Arquivo do mês: junho 2016

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (28/06/2016): “Quando escritores se encontram”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, falei sobre este péssimo costume de encontrar gente conhecida por aí, em especial escritores.

Mas não fiquei nisso. Falei sobre o hábito de nos acumularmos quase sempre nos mesmos lugares e vermos as mesmas pessoas; discorri sobre o mistério de que escritores recusam-se a chamar qualquer local de ponto de encontro oficial, pois, quando ele existir, nunca mais iremos lá; falei sobre alguns encontros épicos de escritores; descrevi o encontro de Otto Maria Carpeaux e Kafka em Berlim, do desentendimento linguístico entre eles e do cara que vaticinou que Kafka “não teria importância”; falei da primeira vez que dois escritores da literatura francesa clássica se encontraram, e da discussão que tiveram sobre o modo correto de se fazer tortillas, que quase levou a um duelo; por fim, falei do pior time de cricket de todos os tempos, o “Allahakbarries”, formado por uma constelação de craques da literatura inglesa, entre os quais Conan Doyle, Rudyard Kipling e H. G. Wells, e que devia ser o horror do seu treinador e fundador, J. M. Barrie (autor de “Peter Pan”).

Boa leitura!

 

Quando escritores se encontram

 

Não faz muito tempo, estava tomando um café e alguém me comentou sobre a quantidade de escritores que caminham por ruas, estão em livrarias ou degustam beberagens em cafeterias de Porto Alegre. É verdade: no curto espaço de uma hora, tinha encontrado ou visto ou abanado para mais de dez escritores e escritoras. E eles continuavam aparecendo como se brotassem do chão, em uma cornucópia incessante, cheios de palavrinhas a escaparem por entre seus poros, histórias que deambulam por aí.

Sempre brinco que Porto Alegre possui escritores demais. Mas, na verdade, as pessoas de iguais interesses possuem a tendência de se juntarem nos mesmos pontos. Assim como existem lugares com muitos escritores, também há pontos onde se encontram desenhistas, pintores, engenheiros, psicólogos. Em geral eles não são sequer formalmente identificados, mas, certo dia, alguém está em determinado local e pensa na quantidade de colegas de profissão que está ao seu redor, e então tem a epifania: estão todos no mesmo local por que ali é o “local de todos”.

As pessoas vão até lá para encontrar os seus semelhantes, e ninguém sabe muito bem como chegou, mas virou o lugar em que vamos para ver e sermos vistos. Não sabemos o motivo de estarmos lá, mas estamos. Curiosamente, identificá-lo como ponto de encontro oficial é o indicativo da sua morte, e que logo será escolhido outro lugar. A melhor resposta para esta aparente contradição quem me forneceu foi um colega escritor em um bate-papo, quando perguntei onde ficava o “bar oficial dos escritores de Porto Alegre”. Segundo ele, no dia em que descobrirmos dito bar oficial dos escritores da capital gaúcha, teremos que deixar de frequentá-lo, pois vai contra o espírito solitário da literatura imaginar que podemos confraternizar todos sob o mesmo teto. Por isso, o ponto de encontro dos escritores é mais ou menos como o Clube da Luta do Palahniuk: ninguém fala sobre ele, mas todos estão lá.

Beatniks ao redor de uma mesa de café

Beatniks ao redor de uma mesa de café

Sempre existiram pontos de encontro de escritores e, como não poderia deixar de ser, eles estão repletos de histórias que saíram do seu interior. No ensaio “Meus encontros com Kafka”, Otto Maria Carpeaux descreve o dia em que se encontrou acidentalmente com Franz Kafka. Primeiro ele menciona o Café Românico, lugar tradicional de Berlim que reunia os maiores escritores de então. Sentados ao redor de uma mesa, ficavam “alguns grandes escritores de verdade: Döblin, Arnold Zweig, Werfel”, e “ninguém ousava aproximar-se sem ser especialmente convidado; o que não aconteceu nunca.” Circulando por tal ambiente, estavam jovens escritores, contemplando os mais famosos como se fossem cachorros esperando um resto de comida ou, no caso, alguma preciosa dica sobre o sucesso literário.

Às vezes, alguns escritores jovens eram convidados, como uma especial deferência, a seguir a conversa dos grandes autores em um dos apartamentos localizados no bairro boêmio e elegante do Bayrischer Platz. Carpeaux recebeu tal convite e, no apartamento, travou uma rápida conversa com Kafka:

“Conheci poucos entre os presentes. Fui sumariamente apresentado. Sentindo-me um pouco perdido no meio dessa gente toda, não tendo a coragem de aproximar-me do centro da reunião, da grande e belíssima atriz D. F. – que tinha fama de Messalina – retirei-me para um canto já ocupado por um rapaz franzino, magro, pálido, taciturno. Eu não podia saber que a tuberculose da laringe, que o mataria três anos mais tarde, já lhe tinha embargado a voz. E então se desenrolou ‘aquele’ diálogo:

‘Kauka.’

‘Como é o nome?’

‘KAUKA!’

‘Muito prazer.’

Foi este o começo e o fim do meu primeiro encontro com Franz Kafka. Ao sair do apartamento, perguntei a meu amigo e introdutor: ‘Quem é aquele rapaz magro com a voz rouca?’ Respondeu: ‘É de Praga. Publicou uns contos que ninguém entende. Não tem importância’.”

Franz Kafka

Franz Kafka

O Tempo e a Literatura acabaram negando o vaticínio do amigo de Carpeaux, e Franz Kafka veio a se tornar uma voz literária não só dissonante da época em que viveu, mas da própria Humanidade. Tornou-se maior do que os demais autores que estavam na mesa dos “grandes escritores”, o que só demonstra algo que Chesterton falou sobre Dickens no ensaio biográfico sobre o autor inglês: os seres humanos só reconhecem a genialidade de outra pessoa depois que ela morre.

Uma das vantagens dos escritores estarem nos mesmos lugares é a possibilidade deles interagirem entre si, o que pode ser uma garantia tanto de dissabores quanto de divertimentos. Assim como Otto Maria Carpeaux encontrou um Kafka esquecido no meio de outras pessoas, podemos nos surpreender com as pessoas que transitam por estes meios, que são a garantia de boas histórias.

Como tudo na vida, os melhores encontros acabam sendo os casuais. Existe uma estranha energia no mundo, que faz almas e pensamentos iguais se jogarem uns nos outros – às vezes de forma literal, algo que explica tanto os grandes amores quanto os ódios mais incandescentes.

O biógrafo Bernard Frank conta que, no século XIX, os escritores e artistas de Paris costumavam se juntar na casa de madame Barrère, que adorava reunir pessoas inteligentes sob seu teto. Pois neste cenário um jovem de 19 anos chamado Jules Verne estava descendo a escada com passos rápidos quando trombou – o termo mais adequado seria “atropelou” – com um homem de formas vastas e compleição robusta que vinha em sentido contrário. Eram épocas em que a menor desavença podia acabar com um duelo às margens do Sena, e o homem que subia a escada agitou a bengala na cara de Jules Verne, xingando-o de todos os impropérios possíveis. Verne olhou o homem de cima a baixo e, provavelmente encarando a barriga do outro e com certeza sendo irônico, perguntou;

– O senhor já jantou, cavalheiro?

– Perfeitamente, meu jovem, e comi nada menos do que uma tortilla de toucinho à moda de Nantes…

– As tortillas de toucinho à moda de Nantes feitas em Paris não valem nada, meu senhor, está me ouvindo?, é preciso colocar açafrão para que se descubra…

– Assim que você sabe fazer tortillas, meu jovem?

– Se eu sei fazer tortillas, senhor? Sei principalmente comê-las! O senhor ainda não experimentou nenhuma de verdade…

– Como o senhor é insolente! Tome aqui meu cartão, com meu endereço… é inútil que me dê o seu… apareça na quarta feira na minha casa para fazer uma tortilla…

Os dois se afastaram e Jules Verne saiu da casa de madame Barrère, indo visitar seu amigo, o compositor Hugnard. Contou a história do estranho encontro que tivera nas escadarias da outra casa, falou do diálogo e, ao pegar o cartão para ver com quem tinha esbarrado, soltou um grito de estupefação. Ele discutira tortillas – e entrara em um duelo gastronômico – contra Alexandre Dumas, o famoso autor de “Os três mosqueteiros” e “O conde de Montecristo”.

Os dois escritores acabariam se tornando excelentes amigos, sendo que Alexandre Dumas virou um dos primeiros leitores das obras fantásticas de Jules Verne. Foi um dos efeitos colaterais agradáveis do choque ocorrido nas escadarias da mansão de madame Barrère, e agora faz parte da aura literária que cerca a ambos os escritores. Grandes espíritos sempre acabam se encontrando e se reconhecendo, e este talvez seja o melhor motivo para continuarmos encontrando nossos iguais por aí: a sensação de estarmos falando com pessoas que nos entendem até mesmo quando não sabemos quem elas são.

Foi para levar tal espírito de comunidade a píncaros jamais vistos que, em 1887, J. M. Barrie – o autor de “Peter Pan” – radicalizou na sua intenção de reunir escritores e artistas. Pegou todo o pessoal que costumava andar por diferentes lugares na Inglaterra e formou a melhor maneira de congraçar pessoas de interesses e estilos múltiplos: um time de cricket.

O time de cricket criado por J. M. Barrie recebeu o nome de “Allahakbarries”, e jogou junto todos os verões de 1897 a 1913. Dois exploradores que viajaram para a África disseram que o nome significava “Heaven help us” (“Allahakbar”), com o acréscimo posterior de “ries”. No entanto, os membros do grupo acreditavam que era um efeito sonoro criado com o sobrenome de Barrie, pois “Allahakbar” não possui tal sentido, e era como se eles fossem “os rapazes de Barrie”. Boa parte deles acreditava também que o nome se relacionava com a sua imperícia, pois eram péssimos jogadores: alguns deles não sabiam sequer segurar um bastão, outros odiavam correr em um campo e era um time em que os seus integrantes preferiam ficar no banco descansando ao invés de jogar.

Na escalação dos “Allahahkbarries”, uma constelação literária poucas vezes repetida. Além do próprio J. M. Barrie, estavam Arthur Conan Doyle, Rudyard Kipling, H. G. Wells, P. G. Wodehouse, G. K. Chesterton, Jerome K. Jerome e A. A. Milne. Henry James assistiu a algumas partidas, mas jamais se encorajou a entrar em campo.

Os Allahahkbarries

Os Allahahkbarries

Outros escritores fizeram parte dos “Allahahkbarries”, que, infelizmente, entrou para a História do cricket como um dos piores times que já existiu na Terra. O único que sabia jogar algo era Arthur Conan Doyle, assim descrito de forma engraçadíssima por J. M. Barrie: “Um grande arremessador. Sabe as fraquezas do rebatedor pelas cores da lama nos seus sapatos”.

Os demais jogadores eram lamentáveis. A descrição dos problemas enfrentados por J. M. Barrie com seu time mostra muito bem a extensão do drama do treinador:

 

– Minutos antes da primeira partida oficial dos “Allahahkbarries”, Barrie presenciou um debate no vestiário.  Os jogadores discutiam sobre qual o lado certo que deviam segurar o taco para acertar a bola;

– Um jogador francês imaginava que, quando alguém dizia “Over!” para uma bola arremessada fora do campo, a partida estava acabada. Quando a primeira bola saiu e o árbitro gritou “Over!” (o que aconteceu em 15 segundos de jogo), ele se afastou da jogada e saiu de campo, como se fossem normais partidas de cricket que durassem 15 segundos;

– Barrie descreveu a defesa do time como “quebra qualquer coisa que veja pela frente e, às vezes, até acerta a bola”;

– Barrie manifestou-se sobre a reclamação de um jogador sobre a forma da bola: “se ele não gosta do formato da bola, pode ir buscá-la antes que chegue o jogador do outro time adversário, bata nela de novo e ganhe o ponto”;

– Sobre os adversários do time em 1889: “parece que a beirada do campo era o local mais agradável de se ficar. Nada menos do que sete jogadores adversários preferiram permanecer lá ao invés de jogar”;

– Todo início de “temporada”, J. M. Barrie precisava escrever um manual para o próprio time sobre como jogar cricket e como se comportar na partida. Um dos conselhos amigáveis para seus jogadores: “quando vocês acertarem a bola com o taco, não vão comemorar com a plateia. Corram imediatamente até o próximo ponto. Não parem para celebrar.”

 

J. M. Barrie era um cronista detalhado das desventuras do seu time de cricket. No início, ele realmente acreditava na qualidade dos jogadores, mas logo foi cedendo às evidências da dura realidade. Reconhecia ser lento e deixar os companheiros em má situação no campo. Nas últimas anotações dos jogos, Barrie já dizia – sem disfarçar o despeito – que, quanto melhor escreve o homem, pior ele joga, o que explicaria as sucessivas derrocadas dos “Allahahkbarries”.

As partidas de cricket e a trajetória deste time formado por escritores acabou com o advento da Primeira Guerra Mundial. No último relato, Barrie escreveu, e a comparação do time fracassado com a situação da Europa é evidente: “A Última Partida de Cricket. Um ou dois dias atrás a guerra foi declarada – minha ansiedade e premonição – os rapazes jogando alegremente cricket em Auch, visto da minha janela. Eu os vejo caindo um a um, e restando cada vez menos e menos no campo”.

Em 1920, Barrie realizou uma última partida dos “Allahahkbarries”. Aos 70 anos, ele era o 12º jogador do time, e o único membro da formação original que ainda estava vivo. Era o alto custo dos tempos em que viviam, e um sinal de que tudo acaba passando, até mesmo as risadas e as amizades.

Todos estes inusitados encontros de escritores, seja Kafka ignorado em um apartamento em Berlim, seja Jules Verne discutindo tortillas com Alexandre Dumas, seja J. M. Barrie juntando todos os seus amigos escritores para formar um time de cricket, demonstram que o mais importante de tudo não é nos juntarmos com nossos iguais, mas nos divertirmos com as pessoas que nos são queridas. Pois, no final, isto é o que levamos da vida: os bons momentos que passamos juntos com quem gostamos e as risadas que trocamos. O resto não importa muito.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/quando-escritores-se-encontram-79f608d48e7c#.y9wartfzb

Deixe um comentário

Arquivado em Alexandre Dumas, Allahahkbarries, Arthur Conan Doyle, café, Franz Kafka, Generalidades, Jules Verne, Literatura

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (21/06/2016): “Quando artistas vão a enterros”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu me diverti horrores falando do que acontece quando artistas vão a enterros.

Alguma coisa devo ter feito muito errado, pois fazia tempo que não me divertia tanto com algo que escrevia. É um texto trágico, ainda que engraçado: falei de Edvard Munch no canto do quarto pintando as reações da sua família enquanto a própria irmã morria; falei de um quadro em que a Morte nos encara nos olhos como se dissesse “vou ir atrás de ti, curioso de uma figa”; falei de Gustave Courbet pintando o enterro do tio e a sua resposta misteriosa quando lhe perguntaram o que o quadro queria dizer; falei de Nikolai Leskov se vangloriando em um conto por ter ido ao enterro de Dostoiévski e terminei com um indignado e revoltadíssimo Emile Zola escrevendo sobre o enterro de Gustave Flaubert, de todas as desgraças cômicas que aconteceram (uma dica: o caixão de Flaubert trancou na sepultura e não tinha jeito nem de subir e nem de descer), e com uma participação especial de Guy de Maupassant como “o tio louco que vai em velórios e fica contando, com riqueza de detalhes, como estava o cadáver”.

Aproveitei para brincar com a autoficção e com a minha noção do que cada obra de arte representa – espero que não me matem.

Espero que também se divirtam comigo. Rir sozinho das piadas é horrível.

Boa leitura!

 

Quando artistas vão a enterros

 

Todo bom artista é, em si, um bisbilhoteiro da desgraça alheia. Assim como o centroavante cujo maior mérito é “saber se colocar dentro da área” (uma das muitas expressões confusas na língua e que só fazem sentido no futebol), o artista é aquela pessoa capaz de se posicionar diante de uma cena, pegar a sua essência e transformá-la em algo maior. Como são incapazes de ver a realidade que os outros contemplam, são as pessoas ideais para ver não o mundo como ele é, mas como gostaríamos que fosse. Agindo assim, transformam o banal e o patético naturais do cotidiano em eventos decisivos para a História da Humanidade – mesmo que seja algo tão prosaico quanto uma unha encravada ou um passeio por Dublin.

No passado distante, cada rei ou imperador que se prezasse possuía, entre os membros mais importantes do seu “entourage”, um escriba, o homem ou mulher oficialmente designado para ver a realidade do reino e transmutá-la em algo épico. Muitas das descrições espetaculares de batalhas que chegaram até nós são resultado da criatividade exagerada de escribas, que viam centenas de milhares de inimigos onde existia um punhado, ou que enxergavam dificuldades extremas em obstáculos mínimos. A História da Arte é fecunda de artistas financiados pelos detentores do poder, precisando ceder o seu talento de vez em quando para retratá-los, desde que, nas horas vagas, pudessem se entregar aos seus devaneios artísticos particulares.

Se algum dia você desejar que algo fique realmente bonito, com as necessárias doses épicas ou tragicômicas, o ideal é chamar um artista. Eles são capazes de tirar ouro da mais ingrata pedra, procurando sempre uma maneira de fazer com que o rotineiro acabe se tornando transcendental.

Isso acontece com qualquer fato do nosso cotidiano, como, por exemplo, um funeral. Não existe nada mais enfadonho e repleto de clichês do que morrer: todos nós chegaremos a tão lamentável obviedade em algum momento. Talvez por isso, todos os funerais – assim como os casamentos e os batizados – são semelhantes entre si. Quem esteve em um, esteve em todos. Portanto, quando um artista mostra um funeral, ele precisa fazer algo que, ao mesmo tempo em que guarde semelhança com o presenciado, também encontre repercussões em outros eventos semelhantes.

No quadro de Edvard Munch, “Morte no quarto da doente” (1896), o único elemento faltante na composição é justamente o corpo sem vida. O pintor norueguês preferiu se concentrar nas pessoas. Todos os rostos aparecem com as feições desvanecidas, com exceção de uma mulher, que encara de forma fixa o espectador da sua desgraça, como se estivesse desafiando o seu voyeurismo mórbido. Ou uma crítica à obsessão do próprio artista em flagrar aquele momento íntimo de dor da família, pois a cena no quarto revela a consternação gerada após a morte da irmã de Munch. Afinal, enquanto todos se lamuriavam, o artista estava em um canto do quarto esboçando a sua obra, seja em papel, seja em um esboço mental.

"Morte no quarto da doente" (1896), Edvard Munch

“Morte no quarto da doente” (1896), Edvard Munch

Alguns poderiam dizer que é uma maneira de lidar com a dor, uma fórmula escapista de atenuar o impacto da notícia, mas muitos considerariam a conduta de Edvard Munch como fria e desalmada: esperar a morte da sua irmã para desenhar a cena e todos os seus detalhes. Revelar a intimidade dolorosa da família e torná-la um objeto de fruição estético. Contudo, observando-se o quadro, percebemos que não é somente a morte da irmã de Munch que está nele, mas o jeito perdido com que cada família se comporta quando um ente querido morre. O artista tinha em mente algo muito maior do que a sua irmã, mas, como explicar isso para os outros sem soar insensível?

Três anos antes, Munch já flertara com o tema. Em “Ao lado do leito de morte (Febre)” (1893), o pintor colocou a mulher morta de costas para a cena, concentrando-se novamente nas pessoas que acompanhavam a cena e as suas reações. Todos estão rezando, imersos na dor, com exceção de uma figura feminina, cujos olhos fixam-se – com censura e curiosidade – nos eventuais espectadores da obra. É um olhar hipnótico, e sempre imaginei esta mulher anônima como a própria Morte encarnada, olhando o espectador do quarto como quem diz “um dia tu estarás morrendo e eu também estarei aqui, curioso de uma figa”. Mas é só a minha interpretação deturpada, que, em geral, reinterpreta as pinturas ou como representações imagéticas da vida e da morte ou como construções auto-referenciais da arte, ou seja, nada muito preocupante – dependendo do ângulo.

"Ao lado do leito de morte (Febre)", Edvard Munch

“Ao lado do leito de morte (Febre)”, Edvard Munch

Gustave Courbet também pintou um enterro, e fez questão de representar o trivial, mas com a pretensão de passar uma ideia muito maior do que a imagem. Em “Enterro em Ornans” (1849), chama atenção a quantidade de pessoas presentes ao enterro. Elas estão divididas em três blocos: homens, mulheres e membros do clero.

Contudo, o detalhe mais interessante está diante da tumba recém-aberta: o crânio perdido, um pouco deslocado do sentido da cena. Existem duas explicações possíveis, e ambas são fascinantes. O crânio poderia ser uma referência ao texto da Bíblia, o qual afirma que, assim que Cristo expirou, a terra se abriu e o crânio de Adão reapareceu. Outra possibilidade é que o crânio remeta à cena do cemitério em “Hamlet”, de Shakespeare. Um crânio em uma pintura nunca é somente um crânio, precisa representar algo.

Existem evidências históricas de que, nesta pintura, Courbet inspirou-se no enterro de um tio seu, usando-o como molde imaginário. No entanto, quando perguntado sobre o sentido do quadro, o pintor francês misteriosamente respondeu que ele representava a morte do Romantismo, uma análise muito legal de se pensar a respeito e que, infelizmente, não tenho espaço para fazer aqui. Assim como um crânio nunca é somente um crânio, uma pintura nunca representa somente aquilo que os olhos podem ver, ela está imbuída de ideias que escapam dos sentidos mais básicos e afundam-se no pântano das ideias do seu autor.

"Enterro em Ornans", Gustave Courbet

“Enterro em Ornans”, Gustave Courbet

A literatura também possui descrições de funerais que aconteceram mesmo e, em quase todas elas, mais do que a realidade chata do evento, existe uma maneira ficcional de ver o tema. O russo Nikolai Leskov, no conto “A propósito de A Sonata a Kreutzer”, realiza uma ousada autoficção – antes que os escritores brasileiros a inventassem – e narra o enterro de ninguém menos do que Dostoiévski:

“Sepultavam Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski. O dia era inóspito e sombrio. Eu não me sentia bem, e com grande esforço acompanhei o caixão até os portões do Mosteiro Niévski. Ali comprimia-se uma multidão. Em meio ao aperto, ouviam-se gemidos e gritos. O dramaturgo Aviérkiev erguera-se acima da multidão e gritava algo. A sua voz soava forte, mas não era possível distinguir as palavras. Alguns diziam que ele impunha ordem e o elogiavam por isso, enquanto outros se irritavam. Sobrei entre os que não foram admitidos no interior dos muros e, não vendo razão para continuar ali, à distância, voltei para casa, bebi um chá quente e adormeci. Por causa do frio e das diversas impressões, sentia-me muito cansado, e dormi tão pesada e longamente que não me levantei para o almoço. E almoço nesse dia nem cheguei a provar, pois, às muitas impressões, ainda veio juntar-se, inesperadamente, uma outra, nova e muito perturbadora para mim.”

O mais interessante neste conto é que não possui nenhuma função narrativa a descrição do enterro de Dostoiévski. A história não possui relação com este escritor, e sim com outro: Liev Tolstói, o autor original de “A Sonata a Kreutzer”. Nikolai Leskov parte do enterro de um portento literário, insere a si mesmo como personagem e, em seguida, desconstrói o conto de outra sumidade da Literatura mundial, invertendo a história original e encontrando novas nuances nela. Assim, no curtíssimo espaço de um conto, coexistem três escritores russos (Doistoiévski, Leskov e Tolstói) com três funções diferentes: Dostoiévski como parte da descrição do dia, Leskov como personagem e narrador e Tolstói como autor da história original que está sendo reescrita. Se isso não é ser genial, não sei o que pode ser.

Nikolai Leskov

Nikolai Leskov

Dentro do conto, Nikolai Leskov usa o enterro de Dostoiévski como uma maneira de marcar presença neste momento histórico. Poderia ter sido o enterro de qualquer pessoa, mas Leskov fez questão de narrar literariamente os fatos ocorridos após a morte de Dostoiévski. Ele poderia ter começado a história no segundo parágrafo, quando aparece a mulher que vai atrapalhar a sua paz doméstica, mas preferiu mostrar, com uma boa dose do mesmo voyeurismo mórbido já mostrado por Munch, que ele esteve, sim, no enterro do grande escritor russo.

Entre as descrições de enterros feitas por escritores, nenhuma bate a narrativa que Emile Zola fez a respeito do enterro de Gustave Flaubert. É hilária. A intenção de Zola era ser completamente realista, registrando para a posteridade o momento, mas ficou tão indignado com a triste realidade que não conseguiu manter a sua isenção até o final da narrativa. A ampla descrição dos fatos ocorridos naquele dia triste, ao invés de homenagear a memória de Flaubert, acaba se tornando de uma comicidade ímpar, mostrando que o mundo real – quando retratado com muita exatidão – acaba se tornando patético, para não dizer lamentável.

Logo no início do texto, Zola relata que estava na sua casa de campo em Médan quando chegou a correspondência:

“No campo, cada vez que recebo a correspondência, experimento um aperto no coração, com medo de más notícias. Entretanto, fiz uma brincadeira: minha família estava lá, e disse rindo que a correspondência não iria de modo algum nos impedir de jantar. E, aberto o papel, li essas duas palavras: ‘Flaubert morto’. Era Maupassant que me telegrafava essas duas palavras, sem explicações. Uma pancada no crânio.”

Minha cabeça sempre se perde em divagações quando faz a seguinte sequência: Emile Zola recebendo um telegrama de Guy de Maupassant sobre a morte de Gustave Flaubert. É um dos maiores acúmulos de talento literário por frase que teremos o prazer de imaginar hoje.

Zola prossegue, descrevendo a sua reação chocada diante da morte do amigo. Começa contando a sua viagem de trem até Rouen, onde acontecerá o enterro, e faz uma descrição ensolarada e compungida do dia: “uma manhã irradiante, de longas flechas de ouro que perfuravam as folhagens repletas de tagarelice de pássaros, eflúvios frescos que emanavam do Sena e passavam como calafrios no calor. Senti lágrimas subirem aos meus olhos quando me vi só, nessa campanha sorridente, com o pequeno ruído de meus passos sobre os seixos da estrada. Pensei nele, dizia-me que tinha acabado, que ele não veria mais o sol.”

Emile Zola

Emile Zola

A seguir, Zola descreve de forma fidedigna os caminhos e estradas que pegou na região de Rouen, até o momento em que se deparou com o cortejo fúnebre de Flaubert vindo na sua direção. Entremeando com descrições do cenário e suas considerações pessoais, o escritor revela toda a dor – um tanto exagerada – que sofre pela morte do amigo. Zola chega a falar das impressões fúnebres que lhe causou uma vaca:

“Num prado, à beira do caminho, uma vaca aturdida estendia seu focinho por cima de uma sebe; quando o corpo passou, pôs-se a mugir, e esses mugidos suaves e prolongados, no silêncio, no tropel dos cavalos e do cortejo, pareciam como a voz longínqua, como o suspiro dessa campanha eu o grande morto tinha amado. Sempre ouvirei essa lamúria de animal.”

Enquanto Zola descreve toda a paisagem em lamuriosos parágrafos, Maupassant para ao seu lado no cortejo e lhe conta detalhes dantescos sobre a morte de Flaubert. Quem diria que Guy de Maupassant seria uma daquelas pessoas que vão a funerais e narra, com minúcias horripilantes, o jeito que o corpo estava quando fora encontrado e o que Flaubert devia ter sentido no momento final, chegando ao ponto de relatar que o seu rosto inteiro estava negro graças à apoplexia, formando um colar ao redor do pescoço como se tivesse sido estrangulado. Zola comenta logo após tal descrição: “Uma bela morte, golpe de maça invejável, e que me fez desejar para mim e para todos aqueles que amo esse aniquilamento de inseto esmagado sob um dedo gigante.” Definitivamente, um comentário nada apropriado.

Não poderei contar todas as minúcias do enterro de Flaubert, pois a descrição é longa. Nos parágrafos seguintes, Zola irá contar os acontecimentos da cerimônia religiosa, manifestando a sua irritação com o coro desafinado (“Um jovem, certamente o filho mais velho de um vizinho, tinha uma voz aguda, dilacerante, semelhante ao grito de um animal que se degola”), com o latim pronunciado de forma errada, com as palavras insensíveis e automáticas que eram proferidas (“por esse grande homem que as pessoas enterravam em sua rotina, proferindo sobre seu caixão as mesmas notas desafinadas e as mesmas frases que teriam proferido sobre o túmulo de um imbecil”), com o baixo público no evento (“o que é inexplicável, o que é imperdoável, é que Rouen inteira não tivesse acompanhado o corpo de um dos seus filhos mais ilustres”).

Gustave Flaubert

Gustave Flaubert

É possível ver que Emile Zola, acaso tivesse vivo hoje, seria um feroz adepto dos “textões” no Facebook. Ele persiste a expor a sua inconformidade com a forma indigna com que Gustave Flaubert é tratado pela igreja, pela sociedade e até pelo exército (menciona soldados cansados disparando salvas para o ar, sem pensar em quem estavam saudando). No entanto, o apogeu da sua raiva acontece em uma cena que conseguimos imaginar com perfeição e, de tão engraçada, deveria estar em uma comédia pastelão:

“E, então, ocorreu um fato que transtornou a nós todos. Quando desciam o caixão ao jazigo, esse caixão muito grande, de gigante, não pôde entrar. Durante vários minutos, os coveiros, comandados por um homem magro, de grande chapéu negro, uma figura saída de ‘Han d’Islândia’, trabalharam arduamente; mas o caixão, de cabeça para baixo, não queria nem subir, nem descer mais, e ouvíamos as cordas rangerem e a madeira estalar. Era atroz; a sobrinha que Flaubert tanto amou soluçava à beira do jazigo. Enfim, vozes murmuraram: ‘basta, basta, esperem, mais tarde’. Partimos, abandonando lá nosso ‘velho’, que entrou enviesado na terra. Meu coração explodia.”

Não resta dúvida de que a realidade é muito mais espantosa e surpreendente quando um artista a observa. As verdades acabam sendo desmascaradas e, assim como hoje vemos a  consternação da família de Munch, as representações simbólicas no enterro mostrado por Courbet, a descrição sombria do enterro de Dostoiévski feita de forma desnecessária em um conto de Leskov e rimos das inconformidades de Zola com relação às indignidades sofridas pelo corpo de Flaubert, podemos encontrar momentos que já vivenciamos dentro das descrições feitas por outros. Pois esta é a triste realidade, a única que não pode ser ocultada: artistas ou não, passamos todos pelos mesmos dramas. A diferença é como os enxergamos.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/quando-artistas-v%C3%A3o-a-enterros-78b05ac92c9c#.bigmmu8n5

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Émile Zola, Dublinense, Edvard Munch, Enterros, Generalidades, Gustave Courbet, Gustave Flaubert, Guy de Maupassant, Literatura, Nikolai Leskov

Passeando com a sombra de Walt Whitman

Tem acontecido com frequência, e não cansa de me perturbar: a sensação de estar em um lugar, ou passar por uma situação, ou escutar alguém falando, e pensar “eu já vi isto acontecer, eu já escutei esta frase, eu já estive aqui”. No meu íntimo, sei que não vivenciei aquilo, mas a sensação é tão vívida que levo algumas horas para entender o que aconteceu.

Um dos males de ser uma criatura intertextual é que as leituras aderiram à minha personalidade de tal forma que não consigo mais saber onde está a experiência vivida e aquela imaginada. Não sei mais onde termina o homem e começa o livro, e é uma sensação desconcertante. Nos últimos tempos, comecei a me policiar para não fazer tantas referências literárias no interior das conversas; minha voz estava se tornando um mosaico de frases de livros e de pensamentos de autores.

Diante da minha confusão interna, não foi espantoso estar hoje caminhando na Redenção e ter percebido, com um susto, que já vivera este dia.

A sensação de estar repetindo um dia já vivido me acompanhou durante toda a minha jornada. Eu já tinha visto aquela fumaça que saía do meu corpo quente em contato com o ar enregelante. Já pensara sobre o funcionamento dos meus pulmões, bombeando ar para dentro do corpo enquanto o sangue corria em rios generosos. Já percebera a sombra das árvores e a dança das luzes, inclusive escrevera a respeito delas. Mais do que tudo, pensava na atmosfera, na sua ausência de gosto, na sua indiferença gritante às poucas pessoas que caminhavam pelo parque em horário tão adiantado.

Tive certeza de que já escrevera este texto. Só podia ser, ele estava impresso na memória.

Levei uma parte da manhã para descobrir que não tinha sido eu quem descrevera o meu passeio pela Redenção. Na realidade, foi o Walt Whitman quem fez tal descrição, quase 130 anos atrás do dia de hoje acontecer.

Está lá, em “Flores da relva”, um dos melhores livros já escritos. A segunda parte do poema “Canção de mim mesmo” descreve o meu passeio matinal de hoje da forma exata com que eu lembrava tê-lo escrito:

Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,
A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.

A atmosfera não é um perfume, mas tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado
Irei até a colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,
Estou louco para que ela entre em contato comigo.

A fumaça da minha própria respiração,
Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,
O odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos redemoinhos do vento,

Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.

Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?

Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,
Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis para encontrar),
Não possuíras coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através do olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.
Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,
Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.

Walt Whitman

Walt Whitman

Lendo o poema, lembrei por que gosto tanto deste trecho em especial. É por causa de dois versos que, no meu entendimento, são o cerne da memória que retenho das palavras de Walt Whitman, o motivo delas me assombrarem dentro do cotidiano. O primeiro contém a explicação para o título, “O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.“: gosto de imaginar toda pessoa como uma declaração corporal e orgulhosa de uma canção, uma música que se ergue, espreguiçando-se, contra o sol nascente.

O segundo verso é “Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas“, pois é uma bela declaração de amor: em troca de uma noite e um dia de companhia, o poeta promete que todos os poemas terão como ponto de origem uma única pessoa. É uma barganha justa, quase uma súplica, e um bocado piegas, mas eu gosto mesmo assim. Sempre digo que o escritor excelente não se faz nas dezenas de acertos, mas no momento em que erra e deixa o humano aparecer nos desvãos da sua névoa criativa.

Walt Whitman é um dos escritores mais universais que existe. Quase tudo que pensarmos, ele colocou de uma forma bonita dentro dos seus versos. Não espanta que Fernando Pessoa, no poema “Saudação a Walt Whitman” (uma maravilhosa homenagem), escreveu o seu amor e admiração, chamando-o de “seu irmão em Universo” e declarando “E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas, / De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.”

Eis outro mal das criaturas intertextuais, como é o meu caso, o de Walt Whitman, o de Fernando Pessoa e o de tantos outros leitores que ultrapassaram o limite saudável de leituras em uma vida: nunca caminhamos sozinhos. Estamos sempre com dezenas de fantasmas andando ao lado. A literatura mora no ar.

1 comentário

Arquivado em Fernando Pessoa, Intertextualidade, Literatura, Temas de crítica literária, Walt Whitman

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (07/06/2016): “Junho, o mês em que estamos em perigo”

Na minha coluna da outra semana no Medium da Dublinense, falei sobre a melancolia que só existe no mês de junho.

Mas não fui tão sombrio assim e também falei sobre assuntos alegres! Falei de um famoso verso de um poema de James Robert Lowell que poucos conhecem no Brasil, um verso sozinho que define junho; falei dos Fireside Poets, que escreveram poemas para serem lidos ao lado da lareira (que perigo!); falei das anotações deixadas por Baudelaire, que era um grande poeta e, apesar disso, um homem desprezível; falei de Maximo Gorki, que usava os junhos para se trancar no quarto e brigar com os personagens das suas tramas; falei de Marcel Proust, que escreveu um prefácio tão bom sobre seus hábitos de leitura que acabou virando livro, e falei que, apesar do clima lá fora nos empurrar para a melancolia, ainda assim junho é o melhor mês para mergulhar na introspecção.

Boa leitura!

Junho, o mês em que estamos em perigo

Junho é um mês interessante. Estamos oficialmente na metade do ano. Nem tão próximos do início ao ponto de pensar que dessa vez tudo vai ser diferente, nem tão perto do final, quando decidimos que, ora bolas, é melhor deixar os problemas para resolver no outro ano. Para piorar a estagnação, não temos feriados, não existem grandes comemorações (tanto que o comércio enxertou o Dia dos Namorados no meio para ter algum lucro) e não há sequer uma estação amistosa a nos esperar cada vez que saímos de casa. Pelo contrário, a indefinição da época do ano também se reflete no clima; as árvores não sabem direito se cedem ao inverno ou se abrem as portas para a primavera. O vento hesita entre nos acalentar ou nos fustigar. Junho não é um mês em que vivemos, mas um período do ano que precisamos ultrapassar.

1 gmJH0iGPTr_JfQCwWhXlRw

Não faz muito tempo, estava pesquisando textos sobre a relação entre religiosidade e o ciclo arturiano, e acabei me deparando com um trabalho de James Russell Lowell, poeta quase desconhecido no Brasil. Em “The vision of Sir Launfal”, Lowell descreve a jornada de Sir Launfal, que se aproximou do Santo Graal mais do que deveria – e acabou descobrindo-o mais próximo do que imaginava. É um poema extremamente descritivo, cheio de belas imagens; o poeta não se limita a contar como é o dia em que Sir Laufal teve a visão, mas tenta passar toda a glória dos sentidos para o leitor.

No prelúdio à primeira parte do poema, uma frase marcante: “And what is so rare as a day in June?” (em tradução livre, “e o que é tão raro quanto um dia em Junho?”). A estrofe que se segue a tal verso trata de descrever a glória de um simples e esquecido dia de junho, mencionando as flores, o murmúrio de vida que sai de todos os lados, o cheiro intoxicante da grama e das flores, as nuvens que servem de pórtico luminoso ao Paraíso, os pássaros que prosseguem no seu balé de vida e morte. No início da estrofe seguinte, Lowell sentencia: “Now is the high-tide of the year” (novamente em tradução minha, “agora é o momento culminante do ano”).

Quando li este verso, ele ficou na minha mente, e tenho lembrado dele com frequência. O que pode existir de tão raro e singular quanto um dia em junho, ou em qualquer mês, ou ano? Todos os dias são especiais, cada um do seu jeito. Vejo muitas pessoas reclamando do frio, do calor, da morte, da vida, dos crimes, da rotina, de janeiro, de junho, de dezembro, mas não conheço ninguém que se senta em um parque e simplesmente olha o dia acontecer, sabendo que tudo – os fatos bons e as circunstâncias ruins – fazem parte da mesma sensação.

James Russell Lowell foi escritor, poeta, crítico, satirista, diplomata e abolicionista. Como todo grande ser humano, não esperou o mundo mudar para se encaixar naquilo que achava ser correto, mas lutou para modificá-lo. Ele foi um dos integrantes do Fireside Poets, um grupo de poetas de New England que tentou trazer mais poesia para o povo, simplificando a métrica e a prosódia para serem lidos – como o próprio nome diz – ao lado da lareira, o leitor estando confortavelmente instalado em uma poltrona. Uma espécie de “comfort poetry”. Lowell não tentou acabar com a predileção do povo pelos poetas ingleses proibindo-os de ler aquilo que gostavam ou xingando os outros escritores, como se tornou um hábito no mundo segregacionista (e que se diz democrático) em que vivemos, mas resolveu enfrentá-los dentro do seu próprio território: a literatura. Sempre haverá espaço para quem realmente fizer um bom trabalho, e os Fireside Poets são um exemplo de que, melhor do que dar lição de comportamento ou escrever enfadonhos “textões” moralizantes para mudar a situação, o essencial mesmo é lutar a boa luta, trincheira a trincheira, usando as armas dos adversários contra eles mesmos.

1 ab1AGNx8_S-t3uHNsmkxYA

Um dia em junho pode ser tão raro e singular quanto um dia em janeiro ou dezembro, tudo depende de como iremos encará-lo. É uma simples ilusão do Tempo, fazer-nos crer que nada acontece em junho. Tudo está acontecendo, mas não estamos observando. O ideal é que sejamos mais como Charles Baudelaire. Quando morreu, o poeta francês, autor de “As flores do mal”, deixou uma série de observações e papéis escritos sobre a sua desordenada mesa. O conjunto delas deu forma a um livro, que recebeu no Brasil o título de “Meu coração desnudado”.

Entre as inúmeras anotações de Baudelaire, algumas ofensivas e outras de uma profundidade filosófica que parte dos seus poemas carecia, encontra-se essa frase, que soa como um lembrete: “Descobrir o frenesi cotidiano” (“trouver la frénésie journalière”). Em todos os lugares do mundo, o dia está sempre transcorrendo de forma frenética, e é por estarmos concentrados em nós mesmos que deixamos de ver as maravilhas ao redor. É dever do artista encontrar o frenesi cotidiano e se embebedar das incertezas diárias. Ver um sentido tão intrincado quanto lógico em uma trilha de formigas e, ao mesmo tempo, perceber as nuances de um canto de pássaro em meio ao ruído rasgante de pneus esfregando o asfalto. Quem é capaz de distinguir a beleza selvagem – e o frenesi – de cada dia é capaz de perceber que junho, um mês que passa batido pelos calendários, possui a sua própria beleza: estar no entrelugar do tempo, na pausa para o ano respirar.

Junho também era o mês que Maximo Gorki considerava ideal para escrever. O tempo não estava nem frio em demasia e nem quente para distrações e, assim, o autor russo podia aproveitar longas horas de solidão permanecendo em casa e dedicando-se a esculpir personagens. Não era um procedimento fácil; junho esmurrava as portas tentando entrar no quarto de Gorki com sua promessa de vida fora do casulo, enquanto que o escritor estava sendo torturado pela própria imaginação:

“Com frequência sentia-me como se estivesse bêbado e tinha rompantes de loquacidade, uma espécie de libertinagem oral, resultante do meu desejo de falar de tudo o que me entristecia ou alegrava; desejava libertar-me disso, falando. Tinha momentos de torturante tensão, nos quais sentia um nó na garganta, como uma mulher histérica. Queria dizer aos gritos que Anatoli, o vidreiro, meu amigo, um rapaz sumamente talentoso, pereceria se ninguém o ajudasse; que Teresa, a prostituta, era uma boa mulher e que era injusto que fosse uma rameira e que os estudantes que a usavam não entendiam que Matitsa, a anciã mendiga, era mais inteligente que Yakóvlena, nossa jovem e livresca parteira. […] escrevi que o Volga era um rio formoso, que Kuzin, o fabricante de cerveja, era um Judas Iscariotes e que a vida era um assunto porco e penoso que matava a alma.”

É possível que somente junho seja capaz de proporcionar a melancolia essencial para o recolhimento e, por conseguinte, para a apreciação artística. Sentimo-nos mais fechados, na expectativa do que poderá acontecer no restante do ano que agora se aproxima, inexorável como um trem sem freios.

Gorki considera o melhor mês para escrever por que podia se isolar não tanto dos outros, mas de si mesmo, e fazer de conta que o mundo tinha parado por alguns dias, o que me faz lembrar uma bela frase de Stendhal: “Os homens só escrevem quando Deus não está vendo”. Talvez junho seja o mês em que Deus tira uma soneca e os homens ficam à solta no mundo.

1 9paT3fWOSK7RgVC_tM3GGw

Ao contrário de Gorki, para Marcel Proust, junho era o mês ideal para ler. O mesmo pensamento introspectivo liga extremos tão díspares quanto Maximo Gorki e Marcel Proust: junho é um mês de entressafra, de se recolher para dentro, seja escrevendo, seja lendo. Em 1905, Proust traduziu “Sésame et les Lys”, de John Ruskin, e escreveu um Prefácio para a obra. O editor francês decidiu excluí-lo do livro e publicar em uma obra autônoma, escrevendo a seguinte observação: “Essas páginas ultrapassam tanto a obra que lhe pretende introduzir, propõem um elogio tão belo da leitura e preparam com tanta felicidade Em Busca do Tempo Perdido que quisemos, livrando-nos de sua condição de Prefácio, publicá-las na sua plenitude.”

O editor tinha razão. O pequeno texto de Proust, que recebeu o título de “Sobre a Leitura”, constitui algumas das mais belas páginas já escritas sobre a magia de ler. No seu início, Proust anuncia “Talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que pensamos ter deixado passar sem vivê-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido.” Em seguida, o autor descreve os momentos de vida extrema que passou lendo e das agruras de um leitor ansioso para chegar ao término da história, mas tendo que lidar com convites para brincar no sol, com abelhas inoportunas que pousam nas folhas do livro, com as perguntas intrometidas e curiosas dos criados, com o jantar que devia ser aproveitado antes que pudesse retornar para o conforto da leitura.

Ao mesmo tempo em que saúda a leitura como a única chave mágica capaz de abrir as portas de moradas que não poderíamos normalmente entrar, Proust alerta que ela se torna perigosa quando, ao invés de nos despertar para a vida pessoal do espírito, tenta substituí-la, fazendo com que o leitor acredite que a única verdade concebível é aquela que está “depositada entre as folhas dos livros como um mel todo preparado pelos outros e que não temos senão de fazer o pequeno esforço para pegar nas prateleiras das bibliotecas e, em seguida, degustar passivamente num repouso perfeito do corpo e do espírito.” Ler demais também é perigoso, como Proust alerta, pois nos deixa acomodados e preguiçosos, achando que a única realidade possível está na imaginação. Por conseguinte, junho, com a sua junção de temperatura ideal e liberdade dos deveres sociais, também é o mês em que mais podemos ficar alienados do resto da realidade objetiva expressa por este mundo grosseiro que insiste em nos atropelar quando estamos querendo uma distração. Não é à toa que, entre os seus comentários, Marcel Proust tanto considera junho como o mês perfeito para ler quanto pensa que é o momento mais tenso do ano, o instante em que podemos nos sentir destacados do restante da Humanidade.

Quando nada acontece, qualquer fato novo pode ser uma surpresa. Junho é um mês discreto e silencioso. Seus trinta dias se arrastam com vagar, pretextando imobilidade. É um mês dedicado à introspecção, à caminhadas solitárias, à passeios noturnos sob nuvens plúmbeas, à leitura e à melancolia. Não é uma coincidência que, por uma trágica coincidência, seja o mês com o maior número de suicídios. Mergulhamos tão fundo no nosso espírito que, às vezes, podemos não voltar. Há de se ter cautela com os discretos e com os sóbrios e, da mesma forma, também devemos aproveitar o silêncio de junho para reencontrarmos um pouco de solidão, a necessária tristeza que irá destacar a alegria dos dias vindouros.

 

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/junho-o-m%C3%AAs-em-que-estamos-em-perigo-da887d7b0dc4#.wshqyp4s0

Deixe um comentário

Arquivado em Charles Baudelaire, James Russell Lowell, Junho, Literatura, Marcel Proust, Máximo Górki, Melancolia

Sobre Philip Roth

No ano passado, eu tive a oportunidade de falar, no Café Literário da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, sobre Philip Roth. O vídeo andava por aí, na internet, e pretendo escrever um ensaio mais dilatado sobre o escritor. A fala pública tem armadilhas e esquecimentos que impedem um desenvolvimento regular dos assuntos que realmente seriam interessantes, até por que preciso me ajustar ao público.

No entanto, enquanto o ensaio não vem, e em preparação para a estreia próxima de um programa virtual sobre literatura que farei com um colega escritor (chamam de videolog, creio), em que falaremos sobre literatura e arte, coloco aqui o vídeo da apresentação. Estava acompanhado na mesa da Clarice Kowacs, minha colega de afazeres literários e psicanalista.

Gosto muito do início da minha fala, o que acontece lá pela metade do vídeo, pois foi resultado do mais absoluto improviso. Enquanto eram feitas as apresentações dos currículos, observei que os sobrenomes dos três integrantes da mesa possuíam a letra K bem forte – Kowacs, Czekster e Knijnik. Inicio com uma alusão a este fato e, em seguida, menciono a existência de um outro “K” bem famoso, o personagem de Kafka. Quando a minha fala se dirigia no sentido de uma abertura canônica, entrelaçando Philip Roth e Franz Kafka, inverto novamente o jogo e menciono outro “K” mais famoso ainda e “de um escritor maior do quer Kafka”: o “K” dos Karas, grupo de alunos que aparece em “A droga da obediência”, de Pedro Bandeira. Heresia literária pouca é bobagem. Em seguida, contei uma cena extremamente nojenta do livro – ainda não acredito que falei sobre “escrever com fezes” para um grupo de psicanalistas – e liguei a outra cena inesquecível de “O teatro de Sabbath”, do Philip Roth, para então começar a minha fala.

Gosto deste início por ser semelhante a uma abertura agressiva do xadrez, o “Gambito Letão”, mas claro que em uma fala pública, sem jogadores oponentes e usando a literatura como se fossem as peças do jogo.

Bom, eu achei divertido. Ainda acho. Foi um bate papo bem legal.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura Contemporânea, Pedro Bandeira, Philip Roth, Temas de crítica literária

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (31/05/2016): “A arte de se apresentar ao público”

Estive muito ocupado nos últimos tempos e com dificuldades para atualizar o blog com meus textos, que continuam saindo por aí. Mas agora a situação está mais calma e vou postar as novidades.

Na coluna que escrevi para o Medium da Dublinense em 31 de maio, eu tratei da minha dificuldade crônica em escrever minibiografias. Cada vez que preciso fazer uma auto-apresentação é um indizível sofrimento – até por não saber direito o que sou.

Mas também aproveitei para contar algumas dúvidas que tenho quando preciso me descrever; falei do Super Homem em “O Cavaleiro das Trevas”, da minibio de Daenerys Targaryen, de Edgar Degas se aproximando da obra como se fosse um assassino e fiz uma leve brincadeira com Descartes; falei do motivo engraçado pelo qual Gabriel García Márquez começou a escrever e também de Rainer Maria Rilke explicando quando e por qual motivo alguém deve contar uma história; falei de escritores como encantadores de cobras e encerrei com a melhor – e mais curta – minibio que eu poderia fazer a meu respeito e que, infelizmente, nunca será possível.

Boa leitura!

A arte de se apresentar ao público

A essa altura do campeonato, é fato quase de domínio público a minha dificuldade crônica em escrever textos de auto-apresentação ou minibiografias. Infelizmente também, para meu azar, é algo exigido em todos os eventos. As pessoas possuem o direito de saber quem vai lhes falar e, assim, uma das primeiras determinações em qualquer lugar é “por favor, envie-nos uma minibio de, no máximo, cinco linhas”. Mal suspeitam os organizadores que passarei dias, talvez semanas, torturando-me sobre o que devo escrever a guisa de apresentação. Serão as cinco linhas – um latifúndio enorme de espaço a ser preenchido – mais excruciantes que escreverei, as que sairão com maior dificuldade e cuidado. Até hoje não escrevi uma minibio decente sequer, e os convites continuam chegando, e em todos eles é gentilmente solicitado um parágrafo de apresentação, e toda vez eu suspiro e penso “oh, não”.

Quem sou eu? Se eu próprio não consigo me conceituar, como posso descrever-me para outras pessoas sem ser um impostor? Todas as definições parecem insuficientes. Tenho real inveja das pessoas que são capazes de se descrever com algumas poucas palavras.

1 DbYG4T_BzUzvsb6EfxH7GA

Em geral, o começo da minibio é fácil, pois coloco o meu nome. As dificuldades começam a seguir: devo inserir a idade? Informar quantos anos tenho é algo importante para quem? Afinal, conheço muitos jovens sábios e muitos idosos infantis. Devo inserir meu gênero? Parece meio óbvio para quem estiver na plateia que pertenço ao gênero masculino e, além disso, qual diferença faria tal informação? Devo informar a minha profissão? Normalmente, tal informação só faz crescer a consternação do público, que se pergunta como diabos um advogado veio parar em uma palestra literária. O mesmo acontece com o público do Direito, quando informo que sou mestre em Letras e doutorando em Escrita Criativa: é possível ver os olhares trocados, no melhor estilo “o que este cara está fazendo aí?”. Consigo a proeza de ser uma estranheza em todos os meios por onde me desloco. Além disso, o fato de ser uma criatura dicotômica faz surgir a primeira pergunta de quase todos os eventos: como você faz para conciliar o Direito com a Literatura? Outra pergunta de difícil resposta, pois não tenho a mínima ideia de como consigo.

Mais dúvidas surgem no momento de mencionar a minha obra e a formação acadêmica: qual livro seria aconselhável destacar? Devo mencionar os cursos que realizei, ou os trabalhos mais importantes publicados? Isso sem contar as questões de estilo. O tom será engraçado ou sóbrio? Preciso passar a informação técnica ou adoçá-la com um pouco de criatividade? Posso ser espirituoso ou a espirituosidade é algo imprudente? São cinco linhas a serem preenchidas, mas elas estão repletas de questões quase existenciais. Nesse momento, penso na extraordinária sorte de Daenerys Targaryen, de “As crônicas de gelo e fogo”, de George R. R. Martin (li o primeiro livro em espanhol, ainda antes dele virar a minissérie “Game of Thrones” da HBO, e tenho dificuldades até hoje de identificar a série toda pelo nome do primeiro volume), capaz de preencher quase a totalidade das cinco linhas de uma minibio com o seu nome: “Daenerys Targaryen, Filha da Tormenta, a Não Queimada, Mãe de Dragões, Rainha de Mereen, Rainha dos Ândalos e dos Primeiros Homens, Senhora dos Sete Reinos, Khaleesi dos Dothraki, a Primeira de Seu Nome.”

A dificuldade de escrever minibios é ainda mais esdrúxula pelo fato de eu não ter bloqueios criativos. Melhor dito, não posso me dar ao luxo de ter um bloqueio: passo o dia inteiro escrevendo, seja na aula, no trabalho e nas horas de lazer. Nesses momentos, lembro de um pensamento do Super Homem em “O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller, quando se colocou no caminho de uma bomba nuclear: “Milhões de pessoas morrerão se EU falhar”. É como me sinto acaso ficasse bloqueado. Tudo bem, é um pouco de exagero. No entanto, não posso sequer cogitar a ideia de um bloqueio, pois algumas dezenas de pessoas dependem dos meus escritos. Então, sem muita alternativa, eu escrevo. “Cogito, ergo sum scribere.”

O que traz à tona uma história engraçada de Gabriel García Márquez. Quando era estudante, García Márquez leu uma reportagem no suplemento literário do El Espectador, jornal de Bogotá. O texto, escrito por Eduardo Zalamea Borda, afirmava que a nova geração de escritores colombianos não tinha nada a acrescentar, que não existiam romancistas ou contistas cuja leitura valia à pena. Ao final da reportagem, o jornalista acrescentou que o suplemento literário só publicava escritores antigos da Colômbia pelo motivo do material dos novos autores ser muito ruim.

1 j0EzwPZl4Rhtb49x-Xg5fg

Indignado com o texto, “resolvido a calar a boca de Eduardo Zalamea Borda” (de quem, no futuro, se tornaria grande amigo), García Márquez voltou para casa e escreveu um conto, mandando para o jornalista. No domingo seguinte, ao abrir o suplemento literário, espantou-se ao ver a sua história em uma página inteira e, ao final, um breve mea culpa, em que Zalamea Borda afirmou que tinha se enganado e “evidentemente, com esse conto, surgia um gênio na literatura colombiana”.

A reação seguinte do escritor colombiano foi de preocupação: “Desta vez, sim, fiquei doente, e disse a mim mesmo ‘Onde é que fui me meter? E agora, o que é que eu faço para não deixar Eduardo Zalamea Borda mal?’ Continuar escrevendo – essa foi a resposta.Tinha sempre na minha mente o problema dos temas: era obrigado a procurar a história para consegui escrevê-la.”

É curioso pensar que García Márquez só continuou escrevendo para não decepcionar a confiança que lhe tinha sido concedida por um jornalista. Acabou se tornando um dos escritores mais lidos do mundo, ganhou muitas honrarias (entre elas o Nobel de Literatura) e teve uma longa e profícua carreira, mas, no momento em que lembrou quando começou a escrever, destacou o motivo mais simples de todos – não deixar outra pessoa passar vergonha.

Existe algo de vergonhoso em ser escritor, e isso talvez acabe se refletindo na minha dificuldade em escrever minibios. Tenho extrema desconfiança sobre pessoas que chegam em um ambiente e se identificam como escritor ou escritora. Em primeiro lugar, por não ser a qualificação indicada para alguém que escreve. Não somos escritores, estamos escrevendo. Estamos sempre em movimento criativo, com a história em constante evolução e leves digressões no gráfico da existência, momento em que algumas tramas se libertam dos corpos humanos que as sustentam e acabam se tornando livros. Não somos o que fazemos, mas aquilo que fazemos é parte da nossa essência.

Em segundo lugar, quem realmente escreve sabe que não existe muita honra em chafurdar no pântano das sensações humanas. É por saber disso que o pintor Edgar Degas afirmou que o artista deve se aproximar da sua obra como um criminoso chega perto da vítima. Escrever é chegar muito perto daquilo que temos de pior e, assim como não se faz omelete sem quebrar ovos, não existe como escrever sem sujar as mãos com a ignomínia dos nossos piores pensamentos e desejos. Não foram poucas vezes em que me identifiquei como “estudante” (não somos todos estudantes durante a vida, em uma lição que nunca acaba?) para evitar o título de “escritor”.

Não há nada de especial em se identificar como escritor, a não ser que a pessoa se ache melhor do que as outras – ou queira ser soterrada por uma avalanche de histórias alheias. García Márquez também tinha essa relutância com o ofício de escrever: “Sempre acreditei, contra outras opiniões muito respeitáveis, que nós, escritores, não viemos ao mundo para sermos coroados, e muitos de vocês sabem que toda homenagem pública é um princípio de embalsamento. Sempre acreditei, enfim, que nós, escritores, não somos escritores por nossos próprios méritos, e sim pela desgraça de não conseguirmos ser outra coisa na vida, e que nosso trabalho solitário não deve merecer mais recompensas nem mais privilégios que os que merece o sapateiro por fazer seus sapatos.”

Fazer uma minibio é escancarar a dura realidade: escrevo e, por conseguinte, sou um escritor. Quando a aura de maravilha se estabelece entre o público – temos um autor no recinto! –, eu me apresso a desfazer tal imagem. Digo que qualquer pessoa capaz de criar uma história é escritor, lançar um livro não é algo determinante, alguns dos escritores mais felizes que conheci se limitavam a contar histórias sem a necessidade de publicá-las. Tudo em vão.

No curto espaço de cinco linhas de uma auto-apresentação, é impossível explicar que escrever é algo orgânico, não uma função bafejada pelas Musas e muito menos uma profissão da qual devemos tirar o sustento. Foi Rainer Maria Rilke quem, nas “Cartas a um Jovem Poeta”, sintetizou a mais importante das questões para definir quem deve escrever e quem é melhor que não faça isto:

“O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer nesse momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: ‘sou mesmo forçado a escrever?’ Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa a sua vida de acordo com essa necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão.”

Escrever é pura pressão – as histórias que estão dentro de uma pessoa acotovelando-se como cobras, ansiosas para conhecer a liberdade dentro das páginas de um livro e travar contato com outras imaginações, germinando, assim, novas cobras em cabeças alheias. Sou um encantador de cobras, usando palavras como se fossem a melodia hipnotizante de uma flauta, tudo para pacificar o mar revolto de guizos, chocalhos e sons sibilantes que me habita e tenta vir à luz todo santo dia.

1 O_GLnDVchYMNpbcUaycxIw

Não existe maneira de conter tal definição de literatura nos limites estreitos de uma minibio. Portanto, continuarei imerso em desconforto a cada vez que for palestrar e me pedirem um pequeno texto de apresentação. Continuarei me sentindo a pessoa mais indecisa do mundo. Continuarei recebendo mensagens apavoradas dos organizadores, “Gustavo, precisamos urgentemente da tua minibio”. A necessidade de catalogação e identificação de alguém acaba por desprezar a realidade. Para mim, só existe uma qualificação de verdade, algo que contém todas as facetas da minha personalidade no seu interior, a minibio ideal: “Eu sou o Gustavo, e sou um leitor”. Eis a maneira com que me identificarei assim que chegar nos portões do outro mundo, pois é tudo o que precisam saber a meu respeito.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/a-arte-de-se-apresentar-ao-p%C3%BAblico-2edca9a09d43#.cicffhynj

Deixe um comentário

Arquivado em Cavaleiro das Trevas, Dublinense, Gabriel García Márquez, George R. R. Martin, Literatura, Minibio, Quadrinhos, Rainer Maria Rilke