Arquivo do mês: junho 2015

Conto publicado no livro “Festschrift para Assis Brasil” (2015)

O professor Luiz Antônio de Assis Brasil está completando 70 anos e, em sua homenagem, alguns dos alunos que passaram pela Oficina de Criação Literária da PUCRS (carinhosamente chamada de “Oficina do Assis Brasil”) resolveram lhe presentear com uma antologia de contos inéditos.

Participei com um conto e, ao contrário do que geralmente acontece, me diverti bastante enquanto o escrevia. Na realidade, a trama nasceu anos atrás, em Ouro Preto, quando estive na casa de Tomás Antonio Gonzaga e vi onde morava a famosa Marília, a musa do pastor árcade Dirceu. Meu primeiro pensamento foi: “mas que diabos, ele tinha que possuir olhos de águia para ver a Marília a tal distância!” O pensamento ficou anos surgindo e desaparecendo, assim como a sensação de incômodo, até virar este conto, em que o escritor deixa de ser um apaixonado e se torna um stalker, um perseguidor feroz da personagem/musa. Pode-se ler todos os poemas de Tomás Antônio Gonzaga como uma declaração de amor, mas também podemos ver como o lento desenrolar de um filme de terror do qual a personagem não consegue se libertar do assédio ameaçador e voraz de um homem que pretende consumir a sua existência. É pequena a diferença entre amar e ameaçar.

O título original era “Carta aberta ao meu carcereiro”, mas a minha amiga, a escritora Helena Terra, achou o título pequeno para as possibilidades da história. Mudei então para a primeira linha de um dos meus poemas preferidos de Tomás Antônio Gonzaga, a Lira XIX, “Enquanto pasta alegre o manso gado”. Quem decidir ler o poema antes do meu conto, perceberá que Dirceu, logo após sentar com a Marília e imaginar o futuro idílico de ambos, afastou-se e, ao deixá-la sozinha, Marília enfim falou o que pensava na forma de um desabafo. Tudo bem, é a voz negligenciada do feminino tendo a sua chance de réplica, mas não deixa de ser assustador imaginar uma personagem submetida às lascívias e incomodações do seu criador pelo resto dos tempos.

“Enquanto pasta alegre o manso gado” devia estar no meu próximo livro de contos, que estou em fase de finalização, mas decidiu desgarrar-se do conjunto a que fazia parte para passear na antologia. Tudo bem – perdoaremos tamanha traição. Não existe nada melhor do que lembrar a um escritor os riscos que existe em prender as suas musas. Ao mesmo tempo, o conto serve de um alerta: eis o que estou preparando. Eis uma pequena amostra do que estou trazendo ao mundo.

Bom, segue o conto.

Divirtam-se.

 

Um desenho de Marília.

Um desenho de Marília.

 

Enquanto pasta alegre o manso gado

 

 

Olá. Tu falas bastante comigo e não creio que tenhas me escutado. Mas hoje, após sentar ao meu lado e dizer o futuro ao qual estou destinada, cansei. Resolvi enviar-te uma missiva, algo que rompa o silêncio a que fui condenada, pois não aguento mais. Não conseguirei ser feliz enquanto me seguires com esta obsessão repleta de raiva e olhos vigilantes a cravarem sóis invisíveis nas minhas costas. Sinto-me sufocar. Escuto tua sombra farfalhando atrás de cada passo. Sinto o teu odor de homem atrás de cada árvore. Não consigo ver-te, mas a aura angustiante do teu amor me persegue, um cão do inferno. Antecipas cada atitude minha, inventas pretextos para que nossos pensamentos coincidam, sofres quando tento me afastar e ganhar vida própria. Sei que somos duas mulheres: eu, a que existe na tua idealização, prendeste nesta montanha infinita; a outra, a real, está caminhando por aí. Vejo-te olhando pela janela, enquanto a outra eu caminha no pátio distante. Suspiros estremecem o ar da sala, que ontem estava preenchido por segredos, conspirações e medos. Em seguida, tu voltas à mesa e teu corpo vira fúria e tinta; pegas o papel e descarrega a inconformidade, como se eu fosse capaz de dar alívio para a dor. Teu desespero só me deixa ainda mais nervosa. Tenho medo de que acabes me matando. Sei que já construíste a minha sepultura, imaginaste o sabor cinza dos meus lábios repletos de deserto, planejaste cada detalhe das minhas exéquias e o tom exato do discurso com que lamentarás a minha partida para outro mundo. Tens medo de me perder e, assim, pensas afastar a Morte me deixando longe dela, sob tua segurança constante. Eu não sou como a outra, que te percebe vigiando e acha sedutor. Matas todos os homens que tentam se aproximar; sei que tens ciúme dos bodes, dos outros pastores, da grama em que piso. Teu amor doentio está nos matando. Não suporto ser tua escrava e passar noites te agradando, lendo-te poesias (sequer gosto de poesia!), sempre com os meus olhos amorosos voltados para o teu ego imenso. Nunca me deixas sozinha, imerso nesta insegurança de homem ciumento, disfarçando o medo atrás de algo que chamas de amor, mas é uma forma de egoísmo. Tu não sabes o que é amar. Se realmente me amasse, pararia de me perseguir. Não posso escutar versos, não aguento mais as imagens e as palavras que usas. Não suporto esta sucessão de dias luminosos, repletos de pequenas maravilhas. Estou farta de árvores marcadas com os nossos nomes, de riachos sussurrantes, de poentes perfeitos. Quero um mundo instável, sentir dor, ter dúvidas e não te quero por perto. Desejo caminhar sozinha e tomar decisões, sem tuas mãos a me guiarem. Não sou a tua musa, sou uma mulher. Teu sonho de companheira perfeita é possuir uma escrava, alguém que passa os dias servindo as tuas vontades, e eu não sirvo para tanto. Imploro-te por liberdade. Ninguém nasce para ser subjugado por outro. Não sei o teu nome, nunca me disseste: preferes te esconder atrás de um ridículo nome de pastor, enquanto brincas com Glauceste e Alceu por entre as colinas de falsa alegria em que me prendeste. Esqueça de mim; vá perseguir outras mulheres, outros devaneios. Deixe-me ser sozinha ou me mate, pois viver assim é mentir, e eu não aguento tanta hipocrisia. Escute a súplica contida nesta missiva, implacável carcereiro da minha névoa, e me liberte deste inferno horrível que é ser obrigada a te amar. Mexa a pena e mate-me logo; não quero passar a eternidade sendo lembrada como um adereço teu, mais um desses bois alegres que infestam o cenário.

 

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Texto novo no Literatortura (08/06/2015): “Amar é estar com a pessoa que nos conta uma história”

É semana do Dia dos Namorados e, mesmo sem acreditar muito em datas especiais, resolvi escrever algumas palavras sobre a importância das histórias e de como elas se espalham pelo mundo.  É um procedimento cansativo escutar as histórias alheias, mas também é recompensador. Por exemplo, jamais imaginaria que a definição mais verdadeira de amor sairia dos lábios de um homem desesperançado ao me confidenciar que esperava os momentos de escuro e de calmaria no quarto para escutar a mulher amada.

Participação especial: o cocheiro de Tchekhóv e a babá de Murilo Rubião.

Espero que gostem.

 

Amar é estar com a pessoa que nos conta uma história

Matthias Leberle 5

 

Em viagem recentemente realizada, observei um interessante fenômeno: basta anunciar o meu interesse sobre literatura fantástica ou sobre terror para que pessoas próximas comecem a contar algo ligado a tais temas. As histórias parecem ansiosas para encontrar um ouvinte, enxergando a minha aproximação como a sua última esperança de conseguir liberdade. Eu não as impeço de virem ao mundo, nem sequer tento cerceá-las ou me intrometer; também não tenho a postura blasé ou indiferente que detecto em muitos escritores. Não acredito que histórias tenham cor, classe social, idade, preconceitos ou etnias. Estou acostumado a escutar crianças, jovens e velhos, e tanto a imaginação ainda imberbe quanto aquela dotada de sabedoria possuem seus ritmos próprios. Quando o outro está envergonhado para contar a trama que lhe aflige ou com dificuldades para externar o seu pensamento, mantenho silêncio, pois sei que a omissão também é uma história. Se ela for forte o suficiente para se libertar, então será por mérito próprio, não por obrigação.

Acredito que não existem pessoas no mundo, mas histórias aprisionadas por pele e ossos. São elas que movem a raça humana: a vontade de ser transmitida para outra pessoa, o desejo de perpetuidade, a sensação de que a nossa vida não foi em vão e de que seremos recordados. O resto – dinheiro, fama, bens materiais, memórias – passa. A história não pode parar. É algo que observo: ninguém lembra dos outros pelo o que eles são, mas pelo conjunto de histórias que os formam. Somos sete bilhões de histórias se esbarrando por aí.

No passado, achava que existia algo de cruel em ser o destinatário das confissões alheias: meus amigos e conhecidos sabiam que eu gostava de escrever e me “presenteavam” com histórias não-solicitadas. Contudo, à medida que o tempo passava, uma estranha magia passou a acontecer: mesmo sem me identificar, mesmo sem dizer que costumo escrever, mesmo na presença de desconhecidos, ainda assim as histórias continuavam surgindo. Taxistas, pedreiros, garçonetes, seja lá quem estivesse na minha presença, a sua narrativa era passada adiante. Só havia uma conclusão possível: as histórias estão ao nosso redor, o tempo inteiro sendo contadas e recontadas, em um movimento infinito. Nós que não as escutamos, e toda a tecnologia humana é uma tentativa de calar a história do outro. Às vezes, a trama mais incrível e impossível está sendo contada enquanto digitamos no celular ou escutamos música, é só prestar atenção que seríamos capazes de ouvir. Uma perfeita metáfora seria o conto “Angústia”, de Tchekhóv: o cocheiro ansioso para contar a sua história e tendo que se deparar com a frieza e com a indiferença alheia, mas a angústia é tamanha que ele necessita contar e dividi-la um pouco com os outros. Assim é a Humanidade – um bando de gente solitária tentando encontrar um ouvinte, um só.

Com frequência, sou acusado de idealista, mas penso que o mundo seria um local bem mais interessante se voltássemos a ouvir as histórias alheias. Se escutássemos o que os outros têm para nos contar ao invés de tentar silenciá-los. Se deixássemos de falar e de pensar em nós mesmos e passássemos a ouvir mais. Aprenderíamos muita coisa sobre o ser humano. Com o necessário grau de abstração, inclusive poderíamos encontrar histórias capazes de se ajustar às nossas, e aprenderíamos com os erros e acertos dos outros.

Claro que é cansativo escutar as narrativas alheias. Em certas ocasiões, suplico mentalmente para que não me contem, para que me deixem um pouco no silêncio das minhas próprias histórias. Mas não adianta: elas surgem ao natural e, como sabem que as respeito, acabam ganhando o acréscimo da minha imaginação, passando a constituir uma memória. Misturam-se com as minhas, envolvem-se, entrelaçam-se, discutem e brigam, mas terminam por se acomodar. Assim, quando escrevo, dezenas de histórias anônimas ou de conhecidos se debruçam sobre cada palavra, espiando qual delas deixará a minha cabeça para visitar o papel.

Nunca saberemos quando as histórias alheias voltarão para o mundo, e neste momento me lembro de Murilo Rubião, o maior escritor de literatura fantástica que o Brasil já teve. Certa vez, em uma entrevista, o jornalista perguntou se ele se inspirara em Kafka para escrever os seus contos, e Rubião respondeu que não, pois lera Kafka depois de começar a escrever. A fonte de inspiração era a sua babá na infância, uma mulher que contava histórias incríveis antes dele dormir. Depois que escrevera os primeiros contos, Mário de Andrade lhe indicara a leitura de Kafka e, para Murilo Rubião, foi como encontrar um irmão a muito perdido, alguém que entendia o que estava querendo dizer. Às vezes, fico pensando se a babá de Murilo Rubião algum dia imaginaria que as histórias contadas para uma criança no quarto silencioso e na penumbra seriam a base da literatura fantástica brasileira. Também tento imaginar as histórias que ela contava e de como aquilo colidiu e se amoldou à imaginação de Rubião, até o momento de ganhar o mundo através de livros. Pois escritores não passam de grandes caixas de ressonância de centenas de pessoas anônimas, trocando histórias e as perpetuando por meio dos seus escritos.

Lembro disto na semana do Dia dos Namorados por um motivo, e é claro que é uma história. Não entrarei em detalhes, que são saborosos o suficiente para terem vida própria, pois é o amor impossível de um homem de 45 anos por uma mulher de 82. Esta mulher está morrendo de câncer, e o seu apaixonado, sem saber, fez-me a mais bela síntese do que seria o amor. Após confidenciar que a melhor parte da relação era a conversa que tinham no escuro depois do ato sexual, o homem disse: amar é estar com a pessoa que nos conta uma história e escuta a nossa. Tão simples, e tão complexo. Contar histórias foi a forma que Sheherazade encontrou para sobreviver à sanha assassina do sultão nas “Mil e Uma Noites”, mas talvez tenha gastado todas as suas noites engatando uma narrativa na outra simplesmente para ser amada.

Portanto, no Dia dos Namorados, meu desejo é que vocês contem histórias um para o outro – e construam, juntos, a melhor de todas.

 

Originalmente publicado em http://literatortura.com/2015/06/amar-e-estar-com-a-pessoa-que-nos-conta-uma-historia/

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