Arquivo da categoria: Impressões

Obras Inquietas – 58. “Autoretrato com Morte tocando Violino” (1872), Arnold Böcklin

Nessa semana no “Obras Inquietas”, eu escrevi sobre o quadro “Autoretrato com Morte Tocando Violino” (1872), do pintor suíço Arnold Böcklin, um homem que esteve cercado pela morte desde que nasceu e que estabeleceu com ela um relacionamento, senão amigável, ao menos respeitoso. Não se sabe direito o que ele quis retratar nesse quadro, mas existem interpretações um pouco esotéricas de que a Morte toca a música da nossa vida. Preferi interpretar essa música como um som incessante no vácuo da nossa consciência, algo que, aos poucos, nos enlouquece e nos faz cometer desatinos. Interessante que não poucos artistas se fascinaram com a música tocada pela Morte: um deles, Gustav Mahler, intitulou o segundo movimento da sua Quarta Sinfonia como “A Morte pega o Violino”.

Boa leitura.

“Autoretrato com Morte Tocando Violino” (1872), Arnold Böcklin

Preso no quadro, o pincel a meio caminho do destino de conspurcar a tela, o artista encara sem medo a própria morte, sabendo que irá prendê-la nesse pentagrama de tintas e esguichos, pois esse é o destino da verdadeira arte: conceder imortalidade aos demônios que nos rodeiam. No fundo de todo som que preenche o mundo de barulhos irritantes, repetitivos ou belos, no resquício de cada silêncio que mora dentro do ar imobilizado, existe uma música que nunca para. Está aí, dentro da sua cabeça, no espaço que separa a sombra da carne; de tão habituado, você não mais a escuta, mas ela continua tocando, misturando-se com os seus pensamentos de maneira tão insidiosa que parece brotar deles. Às vezes, no meio dos pesadelos, você consegue escutar o ruído rasgando a escuridão, algo que congela o espírito e que gruda no céu da sua boca com o gosto incômodo de carne putrefata. É ela, a música que lhe persegue desde o primeiro ar que se apossou dos seus pulmões ainda cheios de líquido; o som discreto e infernal que insiste em lhe bafejar a nuca, uma lembrança amarga de que tudo acabará e de que logo você será outra lápide a acumular musgo em um cemitério qualquer. Junto ao seu ouvido, a sombra do medo sussurra “não esqueça que és humano”, e você caminha com o peso da falibilidade sobre os próprios ombros. Todo ser humano carrega em si, incubada e irreversível, a morte. Ela dita os nossos passos e dúvidas, sempre nos guiando com dedos ossudos, repletos de dores e de memórias, pelos caminhos que nos levarão ao fim, e não podemos escapar da sua condução, pois nos enlouquece aos poucos ao tocar a sinfonia que compôs para cada pessoa assim que ela nasceu, uma música que nos devora com lentidão, assim como a onda paciente faz desmoronar o rochedo.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/04/01/obras-inquietas-58-autoretrato-com-morte-tocando-violino-1872-arnold-bocklin/

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Obras Inquietas – 57. “Retrato de Família” (1954), Dorothea Tanning

Nessa semana, no “Obras Inquietas”, eu falei sobre um quadro da pintora surrealista Dorothea Tanning, “Retrato de Família”. Dorothea é mais conhecida pelos seus trabalhos literários, que são muito elogiados, mas não se pode esquecer a sua importância para a pintura, arte na qual se destacou desde a adolescência.

Na época em que fez esse quadro, ela estava casada com o pintor Max Ernst – cujas obras são mais conhecidas do que as dela – e não consta que se sentisse pressionada como a mulher que retratou. Inclusive é famosa uma entrevista em que Dorothea Tanning afirmou que ela e Max Ernst jamais conversavam sobre arte em casa. No entanto, um poema do mesmo período deixa entrever a mágoa por constatar que o casamento obscureceu a sua arte (bom, Max Ernst deixou a sua mulher para casar com Dorothea, e ela sempre foi vista como a mulher sedutora-destruidora-de-lares, o que acabou se refletindo na apreciação da sua pintura):

Many years ago today
I took a husband tenderly
This simple human gentle act
Seen as a hard decisive fact
By all who dote on category
Did stain my work indelibly
I don’t know why that is
For it has not stained his

Em uma tradução muito livre:

Há muitos anos hoje

Eu recebi um marido com ternura

Este simples ato gentil humano

Visto como um fato difícil e decisivo

Por todos os que trabalham na categoria

Manchou o meu trabalho indelevelmente

Não sei por que isso aconteceu

Pois não manchou o dele.

Boa leitura.

“Retrato de Família” (1954), Dorothea Tanning

Mesmo ausente, a sombra incômoda do homem se espalha pela sala de jantar, espalhando ordens com a sua onipresença raivosa. Ela diz para a empregada: se vista de forma apropriada, isso aqui não é um puteiro; alimente o cachorro, ele é o ser mais importante da casa; não erga a voz, seja discreta e mantenha a limpeza em dia, mesmo nos desvãos mais improváveis. A sombra fala para os móveis: mantenham a posição em que eu os coloquei, vocês me pertencem e eu controlo a sua vida e a sua morte; não tenham personalidade; não tentem se destacar. Em seguida, a sombra concentra toda a sua atenção na mulher, deliciando-se com a tensão com que a pequena figura se segura na cadeira, os olhos impregnados de um medo palpável que se projeta para o mundo em busca da salvação que não virá: não coma, não desejo que você engorde; não sorria, você não tem o direito de ser alegre sem a minha presença por perto; não fale, você não pode ter voz própria longe de mim para cercear as suas palavras burras e descuidadas; não coloque chinelos ou uma roupa velha, mulher minha tem que estar sempre ajeitada, sempre perfeita; não tenha uma vida ou carreira, pois nada pode obscurecer a minha existência, ainda mais uma criatura ínfima como você. A sombra do homem ausente sufoca a vida da casa, um lembrete constante sobre quem realmente manda na família. Dentro dos olhos cristalinos da mulher, um esgar de terror – sombra fugidia repleta de líquido – tenta escapar, mas ela não foi autorizada a chorar, e tem medo do deboche da sombra, tem medo de que aquilo que chama de amor seja uma prisão dourada, então mantém o corpo teso sobre a cadeira, esperando que a sombra em breve se junte ao corpo do homem de quem está desgarrada – o homem que acabou com a sua luz.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/03/18/obras-inquietas-57-retrato-de-familia-1954-dorothea-tanning/

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Obras Inquietas – 52. “Volta para casa no Natal” (1948), Norman Rockwell

Hoje é Natal e, no melhor espírito da data, sugeriram que eu falasse no “Obras Inquietas” sobre alguma obra de arte com tema natalino. Optei por essa pintura do americano Norman Rockwell, “Volta para casa no Natal”, um bom exemplo de algo que sempre me deixou desconfortável com o estilo do artista: a plasticidade das pessoas, os sorrisos amplos que escondem falsidades, a sensação de que a cena foi cuidadosamente construída para passar uma mensagem de conformismo e aceitação. É tudo tão perfeito que tenho a sensação de que existe um universo de terrores por trás, algo escondido dentro do quadro e que se encontra ao alcance da visão, esperando o momento de ser desvendado.

Bom, se a ideia era ser natalino, creio ter falhado. Mas, além da Páscoa (em que comemoramos uma crucificação), existe feriado mais inquietante do que o Natal?

Boa leitura.

“Volta para casa no Natal” (1948), Norman Rockwell

Não enxergamos o rosto do homem, somente as costas curvadas de quem atravessou o mundo para voltar para casa – ou de quem carrega todos os problemas da Humanidade sobre uma estrutura frágil, de ossos velhos e de coluna alquebrada. Sob um dos seus braços, presentes coloridos escorregam, enquanto a mão firme segura a mala tão exausta quanto o viajante. À primeira vista, é uma cena festiva: o homem que retorna para o lar, o abraço apertado da sua esposa, os olhares de curiosidade da família e dos amigos. No entanto, existe algo oculto na tela, um desconforto na tessitura da imagem, um terror submerso que só observamos depois de algum tempo: todos os homens que encaram o recém-chegado são variações do mesmo rosto, cada um em um tempo cronológico diferente. Não precisamos ver o rosto do viajante por que ele está diante de inúmeros espelhos, todos debochando, todos ostentando risadas que mal escondem o pânico. O homem achou que podia vencer a morte e o tempo se se afastasse de si mesmo, e não conseguiu: retornou para os problemas, para os medos, para os dramas do cotidiano. Estamos sempre voltando para casa, seja real ou metafórica, e nunca conseguimos escapar de quem somos e da sutil prisão de circunstâncias e destino em que nos colocaram tão logo nascemos, prisão essa que chamamos de vida e nos sufoca lentamente com a certeza da areia movediça. O abraço da esposa aproxima-se de um enforcamento. Como Penélope ao reconhecer Ulisses, a mulher não sabe se chora, se ri ou se diz no ouvido do marido a verdade: você voltou para o lugar onde um dia vai morrer – devia ter fugido quando teve chance.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/12/25/obras-inquietas-52-volta-para-casa-no-natal-1948-norman-rockwell/

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Obras Inquietas – 51. “Tigre na selva” (1917), Max Slevogt

Nessa semana, na coluna “Obras Inquietas”, eu falei de um quadro do pintor impressionista alemão Max Slevogt. Em “Tigre na selva”, a mistura entre a imprecisão dos movimentos sinuosos de um tigre e o abandono repleto de êxtase da mulher que ele carrega acaba gerando uma forte carga erótica que, ainda que não saibamos colocar em palavras, nos faz perder a respiração. Isso sem contar que Max Slevogt era um grande pintor de tigres e de cenas carregadas de erotismo não-aparente, mas que ensinariam muitos artistas contemporâneos sobre a incrível capacidade de ser pornográfico e escandaloso sem escancarar. Existe coisa muito mais erótica do que genitália, e quem não sabe disso precisa urgentemente voltar para a época do colégio.

Boa leitura!

“Tigre na selva” (1917), Max Slevogt

Possuída pela sinuosidade do tigre, todo o corpo da mulher é medo e entrega. O abandono – o saber se consagrar à volúpia do precipício, o saber desistir da luta – é o mais difícil dos sentimentos, e o mais cruel: nunca se sabe se será possível voltar ao que éramos antes, nunca se sabe se não é tarde demais, fundo demais, dolorido demais. A vítima se entrega à ferocidade do desconhecido e, ainda que exista angústia nesse gesto, também há excitação. O gozo anda muito próximo da morte; o prazer caminha ao lado do desespero. Os cabelos da mulher dançam com o vento, enquanto a selva se rende à sensualidade do tigre que carrega o seu prêmio ofegante. A presa não mais resiste; o predador venceu, e a fúria contida da certeza com que seus passos deslizam pela tinta amorfa do quadro é algo de extrema obscenidade. A violência da cena interrompida momentos antes do seu desenlace – o instante em que o animal, enfim, possuirá a mulher já subjugada – nos deixa na incômoda dúvida do reconhecimento impossível de uma cena que jamais vivemos: somos o tigre vitorioso ou a vítima? O vencedor ou o derrotado? Devemos desistir diante da morte semovente ou encará-la mais uma vez nos olhos antes que ela crave seus dentes na nossa carne e nos confronte com o prazer repleto de indecência que mora no primitivo que não conseguimos entender? Temos medo das sombras e segredos que moram no fundo do abismo da entrega.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/12/04/obras-inquietas-51-tigre-na-selva-1917-max-slevogt/

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Obras Inquietas – 50. “A cabeça da Medusa” (1612), Pieter Paul Rubens

Cheguei à quinquagésima coluna no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon ( www. artrianon.com ), ou seja, cheguei à 50a obra que me desperta algum tipo de inquietação. Pode parecer pouca coisa, mas são 50 textos curtos que, apesar de terem sido muito prazerosos de escrever, também tocaram fundo em algumas feridas e medos internos que eu sequer imaginava existir.

Para “comemorar” a efeméride, nessa semana tratei de um pintor que respeito muito e, talvez por isso, sempre mantive distância. Em “A cabeça da Medusa” (1612), de Pieter Paul Rubens, o aspecto grotesco da cabeça cortada por Perseu revela tanto surpresa quanto pavor, assim como Rubens tenta responder uma pergunta sobre a qual a mitologia silenciou: o que aconteceu com as cobras da cabeça da Medusa? Freud viu esse quadro como uma representação da castração masculina (bom, afinal, onde o Freud não vê falos masculinos?), mas gosto de um aspecto particularmente inquietante da análise dele: sentimos uma estranha excitação e fascínio diante da obra, algo quase sexual, quase devasso, quase puro. Existe alguma perturbação expressa nesse quadro, mas o fato de não conseguimos definir com clareza o que é deixa as fronteiras entre o macabro e o sedutor ainda mais borradas.

Boa leitura.

“A cabeça da Medusa” (1612), Pieter Paul Rubens

O crime acabou de acontecer; o sangue fresco ainda escorre do corte repleto de crueldade o qual, certeiro, separou o pescoço do resto do corpo. Os olhos que antes levavam desespero ao mundo agora são um espelho estarrecido de finitude: então eu também posso morrer, então não sou imortal. Sobre a cabeça, aquelas que viviam em precária harmonia – unidas em torno do horror inspirado pela sua dona – entregam-se à feroz luta da sobrevivência. Irmãs até então inseparáveis atacam-se com raiva; existem aquelas que tentam aproveitar até o último resquício de vida do ser que lhes animava e dava propósito, sorvendo até a derradeira gota teimosa de sangue; uma delas aproxima-se, sorrateira, do olho vítreo, imaginando qual o gosto da carne de Deus. Outras cobras, pela primeira vez descobrindo o que é ser livre, esgueiram-se sobre a pedra onde jaz a cabeça, sem imaginar a solidão que lhes espera nesse mundo em que deixarão de ondular e passarão a rastejar por migalhas de sol. Enquanto as serpentes decidem seu destino (algumas gritam em silêncio para o sol indiferente), os vermes se aproximam, famintos, ansiosos para possuírem a cabeça sem vida e que, no passado, transformava carne em pedra. Tudo escorre em direção ao inexorável fim, pois aquilo que começa um dia acaba, mas ninguém nunca nos avisou sobre o fedor acre de sangue coagulado, ninguém falou sobre a solidão do vento a mexer nos cabelos insensíveis, ninguém nos avisou que a vida continua, pasma e patética, depois que morremos – e que, na história do universo, somos meros suspiros impregnados de efemeridade, nunca uma respiração.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/11/26/obras-inquietas-50-a-cabeca-da-medusa-1612-pieter-paul-rubens/

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Obras Inquietas – 48. “Espalhados por toda a parte” (1864), Alexander ver Huell

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, em homenagem ao Halloween, tratei de um ilustrador extremamente singular e não tão badalado, o holandês Alexander ver Huell. Ele se notabilizou pelas suas obras repletas de romantismo e sensibilidade, que adornaram muitos livros do período que vai de 1822 a 1845. Porém, um dia – e ninguém sabe ao certo o que aconteceu -, ele se transformou em um homem repleto de paranoia e de fobia social, e as cenas românticas de antes foram invadidas pela morte, por demônios e pela bizarrice.

A ilustração que escolhi, “Espalhados por toda a parte” (o nome original está em latim, “Straas ubique”, mas optei por passar para português), me é significativa por um evento pessoal: certa vez, um amigo estava em uma casa noturna de Porto Alegre e passou mal, tendo que sair às pressas do lugar. Alguns dias depois, perguntei-lhe o que tinha acontecido e ele disse que, de repente, ao olhar as outras pessoas presentes no lugar, dançando e se divertindo, viu somente gente morta. Ainda lembro dele segurando meu braço e perguntando com urgência “tu não viu? TU NÃO VIU?”. Não enxerguei nada, mas sempre fiquei pensando que, talvez, o olhar seja somente uma questão de perspectiva.

Enfim, eis o texto. Boa leitura.

“Espalhados por toda a parte” (1864), Alexander ver Huell

O homem caminha com pressa, evitando olhar para os lados. Cobre o rosto, com receio de revelar o permanente ricto de terror que vinca os seus lábios em um constante gemido. Eles estão por todos os lugares. Em cada esquina, em cada rua, em cada casa, a doença e a morte espiam o estranho que atravessa os seus domínios. Atrás de risadas histéricas e da alegria fugaz da pele, escondem-se cadáveres putrefatos cobiçando a vida daqueles que ainda não escutaram o canto de sereia do Inferno, a música terrífica que se espalha pela catedral do mundo, o ruído que mora no fundo do pesadelo. A loucura eriça os pelos do homem enquanto ele atravessa as ruínas daquela necrópole, a cidade dos mortos que ainda respiram. “Estão todos mortos! Vocês e seus filhos, amantes, netos, cachorros, vocês não estão vivos, mas se arrastam pelo mundo sem sentido algum que não seja satisfazer o buraco infinito que mora no fundo da cova dos seus ossos!”, o homem deseja gritar, mas não sabe qual serão as consequências de revelar a verdade, então prefere silenciar. Estar vivo e não viver com a intensidade de um arrepio recém-surgido ou com a raiva com que a água na ânfora espia a sala ao seu redor é como estar morto, e o homem atravessa rapidamente o carnaval de gente a rir, a brincar, a sofrer, a se angustiar, sabendo que somente ossos vazios cobertos de enganosa pele estão ali, em uma confraternização macabra que marca os seres de vida comum que vieram ao planeta somente para servir de pasto para os vermes. Os passos velozes do homem e o medo que escapa dos seus olhos esbugalhados não deixam dúvida: ele está em um mundo repleto de inimigos, com o odor nauseabundo da morte a infestar cada recanto, cercado por cadáveres que ignoram essa condição, em eterna fuga de si mesmo, e ninguém sabe disso, não existe conforto em nenhum lugar, não existe descanso em nenhuma cama, não existe sorriso verdadeiro em nenhum rosto – só a morte a espreitar a sua vida com a mesma curiosidade com que a cascavel contempla a vítima distraída.

Texto originalmente publicado no link  https://artrianon.com/2017/10/29/obras-inquietas-48-espalhados-por-toda-a-parte-1864-alexander-ver-huell/

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Obras Inquietas – 47. “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Em virtude de ter passado duas semanas viajando e palestrando por aí, atrasei as colunas do “Obras Inquietas”, motivo pelo o qual me puxaram as orelhas em mensagens.

No meu retorno, tratei de “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714) do pintor holandês Jan van Neck. Poderia ter escolhido outras versões da mesma ideia, inclusive mais famosas, como a de Rembrandt: existiu uma época na História da Arte em que era frequente pintores retratarem aulas de anatomia, o que por si só daria um longo texto. Optei por essa de van Neck por que, entre elas, é a que mais recordo, talvez pelo fato de ser a autópsia de um recém-nascido, talvez pelo detalhe destoante da criança assombrada que segura um esqueleto no canto da imagem. Existe algo de perturbador na calmaria aparente dessa pintura e, se não sou capaz de detectar, o quadro merece estar elencado nessa minha lista de perturbações.

Boa leitura.

“A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Um corpo não passa de um aglomerado de órgãos, músculos e sangue impulsionados por um espírito. Por favor, esqueçam o horror enquanto presenciam a curiosidade quase sádica dos homens ao redor da mesa, para quem o cadáver da criança é um mero objeto de estudo, e nada mais. Eles não pensam na vida que animava esse corpo ainda fresco até alguns minutos atrás, não pensam no ronco de esperança que brotou dos pulmões e, em seguida, desapareceu, não pensam no aspecto lívido da pele que esperávamos rosada, macia, tenra, e agora tem o tom marmóreo da ausência, não pensam no choro da mãe ou nos soluços do pai a ecoar pelo corredor vazio. A ciência não pode se dar ao luxo de ter piedade. Ignoram o olhar espantado do menino que segura o esqueleto do bebê; ele não consegue entender que sentimentos atrapalham o progresso e que os homens reunidos naquela sala, que dissecam o cadáver como se estivessem olhando uma borboleta morta, fazem aquilo pelo bem de todos. Somente quem se afasta da Humanidade é capaz de desvendar o humano. Mesmo assim, por maior o nosso desejo de frieza, impossível não olhar o cadáver diminuto estendido sobre a mesa e pensar em tudo aquilo que ele deixou de viver, em todas as sensações que não teve tempo de sentir, em todos os sorvetes que não comerá, em todos os sorrisos que não dará, em todos os beijos que lhe serão negados, enquanto a curiosa pinça esgravateia o corpo sem defesas e a placenta jaz sobre a mesa, morta. Pior do que morrer é nem ter a chance de ter vivido.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/22/obras-inquietas-47-a-licao-de-anatomia-do-dr-frederik-ruysch-1714-jan-van-neck/

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