Arquivo do mês: janeiro 2014

Nem mesmo eu

Acontece frequentemente comigo: as pessoas olham uma imagem, sentem-se intrigadas e resolvem me enviar aquilo que viram em busca de um diálogo, de uma explicação, de um alívio.

Não sei exatamente o que esperam receber, mas agradeço o “fio de prata” que faz a memória das pessoas ligar algum tipo de imagem ou de texto à minha pessoa. E assim eu recebo a cada semana, por e-mail ou no Facebook, várias fotos, reportagens e arquivos. Todas as imagens são vistas, todos os textos são lidos, todas as músicas são escutadas.

Eu me considero uma criatura em constante estado de perplexidade.

E foi assim que recebi esta imagem, mandada pela Susana, uma leitora deste blog. No desenho clássico de “Alice no País das Maravilhas”, feito por Sir John Tenniel, Alice levanta a barra da cortina e, atrás, em uma interposição brincalhona, está desvelada a sequência de códigos alfanuméricos do filme “Matrix”.

alicematrix

Não sei a autoria da releitura do desenho, mas a superposição de dois elementos distantes no Tempo aproxima as obras naquilo que é mais significativo em ambas: as fraturas na realidade.

Tanto Alice quanto Neo – personagem principal de “Matrix” – encararam a realidade que os cercava até ver o ponto em que o seu tecido se rompia. Alice foi parar no País das Maravilhas; Neo parou no mundo verdadeiro, aquele que está atrás da simulação. Existem várias referências ao livro dentro do filme. Não deixa de ser irônico que a pintura do livro faça aqui uma referência velada ao filme. É a subversão do esperado.

Uma vez, me perguntaram o que era escrever. Para mim, só existe uma resposta possível: encarar a realidade de forma tão intensa que é possível ver as rachaduras no seu tecido. A realidade é um quadro que, visto de longe, possui muito sentido e coerência. No entanto, quando olhamos a pintura de perto e com suficiente atenção, é possível perceber as rachaduras, as nuances na tinta, os detalhes quase insignificantes que nos autorizam a perceber outra pintura se esgueirando por trás.

Escrever tem alguma coisa a ver com olhar, mas é um olhar diferente, algo que não se faz com olhos.

Para mim, escritor bom é aquele que consegue ver o que está além da minha percepção. Escritores que tentam mostrar a realidade me dão sono: se eles ainda acreditam que o mundo é real, como eu posso acreditar em alguém que parte de premissa tão errada? Ainda acredito que, se mexer em uma cortina do jeito certo (ou errado), posso olhar uma paisagem diferente daquela que outra pessoa olharia.

São muito engraçadas estas pessoas que cobram realismo nas obras artísticas ou artistas que buscam retratar a “verdade”. Não sei o motivo delas lutarem contra a única certeza que existe: que a realidade é um constructo individual de cada pessoa.

Eu não consigo ver nada real no mundo. Nada.

Nem mesmo eu.

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Arquivado em Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll, Matrix, realidade