio tudo aquilo que você gostaria de esquecer, expondo as chagas que você julgava estarem cicatrizadas e estavam à flor da pele. Viver é nunca ter paz: após um dia inteiro enfrentando a realidade, as noites são longas batalhas contra os próprios pensamentos. Tendo somente a sua alma como companheira fiel contra os demônios invisíveis que infestam o quarto, você espera que a noite termine, mesmo sabendo que ela nunca desistirá de lhe enlouquecer com as culpas que moram nos cantos da memória, nos desvãos da existência.

Texto publicado originalmente no link https://artrianon.com/2017/06/25/obras-inquietas-36-as-tentacoes-de-santo-antonio-1646-de-salvator-rosa/

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O Poema sem Fim de Utrecht

Isso é muito lindo. No exato momento em que estou escrevendo essas palavras – e você está lendo -, um poema sem fim está sendo escrito com palavras e pedras na cidade holandesa de Utreicht.

Os responsáveis pelo poema são os integrantes da Guilda de Poetas de Utreicht. Cabe a eles escolherem a palavra que será escrita em pedra. O funcionamento é simples e, depois de cinco anos, transformou-se em um ritual. Todo sábado, o dono de uma pedreira local transporta uma pedra até a beira do canal local e a deixa ali, até o poeta surgir com seu formão e inscrever a letra. Em seguida, a pedra é arrastada até o fosso em que as suas irmãs se encontram, juntando-se a elas em uma linha sucessiva que forma palavras, que se juntam em versos, que virarão uma poesia que ninguém sabe como ou quando terminará – se é que terminará algum dia.

O projeto – considerado uma “escultura social feita ao ar livre” – começou oficialmente em 2012, mas nesse ano foram acrescentados 648 blocos correspondendo às letras que eram devidas desde o dia 01 de janeiro do ano de 2000, então, para todos os efeitos, é um projeto que teve o seu início com o século XXI e se estenderá enquanto existirem palavras, enquanto existirem pedras, enquanto existirem poetas.

O poema tem um título, “Cartas de Utreicht”, e a linha pela qual ele segue contorna o antigo canal da cidade (Oudegracht), mas já existe uma ideia de como expandi-la se, algum dia, o canal não for mais suficiente para a poesia. Veremos, então, o que é mais forte: o rio ou a poesia. A geografia e suas linhas duras e furiosas ou a instabilidade da imaginação.

O projeto é apoiado pela cidade, que também se mobiliza para saber qual caminho o poema tomará. Leva semanas para as palavras se formarem, e alguns meses para as orações se tornarem compreensíveis, mas quem disse que a poesia não é um trabalho de construção laboriosa e muita paciência? Desconfio muito desses poetas que se jactam de escreverem de forma compulsiva, com a inspiração à flor da pele, em um fluxo contínuo de imagens poéticas. Para mim, a verdadeira poesia se faz assim: uma letra de cada vez, as palavras sendo paulatinamente conquistadas pelo entusiasmo ou pelo cansaço, até se renderem em versos e estes em estrofes. Desconfio da poesia rápida, pois tudo aquilo que é facilmente feito, é também fácil de ser esquecido.

Não posso sequer imaginar como será o dia em que o último poeta de Utreicht – pois tudo chega até o fim, mesmo os poetas – estiver formando as derradeiras letras para colocar nos versos iniciados por uma longa linhagem de homens e mulheres que lhe antecederam, todos unidos sob a mesma bandeira e mesmo sonho. Será que a pedra terá o mesmo peso, será que as palavras ainda farão sentido? Será que ele verá o fim do poema ou o deixará inconcluso, incapaz de encerrar um trabalho de tantos anos?

O Poema sem Fim, ou as “Cartas de Utreicht”, possui os seguintes versos, traduzidos para o inglês pela equipe do Atlas Obscura (www.atlasobscura.com):

You have to start somewhere to give the past a place, the present is getting less and less. The further you are, the better. Go ahead now,

Leave your tracks. Forget the flash in which you may exist, the world is your street plan. Was there a time when you were another: it went by.

You are the other though. You are, as you know, the spell of this story. This is eternity. It takes. It’s time. Therefore, go into your story and swallow. Tell.

Tell us who you are with each step. In our story we disappear naturally, and only you remain in the long run. You and these letters, which are cut out of stone. Like the letters on our grave.

They burst into the Dom. Raised to the sky like an index finger, to indicate the guilty and demand more time. So we can go up straight, like people along the canal.

Stare at their feet. Look up! See Utrecht’s churches protruding above ground level. Raise the hands, begging with the towers to be this privilege: to be, now. The weather is nice.

Stand on. Life is witness to your gaze on the horizon. Your footsteps …

Está ficando um poema ótimo.Provavelmente não estaremos vivos para saber o seu final, e nisso existe uma lição de humildade: o Tempo não existe para a Poesia. Nós criamos o Tempo que nos encapsula, mas, para a Poesia – e para as Pedras – o Tempo é um conceito tão vago que sequer é levado em consideração. O que importa, no final do dia, é prosseguir em frente, sem saber se aquela é a última palavra, uma letra qualquer no muro da existência ou se chegamos ao verso final da vida.

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