Arquivo do mês: agosto 2013

Os pontos nem tão finais

Às vezes, os pontos finais são caprichosos: eles se impõem com a força daquilo que é inexorável, encerrando a frase de forma contundente.

Enganam-se aqueles que imaginam que o autor tem controle sobre os pontos ou pode transformá-los em outros sinais de acentuação. Quando uma frase diz que deseja morrer, cabe-nos deixar atingir o seu fim, sabendo que, em seguida, ela ressuscitará em um novo formato. E, assim, a literatura vira um eterno exercício de esperança, com frases que morrem e ressuscitam, uma após a outra. O mesmo acontece com qualquer forma de arte, esta maneira de tentarmos nos convencer de que somos infinitos.

Neruda disse que caminhamos sobre o pó dos milhões de vidas que nos antecederam, o que transforma a Terra em uma sucessão infinita de cemitérios. Caminhamos sobre mortos. É um pensamento desesperador: hoje caminhamos, amanhã estarão passando sobre nossos restos.

Somos pontos finais, esperando a caneta vir cortar a história, às vezes incompleta, às vezes longa demais.

A Alexandra, do blog “Cinderela Descaída” (http://cindereladescaida.blogspot.com.br/), mandou-me este vídeo arrepiante:

Existe muita sutileza na mensagem. O pianista tocando o “Noturno n. 20” de Chopin pela última vez na rádio e, depois da invasão nazista, o mesmo pianista tocando a mesma música para reabrir a rádio. A certeza de que a arte pode suplantar o horror e suspendê-lo. No entanto, não é mais o mesmo homem: Wladyslaw Szpilman perdeu a fé, seu olhar é vazio. Na primeira vez em que a música foi tocada, ela era um desejo de esperança; na segunda, ela chora os mortos e a carga deixada para os vivos, a recordação.

O Noturno anuncia tanto o período de trevas quanto o retorno do sol. São peças geralmente melancólicas, apesar de expressivas e fortes no seu lirismo sutil. Da mesma forma que o homem, a música é igual, mas mudou. Ela carrega cicatrizes consigo. O horror se entranhou nela e a desconfigurou.

Os porta retratos sobre o piano são dolorosos: lembram a morte, a música é para as fotos emudecidas. A música sobrevive, as pessoas não. Existe algo doce em tentar vencer a morte. É uma batalha fadada ao insucesso, mas a tentativa é mais bonita do que a vitória.

O ponto final é a morte da frase. Mas, se forem agregados mais dois pontos, ele deixa de ser final e vira reticências, uma pausa no Tempo. O desejo de que o mundo pare. A vontade de ser um pouco mais do que poeira nas sandálias alheias.

sobre o infinito

ppp

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Facas que não cortam

Objetos que não servem para o seu propósito sempre me deixam desconcertado. Cadeiras desconfortáveis que impedem que uma pessoa se sente de forma tranquila, livros falsos que não possuem páginas e são ocos, árvores e plantas de plástico, todos objetos distorcidos da sua utilidade, todos mentirosos.

Não espanta que, no restaurante do hotel, existam facas incapazes de cortar. Facas sem a mínima contundência capaz de abrir um singelo pão. Facas que só possuem o sonho de algum dia serem verdadeiras.

Por muitos anos, as facas que não cortam me deixaram intrigado. Não vejo sentido em colocar à disposição algo que não serve para nada. A melhor explicação que já me deram: os hotéis não disponibilizam facas capazes de cortar por que este seria um pretexto para as pessoas se esfaquearem. Impossível não imaginar um mundo em que a disponibilidade de um objeto bastaria para utilizá-lo ao máximo. Se colocassem livros à disposição, isto nos forçaria a lê-los?

Os hotéis não acreditam que as pessoas usam a faca para cortar objetos inanimados, eles partem do princípio de que o ser humano é ruim, e colocar uma faca à disposição é autorizar, de forma tácita, que uma pessoa mate outra.

Não sei se os culpo por pensar de forma tão preventiva. Não podemos ser inocentes: existe uma maldade potencial em cada pessoa. Colocar um objeto cortante ao alcance de uma vontade humana é arriscado, ainda que eu ache que, pelo fato do restaurante do hotel estar no nono andar, a possibilidade de jogar alguém pela janela seria muito mais coerente (em tempo: as janelas possuem discretas grades pelo lado de fora).

Sem saber, os hotéis seguem a frase de Anton Tchekhov: “Se, no primeiro ato, você colocar uma pistola pendurada na parede, no último ato ela deve disparar”. Existe uma impressão instintiva de que, se derem às facas o seu poder ancestral de cortar pessoas, elas serão inevitavelmente utilizadas com este propósito. No entanto, existem vários lugares que disponibilizam ou mesmo vendem facas cortantes sem que tal fato represente um banho de sangue.

Tirar a função de um objeto é matar o seu significado, exterminar a razão da sua existência. Seria como tirar o nome de uma pessoa, algo que se liga de forma indissolúvel à sua própria personalidade. Lembro de Goethe, que escreveu:  “O nome de um homem não é como uma capa que lhe está sobre os ombros, pendente, e que pode ser tirada ou arrancada a bel prazer, mas uma peça de vestuário perfeitamente adaptada ou, como a pele, que cresceu junto com ele; ela não pode ser arrancada sem causar dor também ao homem”. Tirar das facas a sua função cortante é uma forma de enfraquecê-las.

Existe uma parte minha que sente algo primitivo circular pelo cabo de uma faca. Depois da clava e da pedra, objetos que poderiam ser conseguidos livremente na Natureza, a faca foi o primeiro objeto que o homem criou especificamente para cravar na carne alheia, seja de um animal, seja de um semelhante. Talvez ela ainda exista com este propósito oculto. Neste caso, os hotéis são mais sábios do que imaginamos. Manter-nos afastados das facas seria uma garantia de sobrevivência da espécie; enfraquecer o seu significado pode ser domesticar o animal que mora no cabo de tal objeto, a linha direta que temos com o antepassado que ainda respira no final do nosso DNA.

Um dos temas de Jorge Luis Borges era o punhal, ao lado do labirinto, do livro, do espelho, do zahir e do tigre. Recentemente coloquei um punhal na curva de um conto, para formar o cenário, e fui acusado de ser “borgeano”. Eu também convivo com a “pistola de Tchekhov”. Basta colocar um labirinto, ou um espelho, ou um punhal em qualquer conto para que vozes se ergam me chamando de “borgeano”. Mas um punhal pode ser só um punhal, não uma declaração de princípios literários. As palavras e os temas literários também se desgastam quando rotuladas: ninguém mais usa “madeleines” por causa de Proust, ninguém escreve “mulher de 40” sem prestar tributo a Flaubert.

Rotular é o primeiro passo para diminuir alguém. Assim como as facas não cortam, eu me desvio de assuntos para escapar do comodismo das classificações.

Quando Borges fala de punhal no conto que abaixo transcrevo, eu entendo as palavras que se desgastaram por perderem o seu significado original, que continua residindo nelas, teimoso. Um punhal existe para matar; uma faca para cortar.

O Punhal

A Margarita Bunge

Numa gaveta há um punhal.

Foi forjado em Toledo, em fins do século passado; Luis Melián Lafinur deu-o a meu pai, que o trouxe do Uruguai; Evaristo Carriego teve-o uma vez na mão.

Os que o vêem têm de brincar um pouco com ele; percebe-se que a muito o buscavam; a mão se apressa em apertar o punho que a espera; a lâmina obediente e poderosa folga com precisão na bainha.

O punhal outra coisa quer.

É mais que uma estrutura feita de metais; os homens o pensaram e o formaram para um fim muito preciso; é, de algum modo, eterno, o punhal que na noite passada matou um homem em Tacuarembó, e os punhais que mataram César. Quer matar, quer derramar brusco sangue.

Numa gaveta da secretária, entre borradores e cartas, interminavelmente sonha o punhal seu singelo sonho de tigre, e a mão se anima quando o dirige porque o metal se anima, o metal que em cada contato pressente o homicida para quem os homens o criaram.

Às vezes, dá-me pena. Tanta dureza, tanta fé, tanta impassível ou inocente soberba, e os anos passam, inúteis.

(Borges, Jorge Luís, Nova antologia pessoal, São Paulo: Difel. 1986)

Jorge Luis Borges e um punhal.

Jorge Luis Borges e um punhal.

O punhal sonha com o dia em que experimentará sangue. A faca é mais modesta: ambiciona o dia em que não será considerada punhal, em que recuperará o seu significado original, o de cortar.

Da mesma forma que todo ser humano, tenho um medo ainda mais primário: o de perder o significado e ser esvaziado, ser uma casca à solta pelo mundo. Uma faca sem nada mais que a lembre daquilo que o seu passado representou, um objeto sem utilidade. Algo que pode ficar preso dentro desses pequenos caixões que se convencionou chamar de gavetas, sonhando que alguém olhe além do inox e recupere o seu passado glorioso.

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Ela é o meu país

Estou no restaurante. Enquanto aguardo o preparo da minha refeição, presto atenção involuntária na mesa ao lado. A mulher ainda jovem conversa com um menino de cinco, seis anos: com voz lenta, as palavras saindo devagar para que o menino compreenda e não fique em dúvida, a senhora anuncia que ele precisará deixar a escolinha, pois a mamãe vai ter que mudar de emprego, mas, na outra cidade, ele entrará em outra escolinha, com novos coleguinhas. O menino acompanha todo o esforço discursivo da sua mãe, mas parece não estar entendendo. Quando ela pergunta, pela enésima vez, se está tudo bem, a criança dispara:

“Não vou sair da escola. A Gabi estuda nela.”

Por esta a mãe não esperava, tanto que a sua única reação foi perguntar quem era a Gabi. O menino suspirou, abrindo os braços para dar mais inflexão na frase:

“A Gabi, mãe, a Gabi é o meu país.”

Não lembro quando era pequeno, mas deve ser angustiante a sensação de tentar capturar um sentimento gigantesco, que não cabe em palavras, para uma pessoa que ainda está com o léxico em formação. Como um menino poderia definir a importância que a Gabi tem na vida dele? Qualquer pessoa pensaria em uma comparação, e não raro um clichê: “a Gabi é como o sol da minha vida”. O menino foi mais audaz: ele definiu o sentimento. Não comparou a Gabi com outra coisa, pois a menina é incomparável. Com a certeza de quem sente, ele disse aquilo que a sua coleguinha representava.

A mãe do menino desandou a rir. A risada é a melhor forma de lidar com o inesperado. Se tivesse pensado melhor na frase, entenderia que existe mais sabedoria ali do que imaginava. A Gabi o cerca por todos os lados. Ela é o centro do universo de todos que convivem na sua esfera. Mesmo sem saber, as pessoas estão sempre pensando na favorita do menino. Eles se preocupam com ela, amam-na simplesmente por estarem próximas e, apesar de ralharem de forma ocasional com a Gabi, sentem orgulho de a conhecerem. A Gabi é o ar que os outros respiram, a chuva que cai, o sol, a lua. O menino anda, almoça e brinca sempre com o pensamento naquela que lhe rodeia.

Parece lógico que a Gabi seja um país.

A menina anda pela rua e nem desconfia que, no universo de outra pessoa, em um curto intervalo de vida, já é tão importante que se transformou em um país. Virou alguém tão incrível que fez um menino desafiar a autoridade materna e a lógica da vida moderna para lutar pelo seu país. A Gabi nunca vai saber, mas é uma menina de muita sorte.

Devemos ser práticos. É uma batalha fadada ao fracasso. A primeira de muitas desilusões que aguardam o menino: perder o país, ver o eixo em que se desloca desaparecer no tempo. Não dá para vencer todas as lutas por aquilo que amamos. Amar também é perder.

Resta um consolo, ainda que tênue: talvez a vida seja realmente isto. Talvez sejamos seres deslocando-se no mundo, ilhas soltas, esperando encontrar o país correto, aquele que dará algum sentido.

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Uma vida de agostos

Hoje eu encontrei a minha avó. Considerando-se que ela morreu a quase 20 anos, posso dizer que foi uma experiência estranha.

Não sou muito de pensar nos mortos. Mas agosto é um mês diferente. Sombrio. Na infância, cada vez que iniciava o mês de agosto, minha avó dizia a mesma coisa: “sei que vou morrer em um agosto, será neste?”. Não sei de onde saiu tal ideia. De alguma crendice familiar arraigada. Passava o mês inteiro com a respiração suspensa, vendo a morte a espreitar em cada esquina. Só voltava a sentir alívio quando setembro iniciava, com os sorrisos da primavera próxima. Trinta dias de tensão para onze meses de crença absoluta na vida.

Um dia minha avó acertou o agosto. Chegou o mês dela. Se bem me lembro – perdoem a minha falta de memória, por precaução, apaguei muitas coisas do passado -, ela morreu no último dia de agosto, faltando algumas horas para setembro assomar no horizonte e salvá-la. A auto-profecia se cumpriu. Eu falei com ela menos de uma hora antes da Morte encontrá-la. Hoje sei que a vó imaginava que tinha escapado naquele agosto, mas o mês ainda tinha algumas horas para fazer o seu truque de desaparecer com a vida alheia. Não se pode subestimar a Morte nunca – ela gosta de marcar gols nos descontos, é uma jogadora que nunca desiste.

Os fantasmas são assim mesmo: não escolhem onde vão aparecer. Eles surgem do nada, quando não esperamos.

Drummond encontrou o fantasma do seu pai caminhando em Itabira. Michelangelo viu a sombra de Moisés espiando dentro do bloco de pedra. Não é espantoso que eu tenha encontrado o fantasma da minha avó em uma música do José Augusto.

Há muito tempo não ligava o rádio. A roleta russa de músicas me cansa, prefiro escolher aquilo que vou escutar ao invés de deixar uma voz escolher. Mas cedi ao comodismo e, ao escutar a música, lembrei de uma conversa que tive com a minha avó um dia antes de ela morrer. Surgiu com uma nitidez incrível, como se tivesse acontecido alguns minutos antes, mas duas décadas separavam a conversa da sua recordação.

A morte tem um efeito interessante: assim que a vida de outra pessoa acaba, começamos a esquecê-la e apagar os seus traços. Penso que é um efeito da evolução, uma forma da vida nos mostrar que tudo passa, em especial a vida alheia, e que devemos prosseguir. Resta muito pouco da figura da minha avó na memória (penitencio-me por isto), mas o sentimento ainda lembra.

Pergunto-me se as pessoas possuem a intuição inata de que vão desaparecer e deixam mensagens subliminares ou somos nós, que vemos fatos soltos e interligamos em uma cadeia de sentidos – o desejo de acreditar que existe uma lógica. Não sei. Mas lembro da nossa conversa, e o fato de recordar uma conversa ocorrida há quase 20 anos e não lembrar mais direito da pessoa é perturbador.

Minha avó escutava na rádio a música “Chuvas de Verão”, cantada pelo José Augusto. Eu entrei no seu quarto para falar algo e ela pediu silêncio. Não estávamos ainda nas facilidades da era da reprodutibilidade técnica, sequer existiam CDs ou DVDs. E perder uma música na rádio podia ser um momento irrepetível. Por este motivo, estávamos acostumados a esperar e, assim, fiquei calado.

Quando a música acabou, minha avó olhou-me como se fosse a primeira vez que entendia tudo. Disse que se lembrava de mim toda vez que a escutava. Disse que eu estava naquela música, eu era aquilo que o José Augusto cantava.

Na época, eu tinha o cabelo comprido e usava roupas majoritariamente pretas. Escutava heavy metal o dia todo e começava a ir em shows. Não existia nada mais contrastante do que pensar que eu podia ser a música (brega) do José Augusto.

Devo ter soltado um resmungo de exasperação (as pessoas estão sempre me encontrando nos locais em que não estou). O momento passou sem nenhuma explicação adicional e, no dia seguinte, minha avó levou os pensamentos dela para o outro lado, onde não existem mais perguntas, só certezas.

Mas deixou para trás o mistério, e foi com ele que me deparei hoje de manhã. O que foi que a minha avó viu dentro de “Chuvas de Verão”, de José Augusto? Onde eu estou ali dentro? Tenho vinte anos a mais de idade e continuo não me enxergando na música; analiso gramaticalmente a letra (meu Deus, quantos adjetivos, quantos clichês…!) e não vejo nada. Desconstruo frases, melodia, ritmo, linhas harmônicas, uso todo o meu cabedal de conhecimentos e não vejo NADA que me revele. Não sei se sou cego, se a minha avó estava brincando, se ela viu algo que somente seus olhos eram capazes de distinguir, se previu aquilo que ainda serei ou se tentou chegar na minha essência através do oposto, aquilo que nunca fui.

Para mim, este é o significado mais possível de fantasmas: deixar pequenos enigmas para trás, migalhas no meio do bosque da vida, sabendo que, quando encontrarmos o quebra-cabeça cuidadosamente inserido no nosso passado, iremos lembrar dos mortos e das suas lições. Nenhuma pessoa realmente morre; só não achamos os quebra-cabeças que elas deixaram para trás.

Sei que vou morrer em um agosto. Minha avó nos sentenciou a esta sina. Parece justo: onze meses nos achando imortais para um mês de expectativa. Espero que, até a chegada do meu agosto particular, eu consiga resolver o mistério de quem a minha avó imaginava que eu era, encerrada dentro da música do José Augusto.

No entanto, cresce em mim a sensação – incômoda – de que este texto, neste blog, neste dia em específico, foi o real motivo pelo qual a minha avó falou tal frase. Para que eu lembrasse. Para que eu entendesse que cada mínima coisa pode ter um sentido e que, por mais que eu tente entender aquilo que os outros pensam que sou, nunca conseguirei chegar numa resposta completa. Uma lição de humildade – ou de resignação.

Atrás de migalhas.

Atrás de migalhas.

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