Arquivo do mês: novembro 2012

A corrida da cheetah

Todos os dias, o meu perfil no Facebook e o email são encharcados por vídeos pseudo-motivacionais e mensagens edificantes. Existem pessoas, inacreditáveis seres, que acordam e passam boa parte do dia bolando vídeos, sincronizando músicas e escolhendo textos com mensagens de estímulo para, depois, oferecê-los graciosamente pela internet. Sou um absoluto descrente na bondade humana, aquele sentimento genuíno de  praticar a ação correta, pois percebo que sempre existe um motivo por trás de tamanho altruísmo e, geralmente, é a mais pura vaidade ou egocentrismo. Admiro mesmo são as pessoas que não falam que praticam o bem e o realizam nas pequenas condutas da sua vida, quase sem  propaganda, no mais singelo dos silêncios.

Vídeos e mensagens quase nunca me comovem. Ao passar pelo filtro da minha descrença, eles são mastigados, deglutidos, separados e muita pouca coisa da intenção original sobra no fim.

Por este motivo, não deixa de ser espantoso que o presente vídeo que segue, de longuíssimos 07 minutos e 08 segundos (minha atenção normal não permite a perda deste latifúndio de tempo com um vídeo da internet), tenha sido o vídeo que mais me arrepiou, motivou e fez sentir bem nos últimos anos. Por não ter sido feito com a intenção de parecer motivacional, ele acabou se tornando um louvor à vida. Olhem aí:

Observem. Olhem a elegância, o porte da cheetah. Como cada músculo é flexionado com vagar, quase preguiça, impulsionando o corpo em um movimento inexorável. Observem como o corpo se estende no ar e os ossos se cravam contra a pele, revelando a estrutura que move a vontade. Olhem o ondular dos músculos, a música que eles cantam enquanto se ativam. Sintam a poesia mexendo-se dentro da corrida. Cada passo aparenta ser o mais importante da sua vida, cada perna é esticada até o limite máximo que pode alcançar. Se eu tivesse que pensar no vento materializado em carne, na representação de um cataclisma, no ribombar do sangue infinito, eu pensaria nesta cheetah.

No entanto, o que mais me encanta é a imobilidade do pescoço. O olhar fixo. A absoluta concentração com que a cheetah se desloca. Nada mais importa. O mundo deixou de existir. Nada mais é. Tudo apagou.

Muito se pode aprender com esta atitude: manter o foco. Não desviar do objetivo. Não estremecer diante das dificuldades. Não pensar, não errar – simplesmente correr. A certeza com que a cheetah se desloca não deixa espaço para a dúvida. O seu olhar não desvia; ela está mirando o objetivo, e cada passo a aproxima mais de onde deseja chegar. Às vezes, a pata estendida chega a roçar o objeto desejado, chega a quase alcançar o sonho, mas não consegue, e isto não impede a continuidade da corrida. Por mais que o objetivo tente se afastar, ela sabe que vai alcançá-lo. Sabe, por que está com a visão fixa para a frente e o pescoço é a única parte do corpo que não se move de forma alguma.

Nestas horas, eu lembro de Schopenhauer. Algumas pessoas dizem que eu sempre lembro dele, mas estariam erradas, pois só lembro em algumas ocasiões. Em “A arte de ser feliz”, Schopenhauer, ao discorrer sobre a sabedoria da calma, afirma: “aquele que mantém a calma diante de todas as adversidades da vida mostra simplesmente ter conhecimento de quão imensos e múltiplos são os seus possíveis males, motivo pelo qual ele considera o mal presente uma parte muito pequena daquilo que lhe poderia advir: e, inversamente, quem sabe desse fato e reflete sobre ele nunca perderá a calma”. A calma da cheetah e a certeza da sua corrida são típicas de alguém que sabe ser invencível, impossível de ser tocado pelo mal ou pela inveja.  Ela não possui medo ou incerteza, atingiu a calma dentro do espírito. Nem tanto pelas atitudes, pois está correndo o mais rápido que um ser pode correr no mundo, mas aquela calma interna que vem de saber quem é, quais as suas capacidades e qual o objetivo desejado. No meio do frenesi da corrida, a cheetah mantém a unidade. O resto do mundo continua se mexendo, mas ela nem sente. Por que não importa – ela é quem faz o tempo dela e, quem consegue esta proeza, possui todo o tempo do mundo.

Eu sei que este não é um vídeo tolo que vai ajudar qualquer um. Sequer pode ser chamado de motivacional. Mas, se a pessoa se concentrar no movimento quase hipnótico da cheetah, talvez entenda por que Borges dizia que Deus escreveu a história do Universo na pele dos jaguares. Talvez entenda por que, não importa o que acontecer, o único objetivo que realmente devemos ter é manter o foco, a espinha estendida e o pescoço rígido, enquanto os olhos nunca mexem, nunca desviam. Nunca desistem.

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Livro: “Em que coincidentemente se reincide”, de Leila de Souza Teixeira

Nos últimos anos, com base nas leituras que fiz (e foram várias), percebi que a literatura oscila entre dois pólos: um deles é aquele defendido por Borges, que afirma desejar a obra absoluta, um livro sobre tudo, o “Liber Mundi“. Nele estaria sintetizado o universo, todas as histórias já escritas e ainda por escrever. Seria a reconstrução da Torre de Babel, cuja queda semeou a discórdia e a separação entre os homens. O livro representaria a reunificação da Humanidade, sendo, por conseguinte, algo completamente utópico. No outro extremo, existe a proposição feita por Gustave Flaubert em seu “Cartas Exemplares”, onde confidenciou a um amigo o seu desejo de escrever um livro sobre nada. Não o nada metafísico, mas um livro capaz de segurar a sua integridade somente em torno do estilo do autor. Seria uma obra sem tema específico, impossível de ser resumida em poucas palavras, mas que congraçaria todos os leitores em torno do estilo, este voo de beija-flor do autor sobre as linhas que traça.

No seu “Em que coincidentemente se reincide”, Leila Teixeira faz um livro sobre o tudo e sobre o nada, oscilando entre os dois entendimentos. Ora debruça-se sobre o vasto universo, ora equilibra-se sobre um abismo existencial. Não é um livro de emoções derramadas, apesar de estar carregado de sentimentos. Não é um livro racional, apesar de estar repleto de filosofia. No jogo dos contos que se duplicam em espelhos distorcidos, as histórias mostram-se encerradas e, ao mesmo tempo, como partes de uma outra e mais longa história que atravessa a existência.

Em alguns momentos, perguntei-me se não estava lendo um livro eterno. Não pensem que estou louco: não existe tal figura, o livro eterno, ou uma obra que se refaz a cada leitura, reformulando-se e refrasando-se, isto é algo que só existe nos contos de fadas. A obra de Leila é finita – os contos estão ali, aptos a serem lidos, mas não decifrados. Aí está a chave do sucesso do livro: deveriam avisar na capa que existem dois tipos de leitura admissíveis – uma, a leitura sensorial, descompromissada, que o leitor entra quando quer e sai sem maiores consequências, somente pelo prazer de ser agradado ou, duas, a leitura que procura decifrar signos e significados, que investe contra o texto como Dom Quixote contra o moinho, vendo um gigante ameaçador e encontrando a palavra sempre insuficiente e necessária. Deveriam escrever isto na capa do livro: leitores, tomem cuidado e pensem bem o que desejam da leitura. Apesar da esperança do cavaleiro da triste figura, o moinho ainda é sólido, e bater nele nos faz descobrir mais a nosso respeito do que sobre ele.

Preciso confessar que já li “Em que coincidentemente se reincide” três vezes: a primeira por curiosidade, a segunda para ter certeza de algumas questões que ficaram pendentes e a terceira para escrever uma apresentação sobre ele. Cada leitura foi feita como se eu estivesse diante de um livro novo. Ele foi lançado menos de quatro meses atrás, penso, e não é do meu feitio reler algo com tão pouco espaço entre leituras. O tamanho diminuto (96 páginas) é enganoso: um desavisado pode imaginar estar lendo um livro rápido. Contudo, quem se aprofunda nos contos, entra em um bosque tão insondável que não consegue deixar de encontrar novos caminhos e possibilidades interpretativas. Esta reiteração na leitura – estaria eu também coincidentemente me reincidindo? – me deixou com dúvidas a meu respeito. Se no intervalo de quatro meses eu li três livros diferentes dentro de um mesmo exemplar e com as mesmas palavras, quantos livros diferentes encontrarei dentro dos contos da Leila Teixeira até o fim da minha vida?

É uma dúvida interessante. Pensando a respeito dela após a minha TERCEIRA leitura (desculpem, mas este detalhe numérico ainda me espanta), cheguei à conclusão de que a autora conseguiu o feito de multiplicar os livros que existem dentro de um exemplar através de uma inédita utilização do tema tão batido do DUPLO.

Talvez todos os leitores da Leila tenham visto este fato, pois ele está anunciado dentro do título (que já remete ao duplo), talvez eu seja o único cego que demorou a perceber tal qualidade. O duplo é um dos temas mais recorrentes da literatura. Como exemplos de duplo, cito “William Wilson” do Poe, “O retrato de Dorian Gray” do Oscar Wilde e “O estranho caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde”, do Stevenson. O duplo também é muito abordado pela crítica literária. No seu ensaio “O estranho”, Freud identifica o duplo com aquela sensação de “inquietante estranheza”, algo que é idêntico ao original e, ao mesmo tempo, completamente diferente. O conceito de estranho identifica-se com o algo não familiar, desconhecido e, por consequência, suspeito. O significado extrapola a diferenciação entre familiar e não familiar, chegando à conclusão de que o estranho é aquele algo já conhecido que se encontra enclausurado no inconsciente. Partindo do conto “O homem de areia”, do Hoffmann, ele menciona que o duplo existe para definir o mesmo, ou seja, o duplo é um desejo de individualidade do próprio ser por meio do confronto com uma criatura que lhe é semelhante. E existe duplo maior do que um escritor diante da obra, a sua individualidade sendo plasmada e repetida no subjetivo da própria criação?

Muito se pode falar a respeito do duplo, é um assunto inesgotável, mas outros já lidaram deste tema com muito mais propriedade e entendimento. Retornando ao livro da Leila Teixeira, impressiona como o tema do duplo foi recomposto e recombinado. Sinceramente, como mencionei, achava este assunto um pouco batido (anos de filmes hollywoodianos contribuíram para esta minha frustração). A autora refrescou o tema e lhe deu uma nova abrangência. Eu diria que recriou o duplo no século XXI se não fosse um tanto exagerado dizer isto de um livro de estreia com exíguas 96 páginas. Melhor o caminho mais moderado: a autora flagrou um movimento quase imperceptível na sociedade, esta estranheza que nos faz ser tão díspares, e transferiu tal inconformidade para seus contos.

O duplo aparece ressemantizado. Ele não é mais a cópia do mesmo, possuindo novas variações. Existe o duplo óbvio: os contos se replicam e desfazem dentro do próprio livro, uma história é lida de uma forma e, em seguida, os mesmos personagens aparecem em outro contexto. Existe o duplo sentido: a interpretação do mesmo gesto por duas pessoas pode ter diferentes possibilidades, como em “(Ana)”, onde o toque acidental em uma perna desencadeia o longo fluir de sensações, nas quais o duplo é sempre ameaçado pela sombra incômoda do terceiro vértice do triângulo. Existe o duplo da linguagem: quanto de sentimento uma linguagem racional e entrecortada pode revelar sem romper a isenção, caso de “Corte seco”. Existe o duplo narrativo: os narradores da autora às vezes saem de um personagem e, como dançarinos, trocam de posições dentro do texto, conduzidos com delicadeza tal que, quando o leitor percebe, o passo impossível foi realizado. Existe o duplo simples, clássico: dois irmãos que se admiram, se amam e o caçula segue os passos profissionais e ideológicos do outro. Existe o duplo de situações: os conflitos na fronteira do Oriente Médio não são diferentes dos conflitos que surgem na fronteira Brasil-Uruguai, pois envolvem seres humanos, cujos dramas não conhecem limites. Existe o duplo no tempo: em “Oito”, a narradora passa suavemente do futuro para o passado e vice-versa e, como diante de um prestidigitador habilidoso, o leitor sequer consegue ver a mágica acontecer diante dos seus olhos.

Por fim, em um lance de supremo arrojo, Leila Teixeira faz o duplo do próprio autor: ela surge como a improvável personagem de um de seus contos, “Doutrina dos ciclos”, anunciando o suicídio que pretende consolidar. Os limites entre autor e personagem se desfazem; em um jogo arriscado, que poderia colocar em xeque a verossimilhança do livro todo, Leila se transmuta em outra Leila ficcional, e aquilo que pareceria um estéril jogo estilístico revela-se uma atitude de extrema sensibilidade. Muitas interpretações podem surgir desta aparição quase fantasmagórica da autora dentro da sua obra, mas a que mais gosto é aquela que identifica o fazer literário com um suicídio: não estaríamos nos jogando para a morte, para o público, a cada palavra traçada? Escrever também é doar uma parte da vida. Talvez por este motivo, os contos em que Leila surgem no livro (identifiquei a sombra dela espreitando atrás de outras histórias, depois que se entra uma vez, é necessário conviver com o ônus de tal decisão) são os mais sensíveis.

O livro se divide em duas partes, com contos que se encaram como se estivessem separados por um espelho. Engana-se quem imagina que, do outro lado do reflexo, vai encontrar a completude. Existe um espaço vago, impossível de ser preenchido pela história ou pelos personagens, somente pelo leitor. Unindo as duas partes do livro, encontra-se um singular conto, “Noctiluca”. O próprio termo é auto-explicativo: “noctiluca” é a luz que brilha na noite, como um farol. Assim como nenhuma das partes se encontra dentro deste conto, as duas estão representadas nele. As palavras são fortes, mas sem descambar para a auto-comiseração e sem se refugiar em comentários simplistas. A personagem que narra o conto está se desfazendo dentro das histórias, e espera que a luz seja suficiente para guiá-la de volta, conceder alguma concretude para o inefável perdido.

Em postagem anterior deste blog (http://wp.me/p24M2p-fY), contei que assisti Leila de Souza Teixeira ler o “Noctiluca” em um evento. Este foi o meu comentário: “A leitura da Leila também foi diferente daquela que fiz. Pela primeira vez, percebi a construção intrincada de cada frase, com a sua pontuação elegante, a forma com que o assunto se desenrola quase como um novelo, trazendo o leitor para se perder no meio da trama. Não existia palavra sobrando ali e, o que a leitura não tinha de sensibilidade, tinha de beleza e aspereza, em uma sensação quase dolorosa de tão física. Quando li “aleluia”, palavra repetida algumas vezes no início, podia sentir anjos abrindo a história ao meio e gritando com vozes repletas de luzes “ALELUIA”, trazendo claridade ao conto. No entanto, da forma com que a Leila interpretou o “aleluia”, é mais como uma lanterna tímida no meio da escuridão do abismo, um vagalume distante que acende e apaga, quase indiferente na sua tristeza. Ao contrário da leitura feita pelo Juarez, aquela praticada pela Leila demonstrou que a sua história é mais atemporal e os sentimentos do autor estão espalhados atrás da forma. Creio que, daqui a alguns ou muitos anos, se ela tiver a oportunidade de ler o conto em voz alta novamente, o sentimento passado com a leitura será pouco ou nada diferente daquele que vi ontem.” De certa forma, minha impressão tem muito a ver com o sentido da história dentro da estrutura do livro: “Noctiluca” é um conto de ideias, algo que fornece a espinha dorsal do duplo; seria mais ou menos como o cabo do espelho, ou a aresta que determina seus limites. Ele não foi feito para ser entendido, pois funciona como uma espécie de decodificador dos sentimentos espalhados pelos outros contos.

Nos contos de “Em que coincidentemente se reincide”, encontram-se referências claras ao estilo de Cortázar, Hemingway e Borges. Incomodou-me um pouco que estas referências tenham ficado tão explícitas e fáceis de detectar. Os contos que me pareceram mais fortes e impactantes foram aqueles em que se tornou impossível ver a fonte de onde Leila Teixeira tirou a sua inspiração, aqueles que partiram mais da sua emoção do que do desejo de seguir uma forma pré-estabelecida. O conjunto do livro e a ideia tão cuidadosamente forjada perderam um pouco da sua coesão, foi como se a autora precisasse de um “padrinho literário” para contar a história, como se não confiasse no próprio talento narrativo, cuja mostra foi fartamente exemplificada no restante do livro. Da mesma forma, em alguns momentos, uma certa irregularidade pesou sobre a narrativa. No mesmo evento que citei acima, Leila confidenciou que os contos foram escritos em muitos tempos diferentes e no espaço de alguns anos. Esta circunstância restou visível em determinados trechos do livro, pois alguns contos revelam uma linguagem madura e uma construção elaborada, ao passo que, em outras histórias, as construções narrativas pareceram perder um pouco da poesia. Foram pequenos ruídos na minha experiência como leitor (como TRÊS VEZES leitor, não canso de me admirar), mas não foram suficientes para afetar a minha opinião geral do livro. Talvez seja um pouco de rabugice, no sentido de desejar ler mais livros da Leila antes que ela demore outra década para lançar o próximo trabalho. Pelo material lido, ela não precisa se sentir insegura com o seu trabalho – é o de uma escritora mais madura do que a sua idade cronológica revela.

Nos contos, a autora faz muitas referências ao trabalho de fotógrafos e de editores do cinema. Sua linguagem também guarda resquícios da capacidade de flagrar um instante e transformar em narrativa, assim como possui forte viés cinematográfico. Mesmo quando descrevem os sentimentos invisíveis de um personagem, as palavras passam concretude e certeza; é um texto enxuto, mas as emoções transmitidas nele são abundantes. Ao escolher o duplo como tema primordial das suas histórias, Leila de Souza Teixeira se inscreve no rol dos autores que já abordaram esta inquietude, e não fica devendo nada para ninguém. Sem medo de soar clichê ou ultrapassada, ela transformou em contos as incertezas descritas no poema “O Outro”, de Mário Sá-Carneiro:  “Eu não sou eu nem sou outro,/ sou qualquer coisa de intermédio,/ pilar da ponte de tédio,/ que vai de mim para o outro”. Se conseguiu ter sucesso ou não, é algo que somente suas próximas obras dirão. O que posso falar, com certeza, é que “Em que coincidentemente se reincide” vale não somente uma leitura, mas algumas. E falo isto na condição de uma pessoa que já leu a obra mais de uma vez e continua se sentindo em um misto de fascínio e inquietação – como todo bom duplo nos deixa.

 

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Uma barata no quarto e as leituras no presídio: possibilidades incômodas

Em certa noite do passado, ao entrar no meu quarto, vi uma barata no meio da parede.

Era tarde e eu estava cansado. Como era de se esperar, saquei o chinelo, aproximei-me da barata… e não consegui matá-la. Inocente no meio da brancura da parede, ela mexia as antenas com lerdeza e me olhava com a mesma placidez com que uma vítima encara o carrasco. Sem muito esforço, eu podia imaginá-la de olhos fechados, rezando pela sua alma de queratina, esperando o golpe que iria tirá-la daquela vida de sujeira e esquivas.

Por longos minutos, erguia o chinelo, mirava a barata… e não conseguia. Logo constatei que ia ser incapaz de desfechar o golpe decisivo, não interessava quanto tempo passasse. Por outro lado, não podia deixá-la vagando pelo meu quarto. Somente um de nós dois podia prosseguir naquele momento que nossas vidas paralelas se cruzaram.

A única solução que se tornou possível foi terceirizar o ato. Bati na porta do quarto do meu irmão e o acordei. Sem entender direito, ainda imerso nas paisagens oníricas, ele escutou o meu esdrúxulo pedido: queria que fosse no meu quarto e matasse uma barata. Eu esperava a sua fúria, mas encontrei inusitado entendimento. Sem questionar, sem dúvidas ou perguntas, meu irmão pegou o chinelo, aproximou-se da parede e matou a barata com um certeiro golpe. Voltou para o seu quarto e continuou dormindo.

Claro que, no dia seguinte, virei motivo de piada familiar por esta inexplicável relutância. Sequer eu era capaz de entender o motivo de tamanha hesitação em um assunto tão ínfimo. Depois de muita reflexão, cheguei a uma conclusão estarrecedora: um mês antes, tinha lido “A metamorfose”, do Kafka. E minha visão da barata tinha mudado. Eu não achava mais tão impossível pensar que ela era um ser vivo e pensante. Que matar uma barata era tirar uma vida, e que tirar uma vida é destruir o mundo inteiro.

(Os anos passaram e, hoje, tenho uma visão diferente deste momento. A filosofia de Michel de Montaigne vinha da sua habilidade de olhar o mundo pelos olhos alheios e sentir-se como se fosse o outro. Quando olhei a barata e entendi o meu destino de matador, trocamos de lugar. Encarei o universo circundante pela perspectiva dela e vi a minha aproximação sorrateira, o chinelo executor pairando no ar. Por isto, fui incapaz de matar, pois matar era terminar também comigo. Esta possibilidade sempre me deu uma interpretação toda particular de “A metamorfose” – pensar pelos olhos do outro é ser o outro. Não consigo mais considerar tal livro como uma obra de ficção, pois, ora diabos, aconteceu comigo).

Uma versão digna da capa de “A metamorfose”, de Kafka, pelo site Devianart.com. A barata já trocou de lugar com o homem. A parede ainda guarda as marcas da batida que tentou matá-la. Excelentes possibilidades se abrem com esta visão do livro.

Estas lembranças surgem do passado por causa de uma alvissareira notícia veiculada na mídia ontem, enviada a mim pelo grande Anderson Cerva, do blog Plena Poesia (http://plenapoesia.blogspot.com.br/). Em Santa Catarina, o juiz Márcio Umberto Bragaglia instituiu um projeto chamado “Reeducação do Imaginário”. Por este projeto, presos que lerem obras clássicas da Literatura (Dostoiévski, Conrad, Shakespeare, Dickens, Walter Scott) terão a sua pena reduzida. Vou colocar o link da notícia:

http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2012/11/presos-que-lerem-dostoievski-terao-pena-reduzida-em-comarca-de-sc.html

A manchete explica bem a forma com que a redução da pena acontecerá, assim como a progressão das leituras a serem realizadas. É um projeto corajoso. Mexer no imaginário é a forma mais correta de corrigir um defeito, é corrigir as raízes para evitar que a árvore siga torta. Também é uma ideia ambiciosa – imaginar que livros podem modificar uma pessoa.

Sempre defendi que a Literatura pode mudar o mundo. Diariamente, no meu escritório de Direito, vejo a Literatura misturando-se entre as pessoas, incógnita, contando histórias que já ouvi antes. As pessoas não sabem, mas elas interpretam papéis que escritores traçaram há muitos anos. Costumo dizer – brincando – que, se os bandidos estudassem Literatura, eles seriam invencíveis. No entanto, assim como pode ser usada para o bem, também pode ser usada para o mal. A capacidade de antever o futuro e saber que estamos seguindo roteiros estabelecidos está na Literatura, e quem estudar isto pode fazer qualquer coisa.

Há questão de quatro anos, vi uma declaração de Fernandinho Beira-Mar, famoso traficante que se acredita ser o coordenador do tráfico no Rio de Janeiro, mesmo estando em uma cela isolada. Ele mencionava algumas das leituras que tinha realizado, com comentários estilísticos e formais. Para minha surpresa, constatei que a sua leitura era lógica, atenta e muito inteligente.  Não é à toa que ele consegue iludir o sistema penitenciário e enganá-lo. As pessoas que leem estão preparadas para qualquer situação. Encontrei manchetes esparsas mencionando as leituras feitas por Beira-Mar, mas todas são unânimes em afirmar que ele lê cinco livros por semana. É muito maior do que a média de leitura do brasileiro em geral. Esta manchete – cujo link coloco abaixo – menciona alguns dos livros e, no meio de best sellers insossos, está o espantoso “A arte da guerra”, de Sun Tzu:

http://forum.cifraclub.com.br/forum/11/278815/

Um incauto poderia rir de “O código da Vinci” e de “O caçador de pipas”, dizendo que são leituras irrelevantes, mas seriam mesmo? Pois não existe leitura ingênua e qualquer livro é um voo imaginativo. Não é à toa que, sonhando e lendo, Fernandinho Beira-Mar consegue a proeza de comandar uma organização criminosa de dentro de um presídio de segurança máxima, mesmo em completo isolamento.

Um homem com tal cabedal de leituras, que passa seus dias lendo e estudando, é uma das pessoas mais perigosas do mundo. Gostaria muito de dizer que existe uma força na Polícia com igual capacidade de inteligência e idêntica abstração formada pelos caminhos imaginativos da leitura. Fernandinho Beira-Mar ainda não encontrou o seu Sherlock Holmes, e o fato das notícias manterem silêncio sobre ele não quer dizer que o bandido tenha deixado de existir. Ele está lendo e refletindo, enquanto as pessoas perdem tempo com outras bobagens.

A revista VEJA fez uma análise deste direito. Ridicularizou um pouco a leitura, rindo da suposta qualidade estética dos livros adquiridos pelo governo (como se ler a revista fosse mais apropriado do que ler qualquer livro, argumento altamente questionável) e falando da redução da pena. Olhem o link:

http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/governo/beira-mar-podera-reduzir-ate-15-anos-da-pena/

A pergunta na foto me intriga: “A leitura vos libertará?”. É um jogo de palavras medíocre, claro, com a frase da Bíblia que afirma que a verdade libertará. Não penso existir dúvida nenhuma na resposta para tal indagação. A leitura sempre liberta, e geralmente da pior das cadeias possíveis – aquela formada pelo próprio cérebro.

A Literatura pode mudar qualquer pessoa. Assim como me impediu de matar uma barata, ela pode fazer com que os presos tenham mais consciência dos atos que praticaram. Por outro lado, também pode transformar aprisionados em máquinas de raciocínio sem igual. Se unir a sua criatividade criminosa com as tramas literárias, eles serão invencíveis. Por isto, não basta selecionar as leituras ou controlar os presos: o importante é manter uma discussão filosófica sobre cada livro, ver o que cada um entendeu e como articulou aquele aprendizado dentro da própria vida. Mas não sei se juízes ou serventuários da Justiça seriam capazes de tal análise: duvido que até mesmo psicólogos, psiquiatras, psicanalistas ou assistentes sociais sejam capazes de entender as filigranas do impacto da leitura na alma de um homem. Igualmente duvido que professores e teóricos da literatura sejam capazes de detectar estas flutuações no discurso de um bandido, as interpolações daquilo que surgiu por obra da leitura em contraste com as suas circunstâncias de vida.

Acredito que somente um profissional altamente especializado pode ser o juiz desta questão. No entanto, como o governo se rege por regras rígidas, os livros continuarão sendo escolhidos à esmo e as resenhas abaterão a pena com o seu formalismo seco, sem saber o quanto as águas internas de cada preso foram sacudidas ou acalmadas pela leitura.

Teve um detalhe na história da minha inexplicável identificação com a barata que nunca consegui entender. Onde saiu a ideia de chamar o meu irmão e transferir a morte para outras mãos? Foi um pensamento meu ou algo infiltrado por um livro? Realizar esta conduta foi muito semelhante ao que os alemães fizeram na Segunda Guerra Mundial – delegar a morte para outras pessoas e, depois, se isentar da culpa ao dizer que estavam seguindo regras. Este é o princípio maior esculpido nos julgamentos de Nuremberg: um homem é responsável pelas mortes que pratica se recebeu a ordem de outra pessoa?

Receio que os livros tenham mexido demais com a minha cabeça, pois não lembro mais o ponto no qual começo e os livros terminam.

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Eu e Gabriele

Hoje pela manhã, olhei a caixa onde ela repousava no seu sono de gisant e disse: preciso de ti, velha amiga. E ela saiu ao mundo. E fez-se o Verbo – novamente.

Saiu cheia de razão: imaginava que eu a tivesse trocado por outro modelo mais recente ou até mesmo – horror dos horrores – por algum computador. Gastei poucos minutos limpando-a e ouvindo seus queixumes. Ao contrário de outros escritores, não temos uma relação passional , hostil ou amorosa. Precisamos um do outro, e este é o conceito mais puro de amizade, aquele que Montaigne esculpiu ao falar de La Boétie quando perguntaram o motivo dele ter amado o amigo: “Por que era ele, por que era eu.” Nenhuma explicação é suficiente nestes assuntos.

Não existe objeto mais sexual do que uma máquina de escrever. Cada arremetida do dedo é uma estocada que faz o corpo metálico estremecer. Cada letra tem o seu grito peculiar (às vezes eles se sobrepõem em múltiplos esgares) – e quantos gritos moram dentro da menor das palavras? A literatura escoa com dor e gozo. Cada palavra sai com a responsabilidade de ser a exata, ou a folha precisará ser refeita. Cada batida, uma dor no dedo, uma dor na máquina. Se você vai sofrer, não pode errar. Ela te ensina a respeitá-la e que existe um preço por cada tecla impensada, por cada palavra mal refletida, por cada distração.

Até o termo “máquina de escrever” é mágico. Quem escreve a história, o homem ou a máquina? Aí está uma pergunta que não consigo responder. Às vezes, acho que as teclas servem de caixa de ressonância para meus pensamentos. Em outras ocasiões, parece que as teclas possuem o seu próprio ritmo e sabor, como se a história lhes pertencesse e os meus dedos fossem escravos da sua sedução.

Eu reluto muito em usar a máquina de escrever. Neste mundo de facilidades, a maciez do teclado e a facilidade de corrigir o erro faz com que tudo soe impulsivo. Quando retiro a máquina do seu descanso, sei que entrarei em uma espiral de dor. Sei que o negócio ficou sério e que a história está, enfim, madura.

Sei que vai doer mais em mim do que nela. Ainda assim, Gabriele me promete o triunfo. Um triunfo digno dos generais romanos – e completamente solitário. Gabriele é o escravo que anda atrás do vitorioso, sussurrando: “lembra-te que és humano”. Lembra-te que pedi teus dedos e tua mente em sacrifício por este triunfo. Lembra-te que és carne e eu sou ferro.

Gabriele não sabe, mas tenho outra máquina de escrever com quem dividi muitos dos meus erros e dores. Está no meu escritório, e dorme o sono dos paquidermes (ela é extremamente pesada, e o simples ato de levantá-la já demanda uma força grande, idêntica àquela necessária para fazer ressoar suas teclas antigas). Toda vez que a olho, ela me passa uma sensação de tranquilidade, de ser inexorável no seu silêncio. Suspeito que ela existe desde o início dos tempos e que continuará existindo após o fim do Universo. Se estou em um momento religioso, penso que foi nela que Deus se sentou para escrever nossa história. Se me sinto mais racional, sei que o Big Bang começou com uma tecla, disparada com fúria contra o papel branco.

Máquinas de escrever também servem como túneis do tempo. Cada tecla ressoa com o fantasma das minhas pancadas de outras vidas em que já estive; elas ainda estão doloridas, ainda lembram do espancamento, da violência. Passando a ponta do dedo sobre elas, quase posso ver os momentos em que estava teclando, ou as palavras que elas formaram com suas letras, as palavras virando frases, as frases virando parágrafos, os parágrafos virando capítulos, os capítulos se transformando em livros. Quase consigo sentir meu passado, apesar das teclas implorarem por um futuro.

Eu sei que pode soar anacrônico escrever em uma máquina de escrever nos tempos atuais, com a abundância de facilidades para escrever. Pode parecer uma tola homenagem aos escritores que já se debruçaram sobre elas. Pode ser a igualmente tola sensação de que, para escrever, precisa de mais do que alma, precisa também usar o corpo. Pode ser a vontade (ou a paranoia) de que as palavras sobrevivam aos traiçoeiros bytes – nunca sei onde o meu texto está dentro do computador. O que realmente sei é que existe algo de tranquilizante no som que ela faz. No seu peso. No conforto do inexorável metal, na engrenagem que move a olhos vistos e faz a letra ganhar carne e sangue de tinta.

Teclar nela é como voltar para casa. Eu e Gabriele, novamente contra o mundo. Eu e a minha máquina – lutando contra a astuta história que se esconde na bruma da inexistência.

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Original, cópia, homenagem: um passeio pelo “Jardim das Delícias” de Hieronymus Bosch e o mesmo jardim de Vik Muniz

Nos últimos tempos, estou extremamente indignado com várias situações e lugares comuns. Fico resmungando a minha raiva pelos cantos. Contudo, hoje ocorre-me que eu não esteja indignado, talvez eu seja um inconformado. A Angela Dal Pos, que tem o delicioso blog “Morena de Pintas” (http://www.angeladalpos.com/), diz que eu sou rabugento. Por ser uma pessoa observadora e inteligente, ela constatou este traço da minha personalidade e me desmascarou. Outras vozes já se juntaram nesta constatação: impressionou-me que, para quase todo mundo que perguntei “você acha que sou rabugento?”, a resposta tenha sido tão imediata que quase não deu tempo de terminar a indagação: “Sim!”. Outros ainda chegaram ao requinte de acrescentar “puxa, como tu demoraste a notar isto”, o inquietante “Ah, tu sempre foi rabugento, mas a gente gosta de ti mesmo assim” ou o indefectível “mas isto sempre foi óbvio”. Curvo-me à maioria das vozes. Menos mal que “rabugento” tem um adorável som rançoso, misto de loja de antiguidades e bolor.

No entanto, é impossível silenciar a minha rabugice. Se o eventual leitor do blog quiser continuar vivendo no Mundo da Hello Kitty, onde tudo é bonito e fofinho, PARE AGORA.

Não dá mais para aguentar a quantidade de pessoas que usam indiscriminadamente a obra dos outros no interior da sua e depois dizem que é uma homenagem. Em geral, esta declaração ocorre quando a pessoa é descoberta. Neste momento, ela saca da cartola o coelho mágico: “ah, como és atento, caro leitor, eu homenageei o Fulano e tu enxergaste este detalhe!”. Um argumento medíocre para justificar que o truque foi descoberto, pois existe uma diferença quilométrica entre copiar alguém e homenagear esta mesma pessoa.

Nos meus tempos de mestrado, tivemos longas e irresolvidas discussões sobre esta matéria. A intertextualidade, base da Literatura Comparada, é usada de forma suja no (sub)mundo literário. Ao invés de se acercar de uma fonte, o autor procura reprisá-la em outros contextos, aclamando a sua originalidade em um primeiro momento e, ao ter o truque descoberto, refugiando-se no vago conceito da homenagem. Onde acaba a intertextualidade e começa a cópia? Como diferenciar a homenagem feita a um autor admirado da cópia descarada da sua ideia?

Não confundam cópia com plágio, que é um crime. Falo da cópia no aspecto mais primordial: aquela que mimetiza a IDEIA do outro, não as suas palavras. Tenho lido muitos livros por aí em que sinto o bafejar da respiração de outro escritor surgindo no meio da história que não lhe pertence, e não, isto não é intertextualidade. É uma cópia desavergonhada: pegar a ideia boa de outra pessoa e fazer de conta que é sua. E isto surge com clareza depois que se adquire suficiente treino de leitura: são adjetivos empregados fora do lugar em que o escritor está acostumado a colocá-los, é uma inusitada imagem poética adejando sobre a secura do estilo até então enxuto, é uma estrutura claramente baseada em outra história icônica lida. Todos estes fatos reprisam outras histórias em que eles já apareceram, em algo que chamo de “combo literário”, pois fazem fusões de estilos de outros autores, flutuações quase imperceptíveis para um olhar leigo, mas que restam evidentes para quem conhece um pouco de literatura.

A propósito, elaborei uma lista dos escritores mais copiados no meio das obras que li. Vamos aos nomes: na liderança absoluta, quase empatados, Luis Fernando Veríssimo e Borges (mais uma do “Momento Borges da Palestra”, hehehehehe). Em seguida, Cortázar e Gabriel Garcia Márquez. Nas obras mais recentes, quando a pessoa quer parecer mais intelectual, Vila-Matas e Bolaños. Quando ela quer só imitar um escritor que pensa fazer sucesso, J. K. Rowling, Stephanie Meyer, Stephen King (ainda que o melhor imitador do Stephen King seja o próprio Stephen King, que conta a mesma história da mesma forma desde que começou) e Tolkien. Na poesia, muita imitação de Carlos Drummond de Andrade e, em especial, Mario Quintana. Acho engraçado que as pessoas sejam clichês até nas escolhas de quem vão imitar. Adoraria ver alguém imitando Dickens, Dostoiévski, Tcheckóv ou a ironia de uma Jane Austen. Como sempre, até para fazer cópia está faltando leitura.

Também tenho uma lista de autores – alguns relativamente famosos – que andam por aí posando de originais e seus textos não passam de cópias malfeitas de textos alheios. Não vou revelar os noms, mas eles sabem quem são. E saibam: “meninos, eu vi”.

Vivemos em uma sociedade que considera cópia ou desconstrução da ideia original como homenagem. Estão errados. Homenagem não é colocar o escritor ou artista cuja obra respeitamos dentro do livro. Alguns chegam ao ponto de colocar epígrafes do próprio escritor homenageado, como se fossem esquecer depois de quem roubaram a ideia, deixando o “homenageado” a participar, constrangido, da cópia malfeita da sua própria concepção de mundo. Em algum lugar do mundo, colocar epígrafes dos autores homenageados devia ser crime.

Homenagem é levar a obra do outro a um novo patamar de significação, é fazer além do que foi sonhado, dar um passo maior ainda do que o original. Poucas pessoas conseguem realizar este movimento, pois envolve um estudo profundo da obra do homenageado e uma criatividade virulenta, capaz de superar a matriz original e fazê-la parecer um pastiche trêmulo diante da imensidão do novo. É algo que o próprio homenageado, se pudesse ler, sentiria-se honrado por ser a semente que deu origem a esta nova ideia.

Os exemplos de homenagens feitas com sucesso são poucos, pois esbarram naquelas infelizes que resultaram em cópias pálidas. Na literatura, penso que um dos exemplos mais fantásticos tenha sido “Ulisses”, de James Joyce, que destruiu e homenageou Homero. Se queres ser grande, procure encarar um gigante. Joyce fez isto e, ao mesmo tempo em que homenageou, escreveu algo completamente inovador, ressemantizando o próprio termo da epopéia como vinha desde a época dos gregos.

Outro exemplo que considero incrível são os contos de Horacio Quiroga quando contrapostos a Edgar Alan Poe: é impressionante como o contista uruguaio consegue retirar a atmosfera urbana dos terrores de Poe e transplantá-la para a floresta, longe da civilização, deixando-a ainda mais assustadora. A prosa gótica e rebuscada de Poe presta-se para um uso urbano e, por este motivo, Quiroga inventa uma linguagem gótica peculiar capaz de transmitir a escuridão no meio da selva. Lendo os contos de Quiroga, é impossível não se fascinar ao ver como eles são semelhantes aos de Edgar Alan Poe e, ao mesmo tempo, tentam se afastar e até repudiar a influência, desejando caminhar por conta própria, sem a ajuda de muletas. Aliás, aí está a distinção maior entre cópia e homenagem: enquanto a cópia é preguiçosa e quer ficar o mais próximo possível da fonte original de inspiração para se apossar de um pouco da luz alheia, a homenagem estabelece uma relação de amor platônico e repulsa visceral com o objeto original, uma espécie de atrito, repleto de raiva e respeito.

Outro exemplo de homenagem é o realizado por Vik Muniz para o quadro “O Jardim das Delícias”, de Hieronymus Bosch. Feito pelo misterioso pintor entre os anos de 1480 e 1490, faz parte de um tríptico, em conjunto com “O Paraíso Terrestre” e “O Inferno Musical”. É um quadro enciclopédico. Bosch pintou um sem-número de personagens, fazendo citações elípticas e agrupando-os de forma caótica. Colocou criaturas reais e outras imaginárias. Misturou corpos e situações de tal forma que o jardim das delícias assemelha-se a uma orgia desenfreada. Gosto muito de Hieronymus Bosch, é um dos meus pintores favoritos, em especial pelo desejo insano de retratar o universo dentro de uma tela. Sempre imaginei os quadros dele projetando-se para o interior, indo até o infinito na busca do absoluto, sendo a face da tela somente a superfície do lago em que se esconde o abissal. Também gosto de quadros que contam histórias, e este é um dos maiores modelos, pois existem centenas de histórias e enredos ocultos na disposição dos seus personagens e das cenas. Para qualquer canto que se olhar, surge uma história e, se combinarmos os cenários, elas também se tornam infinitas.

“O Jardim das Delícias”, de Hieronymus Bosch

Certa vez, em um momento de desvario, pensei em imaginar e escrever as histórias que existem dentro deste quadro. Logo constatei ser uma tarefa maior do que o humano, maior do que as minhas possibilidades de tempo (recordo de um conto de Umberto Eco, presente no “Segundo Diário Mínimo”, onde ele faz conjecturas sobre um rei que tentou fazer um mapa com o tamanho exato do seu país e colocando todos os habitantes no seu interior, tentando encontrar uma forma de tornar viável e visível este mapa impossível). Resolvi terceirizar a função: dividi os personagens e as cenas e pensei em chamar alguns colegas escritores para me ajudar nas histórias. Para meu desapontamento, constatei que precisaria de, no mínimo, 80 escritores, e alguns teriam que contar mais de uma história. Para quem não consegue juntar 09 pessoas para jogar basquete, é uma tarefa hercúlea encontrar outros 79 escritores para realizar um pedido deste tipo.

Vou colocar um vídeo do YouTube que retrata o quadro nas suas minúcias mais espantosas e inquietantes:

No início deste ano, o Arthur Tertuliano (que também possui um ótimo blog, com este link: oleitorcomum.blogspot.com.br), sabedor da minha admiração por este quadro, me falou que o artista plástico Vik Muniz fez uma versão com peças de quebra cabeça. Sou muito reticente com estas intervenções artísticas sobre uma obra cujo original gosto tanto, mas me propus a olhar. E o resultado me impressionou:

“O Jardim das Delícias”, homenagem a Hieronymus Bosch feita por Vik Muniz

Vik Muniz fez uma homenagem a Hieronymus Bosch, mas levou a obra até um novo patamar. Utilizando o quebra cabeça, ele mostrou que a figura enciclopédica retratada pela ambição de Bosch não possui mais a concretude do passado. Vivemos em um mundo fragmentado, onde cada pessoa é uma peça tentando encaixar nas outras em busca do seu lugar. Não existe nada mais caótico do que um quebra cabeça com as partes ajustadas, mas não encaixadas. O espectador sente que existe uma ordem ali. No entanto, ela está dissolvida em meio ao caos típico do universo.  Os elementos mínimos retratados no original, tais como animais e criaturas míticas, perderam-se no breu da divisão das peças, escorrendo por entre as rachaduras do quadro. Na pós-modernidade e na rapidez da visão que nos faz prestar cada vez menos atenção no pequeno, não existe mais tanta necessidade de cuidarmos dos detalhes, o que importa é o conjunto geral. Muitas interpretações podem ser feitas a respeito da homenagem feita por Vik Muniz. A mais contundente delas é que a obra de Hieronymus Bosch não é intocável, ela precisa ser redefinida no mundo atual.

A versão de Vik Muniz se afastou do original de Bosch e ganhou vida própria. Quando lembro do quadro original, a sombra da incômoda versão acaba se refletindo junto na memória. Não consigo mais ver um sem pensar no outro. Este é o verdadeiro conceito de homenagem: romper o padrão, desafiar o antigo, redefini-lo e, no meio da ruptura, também prestar os seus respeitos ao original. É um relacionamento de admiração relutante, mais do que um aceno de amizade. Irrita muito que, na literatura contemporânea, a preguiça de imaginar tenha virado insossas tentativas de homenagens que mais insultam o homenageado com seu puxa-saquismo do que lhe respeitam através do desafio.

A cópia de outros estilos como forma de afirmação é exatamente aquilo que parece: um ato covarde. As obras canônicas não estão nem aí para elogios. Elas sabem que é no confronto e na brusquidão da batalha que seus verdadeiros valores se realçam. Portanto, ao invés de seguirmos a multidão que aplaude bovinamente a qualidade do texto de outra pessoa, sejamos aquele que recolhe os braços e diz: “eu posso mais do que isto, eu posso explicar de outra forma a obra que você fez!”. Os ousados sempre são as pessoas mais interessantes.

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Livro: “A árvore que falava aramaico”, de José Francisco Botelho

O maior elogio que um escritor pode conceder para outro é admitir que gostaria de escrever um livro igual. Contudo, esta é a mais absoluta das impossibilidades. Não existem dois livros idênticos: mesmo se o escritor copiasse o livro do outro, ele teria a sua visão de mundo, já nos ensinou Borges no “Pierre Menard, autor de Quixote”. O próprio escritor é incapaz de se repetir, pois o acréscimo de mais leituras distorce aquele retrato de uma época traçado no lançamento da obra. Cada livro é uma joia única: impossível de ser repetida, impossível de ser sentido com a mesma frescura com que foi originado.

Por sua vez, o maior elogio que o leitor pode conceder a um autor é dizer que as histórias lidas são tão reais que soam como se fizessem parte da sua história de vida, como se o escritor estivesse vigiando a existência alheia em busca de instantâneos indiscretos para colocar nos seus contos. Poucos são os autores que conseguem criar uma verossimilhança tão forte, capaz de se imiscuir na vida do outro e substituir trechos do real.  Estes são os escritores perigosos – aqueles que mudam a vida de alguém através de palavras.

Ao término da leitura de “A árvore que falava aramaico”, de José Francisco Botelho, foi nesta dupla condição que me senti: a relutância em admitir que tinha lido algo único e irrepetível e, ao mesmo tempo, a incômoda sensação de que as histórias de Botelho entravam sem pedir licença na minha vida, ora assemelhando-se a uma existência que eu não tive, ora rivalizando com antigos e inconfessados pesadelos.

Sem sombra de dúvida, um dos livros mais singulares e inusitados que li neste ano repleto de boas leituras. E olhem que estou comparando o valente livro de Botelho com leituras tais como Martin Amis, Henrik Sienkiewicz, Nikolai Leskov e Marcel Schwob, entre outros.

Vários fatores serviram para destacar este livro. Em primeiro lugar, destaco a absoluta falta de jogos estilísticos. Botelho não escreve de acordo com o manual de técnicas literárias, não faz desafios buscando uma estética vazia. Estava com saudade de ler um escritor que não se preocupa com cortes, narradores inusitados, brincadeiras com a estrutura. O leitor deseja uma boa história. A forma com que o autor vai contar é irrelevante: o importante mesmo é se a história cativar desde a primeira linha. Não tinha notado este detalhe entre todas as leituras que realizei até estar diante de “A árvore que falava aramaico” – a falta que uma boa narrativa faz no mundo atual. As obras contemporâneas andam tão repletas de deslocamentos espaciais e temporais, tão cheias de intervenções narrativas, tão repletas desta gosmenta primeira pessoa que se confunde com o autor, que é um alívio indescritível ler uma obra onde tais facilidades são desprezadas em detrimento de uma boa história. Foi assim que a literatura nasceu: com um grupo de homens escutando a história narrada por outro. Foi assim que Homero se tornou eterno, mesmo sem ter escrito nada. No final do dia, o que realmente importa – e aquilo que iremos lembrar – é se a história foi bem ou mal contada.

No entanto, não podemos confundir ausência de jogos estilísticos com falta de estética. Este é o segundo fator que destaco em “A árvore que falava aramaico”. Botelho é um artesão das palavras. Não ourives, esta metáfora batida, mas artesão. Com suficiente silêncio, pode-se escutar, entre as páginas do livro, o martelo desbastando as figuras de linguagem, o formão aplainando as arestas dos adjetivos, a mão acariciando a volúpia da palavra em busca da sua forma exata. Cada frase, por mais mínima que seja, é um trabalho de arte. Não existe frase impune ou sobrando em nenhum dos contos. Não suficiente o fato de usar as palavras necessárias e inevitáveis para contar a história, o autor espicha as frases ou as encolhe ao seu bel prazer, modulando a velocidade da história, seja acelerando-a, seja retardando-a. Assim como os jaguares de “O evangelho do jaguar”, sente-se que a Literatura desliza com a suavidade de um felino preparando o bote no leitor incauto. Mais “A circularidade dos parques”, de Cortázar, seria impossível.

Um terceiro fator que se destaca, ainda ligado às palavras, é a capacidade com que o autor constrói novos adjetivos por meio da junção de palavras dos mais diferentes tipos de constituição gramatical. Aliás, é a minha única e pequena ressalva ao livro como um todo: são tantos adjetivos belos sucedendo-se que, em alguns momentos, ocorria praticamente uma overdose estética. Em alguns momentos, senti falta de algo um pouco menos barroco, um pouco menos esplendoroso. Mas, diante das belezas produzidas, este é um detalhe quase mínimo. Nos tempos atuais, procura-se cada vez mais afastar o adjetivo das histórias, como se ele fosse um vilão para a fluidez da narrativa. Botelho não se importa com esta moda e os utiliza da forma mais caudalosa e fascinada possível, deixando a força das palavras aflorar em meio ao texto. Eu tinha esquecido da beleza dos adjetivos e de como eles podem ressemantizar e ressignificar um texto.

Em “1599 – Um ano na vida de William Shakespeare”, de James Shapiro (já resenhado neste blog), o autor menciona que Shakespeare se destacou do restante da produção literária mundial pelo uso de novos vocábulos. Não vou recordar os números exatos, mas, segundo ele, enquanto Shakespeare usou em média 15.000 palavras diferentes,  o escritor que mais se aproximou dele utilizou mais ou menos 3.000 palavras diferentes. O autor insinua que a utilização do maior número de palavras do vernáculo está diretamente ligado ao sucesso de uma boa narrativa, pois representa novidade e fluidez da história. Longe de mim comparar Botelho a Shakespeare; já cometi várias heresias neste blog, mas, desta vez, passarei longe. No entanto, não posso deixar de realçar o fabuloso léxico do autor e o fato dele invocar palavras que há muito tempo eu não lia, retirando-as do fundo do dicionário e oxigenando-as como se o seu uso fosse cotidiano. Por mais estranho que possa parecer, a alternância de palavras antigas com outras novas não deixa a narrativa rançosa, difícil, mas a transforma em uma progressão de surpresas agradáveis.

Por fim, vamos aos contos. O livro é dividido em duas partes, “As peripécias” e “Grimório”. Na primeira parte, os contos são um pouco mais estendidos e a maioria possui temáticas que representam cenas do interior do estado do Rio Grande do Sul. Juntar a variedade léxica do autor com as palavras peculiares do gaúcho foi uma combinação especial. Nos tempos atuais, muitas pessoas procuram se afastar da temática regional, sonhando encaixar a sua história no universal. Botelho vai para o caminho oposto: ele mergulha na sonoridade das palavras do interior mais interior do Rio Grande do Sul. Não chega ao nível próximo do hermetismo de um Simões Lopes Neto, pois alterna vocábulos gaúchos de singular existência com outras palavras mais eruditas, e sem perder a verossimilhança e o fio narrativo, o que é sempre meritório.

Nesta primeira parte, é difícil destacar algum conto como emblemático. “No dia em que o mundo quase acabou” e “Os gringos” são duas histórias de amor impossível e misterioso, mas contadas com extrema delicadeza e uma intensidade quase sexual. O menino que descobre o sexo com a prima é pouco diferente do peão de estância que se apaixona por uma mulher com quem não consegue se comunicar por palavras, somente pelo sentimento. O conto que dá título ao livro relata a chegada de um primo forasteiro e cheio de segredos em uma família, e de como o menino descobre que o homem futuro já mora no seu interior, mas ainda não está na hora de despertar. “Os caranchos”, conto que introduz algumas das temáticas da segunda parte do livro, é puro Quiroga, quase uma releitura de “À deriva”, à medida em que o homem desliza para a morte sem que a confortadora inconsciência o liberte do fardo dos últimos momentos de vida, permitindo-lhe assistir o horror que se avizinha.

Na segunda parte, “Grimório”, os contos passam para o fantástico e para o imponderável. Afastam-se um pouco dos dramas comezinhos e seguem para o campo das ideias e das teorias. Em “Na casa de nossos pais”, é contada a misteriosa relação entre dois irmãos e o restante da família que abandonaram para correr mundo, sendo que, quando um dos irmãos retorna, descobre que o tempo paralisou em um único cômodo da casa e os irmãos abandonados viraram ratos. A certeza inexorável do personagem em acreditar no impossível é enganosa: o seu olhar encontra-se de tal forma conspurcado pela culpa de ter abandonado a casa dos pais que não se sabe sequer se a família realmente existe ou se ele inventou os ratos para expiar seus sentimentos contraditórios. É um conto forte, repleto de significados que mereceriam uma análise mais detalhada, pois ficou insinuado um certo abuso sexual. “Legião ou o homem multitudinário” é uma história encantadora, verdadeiro refresco para as narrativas massificadas repletas de sentimentos que assolam a literatura atual. É um conto de ideias, um conto de filosofia própria e de consequências impossíveis de serem mensuradas. O autor relata a história de quatro homens, mesclando-os e dissolvendo-os, tudo para relatar a sua tese improvável: de que existe um homem possuindo outros e tomando conta dos corpos alheios, uma espécie de praga invisível (senti outro eco de Quiroga, desta vez com “O travesseiro de plumas”, uma criatura insidiosa que assume o corpo e a vontade do outro sem ser detectado). A forma com que o narrador descobre esta teoria é prodigiosa: o homem que está deitado sorrindo é o mesmo homem que está de pé. É o duplo levado às últimas consequências, pois os dois se olham e ambos se imaginam originais. Além disso, também é um conto que me passou outro desconforto: a duplicação de Nielsen (ou a sua capacidade de possuir e se espalhar entre os outros) é mais ou menos a forma com que a cultura se dissemina no mundo atual e como as modas surgem e desaparecem.

“O evangelho do jaguar” está entre os contos mais inquietantes que já li. O jogo de xadrez encontrado em um apartamento deserto é um vampiro psíquico. Coloquei-o no mesmo patamar de uma “Configuração dos Lamentos”, pequeno quebra cabeças que, acaso decifrado, abre as portas do Inferno, tudo na obra de Clive Barker (passar de Shakespeare para Clive Barker deve me assegurar chibatadas em algum lugar). As engrenagens do jogo, o fato do personagem duplicar-se enquanto está jogando, o simbolismo borgeano dos jaguares que espreitam o movimento das peças tornadas vivas por um curioso movimento anímico, tudo contribui para um arrastar mágico da história. O xadrez exaure o homem enquanto lhe promete a divindade. O personagem oscila entre o sonho e a realidade e, no final deste conto, Botelho dá uma nova e perturbadora versão para o duplo. A impossibilidade de fazer os dois reis se matarem ou morrerem simultaneamente força o personagem a encontrar uma única saída para o dilema de matar o humano e o divino. Lembrou “O Sétimo Selo”, com o personagem jogando xadrez com a própria morte.

Nos últimos eventos em que compareci, constatei um peculiar hábito: quando instados a esclarecer as influências ou ecos que bafejaram as suas histórias, geralmente os escritores apontaram Borges como referência. Borges transformou-se um porto comum onde quase todos os autores atuais se refugiam. Tenho sérias dúvidas se estes autores leram Borges ou ouviram falar dele, pois não sinto tantas influências assim quanto eles informam (apelidei este de “Momento Borges” da palestra, hehehehehe). Percebo esta resposta na ponta da língua de todos os escritores por que é fácil encontrar, em alguma curva do labirinto borgeano, o falso fio de Ariadne que levará o autor a encontrar um pouco do DNA do escritor argentino na sua criação. Chama minha atenção que José Francisco Botelho não tenha a ambição – ou pretensão – de se reconhecer como um herdeiro de Jorge Luis Borges. Ele presta suas homenagens aos temas tão caros ao autor já falecido, mas prefere utilizá-lo como trampolim irônico para a sua própria criação. Quando os jaguares surgem, impossível não lembrar de “A escrita de deus”. O próprio tema da divindade constante na história desconstrói a ideia de Borges. A viagem no tempo em “Agora” lembra contos borgeanos em que tal assunto também foi discutido, com a ressalva de que Botelho considera que o deslocamento no tempo é simples forma de repetição de algo já vivido (ou seja, viver no passado, algo que tantas pessoas fazem sem precisar de máquina do tempo). A caixinha deixada pelo primo Salim em “A árvore que falava aramaico” remete a um aleph.

No entanto, a aproximação maior entre estes dois escritores se dá naquilo que outros precipitados e auto-intitulados “herdeiros” falham de forma estrondosa. Grande parte dos escritores acham que o segredo de Borges está nos jogos racionais. Contudo, o grande segredo é a utilização da linguagem dentro da história, e isto é algo que só se consegue com a conjugação de um vasto cabedal de leituras e um bem apurado senso de ritmo, ou a conjugação de um espelho e uma enciclopédia. Isto não é para qualquer um. Borges era um poeta, mestre na utilização dos ritmos dentro da história através das metáforas e de uma pontuação quase rompendo a lógica formal do discurso. Botelho também é um homem dotado de grande poesia e conhecimento das estruturas da língua, que usa sem pudor dentro dos seus contos, sem medo de soar pomposo ou hermético. Apesar deste grande ponto de aproximação, sinto – sem sequer saber o motivo e, por isto mesmo, é algo completamente impressionista – que Botelho desconsideraria esta comparação que muitos passam uma vida buscando (já me deram vários livros para ler em que o próprio autor se manifesta influenciado pelas mesmas Musas que atormentavam Borges). Para ele, a honestidade com a história se situa acima da comparação leviana e fácil com jogos narrativos de outro autor. Com uma leitura atenta, é possível perceber que, nos momentos em que Botelho podia ceder à tentação de emular o autor argentino e fazer um joguinho insosso, ele preferiu manter-se fiel a si próprio, e isto representa uma grandeza que poucos autores atuais possuem.

Impossível não destacar dois elementos que unem as histórias, dando-lhes uma atípica unidade temática (alô, alô, Rafael Ban Jacobsen, autor da orelha). O primeiro é a presença do “mal de arquivo” de acordo com Derrida, ou seja, o desejo dos personagens de recorrerem às classificações e às enumerações, tudo para reter e prender a memória, descendo ao nível mais arqueológico possível com o intuito de recapturar o tempo perdido. O arquivo aparece claramente em dois contos, “A grande obra” e “O coração do mundo”, em especial através de personagens que recorrem à memória como forma de manter a coesão do mundo que ameaça se dissolver ao redor deles. Muito poderia ser dito a respeito deste assunto nos outros contos, em especial abordando Derrida, mas vou ser forçado a parar para que esta resenha não fique com um tamanho mais indecente do que já se encontra.

O segundo eixo temático é que quase todo conto apresenta um mistério que simplesmente não é resolvido. Seja a caixa deixada pelo primo Salim com o narrador em “A árvore que falava aramaico”, seja os estranhos nunca divisados que irão para uma ilha em “Viagem noturna” (outro dos meus contos favoritos), seja a real motivação pela qual o baphomet foi adotado por uma família que lentamente desaparece em “Baphomet”, seja o conteúdo da gaveta do senhor Pacheco em “O coração do mundo”, seja a origem do jogo de xadrez em “O evangelho do jaguar”, seja as marcas amarelas feitas na cidade e a segregação progressiva dos habitantes em “A grande obra”, boa parte dos contos apresenta uma dúvida que não será resolvida. Como o objeto na gaveta do senhor Pacheco, este item mágico e inominado que lhe dava paz no meio de um mundo burocrático opressivo, cabe ao leitor preencher a dúvida da forma que bem quiser.

Foi reconfortante ler um livro que não subestima a inteligência do público. Um livro sem vôos estilísticos estéreis, com linguagem rebuscada e sensível. A sucessão de mistérios não resolvidos e a criação de uma realidade tão próxima daquela que vivenciamos deixou-me, como leitor, com uma sensação de angústia e expectativa pelos próximos livros. No final das contas, talvez o mais intrigante de todos os objetos sem explicação deixados para o leitor resolver seja o próprio livro, com suas pequenas imitações de vida, esta “Configuração dos Lamentos” (ai, de novo) esperando ser decifrada. A maior lição que José Francisco Botelho ensina em “A árvore que falava aramaico” é que, para ser contemporâneo, o autor não precisa usar truques. Ele pode beber da literatura clássica, não precisa fragmentar a narrativa, não precisa alternar narradores ou usar linguagem moderninha. O escritor de verdade só precisa de uma história. De posse dela, os leitores sentarão aos seus pés e, acalentados pela lira criativa, irão subir aos píncaros celestiais ou descer às profundezas do inferno. Uma lição tão importante e que, nos dias atuais, parece ser cada vez menos lembrada.

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Um artigo no Amálgama

Pela primeira vez na minha curta história com o Amálgama (www.amalgama.blog.br), dei uma pausa nas resenhas e fiz um breve artigo sobre literatura.
No texto, trato da recente decisão de Philip Roth de não mais escrever livros. Falo também do que acontece quando a voz narrativa de cada escritor silencia e o direito que cada artista possui de reservar-se ao silêncio para não poluir o mundo com histórias indignas do seu talento. Em última análise, a dignidade do silêncio também é o direito humano de preservar o próprio legado e permitir a aproximação da morte.

Participação especial de Hemingway, Shakespeare, Gabriel Garcia Márquez e Scheherazade.

Segue o link:

www.amalgama.blog.br/11/2012/philip-roth-e-o-direito-de-silenciar/

Boa leitura!

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