Arquivo do mês: junho 2014

“O segredo é não piscar”, texto publicado no jornal Correio do Povo, 24/05/2014

O “Caderno de Sábado” do jornal Correio do Povo estava fazendo um especial sobre detetives. Eu colaborei com um texto sobre Auguste Dupin, o detetive criado por Edgar Allan Poe e que praticamente inventou o gênero policial.

Foi um grande prazer voltar a ler Poe depois de muitos anos. Auguste Dupin sempre foi um dos meus personagens favoritos, nem tanto pelo o que diz, mas por sua origem misteriosa, pela sensação de ser uma história em movimento. Ele surge de forma incidental em somente três contos, três fotografias de situações em que Dupin aparece como um relâmpago de argúcia, faz uma reviravolta na trama e segue em frente. Tenho a impressão de que ele ainda caminha por aí, resolvendo os mistérios que lhe interessam e espalhando suas idiossincrasias pelo mundo.

Como está um pouco difícil visualizar o texto, abaixo da reportagem escaneada colocarei a versão original:

Auguste Dupin - Correio do Povo, 24052014 002

O segredo é não piscar

 

“O mistério não podia ser maior. Duas mulheres assassinadas de forma cruel dentro da própria casa, uma delas com a metade do corpo dentro da lareira. As janelas e portas estavam fechadas por dentro. Os vizinhos escutaram gritos em um idioma estrangeiro. A polícia pesquisa as alternativas e resolve acusar um homem, ainda que não tenha todas as explicações sobre o motivo, a forma com que ele entrou e a descomunal força empregada ao cometer os assassinatos. Ao entrar naquela casa parisiense comum, ainda inebriada pelo sangue, localizada em uma das miseráveis travessas que ligam a Rua Richelieu à Rua São Roque, Auguste Dupin provavelmente não sabia que estava dando início a todos os romances policiais que existiriam no mundo e se tornando o pai de detetives tão díspares quanto o Comissário Maigret, Sherlock Holmes e Philip Marlowe. Mais do que isso, Dupin criou um método de investigação que saiu das páginas da ficção e é seguido até hoje por detetives e policiais da vida real.

Não satisfeito em criar as bases da short story como hoje conhecemos, em fazer uma das mais famosas teorias sobre o conto (presente no ensaio “A Filosofia da Composição”) e em escrever poemas de extrema beleza (tais como “Annabel Lee” e “O corvo”), Edgar Alan Poe é considerado o criador do romance policial através das aventuras de Auguste Dupin. O detetive teve vida curta, ainda que intensa; apareceu em três contos, “O mistério de Marie Rogêt”, “A carta roubada” e “Os assassinatos da rua Morgue”. Sabemos muito pouco de Dupin. Era um poeta e amava a noite de tal forma que só saía na escuridão, mantendo as janelas de casa fechadas durante o dia. Também fumava cachimbo. Suas motivações não são claras: às vezes ele soluciona crimes por dinheiro, em outras para libertar um inocente acusado. Dupin tem o título de Chevalier, que carrega com indiferença, mas deixa no ar o mistério pelo qual foi concedido. Ele está falido e mora com um amigo cujo nome não sabemos, mas é o narrador das suas aventuras. Da mesma forma que ocorre com outro famoso ajudante de um detetive (que, talvez não por coincidência, também fumava cachimbo), este amigo sofre com as frequentes análises que Dupin faz a seu respeito, prevendo atitudes e lendo pensamentos por meio da observação implacável.

Nas páginas iniciais de “Os assassinatos da rua Morgue”, Dupin explica o seu método de raciocínio, baseado na análise fria das provas, na observação meticulosa de todos os elementos da cena e na paciência para articular cada informação dentro de uma ordem lógica que, ainda que não seja possível, só pode acabar sendo verdade. Ele não se compara ao enxadrista, mas ao jogador de damas, capaz de prestar atenção em cada mínima jogada e não pensar em ganhar, mas fazer com que o outro se desconcentre e erre. Não é por acaso que Auguste Dupin seja um poeta: somente um espírito criativo capaz de perseguir a singeleza e a música de um verso solitário por muitos anos é capaz de se deter sobre um mistério até que ele seja resolvido. Para um bom investigador, não basta a razão e a lógica; ele também precisa ser capaz de sonhar e deixar a imaginação preencher as brechas do muro da sua história. Detetives também lidam com ficção, e saber que todas as pessoas intrigadas com algum mistério são ficcionistas em potencial tentando explicar algo é um dos achados dos contos de detetive de Poe.

Conan Doyle escreveu que “cada uma [das histórias de detetive de Poe] é uma raiz da qual toda a literatura se desenvolveu… onde estava a história de detetive até Poe respirar a vida para dentro delas?”. Todas as histórias possuem um início, e Poe anuncia as bases da literatura policial e da importância da observação para os seres humanos. Auguste Dupin é a prova máxima de que não existe nenhum mistério tão intrincado que uma mente observadora não possa resolver. Enquanto o homem for capaz de raciocinar e de sonhar, nenhum segredo estará protegido, nenhuma dúvida estará intocada. Tudo é uma questão de tempo e, no jogo de damas com a vida e seus mistérios, o essencial é não piscar – e prestar muita atenção.”

(Texto originalmente publicado no “Caderno de Sábado” do  jornal Correio do Povo, em 24/05/2014).

 

 

 

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As palavras cansadas

* imagem de Hussein Zare

* fotografia de Hussein Zare

“Cansei de falar e de avisar ele, doutor. Sabe como é, as palavras também se cansam.”

Não, eu não sei como é. A cliente vai embora e me deixa com este problema: palavras se rendem ao desespero? Elas desistem de ter sentido e se tornam uma massa amorfa de sons ou sinais? Palavras cansam de ter esperança?

Sempre acreditei na força das palavras. Acredito que o mundo só pode mudar através delas. Acredito que uma palavra sempre tem algo a dizer, mesmo quando não queira dizer nada. Acredito que as guerras nascem por causa da sua capacidade de erigir fogueiras nas consciências humanas. Acredito que sentimentos iniciam e acabam com palavras. Acredito que, antes de tudo, veio o Verbo, e somente através dele o mundo conseguiu se articular.

Ainda assim, entendo que as palavras possam cansar. Todos os dias elas são vergastadas e abusadas em praça pública. O mundo inteiro fala demais e ao mesmo tempo. Ninguém procura a palavra exata, aquela que diz tudo sobre uma situação, acreditando que a enxurrada insana de termos acabará passando a ideia. Basta ler os textos que trafegam pelo nosso dia a dia ou prestar atenção na conversa das pessoas que ficará nítido que são utilizadas muitas palavras para passar uma ideia simples.

Para Gustave Flaubert, o ideal de qualquer escritor era buscar “le mot juste” (a palavra justa). A expressão exata que fecha com o pensamento. A palavra que precisa estar ali a qualquer custo e não pode ser substituída sem a perda irreparável do que deseja transmitir. Pena que, nos tempos atuais, as pessoas não procuram mais as palavras exatas, e sim buscam se comunicar bastante e com um certo frenesi. Somos criaturas cheias de palavras, se derramando impunentemente por aí.

Não surpreende que as palavras estejam cansadas. Elas não têm a mesma força que possuíam décadas atrás. Foram vulgarizadas até o extremo.  Procuram a ajuda de outros idiomas para se manterem respirando. Caminham pelas ruas e pelas casas atrás daqueles poucos que respeitarão a sua força, que tirarão o máximo de sentido da sua extensão e do seu som, que lhe darão novo oxigênio. Que lhe ressucitarão do mundo das palavras desperdiçadas.

A poesia é o último refúgio da palavra. Somente poetas sabem o valor que elas possuem, a capacidade de abrir portais no meio do deserto, a habilidade que mescla som e substância. Como neste poema da Alfonsina Storni, que trata exatamente da capacidade das palavras de cortarem as estrelas:

Dos palabras

Esta noche al oído me has dicho dos palabras
Comunes. Dos palabras cansadas
De ser dichas. Palabras
Que de viejas son nuevas.

Dos palabras tan dulces que la luna que andaba
Filtrando entre las ramas
Se detuvo en mi boca. Tan dulces dos palabras
Que una hormiga pasea por mi cuello y no intento
Moverme para echarla.

Tan dulces dos palabras
—Que digo sin quererlo— ¡oh, qué bella, la vida!—
Tan dulces y tan mansas
Que aceites olorosos sobre el cuerpo derraman.

Tan dulces y tan bellas
Que nerviosos, mis dedos,
Se mueven hacia el cielo imitando tijeras.
Oh, mis dedos quisieran
Cortar estrellas.”

Enquanto existirem poetas, as palavras nunca cansarão de sorrir.

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“O leitor não tem direitos”, texto publicado no Literatortura em 23/06/2014

Tenho uma coluna no site do Literatortura (www.literatortura.com) e este texto foi originalmente publicado lá:

homens amarrados

 

O leitor não tem direitos

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, é muito fácil me irritar. Existe uma lista de assuntos que escondo cautelosamente, capazes de me transformar no mais irascível e rabugento dos seres humanos. Não brigo por política, por religião, por futebol, por nenhum destes temas que geram debates tão interessantes. No entanto, basta tocar em um dos meus calcanhares de Aquiles e sinto a raiva transbordar dos poros como um rio invencível.

Em um congresso de Letras recente, qual não foi a minha surpresa quando o palestrante cruzou as pernas e, com ar de absoluto domínio teórico, começou uma longa explicação sobre “os direitos do leitor” em oposição às possibilidades da Literatura, de como o autor deve observar “os direitos do leitor” antes de qualquer coisa. Juro que tentei me controlar, mas não consegui. Uma sequência de pergunta minha, resposta dele e réplica minha incendiou o clima. A coordenadora da mesa encerrou o debate justo quando eu estava esquentando as baterias.

Direitos do leitor? As pessoas estão realmente falando sério com esta expressão?

Antes que me acusem de pré-julgamento: sim, eu conheço estes tais de “direitos do leitor”. Comprei o livro do Daniel Pennac, “Como um romance”, e, sim, eu o li. Em um determinado momento, o autor esculpe os supostos “direitos”, dez regras que todo leitor teria quando se depara com um livro. Recuso-me a transcrevê-las por que, além de serem de uma obviedade constrangedora, ainda possuem defeitos lógicos em que uma regra consegue anular ou conter outra. Ele não é o primeiro ser que pensa que a complexidade humana pode ser sintetizada em algumas leis simples; ora, até Deus caiu neste clichê quando fez os Dez Mandamentos. Do alto da sua experiência como professor, Daniel Pennac sintetizou o motivo pelo qual alguns livros agradam e outros não, concedendo ao leitor a chave para o sucesso ou o fracasso de alguma obra.

O leitor não tem direito nenhum. E ainda bem! Acaso tal absurdo acontecesse, ainda estaríamos “lendo” desenhos nas paredes das cavernas. Fico imaginando um mundo em que o autor formatasse seus livros para seguir o desejo do público. Seriam livros completamente insípidos. Romeu e Julieta não poderiam morrer; Heitor sobreviveria ao combate com Aquiles e os gregos iriam embora; Werther jamais se suicidaria e seria considerado um rapaz extravagante, percorrendo as ruas com suas roupas estranhas; Riobaldo descobriria o mistério de Diadorim e, por amor, largaria a travessia do Sertão para morar em alguma fazenda. Se aceitarmos que o leitor possui o direito de se acomodar na leitura e seguir seus gostos, ou que pode pular frases, páginas e capítulos (sim, até parece que, quando um autor escreve, ele coloca algumas frases sem sentido para o leitor desistir ou cansar do livro, tudo que está ali tm um motivo), também teríamos que aceitar que a Literatura não é uma forma artística que gera desconforto e reflexão, mas sim uma gostosa maneira de iludir os outros e ganhar um dinheirinho por meio de truques.

O leitor não sabe o que quer. Se soubesse, não estaria procurando nos livros. Para mim, existem poucas imagens melhores para a leitura do que “A biblioteca de Babel”, do Borges: um local onde estão todos os livros escritos e por serem escritos, em que cada livro corresponde a uma pessoa. Quando entramos em livrarias e bibliotecas, inconscientemente procuramos este livro em específico que tem a nossa história, aquela que não conseguimos contar com palavras. O drama é que, mesmo se a encontrarmos, continuaremos procurando outro livro na biblioteca infinita, achando que a história perfeita pode estar sempre no próximo, ou no próximo ainda. Como os leitores farão esta descoberta se tiverem o direito de desistir a qualquer momento ou de intervir na leitura? Nem sempre as histórias são agradáveis ou confortáveis; às vezes, precisamos atravessar um deserto de dores por 40 anos, com a promessa da Terra Prometida que nunca chega e está sempre no horizonte, zombeteira. Às vezes a história desejada não existe, e a busca por uma miragem é melhor do que a realidade.

No momento em que um autor prioriza o prazer que o leitor deve retirar da leitura ou escreve com a intenção de deixar um livro palatável, toda a Literatura se esvai. Não se pode dar ao leitor o poder de dizer o que é bom de ler. Ele é somente uma das partes da equação literária, formada por autor, obra e público, e está longe de ser a mais importante, até por que pode ser facilmente iludido por quem deseja ganhar um dinheiro fácil usando as suas emoções. Quem diz isto não sou eu, é o Schopenhauer:

“Os honorários e a proibição da impressão são, na verdade, a perdição da literatura. Só produz o que é digno de ser escrito quem escreve unicamente em função do assunto tratado. Seria uma vantagem inestimável se, em todas as áreas da literatura, existissem apenas alguns poucos livros, mas obras excelentes. […]. A condição deplorável da literatura atual, dentro e fora da Alemanha, tem sua raiz no fato de os livros serem escritos para se ganhar dinheiro. Qualquer um que precise de dinheiro senta-se à escrivaninha e escreve um livro, e o público é tolo o bastante para comprá-lo. A consequência secundária disso é a deterioração da língua.”

Schopenhauer pensa que o problema é o escritor que, diante da necessidade de sustento, produz qualquer coisa para agradar ao seu público. É algo mais frequente do que se imagina: escritores que fazem sempre o mesmo livro mudando somente a ordem das palavras, confiantes de que o leitor não verá o engodo. Eis o perigo de se dar poder aos leitores: é acreditar que a lista dos mais vendidos concentra os melhores livros ou que a vox populi é dotada de sabedoria.

Nesses tempos em que o politicamente correto impera, é muito bonito dar direitos para o leitor e considerá-lo não só o destinatário maior de qualquer obra, mas a razão de ser da sua existência. Muito bonito, mas pouco prático. Não bastando não saber o que deseja, o leitor também é mal intencionado (com todo o respeito, leitores, mas saibam que também me incluo nesta constatação). Ele começa a leitura buscando o prazer e, como uma criança mimada, exige ser satisfeito até o final. Se o autor dá a história que ele deseja, o leitor fica e, se continuar seguindo a produção do autor, vai exigir mais histórias iguais. Outros mentirão que gostaram. O erro é acreditar que, se o leitor tem direitos, ele é um bom leitor. É muito difícil de acontecer, pois os leitores são seres humanos e, como tal, igualmente falíveis. Em uma carta, Tchekhóv dá a sua opinião sobre o público:

“Escrever para este contingente não vale a pena, assim como não vale a pena dar flores para quem está resfriado cheirar. Há momentos em que fico completamente desanimado. Para quem e para que escrevo? Para o público? Mas eu não o vejo e acredito nele menos que no domovói; não tem instrução, é mal-educado e seus melhores elementos não tem consciência e são hipócritas para conosco. Se sou ou não necessário a um público desses, eu não consigo entender. Buriénin diz que não sou e que me dedico a bobagens, mas a Academia me deu um prêmio – nem o diabo consegue entender.”

Ao contrário do Daniel Pennac, não só acredito que o leitor não tem direitos, como também penso que só existem deveres no fazer literário: o autor tem o dever de desafiar a Literatura em cada mínima frase, a obra tem o dever de corresponder à intensidade do desafio proposto e o leitor possui o dever inafastável de, por meio das palavras de outrem, tentar atingir o sublime que mora no seu interior. Se não existirem estas três vontades, seria um favor que o leitor nem perdesse o seu tempo argumentando direitos que, em última análise, não passam de preguiça e de desculpas para a sua própria incompetência como leitor.

 

Publicado no Literatortura (http://literatortura.com/?p=18077)

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Conto meu na Revista Flaubert #02

Antes que vocês me xinguem: saiu um bocado de textos e resenhas meus por tudo quanto é canto, e eles são tão rápidos que não está dando tempo para colocá-los aqui no blog. Juro que irei suprir esta omissão aos poucos.

Começo agora, pois. Saiu um conto inédito meu na Revista Flaubert #02. Para quem não conhece, é uma revista online de contos, que mescla autores iniciantes e experientes. Apesar de ser uma criação recente, ela possui um grande respeito no meio literário, em especial pela qualidade do material publicado. Todo dia 15 do mês, eu baixo meu exemplar e tenho contos para o mês todo.

“Os que se arremessam” é um conto singular. Grande parte dele aconteceu de verdade, e o fantástico estar tão próximo do real é algo que sempre causa calafrios.

Também foi um conto que gerou um efeito colateral indesejado. No Facebook, recebi muitas mensagens de leitores cumprimentando-me pelo texto, mas quatro mensagens em específico foram inquietantes. Eram pessoas dizendo que, enfim, alguém tinha falado o que elas sentiam e uma delas estava “curiosa para experimentar a sensação de andar no parapeito”.  Não coaduno com nenhum tipo de suicídio ou de pensamento suicida. Não leiam procurando este intertexto. E procurem ajuda especializada se tiverem esta espécie de pensamento.

Bom, vamos ao conto:

http://issuu.com/revistaflaubert/docs/flaubert002

flaubert

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Amar os besouros, e não somente a rosa

 

Estou lendo um livro interessantíssimo, chamado “A malícia de Heródoto”, do Plutarco, tradução de Maria Aparecida de Oliveira Silva (vou colocar o link: http://www.edusp.com.br/detlivro.asp?ID=413667). Não entrarei em detalhes para não causar sono, mas Plutarco leu a “História” do Heródoto e, indignado com algumas decisões do “Pai da História”, resolveu escrever uma resposta, mostrando todas as omissões e preconceitos que tinham ficado subentendidas no texto original, em especial a mania de Heródoto de diminuir os lacedemônios por causa do seu apoio aos atenienses.

É um texto inteligente, irônico e que flui ao natural, pois Plutarco compara a versão de Heródoto com a realidade, sempre demonstrando como ele resumiu as partes que não interessavam para a sua tese e como amplificou outras em que os lacedemônios apareciam como vilões ou de forma pejorativa.

Impossível não concluir que a História é produzida não só pelos vencedores, mas também pelas pessoas que sabem escrever de forma hábil e insinuar-se dentro do texto.

Mas é no final, literalmente nos estertores do texto, que Plutarco “perdoa” Heródoto e demonstra grandeza de espírito, quando afirma:

“O que então? O homem é hábil escritor, seu discurso é agradável, há graça, engenho e elegância em suas narrativas. ‘Como o aedo ao mito com sabedoria’, não, profere com harmonia e sutileza. Sem dúvida, tais coisas seduzem a todos com tranquilidade e encanto, mas tal como entre rosas é preciso vigiar os besouros, também é sua difamação e seu maldizer, insinuados por meio de agradáveis e delicadas exposições, para que não nos escapem ao encontrarmos os absurdos e as mentiras sobre as cidades e os homens mais nobres e importantes da Grécia”.

No meio das rosas, que são o próprio livro “História”, existem besouros – as posições políticas de Heródoto ou, em última análise, o próprio autor – que não prejudicam a beleza do texto ou a sua importância. As pessoas podem ler o livro e ignorarem as partes “feias” ou podem se concentrar naquilo que não gostam e esquecer a porção “bela”. No entanto, para Plutarco, o ideal é saber que as rosas não existem sem os besouros, e a recíproca também é verdadeira.

Nos tempos atuais, as pessoas ou se encantam com as rosas ou insultam os besouros. Não existe mais o meio termo, achar que ambos podem coexistir dentro do mesmo objeto. Virou tudo ou nada, e é assustador perceber como as pessoas são capazes de ficarem cegas de forma intencional e desconhecerem que, mesmo dentro do belo, existem partes feias ou que um conjunto de partes feias também podem criar a beleza.

Eu não acredito no 100% de nada. Não acredito sequer que a realidade é 100% real. Da mesma forma, não creio que exista uma perfeição acima de qualquer dúvida, pois a perfeição é constituída também de pequenas imperfeições. Admitir que existem partes feias dentro da beleza absoluta não é tornar algo feio, muito pelo contrário: é deixá-lo ainda mais belo.

O que mais existe nos dias de hoje são textos repletos de argumentos. Em geral, eles tentam provar que um lado é melhor do que o outro. São cheios de ironias, de mordacidade, de palavras fortes, de imagens poéticas que tentam evocar sentimentos de repúdio ou de prazer. Ao mesmo tempo em que dizem que são as rosas mais lindas e puras do jardim, querem demonstrar que o outro lado são besouros fétidos que nunca tocaram nas fímbrias da beleza.

Quando leio reportagens em que homens ou mulheres afirmam o desejo de mudar a outra pessoa para encaixá-la nos seus padrões de beleza, recordo de uma palestra que dei recentemente para crianças, em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul. Estávamos falando sobre “O médico e o monstro”, do Stevenson, e a menina perguntou o que era melhor, ser o Dr. Jekyll, uma criatura beatífica e acima de qualquer impureza, ou o Mr. Hyde, um homem repleto de maldade e com os instintos à flor da pele? A minha resposta é (creio) aquela que o Stevenson gostaria de ouvir: o ideal é saber dosar o lado bom e o lado ruim, pois um é importante para que o outro exista.

O mesmo vale para os relacionamentos. As pessoas perdem muito tempo olhando rosas ou procurando besouros. O importante é saber que os dois coexistem na mesma pessoa e, se um for retirado, toda a essência do sentimento se perde. Deveríamos manter o enfoque nas virtudes, mas sem esquecer que também existem defeitos.

Plutarco passa quase 100 páginas desancando a obra de Heródoto e insistindo que as ideologias do autor contaminaram a sua isenção narrativa. No entanto, mesmo vendo tanto besouros, ele consegue ainda admirar a estrutura da rosa. Esta é a maior qualidade de um grande homem: saber que pode respeitar o opositor sem perder as suas próprias convicções. Amar a rosa não por ela ser rosa, mas sim por causa dos besouros.

rosa sombria

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