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O Poema sem Fim de Utrecht

Isso é muito lindo. No exato momento em que estou escrevendo essas palavras – e você está lendo -, um poema sem fim está sendo escrito com palavras e pedras na cidade holandesa de Utreicht.

Os responsáveis pelo poema são os integrantes da Guilda de Poetas de Utreicht. Cabe a eles escolherem a palavra que será escrita em pedra. O funcionamento é simples e, depois de cinco anos, transformou-se em um ritual. Todo sábado, o dono de uma pedreira local transporta uma pedra até a beira do canal local e a deixa ali, até o poeta surgir com seu formão e inscrever a letra. Em seguida, a pedra é arrastada até o fosso em que as suas irmãs se encontram, juntando-se a elas em uma linha sucessiva que forma palavras, que se juntam em versos, que virarão uma poesia que ninguém sabe como ou quando terminará – se é que terminará algum dia.

O projeto – considerado uma “escultura social feita ao ar livre” – começou oficialmente em 2012, mas nesse ano foram acrescentados 648 blocos correspondendo às letras que eram devidas desde o dia 01 de janeiro do ano de 2000, então, para todos os efeitos, é um projeto que teve o seu início com o século XXI e se estenderá enquanto existirem palavras, enquanto existirem pedras, enquanto existirem poetas.

O poema tem um título, “Cartas de Utreicht”, e a linha pela qual ele segue contorna o antigo canal da cidade (Oudegracht), mas já existe uma ideia de como expandi-la se, algum dia, o canal não for mais suficiente para a poesia. Veremos, então, o que é mais forte: o rio ou a poesia. A geografia e suas linhas duras e furiosas ou a instabilidade da imaginação.

O projeto é apoiado pela cidade, que também se mobiliza para saber qual caminho o poema tomará. Leva semanas para as palavras se formarem, e alguns meses para as orações se tornarem compreensíveis, mas quem disse que a poesia não é um trabalho de construção laboriosa e muita paciência? Desconfio muito desses poetas que se jactam de escreverem de forma compulsiva, com a inspiração à flor da pele, em um fluxo contínuo de imagens poéticas. Para mim, a verdadeira poesia se faz assim: uma letra de cada vez, as palavras sendo paulatinamente conquistadas pelo entusiasmo ou pelo cansaço, até se renderem em versos e estes em estrofes. Desconfio da poesia rápida, pois tudo aquilo que é facilmente feito, é também fácil de ser esquecido.

Não posso sequer imaginar como será o dia em que o último poeta de Utreicht – pois tudo chega até o fim, mesmo os poetas – estiver formando as derradeiras letras para colocar nos versos iniciados por uma longa linhagem de homens e mulheres que lhe antecederam, todos unidos sob a mesma bandeira e mesmo sonho. Será que a pedra terá o mesmo peso, será que as palavras ainda farão sentido? Será que ele verá o fim do poema ou o deixará inconcluso, incapaz de encerrar um trabalho de tantos anos?

O Poema sem Fim, ou as “Cartas de Utreicht”, possui os seguintes versos, traduzidos para o inglês pela equipe do Atlas Obscura (www.atlasobscura.com):

You have to start somewhere to give the past a place, the present is getting less and less. The further you are, the better. Go ahead now,

Leave your tracks. Forget the flash in which you may exist, the world is your street plan. Was there a time when you were another: it went by.

You are the other though. You are, as you know, the spell of this story. This is eternity. It takes. It’s time. Therefore, go into your story and swallow. Tell.

Tell us who you are with each step. In our story we disappear naturally, and only you remain in the long run. You and these letters, which are cut out of stone. Like the letters on our grave.

They burst into the Dom. Raised to the sky like an index finger, to indicate the guilty and demand more time. So we can go up straight, like people along the canal.

Stare at their feet. Look up! See Utrecht’s churches protruding above ground level. Raise the hands, begging with the towers to be this privilege: to be, now. The weather is nice.

Stand on. Life is witness to your gaze on the horizon. Your footsteps …

Está ficando um poema ótimo.Provavelmente não estaremos vivos para saber o seu final, e nisso existe uma lição de humildade: o Tempo não existe para a Poesia. Nós criamos o Tempo que nos encapsula, mas, para a Poesia – e para as Pedras – o Tempo é um conceito tão vago que sequer é levado em consideração. O que importa, no final do dia, é prosseguir em frente, sem saber se aquela é a última palavra, uma letra qualquer no muro da existência ou se chegamos ao verso final da vida.

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Resenha do livro “Poesia Reunida”, de Adélia Prado

O Amálgama (www.revistaamalgama.com.br) pediu para que eu resenhasse “Poesia Reunida”, da escritora mineira Adélia Prado, um volume que reúne toda a sua obra poética. Foi um grande prazer realizar uma releitura da Adélia, descobrir poemas que não conhecia e lembrar de outros que já tinha lido. Foi um dos poucos livros de poesia que, assim que se aproximava ao final, dava vontade de começar a lê-lo de novo, como se algo muito importante tivesse sido perdido e estivesse ali, ao alcance dos olhos, ansioso para ser subjugado e acalentado.

Nem preciso dizer que recomendo muito a leitura do livro. Adélia Prado é da estirpe de poetas cuja leitura faz o mundo se tornar um lugar melhor.

Boa leitura!

 

A poesia indesmanchável de Adélia Prado

 

É relativamente fácil achar bons poetas; o complicado mesmo é encontrar os excepcionais, aqueles que lemos com a sensação de que a nossa visão de mundo está modificando no momento exato da leitura. Quando estamos diante de um poeta verdadeiro, alguém que se entrega à sua subjetividade com técnica, usando cada palavra como se fosse a mais preciosa joia, sentimo-nos como barro sendo manuseado por mãos sábias; a cada verso, sentimos que uma breve pressão foi aplicada na nossa personalidade, e algo se modificou de forma eterna; a cada poema, sentimos que ele sempre esteve dentro de nós, mas não tínhamos a capacidade de transformá-lo em carne e palavras.

A poesia existe para nos aproximar do divino, e tal conceito independe de religião, fama ou bens materiais, mas está vinculado àquele algo maior que almejamos em silêncio. Neste sentido, “Poesia reunida”, de Adélia Prado (Editora Record), mais do que uma compilação de todo o material já produzido pela escritora mineira, é uma apologia ao fazer poético. Não é um livro que explode em epifanias ou que possui pontos da mais plácida calma. Ao contrário, a reunião dos poemas de Adélia Prado revela a consistência dos seus temas ao longo dos tempos, a tranquilidade com que utiliza a palavra para construir imagens, a sabedoria do poetar sem pressa.

Adélia Prado

Adélia Prado

Por reunir todos os livros publicados por Adélia Prado, o tamanho de “Poesia reunida” pode assustar leitores incautos. No entanto, entre as 543 páginas que constituem o exemplar, um pouco mais de 80 são dedicadas a um extenso levantamento bibliográfico e a três textos, um escrito por Carlos Drummond de Andrade, outro por Affonso Romano de Sant’Anna e o terceiro por Alberto Mussa. Os textos ajudam a deixar a obra de Adélia Prado ainda mais prazerosa, pois abordam características comuns dos seus poemas. De Drummond, optou-se por trecho da crônica que ele escreveu para o Jornal do Brasil, onde revelou as suas primeiras – e maravilhadas – impressões sobre a obra da escritora mineira até então desconhecida. Affonso Romano de Sant’Anna relata o que sentiu quando leu os originais de Adélia. Nas suas palavras: “Não aguentei e telefonei para Drummond: Mestre, acaba de aparecer uma poetisa no interior de Minas. E isto eu dizia como um astrônomo no observatório nacional, feliz com uma nova possibilidade de vida fora de mim, do que conhecia, do que lia.” Alberto Mussa optou por um texto inédito, descrevendo cada livro de Adélia e apresentando algumas de suas chaves de escritura para deixar mais completa a fruição dos poemas.

Ainda assim, quando nos deparamos com a obra de Adélia Prado, vemos as pouco mais de 460 páginas de poesia se sucederem com prazer crescente. Não é um livro cansativo; afastamos o olhar dele não para refletir, mas para deixar que o encantamento gerado pelo poema – ainda de leitura fresca – continue mais alguns segundos na memória. Se existe um mérito em uma obra poética de tamanha envergadura é este: lemos os poemas não como se eles fossem uma sucessão de palavras em formato de versos, mas como se estivessem respirando na nossa frente. É possível sentir cada palavra com a mesma emoção original que a gerou. A poesia flui do livro assim como saiu da poeta – sem dificuldades, sem sobressaltos, com o avançar inexorável de uma catarata. O mundo torna-se uma grande poesia, vertido pelas palavras elegantemente exatas de Adélia Prado, e o leitor se torna parte delas, tanto da poesia quanto da poeta.

Ao analisar a obra reunida de qualquer escritor (e vale aqui lembrar que é “Poesia Reunida” ao invés de “completa” por que Adélia Prado ainda se encontra produzindo poemas, com a velocidade que o seu fazer poético autoriza, sem se curvar à fome crescente dos leitores e do mercado editorial), alguns temas acabam se destacando. Em primeiro lugar, analisando as epígrafes e citações contidas no interior dos poemas, é possível notar a forte influência que a Bíblia deixou sobre a poeta mineira. Mas não toda a Bíblia, e sim as frases mais repletas de beleza e os livros mais poéticos, em especial o “Cântico dos Cânticos”, assumidamente a obra mais literária do texto sagrado. Dito desta forma, poderia sinalizar que a obra de Adélia Prado possui um forte cunho religioso, mas escapa deste rótulo no momento em que articula temas bíblicos no meio do cotidiano. Além disso, muitas de suas poesias aproveitam mais o ritmo dos textos da Bíblia, em uma toada que lembra a estrutura da oração, como no poema “A boca”:

“Se olho atentamente a erva no pedregulho

uma voz me admoesta: mulher! mulher!

como se me dissesse: Moisés! Moisés!

Tenho missão tão grave sobre os ombros

e quero só vadiar.

Um nome para mim seria A BOCA

ou a SARÇA ARDENTE E A MULHER CONFUSA

ou ainda e melhor A BOBA GRAVE.

Gosto tanto de feijão com arroz!

Meu pai e minha mãe que se privaram

da metade do prato para me engordar

sofreram menos que eu.

Pecaram exatos pecados,

voz nenhuma os perseguiu.

Quantos sacos de arroz já consumi?

Ó Deus, cujo reino é um festim,

a mesa dissoluta me seduz,

tem piedade de mim.”

O poema acima revela outra característica da produção de Adélia Prado: as memórias da infância. As preocupações simples da época de criança, as recordações quase tácteis, os cheiros, sons e cores são revividos através dos poemas, mas sem o ranço de saudosismo. A poeta traz a infância para dentro da sua obra não a título de nostalgia ou melancolia, mas como uma sucessão de momentos luminosos que continuam a residir na mulher já adulta – e que nunca serão perdidos, posto que se tornaram parte da sua essência. Em geral, quando nos recordamos do passado, tendemos a imaginá-lo como algo perfeito. No entanto, em uma abordagem criativa para a sua infância, Adélia a trata como um espaço de dúvidas, incertezas, medos e alegrias, sem idealizações. Apesar da sua voz autoral manter uma certa reminiscência da voz infantil (possível perceber no poema “A boca”, em que a voz do poema oscila da fase adulta para a criança temerosa da reação dos pais), não é por tratar deste período da vida como uma fase de confrontos, mas como espaço para constante maravilhamento.

Alberto Mussa destaca a forte tensão sexual existente na poesia de Adélia, algo não declarado de forma explícita, mas que percorre os seus versos como uma voltagem invisível. Grande parte desta sensação de voluptuosidade surge das suas descrições repletas de sentidos e da forma faminta com que trata do corpo masculino e feminino. São poemas de relativa intensidade, escritos com palavras quentes, e parte do calor se transmite através da leitura. Em épocas de erotismo desbragado (e mal feito), é interessante ver como um poema pode ser sexualmente excitante sem usar nenhum estratagema fácil. Exemplo é o poema “Ofício parvo”, no qual se sente uma atmosfera sexual sem, no entanto, existir nenhuma cena que leve a tal conclusão, a não ser a imaginação forte do leitor:

“Quero limpar a boca e as entranhas

do sonho que me sujou

mais que se em vigília

as mesmas podres coisas me sujassem.

O tentador me cobra sem descanso

uma prova de fé.

Virgem, Porta do Céu, em meu favor,

pisa com teu pé de menina

a cabeça de cobra que ele tem,

me livra da tentação

de sofrer mais do que Deus.”

Lendo o conjunto da obra de Adélia Prado até agora, também merece realce a força que ela dá para a mulher no interior dos seus poemas. Não quer dizer que sejam trabalhos feministas, mas poemas repletos de temas femininos articulados de maneira universal. Ao invés de realizar denúncias ou descrever situações de machismo, a poeta aborda o feminino com coragem e força poética, mostrando dúvidas, como em “Mural”:

“Recolhe do ninho os ovos

a mulher

nem jovem nem velha,

em estado de perfeito uso.

Não vem do sol indeciso

a claridade expandindo-se,

é dela que nasce a luz

de natureza velada,

seu próprio gosto

em ter uma família,

amar a aprazível rotina.

Ela não sabe que sabe,

a rotina perfeita é Deus:

as galinhas porão seus ovos,

ela porá sua saia,

a árvore a seu tempo

dará suas flores rosadas.

A mulher não sabe que reza:

que nada mude, Senhor.”

Nas entrevistas, Adélia Prado afirma que o seu tema preferencial é o cotidiano. Ser capaz de ver os temas universais que se escondem no meio do habitual é a característica principal de qualquer grande poeta. Afirmou Percy Bysshe Shelley no clássico ensaio “Em defesa da poesia”: “a poesia ergue o véu de beleza oculta do mundo, e torna familiar objetos como se não fossem familiares; reproduz tudo o que representa e as interpretações revestidas nesta luz Elísia permanecem, desde então, nas mentes daqueles que, uma vez, as contemplaram como memoriais daquele conteúdo, gentil e exaltado, que se estende sobre todos os pensamentos e ações com as quais coexistem.” Neste sentido, Adélia Prazo produziu uma obra que, mais do que revelar a beleza do mundo, também agregou novas cores nele. E ninguém melhor do que ela própria para se definir, em um verso do poema “Branca de Neve”: “sou curva, mista e quebrada, sou humana.”

Ao buscar o Deus indiferente que reside em cada mínimo objeto, a poeta ergueu um memorial poético em honra ao ser humano. Talvez por causa disto, a surpresa de Adélia Prado no dia seguinte ao lançamento bem-sucedido do seu primeiro livro – o medo de que a sua poesia tenha morrido – revela-se engraçado, conforme ela confessa no poema “Fluência”, quando o despertar do dia seguinte a faz procurar a voz poética, saber se ela ainda existe, se a poeta não morreu no momento em que o livro nasceu:

“Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,

não perdi a poesia.

Hoje depois da festa,

quando me levantei para fazer café,

uma densa neblina acinzentava os pastos,

as casas, as pessoas com embrulho de pão.

O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.

Persistindo, a necessidade dos relógios,

dos descongestionantes nasais.

Meu livro sobre a mesa contraponteava exato

com os pardais, os urinóis pela metade,

o antigo e intenso desejar de um verso.

O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.

Como antes, graças a Deus.”

 

Resenha originalmente publicada no link http://www.revistaamalgama.com.br/03/2016/a-poesia-indesmanchavel-de-adelia-prado/

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Percy Bysshe Shelley e a inevitável decadência

Dia 04 de agosto celebramos 223 anos que Percy Bysshe Shelley chegou ao mundo, e o mínimo que se pode dizer de um cara que foi casado com Mary Godwin Wollstonecraft (sim, Mary Shelley) e foi amigo de Lord Byron e de John Keats é que sabia escolher muito bem as suas companhias.

Diga-me com quem andas e te direi quem és, mas Shelley não tinha problema algum em escolher os seus amigos, o que comprova uma das minhas máximas: os grandes seres humanos procuram naturalmente a companhia dos seus pares. Não têm muito tempo a perder com gente mesquinha ou de pensamentos pequenos.

shelley
Adoro o “Em defesa da poesia”. Poucos ensaios podem ser mais poéticos do que este, em que Shelley fala da função social do poeta, de como o poeta também é um profeta dos seus tempos, de que existe uma ética em fazer poesia (sim, existe – ao contrário do que pensam por aí, poesia não é só um monte de palavrinhas bonitas em um papel). Shelley defende ardorosamente a ideia de que a poesia é essencial para a formação do caráter do homem, “que ela é mais filosófica e rigorosa do que a história”, e daria para ficarmos por dias debatendo o ensaio, estou fazendo um resumo lamentável do seu brilhantismo.
Neste ensaio ainda, Shelley fala uma frase singela que, de tão bonita, infelizmente virou lugar comum: “As almas encontram-se nos lábios dos enamorados.” Isto sim é ser poeta: ver a beleza do mundo em qualquer lugar, por menor que seja.

 

Outra definição dele é também importante: “A poesia tudo conduz para o belo: exalta a beleza do que é mais belo e acrescenta beleza à mais deformada das coisas; casa o júbilo e o horror, a pena e o prazer, o eterno e o mutável; submete à união, sob o seu brando jugo, todas as coisas irreconciliáveis. Transmuta tudo quanto toca.” Shelley pertencia à classe de poetas que buscava o Belo, recapturando o ideal grego de que o Belo conduz necessariamente ao Bom e ao Justo. Não é uma visão muito aceita pela pós-modernidade, mas, como ideal estético a ser buscado, não considero como algo tão absurdo assim.
Serei clichê e ficarei com o poema dos poemas, uma das obras máximas de Shelley (sou mais “O Triunfo da Vida” ou “Ode to the west wind”, mas tudo bem, seguirei a multidão), o incomparável “Ozymandias”, a noção de que todas as nossas obras e desesperos e alegrias e conquistas um dia desaparecerão, pois somos somente uma passagem melancólica e fugaz – com rastros de insuperável beleza – pelo planeta:

 

“Eu encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse:—Duas gigantescas pernas de pedra sem torso
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio afundada, jaz um rosto partido, cuja expressão
E lábios franzidos e escárnio de frieza no comando
Dizem que seu escultor bem aquelas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas partes sem vida,
A mão que os zombava e o coração que os alimentava.
E no pedestal estas palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”
Nada resta: junto à decadência
Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas
As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância.”

A decadência é algo inevitável. Achamo-nos tão grandes e indestrutíveis que esquecemos que muitos dos nossos antecessores pensavam o mesmo. Temos que colocar a nossa vida na perspectiva correta, e a leitura de “Ozymandias” é um lembrete amargo que ecoa muito uma poesia do Neruda, aquela em que ele afirma estarmos caminhando sobre bilhões de cadáveres de sonhos que outrora transitaram pelo nosso planeta.

A melhor maneira de degustar o poema é através da sua declamação, e a leitura do Bryan Cranston do original em inglês é simplesmente arrepiante:

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“Um mundo com mais poesias e menos poetas”, texto publicado no Literatortura no dia 20/07/2014

Tem texto novo meu no Literatortura (www.literatortura.com), e eu o trouxe para cá. Apesar de ser uma pessoa cheia de amigos poetas, e de saber que a paranoia vai rolar solta após a leitura deste texto, as pessoas que eu estava pensando sabem muito bem quem são – espero que parem de enganar por aí.

Considero importante refletir sobre o que seja poesia e que os leitores aprendam a separá-la daquilo que é poema. Uma sociedade que não sabe ler poesia é uma sociedade que não tem chance alguma de evolução.

 

Um mundo com mais poesias e menos poetas

 

Somnolence 04 - by Anders Gressli

Somnolence 04 – by Anders Gressli

Nos tempos atuais, é mais fácil achar um unicórnio rosa do que uma boa poesia.

Quando falei esta frase no meio de um grupo de literatos que justamente elogiavam a quantidade de livros de poesia chegando às livrarias, fui encarado com desconfiança e, em seguida, a conversa se direcionou para águas mais calmas. No entanto, longe de ser algo rabugento, foi uma afirmativa exasperada: onde estão as poesias? O que fizeram com elas?

Não se iludam pela quantidade. O mundo está cheio de poemas. Acessem qualquer rede social e serão encharcados por poemas de todos os tipos. As livrarias passaram a contar com prateleiras dedicadas aos livros de poemas, algo impensável anos atrás. Muitas pessoas se identificam de forma orgulhosa como poetas e existem escritores que inclusive afirmam fazer algo chamado de “prosa poética” – um eufemismo para “olhem só como eu escrevo bonito” -, mas, na verdade, as pessoas sequer sabem a diferença entre poema e poesia. Poema é a forma, poesia é o sentimento. Qualquer um pode fazer um poema, pouquíssimos fazem poesia. A melhor definição de poesia ainda é aquela que o Paul Valéry deixou: “A poesia é a intenção de representar, mediante os recursos artísticos da linguagem, aquelas coisas que as lágrimas, as carícias, os beijos, os suspiros, etc., expressam vagamente.” Pensando nisto, em quantas poesias você sentiu a lágrima do outro correr pela sua face, ou a sensação de lábios invisíveis contra os seus, ou o toque sensível que passou toda a compreensão necessária para um momento de angústia, ou o suspiro que você não deu se espalhar pela sala?

Existem muitas pessoas escrevendo poemas e, talvez por este motivo, seja cada vez mais difícil achar a poesia. Ao contrário do que se imagina, poesias não se fazem com palavras soltas no meio do papel, nem com jogos estéreis de som e muito menos com imagens edificantes ou lições de vida. Aristóteles dizia que “a natureza abomina o vácuo” e, assim, a natureza precisa extirpar a poesia do vácuo, precisa dar-lhe forma para que possa ecoar no vácuo interno de outros seres humanos. Dizia Gaston Bachelard que “a poesia ensina a respirar bem”. Poesia é respiração.

Nos tempos modernos, por causa da velocidade da leitura e da busca constante por mais produção (ou estar na mídia), vejo alguns escritores apresentando livros de poemas como uma forma de publicar algo que não seja muito trabalhoso. É a estratégia do “não tenho tempo para fazer algo mais trabalhado, vou jogar algumas frases bonitas em um papel, dizer que é uma poesia e, depois, publicar”. É um jogo ardiloso: quem será capaz de criticar o “eu lírico” de um escritor sem criticar o eu físico? Quem pode dizer que ele não sabe arquitetar imagens poéticas, se sabe manusear palavras? Quem poderá mostrar que o rei está nu, se a poesia é diferente da prosa e, em tese, aceita tudo o que esteja na forma de poema?

O pensamento está invertido. É muito mais difícil fazer uma boa poesia do que um texto em prosa. A facilidade da forma só deixa mais difícil ainda esconder os problemas de estilo. Para um leitor atento, a poesia malfeita inclusive desconstrói a prosa do autor, mostra a planura dos seus sentimentos, os defeitos da sua visão de mundo. Existem momentos em que é melhor ficar em silêncio e, se for para concretizar uma poesia ruim, mais apropriado seria preservar as palavras ao invés de desonrá-las. Palavras também possuem sentimentos.

Ainda assim, existe o aplauso das multidões a dar suporte para os maus poetas. Por muito tempo, não entendi como as pessoas podiam saudar poemas ruins e passá-los adiante como se fossem maravilhosos, até o momento em que percebi que boa parte destes poemas versam sobre mensagens dignas de autoajuda ou sobre sentimentos como saudade, amor e tristeza. É o público da literatura de autoajuda e das novelas se ramificando para dentro dos poemas, confundindo por completo aqueles que buscam as verdadeiras poesias.

Muitas pessoas acham que o verso livre permite tudo em termos de poesia. Estão erradas. Os poetas que usaram o verso livre conheciam – e estudavam – as formas clássicas de poesia e, exatamente por este motivo, foram capazes de transgredi-las. Não existe isto de alguém sentar, escrever dez frases bonitas e indiferentes e chamar de poesia. O verso livre é a poesia mais impossível de ser encontrada, pois tem rimas e ritmos que só se tornam visíveis pelos sentidos, fora de uma lógica cartesiana. Para achá-la, é necessário se perder, ser como o albatroz que mergulha do céu na esperança que o cintilar das águas seja um peixe, e poucos tem tamanha coragem.

Falta educação poética para os escritores e, por consequência, para o público leitor. Faço meu depoimento: não gostava muito de poesia. Nos últimos dez anos, por influência decisiva da minha professora Léa Masina e da sua “dieta de poesia” (ler uma poesia por semana; ainda não cheguei ao uma poesia por dia, mas já ultrapassei o uma poesia por mês, algo alvissareiro), acabei lendo muito. Também estudei bastante, li os teóricos e aquilo que os grandes poetas ensinaram. Tive minhas próprias ideias sobre poesia e, agora, sou capaz de entendê-las (e me aterrorizar, pois ler poesias, para mim, é a própria extensão do medo) e até escrevê-las. No entanto, o maior respeito que eu tenho para as minhas poesias é evitar que venham ao mundo enquanto não forem dignas e, por este motivo, sei que dificilmente deixarão minhas gavetas. Não tenho pressa alguma para acertá-las; deixo elas respirarem sozinhas.

Em um artigo para o Jornal do Brasil veiculado em 20/07/1974 e intitulado “A educação do ser poético”, Carlos Drummond de Andrade afirma que “o uso da escrita poética na idade adulta costuma degenerar em abuso que nada tem a ver com a poesia. Fazem-se demasiados versos vazios daquela centelha que distingue uma linha de poesia, de uma linha de prosa, ambas preenchidas com palavras da mesma língua, da mesma época, do mesmo grupo cultural, mas tão diferentes”. A poesia precisa ser reconquistada e deixar de ser abusada por maus poetas. Ainda que a sua capacidade de se autoinventar seja infinita, o mundo seria um local bem melhor se os poetas respeitassem mais as poesias e menos a facilidade enganadora das imagens poéticas fáceis.

(Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2014/07/um-mundo-com-mais-poesias-e-menos-poetas/ )

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Ontem morreu um poeta

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Ontem morreu um poeta.

Eu não o conhecia. Não pessoalmente, mas li seus versos, o que é ainda melhor do que conhecer alguém. Conversamos duas vezes, a primeira por motivos acadêmicos e, na segunda, ele mostrou as suas poesias. Eram boas. Fortes. Viscerais. Tinham que ser trabalhadas, mas o que não precisa ser? Assim como eu, ele admirava os sonetos. E calculava as sílabas poéticas, o que é um anacronismo nestes tempos de versos fáceis tão semelhantes a slogans publicitários.

Eu disse para ele prosseguir escrevendo. O poeta disse que precisava se encontrar. Não resistiu ao encontro.

Ontem morreu um poeta, mas todos os dias morrem poetas ao redor do mundo. Alguns tiveram a felicidade de encontrar a própria voz, outros consumiram a vida esperando que ela surgisse. Alguns foram publicados ou lidos, a grande maioria preferiu o silêncio. Existem aqueles que mataram a poesia antes que ela conseguisse sair e aqueles que preferem morrer como poetas silenciosos, anônimos.

Quando um poeta morre, para onde vão as poesias que estavam dentro dele? Prefiro pensar que se libertam pelo mundo, procurando pessoas sensíveis, o que implica em dizer que ainda respiramos as poesias de Shakespeare, de Camões, de Petrarca. Que, por sua vez, também respiraram outros poetas, e assim por diante, até chegarmos à misteriosa origem, o dia em que alguém sentiu algo maior crescer dentro de si e precisou libertar.

Não acredito que as poesias se percam para sempre. Não posso admitir que, quando um poeta morre, todo o universo que estava no seu interior desapareça junto. Imaginar isto é imaginar um mundo em que a poesia morre aos poucos, uma gota de cada vez.

As pessoas só morrem quando permitem que a morte se aproxima. A morte de um poeta não existe enquanto existir poesia. Lembro aqui do poema do Yeats, que gosto tanto:

Death

Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone –
Man has created death.

Um poema de Yeats em que a tradução do Péricles Eugênio da Silva Ramos faz plena justiça ao original:

Morte
Medo não tem, nem esperança,
Um animal a agonizar:
Aguarda um homem o seu fim,
Tudo a temer, tudo a esperar;
Já muitas vezes morreu ele,
As muitas vezes retornando.
Em seu orgulho, um grande homem,
Homens que matam enfrentando,
Sobre a substituição da vida
Atira um menosprezo forte;
Sabe ele a morte até os ossos
– Foi o homem quem criou a morte.
Se o homem criou a morte, cabe a ele também descriar. Por isto, ontem não morreu um poeta. Enquanto estivermos lendo, escrevendo e sentindo poesias por aí, ele estará entre nós. Uma dinastia de poetas fantasmas que dão sentido a este mundo onde impera o absurdo.

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No domínio da própria alma

Jorge Luis Borges afirmou que uma das maiores ilusões do homem é achar que a Humanidade nasceu no mesmo dia em que ele; o homem acha que o Tempo da existência humana se confunde com o tempo da sua vida. Salvo melhor juízo, também sou um homem, com suas qualidades e defeitos, e acredito que o Tempo nasceu no mesmo momento em que respirei pela primeira vez esta mistura de oxigênio e nitrogênio que começou a me matar e a envelhecer lentamente assim que entrou nos pulmões.

Há muitos anos atrás, quando a Humanidade recém respirava na sua juventude, eu joguei basquete no colégio Santo Antonio, em Porto Alegre, RS. Por favor, não alimentem ilusões – eu jogava mal. Talvez alguma voz piedosa se levante em minha defesa, mas tenho noção das minhas poucas capacitações para jogar basquete. Algumas das melhores recordações que tenho do colégio estão ligadas ao basquete. O nosso time não era o melhor do mundo, mas éramos honestos e jogávamos com confiança inversamente proporcional à habilidade. Lembro de dezenas de histórias desta época de glórias-sem-glórias (nunca ganhamos nada, mas ganhar algo realmente importa?) e, se não as compartilho com o mundo, é por respeito e homenagem aos meus colegas de time, todos homens sérios e responsáveis. As histórias devem ficar no passado.

Mas recordo de um fato que acabou sendo marcante por vários motivos. Estávamos participando de um campeonato entre colégios e clubes e – não lembro direito o motivo – acabamos tendo que jogar contra a Sogipa. O basquete da Sogipa, um clube de Porto Alegre, participava de campeonatos nacionais e jogava parelho com os grandes times da época. Pegar um modesto time de colégio devia ser algo muito mais fácil do que um treino. O time reserva deles era mais perigoso que o nosso; o time infantil da Sogipa já nos faria suar. E, para culminar com o nosso azar, boa parte do time oficial do colégio estava doente, machucada ou precisando estudar para provas. Por este motivo, acabamos indo jogar altamente desfalcados. Não me recordo nem se tínhamos reservas disponíveis para substituir os titulares daquela partida. Era entrar em quadra, perder com algum mínimo de honra e ir embora.

Estávamos nos preparando para o jogo e, vendo o aquecimento dos adversários, ficamos abismados. No colégio, jamais conseguíamos dar “enterradas”: ainda recordo a primeira e inesquecível vez em que um colega de time conseguiu tamanha proeza, ficamos uma semana comentando o seu feito. O time da Sogipa só sabia dar “enterradas”, e de todos os lugares do garrafão. Eram jogadores enormes, fortes, rápidos, tudo aquilo que não éramos. Prevíamos uma derrota inesquecível e já estávamos resignados.

Antes de entrar na quadra, nosso capitão do dia, o grande Daniel Banias, se aproximou e apontou o jogador que eu ia marcar. Nunca tinha visto um cara tão grande, tanto em matéria de músculos quanto de altura. Eu ri e disse que nunca conseguiria marcá-lo, que ele era impossível de ser derrotado, que nós só estávamos fazendo figuração na quadra para não perdermos de W.O. O Daniel olhou bem sério, segurou meus ombros e falou: “Cara, não me interessa o que tu pensa. Tu vai entrar nesta quadra e vai marcar aquele merda e vai anular ele, sabe por quê? Por que o time precisa. Por que a gente confia em ti. Ele é mais alto e mais forte do que tu, mas, hoje, tu vai ser MAIOR do que ele.”

Não sei o que foi que aconteceu, mas posso garantir que foi a partida da minha vida. Eu realmente anulei o jogador. Lembro de ter dado quatro “tocos” nele; lembro de ter marcado ele com tanta força que, em uma disputa mais ríspida, o arremessei com todos os músculos para fora da quadra; lembro que ele tentou trocar de lado para invadir o garrafão e sempre me encontrou no caminho; lembro de interceptar passes e de deixá-lo nervoso e irritado. Claro que, no resultado final, não adiantou nada, pois perdemos de forma estrondosa. O fato de eu conseguir anular um jogador não impediu os outros quatro de passarem por cima da gente. Acho que fizemos uma cesta de três pontos por acidente e, em compensação, eles empilharam pontos. Mas, como era a tônica naquela época, não ficamos tristes ou arrasados, saímos do mesmo jeito em que entramos na quadra.

Às vezes recordo desta partida, em especial nos momentos tenebrosos ou quando desanimo. De alguma forma, este jogo me define. Tudo está dentro da cabeça: a força do adversário, a sua inexorabilidade, a certeza da minha inferioridade, a derrota. E tudo pode ser vencido se eu ignorar a razão. Como diria Jean Cocteau, “sem saber que era impossível, ele foi lá e fez.” No final das contas, um homem armado somente com a esperança ainda é o mais temível dos adversários.

Esta história me faz lembrar de um poema, um dos maiores libelos a favor da força do espírito, um poema cujas palavras sempre me assombram e em diferentes momentos. O nome dele é “Invictus”, de William Ernest Henley:

Invictus

Out of the night that covers me,

Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

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Recentemente, em uma postagem do blog, perguntei-me se era possível que a alma da poesia fosse tocada através de um solitário poema ou se ela era algo que necessitava de um trabalho perene e infatigável (foi neste post aqui: https://homemdespedacado.wordpress.com/2013/02/03/elogio-tardio-a-poeta-desconhecida/ ). William Ernest Henley (1849-1903) é a prova viva do meu desconforto: a sua existência inteira foi um prelúdio doloroso para este poema e poderia ter se encerrado assim que ele colocou o último respingo de tinta no papel. A própria Wikipedia diz que a vida dele se limitou a estes versos, motivo pelo qual é conhecido e ainda citado, mesmo 110 anos depois de sua morte.

A sua história de vida, quando confrontada com o poema, o deixa ainda mais singular. Ele nasceu e viveu em estado de mais absoluta pobreza. Henley tinha 13 anos de idade quando foi diagnosticado com tuberculose. A doença acabou afetando os seus ossos e, para salvar a sua vida, os médicos amputaram a perna na altura do joelho. Há relatos de que foi uma experiência altamente dolorosa. Os médicos pretendiam amputar também a outra, mas o americano recebeu o auxílio de outro médico, que fez um trabalho intensivo com a perna remanescente e a utilização de remédios para erradicar a doença, algo que lhe deixou muitos anos entravado. E foi com estes problemas de saúde que ele escreveu “Invictus”, louvando a força da alma e o império da vontade sobre todos os problemas que lhe afligiam.

Impossível não pensar em Henley deitado na cama, sem uma perna e na iminência de perder a outra, sacudido por dores excruciantes e, neste cenário catastrófico, ao invés de pensar na saída fácil do suicídio ou na longa estrada da auto-comiseração, receber a inusitada visita de Calíope, Musa da Poesia, e escrever uma defesa da imortalidade do seu espírito. Não se escolhe a hora e muito menos se escolhe o momento; tudo é questão de estar atento e esperar o infinito bater na porta.

Naquele dia, naquela quadra, lutando a batalha impossível, eu entendi William Ernest Henley e o fato dele se considerar “Invictus”. Qualquer pessoa pode ser invencível se tiver confiança em si mesmo, se tiver esperança. Não existe nada maior do que a alma humana, e sempre é bom lembrar disto, por mais que tentem nos fazer esquecer todos os dias.

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Um leitor conta o seu drama: poesias matam sentimentos?

Revisitando minha novamente reagrupada biblioteca, encontro um antigo Neruda, “Cem sonetos de amor”. Ainda está com marcas, de tempo e de leituras passadas. É um bravo soldado que já sobreviveu a algumas leituras, possuindo o corpo repleto de cicatrizes. Entre elas, destaca-se um poema:

“Tenho fome de tua boca, de tua voz, teus cabelos
e pelas ruas vou sem me nutrir, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
procuro o líquido som de teus pés pelo dia.

Faminto estou de teu sorriso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome de pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como intacta amêndoa.”

Não sei por qual motivo ou circunstância destaquei este poema no passado. No entanto, ele me faz recordar uma história que um leitor me relatou. Em um conto de Nikolai Leskov, “A propósito de a Sonata a Kreutzer”, ele afirma que escritores possuem o estranho dom de atrair narrativas esdrúxulas e fazer com que pessoas venham contar-lhe histórias em busca de um conselho fora do normal ou uma visão alternativa do problema. No conto em questão, uma jovem senhora aconselhava-se com Dostoiévski (aham, ela estava mal de “escritor conselheiro”) e, diante do seu falecimento, procurou a sabedoria de Nikolai Leskov (continuou no primeiro time de escritores russos). Eu achava que este hábito das mulheres russas tinha se perdido no tempo, mas, como pude constatar nos últimos tempos, as pessoas ainda procuram escritores para confidenciar os seus problemas.

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Voltando à história: narrou o leitor que, toda vez que vai cortejar uma moça, é naturalmente impelido para a poesia. Não tem coragem para escrevê-las e, por este motivo, utiliza os autores clássicos. Todas as moças ficam naturalmente encantadas pelas palavras que lhes são ofertadas, o que o leva a continuar mandando mais e mais poesias, em um crescendo de poetas, de estilos e de imagens. O problema é que, em determinado momento, ele sente que a moça se distancia, fica fria e taciturna e a relação deles acaba esfriando. Ele acha que a poesia mata o sentimento. Em última análise, pensa que os poetas são os responsáveis tanto pelo surgimento do amor quanto pelo seu desaparecimento. Perguntou-me como fazer para identificar, no meio das poesias com que presenteava, qual era o estilo exato que matava o amor ao invés de fortalecê-lo. Ainda assim, sabia que bastava se interessar por alguma moça e logo a poesia faria o seu doce chamado e ele entraria na esparrela de mandar um poema atrás do outro até acabar com o sentimento genuíno surgido no casal.

Desconheço o motivo pelo qual me perguntam coisas pelas quais não me interesso em absoluto, mas a pergunta era gentil e a dúvida um pouco inquietante. Após alguma conversa com o leitor, analisei a situação por outro prisma. Não existia uma poesia capaz de matar um sentimento, isto era um absurdo. O problema, como sempre, estava no excesso de poesia. Eram tantas palavras bonitas, tantas imagens poéticas, tantas construções sonoras, tantos ritmos e singularidades, que a pobre moça recebia uma overdose sentimental que lhe impedia de usufruir o sentimento real. E deveria ser algo viciante, tanto para quem mandava a poesia quanto para quem a recebia, que não conseguia deixar de lê-la e tentar entender, no meio da construção e estrutura de um poema, qual a mensagem cifrada que tentava ser transmitida. O rapaz alimentava a planta do amor com água poética em demasia.

Sócrates já dizia que a literatura é algo prejudicial, pois afeta a nossa memória e nos impede o livre sentir de uma situação, que fica preso à intenção do autor. Ao encher as suas adoradas de poesia, o leitor deixava de ter uma voz e assumia o melífluo tom de uma entidade incórporea, a Musa da Poesia. Em suma: ele fazia as moças se apaixonarem por palavras, não por ele. E não é só o lutar com palavras que é uma luta vã; apaixonar-se por elas também é.

Esta história ressurgiu ao reler a poesia de Neruda. Eu já disse, em algum momento deste blog, que considero que a melhor poesia é aquela que traz, no seu bojo, uma espécie de metapoesia, um refletir sobre a sua própria existência. E o poema de Neruda trata disto, por trás da enganadora e primeira impressão de que um apaixonado sonha possuir por inteiro o corpo e a alma de outra pessoa, degustá-la como se fosse um alimento, em um sentimento tão intenso de posse que o outro precisa ser assimilado para dar conta de tamanha voracidade.

Também pode ter outro significado: é a poesia dizendo que vai devorar a alma do leitor, devassá-lo, mudar a sua vida e, no ponto final, descartar a mente utilizada como se fosse uma casca sem utilidade. A poesia fala através das palavras de Neruda, dizendo a crueldade que pretende realizar, que pretende possuir sem pena e assimilar o leitor, esvaziar os seus sentimentos.

Talvez Sócrates tenha razão e as palavras sejam realmente veneno. Talvez a poesia tenha sido criada para matar o sentimento: encarcerá-lo e destruí-lo. Talvez todos os poetas sejam pequenos assassinos caminhando impunemente pelo mundo e as palavras, suas adagas cravadas nos corações alheios, sangrando os sentimentos com a sabedoria de um urubu.

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