Arquivo do mês: abril 2016

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (19/04/2016): “Como matar um escritor”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, aproveitei a proximidade do Dia Internacional do Livro para falar de Cervantes e de Shakespeare. No entanto, não fiquei na comparação simples das suas vidas ou obras, mas preferi falar de dois momentos em que a obra se tornou tão forte que o autor dela virou seu maior inimigo – na Alemanha nazista, no caso de Shakespeare, e na Madri de Unamuno, no caso de Cervantes. Mas também falei de Uruguaiana e do dia em que quase fui desmascarado como escritor.

Boa leitura!

 

Como matar um escritor

 

Aconteceu em Uruguaiana, cidade na fronteira do Brasil com a Argentina. Tenho o hábito de, quando estou viajando e chego em uma cidade na qual nunca estive antes, perguntar aos locais onde fica o sebo mais próximo. No hotel, os funcionários levaram em torno de 10 minutos para lembrar um sebo interessante. Eles me deram as coordenadas e, pelo o que pude perceber, ficava a algumas quadras de distância, era possível ir caminhando. No entanto, em Uruguaiana, quadras são quadras mesmo, e o sebo ficava mais longe do que eu imaginara. Cheguei lá cansado e sedento, e percebi que sequer era um sebo, mas uma casa de antiguidades, que ostentava três míseras prateleiras com alguns livros enfileirados.

Para descansar um pouco, resolvi analisar os livros e, entre exemplares antigos e mal cuidados, deparei-me com algo que não esperava encontrar: “A escrita criativa – pensar e escrever literatura”, coordenado pelo professor Luiz Antônio de Assis Brasil, um conjunto de ensaios de escrita criativa lançado pela PUCRS no decorrer daquele ano mesmo, contendo textos de alguns amigos escritores. Era uma surpresa muito deliciosa para guardar somente para mim (quem diria que, no meio de um local desconhecido quase despencando para a Argentina, encontraria um livro escrito por amigos?) e resolvi tirar uma foto da capa para mandar aos autores.

Foi quando o dono da loja de antiguidades me perguntou, meio desconfiado, o que eu estava fazendo. Expliquei a situação, disse que conhecia os autores e ia mostrar que o livro deles estava correndo o mundo. Foi quando o homem se inclinou sobre o balcão e perguntou, entre o espanto e a euforia: “O senhor então conhece um escritor?”. Eu concordei, um pouco indeciso sobre como responder, e acrescentei que conhecia alguns. Ele ficou ainda mais contente: “Mas me diga, então, como é um escritor? Sempre quis conhecer um!”.

Eu poderia responder que sou um escritor, e ele acabava de encontrar um, mas preferi silenciar sobre esta condição. Fiquei um pouco envergonhado: e se eu não estivesse à altura das suas expectativas? E se ele sonhasse em encontrar a criatura idealizada e, pela frente, estivesse somente um homem cansado e com sede? E, mais importante, seria eu um escritor suficiente para merecer tal designação?

Throes of creation, de Leonid Pasternak

Throes of creation, de Leonid Pasternak

Nos tempos atuais, o que mais existe é gente se identificando como escritor. Pelo o que vejo, basta escrever um blog ou alguns parágrafos em uma rede social ou um livro de receitas para as pessoas se considerarem escritoras. Não é algo ruim, mas, em um mundo onde todos são, na realidade ninguém é. Palavras se vulgarizam pelo uso contínuo e despropositado, e escritor não é mais uma função, mas algo agregado ao currículo: “Fulano é empresário e escritor”, “Beltrana é atriz e escritora”.

Curiosamente, os escritores que mais respeito são os que possuem maior relutância em se identificar desta forma. Não existe muita honra em se reconhecer como um autor, pois parte do princípio que precisamos afirmar o nosso estatuto para vê-lo existente e, na verdade, a literatura simplesmente é. Não precisa ser declarada para existir. Não precisa ser objeto de louvor ou de execração social: escrever é respirar, e ninguém sai por aí dizendo que respira. Mesmo que não existisse papel, mesmo que não existisse maneiras de escrever, mesmo que eu não soubesse uma linguagem, ainda assim escreveria. Não sei de qual forma, mas daria um jeito. Tudo por que não consigo conceber vida sem ar e sem água, e não consigo conceber a minha existência sem escrever.

Aliás, outro erro comum das pessoas é imaginarem que, para ser escritor, a pessoa precisa lançar um livro. Conheço ótimos autores que não fazem questão alguma de mostrar ao mundo as suas histórias, são felizes de compartilhá-las em pequenos grupos, com a namorada, amigos ou familiares. Outros excelentes escritores escrevem somente para si: participam de grupos de criação literária, lapidam o seu fazer artístico por anos e não lançam nada, são felizes em escrever bem e para o melhor leitor que possuem, ou seja, eles mesmos.

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Sei que muitos excelentes escritores reconhecem publicamente o fato de serem escritores. Ambiciono chegar a tal status, pois, no dia em que eu conseguir me identificar como escritor – sem me sentir uma fraude – será o dia em que não terei mais dúvidas, em que saberei que um texto funciona assim que o deposito em um meio físico, que gostarei dele e não verei as suas inegáveis imperfeições. Ainda não cheguei a este ponto. Cada texto é uma maldita caixa de incertezas.

Estamos na Semana Internacional do Livro e, no dia 23 de abril, comemoraremos o Dia do Livro, mesma data em que – alegadamente – faleceram dois dos maiores escritores que o mundo já teve: o inglês William Shakespeare e o espanhol Miguel de Cervantes Saavedra. Dois homens que lançaram as bases da literatura que até hoje consumimos.

Cervantes e Shakespeare

Cervantes e Shakespeare

Interessantes paralelos podem ser traçados entre os dois escritores. Ambos possuíram vidas atribuladas: entre as poucas evidências de que Shakespeare existiu, encontra-se um processo judicial pelo roubo das instalações completas do The Theatre. Sim, isto mesmo, Shakespeare e os demais integrantes da Lord Chamberlain’s Men desmontaram um teatro em um terreno e o reconstruíram em outro lugar. Sabemos também que as suas peças sempre foram sucesso de público. Quanto a Cervantes, passou parte da vida em guerra, outra parte preso por dívidas, mas ainda assim teve tempo para escrever romances (Dom Quixote), contos (Novelas exemplares) e peças de teatro (A Numancia), e fazer sucesso.

No entanto, existiu um momento delirante em que as obras de ambos se encontraram: Shakespeare era um garimpador de histórias estrangeiras, que usava para transformar nas suas peças. O sucesso de “Dom Quixote” na Espanha chamou a sua atenção, e ele escreveu uma peça de teatro chamada “Cardênio”, sobre um personagem secundário de Cervantes que encontra Dom Quixote e Sancho Pança e conta a sua história de amor frustrada para ambos. Há questão de dois anos, participei de um bate papo sobre Cervantes em que contei a história completa desta peça, a qual foi encenada em 1613 por Shakespeare (que a escreveu em conjunto com John Fletcher) e, infelizmente, acabou se perdendo. Não temos mais evidências de “Cardênio”, mas temos a imaginação, e foi o que fiz no bate papo: tentar reconstruir uma peça que não mais existe. Foi o momento mágico em que dois grandes escritores se encontraram e, como não poderia deixar de ser, aconteceu no meio de uma história, em cima de um palco.

Existe um outro paralelo entre os dois autores, e é algo perturbador: momentos que a obra foi tão forte que suplantou seus responsáveis. Foram tentativas explícitas não só de matar o autor, mas de desvinculá-lo da sua própria criação e transformá-la em outra.

Poucas pessoas sabem, mas “Hamlet” era a peça de teatro mais estimada pelo regime nazista. Foram mais de duzentas apresentações entre os anos de 1936 e 1941, quase sempre com a casa lotada. O mais conhecido intérprete de Hamlet era, não por coincidência, o maior ator que a Alemanha já possuiu, Gustav Gründgens, tão famoso que serviu de base para o livro “Mefisto”, de Klaus Mann (o que foi assunto para um longo processo judicial, mas é outra história).

Gründgens recusava-se a interpretar Hamlet como um homem repleto de dúvidas e questionamentos. Em carta que enviou para o crítico de um jornal, o ator alemão disse como enxergava ao príncipe dinamarquês: “Quando as cortinas se levantam, eu não quero interpretar Hamlet, quero regressar a Wittenberg. Contra a minha vontade é que carrego o peso de uma verdade a que não posso renunciar. Quero atuar, mas devo saber. Se for o contrário, não posso atuar.”

Por causa desta visão do personagem, o Hamlet de Gründgens era um homem valente e decidido, incapaz de mostrar qualquer vestígio de dúvida. Chama atenção o resumo da Sociedade Shakespereana Alemã fez em 1936 sobre esta versão de “Hamlet”: “Hamlet não é um personagem artisticamente fraco ou nervoso, mas um jovem brilhante cujo mundo é sacudido por incríveis fardos espirituais”. Para conseguir tal modificação, suprimiram todas as falas da peça que demonstrassem qualquer tipo de hesitação. Mais ainda, tiraram toda a quarta cena do ato IV de “Hamlet”, evitando estragar a força da interpretação. Gründgens não se vestia como um príncipe, mas colocava um casaco de pele junto com um chapéu de aba vertical, parecendo mais um arrojado estudante do que um guerreiro. Segundo Richard Biedrzynski, um crítico da época, o Hamlet de Gründgen era “mais ativo, mais mente aberta, mais perigoso, mais alerta, mais pronto para atacar”. Ou seja, bem o contrário do personagem idealizado por Shakespeare.

Diz Curt Riess, biógrafo de Gründgens: “Nasceu um novo Hamlet, um que nunca tinha sido visto antes. Um Hamlet cheio de responsabilidade, um Hamlet pronto para a ação e que não tinha medo algum de parecer um tonto. […].” O custo desta interpretação de Hamlet era afastar o seu criador do personagem. Shakespeare não podia ser mais o criador de Hamlet, pois o personagem do ator inglês não estava à altura daquilo que ele realmente significava. Assim, o único problema do verdadeiro Hamlet era o seu escritor. Shakespeare não tinha entendido direito o próprio personagem, e cabia aos nazistas “corrigirem” Hamlet.

Pode parecer engraçada a ideia de que um personagem seja tão forte que o seu criador passa a atrapalhar ao invés de auxiliar, ainda mais nos tempos modernos, em que o nome do autor precisa ganhar ascendência sobre a própria obra. No entanto, se considerarmos a grande dúvida (o que é mais importante, a trama ou o personagem?) e a sábia resposta de Aristóteles (personagem É trama), podemos dizer que o grande objetivo do escritor talvez não seja aparecer no seu livro, mas manipular a realidade de tal maneira que ele também consegue se esconder nos meandros da ficção. Assim, quando a Alemanha nazista descartou Shakespeare para reconstruir Hamlet, ele conseguiu o maior sucesso literário que um autor pode almejar: ser assassinado pela própria obra.

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Fenômeno idêntico aconteceu com Cervantes. Na época do mesmo bate papo que mencionei acima, eu estava fascinado por Miguel de Unamuno, escritor espanhol que, no livro “Vida de Don Quijote y Sancho”, defendeu uma tese inovadora: Cervantes não era o autor de “Dom Quixote”. Ao contrário, Dom Quixote é quem tinha criado o personagem Miguel de Cervantes Saavedra para escrevê-lo. Afinal, Dom Quixote era um personagem tão perfeito que simplesmente não podia ter sido criado por outro homem, ele se escrevera sozinho.

É uma ideia ousada. Unamuno declara de forma taxativa logo no início do livro: “Para falar a verdade, não se pode dizer que Dom Quixote é produto de Cervantes.” (traduções minhas do espanhol). Em seguida, pede para que o leitor não o considere um crítico literário, mas sim um Quixotista ao invés de um Cervantista. Unamuno defende que os personagens da ficção não existem somente nela, mas também em nosso mundo, havendo boas razões para acreditar que Dom Quixote foi “um louco prudente e não um rescaldo da ficção, como comumente se acredita. Ele foi um daqueles homens que comeram, beberam, dormiram e morreram.”

Não irei entrar nos detalhes da minuciosa investigação que Unamuno faz sobre “Dom Quixote” com a intenção de provar que Cervantes não poderia ter sido o seu autor, mas a sua argumentação é sedutora e convincente. Em um breve resumo, podemos dizer que, para o autor espanhol, “a ação segue o ser” e, se Dom Quixote gerou repercussões no nosso mundo, ele é mais real do que muita gente de carne e osso que anda por aí. São muito divertidas as críticas que Unamuno desfere contra Cervantes. Sobra até para o tradutor mouro Cide Hamete Benengeli, que aparece na obra, o qual Unamuno considera um truque literário baixo de Cervantes.

A partir de determinado momento do livro, Miguel de Unamuno admite que, por uma questão lógica, não pode afastar a autoria de Cervantes. No entanto, considera que o outro era um homem burro e iletrado demais para entender as nuances psicológicas de Dom Quixote. E faz a acusação mais séria que se pode lançar contra um escritor: Cervantes fez a história não por mérito próprio, mas por que Dom Quixote foi muito maior do que ele e conduziu a sua mão de autor. Para Unamuno, Cervantes foi um mero instrumento de Dom Quixote, e não o seu criador. Vai um pouco mais longe: nem o leitor é capaz de entender toda a capacidade psicológica de Dom Quixote, somente alguns detalhes, e o culpado é Cervantes, que não soube escrever direito a história que Dom Quixote lhe entregou.

Vale lembrar que a autoria de “Dom Quixote” é algo que intriga os escritores, e onde há fumaça, há fogo: talvez Unamuno não esteja exagerando. Não foi à toa que Borges escolheu Cervantes para ilustrar o seu conto “Pierre Menard, autor de Quixote”. Da mesma forma que Unamuno, a ideia de Borges é dizer que Cervantes não escreveu “Dom Quixote”, e sim Pierre Menard, um autor ficcional. É a ficção gerando os seus próprios rebentos, que passam a infestar o mundo, enfrentando a dureza da realidade.

As ideias de Miguel de Unamuno são fascinantes, mas, assim como o Hamlet de Gründgens, elas chegam ao mesmo ponto: o autor atrapalha a própria criação, posto que é humano e possui deficiências. Criar é algo que vai além de tal dimensão humana. O objetivo final de toda história é chegar a tal grau de excelência que ela prescinde da própria autoria, que se torna um fardo insuportável, posto que a limita. Um livro existe não só para questionar os leitores, mas também para afrontar aquele que lhe trouxe à vida. Livros desejam se libertar do nome que lhes aprisionou em um cativeiro de papel. É o Complexo de Édipo levado às últimas consequências: a Obra mata o Pai para conseguir crescer e casar com a Vida.

Na Semana Internacional do Livro, vale a pena refletir: não estarão todos os livros arquitetando as mortes dos seus autores para, enfim, correrem livres pelo mundo? Talvez isto explique a minha relutância em me identificar como escritor em uma pequena loja de antiguidades de Uruguaiana. Talvez esteja me escondendo, e este seja o grande segredo que norteia os autores: no mundo da imaginação, toda história é perfeita, pois tem o narrador ideal, as frases mais espirituosas, a graciosidade necessária, o comedimento exigido. Contudo, ao colocá-la na nossa realidade, o escritor estraga com a sua maravilha idealizada e, desde então, a história o persegue como um leão enfurecido, ansiosa para se libertar novamente e conhecer a perfeição que mora na não-concretude. Sócrates dizia isto: escrever é matar a memória e exterminar com as possibilidades de uma boa história, portanto, não escrevam, mas contem as histórias e deixem elas soltas. Pena que os escritores não são tão sábios – somos um bando de insensatos, nós e este hábito desagradável de chamar a Morte para dançar.

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Texto publicado no Literatortura (14/04/2016): “O tamanho dos seios da Mulher Maravilha”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura…. bom, vou deixar eu mesmo resumir o que está nela, de acordo com minhas palavras no Facebook: “Na minha coluna dessa semana no Literatortura, eu falo de como a busca por uma resposta me levou a cair numa gigantesca discussão sobre o tamanho dos seios da Mulher Maravilha. Mas também falo de outros assuntos, como a relação entre bois de piranha e Maquiavel; a assimetria dos seios femininos; a grande questão de fundo de “Batman vs. Superman: A Origem da Justiça”, com espaço para confessar que, se dependesse de mim, eu nunca salvaria a Humanidade, ou seja, vocês têm muita sorte que nunca me deram tal opção; falo de Diógenes, o Cínico; falo de Nietzsche e do além-homem; falo do Dr. Manhattan e de outros personagens ficcionais, como Gilgamesh, Beowulf e Jesus Cristo; falo de Walt Whitman caminhando por Long Island enquanto lia os clássicos da literatura; falo do Ministério da Verdade do Orwell e do Clube da Luta do Palahniuk, mas, como a questão parece ser relevante, acabo respondendo sobre a Mulher Maravilha.”

Fiz uma aposta interna: quantas pessoas surgiriam para me acusar de misógino com base no título do texto. Pensei em até 20 pessoas. Contudo, ainda na madrugada, recebi o e-mail de número 22 me xingando de machista, ou seja, tem um bocado de gente que sequer lê o texto: analisa o título e, com base nele, deixa transparecer a sua opinião. Acaso alguma destas 22 pessoas tivesse lido o texto, descobriria que aquilo que menos existe nele é misoginia ou machismo, e sim um debate de ideias e sobre o motivo pelo qual nos detemos em questões secundárias ao invés de entrar nas indagações mais profundas.

Boa leitura!

 

O tamanho dos seios da Mulher Maravilha

 

Se existe algo de fascinante no mundo atual – para não dizer cansativo – é a capacidade das pessoas de transformarem qualquer assunto em fonte de discussões inócuas, que conduzem do nada ao lugar nenhum. Prendem-se em detalhes insignificantes e, enquanto isto, a grande questão passa ao largo, quase despercebida. Desperdiçar palavras e argumentos em discussões infrutíferas é uma das formas de usar mal a inteligência; é usar uma bazuca para matar uma formiga. Schopenhauer já dizia que uma das chaves da felicidade é estabelecer conversas com pessoas de inteligência no mínimo semelhante, e ele tem razão: não existe nada mais triste do que conversar com alguém que não só não nos entende, como não faz questão alguma de entender.

É fácil de ver isto em quase todas as artes: pessoas discutindo minúcias e particularidades, em uma balbúrdia enlouquecedora. Funciona como o princípio do “boi de piranha”, aplicação popular de um ensinamento de Maquiavel (que, com certeza, não pensava em bois e piranhas quando o escreveu, mas em reis e Estados). No meio rural, era costume que, quando grandes quantidades de gado fossem passar por um rio infestado por piranhas, se escolhesse um boi velho e magro para sacrificá-lo à sanha de tais peixes carnívoros. Assim, enquanto elas se banqueteavam, o restante do rebanho passava, incólume. O sacrifício de um indivíduo pelo bem da coletividade. É o que percebo nas discussões atuais: fornecem à fúria dos debatedores um assunto menor e, enquanto isto, a grande questão existencial – aquela que evitamos pensar, pois não tem resposta segura – passa sem ser notada.

Aconteceu com o recentemente lançado “Batman vs. Superman: A Origem da Justiça”. Após assistir o filme, intrigado com algumas questões, decidi procurar as discussões virtuais para ver se encontrava outras pessoas que tinham pensado o mesmo. Não achei. Em compensação, li dezenas de discussões sobre o tamanho dos seios da Mulher Maravilha, que seriam pequenos demais para a personagem.

A Mulher Maravilha

A Mulher Maravilha

Pessoas se insultando e se ameaçando por causa do tamanho dos seios de uma personagem de ficção, seios estes que – é evidente – também são ficcionais! Como estabelecer um parâmetro de fidedignidade com a realidade se ela própria nasceu de uma ficção? Se vamos discutir seios femininos, e comparar seios ficcionais com outros reais, temos que começar pela noção de que não existe um par de seios simétricos entre si, todos são levemente diferentes. Isto sem contar que o par pequeno para uns pode ser grande para outros.

Ainda assim, o debate era acalorado e cansativo, com gente tirando argumentos de tudo quanto é lugar para reclamar dos seios da Mulher Maravilha. Tais discussões acabam sempre nos mesmos buracos negros argumentativos (feminismo, racismo, preconceito), com as pessoas afundando-se em ideias enlatadas sem sequer pensarem no assunto.

Pobre daquele que questionasse a validade da discussão, pois seria tachado – e novamente sem reflexão alguma – de cerceador da liberdade de expressão alheia. Outro lindo eufemismo da atualidade: toda vez que meu argumento for questionado, estão tentando me cercear. Assim, nunca perderei nenhuma discussão. Aliás, no meu entendimento, as pessoas podem expressar aquilo que bem desejarem, desde que também aceitem a possibilidade de estarem falando enormes bobagens em razão de tal direito – e eu estou incluso nesta possibilidade.

A grande questão de “Batman vs. Superman: A Origem da Justiça” que passou silenciosamente despercebida é muito mais inquietante do que o eventual tamanho de um par de seios. Tem a ver com uma dúvida ancestral, sintetizada no seguinte questionamento: se você tivesse todo o poder do mundo, você salvaria a Humanidade? Este é o verdadeiro dilema enfrentado pelo Superman – devo salvar a Humanidade ou não? Afinal, merecemos ser salvos?

Claro que o filme possui vários problemas de roteiro, mas não sei se existe um roteiro capaz de abarcar todos os prismas desta dúvida, não sem parecer insuficiente. Apesar disto, a indagação persiste a incomodar, em especial por que sei a minha resposta diante de tal dilema: não, eu não salvaria a Humanidade.

Admito a verdade do que penso sem nenhum problema de ordem ética ou moral. Não vejo motivo algum pelo qual devemos ser salvos. Não nos comportamos bem. Não evoluímos para melhorar, mas para fazer os outros piorarem. Não entrarei no argumento confortável das guerras, doenças, poluição e outros malefícios que a presença humana acarreta, mas irei me refugiar no mundo que me cerca: no círculo de relações que me rodeia, pouquíssimas são as pessoas que mereceriam ser salvas. Amplificando tal percepção para o mundo, vejo ainda menos gente por quem vale a pena lutar.

Não fazemos por merecer a salvação; vivemos para vencer ou para dizimar os outros, não para construir com eles, e é um defeito tão entranhado que acredito não ter mais conserto. No último filme do “Batman” – para continuar em um exemplo do cinema -, disseram que, se um homem vive tempo suficiente, acaba se tornando vilão. Vou um pouco mais longe: se alguém vive tempo o bastante, acaba virando um cínico. Diógenes de Sinope se torna a única pessoa que disse a verdade no mundo, ele e seus cachorros.

Jean Léon Gérôme - Diogenes

Jean Léon Gérôme – Diogenes

Interessante que a dúvida do Superman sobre a validade de salvar uma Humanidade que (vá lá) prefere discutir os seios da Mulher Maravilha ao invés de outros assuntos repercute as ideias de Nietzsche sobre o super-homem, ou além-homem. Está em “Assim falou Zaratustra”: o além-homem é aquele homem que deveria ser o nosso ideal, um ser disposto a transgredir valores, defeitos e virtudes, que tenta sempre se superar e usa todo o seu poder para destruir o velho e criar novos conceitos.

Diz Nietzsche: “Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo?” Podemos realmente dizer que estamos melhorando no nosso propósito de sermos humanos, ou esperamos que alguém nos diga o que fazer para melhorar? Tentamos superar os nossos limites hoje ou continuamos discutindo assuntos irritantemente insípidos? Tal evidência fica clara no filme, com as sucessivas chances que o Superman dá para a Humanidade mostrar o seu valor – e sempre sai decepcionado. O otimismo do Superman é algo que sempre me irrita, pois é ingênuo demais. Não temos espaço para ingenuidade no planeta Terra: ser humano é para fortes, não para fracos.

O desconcertante é que, na hora decisiva da resposta, quem enfrenta este dilema encontra justificativa não no coletivo humano, mas em particularidades. A Humanidade é salva na batida final do gongo, não por mérito próprio, mas por uma conjunção de sorte e circunstância. No caso do filme, Superman dá a própria vida em sacrifício para salvar todos nós, tudo graças ao seu amor por Lois Lane, o que é um motivo altamente piegas (e talvez aí esteja o desconforto do público com o filme, pois não é um motivo assim tão forte para salvar os seres humanos).

Mesmo entrando no perigoso campo da religião, decisão idêntica foi tomada por este angustiante personagem chamado Jesus Cristo, que se imolou por amor à Humanidade, por achar que ela deveria ter uma segunda chance. Gilgamesh teve o mesmo procedimento, mas se exilou, assim como Beowulf. Estamos cercados de pessoas que se matam para nos salvar, e continuo sem saber se merecemos tamanhos sacrifícios.

Recordo que, em “Watchmen”, de Alan Moore, o Dr. Manhattan passa pelo mesmo questionamento (salvo a Humanidade ou não?) e acaba se decidindo por particularidades ainda mais tênues, formada pelas várias manifestações de vida que insistem em aflorar mesmo quando toda a lógica diz que é melhor não existir vida. Contudo, no caso dele, é justamente por que a vida é espantosa e a Humanidade é versátil – tanto para o bem quanto para o mal – que elas devem ser preservadas. Somos tão ruins, incompetentes e geniais que devemos ser preservados, eis a conclusão a que chegou o Dr. Manhattan. Alan Moore já virou um cínico muitos anos atrás.

Dr. Manhattan em Marte

Dr. Manhattan em Marte

Nietzsche afirma que o além-homem existe para superar o homem impregnado de humanismos e de uma cultura que o prende a si mesmo. Na tentativa de se superar, ele deve ascender sobre todos os parâmetros morais que impedem o homem de ter uma existência plena. Por sua vez, a Humanidade hoje é formada por homens escravos do seu próprio tempo, acomodados, conformados, abraçando qualquer crença – por mais absurda que seja – para não ter que enfrentar a si próprio e aos seus limites.

Voltando a Nietzsche, “os mais preocupados perguntam hoje: ‘como conservar o homem?’ Mas Zaratustra é o primeiro e único a perguntar: ‘como superar o homem?’.” Mais importante do que manter o status em que estamos – uma preocupação constante atual, manter o emprego, manter o casamento, manter as aparências – é tentar superar o momento atual, e isto leva às perguntas que realmente são importantes de serem feitas, não o eventual tamanho dos seios de uma personagem de ficção.

Na literatura, Walt Whitman foi a pessoa que melhor descreveu a sua vontade de superar os próprios limites, e conseguiu isto através da leitura de autores melhores do que ele e da observação incessante de si mesmo. Ao invés de afundar nos pensamentos massificados do seu tempo, Whitman procurou a sabedoria dos antigos, ver onde eles se destacavam e, assim, atingir a excelência literária que imaginava existir dentro do seu corpo. Conta Walt Whitman:

“Mais tarde, a intervalos, no verão e no outono, eu costumava ir para o campo ou para as praias de Long Island, às vezes por toda uma semana – ali, em presença das influências do ar livre, li de ponta a ponta o Velho e o Novo Testamento e absorvi (provavelmente com mais proveito do que em qualquer biblioteca ou lugar fechado – faz muita diferença onde você lê) Shakespeare, Ossian, as melhores traduções que pude obter de Homero, Ésquilo, Sófocles, os velhos nibelungos germânicos, os poemas hindus antigos e outras obras primas, Dante entre elas. Aconteceu de eu ler a maior parte deste último num velho bosque. […]. Desde então, pergunto-me por que não fiquei soterrado por aqueles poderosos mestres. Provavelmente por que os li na presença plena da Natureza, sob o sol, com paisagens e panoramas a perder de vista ou o mar quebrando na praia.”

Antes de sair por aí distribuindo os seus poemas, Walt Whitman dedicou-se ao estudo e ao aprimoramento de si mesmo através da leitura. É uma das chaves para melhorar o nível das discussões atuais. Antes de nos perdermos em detalhes ínfimos dentro de um todo maior, seria oportuno tentar ver qual a grande questão imanente que se esconde por trás de qualquer obra artística (seja um filme, um livro, uma pintura) e perceber como a visão do artista articulou tal questão.

Walt Whitman

Walt Whitman

Uma pessoa pode olhar “Guernica”, do Picasso, e perceber uma cena de guerra, mas também pode encarar a obra como uma expressão do vazio. Alguém pode escutar a “Abertura 1812”, do Tchaikovsky, e achar bonita a forma com que canhões e sinos passam a fazer parte da melodia, mas também pode ver, dentro das notas musicais, a “Marselhesa” de Napoleão ser sucessivamente “atacada” e desconstruída por canções folclóricas russas, primeiro de forma tímida, depois cada vez mais contundentes, até o momento em que, enfim, a Rússia sobrepuja o Pequeno Corso, não só na realidade, mas também na música. Mais importante do que discutir minúcias, como a textura da roupa de uma personagem ou a fidelidade da voz (!) de uma criatura ficcional (!), o que nos falta é a vontade de sermos melhores, percebendo as verdadeiras questões que se oferecem diante dos nossos olhos, ainda sem resposta.

Às vezes, penso que George Orwell tinha mais razão do que imaginava quando criou, em “1984”, o Ministério da Verdade, cuja função era espalhar mentiras e inverdades, atribuindo-lhes a pecha de realidade. É muito possível que já exista um Ministério da Verdade por aí (assim como o “Clube da Luta” do Palahniuk, a primeira regra do Ministério da Verdade provavelmente é não falar do Ministério da Verdade), sempre distorcendo as discussões importantes e escondendo-as atrás de uma grande série de irrelevâncias. Neste caso, o nosso dever é superar a vontade de discutir platitudes e tentar entrar nas profundezas das questões que nos atemorizam em segredo. Somente isto nos fará pessoas melhores: a vontade de sermos melhores, não que o outro, mas que nós mesmos.

Bom, quanto ao tamanho dos seios da Mulher Maravilha… desculpem, não tive tempo de observar. Estava muito ocupado com aquela explosão de feminilidade, de segurança e de paixão que surgiu na tela do cinema. Existem pessoas que olham corpos e existem pessoas para quem o corpo é um mero envoltório físico para algo muito maior, e estou na segunda categoria. Ficarei devendo sobre este assunto.

Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2016/04/o-tamanho-dos-seios-da-mulher-maravilha/

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (12/04/2016): “A leitora fantasma”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, falei de algumas leitoras muito especiais: a leitora fantasma na Biblioteca Pública do ERGS; Melânia, a Jovem, que, graças aos seus dotes de leitura,  encantou Santo Agostinho e o chato do São Jerônimo; Leonor de Aquitânia, que passou a vida inteira lutando para assegurar a sua família no poder para, nos últimos anos, poder se dedicar ao prazer da leitura; de Benjamin Franklin, que sonhou em virar livro depois de morto. A morte é somente uma circunstância desagradável para um leitor, nunca um impeditivo. E a minha lista de leituras pós-morte só cresce…

Boa leitura!

 

A leitora fantasma

 

Não faz muito tempo, contaram-me que, na Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, existe uma fantasma leitora, uma mulher que desliza entre as prateleiras carregando consigo um livro. Fui procurar mais evidências desta fantasma, mas o máximo que encontrei foram detalhes esparsos, como o fato dela, às vezes, estar procurando um livro entre as prateleiras e, em outras ocasiões, entreter-se com a leitura de um exemplar. Ninguém sabe a sua origem.

Enternece pensar que uma solitária fantasma, podendo escolher tantos lugares para ficar durante a Eternidade, tenha optado por se entregar à leitura em uma biblioteca. É uma metáfora para a força da leitura: nem mesmo mortos somos capazes de parar. Estamos sempre sonhando com outras vidas e outras pessoas feitas de papel e tinta, e é um pouco melancólico imaginar que a fantasma, ao ler, sonha com aquilo que não mais possui: o toque quente de dedos repletos de paixão, o ruído que uma janela faz ao recepcionar o sol, o sono tranquilizador das noites de chuva. Assim, a leitura torna-se memória e depositário da vida que não mais percorre a sua alma. Dizia Epicteto que os seres humanos são pequenas almas carregando consigo um cadáver, mas, no caso da fantasma leitora, o cadáver se foi e a alma agora carrega livros.

Biblioteca Pública do RGS

Biblioteca Pública do RGS

O que também nos força a pensar: qual seria a lista de leitura indicada para um fantasma? Se pretende atravessar o resto dos tempos lendo, podemos presumir que irá escolher obras contemporâneas ou reler sempre os mesmos clássicos? Passar a Eternidade lendo livros ruins ou chatos seria uma verdadeira provação infernal e, se a leitura é um ato de prazer, parece uma loucura dedicar tempo para livros ruins, pois mesmo a Eternidade acabará um dia. Na minha fantasia, portanto, a fantasma leitora está finalmente lendo e relendo os livros que lhe deram prazer quando estava viva e, se depender dela, os humanos reais que a veem passeando são desinteressantes demais inclusive para serem assustados.

É tolice imaginar que seremos capazes de ler todos os livros que desejamos no espaço de uma vida; os livros são vários, em contraste com a brevidade da existência. Ler também é uma questão de escolha, e escolher é selecionar. No meio de um universo de livros, optar por um é automaticamente excluir dezenas que poderiam estar no seu lugar. Não bastando todos os livros que desejamos ler, ainda temos os favoritos que gostaríamos de reler, sem contar as leituras obrigatórias que a vida acaba nos impondo.

Não teremos tempo para ler tudo aquilo que desejamos, e talvez por isto eu tenha criado uma classificação jocosa: a lista de livros que lerei depois de morrer. Obras que possuo e não serei capaz de ler por falta de tempo nesta encarnação. No entanto, às vezes penso que seria uma ironia divina se, após a morte, por causa desta piadinha classificatória, o castigo que acabassem me atribuindo fosse justamente a leitura eterna de livros ruins e desinteressantes. Eis uma definição de Inferno a temer.

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É possível que leitores nunca morram de verdade, só experimentem uma série de mortes falsas até o dia em que chega a verdadeira. O livro, por suas próprias dimensões físicas, é algo com início, meio e fim, e, cada vez que chegamos ao final de uma história, é como se morrêssemos junto com a imitação de vida presente no seu interior. Assim como Sheherazade postergava o fim contando histórias, pensamos ser capazes de estudar a Morte lendo livros.

Cada exemplar lido é, portanto, uma experiência de morte que vivenciamos. Em uma das partes mais interessantes de “The Sandman”, na história chamada “Três setembros e um janeiro”, Neil Gaiman conta a história (verdadeira) de Joshua Abraham Norton I, que se autodenominou Imperador dos Estados Unidos. No momento em que ele morre, a Morte – irmã de Sandman – se aproxima e pede para que ele conte a sua história. A ideia de ter a Morte a escutar a história da nossa vida sempre me pareceu um grande conforto, pois, para um leitor, a figura da Morte não é uma estranha, mas alguém que estamos acostumados a ver sorrir a cada vez que o final de determinado livro que amamos se aproxima.

Existem leitores que conseguiram ser mais fortes do que a própria morte física, e pergunto-me se a misteriosa leitora da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul não possa ser Melânia, a Jovem, que nasceu em torno de 385 e morreu em 439. Melânia, a Jovem foi uma leitora e escritora tão voraz que ganhou a admiração de ninguém menos do que Santo Agostinho, o qual escreveu uma carta contando a sua história e que, ultrapassados quase 1.600 anos, continua repercutindo e fazendo-nos recordar desta figura que, se não fosse o seu amor à leitura, teria desaparecido. De acordo com Santo Agostinho, Melânia, a Jovem foi uma das primeiras pessoas a formar uma biblioteca pessoal: ela pedia livros emprestados dos viajantes que chegavam no Egito ou no Norte da África e copiava-os com rapidez, acrescentando na sua coleção particular.

Além disso, e eis um detalhe interessante, Melânia, a Jovem conseguiu a admiração de São Jerônimo, tido como um dos santos mais irritadiços e chatos entre todos. Ele inclusive  enviou uma carta para Roma elogiando o temperamento da mulher. Considerando-se que, certa feita, São Jerônimo enviou uma carta repleta de xingões para o próprio Santo Agostinho (que respondeu com graciosidade e bom humor, dizendo que concordava com tudo, mas teria mudado as suas condutas mesmo com uma carta mais calma, pedindo mais amor e menos raiva para o colega religioso), o fato de Melânia, a Jovem dobrar o comportamento irascível de São Jerônimo diz muito sobre a sua personalidade.

Tão importante foi Melânia, a Jovem – e o seu incrível amor à leitura – que, no século V, Gerôncio escreveu que ela “percorria as Vidas dos padres como se estivesse comendo uma sobremesa. Lia livros que eram comprados, bem como livros que encontrava por acaso, e o fazia com tal diligência que nenhuma palavra ou pensamento permanecia desconhecido para ela. Tão avassaladora era a sua paixão pelo aprendizado que, quando lia em latim, parecia a todos que não sabia grego, e, por outro lado, quando lia em grego, pensava-se que não sabia latim”.

Melânia, a Jovem era uma leitora tão aplicada que é difícil imaginar que tenha conseguido parar de ler depois de morta. Talvez ela nem tenha notado que morreu, de tão absorta que estava na leitura deste livro, e depois daquele outro, e mais aquele outro. Melhor imaginar que ela continue lendo de forma ininterrupta, tendo esquecido dos próprios limites do corpo ou da finitude da sua existência. A leitura não pode parar, e não é algo tão ínfimo como a morte que será capaz de impedir um leitor determinado.

Melânia, a Jovem

Melânia, a Jovem

Prova disto também é a rainha Leonor de Aquitânia (1122-1204). Desde o nascimento, seu pai optou por não lhe dar uma educação somente para assuntos femininos, como era de praxe na época, mas ensinou-lhe a escrever e a ler, garantindo-lhe pleno acesso à biblioteca. Outra leitora voraz, Leonor lia tudo o que aparecia na sua frente, e tinha uma grande curiosidade em entender as culturas de outros povos. Graças ao grau de conhecimento adquirido através do estudo, a rainha Leonor da Aquitânia não só conseguiu viver durante 82 anos como esteve no auge das transformações políticas de então. A sua vida foi uma montanha russa de experiências: começou como duquesa, participou ativamente das Cruzadas, acompanhou a ascensão do marido ao trono; a seguir, foi envolvida em uma suposta conspiração que investigou o assassinato do rei, foi condenada ao exílio, conseguiu retornar à corte de forma triunfal, foi a mãe de Ricardo Coração de Leão e de João sem Terra, governou a Inglaterra e a França em um período de transição e levou o filho ao trono. No final da vida, decidiu ingressar em um mosteiro e passou o resto dos seus anos fazendo aquilo que realmente desejava – ler todos os livros possíveis.

Os historiadores afirmam que Leonor de Aquitânia foi uma das primeiras pessoas a ver os benefícios de uma Europa unida, sendo uma mulher que aliava grande visão política a uma vasta cultura. Quando morreu, contudo, Leonor de Aquitânia não foi enterrada com um sabre ou uma coroa, ou algum outro símbolo real de força. Preferiu ser representada segurando um livro aberto sobre o peito.

Entre todos os seus títulos, Leonor de Aquitânia considerava mais valioso ser lembrada como uma leitora, e seu túmulo, na Abadia de Fontevrault, demonstra tal condição. No livro “Nos caminhos da literatura”, lançado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, encontra-se a melhor descrição do sarcófago de Leonor:

“Assim, Leonor de Aquitânia (duquesa e rainha que conseguiu fazer valer seus direitos mesmo sobre os privilégios do seu marido e dos seus filhos varões) é perpétua leitora de um livro eternamente aberto entre as mãos da estátua jacente que cobre seu sepulcro. Leonor, vestida do jeito medieval e de cabeça ligeiramente elevada sobre um travesseiro (que se intui muito confortável apesar de ser de pedra), sorri, e esse sorriso, à vista dos séculos passados, parece a representação perfeita não só da mulher reivindicadora e reivindicativa, mas da que sabe que sabe. Quer dizer: da que, em uma sociedade de não leitoras, lê.”

Leonor de Aquitânia não conseguiu desgrudar do livro nem depois da sua morte. Deixou gravado em pedra o seu amor à leitura. Mas há quem veja nisto uma mensagem política: mais importante do que a guerra ou do que as honrarias, são os livros – a cultura – o mais importante para modificar um país. Para fazê-lo pensar e refletir sobre os seus problemas. Ao ser enterrada em um sarcófago que ostenta a sua imagem lendo, Leonor de Aquitânia quis mostrar o caminho certo para as gerações futuras.

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O sarcófago de Leonor de Aquitânia

Existe ainda um tipo de leitor que, de tão inconformado com a morte física, decide transformar-se em obra. O mundo está cheio de gente que pensou assim, e lembro aqui de Montaigne, o qual lemos com tamanha clareza mesmo depois de quase 500 anos que ele parece estar na nossa frente conversando e sendo desagradável (Montaigne era uma criatura abjeta, mas divertida e bem humorada).

No entanto, nenhum foi tão incisivo quanto Benjamin Franklin ao esboçar o seu epitáfio ideal, o qual, infelizmente, não virou realidade:

“O Corpo de

B. Franklin, Impressor

Tal como a capa de um velho Livro,

Seu Conteúdo arrancado,

E despido de suas Letras e Dourados,

Jaz aqui, Alimento para Vermes,

Mas a Obra não se perderá;

Pois irá, como ele acreditava,

Aparecer outra vez

Em nova e mais elegante Edição

Corrigida e melhorada

Pelo Autor.”

O leitor que, ao morrer, deseja virar livro e, assim, conseguir escapar das fronteiras físicas a que foi condenado é um leitor que pede para ser fantasma. Ao elaborar este epitáfio repleto de ironias, Benjamin Franklin aspirou o fim maior de qualquer leitor abnegado: ser lido para todo o sempre e, toda vez que isto acontecer, renovar a lembrança do homem que não mais está entre nós.

É muito interessante que o escritor americano tenha comparado o próprio corpo a uma Obra em andamento que, mesmo perdendo a sua estrutura física, ainda pode ser consultada por eventuais interessados, que falarão dele enquanto a sua existência gerar consequências. O Corpo como a fronteira humana para o manancial de histórias que se oculta no seu interior, eis uma imagem bem adequada para expressar o ser humano.

Enche de orgulho – e um pouco de temor – pertencer a uma linhagem de leitores que caminha por entre prateleiras, incógnitos, sussurrando segredos e desejos de leituras. Pois toda biblioteca está repleta de fantasmas que não conseguimos ver. Ao contrário da discrição da fantasma leitora da Biblioteca Pública, cada vez que vamos ler, não estamos sozinhos diante do livro, mas acompanhados por dezenas de outras pessoas que nos precederam e irão nos suceder. O verdadeiro leitor não consegue se afastar dos livros, e não será a morte que irá detê-lo. Neste sentido, vale perguntar: ainda somos humanos, ou não passamos de fantasmas perdidos em uma vasta biblioteca atrás do livro sonhado?

(texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/a-leitora-fantasma-5375d885be7#.jpe2rmzce)

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Texto publicado no Literatortura (07/04/2016): “A necessidade de contar histórias”

Bom, vamos lá. Na minha coluna dessa semana no Literatortura, falei da incrível capacidade que tenho, talvez meu único superpoder: fazer com que as pessoas tenham vontade de me contar histórias. Acontece com muita frequência e é algo que, ao mesmo tempo em que muito me honra (por ser o escolhido para tantas confissões), também me deixa bastante cansado e desiludido com a Humanidade. No entanto, não é algo que escolho, e sim algo para o qual os outros me elegem.

Boa leitura!

A necessidade de contar histórias

Em recente saída, enquanto esperava na fila de pipoca, uma senhora de aproximadamente 50 anos aproximou-se e disse que o seu filho estava preso. Porte de drogas, acrescentou. Logo após esta confissão dolorida e íntima, lançou-se a um longo monólogo sobre os motivos que levaram seu filho a seguir o caminho das drogas enquanto o sobrinho virava um pastor evangélico, “um verdadeiro santo!” nas suas palavras. Se a Pietá pudesse falar, teria a voz angustiada desta senhora. Em seguida, como se fosse algo absolutamente natural, ela se afastou e seguiu caminho. A moça atrás de mim na fila perguntou se eu conhecia a mulher. Não, nunca a tinha visto. E nunca mais a verei.

Não é a primeira vez que isto me acontece, e nem será a última. Pessoas que se aproximam para confidenciar as suas histórias de vida e revelar segredos torturantes. Depois vão embora como se nada tivesse acontecido, como se o continuum do tempo-espaço não tivesse quebrado por um momento fora da ordem para a revelação da história de vida para um estranho qualquer. Não sei o motivo pelo qual me escolhem entre tantas pessoas, mas suspeito que existe algo em minha atitude que me torna um pararraios de histórias. Talvez seja uma questão de empatia. Ou as pessoas sabem, no seu mais fundo, que eu as escutarei sem fornecer juízos de valor e as entenderei, por mais vergonhoso que seja o que pretendem confidenciar.

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Como observei que as pessoas geralmente iniciavam a conversa perguntando o que eu fazia, deixei de responder “advogado” (nem me atrevo a dizer que também escrevo, receio o que esta revelação pode causar) e escolhi o insípido “sou estudante”. Todos são estudantes, até os mestres. Mesmo assim, isto só diminuiu a quantidade de histórias, mas não cessou o fluxo. As pessoas precisam falar. Eu, que já ando cheio com as minhas histórias próprias, não gostaria de ganhar novas. Mas, ainda assim, as escuto. Com fascínio e desconforto, como se fosse convidado a invadir a existência do outro e olhar o mundo pelos seus olhos.

Depois de tantos anos, notei que a maior característica das pessoas é a indecisão. Ninguém sabe direito como agir ou aquilo que deve ser feito. Contar a história de vida para algum desconhecido faz com que, por alguns instantes, o mundo passe a fazer sentido. E, quando encontram alguém que não só escuta a história como a entende de forma quase empática, juntam o melhor de dois mundos. Não tenho respostas, mas percebo que a indecisão fica um pouco menor se a história puder ser compartilhada e passada adiante.

Às vezes, acho que as pessoas simplesmente preferem transferir as suas dores para a minha biblioteca interna de relatos. São tantas as conversas que, nos últimos tempos, aquilo que mais ambiciono é o silêncio. Um gigantesco cansaço me domina quando alguém surge do nada e diz “deixa eu te contar uma coisa…”. Em algumas ocasiões, sinto subir um desesperado pedido de piedade do meu peito, e preciso sufocar a vontade de me afastar correndo, como se estivesse temeroso do que outro drama pode me causar por dentro. Pois eu sinto cada maldita história como se fosse a minha vida. Por que eu as vivo com toda a intensidade.

E todos são tão indecisos, tão imprecisos. Ninguém sabe direito o que fazer, se está agindo de forma correta ou não. Percebo que a literatura se apropriou desta questão. As obras que mais admiro se centram no entre-espaço da dúvida, na angústia da incerteza. Em “Dom Casmurro”, do Machado de Assis, não sabemos se Capitu traiu ou não Bentinho. Na “Missa do Galo”, nunca saberemos o que a mulher realmente quis dizer para o jovem. Em “Hamlet”, de Shakespeare, a questão primordial resume a condição humana: ser ou não ser. Em “O Sul”, de Borges, nunca saberemos o resultado final do duelo para o qual o narrador se desloca. Nunca saberei quem invadiu a casa de “A casa tomada”, do Cortázar. Nunca temos certeza de nada. E é isto o que nos torna grandes e, paradoxalmente, tão miseráveis.

Foi pensar assim que me fez notar: a verdadeira literatura não se faz de certezas, mas de dúvidas. Temos inseguranças por todos os lados. Desde autores que não sabem se estão se expressando corretamente até personagens que, tão humanos, ficam em constante questionamento sobre as suas atitudes. Se pensarmos na arte como um microcosmo da vida, vemos que os artistas são pessoas que, em alguma encruzilhada da vida ou mesmo dúvida estética, optaram por seguir um lado. Velázquez poderia ter colocado a corte da rainha em outra posição que não fosse a presente no “As meninas”; Rodin poderia ter levantado o queixo da mulher em “O beijo” e ela deixaria de ser abandono para se transformar em desafio; Beethoven poderia acrescentar algumas notas na Quinta Sinfonia e deixá-la mais leve, e menos fúnebre. No entanto, os artistas fazem opções, e são elas que acabam determinando o sucesso ou o fracasso da obra – assim como acontece com a vida.

Acredito que a melhor definição deste homem frágil e indeciso vem do Fernando Pessoa, quando diz:

“Ninguém sabe o que quer.
Ninguém conhece a alma que tem.
Nem o que é mal nem o que é bem.
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.”

São palavras sábias. Quem pode dizer com segurança aquilo que quer? Gostaria de aplacar as pessoas, dizer que os seus dilemas não possuem respostas, e isto é normal. Quem nos disse que todas as dúvidas precisam ter tranquilizadoras certezas? Por menor que seja o problema ou por maior que seja a angústia, não existem decisões fáceis.
Com alguns versos, Fernando Pessoa desvenda a complexidade das pessoas como ninguém, o que me faz pensar quantas pessoas o viam caminhando pelas ruas de Lisboa e vinham interromper seus passos para contar dramas (parece que é algo que acontece com muita frequência com escritores). Ninguém sabe exatamente aquilo que quer; se não sabe, como saberá quando chegou ao objetivo? Não somos capazes de separar com precisão o bem do mal, a conduta certa daquilo que é errado, elas se misturam. A vida é incerta e derradeira.

O que precisamos é nos definir. Em um passado humanista, as pessoas tinham tempo para buscar as respostas através da auto-contemplação e da reflexão. Hoje, não temos tempo e nem espaço para tanto. Como toda busca, quanto antes definirmos o nosso percurso, melhor seria. O ideal seria nos admitirmos como seres incompletos e indecisos. Não imaginar que temos respostas absolutas, pois elas não existem. O que existe é a resposta dada em um determinado momento.

Também cresce em mim a convicção de que existem perguntas que funcionam melhor se jamais forem respondidas, pois não podemos lidar com a verdade. Assim, não perguntamos se somos boas pessoas, se estamos agindo certo, se a outra pessoa gosta ou não de nós. Pois a verdade é insuportável, ao passo que a ilusão traz conforto.

Quanto antes admitirmos a falibilidade, mais rápido seremos capazes de entender que tudo possui o seu próprio ritmo, que sempre teremos dúvidas e que elas fazem parte da nossa essência. Admitirmos que somos sínteses, como disse Kierkegaard:

“O homem é uma síntese do infinito e do finito, do temporal e do eterno, da liberdade e da necessidade, mas essencialmente é uma síntese. Uma síntese é a relação ente dois fatores. Pensando assim, o homem não é sequer um ser completo.”

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Kierkegaard

Quando as pessoas se aproximam para contar os seus dramas, no fundo elas desejam compartilhar as dúvidas. Reconhecer que o outro também é inseguro. Sequer pretendem respostas ou conselhos. Elas só querem mostrar que a indecisão do como agir lhes corroi por dentro. E esperam compaixão. Esperam que uma invisível mão pouse sobre o ombro e afaste as dúvidas, diga que está tudo bem, que foi a decisão certa.

Ao buscarmos o conforto alheio, seja na forma de uma relação, seja na forma de uma conversa, queremos dividir a nossa angústia de não sabermos se estamos agindo certo ou errado. Se ainda somos capazes de conseguir um perdão impossível: o perdão por existirmos e causarmos consequências indevassáveis por onde andamos. Pois viver, no final das contas, é tomar decisões e destruir possibilidades.

Se eu tivesse que sintetizar Deus em uma expressão, diria que o divino é não ter dúvidas ou incertezas. Por isso, somos humanos. E nunca passaremos de sínteses, este espaço do pulo entre dois extremos, criaturas cheias de incertezas e questões irrespondíveis.

(Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2016/04/necessidade-de-contar-historias/)

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Arquivado em Fernando Pessoa, Generalidades, Literatortura, Soren Kierkegaard

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (05/04/2016): “As bibliotecas que falam”

Nessa semana, na minha coluna no Medium da Dublinense, falei sobre a escolha de uma frase ou cartaz para colocar na porta da minha biblioteca – e o que tal decisão acarretou na minha vida.

Boa leitura!

 

As bibliotecas que falam

 

Uma das partes mais legais de constituir uma biblioteca não é ajeitar os seus livros nas prateleiras, mas imaginá-la como um sonho em construção. Pensar naquela parte da casa como um espaço em constante debate, algo que possui espírito, personalidade e humor: a biblioteca como uma criatura viva, formada por inúmeras vozes dissonantes. Neste caso, o local espalha tentáculos invisíveis não somente pela residência, transformando-se no seu anônimo coração, como também pela vida do proprietário. Não é tão difícil entender o fascínio das pessoas que acumulam livros por anos, às vezes por vidas. Uma biblioteca é uma fonte de diversão constante.

No momento em que escrevo estas palavras, estou sofrendo um brutal assédio de meus livros. Desde que souberam da minha intenção de colocar uma frase como modesto pórtico, eles apressaram-se para submeter as suas qualificações; dezenas de frases, ideias e imagens surgiram. Todos brigam para ter o posto de livro mais lembrado entre os demais, ainda que, para mim, mesmo o mais singelo exemplar tem a sua importância.

Cada vez que defino uma frase ou expressão ou poema para adornar o pórtico, a visão de um livro me faz alterar a vontade. Circulo entre as prateleiras, abrindo exemplares à procura de frases completas cujos pedaços a memória ainda retém, e assim passei por John Donne (“a morte é uma ascensão a uma biblioteca melhor”), por Plínio o Velho (“os espíritos imortais dos mortos falam na biblioteca”) e por Virginia Woolf (“tranque as suas bibliotecas, se quiser; mas não há nenhuma porta, nenhum cadeado, nenhum ferrolho que você possa colocar sobre a liberdade da minha mente”).

Também descartei clichês, como a frase de Cícero (“Se tiveres um jardim e uma biblioteca, nada mais será necessário”) e a de Borges (“Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de biblioteca”), não por não gostar, mas por que já li tantas vezes que elas não me causam nenhum sentimento. Precisa ser uma frase ou ideia que sintetize além de um livro, toda a coletividade. Em suma, ser a frase exata, e neste instante Flaubert grita da prateleira “Le mot chose!”, feliz de ser lembrado, e eu preciso acalmá-lo.

No passado, era costume que as bibliotecas tivessem frases no seu pórtico, tanto para recepcionar os visitantes quanto para alertá-los sobre a cultura que lhes esperava. Não eram frases retumbantes, pois partiam do princípio de que, quanto menos letras e menos informação, mais objetividade. Na biblioteca de Nínive, construída por Assurbanipal e que abrigava milhares de placas de argila e de madeira, contam que uma frase recepcionava os consultentes, “Tenha calma”, e nunca se soube se era um conselho dos bibliotecários para os apressadinhos ou uma indicação para toda a vida.

Na entrada da Biblioteca de Alexandria, tinha uma inscrição: “aqui, cura-se a alma”. No entanto, provavelmente a melhor definição da Biblioteca de Alexandria foi dada por Fílon no século I: “eis o palácio da memória”. Seriam duas ótimas frases para encimar a minha biblioteca.

Nos seus primórdios, a Biblioteca de Alexandria não tinha somente muitas estantes com livros, mas era decorada com temas mitológicos repletos de cores estrondosas, além de seu interior ter parques temáticos, um zoológico e um jardim botânico. Praticamente uma Disneylândia dos livros, algo muito kitsch, o contrário do cenário discreto que hoje imaginamos para um espaço com livros. Por causa de tamanhos exageros estéticos, a Biblioteca recebeu de Timão de Fluinte o maldoso apelido de “Jaula das Musas”, que, como todo bom apelido, acabou ficando. Imaginar as Musas horrorizadas a caminhar pela Biblioteca de Alexandria enquanto planejam sua fuga de tamanho espetáculo de mau gosto é algo que me diverte.

A biblioteca de Alexandria

A biblioteca de Alexandria

O que pouca gente sabe é que a Biblioteca de Alexandria sempre foi uma criatura feminina. Desde os seus primórdios, ela foi pensada como uma mulher. Era constituída por duas bibliotecas distintas, a Mãe e a Filha. Júlio César, em luta com Pompeu, acidentalmente colocou fogo na Mãe, e a Filha passou a ser a única sobrevivente. Interessante observar como ela seguiu a ideia de crescimento humano, pois começou pequena, à sombra da Biblioteca Mãe, e, com a “morte” desta, evoluiu, agigantou-se, tornou-se adulta até que, ao final do seu percurso de existência, também morreu. Outro erro muito comum é imaginar que a Biblioteca de Alexandria foi destruída em um único e gigantesco incêndio. Na realidade, foram vários incêndios no decorrer de quase dois séculos, aliados ao desinteresse do governo de alocar verbas e investir em uma biblioteca (qualquer semelhança com a atualidade é mera coincidência).

As melhores inscrições podem ser as mais simples. E nem necessariamente se referirem a livros, mas conter conselhos para quem se aproximar da biblioteca ou até mesmo lembretes para o seu proprietário.

O que me faz recordar dos Sete Sábios da Grécia. As pessoas são loucas por listas, e na Grécia Antiga não devia ser diferente. Existiu um tempo em que as cidades-estado gregas debateram para saber quem eram os seres mais sábios entre todos que pisaram no planeta.

A lista foi exaustivamente depurada. Na sua primeira versão, era formada por 41 personalidades, e incluiu pessoas reais, personagens literários e até mesmo figuras míticas. Não era uma lista muito justa: ao lado de Sólon de Atenas, estava Ulisses, da Odisseia de Homero, e Quíron, o centauro que ensinou Heracles.

Em seguida, uma nova listagem excluiu mitos e personagens, e chegou a 22 nomes, alguns dos quais, infelizmente, nunca saberemos quais eram as suas lições: Tales, Pítaco, Bias, Sólon, Míson, Cleobulo, Periandro, Quílon, Aristodemo, Epimênides, Leofanto, Pitágoras, Anacarses, Epicarmo, Acusilau, Orfeu, Pisístrato, Ferecides, Hermióneo, Laso, Panfilo e Anaxágoras.

Por fim, em um grande esforço de limpeza da lista, acabou se chegando aos sete nomes que representavam a fina nata da filosofia antiga: Cleóbulo, Quílon, Periandro, Pítaco, Sólon, Bias e Tales. O Dream Team do pensamento grego.

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Os Sete Sábios da Grécia

Pensando nos Sete Sábios da Grécia e nos seus ensinamentos curtos e precisos, se eu pudesse concentrar a sabedoria necessária para uma vida tranquila em palavras, possivelmente usaria um pequeno poema anônimo da Grécia antiga e que chegou aos nossos tempos:

“Dos sete sábios direi o nome, a cidade e a sentença.

A medida é o melhor, disse Cleóbulo de Lidos;

Quílon, da vácua Lacônia: conhece-te a ti mesmo;

Periandro, que em Corinto morou: dominar a cólera;

Pítaco, natural de Mitilene: em excesso, nada;

Sólon, da sagrada Atenas: olha para o fim da vida;

maus, na maioria, os homens, disse Bias de Priene;

e Tales de Mileto advertiu: receia a segurança.”

Seria um belo poema para ilustrar a porta da minha biblioteca, algo que daria paz de espírito àqueles que nela adentrassem e lhes aconselharia – de forma sutil – a levar alguns ensinamentos consigo.

No entanto, também tenho um lado perverso, e ele recorda que, por muitos anos, a única maneira que existia de alguém ter um belo livro era roubando. Os livros eram caros e feitos de forma artesanal. Ou as pessoas roubavam exemplares inteiros ou arrancavam as folhas que lhe interessavam. Como não existia controle possível, nem câmeras, nem monges suficientes para guardar os tesouros, existia o costume de amaldiçoar as pessoas que roubavam livros.

Neste sentido, talvez fosse oportuno – como uma espécie de aviso delicado – colocar na porta da minha biblioteca uma placa com os mesmo dizeres que adornam as paredes do mosteiro de São Pedro, em Barcelona:

“Para aquele que rouba ou toma um livro emprestado e não devolve um livro de seu dono, que o livro se transforme em serpente em suas mãos e o envenene. Que seja atingido por paralisia e todos os seus membros murchem. Que definhe de dor, chorando alto por clemência, e que não haja descanso em sua agonia até que mergulhe na desintegração. Que as traças corroam as suas entranhas como sinal do Verme que não morreu. E, quando finalmente for ao Julgamento Final, que as chamas do Inferno o consumam para sempre”.

Não seria muito simpático, mas a biblioteca não é um espaço para ser agradável, ainda mais quando o assunto envolve o sumiço de livros.

Contudo, acaso eu tivesse o necessário espaço para tanto, faria como Michel de Montaigne fez na sua biblioteca, no interior da França. Montaigne possuía um castelo e, ao lado, existia uma torre desocupada. O escritor e filósofo francês resolveu transformá-la na sua biblioteca de sonhos e, para tanto, planejou uma inovação arquitetônica. Ao invés do formato quadrado ou retangular esperado para prateleiras de livros, Montaigne deixou a biblioteca em formato de círculo, da mesma maneira que as paredes internas da torre. Assim, quando entrava na sua biblioteca, os livros estavam sempre visíveis, sempre lhe cercando. Para a época, foi uma grande inovação estrutural realizar prateleiras circulares, e imagino que Montaigne deve ter enlouquecido os arquitetos e responsáveis pela obra.

Não suficiente, o agitado filósofo resolveu não colocar uma única e limitada frase para definir a sua biblioteca. Seria difícil escolher uma e, por conseguinte, por que não colocar várias? Em todas as vigas da biblioteca, Michel de Montaigne mandou gravar frases de filósofos gregos e romanos que admirava, e no seu idioma original. Também colocou frases da Bíblia, em especial do livro do Eclesiastes e do Cântico dos Cânticos.

Montaigne Castle, birthplace of philosopher Michel de Montaigne (1533-1592). The Castle was destroyed by fire in 1885, the Library-tower alone remained. The wooden ceiling of the Library is inscribed with Greek and Latin quotations.

O teto da biblioteca de Montaigne.

As frases são muito interessantes e irei transcrevê-las já traduzidas para o português:

1 – Para o homem o extremo da ciência é considerar boas as coisas que acontecem e não se preocupar com o restante.

2 – O desejo de conhecer foi dado por Deus ao homem para seu tormento.

3 – O ar infla os odres vazios; a presunção infla os homens sem discernimento.

4 – Tudo o que há sob o sol está sujeito à fortuna e à lei.

5 – Pois a vida mais feliz é não ter pensamento.

6 – Isso não é desta maneira mais que daquela outra ou de nenhuma das duas.

7 – Há em nós uma noção do grande e do pequeno mundo das coisas que Deus fez em tão grande número.

8 – Vejo com efeito que todos nós, tanto quanto somos, nada mais somos que fantasmas e sombras diáfanas.

9 – Oh desventurados corações dos homens! Oh inteligências cegas! Em que trevas e em meio a quantos perigos se escoa esse pouco tempo que vivemos!

10 – Quem conta com sua elevação será derrubado pelo primeiro infortúnio que ocorrer.

11 – Todas as coisas, céu, terra e mar, nada são, perto da totalidade do grande todo.

12 – Viste um homem que se julga sábio? Há mais a esperar de um insensato do que dele.

13 – Pois que ignoras como a alma é unida ao corpo, não conheces a obra de Deus.

14 – Pode ser e pode não ser.

15 – O bom é admirável.

16 – O homem é de argila.

17 – Não sejais sábios a vossos próprios olhos.

18 – A superstição obedece ao orgulho como a seu pai.

19 – Deus não permite que ninguém além dele se orgulhe.

20 – Não deves nem temer nem esperar teu último dia.

21 – Homem, não sabes se isto te convém mais que aquilo ou ambos igualmente.

22 – Homem sou, e nada que é humano me é alheio.

23 – Não sejas mais sábio do que é preciso para que não te tornes insensato.

24 – O homem presunçoso de seu saber ainda não sabe o que é saber.

25 – O homem que nada é, se julga ser alguma coisa, está seduzindo a si mesmo e se enganando.

26 – Não sejais mais sábios do que é preciso, mas sede sobriamente sábios.

27 – Nenhum homem soube nem saberá nada de certo.

28 – Quem sabe se a vida é o que chamamos morte e se morrer é viver.

29 – Todas as coisas são difíceis demais para que o homem possa compreendê-las.

30 – Há grande possibilidade de falar tanto a favor como contra.

31 – O gênero humano é muito ávido de narrativas.

32 – Quanta inanidade em todas as coisas!

33 – Vanidade em todas as coisas.

34 – Guardar a medida, observar o limite, siga a natureza.

35 – Por que te glorificares, terra e cinza?

36 – Ai de vós que sois sábios aos vossos próprios olhos!

37 – Desfruta agradavelmente o presente; o restante está fora de teu alcance.

38 – A todo argumento pode-se opor um argumento de mesma força.

39 – Nosso espírito vagueia nas trevas; cego, não pode discernir a verdade.

40 – Deus fez o homem semelhante à sombra, que julgará depois do ocaso do sol.

41 – Não há nada certo exceto a incerteza, e nada mais miserável e mais orgulhoso que o homem.

42 – De todas as obras de Deus, nada é mais desconhecido ao homem que o vestígio do vento.

43 – Cada qual tem suas preferências entre os deuses como entre os homens.

44 – A opinião que tens de tua importância te porá a perder, porque te julgas alguém.

45 – Os homens são atormentados pelas ideias que têm sobre as coisas, não pelas próprias coisas.

46 – Convém que um mortal não eleve seus pensamentos acima da humanidade.

47 – Por que cansares teu espírito com eternos cuidados que estão acima de teu alcance?

48 – Os julgamentos do Senhor são um grande abismo.

49 – Nada decido.

50 – Não compreendo.

51 – Mantenho-me na dúvida.

52 – Examino.

53 – Tomando como guias os costumes e os sentidos.

54 – Pelo raciocínio alternativo.

55 – Não posso compreender.

56 – Nada mais.

57 – Sem se inclinar para lado algum.

Impossível não imaginar a seguinte cena: ao final de um dia lidando com a sua família e com os criados, Montaigne entra na biblioteca e senta-se na cadeira para escrever. Ao seu redor, todos os livros lhe espiam; sobre a sua cabeça, frases sábias recordam-lhe do que é importante sempre manter em mente. Não é tão difícil de entender, neste cenário, como Montaigne conseguiu escrever “Os Ensaios”, pois tudo conspirava a seu favor.

Ainda não sei qual a frase que usarei para encimar o modesto pórtico da minha biblioteca. Estou imerso em dúvidas, e não consigo definir algo que represente a intensidade da relação que tenho com meus livros e vice versa. Enquanto isto, reunidos no seu espaço, eles planejam campanhas silenciosas para me convencer. Prevejo tempos de muita diversão.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/as-bibliotecas-que-falam-4f109f88330c#.s9r6zs8hk

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Escrever é uma forma de oração

Não é uma frase minha: “escrever é uma forma de oração”. É de Kafka. Estou revisando os apontamentos que fiz no ano passado para uma palestra sobre Kafka, e acabei me deparando com esta frase, ao lado de dezenas de outros assuntos que não cheguei a mencionar.

(Algum dia escreverei um livro: As palestras que nunca proferi”. Pois faço exaustivas preparações visando a fazer a melhor palestra possível e, na hora H, o que menos faço é seguir o script. As palestras que não dou são fantásticas – pena que nunca cheguei a realizá-las.)

Pensar na escritura como uma forma de prece é algo em que acredito, mas não no sentido religioso. Quando alguém se senta para escrever, deve ter um objetivo mais amplo do que somente escrever. Como rezar. Quem disse que a Literatura não pode ser uma espécie de religião, com seus milhares de seguidores, propagadores e acólitos? Na origem de todas as religiões, encontra-se um livro. E se estamos rezando para os deuses errados?

Tenho lido livros desgastantemente vazios, sem nenhuma história que não seja uma gigantesca vacuidade de pensamentos e voos estilísticos escondendo a ausência de visão de mundo própria, só um monte de enlatados culturais.

Não só os livros, mas eventos literários se tornaram antecâmaras de tortura da literatura, e aqui lembro outra frase que não disse na palestra, outro desabafo inconformado de Kafka: “Tudo que não é literatura me aborrece, e eu odeio até mesmo as conversas sobre literatura”. Melhor do que falar sobre literatura é pensar com responsabilidade nela, ter algum respeito com a história que desejamos contar. Não escrevemos sozinhos; fazemos parte de uma tradição de outros homens e mulheres que imaginaram serem capazes de mudar o mundo através de palavras. Devíamos ser mais sérios, menos levianos.

 

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Nas minhas pesquisas, acabei encontrando a íntegra de uma carta que Kafka enviou para o seu amigo Oskar Pollak em 1904. Já li muitas vezes uma única frase desta carta, a qual  inclusive virou meme, mas não imaginava que a parte importante dela estava antes da frase:

“No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e nos piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito.”

Não respeito muito livros que desejam me fazer feliz. Quero obras que me quebrem ao meio, não histórias edificantes. Procuro livros que sejam capazes de me matar, de se cravarem no meu espírito como um gládio romano e me fazer sangrar até a última respiração. Livros que façam aflorar o desejo de suicídio na minha alma. Livros que me mostrem aquilo que não tenho coragem de enxergar.

Se não for para escrever como se fosse matar alguém, melhor nem começar.

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