Arquivo da categoria: Impressões

O Poema sem Fim de Utrecht

Isso é muito lindo. No exato momento em que estou escrevendo essas palavras – e você está lendo -, um poema sem fim está sendo escrito com palavras e pedras na cidade holandesa de Utreicht.

Os responsáveis pelo poema são os integrantes da Guilda de Poetas de Utreicht. Cabe a eles escolherem a palavra que será escrita em pedra. O funcionamento é simples e, depois de cinco anos, transformou-se em um ritual. Todo sábado, o dono de uma pedreira local transporta uma pedra até a beira do canal local e a deixa ali, até o poeta surgir com seu formão e inscrever a letra. Em seguida, a pedra é arrastada até o fosso em que as suas irmãs se encontram, juntando-se a elas em uma linha sucessiva que forma palavras, que se juntam em versos, que virarão uma poesia que ninguém sabe como ou quando terminará – se é que terminará algum dia.

O projeto – considerado uma “escultura social feita ao ar livre” – começou oficialmente em 2012, mas nesse ano foram acrescentados 648 blocos correspondendo às letras que eram devidas desde o dia 01 de janeiro do ano de 2000, então, para todos os efeitos, é um projeto que teve o seu início com o século XXI e se estenderá enquanto existirem palavras, enquanto existirem pedras, enquanto existirem poetas.

O poema tem um título, “Cartas de Utreicht”, e a linha pela qual ele segue contorna o antigo canal da cidade (Oudegracht), mas já existe uma ideia de como expandi-la se, algum dia, o canal não for mais suficiente para a poesia. Veremos, então, o que é mais forte: o rio ou a poesia. A geografia e suas linhas duras e furiosas ou a instabilidade da imaginação.

O projeto é apoiado pela cidade, que também se mobiliza para saber qual caminho o poema tomará. Leva semanas para as palavras se formarem, e alguns meses para as orações se tornarem compreensíveis, mas quem disse que a poesia não é um trabalho de construção laboriosa e muita paciência? Desconfio muito desses poetas que se jactam de escreverem de forma compulsiva, com a inspiração à flor da pele, em um fluxo contínuo de imagens poéticas. Para mim, a verdadeira poesia se faz assim: uma letra de cada vez, as palavras sendo paulatinamente conquistadas pelo entusiasmo ou pelo cansaço, até se renderem em versos e estes em estrofes. Desconfio da poesia rápida, pois tudo aquilo que é facilmente feito, é também fácil de ser esquecido.

Não posso sequer imaginar como será o dia em que o último poeta de Utreicht – pois tudo chega até o fim, mesmo os poetas – estiver formando as derradeiras letras para colocar nos versos iniciados por uma longa linhagem de homens e mulheres que lhe antecederam, todos unidos sob a mesma bandeira e mesmo sonho. Será que a pedra terá o mesmo peso, será que as palavras ainda farão sentido? Será que ele verá o fim do poema ou o deixará inconcluso, incapaz de encerrar um trabalho de tantos anos?

O Poema sem Fim, ou as “Cartas de Utreicht”, possui os seguintes versos, traduzidos para o inglês pela equipe do Atlas Obscura (www.atlasobscura.com):

You have to start somewhere to give the past a place, the present is getting less and less. The further you are, the better. Go ahead now,

Leave your tracks. Forget the flash in which you may exist, the world is your street plan. Was there a time when you were another: it went by.

You are the other though. You are, as you know, the spell of this story. This is eternity. It takes. It’s time. Therefore, go into your story and swallow. Tell.

Tell us who you are with each step. In our story we disappear naturally, and only you remain in the long run. You and these letters, which are cut out of stone. Like the letters on our grave.

They burst into the Dom. Raised to the sky like an index finger, to indicate the guilty and demand more time. So we can go up straight, like people along the canal.

Stare at their feet. Look up! See Utrecht’s churches protruding above ground level. Raise the hands, begging with the towers to be this privilege: to be, now. The weather is nice.

Stand on. Life is witness to your gaze on the horizon. Your footsteps …

Está ficando um poema ótimo.Provavelmente não estaremos vivos para saber o seu final, e nisso existe uma lição de humildade: o Tempo não existe para a Poesia. Nós criamos o Tempo que nos encapsula, mas, para a Poesia – e para as Pedras – o Tempo é um conceito tão vago que sequer é levado em consideração. O que importa, no final do dia, é prosseguir em frente, sem saber se aquela é a última palavra, uma letra qualquer no muro da existência ou se chegamos ao verso final da vida.

Deixe um comentário

Arquivado em Cartas de Utreicht, Impressões, Lugares, Poesia, Utreicht

Obras Inquietas – 30. “Bacanal” (1920), Auguste Levêque

No trigésimo texto que escrevi para a minha coluna “Obras Inquietas”, eu quis mostrar que também existe inquietação e medo dentro de uma orgia. Falei da obra de Auguste Levêque, “Bacanal” (1920), e os vários corpos de homens e mulheres que se contorcem em busca de prazer, e os sorrisos lânguidos que escondem gritos de dor.

Boa leitura!

“Bacanal” (1920), Auguste Levêque

Ceda ao descontrole. Deixe o animal tomar conta da sua pele; permita-se que todos os seus desejos saiam à tona. Mergulhe no corpo do outro como se ele fosse uma extensão do seu – submeta a vontade alheia aos seus impulsos, por mais selvagens que eles sejam. Grite até o limite da sua garganta, ria com frenesi, lamba pescoços, seios, torsos, pernas, sexos. Arranhe a sua parceira; tire sangue dela, faça com que seus gritos de prazer se transformem em pavor. Esqueça dos limites que a sociedade estipulou, esqueça da sombra de moralidade que anda ao seu redor dizendo o que é certo ou deplorável, esqueça do seu nome e da sua família e da sua ética e de tudo que lhe transforma em humano. Hoje é a noite do animal: da criatura que se esgueira por debaixo do seu sorriso, do medo que você não confessa nem para o travesseiro, do impulso que lhe faz ter vontade de estraçalhar, de morder, de se impor, de machucar o outro. Liberte-se da sua pele. Deseje o mal ao seu semelhante. Entregue-se ao desejo por tudo que é proibido. O outro não é seu amigo; ele é o inimigo, e deve ser devorado pelos seus dentes famintos, pela sua boca raivosa, pelos seus dedos que, como garras, enfiam-se na pele tenra e extraem dela aquilo que existe de mais sublime e de mais terrível. Encharque-se com o desespero alheio. Sinta-se mergulhar em um oceano de gritos, de gestos repletos de fúria, de beijos que mordem, de dedos que penetram. No ápice do prazer mora a mais intensa das dores, assim como, em todo grito de êxtase, esconde-se o prenúncio do horror. A melhor maneira de perder a Humanidade é afundar-se em outro ser humano até que ele grite, e nem todos os gritos em um bacanal são de alegria. Nem toda a luxúria pode ser perdoada. Bem vindo ao festim dos corpos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/05/07/obras-inquietas-30-bacanal-1920-auguste-leveque/

Deixe um comentário

Arquivado em Auguste Levêque, Bacanal, Crônicas, Impressões, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária

“Variações de Casanova”, ou como um cavalheiro deveria responder a essa questão?

Quando estou em dor, é na escrita que acalmo minhas turbulências e pacifico o pensamento. Então, perdoem-me a divagação em momento tão impróprio, mas faz parte do meu procedimento de luto, e 2017 tem sido um ano – pelo menos para mim – bafejado pela morte, que está caminhando mais próxima do que eu gostaria. Quanto mais perto ela chega, mais eu falo da vida.

————————————————————————————————

Ontem fui assistir a um filme, “Variações de Casanova” (2014). Quem me conhece sabe da minha predileção por filmes que versam sobre assuntos literários, em especial personagens e autores, e Giacomo Casanova (1725-1798) sempre me interessou. Ele teve uma vida muito intensa. Foi uma pessoa que se descolou de tal forma da realidade que acabou virando personagem ficcional. Escreveu mais de 28 diários descrevendo as suas aventuras e proezas sexuais. Aquilo que o Marquês de Sade fazia com uma sexualidade violenta, Casanova conseguia através do dom da sedução. Tão forte era a lenda de Casanova que, por muitos anos, se acreditou que ele virou uma espécie de Judeu Errante, um homem que aparecia nas cidades, causava uma onda de seduções e ia embora, deixando no seu rastro várias donzelas grávidas.

Logo na entrada do cinema, a bilheteira me estendeu o ingresso e disse “tomara que o senhor não durma” – um comentário nada auspicioso. A sala estava relativamente vazia – além de mim, mais seis espectadores – e um fato que posso garantir é que todos os seis odiaram o filme. Antes mesmo dele acabar, três pessoas tinham ido embora, e as outras foram embora assim que a luz acendeu.

Por meu lado, gostei bastante. Não tenho essas veleidades de gostar de algo pelo simples prazer de ser do contra, mas apreciei o alto desafio a que o roteiro se propôs. Se teve sucesso em transmitir a intenção é um outro caso, mas a proposta ficcional era ambiciosa: por meio de uma colagem de ficção, história e realidade, “Variações de Casanova” apresentaria trechos do livro “Memórias de Casanova”, dos filmes “Casanova” feito por Ettora Scola e da versão de Fellini para o mesmo personagem, além de músicas das óperas de Mozart  e citações ao filme “Quero ser John Malkovich”. Tudo dentro do espaço dramático por excelência, o Teatro São Carlos, em Lisboa.

Então, é uma peça de teatro que intercala óperas, que intercala literatura, que intercala realidade, que intercala cinema… tudo misturado e em alternância. Muito pós-moderno, muito contemporâneo. Normalmente acho imposições criativas esses voos estilísticos (no estilo de “qual é a necessidade de tanta estrutura para contar uma simples história?”), para não dizer que parecem exercícios de presunção intertextual do autor, mas, dessa vez, foi algo feito com tamanha habilidade que pareceu natural. A única maneira de mostrar um personagem como Casanova, tão multifacetado entre realidade e ficção, é sendo igualmente multifacetado. Nunca vemos o personagem por completo, somente aquilo que queremos ver.

Na interpretação de John Malkovich e de outros atores – um deles é inclusive uma atriz -, Giacomo Casanova é mais do que um personagem unidimensional que só deseja transar com todas as mulheres, mas alguém usando palavras para seduzir todos, não interessa se homens ou mulheres. É um escritor por natureza – ou um mentiroso, como fazem questão de frisar. Ele está preso em um papel eterno da qual não consegue se desvencilhar: o de sedutor. É algo a que ele se submete às vezes com cansaço, como afirma no seu livro: “Se há um aspecto que possa redimir alguém por seduzir virgens ingênuas é que, dessa forma, as estará salvando de um destino pior, tratando-as de maneira mais gentil do que a maioria, como parceiras sexuais no mesmo nível, e que a partir daí elas usariam seus conhecimentos sobre os homens. Fora isso, seria realmente deselegante recusar suas carícias a uma menina que vem até sua cama para submeter-se a elas.”

Não à toa que, em algumas ocasiões, a mesma frase é repetida por diferentes Casanovas: o importante não é realizar algo sempre igual, mas as variações. Todas as seduções são diferentes entre si, não existem duas iguais, e a capacidade de variar é mais atraente do que a existência de uma fórmula fixa. Casanova está mais interessado pelas variações da sedução do que eme stabelecer um vínculo formal. Recordei de um conto do meu primeiro livro, “O homem despedaçado”, e que tem por título“Várias variantes variáveis variam com variações invariáveis”. Quanto mais tentamos variar, mais caímos em um lugar comum: a própria variação. Assim, a variação é uma armadilha pois, dentro de qualquer mínimo ato, existem múltiplas variações que o esgotam. Pensar isso ao extremo esgota o conceito de criatividade, e a transforma em uma variação presa dentro de outra, e ambas presas dentro de outra, e assim por diante. Assim, estamos eximidos do fardo de sermos sempre criativos quando aceitamos que a criatividade é somente uma pequena faceta de livre espírito enfadonhamente prevista no interior de outras.

Tão preso Casanova estava ao destino de sedutor nato que, quando a própria filha o requisitou para um caso amoroso, ele deixou a ideia de incesto de lado e cedeu à sedução. Outra ideia muito bem explorada no filme e que está na base de “Memórias de Casanova”: a noção de liberdade. Para o autor veneziano, o homem sempre tem o espírito livre e, quanto mais fiel for à sua natureza, maior será a sua capacidade de experimentar tal liberdade. Assim, não existe casamento, convenção social, religião ou governo que submeta um homem. Nas suas palavras, “vou começar com esta confissão: o que tenho feito no curso da minha vida, quer seja bom ou mal, foi feito livremente, pois sou um agente livre.” Observem que, para Casanova, não existe certo ou errado, moralidade ou ética. Somente a liberdade traça os seus limites, o que o exime de qualquer culpa. Um pensamento muito semelhante ao do Marquês de Sade, mas, nesse caso, foi usado de forma diferente.

Um filme muito c0mplexo, o que explica a dificuldade de conexão dos espectadores com a história. No palco, John Malkovich interpreta o papel de Casanova. Cai, aparentemente fulminado por um ataque cardíaco, e o drama é tão pungente que os funcionários do teatro correm procurando um médico. Na plateia, uma espectadora vai até o palco, identificando-se como médica. John Malkovich levanta-se, rindo, pois era parte da encenação. Casanova fez de conta que sofreu um ataque cardíaco e a espectadora achou que o homem John Malkovich estivesse morrendo, e essa cena ilustra o quanto os limites entre ficção e realidade estão borrados. Em seguida, o filme muda para o passado, em que o Casanova dito real (ou representado) está preso em uma casa onde as serviçais passam o dia inteiro inventando tormentos psicológicos para ele. Casanova sequer possui mais um nome: inventou tantas peles e pretextos que até o seu nome é uma mentira.

Uma das cenas mais interessantes é quando, no palco de teatro, descem inúmeros espelhos do teto, e todos os Casanovas (o Casanova  da ópera, o do teatro, o do cinema, o real) interagem com todas as Elisas von der Heck, com os espelhos multiplicando as imagens enquanto Casanova brinda, se embebeda e entra em briga corporal entre as suas várias identidades. Uma cena que diz muito sobre a capacidade de fragmentação de qualquer pessoa; estamos sempre em luta contra os outros eus que nos habitam. Nem todos nós somos Fernando pessoa, que conseguiu se dividir em vários.

Por fim, a idêntica pergunta repetida em inúmeros contextos: como um cavalheiro deveria responder a essa questão? Aliás, uma pergunta boa para inúmeras oportunidades do cotidiano em que vivemos.

Na primeira vez, na realidade, Elisa pergunta se é verdade que ele dormiu com a própria filha, e Casanova pergunta “como um cavalheiro deveria responder a essa questão?“. Presume-se que a pergunta é tão abominável que alguém educado não poderia sequer responder. Na segunda ocasião, no segmento da ópera, uma mulher pergunta a quantidade de conquistas amorosas de Casanova, e ele responde com a mesma pergunta, mas o seu sorriso é de vitória, como se a resposta não importasse – ou o valor apontado, 1.003, estivesse defasado.

Na terceira vez, a médica do mundo real que foi socorrer o ator aproveita um momento de interlúdio da peça e pergunta para John Malkovich se é ele é gay ou não. Quando vem a resposta, “como um cavalheiro deveria responder a essa questão?”, percebe-se que o ator desconversou habilmente para não fechar a questão com uma resposta definitiva. Na derradeira ocasião em que Casanova é confrontado, dessa vez durante a peça de teatro, a atriz que interpreta uma criada pergunta se é verdade que John Malkovich (o homem) dormiu com mais de 1.000 mulheres. Quando ele dá a resposta, a mulher sente-se seduzida pela sua discrição, e os dois arranjam um encontro somente com olhares. Responder perguntas com outras perguntas é uma estratégia muito inteligente, e ver a maneira com que a mesma resposta pode ser ressignificada dependendo da intenção do falante foi algo instrutivo.

Não é um filme fácil, e tem uma proposta arrojada, à medida que Casanova se encontra com suas diferentes facetas em inúmeras representações artísticas. Falando em termos de roteiro, é um prodígio juntar tantas expressões de arte sob a mesma batuta e fazer cada uma funcionar em uníssono com as outras. Existem algumas falhas, é claro, mas nada que comprometa o projeto criativo exposto nas duas horas de filme. No meio da história, um momento de desconstrução, quando uma amiga de John Malkovich – para quem ele pediu que produzisse um filme chamado “Variações de Casanova”, em um momento metacinematográfico – vai visitá-lo no camarim e diz que não está gostando de nada, pois não entende o que está acontecendo, e essa foi a reação dos espectadores no meu mundo real. Creio inclusive ter escutado um aplauso tímido quando, na tela, a atriz externou o que estavam pensando na minha realidade de espectador de cinema.

Como eu gosto de filmes que escapam do convencional em termos de roteiro, achei interessante “Variações de Casanova” por demonstrar a tese do meu primeiro livro de contos: cada homem é formado por inúmeros homens que existiram ou não chegaram a surgir. Até mesmo Casanova, o mestre de todos os sedutores, um homem aprisionado pela sua própria fama. Isso explica outra frase recorrente dita por Casanova nos mais diferentes sotaques e acepções: “Eu preciso de variações, eu exijo variações”. É o que nos deixa vivos – a certeza de que sempre podemos fazer algo costumeiro de uma forma alternativa.

 

1 comentário

Arquivado em Casanova, Cinema, Impressões, Literatura, Produção Literária, Variações de Casanova

Obras Inquietas – 17. “Esqueleto e marinheiro” (2004), Marianna Gautner

Nessa semana, no “Obras Inquietas” lá no Artrianon, eu tratei de “Esqueleto e marinheiro” (2004), de uma artista que admiro muito, Marianna Gautner.

Aproveitei para falar da chegada inoportuna da Morte e do medo que toda mãe possui cada vez que seu filho se abandona ao sono, mas também falei um pouco de estoicismo, pedindo ajuda para Fernando Pessoa e para um dos meus filósofos prediletos, Epicteto.

Boa leitura.

17. “Esqueleto e marinheiro” (2004), Marianna Gautner

esqueleto-e-marinheiro-marianna-gautner

 

 

Toda vez que você entra no quarto, eu estou lá, nas trevas, no canto escuro onde até a luz tem medo de entrar. Consegue sentir a minha presença? Em silêncio, espreito a vida do seu filho, essa pequena alma que carrega consigo um cadáver; sonho com o sabor doce da sua última respiração, anseio pelo olhar de súplica que ele lançará assim que ver meus lábios mortos se aproximando para um beijo. Eu nasci quando ele veio ao mundo. Você tem medo dos segredos que a noite esconde; receia uma respiração entrecortada, se apavora ao imaginar um sufocamento, teme que, em um segundo, o vômito entre pelo local errado e acabe com a vida antes mesmo dela começar. Mulher tola: acha que pode me vencer. Pensa que seu filho poderá sobreviver à morte quando, na verdade, estou escolhendo o melhor momento para acabar com a existência deste corpinho que dormita no berço. Seu filho é pequeno e frágil, ao passo que eu sou paciente, implacável – e infinita. Você não vai conseguir protegê-lo para sempre e, um dia, eu irei pegá-lo, seja no berço, seja na rua, seja na cama; seja na saúde ou na doença, na alegria ou na pobreza, o certo é que chegará o dia em que irei levar o seu filho para o Reino dos Mortos. Nesse dia, o último dele, sorverei a alma que me foi tantas vezes negada e deliciar-me-ei com o seu pranto, Pietà desastrada que fracassou em salvá-lo. Você não pode fazer nada por seu filho, mulher, pois a morte espreita esse cadáver adiado que procria desde que ele respirou pela primeira vez. Então, desista. Pare de espiar, pare de ter medo, pare de me enfrentar. Só não o matei até agora por mera vontade, pois essa criança já estava morta a partir do instante em que nasceu. No canto do quarto, eu espreito o seu medo, enquanto escolho a hora em que, enfim, matarei o seu filho.

 

Texto originalmente publicado em https://artrianon.com/2017/01/21/obras-inquietas-17-esqueleto-e-marinheiro-2004-marianna-gautner/

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas, Esqueleto e marinheiro, Impressões, Marianna Gautner, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária

Obras Inquietas – 13. “Giaele e Sisara” (1640), de Ottavio Vannini

No “Obras Inquietas” dessa semana, “Giaele e Sisara”, um quadro de Ottavio Vannini, e a mulher que vira mãe, amante e assassina nas mãos de um Deus. Aquela que mata por nós.

Boa leitura!

“Giaele e Sisara” (1640), Ottavio Vannini

giaele-e-sisara-ottavio

Bendita sois vós, a mulher que tomou a decisão impossível em nosso nome. Bendito o momento em que o general inimigo, fugindo da derrota, entrou na sua barraca e pediu pouso, certo de que não seria reconhecido. Bendito o instante em que sorriste o melhor sorriso e convidaste o verdugo a apear as sandálias cansadas e a remover o pó dos músculos machucados com um óleo repleto de fragrâncias. Bendito o momento em que ele pediu uma ânfora de água e você lhe ofereceu o melhor leite que possuía, tirando-o da boca dos teus filhos; louvado seja o instante em que acariciou a barba dura e selvagem do homem e convidou-lhe a partilhar do teu leito, a ultrajar as tuas carnes, a relaxar das angústias e medos descarregando-os no interior do teu corpo. Agradecemos a Javé por deixares o homem repousar na cama que era tua e do teu marido, esperando que os ventos do sonho o levassem para outras paragens mais tranquilas. Erguemos graças ao Senhor assim como tu levantaste, com dificuldade e doçura, o pesado martelo, enquanto mirava o prego na têmpora do assassino. Nunca saberemos o que ele sonhava, mas rezamos para que a morte tenha lhe encontrado em meio a um pesadelo e o transformado em terror infinito. Agradecemos, também, ao prego que, na infinita sabedoria com que Javé lhe deu forma, não cedeu enquanto se enfiava nas carnes macias do facínora, prendendo-se, caprichoso e definitivo, na cama que suportava o seu corpo ainda enlanguescido. Nunca saberemos em qual segundo você concebeu esse plano, se pensava em matar o homem desde quando o viu ou se decidiu no calor do momento; nunca saberemos se teve medo ou se estava preenchida pelo desejo de vingança de Javé. Nunca saberemos o que se passou na sua cabeça, Giaele, mas sempre serás lembrada como a mais bendita das mulheres: aquela que foi mãe, em seguida a amante e, por fim, a assassina. O prego que Javé usou para trazer justiça ao mundo.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Crônicas, Giaele e Sisara, Impressões, Obras Inquietas, Ottavio Vannini, Pintura, Produção Literária

Obras Inquietas – 12. “O abraço” (1917), de Egon Schiele

No meu texto dessa semana para o “Obras Inquietas”, eu falei sobre as muitas possibilidades que um abraço pode conter, analisando a obra “O abraço”, de Egon Schiele, esse bacanal de carnes e de tintas.

Boa leitura!

“O abraço” (1917), de Egon Schiele

o-abracoegon_schiele

Um abraço nunca é somente um gesto: também pode ser um carinho, a necessidade de dizer algo, um desespero. Na praia, dois corpos nus se esfregam, e podemos adivinhar o calor dos panos que lhes fornece pálido conforto, os grãos minúsculos de areia a se intrometerem no meio da voracidade de dois corpos, o sol repleto de vigor a vicejar em meio ao céu sem nuvens. O casal se entrega ao desejo e ao suor, sem dar atenção à nossa curiosidade de voyeur. O sexo sai da tela e se espalha pelo mundo, ruborizando os mais recatados, excitando os demais, que não conseguem afastar os olhos das curvas, pelos e urgências entregues ao prazer. Existe volúpia em um abraço, e os corpos contorcidos sobre o pano querem não se tornar um, mas destruir e assimilar o outro. Não resistem ao desejo, mas estão com medo de ceder por completo a ele. As mãos da mulher acariciam e afastam o homem, que se arremessa no lóbulo da sua orelha como se ali estivesse a chave do Eldorado. É um abraço tão intenso que os limites se perdem, e os corpos se distorcem em angústias improváveis, dissolvendo-se até que virarem o amálgama disforme de um sentimento. Também existe medo dentro de um abraço: nunca sabemos como o corpo do outro responderá, se a pele será flexível como imaginamos ou inesperadamente árida, se a outra será receptiva ou distante, se o abraço durará o fugaz encontro de dois objetos sólidos ou o abandono lânguido de quem sente algo. Nunca sabemos nada. No espaço entre duas vontades, mora todo um universo, e o toque são duas galáxias aprendendo a cantar juntas em meio ao vácuo da existência. Todo abraço contém em si a semente de uma esperança: será aquela a pessoa que desejo abraçar pelo resto da minha vida? Enquanto abraçarmos a pessoa amada, nunca morreremos. Afinal, no contato de dois corpos apaixonados, mora o infinito.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/12/17/obras-inquietas-12-o-abraco-1917-de-egon-schiele/

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Crônicas, Egon Schiele, Impressões, O abraço, Obras Inquietas, Produção Literária

Obras Inquietas – 09: “Susana e os anciões” (1610), Artemísia Gentileschi

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, eu abordo um quadro que me deixa extremamente perturbado, ainda que o assunto não seja fácil e possa facilmente descambar para o contrário da sua ideia. No entanto, a literatura é feita para isso, e eu não escreveria se não tivesse tal ímpeto: enfiar o dedo onde machuca e escarafunchar.

Em “Susana e os anciões” (1610), de Artemísia Gentileschi, o que mais me chama atenção é que a pintora conseguiu mostrar o exato momento em que Susana foi assediada pelos dois velhos lascivos, o instante em que ela não tinha escapatória. Os demais quadros feitos por outros artistas talentosos não possuem tal sutileza; em geral eles estão um segundo antes (quando começa o assédio) ou um segundo depois (quando Susana recusa a abordagem), não o instante precário em que Susana soube que estava em uma situação desesperadora – e indecisa sobre qual atitude tomar.

Boa leitura!

“Susana e os anciões” (1610), Artemísia Gentileschi

susana-e-os-velhos

 

Cale a boca. Eu sei que você quer. Se não quisesse, não estaria aí, desnuda, com esses seios brancos, duros, ansiosos pelas nossas mãos. Vem cá. Dê-me a tua boca: quero saber o gosto da fruta que mora no seu interior. Não chore; não implore por piedade, pois você nasceu para nos satisfazer. Se não fizer o que queremos, vamos acabar com a sua honra. Diremos para todos a puta que você é. Todos irão acreditar, quem pode desconfiar de nós, dois respeitáveis anciões? Nenhum homem mais irá lhe olhar. E o mesmo vale para a sua criadora, a pintora: mulheres não servem para pintar. Você não tem talento, não é nada. Devia estar limpando as nossas casas, sua vadia. As risadas debochadas saem do quadro, se espalham no atelier. Pare de chorar, mulher, tire logo a roupa. Satisfaça nós, os seus senhores, senão iremos dizer que vimos você com outro homem aqui, e todos terão nojo de tocar na sua pele suja. E você, pintora, desista de ser aquilo que a sua natureza proíbe. Mulheres nasceram para obedecer, não para criar obras. Vocês são o lixo que gruda nas nossas sandálias. Vocês e esses corpos lisos, ansiosos para serem violados, corpos que se oferecem ao sol, às águas e aos nossos olhos e mãos. Venha cá, mulher, nós estamos mandando. Obedeça. Pare de fugir. Você não tem para onde ir. Ninguém irá lhe salvar. Hoje você irá servir de pasto para a nossa fome; queremos encher seu corpo com nossas marcas de macho, desenhar linhas de sangue e roxos na sua pele perfeita. E você, pintora, olhe tudo acontecer e saiba que, se não fosse ela, faríamos com você. Faríamos com qualquer mulher, pois vocês são menos do que gente para nós. Recolha as suas lágrimas e preste atenção nos detalhes, pintora, enquanto você, Susana, cala logo essa boca, para de chorar e abra logo as pernas. Ninguém vai acreditar em você; ninguém vai lhe salvar. Hoje é o dia em que você perderá a sua inocência.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/11/25/obras-inquietas-09-susana-e-os-ancioes-1610-artemisia-gentileschi/

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas, Impressões, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária, Susana e os anciões