Arquivo do mês: julho 2014

Quatro fragmentos sobre amor

I

Não sou a pessoa mais indicada para escrever sobre amor. É um clichê absoluto. Todos os amores felizes se parecem, mas cada amor infeliz tem a sua própria história. Irrita-me escrever sobre amor. Quando faço (o real, não este falso que se coloca nos livros), é para uma só pessoa. Tenho dezenas de textos de amor que nunca virão ao mundo e nunca chegarão ao seu destino.

Um livro, qualquer um, se sustenta sem amor? Não. Mesmo que falasse a língua dos homens e dos anjos, se o livro não tivesse amor, ele melhor seria se fosse transformado em cinzas, o que talvez explique os pensamentos funestos que tenho em relação aos meus contos recentes.

Em “A Gaivota”, de Tchekhóv, Nina reclama que a peça não tem personagens vivas, não tem ação. “São frases escritas somente para serem lidas. E uma peça precisa sempre incluir o amor…”. Se não existe amor no livro, não existe vida e, sem ela, para que servem personagens? Um livro é um aglomerado de frases unidas pelo amor. Sem ele, são só frases.

Amor não é a única coisa que arde sem se ver. Um livro também pode arder, e nem precisa de chamas. Queima na memória – e no silêncio daquilo que omitiu. No fantasma exorcizado. Uma pira fúnebre também é um ato amoroso. Livros moram na alma, na curva onde a memória encontra o conhecimento, e um livro sem amor é uma excrescência. Prenúncio de cinzas.

Se amar se aprende amando, nada me garante que não estou no meio da lição agora.

 

II

 

Não existe mais desespero, volúpia ou abandono. A hora disto passou. É o primeiro momento da saudade, a recordação que deve ser mantida, o desejo de que o beijo rompa a barreira entre mundos – comece na carne e resvale no espírito.

Ainda assim, há esperança no beijo. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. Os olhos femininos estão fechados, e talvez as pessoas fechem os olhos no momento do beijo para se regozijarem ao abri-los e ver que o outro ainda está vivo, que o beijo os salvou da morte, como um eterno recomeço. A mão acaricia o rosto do homem, sonhando com uma pele que já foi quente. Os lábios se entregam – levanta-te e anda. Levanta-te.

“Você tem bruxaria em seus lábios”, disse Shakespeare. O amor é uma espécie de bruxaria.

 

L'ultimo bacio

L’ultimo bacio

 

III

 

É possível amar uma nuvem, uma espuma, um suspiro? Verlaine diz que sim: criou a mulher feita de neblina e de sonho, que possui a voz de todas e de nenhuma. Pode-se amar alguém que ainda não existe? Sim. O amor pode ser uma espera, uma idealização, a perseguição da sombra que se esgueira por entre paredes.

Pode-se passar a vida toda esperando? O amor não conhece tempo.

A mulher perfeita de Verlaine é uma poesia.

 

O meu sonho habitual

Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante
Com uma desconhecida, que amo e que me ama
E que, de cada vez, nunca é bem a mesma
Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.

Porque me entende, e o meu coração, transparente
Só pra ela, ah!, deixa de ser um problema
Só pra ela, e os suores da minha testa pálida,
Só ela, quando chora, sabe refrescá-los.

Será morena, loira ou ruiva? — Ainda ignoro.
O seu nome? Recordo que é suave e sonoro
Como esses dos amantes que a vida exilou.

O olhar é semelhante ao olhar das estátuas
E quanto à voz, distante e calma e grave, guarda
Inflexões de outras vozes que o tempo calou.

[tradução de Fernando Pinto do Amaral]

 

IV

Não respeita limites. Não tem medo de obstáculos. Pula muros, rouba beijos, desobedece deuses. Justifica-se por si só: aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal, diz Nietzsche.

A esposa é católica, o marido é protestante. Querem passar a Eternidade juntos e, se não for possível partilharem do mesmo terreno como sempre fizeram, basta um toque para saber que o outro está ali, atrás do intransponível muro. Um aperto de mãos e os dois sabem que estão juntos. Amar é um gesto transgressor. A ofensa extrema contra a vida que faz de tudo para exilar os amantes.

Não sou a pessoa mais indicada para escrever sobre amor. Irrita-me. Ainda assim, escrevo e, às vezes, como Pessoa, ouço passar o amor e, só de ouvi-lo passar, sei que vale a pena ter nascido.

 

Graves of a Catholic woman and her Protestant husband, who were not allowed to be buried togethe

 

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“Nós não somos heróis”, texto publicado no Literatortura em 27/07/2014

Este texto foi publicado hoje no Literatortura (www.literatortura.com). Muitas são as pessoas que, quando sabem que escrevo, perguntam qual o posicionamento político que adoto. Nunca fiz esta pergunta aos meus textos, mas imagino que as respostas deles devem ser impropérios, risadas ou muxoxos de indiferença. Deixo eles livres para que as pessoas pensem o que quiserem, não faço nada com intenção de catequizar alguém. Ainda assim, vejo muitos colegas se jactando de pertencerem a um ou a outro tipo de corrente política… tem de tudo neste supermercado de Deus. Para eles escrevi este texto e, assim como Strauss, assumo que sou uma pessoa sem maiores aspirações. Deixo os meus textos se encarregarem delas.

 

Nós não somos heróis

homem com ziper

Na semana passada, a New Yorker abriu parte dos seus arquivos digitais para consulta pública, permitindo o acesso a dezenas de reportagens e de textos de escritores consagrados. Além de serem bem escritas e exaustivamente pesquisadas, do estilo que o jornalismo atual não tem mais produzido, as reportagens tratam de assuntos essenciais que a superficialidade do cotidiano impede a reflexão.
Entre eles, o artigo “Monument Man”, escrito por Alex Ross (http://www.newyorker.com/culture/cultural-comment/richard-strauss-and-the-american-army?utm_source=tny&utm_campaign=generalsocial&utm_medium=facebook&mbid=social_facebook) conta uma história tão fantástica que é difícil crer que foi real. No dia 30 de abril de 1945, mesma data em que Hitler se suicidou, um grupo de soldados americanos aproximou-se de uma casa em Garmisch-Partenkirchen, na Bavária, com a intenção de levar seus moradores para um centro de triagem. No interior dela, um homem de oitenta anos os esperava, cercado pela família. Ele se identificou como Richard Strauss, famoso compositor de música clássica, responsável por obras como “Salomé” e “Assim Falou Zaratustra”. Ao se deparar com a incredulidade dos recém-chegados, precisando provar quem era, Strauss sentou-se junto ao piano e tocou alguns trechos de “Rosenkavalier”. Reconhecido então, o compositor foi liberado e os soldados partiram.
Alex Ross trata este fato inusitado como a América encontrando a tradição secular da Europa no meio de uma situação de conflito, elogiando a educação dos soldados, capazes de reconhecer e respeitar um rompante de cultura no meio do horror. No entanto, relatando a conversa dos americanos com Strauss, um detalhe se destacou. Um dos soldados, Raymond Berger, confrontou Richard Strauss sobre o motivo pelo qual ele tinha colaborado com os nazistas. Depois de tentar justificar as suas ações, o compositor resignadamente afirmou: “Eu não sou um herói”.
A História não preservou o tom com que esta frase foi proferida, se foi uma constatação triste ou uma afirmativa arrogante. De qualquer forma, a sua verdade é incontestável. Existe uma grande tendência dos artistas de se encararem como heróis, como contestadores, como forjadores de uma nova ordem política e econômica. A realidade é cruel na sua singeleza: não somos heróis e nunca seremos. Somos seres humanos que fazem arte, e nosso único compromisso deveria ser com ela, não com a intenção de passar uma mensagem de luta, mudança ou rompimento de padrões. Quando atravessamos esta ponte, deixamos de ser artistas e viramos panfletos.
O soldado não tinha como saber, mas Strauss não respondeu somente a sua pergunta. O compositor ultrapassou as duas guerras mundiais no seu intervalo de vida, sempre na Alemanha, o centro nevrálgico dos conflitos. Se ainda estava vivo, era exatamente por não ser um herói. Strauss era um sobrevivente: o artista deve sobreviver aos tempos em que vive e às pessoas que lhe cercam, custe o que custar. Deve também resistir à progressiva insanidade que se esconde dentro de cada criação e corrói aos poucos seu desejo de viver, e são muitos que se rendem às drogas, ao álcool ou ao suicídio. Não suficiente, precisa sobreviver à dureza da realidade, que insiste em lhe contrariar e mostrar placas com limites e regras.
Muitas pessoas confundem ser artista com ser ativista. Nada impede que um artista seja ativista, que o diga Federico Garcia Lorca ou Dostoiévski. Qualquer pessoa pode ser ativista, se tiver uma causa em que acredite ou uma realidade que acredite ser capaz de modificar. No entanto, quando o artista entra no campo político para tentar mudar o mundo, sua obra deixa de refletir a sociedade e passa a ser uma paródia das próprias ideias. Jorge Luis Borges era um peronista convicto, mas raramente seus escritos revelam esta preferência ideológica. Julio Cortázar fez vários contos e ensaios apoiando a Revolução Cubana, e a crítica é unânime em considerá-los a parte mais fraca da sua produção artística. Jorge Amado era comunista, depois deixou de ser, e foi sempre lido sob este prisma limitador.
Não sou (tão) louco a ponto de ignorar Aristóteles, que disse que todo homem é um animal político. Fazer arte sem política é tirar o caráter humano dela; entretanto, fazer arte para política não é mais arte, é propaganda subliminar. Muitas pessoas cobram dos artistas a sua posição política ou analisam a obra através deste viés, se ele é conservador, radical ou comunista, ou qualquer outro rótulo. Existe uma cobrança social sobre os artistas, como se eles fossem agentes formadores de opinião, e muitos se encaixam neste papel em busca de aceitação.
Vejo muitas pessoas fazendo obras com intenção de se tornarem heróis, com a vontade utópica de mudarem a sociedade. Não é tendo esta intenção que conseguirão. Neste aspecto, filio-me a Thomas Mann, que buscava não a perfeição literária ou a mudança social através da literatura, e sim a ética da criação. Foi assim que ele disse: “tenho para mim que, via de regra, as grandes obras são resultado de intenções modestas. A ambição não deve estar no começo, não deve anteceder a obra; ela deve crescer com a obra, que pede para ser maior do que previa o artista; ela deve estar ligada à obra, não ao eu do artista”. Quando o artista vai produzir a obra, deve fazer como Henry Miller sugeria, e esquecer de si próprio. Em um mundo cada vez mais preocupado em aparecer e opinar, a maior das ousadias é deixar a arte falar por si própria, afastando os ideais do autor.
Quando Richard Strauss afirmou que não era um herói, ele foi de extrema coragem. Admitir a própria fraqueza é um ato de liberdade. O mundo está cheio de pessoas querendo ser heróis, e nem todo artista precisa ser um. Deve deixar que os heróis se inspirem com as suas obras e as usem da melhor forma que for conveniente. Seu único compromisso ético deve ser com aquilo que está produzindo, jamais consigo mesmo e, quanto mais desejar que a obra lhe sobreviva, mesmo que precise vender a alma para tanto, maior será a sua capacidade de encontrar pessoas capazes de mudar.
Os artistas não devem pensar em salvar o mundo. Seu objetivo é muito maior: devem mudar uma só pessoa, e permitir que ela seja a alavanca que modificará o eixo do planeta. Por este motivo, o artista não deve ser o herói, e sim a espada que o guerreiro carregará consigo.

(Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/?p=18790)

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“Meu amigo, o buraco negro”, conto publicado na antologia “É assim que o mundo acaba”, em 2012

Em 2012, era muito forte o boato de que se cumpriria uma profecia maia no final do ano (20/12/2012) e o mundo acabaria.

Acho que o mundo ainda existe, mas não tenho certeza.

A Editora Oito e Meio, do Rio de Janeiro, resolveu fazer uma antologia de contos com a temática do fim do mundo, sabiamente lançada no dia 17/12/2012 (antes da data fatídica, claro). Eu participei com um conto, “Meu amigo, o buraco negro”. Foi divertido escrever sobre um buraco negro amestrado, ainda que eu suspeite mesmo que estava falando era sobre relacionamentos e sobre solidão.

O livro é muito bom, tem contos de excelentes escritores que eu admiro muito, e pode ser adquirido no link da própria editora: www.oitoemeio.com.br/catalogo/page/3/

 

 

 

 

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Meu amigo, o buraco negro

                    Estava fazendo a barba quando percebi, refletido no espelho, um pequeno buraco em meio aos azulejos. Escuro. Não devia ser maior do que a ponta do polegar. Engraçado que eu nunca o tenha enxergado antes. Morando a seis meses de aluguel naquele apartamento, frequentando as aulas do curso de filosofia meio sem saber se queria acabar, trabalhando todo dia em uma empresa de informática, eu entrava no apartamento praticamente para dormir. Nos finais de semana, para compensar o cansaço da rotina, ficava jogado na frente da televisão, trocando de um canal para o outro sem nunca concluir um programa por completo. Não tinha criado vínculo suficiente com aquele apartamento para saber das portas tomadas por cupim, dos desníveis da parede, das marcas de umidade. Não espanta que nunca tenha visto o buraco. Perguntei-me por quanto tempo ele vigiava o que eu fazia no banheiro. O pensamento era desconfortável: senti-me como se tivesse descoberto uma câmara oculta.

Aproximei-me do buraco. Ele era feio, disforme. Representava uma mácula na perfeição dos azulejos beges. No entanto, existia algo fascinante nele. Era um olho aberto no meio do infinito. Coloquei o polegar para tapá-lo e a súbita sucção quase arrancou o meu dedo. Pulei para trás, imaginando que tinha tocado em alguma fiação desencapada. O dedo latejava e eu vi que por pouco não tinha quebrado o osso. Durante o resto do dia, a dor incomodou, em especial quando eu tentava escrever durante as aulas. Contudo, a lembrança do buraco na parede do banheiro era ainda mais perturbadora.

Cheguei em casa e imediatamente fui ao banheiro. O buraco continuava parado, fingindo inocência. Resolvi tapá-lo com papel higiênico. Eu morava sozinho em um apartamento alugado: por que iria me preocupar com aquele buraco a ponto de contratar um pedreiro ou comprar massa corrida para fechá-lo? Enrolei um pedaço de papel higiênico, molhei para que ele ficasse mais firme e o inseri no buraco.

Vutz. O papel foi engolido. Eu recuei. Ao mesmo tempo, o orifício pareceu ficar maior. Pouco maior, é verdade, mas diferente do anterior.

Tinha alguma coisa estranha acontecendo no banheiro de casa. E era um organismo vivo. Não sei como surgiu, e nem me interesso em saber se este tipo de coisa anda à solta pelo mundo. O fato é que eu era o proprietário de um buraquinho. E bem faminto, pelo visto.

Longe de ser inquietante, aquela ideia me comoveu. Não sei explicar direito o motivo. Mas, aquele buraco sem pai, sem mãe, sem amigos, sem namorada, condenado a passar o resto da vida na parede de um banheiro malcheiroso, deixou-me com vontade de chorar. Devo admitir que ele possuía um estranho charme, uma capacidade de atrair o olhar mesmo sem querer, uma postura misto de indiferença e interesse. Além disso, parecia me acompanhar com o seu olho negro e único, fazendo-me sentir a razão da sua existência.

Por este motivo, decidi adotar o coitado. Alguns possuem animais de estimação, outros vasos de flores; eu teria um buraco. Não morava com ninguém no apartamento, não tinha namorada, passava o dia todo no trabalho e na faculdade. Seria legal ter um companheiro, alguém com quem pudesse dividir os pensamentos, um buraco que pudesse engolir os meus dramas e pequenas alegrias em silêncio. Todos os dias de manhã, eu tomava banho ao mesmo tempo em que conversava com o buraco. Fazia o café na cozinha e o levava até o banheiro, recostando-me na pia enquanto comentava as notícias do futebol, as frustrações amorosas, os problemas que enfrentava com alguns professores da faculdade. Ele era extremamente compreensivo; em alguns momentos, talvez por causa dos ângulos da luz, eu identificava compaixão no seu profundo, mas era uma impressão tão rápida que logo desaparecia. Eu sentia como se o buraco – e a imensidão negra que existia por trás dos seus limites tímidos – fosse capaz de absorver todo o meu desconforto, dar um sentido para o vazio absoluto que era a minha rotina.

O buraco podia manter-se quieto, mas não estava parado. Às vezes, o pó de azulejo no chão sugeria que ele tivesse comido algum pequeno pedaço da parede, crescendo um pouco. Com o polegar, eu já era incapaz de fechá-lo, necessitando talvez de uma mão espalmada. Contudo, a lembrança do ocorrido com o polegar ainda me impedia de cometer outro deslize.

Certo dia, estava conversando com o buraco quando vi uma barata entrar no banheiro. Não tinha nada que pudesse usar para matá-la e, por este motivo, fui até o quarto procurar o chinelo. Ao retornar, percebi que a barata escalava com lentidão a parede do banheiro, indo na direção do buraco. Nunca tinha visto tal cena: ele parecia lamber a barata com promessas lúgubres, atraindo-a com a sabedoria do pescador que enlaça um peixe impossível. Quando a barata chegou na beira do buraco, foi tragada com volúpia. A ausência de som foi aterradora. Contudo, o que me deixou mais impressionado só descobri algumas horas depois, durante uma aula sobre Habermas: a barata não questionara o seu destino. Ela simplesmente desistira. Era de se esperar que qualquer ser tentasse preservar a vida, não marchar para o desconhecido com passos resignados. Estar por perto da presença negativa do buraco drenava a vontade de viver.

Vendo que o buraco gostara de se alimentar, no dia seguinte eu trouxe um sanduíche para ele. Coloquei na sua proximidade e o sanduíche foi arrancado da minha mão, indo para a escuridão eterna que espreitava os cantos do meu banheiro. Continuei conversando com ele e era uma sensação boa. Nunca tinha desenvolvido muitas amizades. Sempre fui uma pessoa fechada ou, como as outras pessoas gostavam de dizer, um esquisito. Travar um relacionamento com o buraco me fizera notar o quanto eu sentia falta de conversar com outro ser, mesmo que fosse uma criatura sem alma que se alimentava de insetos e sanduíches. Eu era mais sozinho do que imaginava e, por mais paradoxal que possa parecer, o buraco preenchia um grande espaço na minha vida.

Não lembro quanto tempo levou, mas era evidente que, um dia, o buraco ia se cansar da dieta de sanduíches. Ele estava enorme, tinha engordado um pouco. Tomava o formato de um corpo humano; eu via a cabeça se desenhando, os braços destacando-se do tronco, a divisão instável das pernas. Não podia comentar com ninguém sobre aquele vazio que estava tomando forma na minha casa, mas tinha curiosidade em imaginar como seria depois que ele se formasse. A nossa amizade continuaria? Viraríamos estranhos? A expectativa era imensa. Talvez a distração com que eu caminhasse por aqueles dias fez com que, ao retornar do armazém, só visse o gato da vizinha quando ele estava no meio da sala. Sem mover um centímetro para o lado, os passos mansos o levavam para o banheiro. Gostaria de dizer que antevi o que ia acontecer, mas permaneci estático, vendo o gato caminhar até o buraco, deter-se na frente e, do nada, ser puxado com força para o seu interior.

Corri até o banheiro. Não havia mais nem vestígio do gato. O buraco parecia lamber os lábios escuros, com a satisfação de quem comeu uma bela refeição. Gritei com ele, não devia ter feito aquilo! A sombra que se espalhava por entre os azulejos me encarou em silêncio, soturna. Apesar de não emitir resposta, senti que não estava contente com a minha recriminação. Mais infeliz estava eu: não podia perder o buraco. Ele era o meu melhor amigo, a namorada que nunca tivera. E se ele sumisse do apartamento e fosse para outro local? A bronca acabou encerrada com trêmulos pedidos de desculpa.

Naquela noite, não consegui dormir. Estava tão agitado que acabei indo para o único local da casa que me acalmava: o banheiro. No meio da escuridão da noite, o buraco tinha uma negritude diferente, ele parecia ser mais escuro do que a própria inexistência de luz. O buraco era o vazio, era o nada. Ele se alimentava da escuridão da mesma forma com que comia baratas, sanduíches e gatos. Encostado na pia, eu o encarei fixamente e nunca me senti tão próximo do ser que estava do outro lado. Seria Deus? Uma dimensão paralela? Ou será que existia outro eu por trás daquele espelho distorcido? Com um gosto ruim na boca, lembrei das palavras de Nietzsche: quando você olha para dentro do abismo, ele olha para dentro de você. A questão é: o que o abismo estava vendo?

Na manhã seguinte, meu sono foi despertado pela vizinha. Ela estava procurando o gato. Parada na porta, a mulher de roupão lançava olhares longos para dentro do apartamento. Pensei em afastá-la, pensei em fechar a porta na sua cara, salvá-la, mas sabia que não era possível. O buraco estava com fome, e esta nunca mais ia acabar. E o que um amigo pode fazer para outro, a não ser ajudá-lo? Convidei a vizinha a entrar e fui buscar uma xícara de café. Da porta da cozinha, vi o banheiro cantar o seu cicio hipnótico. Com passos vagarosos, a vizinha dirigiu-se até o buraco. E eu não mais a enxerguei.

Ela foi a primeira pessoa que se abandonou ao abismo. Nos outros dias, mais pessoas começaram a surgir. No início, eram viciados em drogas, alcoólatras, fugitivos da polícia. O buraco chamava aqueles que estavam mais próximos dos seus limites. Ninguém sabia o que estava indo fazer no apartamento. O chamado vinha e era invencível.

Contudo, antes de entrar no banheiro, por uma questão de cortesia, os recém-chegados sentam na minha sala e contam as suas vidas. Eu sirvo chá, às vezes bolachas. A proximidade do fim faz com que eu ouça as piores confissões, pois não há mais nada a perder escondendo a verdade. Não forneço julgamentos ou opiniões; limito-me a escutar. Alguns esperam um perdão ou uma maldição que não cabe a mim conceder. Outros me dão dinheiro, com o qual mantenho a minha vida. Larguei a faculdade de filosofia; aprendi mais sobre o homem escutando as suas naturezas mesquinhas do que uma aula pode ensinar. Tendo dito os segredos que estavam engasgados há muito tempo, as pessoas vão até o banheiro e o buraco as faz contemplar a própria eternidade.

O movimento tem se tornado cada vez mais intenso. Está ficando difícil encontrar uma hora vaga para descansar. Os vizinhos que reclamavam da fila no prédio sumiram no buraco há muito tempo.

Hoje, dou muita risada quando vejo na televisão anúncios de que o mundo vai acabar por causa do aquecimento global, de uma guerra nuclear, da queda de um asteroide. O mundo já está acabando, um punhado de cada vez. O buraco está liquidando com a humanidade, um por um, até que não reste mais ninguém. Não se preocupe, amigo ou amiga: quando você vier na minha casa, terei o chá lhe esperando, os biscoitos no pote e os ouvidos prontos para escutar os seus pecados. Será o nosso pequeno encontro em Samarra.

Quando o buraco acabar de devorar com as pessoas, vai começar a engolir prédios, árvores, casas, oceanos. Por fim, quando não restar mais nada no mundo, talvez ele lembre do seu único amigo. Neste momento, virará para mim os seus olhos eternos e, talvez, eu então entenda que nunca existiu um buraco, que eu – e somente eu – sempre fui o buraco negro.

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A maravilha silenciosa

É uma pena que perdemos a capacidade de nos maravilhar.

Vale em todos os sentidos, desde a experiência de se sentir arrebatar por uma obra de arte até aquele dia em que você olhou uma pessoa e descobriu que ela estava diferente de todos os outros dias. O mundo seria um local bem melhor se todos cedessem às maravilhas do cotidiano e permitissem que o encantamento aflorasse. No entanto, preferem ficar em uma postura impassível, como se tudo o que acontece fosse enfadonho. Como se as maravilhas não existissem.

Quem me conhece sabe que, se existe algo que me une a Montaigne, Freud e Darwin, é a nossa admiração pelos “quartos de maravilhas” ou “gabinetes de curiosidades”. No passado, em especial na época dos Grandes Descobrimentos, as pessoas destinavam um quarto das suas casas para guardar objetos diversos que representavam outras culturas e povos. Para um observador incauto (ou dessa modernidade asséptica em que se prega justamente o exíguo ao contrário da estranheza), poderia se assemelhar a um bando de badulaques reunidos no mesmo local. No entanto, para quem fosse capaz de “ler” os objetos, eles não estavam ali reunidos por uma questão de acumulação, mas por causa das histórias que contavam. Eram pequenos portais abertos para outros mundos. Bastava alguém perguntar o que era um objeto que a história contida nele o transportaria para outro local e tempo.

Gabinete do boticário Ferrante Imperato (1521-1609)

Gabinete do boticário Ferrante Imperato (1521-1609)

Orhan Pamuk escreveu um livro muito interessante, “O Museu da Inocência”, em que a sequência de objetos prosaicos dentro de uma casa contém uma história de amor fragmentada. Todos possuímos um “quarto de maravilhas” particular, representado pelos objetos que adquirimos, mas poucos assumem a ideia de ter maravilhas à solta na sua casa. Ninguém faz como Montaigne, colecionando objetos do Novo Mundo com cada barco que chegava, ou como Darwin, pegando uma lembrança de cada local em que o Beagle aportou.

Às vezes, imagino Freud, Montaigne e Darwin sentados nos seus “quartos de maravilhas” à contraluz, deixando os objetos sussurrarem histórias mágicas. Imagino se eles compartilhavam maravilhas, como se existisse um túnel no tempo e no espaço as unindo. Interrogo-me se Freud, fumando o famoso charuto, olhasse um determinado vaso, poderia ter o mesmo pensamento que Darwin contemplando a  estrutura fossilizada presa em uma rocha ou que Montaigne olhando uma máscara tribal na sua prateleira. As maravilhas estão interligadas, tudo depende do quão longe se consegue caminhar dentro do sonho dos objetos.

Ontem, tive uma uma agradável surpresa ao descobrir que os “quartos de maravilhas” também existem nas pinturas. Sempre fui atraído por pinturas enciclopédicas, como galerias de arte ou bibliotecas, em que uma série de objetos e cenas eram retratados.

O quadro que me revelou esta transposição do conceito de maravilhas reunidas dentro de uma sala para o interior de uma pintura foi “Alegoria da Visão”, pintado entre 1616 e 1617 como parte de uma série de cinco pinturas intitulada “Os Cinco Sentidos”. A obra foi feita em conjunto por Jan Brueghel o Velho e Peter Paul Rubens.

"Alegoria da Visão", Jan Brueghel o Velho e Rubens

“Alegoria da Visão”, Jan Brueghel o Velho e Rubens

À primeira vista, parece uma sala cheia de objetos em que uma mulher e uma criança conversam. No entanto, submergindo nos detalhes, as maravilhas surgem: a mulher é Vênus, a Deusa da Beleza, e a criança é Cupido, seu filho e Deus do Amor. O quadro que Cupido mostra para a mãe é “A cura de um homem cego”. Aos seus pés, uma luneta; ao fundo, um astrolábio e, no meio, um globo terrestre.  Atrás de Vênus, um quadro mostra o arquiduque Albert e sua esposa Isabella, proprietários da coleção imaginária. Um tapete persa revela a riqueza do Arquiduque. Na direita, um corredor revela a existência de outras artes que não estão representadas na pintura, deixando entrever que ela é somente parte de um todo muito maior. A porta aberta ao fundo revela um jardim e o Palácio de Maremont, revelando detalhes arquitetônicos. Alguns dos quadros de Rubens estão representados no interior da pintura, assim como os bustos revelam admirações filosóficas e políticas onde se misturam – provavelmente – as ideias do Arquiduque com as dos pintores.

Os detalhes que descobri são apenas detalhes, pois a pintura se abre para um infinito de maravilhas e possibilidades entremeadas. Existem muitas histórias concentradas em somente um local, e mergulhar nelas pode ser inebriante.

No entanto, a maior de todas as maravilhas não está no quadro, e sim no seu silêncio.

“Alegoria da Visão” é uma obra única desenhada por dois grandes pintores. Analisando o estilo, podemos ficar satisfeitos ao constatar que Rubens desenhou as figuras humanas e Brueghel desenhou todo o resto. No entanto, ninguém será capaz de imaginar as conversas que os dois pintores tiveram no atelier, a forma cuidadosa com que dispuseram cada parte do desenho a fim de que entrasse no quadro, as discussões políticas e posicionamentos filosóficos que desejavam transmitir para o mundo. Não sabemos sequer se o Arquiduque deu ideias ou se os dois pintores, agindo com saudável transgressão, não colocaram diminutos pontos irônicos e símbolos que somente eles entenderiam. A obra pode conter a semente da destruição dos próprios conceitos, e nós nem suspeitamos.

Não podemos nem sonhar se eles discutiram, se brigaram, se ficaram sem se falar ou se cada um completava a arte do outro ao natural, como se fossem parte do mesmo espírito criador. Não sabemos se um pintor improvisava e o outro corrigia, se a respiração do primeiro desconcentrava o outro, se eles conseguiam ver – nas sombras da sua imaginação – o mesmo quadro. Eu consigo conceber Michelangelo olhando o “Moisés” escondido dentro da pedra. Contudo, não imagino como duas pessoas possam estar diante de uma tela em branco e ver a mesma obra inexistente.

A maior maravilha do quadro é que só podemos imaginar como ele foi feito e, mesmo se acertarmos, ainda assim nunca teremos certeza. Talvez esta seja a maior lição de um “quarto de maravilhas”: o mais incrível não são os objetos que estão no seu interior, e sim a pessoa que os reuniu e viu o mundo através deles.

Quando qualquer pessoa une uma série de objetos em uma parede ou prateleira, ela também faz um “quarto de maravilhas”. Perdemos a capacidade de nos maravilhar conosco mesmo, mas não abandonamos o sonho de que cada item possui a sua própria magia – esquecendo-nos de que a maravilha está mesmo é no olho do colecionador, e não no tamanho da sua coleção.

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“Um mundo com mais poesias e menos poetas”, texto publicado no Literatortura no dia 20/07/2014

Tem texto novo meu no Literatortura (www.literatortura.com), e eu o trouxe para cá. Apesar de ser uma pessoa cheia de amigos poetas, e de saber que a paranoia vai rolar solta após a leitura deste texto, as pessoas que eu estava pensando sabem muito bem quem são – espero que parem de enganar por aí.

Considero importante refletir sobre o que seja poesia e que os leitores aprendam a separá-la daquilo que é poema. Uma sociedade que não sabe ler poesia é uma sociedade que não tem chance alguma de evolução.

 

Um mundo com mais poesias e menos poetas

 

Somnolence 04 - by Anders Gressli

Somnolence 04 – by Anders Gressli

Nos tempos atuais, é mais fácil achar um unicórnio rosa do que uma boa poesia.

Quando falei esta frase no meio de um grupo de literatos que justamente elogiavam a quantidade de livros de poesia chegando às livrarias, fui encarado com desconfiança e, em seguida, a conversa se direcionou para águas mais calmas. No entanto, longe de ser algo rabugento, foi uma afirmativa exasperada: onde estão as poesias? O que fizeram com elas?

Não se iludam pela quantidade. O mundo está cheio de poemas. Acessem qualquer rede social e serão encharcados por poemas de todos os tipos. As livrarias passaram a contar com prateleiras dedicadas aos livros de poemas, algo impensável anos atrás. Muitas pessoas se identificam de forma orgulhosa como poetas e existem escritores que inclusive afirmam fazer algo chamado de “prosa poética” – um eufemismo para “olhem só como eu escrevo bonito” -, mas, na verdade, as pessoas sequer sabem a diferença entre poema e poesia. Poema é a forma, poesia é o sentimento. Qualquer um pode fazer um poema, pouquíssimos fazem poesia. A melhor definição de poesia ainda é aquela que o Paul Valéry deixou: “A poesia é a intenção de representar, mediante os recursos artísticos da linguagem, aquelas coisas que as lágrimas, as carícias, os beijos, os suspiros, etc., expressam vagamente.” Pensando nisto, em quantas poesias você sentiu a lágrima do outro correr pela sua face, ou a sensação de lábios invisíveis contra os seus, ou o toque sensível que passou toda a compreensão necessária para um momento de angústia, ou o suspiro que você não deu se espalhar pela sala?

Existem muitas pessoas escrevendo poemas e, talvez por este motivo, seja cada vez mais difícil achar a poesia. Ao contrário do que se imagina, poesias não se fazem com palavras soltas no meio do papel, nem com jogos estéreis de som e muito menos com imagens edificantes ou lições de vida. Aristóteles dizia que “a natureza abomina o vácuo” e, assim, a natureza precisa extirpar a poesia do vácuo, precisa dar-lhe forma para que possa ecoar no vácuo interno de outros seres humanos. Dizia Gaston Bachelard que “a poesia ensina a respirar bem”. Poesia é respiração.

Nos tempos modernos, por causa da velocidade da leitura e da busca constante por mais produção (ou estar na mídia), vejo alguns escritores apresentando livros de poemas como uma forma de publicar algo que não seja muito trabalhoso. É a estratégia do “não tenho tempo para fazer algo mais trabalhado, vou jogar algumas frases bonitas em um papel, dizer que é uma poesia e, depois, publicar”. É um jogo ardiloso: quem será capaz de criticar o “eu lírico” de um escritor sem criticar o eu físico? Quem pode dizer que ele não sabe arquitetar imagens poéticas, se sabe manusear palavras? Quem poderá mostrar que o rei está nu, se a poesia é diferente da prosa e, em tese, aceita tudo o que esteja na forma de poema?

O pensamento está invertido. É muito mais difícil fazer uma boa poesia do que um texto em prosa. A facilidade da forma só deixa mais difícil ainda esconder os problemas de estilo. Para um leitor atento, a poesia malfeita inclusive desconstrói a prosa do autor, mostra a planura dos seus sentimentos, os defeitos da sua visão de mundo. Existem momentos em que é melhor ficar em silêncio e, se for para concretizar uma poesia ruim, mais apropriado seria preservar as palavras ao invés de desonrá-las. Palavras também possuem sentimentos.

Ainda assim, existe o aplauso das multidões a dar suporte para os maus poetas. Por muito tempo, não entendi como as pessoas podiam saudar poemas ruins e passá-los adiante como se fossem maravilhosos, até o momento em que percebi que boa parte destes poemas versam sobre mensagens dignas de autoajuda ou sobre sentimentos como saudade, amor e tristeza. É o público da literatura de autoajuda e das novelas se ramificando para dentro dos poemas, confundindo por completo aqueles que buscam as verdadeiras poesias.

Muitas pessoas acham que o verso livre permite tudo em termos de poesia. Estão erradas. Os poetas que usaram o verso livre conheciam – e estudavam – as formas clássicas de poesia e, exatamente por este motivo, foram capazes de transgredi-las. Não existe isto de alguém sentar, escrever dez frases bonitas e indiferentes e chamar de poesia. O verso livre é a poesia mais impossível de ser encontrada, pois tem rimas e ritmos que só se tornam visíveis pelos sentidos, fora de uma lógica cartesiana. Para achá-la, é necessário se perder, ser como o albatroz que mergulha do céu na esperança que o cintilar das águas seja um peixe, e poucos tem tamanha coragem.

Falta educação poética para os escritores e, por consequência, para o público leitor. Faço meu depoimento: não gostava muito de poesia. Nos últimos dez anos, por influência decisiva da minha professora Léa Masina e da sua “dieta de poesia” (ler uma poesia por semana; ainda não cheguei ao uma poesia por dia, mas já ultrapassei o uma poesia por mês, algo alvissareiro), acabei lendo muito. Também estudei bastante, li os teóricos e aquilo que os grandes poetas ensinaram. Tive minhas próprias ideias sobre poesia e, agora, sou capaz de entendê-las (e me aterrorizar, pois ler poesias, para mim, é a própria extensão do medo) e até escrevê-las. No entanto, o maior respeito que eu tenho para as minhas poesias é evitar que venham ao mundo enquanto não forem dignas e, por este motivo, sei que dificilmente deixarão minhas gavetas. Não tenho pressa alguma para acertá-las; deixo elas respirarem sozinhas.

Em um artigo para o Jornal do Brasil veiculado em 20/07/1974 e intitulado “A educação do ser poético”, Carlos Drummond de Andrade afirma que “o uso da escrita poética na idade adulta costuma degenerar em abuso que nada tem a ver com a poesia. Fazem-se demasiados versos vazios daquela centelha que distingue uma linha de poesia, de uma linha de prosa, ambas preenchidas com palavras da mesma língua, da mesma época, do mesmo grupo cultural, mas tão diferentes”. A poesia precisa ser reconquistada e deixar de ser abusada por maus poetas. Ainda que a sua capacidade de se autoinventar seja infinita, o mundo seria um local bem melhor se os poetas respeitassem mais as poesias e menos a facilidade enganadora das imagens poéticas fáceis.

(Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2014/07/um-mundo-com-mais-poesias-e-menos-poetas/ )

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Ontem morreu um poeta

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Ontem morreu um poeta.

Eu não o conhecia. Não pessoalmente, mas li seus versos, o que é ainda melhor do que conhecer alguém. Conversamos duas vezes, a primeira por motivos acadêmicos e, na segunda, ele mostrou as suas poesias. Eram boas. Fortes. Viscerais. Tinham que ser trabalhadas, mas o que não precisa ser? Assim como eu, ele admirava os sonetos. E calculava as sílabas poéticas, o que é um anacronismo nestes tempos de versos fáceis tão semelhantes a slogans publicitários.

Eu disse para ele prosseguir escrevendo. O poeta disse que precisava se encontrar. Não resistiu ao encontro.

Ontem morreu um poeta, mas todos os dias morrem poetas ao redor do mundo. Alguns tiveram a felicidade de encontrar a própria voz, outros consumiram a vida esperando que ela surgisse. Alguns foram publicados ou lidos, a grande maioria preferiu o silêncio. Existem aqueles que mataram a poesia antes que ela conseguisse sair e aqueles que preferem morrer como poetas silenciosos, anônimos.

Quando um poeta morre, para onde vão as poesias que estavam dentro dele? Prefiro pensar que se libertam pelo mundo, procurando pessoas sensíveis, o que implica em dizer que ainda respiramos as poesias de Shakespeare, de Camões, de Petrarca. Que, por sua vez, também respiraram outros poetas, e assim por diante, até chegarmos à misteriosa origem, o dia em que alguém sentiu algo maior crescer dentro de si e precisou libertar.

Não acredito que as poesias se percam para sempre. Não posso admitir que, quando um poeta morre, todo o universo que estava no seu interior desapareça junto. Imaginar isto é imaginar um mundo em que a poesia morre aos poucos, uma gota de cada vez.

As pessoas só morrem quando permitem que a morte se aproxima. A morte de um poeta não existe enquanto existir poesia. Lembro aqui do poema do Yeats, que gosto tanto:

Death

Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone –
Man has created death.

Um poema de Yeats em que a tradução do Péricles Eugênio da Silva Ramos faz plena justiça ao original:

Morte
Medo não tem, nem esperança,
Um animal a agonizar:
Aguarda um homem o seu fim,
Tudo a temer, tudo a esperar;
Já muitas vezes morreu ele,
As muitas vezes retornando.
Em seu orgulho, um grande homem,
Homens que matam enfrentando,
Sobre a substituição da vida
Atira um menosprezo forte;
Sabe ele a morte até os ossos
– Foi o homem quem criou a morte.
Se o homem criou a morte, cabe a ele também descriar. Por isto, ontem não morreu um poeta. Enquanto estivermos lendo, escrevendo e sentindo poesias por aí, ele estará entre nós. Uma dinastia de poetas fantasmas que dão sentido a este mundo onde impera o absurdo.

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“Ternos e café”, texto publicado no blog Las Meninas em 23/04/2013

Em abril de 2013, a Laura Ferrazza – esposa do meu colega escritor José Francisco Botelho e que, na época, eu nem conhecia pessoalmente – pediu para que eu escrevesse um texto para o lindo blog dela e de suas amigas, o Las Meninas (http://lasmeninasmoda.blogspot.com.br/).

“É um blog sobre moda, Laura! O que eu posso escrever?” É sempre perigoso me deixar com o assunto livre, mas ela correu riscos, e o resultado foi este texto sobre café, sobre o Uruguai, sobre o Edward Hopper, sobre o ZZ Top, sobre Juan Carlos Onetti e, claro, sobre ternos.

 

Ternos e café

 

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Na primeira vez em que estive no Uruguai, não me chamou tanta atenção as carnes fumegantes nas parrilas, o famoso medio y medio do Mercado del Puerto, a onipresença da figura de Artigas ou a solenidade atemporal de Montevidéu. Os detalhes eram mais significativos: a polidez dos uruguaios, as livrarias repletas de pessoas nas tardes da semana, os espetáculos de tango que irrompiam do nada no meio das praças.
Contudo, entre todas as impressões, a que guardo com mais espanto foi ver, no final da tarde, homens das mais diferentes classes sociais colocarem os seus melhores ternos e blazers e irem para a rua. Não eram blazers modernos ou que chamavam a atenção; ao contrário, eram casacos cansados, alguns desiludidos e que tinham vivido tempos melhores, puídos e simples, mas, ainda assim, resistentes. Eram ternos fiéis, feitos por alfaiates cujos nomes somente o tecido ainda lembrava. Parte dos homens usavam gravatas antiquadas ou que não combinavam com as camisas, em nós desleixados e amplos, não sufocando o pescoço. Os mais velhos colocavam chapéus, que revelavam insuspeitada distinção: eram panamás, chapéus coco, boinas e vi até uma cartola desajeitada, mas ainda orgulhosa. No entanto, a grande maioria deles vestia uma calça social e um blazer sobre a camisa, deixando a cabeça descoberta. Nos pés, sempre sapatos, imaculadamente engraxados.
Para meu espanto, esta estranha procissão não se dirigia para algum lugar que necessitasse de uma roupa mais formal, como um museu ou o Teatro Solis. No Brasil, vejo as pessoas acostumadas a usarem terno por razões profissionais ou compromissos, como formaturas, casamentos ou enterros. Por serem trajados em ocasiões sérias, os ternos possuem diferentes idades e estilos, aparentando certo desconforto em corpos que não mais lhe correspondem, tanto que, na primeira oportunidade, as pessoas se livram deles com a alegria de Papillon escapando da prisão. Contudo, os uruguaios pareciam acostumados a usarem ternos, como se fossem tigres experimentando a pele correta, como se o anormal fosse estar com outra vestimenta que não o terno.
Sem conversar entre si, irmanados na sua posição de homens vestidos como se fossem soldados de uma tropa desconexa, eles se dirigiam até cafeterias. Sentavam sozinhos em uma mesa e espiavam os cardápios, buscando o café ideal para encerrar a jornada antes de retornar para as suas famílias. Alguns compartilhavam mesas, mas as suas conversas eram com o mínimo de sons e o máximo de significados, algo tão mágico que é impossível de explicar, ainda mais se considerarmos o histrionismo das comunicações contemporâneas. As cafeterias não tinham televisões ou pessoas inoportunas, tinham um garçom (também vestido com compostura fora de época) ou um atendente ocupado em lustrar os copos esperando uma enxurrada súbita de clientes desconhecidos. O tempo parecia parar nas cafeterias uruguaias, enquanto os homens mergulhavam no silêncio das xícaras.
Fascinavam-me os idosos que, vestidos com o máximo de elegância que a sua condição social propiciava, sentavam-se junto às mesas, o rosto emoldurado por fumaças, e ficavam em silêncio absoluto, imersos nas suas RUGAS repletas de sombras. Era inevitável perguntar-me o que estavam sentindo ou pensando. Em tudo, eles pareciam apologias à solidão. Lembravam muito os quadros de Edward Hopper, com homens ou mulheres em cenários amplos que refletem e intensificam o silêncio, a reflexão, a angústia singular de ser um humano sozinho neste mundo repleto de vozes e peles, fúria e poeira.
Nesta época, cunhei uma frase que sempre me remete às paredes circunspectas de Montevidéu: “os uruguaios são um povo tão digno que, para tomar um café, precisam vestir ternos”. Toda generalização é perigosa, ainda mais quando se trata de um país inteiro, e logo vi que estava incorrendo em um equívoco. Os uruguaios não vestem os ternos para tomar um café; eles colocam as melhores roupas por que consideram um ato de respeito ao outro saírem aprumados e com a dignidade que eles merecem ver. Não se vestem para si mesmos ou para impressionar; estão mais preocupados em deixar o outro confortável sabendo que viram alguém trajado de forma digna. O maior ato de respeito que uma pessoa pode se dar é vestir-se de forma apropriada à sua situação. Eu já enxerguei mendigos vestidos de forma mais condizente do que altos empresários.
O que acaba me levando a uma constatação que, apesar de novamente generalizar, aparenta ser universal: quando um homem quer se sentir bem vestido, ele usa um terno. Não sei a origem da vestimenta ou a maneira pela qual ela foi associada à elegância masculina, mas creio que as meninas do blog podem explicar isto de forma altamente eficiente, muito melhor do que eu (e a Wikipedia) conseguiríamos. Existe uma graduação no nível de elegância emprestada ao terno: ele pode ser uma roupa feita para conferir dignidade a uma pessoa ou a um evento; pode ser um símbolo de sofisticação e, ao mesmo tempo, um elemento de sobriedade; pode ser jovem, mas também pode ser vetusto; pode ser a expressão de um deboche ou a manifestação silenciosa da responsabilidade de alguém. Pode também ser uma presença, mas também pode representar ausência. Quando mulheres o usam, brincam com o estereótipo masculino e também agregam insuspeitadas e interessantes curvas para uma roupa sólida.
A grande maioria dos homens tende a pensar o terno como um mero objeto que concede riqueza ao corpo. Ou uma forma de atrair garotas, como diria o sábio ZZ Top em “Sharp-dressed man”: “clean shirt, new shoes / silk suit, black tie / I don’t need a reason why / They come running just as fast as they can / ‘Coz every girl crazy ‘bout a Sharp-dressed man”. Tem boas chances de ser realidade: um homem que sabe se vestir é alguém que sabe cuidar de si e, por conseguinte, da sua companheira. A evolução não preservou somente o mais rápido, o mais forte ou o mais inteligente; também pode ter ajudado aqueles que se vestem com maior segurança. Como o terno anda no espaço entre a seriedade da pessoa que lhe veste e a elegância com que compõe o corpo masculino, não espanta que ele chame atenção e esteja carregado de simbolismos e fantasias. Despir um terno é como retirar a armadura do guerreiro, tirando a compostura para expor a fragilidade e a pele do homem. Para as mulheres, arrancar a armadura de tecido de um homem é um jogo sensual que deixa o outro aos seus pés.


Não sei o motivo exato pelo qual os uruguaios vestem blazers e ternos para irem tomar café, e acredito que nem eles sabem. Como todas, a resposta pode estar na literatura e na sua capacidade de captar o intangível. Juan Carlos Onetti (1909-1994) é um dos maiores prosadores da realidade urbana do Uruguai; seus contos estão carregados da agonia de um país anacrônico que, ao mesmo tempo em que deseja voltar os olhos para o futuro , continua aferroado naquilo que já se passou. Sua prosa se situa entre o extremo realismo e o mais desvairado imaginário e, como não poderia deixar de ser, as cafeterias acabam surgindo nos contos de Onetti como um espaço de instabilidade e, por este motivo, um local onde as pessoas são elegantes e devem se comportar de maneira sóbria.
No conto “Bem vindo, Bob”, o narrador visita diariamente um café onde se encontra sempre com os mesmos amigos, quase com os mesmos diálogos, fazendo com que a rotina esmagadora ingresse no caminho do fantástico ao mesmo momento em que ele passa a identificar a amada perdida com outro homem. Não existem descrições das roupas usadas pelo narrador, mas os seus preparativos para visitar a cafeteria e a insistência em realizar este ato permite antever que aquilo é mais uma cerimônia do que um simples passeio, um ritual a ser realizado entre homens. Um trecho é emblemático: “Agora faz mais ou menos um ano que vejo Bob quase todos os dias, no mesmo café, cercado pelas mesmas pessoas. Quando nos apresentaram – hoje se chama Roberto -, compreendi que o passado não tem tempo e que o ontem se junta ali com a data de dez anos atrás”. A insistência em usar ternos para frequentar cafeterias também pode ser uma forma de fazer o tempo não correr – ou voltar para o passado. Para Onetti, ternos e cafeterias se tornam pedaços do eterno, uma maneira de burlar a passagem incessante da areia pelo gargalo.
Em outro conto de Juan Carlos Onetti, “Regresso ao Sul”, o leitor se depara com um narrador sentado em uma cafeteria, lembrando de fatos que lhe sucederam. Lendo este conto com a imagem da solidão expressa nos quadros de Hopper, o leitor tem um vislumbre dos abismos pelos quais os frequentadores das cafeterias passam nos seus silêncios. A seriedade dos ternos e blazers pode significar uma âncora que prende o homem à realidade, impedindo-o de mergulhar no desespero dos próprios pensamentos. Em vários momentos deste conto, os personagens entram em cafeterias, mas um detalhe acaba se destacando: primeiro eles vão em bares e bebem cervejas e, ao final, antes de ir para casa, acabam parando na cafeteria. É a transição de um mundo lúdico para a reflexão que se esconde neste movimento. Tomar um café também é uma forma de reencontrar consigo mesmo. E existe melhor forma de se concentrar nos próprios pensamentos do que usando uma roupa repleta de dignidade? Um terno também pode dar para o homem a ideia de que é uma fortaleza indevassável, um escudo que protege a sua alma. Como escrevi antes, o Uruguai me ensinou que, mais do que uma roupa, um terno pode ter muitos significados e possibilidades. Talvez isto explique o fato dele ser associado à segurança masculina, uma proteção com a adequada dose de desconforto que todo homem exige para provar a sua validade, ainda mais diante deste mundo de maciez que o cerca. Os ternos são ásperos como a natureza masculina.
No caso daqueles que colocam ternos para frequentar cafeterias, o terno representa um estatuto de sobriedade, um respeito ao passado, uma nostalgia daqueles tempos em que os homens eram respeitáveis e respeitados. Talvez os uruguaios esperem o retorno desta época ou estejam homenageando ídolos do passado. De qualquer maneira, a utilização desta roupa é uma forma de dizer ao mundo que, quando todos os valores caírem e quando toda a Humanidade mergulhar no caos ético, este abismo movediço onde tudo vira um amálgama de dúvidas do como proceder, ainda existirão pessoas sóbrias e imutáveis que seguram a lanterna do agir correto. Qualquer homem que se veste com sobriedade para um evento comum é um homem que respeita a si mesmo e aos outros. Não é o terno que faz o homem, mas ajuda bastante.

 

(Publicado originalmente no link http://lasmeninasmoda.blogspot.com.br/2013/04/ternos-e-cafe.html)

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