Arquivo do mês: fevereiro 2013

No domínio da própria alma

Jorge Luis Borges afirmou que uma das maiores ilusões do homem é achar que a Humanidade nasceu no mesmo dia em que ele; o homem acha que o Tempo da existência humana se confunde com o tempo da sua vida. Salvo melhor juízo, também sou um homem, com suas qualidades e defeitos, e acredito que o Tempo nasceu no mesmo momento em que respirei pela primeira vez esta mistura de oxigênio e nitrogênio que começou a me matar e a envelhecer lentamente assim que entrou nos pulmões.

Há muitos anos atrás, quando a Humanidade recém respirava na sua juventude, eu joguei basquete no colégio Santo Antonio, em Porto Alegre, RS. Por favor, não alimentem ilusões – eu jogava mal. Talvez alguma voz piedosa se levante em minha defesa, mas tenho noção das minhas poucas capacitações para jogar basquete. Algumas das melhores recordações que tenho do colégio estão ligadas ao basquete. O nosso time não era o melhor do mundo, mas éramos honestos e jogávamos com confiança inversamente proporcional à habilidade. Lembro de dezenas de histórias desta época de glórias-sem-glórias (nunca ganhamos nada, mas ganhar algo realmente importa?) e, se não as compartilho com o mundo, é por respeito e homenagem aos meus colegas de time, todos homens sérios e responsáveis. As histórias devem ficar no passado.

Mas recordo de um fato que acabou sendo marcante por vários motivos. Estávamos participando de um campeonato entre colégios e clubes e – não lembro direito o motivo – acabamos tendo que jogar contra a Sogipa. O basquete da Sogipa, um clube de Porto Alegre, participava de campeonatos nacionais e jogava parelho com os grandes times da época. Pegar um modesto time de colégio devia ser algo muito mais fácil do que um treino. O time reserva deles era mais perigoso que o nosso; o time infantil da Sogipa já nos faria suar. E, para culminar com o nosso azar, boa parte do time oficial do colégio estava doente, machucada ou precisando estudar para provas. Por este motivo, acabamos indo jogar altamente desfalcados. Não me recordo nem se tínhamos reservas disponíveis para substituir os titulares daquela partida. Era entrar em quadra, perder com algum mínimo de honra e ir embora.

Estávamos nos preparando para o jogo e, vendo o aquecimento dos adversários, ficamos abismados. No colégio, jamais conseguíamos dar “enterradas”: ainda recordo a primeira e inesquecível vez em que um colega de time conseguiu tamanha proeza, ficamos uma semana comentando o seu feito. O time da Sogipa só sabia dar “enterradas”, e de todos os lugares do garrafão. Eram jogadores enormes, fortes, rápidos, tudo aquilo que não éramos. Prevíamos uma derrota inesquecível e já estávamos resignados.

Antes de entrar na quadra, nosso capitão do dia, o grande Daniel Banias, se aproximou e apontou o jogador que eu ia marcar. Nunca tinha visto um cara tão grande, tanto em matéria de músculos quanto de altura. Eu ri e disse que nunca conseguiria marcá-lo, que ele era impossível de ser derrotado, que nós só estávamos fazendo figuração na quadra para não perdermos de W.O. O Daniel olhou bem sério, segurou meus ombros e falou: “Cara, não me interessa o que tu pensa. Tu vai entrar nesta quadra e vai marcar aquele merda e vai anular ele, sabe por quê? Por que o time precisa. Por que a gente confia em ti. Ele é mais alto e mais forte do que tu, mas, hoje, tu vai ser MAIOR do que ele.”

Não sei o que foi que aconteceu, mas posso garantir que foi a partida da minha vida. Eu realmente anulei o jogador. Lembro de ter dado quatro “tocos” nele; lembro de ter marcado ele com tanta força que, em uma disputa mais ríspida, o arremessei com todos os músculos para fora da quadra; lembro que ele tentou trocar de lado para invadir o garrafão e sempre me encontrou no caminho; lembro de interceptar passes e de deixá-lo nervoso e irritado. Claro que, no resultado final, não adiantou nada, pois perdemos de forma estrondosa. O fato de eu conseguir anular um jogador não impediu os outros quatro de passarem por cima da gente. Acho que fizemos uma cesta de três pontos por acidente e, em compensação, eles empilharam pontos. Mas, como era a tônica naquela época, não ficamos tristes ou arrasados, saímos do mesmo jeito em que entramos na quadra.

Às vezes recordo desta partida, em especial nos momentos tenebrosos ou quando desanimo. De alguma forma, este jogo me define. Tudo está dentro da cabeça: a força do adversário, a sua inexorabilidade, a certeza da minha inferioridade, a derrota. E tudo pode ser vencido se eu ignorar a razão. Como diria Jean Cocteau, “sem saber que era impossível, ele foi lá e fez.” No final das contas, um homem armado somente com a esperança ainda é o mais temível dos adversários.

Esta história me faz lembrar de um poema, um dos maiores libelos a favor da força do espírito, um poema cujas palavras sempre me assombram e em diferentes momentos. O nome dele é “Invictus”, de William Ernest Henley:

Invictus

Out of the night that covers me,

Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William_Ernest_Henley_young

Recentemente, em uma postagem do blog, perguntei-me se era possível que a alma da poesia fosse tocada através de um solitário poema ou se ela era algo que necessitava de um trabalho perene e infatigável (foi neste post aqui: https://homemdespedacado.wordpress.com/2013/02/03/elogio-tardio-a-poeta-desconhecida/ ). William Ernest Henley (1849-1903) é a prova viva do meu desconforto: a sua existência inteira foi um prelúdio doloroso para este poema e poderia ter se encerrado assim que ele colocou o último respingo de tinta no papel. A própria Wikipedia diz que a vida dele se limitou a estes versos, motivo pelo qual é conhecido e ainda citado, mesmo 110 anos depois de sua morte.

A sua história de vida, quando confrontada com o poema, o deixa ainda mais singular. Ele nasceu e viveu em estado de mais absoluta pobreza. Henley tinha 13 anos de idade quando foi diagnosticado com tuberculose. A doença acabou afetando os seus ossos e, para salvar a sua vida, os médicos amputaram a perna na altura do joelho. Há relatos de que foi uma experiência altamente dolorosa. Os médicos pretendiam amputar também a outra, mas o americano recebeu o auxílio de outro médico, que fez um trabalho intensivo com a perna remanescente e a utilização de remédios para erradicar a doença, algo que lhe deixou muitos anos entravado. E foi com estes problemas de saúde que ele escreveu “Invictus”, louvando a força da alma e o império da vontade sobre todos os problemas que lhe afligiam.

Impossível não pensar em Henley deitado na cama, sem uma perna e na iminência de perder a outra, sacudido por dores excruciantes e, neste cenário catastrófico, ao invés de pensar na saída fácil do suicídio ou na longa estrada da auto-comiseração, receber a inusitada visita de Calíope, Musa da Poesia, e escrever uma defesa da imortalidade do seu espírito. Não se escolhe a hora e muito menos se escolhe o momento; tudo é questão de estar atento e esperar o infinito bater na porta.

Naquele dia, naquela quadra, lutando a batalha impossível, eu entendi William Ernest Henley e o fato dele se considerar “Invictus”. Qualquer pessoa pode ser invencível se tiver confiança em si mesmo, se tiver esperança. Não existe nada maior do que a alma humana, e sempre é bom lembrar disto, por mais que tentem nos fazer esquecer todos os dias.

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Sobre perder e não querer encontrar

Sou o feliz proprietário de três exemplares de “Variedades”, do Paul Valéry. Descobri este fato hoje, após parar diante dos meus livros, um copo de água na mão, e deixar os olhos passearem, indolentes, pelas lombadas de múltiplos tamanhos, formatos e cores. De repente, com clareza constrangedora, os três exemplares idênticos se revelaram, zombeteiros.

Em um mundo repleto de livros interessantes para adquirir, e considerando-se o espaço que eles ocupam dentro das dimensões do apartamento, pareceu uma bofetada ter três livros iguais. Pude imaginar eles brincando de esconde-esconde na prateleira, esquivando-se da minha atenção e forçando-me a comprar os seus semelhantes. Ao invés de culpar a minha cegueira seletiva, preferi culpar o Valéry, cujo ensaio “Introdução ao Método de Leonardo da Vinci” é simplesmente um dos textos basilares da minha existência. Tão bom que o comprei em três ocasiões diferentes, talvez na tola esperança de que assim o retivesse com maior efetividade ou aplicasse melhor seus ensinamentos.

Ter três livros iguais é uma maneira que a minha cabeça criou para nunca perdê-los. Se fossem dois livros, eu ainda poderia argumentar um esquecimento fugaz ou um momento de distração, mas três livros é uma mensagem: você, que tantos livros importantes já perdeu, não pode perder este, precisa ter um sempre à disposição para nunca esquecer.

Mas a descoberta de três livros idênticos me fez pensar naquilo que já perdi. Como todo ser humano, perdi várias coisas, desde sentimentos até chaves de casa, passando por oportunidades e por textos inéditos. Sempre encarei a perda no sentido mais puro da palavra: ser privado de algo precioso por esquecimento ou indolência. Nos últimos tempos, contudo, comecei a considerar o ato de perder uma arte: eu perco coisas para reconhecer o seu valor, saber a dor que é não mais possuí-las. Eu perco objetos e sensações para que possa, talvez, um dia, recuperá-los.

Questiono se não existe alguma intencionalidade oculta no ato de perder algo. Os esquecimentos e perdas podem não ser objeto de acidente. Pode ser que eu esqueça coisas que não deseje mais encontrar – ou outras cujo reencontro me trará tanto prazer que perco só para poder ter este momento único que é o encontro. Perder sempre lembra desastre, mas pode ser também um ato de aprendizado, um descarte necessário que o inconsciente viu e a pessoa ainda não. Perder pode ser uma limpeza da alma.

Lembro de uma poesia da Elizabeth Bishop, que recebeu uma tradução esplêndida do Horácio Costa:

Uma arte

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.

– Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda – escreva tudo! – lembre desastre.

Elizabeth Bishop

Elizabeth Bishop

Lendo a calma com que a Elizabeth Bishop fala das coisas que perdeu no decorrer da vida, penso que boa parte das coisas que deixei de encontrar não foi por acaso, e sim por que elas mereciam ser descartadas. Assim como há um tempo de plantar e um tempo de colher, também existe um tempo de ter e um tempo de perder. Hoje, com olhos mais antigos, repudio a raiva que senti quando perdi coisas no passado. Nunca existiu nenhum desastre irreparável. Tudo aquilo que perdi pode ser reposto e, se eu perdi de tal forma que foi impossível achar o seu rastro, foi por que eu não quis encontrar ou o esforço não valia a pena.

No final da nossa história, a única coisa que realmente se perde e é irrecuperável é o Tempo.

Não sou mais tão duro e raivoso com aquilo que perdi, hoje sei que, para avançar, também necessito saber perder pesos, como um barco que se livra da carga excedente para poder flutuar com mais leveza em meio à tempestade. No entanto, descobri que certas coisas eu simplesmente não posso perder de jeito nenhum e, se perder, preciso de reposição imediata. Acabo de descobrir que tenho NOVE – sim, amigos, NOVE – exemplares de “A poética”, do Aristóteles. Sinto que, dentro do meu espírito, existe alguém gritando para que eu nunca abandone a verossimilhança neste mundo eivado de irrealidades, para que eu me mantenha real e palpável, para que não me perca no meio do bosque das histórias não contadas. Aristóteles e Valéry não deixarão que a minha alma se perca. Com guias deste porte e com tal cornucópia de livros semelhantes, posso caminhar tranquilo, sabendo dos meus limites.

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Nova resenha no Amálgama

E prosseguem as minhas resenhas no Amálgama (www.amalgama.blog.br). Desta vez, eu tratei do livro “Viagens na minha terra”, do português Almeida Garrett, uma narrativa deliciosamente caótica que pretende ser uma provocação a Xavier de Maistre: se o espanhol pode fazer um livro viajando pelo seu quartoi, por que o português não pode escrever um manual de viagem nas cidades próximas a Lisboa? Partindo deste mote, o escritor romântico se entrega a desvarios, comentários, ironias e apupos enquanto anda pelo Portugal antigo. Vale a leitura.

O link é este:

www.amalgama.blog.br/02/2013/viagens-na-minha-terra-almeida-garrett/

Boa leitura!

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Um leitor conta o seu drama: poesias matam sentimentos?

Revisitando minha novamente reagrupada biblioteca, encontro um antigo Neruda, “Cem sonetos de amor”. Ainda está com marcas, de tempo e de leituras passadas. É um bravo soldado que já sobreviveu a algumas leituras, possuindo o corpo repleto de cicatrizes. Entre elas, destaca-se um poema:

“Tenho fome de tua boca, de tua voz, teus cabelos
e pelas ruas vou sem me nutrir, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
procuro o líquido som de teus pés pelo dia.

Faminto estou de teu sorriso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome de pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como intacta amêndoa.”

Não sei por qual motivo ou circunstância destaquei este poema no passado. No entanto, ele me faz recordar uma história que um leitor me relatou. Em um conto de Nikolai Leskov, “A propósito de a Sonata a Kreutzer”, ele afirma que escritores possuem o estranho dom de atrair narrativas esdrúxulas e fazer com que pessoas venham contar-lhe histórias em busca de um conselho fora do normal ou uma visão alternativa do problema. No conto em questão, uma jovem senhora aconselhava-se com Dostoiévski (aham, ela estava mal de “escritor conselheiro”) e, diante do seu falecimento, procurou a sabedoria de Nikolai Leskov (continuou no primeiro time de escritores russos). Eu achava que este hábito das mulheres russas tinha se perdido no tempo, mas, como pude constatar nos últimos tempos, as pessoas ainda procuram escritores para confidenciar os seus problemas.

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Voltando à história: narrou o leitor que, toda vez que vai cortejar uma moça, é naturalmente impelido para a poesia. Não tem coragem para escrevê-las e, por este motivo, utiliza os autores clássicos. Todas as moças ficam naturalmente encantadas pelas palavras que lhes são ofertadas, o que o leva a continuar mandando mais e mais poesias, em um crescendo de poetas, de estilos e de imagens. O problema é que, em determinado momento, ele sente que a moça se distancia, fica fria e taciturna e a relação deles acaba esfriando. Ele acha que a poesia mata o sentimento. Em última análise, pensa que os poetas são os responsáveis tanto pelo surgimento do amor quanto pelo seu desaparecimento. Perguntou-me como fazer para identificar, no meio das poesias com que presenteava, qual era o estilo exato que matava o amor ao invés de fortalecê-lo. Ainda assim, sabia que bastava se interessar por alguma moça e logo a poesia faria o seu doce chamado e ele entraria na esparrela de mandar um poema atrás do outro até acabar com o sentimento genuíno surgido no casal.

Desconheço o motivo pelo qual me perguntam coisas pelas quais não me interesso em absoluto, mas a pergunta era gentil e a dúvida um pouco inquietante. Após alguma conversa com o leitor, analisei a situação por outro prisma. Não existia uma poesia capaz de matar um sentimento, isto era um absurdo. O problema, como sempre, estava no excesso de poesia. Eram tantas palavras bonitas, tantas imagens poéticas, tantas construções sonoras, tantos ritmos e singularidades, que a pobre moça recebia uma overdose sentimental que lhe impedia de usufruir o sentimento real. E deveria ser algo viciante, tanto para quem mandava a poesia quanto para quem a recebia, que não conseguia deixar de lê-la e tentar entender, no meio da construção e estrutura de um poema, qual a mensagem cifrada que tentava ser transmitida. O rapaz alimentava a planta do amor com água poética em demasia.

Sócrates já dizia que a literatura é algo prejudicial, pois afeta a nossa memória e nos impede o livre sentir de uma situação, que fica preso à intenção do autor. Ao encher as suas adoradas de poesia, o leitor deixava de ter uma voz e assumia o melífluo tom de uma entidade incórporea, a Musa da Poesia. Em suma: ele fazia as moças se apaixonarem por palavras, não por ele. E não é só o lutar com palavras que é uma luta vã; apaixonar-se por elas também é.

Esta história ressurgiu ao reler a poesia de Neruda. Eu já disse, em algum momento deste blog, que considero que a melhor poesia é aquela que traz, no seu bojo, uma espécie de metapoesia, um refletir sobre a sua própria existência. E o poema de Neruda trata disto, por trás da enganadora e primeira impressão de que um apaixonado sonha possuir por inteiro o corpo e a alma de outra pessoa, degustá-la como se fosse um alimento, em um sentimento tão intenso de posse que o outro precisa ser assimilado para dar conta de tamanha voracidade.

Também pode ter outro significado: é a poesia dizendo que vai devorar a alma do leitor, devassá-lo, mudar a sua vida e, no ponto final, descartar a mente utilizada como se fosse uma casca sem utilidade. A poesia fala através das palavras de Neruda, dizendo a crueldade que pretende realizar, que pretende possuir sem pena e assimilar o leitor, esvaziar os seus sentimentos.

Talvez Sócrates tenha razão e as palavras sejam realmente veneno. Talvez a poesia tenha sido criada para matar o sentimento: encarcerá-lo e destruí-lo. Talvez todos os poetas sejam pequenos assassinos caminhando impunemente pelo mundo e as palavras, suas adagas cravadas nos corações alheios, sangrando os sentimentos com a sabedoria de um urubu.

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Elogio (tardio) à poeta desconhecida

Enquanto as palavras voltam lentamente, como ovelhas assustadas pelo rasgar destruidor de um trovão, eu espero o seu retorno com a paciência de um pastor que, em meio à escuridão do mundo, só pode rezar para que elas saibam o caminho de casa. Acabo me ocupando com tarefas correlatas, como escanear as pilhas de material inédito que possuo e, assim, ganhar espaço . E redescubro dezenas de fatos do passado, alguns que eu preferia esquecer, outros que dá um certo orgulho em retomar. Também encontro uma quantidade significativa de fichas de RPG, esboços de campanhas, contos e livros iniciados e nunca acabados e, em especial, uma nada desprezível quantidade de textos bons, quase todos anteriores às oficinas literárias. Não ficarei no passado, este material é somente para consumo e estudo interno, mas está sendo interessante encontrar um outro Gustavo que eu imaginava perdido entre as caixas.

Mas também achei mistério. No caderno de Língua Portuguesa da 08a série, um pequeno envelope que nunca abri, provavelmente por que não o encontrei. Preso entre as folhas, está um envelope amarelo, com nenhuma indicação de quem o deixou entre os meus pertences. Dentro do envelope, um papel preto e, escrito com caneta cinza, o poema. Irei transcrevê-lo:

Tempestade

Descansas tranquilo

Imponente

Eterno enigma

E não me vês

Ao longe

À espreita

Observando.

Enfim o momento

Um sopro

Tensão

Apenas um raio

E te encontro.

Para o meu oceano

Com amor.

Tentei escanear de todos os jeitos para colocar aqui no blog, mas a escolha do material impossibilita esta tarefa: mal é possível ler as palavras. Acredito que a tinta da caneta cinza era mais luminosa na época em que ele foi escrito, mas, passados 22 anos desde a oitava série do primeiro grau, o cinza ficou esmaecido. Mais alguns anos e provavelmente não será mais visto, engolfado pelo preto que lhe cerca. Não deixa de ser inteligente um poema capaz de se consumir no abismo da sua própria forma.

A poesia perde o poeta, mas não perde o momento.

A poesia perde o poeta, mas não perde o momento.

Evito a curiosidade de saber quem foi a sua autora, ou o seu autor, se era minha colega ou não. Não adiantaria de nada, seria a típica curiosidade inútil. Nada da minha vida ou das minhas escolhas mudaria com este conhecimento. Provavelmente quem o escreveu – assim como eu – seguiu com a sua vida, realizou ou não o seu destino, possui uma circunstância de vida que a descoberta tardia deste poema pode acabar embaraçando. É um ato de piedade que ele continue sendo o que ainda é: uma poesia feita em um certa época da vida que foi descoberta em outra. E nada mais.

O que realmente me impressiona é a qualidade do poema, a beleza do seu formato singelo, quase um haikai. Não existem palavras descartáveis. As imagens são adequadas, exatas. A forma é quase agressiva de tão sintética. Cada verso é usado com a máxima força de significação, como se fosse uma facada. A poesia não sai da forma derramada com que éramos acostumados a escrever; a pessoa que o redigiu tinha suficiente domínio formal para escapar da tentação das imagens simples. Não só isso, a poesia tem um duplo significado: ao mesmo tempo em que se refere a um homem, ela também pode tratar do oceano. O raio não pode amar o oceano onde se despeja de forma carinhosa, o trovão não pode ser um grito para chamar a atenção das águas amadas e indiferentes?

Não me recordo de ter conhecido no colégio alguma pessoa que tivesse tamanha capacidade poética. Seja lá quem fosse, era suficientemente discreta para manter esta habilidade em segredo. Ou talvez eu estivesse cego pelas circunstâncias ou meus sensores não estivessem tão calibrados: a oitava série foi um período de especial turbulência (quem estava lá sabe exatamente do que estou falando), e as lutas foram tão intensas e cobraram preços tão altos que não é impossível que a realidade estivesse diante dos meus olhos e eu nem suspeitasse.

Mas também existe uma outra possibilidade, e é para esta que rendo o meu elogio. Talvez a poesia tenha surgido como um gêiser no meio do coração de alguém que não soubesse lidar com ela. Talvez a inconformidade, a indiferença e a minha cegueira tenham contribuído para alguém usar palavras para tentar me atingir e quebrar a resistência. Em um gesto de desespero, usando palavras como se fossem pedras, alguém tentou abrir meus olhos. E o plano acabou falhando, pois não descobri a poesia. E a pessoa pensa que eu a li e a descartei, talvez arrependendo-se do impulso que a levou a escrever.

No passado, os poetas se diziam bafejados pelas Musas. A inspiração divina era a regra. Sempre fui um descrente desta possibilidade. Sou mais prático e sigo a proporção clássica: um texto é 10% inspiração e 90% transpiração. No entanto, ao descobrir esta espantosa poesia, sinto um certo desconforto ao concluir que qualquer pessoa pode descobrir o veio de ouro do bom texto. Basta ser colocado em circunstâncias anormais de pressão e de necessidade de comunicar um sentimento que a poesia pura e forte pode aflorar. Este é objetivo principal da poesia: usar o eu do poeta para atingir o eu do leitor, fazer o sentimento sair de uma pessoa e invadir a outra. Questiono o meu convencimento: boa literatura pode sair da inspiração, pode lograr a transpiração e apresentar-se tão imaculada como no dia em que foi concebida.

Outra característica que identifico com a boa poesia é a sua possibilidade de ser metapoética. Em um momento de vida que luto com o sumiço das necessárias palavras, é consolador imaginar que elas podem estar nas nuvens sombrias do horizonte, ansiosas para voltar a me encontrar, observando o meu esforço de aproximação, mas sabendo que precisam dar um tempo de silêncio para voltar a falarem com o meu espírito.

Não sei quem foi a pessoa que escreveu a poesia. Seja lá quem for, saiba que foi um excelente trabalho. Apesar dos 22 anos que levei para receber a mensagem, saiba que ela chegou na hora exata não para mudar a minha vida, mas para mostrar que as Musas possuem desígnios e artíficios que não cabem aos humanos questionar.

Um sopro debaixo de nuvens tempestuosas também é esperança. Às vezes, alguns oceanos correm na direção dos raios.

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