Arquivo do mês: fevereiro 2014

As estátuas cegas

No centro da sala, o casal dança. A atenção de um se prende aos olhos do outro. Realizam um passo, e a moça parece se afastar, mas o homem a segura e a atrai para si, como um planeta puxa a sua lua. Os movimentos se adivinham diáfanos, apesar da dureza improvável do mármore. Mesmo paralisados, os pés se movem de forma impossível. O Tempo parou ao redor do casal; não existe mais nada, só o passo de dança.

E ninguém sabe disto, pois a plateia que os acompanha está completamente cega.

"A dança de Zéfiro e Flora", de Giovanni Maria Benzoni

“A dança de Zéfiro e Flora”, de Giovanni Maria Benzoni

Muitos e muitos anos atrás, fui a um espetáculo de teatro prestigiar uma amiga. Cheguei atrasado e, para não atrapalhar os atores e o público, esgueirei-me pela porta e me sentei na última cadeira da última fila, longe de todos. A peça transcorria, alguns minutos já tinham passado. Assim que meus olhos se acostumaram com a falta de luzes, notei que era o único espectador. Graças à minha discrição e à escuridão da sala, sequer a minha presença fora notada. Em um primeiro momento, confesso que fiquei chateado; quando alguém pensa em uma apresentação, sempre pensa também no público alvo, e estar sem público deve ser muito chato. No entanto, acabei me distraindo com a peça, e levei algum tempo para perceber que eles estavam interpretando não para os outros, mas para si mesmos. Poderia esperar brincadeiras e desleixo das pessoas que não precisam mais provar nada para ninguém, mas eles foram muito sérios, interpretavam com veracidade e garra. Ainda assim, havia uma nota de estranheza, que só entendi alguns dias depois: eles estavam se despedindo da peça e dos personagens. Uma apresentação de meio de temporada sem público indicava o término do seu ciclo de vida. Continuar seria só perder tempo e dinheiro.

Por qual motivo dançamos, escrevemos ou interpretamos? Para que outros vejam e se encantem ou pela necessidade quase ilógica de buscar satisfazer aquilo que corrói nossas entranhas? Nunca entendi o motivo pelo qual me jogo nesta pira de onde não conseguirei sair intacto e muito menos ser feliz, mas sempre disse que faço isto por não ter opção.

Poderosas alegorias se desprendem desta foto. O casal faz a dança perfeita, mas ninguém olha, ninguém sabe. Os outros são tão necessários assim para preservar o momento? Precisamos realmente de um público? Ou basta o casal saber que dançou a dança mais importante das suas vidas, lembrar de cada detalhe, de cada passo, de cada ondulação? É a divisão mais estranha de todas: as pessoas se sentem mais felizes “mostrando” do que “sendo”, mesmo que mostrem o que não são, mesmo que percam o momento de ser.

Também existe uma alegoria de toda a Humanidade. Maravilhas acontecem ao nosso redor, toda hora, todo dia, o tempo inteiro. Ainda assim, concentrados em nós mesmos, deixamos de olhar ao redor e, assim, o inefável nos escapa como areia por entre os dedos. Andamos em um mundo de pessoas voluntariamente cegas para as suas maravilhas.

E a melhor alegoria de todas ainda é o fato de que nós estamos sutilmente representados na foto. Pois Zéfiro e Flora estão todos os dias dançando na nossa frente, quando as copas das árvores se movem em brincadeiras com o vento, realizando as mais diferentes manobras, em um constante roçar e suspirar.

Embaixo da Flora que dança com o vento Zéfiro, aquele que traz consigo a brisa suave e frutificante capaz de limpar o calor abrasivo do céu com uma lufada de esperança, passam as estátuas cegas, concentradas no seu próprio universo, desconhecendo a magia que acabou de acontecer. Mas isto não impede a dança de continuar, pois o público não interessa, e sim o sentir, a vibração, o sorriso. Isto é o que importa.

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Sobre listas improváveis

Quando anunciei que viajaria para o Uruguai neste mês, algumas pessoas aproveitaram tal fato para realizar seus pedidos. Ontem à noite, para não esquecê-los, resolvi fazer uma lista, e foi assim que ela ficou:

Uma caixa de fósforos de um determinado hotel (ainda fazem caixas de fósforos?);

um presente que tenha a cara e o espírito de uma determinada pessoa;

um cinzeiro;

alguns livros específicos, outros nem tanto;

um barco dentro de uma garrafa;

um botão de camisa usado;

pediram que eu me divirta (várias pessoas);

pediram que eu volte (só meus pais);

um amigo pediu fotos de mulheres uruguaias desnudas (presumo que sejam fotos de revistas. As mulheres de um país são diferentes das mulheres de outros? Isto nunca tinha passado pela minha cabeça);

pediram fotos;

pediram histórias;

pediram que eu abra os olhos e veja ao redor;

 

alfajores de chocolate e morango;

pediram que eu RESPIRE.

Listas são divertidas. Desde os Dez Mandamentos, elas são algo que servem mais como referência do que como guia. Conheço pessoas tão fascinadas por organização que fazem listas de listas; não à toa, são as mais desorganizadas. No entanto, a nossa relação é complicada: normalmente, quando faço listas, acabo as esquecendo. Muitas vezes iniciei listas de supermercado com o vocativo “Não esquecer a lista de supermercado!”, mas foi inútil. É melhor confiar na minha memória.

escape reality

O Umberto Eco tem um livro muito interessante, “A Vertigem das Listas”, em que leva o conceito um pouco além, procurando exemplos na pintura, na escultura e na literatura feitas sem o formato de listas, formas encontradas de passar quantidade e enumeração sem que estejam com esta ideia claramente declarada. Após a leitura, concluí que, se existe algo completamente humano, é a tendência de capturar o infinito através da listagem de elementos que guardam semelhança entre si ou identidade de objetivos.

Mas as listas desconexas são as mais desconcertantes. Jorge Luis Borges usa várias vezes este recurso. Apesar da tentação, não vou me deter na lista de Borges que Michel Foucault mencionou como responsável pela gênese de “As Palavras e as Coisas” (para contextualizar, menciono a introdução de Foucault: “Esse texto [de Borges] cita ‘uma certa enciclopédia chinesa’ onde será escrito que ‘os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas’.”).

As conclusões a que Foucault chegou com base neste trecho sempre me deixaram um pouco decepcionado. Ao contrário do que ele defende, não acho esta lista impossível ou de caráter arbitrário; eu a considero uma caixa de possibilidades que abarca outras caixas e , assim, até o infinito. O cerne da questão – para mim, desculpe-me, Foucault – está em “uma certa enciclopédia chinesa em que será escrito”: o papel aceita tudo e torna tudo possível, até o impossível. Considero a listagem como um cubo mágico diabolicamente planejado – ou, que seja, suspiro de desalento, um LABIRINTO – para levar o leitor até a loucura na tentativa de resolver seus mistérios, mas não acho uma lista impossível. Ou alguém aí acha que eu não respirei até hoje e que tal item precisa ser colocado numa lista para que eu me lembre?

Prefiro outras listas menos pretensiosas de Borges, em especial as que aparecem em “O livro dos seres imaginários”, escrito em parceria com Margarita Guerrero. Na introdução, eles anunciam o intento do livro:

“O nome deste livro justificaria a inclusão do príncipe Hamlet, do ponto, da linha, da superfície, do hipercubo, de todas as palavras genéricas e, talvez, de cada um de nós e da divindade. Em suma, quase do universo. Ativemo-nos, contudo, ao que imediatamente sugere a locução “seres imaginários”, compilamos um manual dos estranhos entes que engendrou, ao longo do tempo e do espaço, a fantasia dos homens.”

Duas palavras constituem o cerne desta lista, e as duas mostram indefinição: “talvez” e “quase”. “Talvez” coloca a própria figura do leitor no papel de uma criatura imaginária, o que é desconfortável, mas, se pensarmos que nem todo livro nasce para ser lido e que o Leitor também é uma construção do autor, eu entendo que não existe outra possibilidade do que não imaginar que todo leitor é uma criatura imaginária. Até mesmo vocês, pessoal.

Todas as pessoas são imaginárias, tanto pelos outros quanto por si própria… ou alguém realmente acha que é real? A esta altura da vida? Desculpem, mas é muita ingenuidade; não passamos de projeções alheias e de idealizações reprimidas. Eu sei que não sou real, e aceitar a minha irrealidade é um conforto.

Por outro lado, o “quase do universo” deixa uma questão no ar: o que está além de todo o Universo e fora da abrangência da realidade? Por que a única opção de não ser imaginário está fora do universo inteiro? Acho que a resposta escapa da minha compreensão ainda que, instintivamente, eu entenda que o real só possa existir fora da irrealidade em que vivemos.

mascarado fumando

Outra listagem que gosto bastante deste mesmo livro:

“Em um bosque, o protagonista se depara com uma estátua de pedra, que lhe parece o ídolo de algum velho templo germânico. Toca-a e a estátua lhe diz que é Baldanders e assume as formas de um homem, de um carvalho, de uma porca, de um salsichão, de um prado coberto de trevo, de esterco, de uma flor, de um ramo florido, de uma amoreira, de uma tapeçaria de seda, de muitas outras coisas e seres, e então, novamente, de um homem.”

O engraçado é que o mais indefinido dos itens desta lista é justamente um homem. Sem contar que a inclusão de um salsichão como uma das formas escolhidas é o elemento que quebra a linearidade. E aqui está o ponto que eu pensei quando vi a lista que me deram de coisas para fazer/trazer do Uruguai: não existe linearidade alguma. Nenhuma espécie de lógica. São elementos que, separados, possuem sentido próprio, mas, juntos, não possuem nenhum nexo.  

E isto me faz pensar em quantas coisas na minha vida, quando olhadas em separado, possuem toda a coerência possível, mas, unidas, mostram um ser despedaçado, multifacetado – e repleto de instabilidades e incertezas. Como talvez todos nós. Como quase o universo.

Da lista que fiz, uma coisa é certa: a diversão. Este é o meu grande segredo – estou sempre me divertindo comigo, mas isto não quer dizer que eu esteja rindo.

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Às ruínas que um dia seremos

Há uma semana que penso em hipopótamos. A lembrança deles me persegue: em cada caminhada, em cada conversa, em cada responsabilidade que a vida coloca em meu caminho, os hipopótamos me espreitam com seus olhinhos maléficos e o corpo escondido pela água.

Eu sei que não devia assistir aos programas de canais de televisão como o NatGeo ou o Discovery Channel. São programas sombrios, onde até mesmo a redenção ou a vitória é enganadoramente cruel.

Mesmo assim, assisti a um documentário sobre hipopótamos. Anos atrás, li “Congo”, do Michael Crichton, no qual ele comenta que, dos animais que habitam o mundo selvagem, os hipopótamos são os mais perigosos. Eles atacam sem motivo, gostam de usar a noite para se aproximarem de barcos e os virarem na água e também possuem uma estranha predileção em usar sua bocarra para estraçalhar qualquer coisa que fique no seu caminho, inclusive carne humana. São velozes dentro da água e espantam pela velocidade fora dela; ninguém gostaria de ter pela frente um inimigo sedento por sangue e que tenha algumas toneladas de pura raiva e crueldade.

Neste programa, detalharam o ritual de acasalamento dos hipopótamos. Como vários animais, as fêmeas se agrupam ao redor de um macho dominante, seu dono e senhor absoluto. À medida em que envelhece, o chefe do clã é desafiado por outros machos interessados em tomar o seu lugar. Até o dia em que chega o macho que irá lhe derrotar.

Primeiro, eles brigam. Usam as bocas e os corpos para se agredirem. No caso do vídeo, a luta levou quase 40 minutos de cabeçadas, mordidas e empurrões. Começou na água e terminou na terra, e era um espetáculo de lama e de fúria à medida em que os dois animais se jogavam um contra o outro.

Mas o macho está envelhecido, e a hora da derrota chegou. Cansado, ele acaba caindo, reconhecendo que o outro hipopótamo triunfou. No entanto, a sua humilhação ainda não acabou. Ele precisa ser aniquilado, física e moralmente.

Por isto, o primeiro ato do hipopótamo vencedor é VIOLENTAR o macho derrotado. Sim, pois é. Sobe nele e o cavalga, e o vencido não tem forças para resistir à violação. Assistido pelas fêmeas, o outrora dono do harém tem a sua derrota publicamente reconhecida, ao mesmo tempo em que o novo macho da área manda uma mensagem de violência e força.

Ainda não acabou.

Após o estupro, o hipopótamo jovem DEFECA no vencido. E anda ao seu redor, defecando e girando o rabo para lhe acertar o máximo possível de dejetos. Só então se dá por satisfeito e a vitória está completa: depois que acabou com tudo o que era o passado e destruiu a imagem que o macho tinha diante do grupo de fêmeas.

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(Melhor sorte não assiste aos babuínos: além de serem derrotados pelo macho novo e de serem violentados, o vencido continua fazendo parte do grupo, mas vira uma espécie de babá dos filhotes recém nascidos, ficando a serviço das fêmeas que outrora subjugava).

Os hipopótamos estragaram a minha semana. Nem tanto por mostrarem toda esta maldade, mas por revelarem uma situação que também é humana: a necessidade de extermínio completo dos vencidos. A noção de que a simples vitória é insuficiente; a política deve ser sempre de “terra arrasada”, no melhor estilo das punições do passado – além de matarem a pessoa, matavam a sua família e os seus animais, apossavam-se das suas propriedades, queimavam a sua casa, derrubavam-na e colocavam sal em cima para que nada mais fosse capaz de crescer com vida no terreno. Além disto, faziam um enorme esforço para apagar o nome da pessoa em todos os registros, para que nem mesmo a sua memória perdurasse.

Ninguém mais lembrará do hipopótamo anterior. Rei morto, rei posto. Era preferível que tivesse morrido, pois passará o restante da vida vendo as graças que agora lhe são negadas. Mas a pior das punições é continuar vivo, acompanhando a sua derrocada em todas as etapas, até a Morte bendita vir colher a flor que mora no seu peito e levá-lo para o paraíso dos hipopótamos.

Tudo passa, até mesmo a nossa época de glória. O problema é que nunca sabemos quando estamos vivendo o apogeu, somente descobrimos quando ele passou. Por mais poderosos que hoje somos, o destino inescapável é a ruína, a queda, pois ninguém fica o tempo inteiro no auge. Tudo aquilo que imaginamos que as outras gerações irão reconhecer está fadado ao desaparecimento, assim como o nosso nome sumirá ao lado de tantos outros desaparecidos, tantos outros que se imaginaram eternos.

Tudo o que restará da nossa vida será uma estátua escondida no deserto, anunciando glórias perdidas e lembrando, com nostalgia, de como éramos grandes e, hoje, não passamos de sombras pálidas tendo que conviver com o ocaso. Assim disse Percy Bysse Shelley, em um dos meus poemas prediletos, “Ozymandias”, escrevendo sobre Ramsés II:

I met a traveller from an antique land
Who said:—Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter’d visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp’d on these lifeless things,
The hand that mock’d them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
“My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!”
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.”

(ou, em uma tradução literal que não está identificada na internet – eu nunca ousaria traduzir este poema, ele é único demais:

Eu encontrei um viajante de uma antiga terra
Que disse:—Duas imensas e destroncadas pernas de pedra
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia
Meio enterrada, jaz uma viseira despedaçada, cuja fronte
E lábio enrugado e sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor bem suas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.
E no pedestal aparecem estas palavras:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem as minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”
Nada mais resta: em redor a decadência
Daquele destroço colossal, sem limite e vazio
As areias solitárias e planas espalham-se para longe.)

Com certeza, o hipopótamo não começou aquele dia sabendo que seria derrotado. Não sabia que, em breve, se tornaria uma ruína. Ele iniciou o dia como todos nós: achando-se invencível, único, todo-poderoso. Mas, no derrubar do sol, ele já tinha se tornado passado, um espectro risonho da sua própria arrogância.

Este foi o dia em que a idade chegou, em que o Tempo bateu na porta e cobrou os seus tributos. Foi o dia em que a vida dele acabou sendo dividida em dois, em que tudo mudou.

E é impossível não se perguntar: será este o meu dia? O seu? O dia em que nossas estátuas começarão a ser cobertas pela areia invencível do deserto?

Saberemos ao final, depois do nossos adversário ainda misterioso chafurdar sobre a nossa desgraça com a empáfia do vitorioso.

Fragmento de estátua de Ramsés II

Fragmento de estátua de Ramsés II

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O desespero do barro

No fundo, não estamos tão longe assim do barro.

Somente a pele nos separa da verdade, e mesmo ela se desfaz em constante poeira, como se não fosse capaz de conter esta natureza instável, formada por terra e por água misturados.

É apropriado que a escultura tenha sido feita de argila. O mármore é enganoso, mostra uma limpeza que não existe. O granito esfarela; a pedra-sabão é delicada demais. Os minérios não tem coragem de serem sinceros, preferem a ilusão. Mas o barro não tem nada a perder, pois é diariamente pisoteado. Ele não precisa mentir.

Na imagem, Adão e Eva acabaram de encontrar o corpo de Abel, o rosto esmagado pela pedra. Pai e mãe pranteiam o filho assassinado. Adão volta o rosto contorcido para o céu, esperando talvez uma intervenção divina ou uma explicação. Ele ainda não sabe, mas perdeu dois filhos, pois o outro é o homicida, agora em eterna fuga de si mesmo. Mais pragmática, Eva enlaça o filho e deixa o desespero se adonar de seu corpo. É a primeira Pietá; sempre que existirem filhos, existirão mães chorando.

Antonio Canova, Compianto di Abele, 1818

Antonio Canova, Compianto di Abele, 1818

É natural que, após alguns anos de vida, tenhamos visto pessoas em diferentes estágios de desespero. De todos os sentimentos humanos, este é o mais universal. Quem nunca olhou para os céus atrás de uma explicação? Quem nunca se entregou à angústia e ao medo?

No entanto, o que observei é que o barro nos irmana. O desespero faz as pessoas perderem seus limites; elas parecem se liquefazer, como se perdessem a concretude, como se estivessem debaixo de uma cachoeira que leva consigo a estrutura tão cuidadosamente construída. Talvez seja timidez minha, mas nãomconsigo lembrar o rosto de alguém em desespero, não sei qual é a cara que ele tem.

Conheço pessoas que viveram sem amor, sem sentir medo, sem ter esperança. O que eu não conheço é alguém imune ao desespero de se saber impotente diante de alguma situação. Pois o desespero genuíno é isto: não ter alternativa, a não ser atravessar um deserto de fogo sem nenhum conforto ou gesto piedoso.

E tantas pessoas falam tanto e escrevem manuais de como encontrar a felicidade, o amor, o sentido da vida, e ninguém fala a grande verdade: preparem-se para o desespero, que logo ele baterá na porta e não pedirá licença para entrar. Vai se apossar da sua vida e mudá-la por completo, a ponto de você dividi-la em dois períodos, antes da sua chegada e depois.

É enganoso imaginar que podemos manobrar o barro à nossa vontade. É ele quem nos controla, é ele quem determina a quantidade de dor que podemos suportar.

o barro
toma a forma
que você quiservocê nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer

(Paulo Leminski)
Não mantenham ilusões; é questão de tempo até o seu barro verter água e se esmaecer no desespero. É o último ritual de passagem que temos antes da morte – sentirmos o desespero preencher cada célula, cada mínima partícula de barro.
É bom estar preparado.

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