Obras Inquietas – o2: “Hércules e Licas” (1815), de Antonio Canova

Na minha segunda coluna para o “Obras Inquietas”, lá no Artrianon (www.artrianon.com), eu analiso uma escultura do Antonio Canovas, “Hércules e Licas” (1815), contando uma história da mitologia grega por meio do enfoque dos últimos segundos de vida de Licas, o servo de Hércules que teve o azar de pegá-lo em um péssimo dia.

Boa leitura!

 

“Hércules e Licas”, Antonio Canova (1815)

 

Antonio Canova, "Hércules e Licas" (1815)

Antonio Canova, “Hércules e Licas” (1815)

 

Viver nunca é justo. Eu, Licas, nasci de mãe desconhecida, filho provável de um cidadão ou de um escravo. Não conheci meus pais. Fui alimentado pela caridade alheia; comi com cães, com ratos, com porcos. Aprendi a roubar desde antes de respirar. Aprendi a matar desde antes de saber que era vivo. Criado nas ruas, perdi uma por uma das minhas inocências até esquecer que era um ser humano. Por que existo, se toda minha existência não deveria ser? Sou um erro; sou aquele que não devia estar aqui. Então, um dia, olhos negros me contemplam com carinho. É bom ser amado: é quente, faz com que a vida tenha sentido. Sinto-me alguém; descubro que tenho sombra, ganho um nome, aprendo a sentir. Dejanira é o nome dela, e leva-me para morar consigo e com seu marido, um homem de olhos furiosos, cujo corpo foi feito para matar, para violentar, para trazer sofrimento. Mesmo assim, ele se esforça para me tratar bem, e aprendo a amá-lo. Um dia, levo para o patrão a túnica, conforme me foi ordenado. O homem a veste; seu urro faz as nuvens encolherem de medo. Ele queima, é possível ver a fumaça saindo da pele rija, e eu não sei o que fazer. É quando a montanha de músculos vira para mim, os olhos injetados de sangue, e descubro que não é um herói, mas um assassino, o maior de todos. A voz de ferro troveja, “então, és tu quem traz a minha morte, Licas?”, e eu digo, “por favor, não me mate!”, mas já estou girando, corpo distendido em um passo de dança com o infinito. As mãos tentam se segurar em algo, o penhasco tão próximo que posso sentir a sua respiração salgada, e o grito repleto de mármore escapa da minha garganta, não é justo, não é justo nascer se a morte é sempre injusta.

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