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Imerso na areia movediça

Excesso de gentileza me deixa desconfortável.

Estava pensando nisso ao comprar o café hoje pela manhã. Muitos anos atrás, acertei com meu terapeuta que iria interagir mais com as pessoas. Ando sempre com as defesas levantadas (“shields up!”, como diria o capitão Jean-Luc Picard da Enterprise): os dramas alheios me invadem sem pedir licença e acabam machucando no processo – quando me contam algo, eu sou você e sou o algo, sinto tudo com a força desproporcional que a imaginação confere -, então prefiro fechar as comportas, evitar interações, passar ao largo dos problemas dos outros antes que eles me afetem. É uma estratégia defensiva. O terapeuta achou necessário começar por um pequeno passo e, assim, todos os dias eu compro um café no McDonald’s e tento interagir por alguns minutos, mantendo uma distância regulamentar.

Nas últimas duas semanas, o pessoal que trabalha no McDonald’s descobriu o meu nome. Afinal, são três anos cumprindo o ritual de comprar o café no mesmo lugar, acabei chamando a atenção. Desde então, basta entrar no McDonald’s e as funcionárias me cercam: “Oi, Gustavo!”, “tudo bem, Gustavo?”, “o mesmo café de sempre, Gustavo?”, “bom dia, Gustavo!”, “cadê o café do Gustavo?”. Isso quando não me dão cafés gratuitos ou trazem meu café antes mesmo de eu pagar, “fiz agora o café e está bem quentinho para ti, Gustavo”. É o inferno para uma pessoa tímida. Não sei como dizer que gostaria de ser tratado de novo com desconsideração e com indiferença – descobrir meu nome abriu as portas de uma série de diálogos íntimos que eu  não teria.

Entendo que, usando o nome, elas tenham a intenção de me tocar, ainda que metaforicamente. Entendo e respeito isso. Imaginem agora o que sinto desde que, nos últimos tempos, várias pessoas por semana passaram a me interromper do nada e começam a falar comigo com grande intimidade. São meus leitores e leitoras, a grande maioria agradecida pelas histórias que escrevo, todos expressando o desejo de compartilhar suas opiniões comigo, todos querendo escutar minhas opiniões.

Não sou mal educado ou mal agradecido. Gosto dos meus leitores – são ótimas pessoas, muito divertidos e costumam interagir até com certa veemência com o livro. Com todos eu parei e conversei por um tempo, e com alguns tirei fotos ou autografei guardanapos e outros papéis (até um braço autografei esses dias).

Após uma longa autoanálise, percebi que essa situação não me fazia bem. Não entrei na literatura para interagir, entrei para escrever. Já lancei duas obras, tive mais leitores do que imaginava que algum dia teria e não pretendo me sustentar com ela, até por que viver de literatura no Brasil é uma utopia que despertaria gargalhadas em Thomas More. Escrever só para mim dá tanto prazer quanto escrever para os outros, e sou meu leitor mais selvagem e exigente. Aliás, por muitos anos fui meu único leitor, e nunca fui condescendente comigo mesmo. A literatura já tinha cumprido o propósito que eu imaginava: escrever livros, ser lido, ser comentado, ser criticado. Mais do que isso é exagero, e dois livros parece uma ótima produção.

Portanto, pensei que agora poderia deixar o meu barco mais preso ao porto. Evitar eventos literários de maneira gradual. Parar de publicar em papel. Restringir exposições públicas. Fechar meus textos comigo, que é o local onde eles nascem e podem permanecer tranquilos. Silenciar aos poucos até sumir de vez. Não parar de escrever – não consigo -, mas permanecer em silêncio. Meu último ato oficial na escrita seria a tese de doutorado de Escrita Criativa, a perfeita saída de cena. Uma andorinha não faz verão; um escritor a mais ou a menos no mundo não muda nada. E eu adoraria voltar a ser leitor.

Entretanto, desde o momento em que pensei isso e decidi esquematizar uma retirada gradual e discreta, fui inadvertidamente sufocado por uma onda de carinho. Não sei se existe serendipidade, não sei se é destino ou mera coincidência, ou mesmo se existem forças invisíveis interligando as pessoas, mas, nas últimas semanas, leitores que nunca conversaram comigo ou entre si me cumularam de mensagens de texto, de e-mails, de gravações de áudio, de fotos dos livros. São agradecimentos, sugestões, perguntas, elogios que me fazem enrubescer.

Em tempos normais, não daria tanta atenção para esse tipo de mensagens, mas foi tão orquestrado e tão simultâneo que me deixou com dúvidas. “Você se torna responsável por aquilo que cativa”, já dizia o sábio Pequeno Príncipe do Saint-Exupéry, e escrever também é um ato de responsabilidade perante os outros. Não sou uma pessoa irresponsável; tenho dezenas de defeitos, mas não esse.

Só agora entendi um conto presente no meu próprio livro, “Tema de Sísifo”. Um homem acorda em uma casa à beira de um rochedo. Passa o dia de forma normal, usufruindo de pequenos prazeres: os raios do sol na parede caiada, uma tigela de arroz, uma sombra inoportuna. Contudo, sua alma não se encontra pacificada; em meio aos ensinamentos deixados por Pitágoras, o homem sente que alguma coisa está fora da ordem. No meio da tarde, caminha na beira da praia; percebe a silhueta distante de pessoas a lhe vigiar, e machuca o pé. Tem a súbita noção de que aquele dia já aconteceu antes. Sente-se invadido pelo terror ao notar que está preso em uma situação impossível de ser vencida, que cada dia será igual ao anterior e ao posterior, pois ele é um “Deus aprisionado na própria armadilha”, o Sísifo por excelência.

Quando escrevi esse conto, não entendi todas as suas possibilidades, mas agora vejo que era a literatura falando comigo, mostrando o espelho incômodo onde estou preso e do qual não consigo escapar. Estou na pior das areias movediças: a que eu mesmo engendrei.

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Obras Inquietas – 18. “Retrato de mulher” (1650), Diego Velázquez

Na minha coluna da semana passada no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon, eu tratei de um quadro não tão conhecido de Diego Velázquez, o “Retrato de mulher” (1650) ou “Retrato de Sibila”. Ele esconde vários mistérios. Inicialmente, por que Velázquez não lhe colocou título, como costumava fazer nas suas obras. Em segundo lugar, pelas sólidas evidências históricas de que o quadro representa Constanza, a musa de Bernini, que Velázquez conheceu quando ela já era mais idosa e tentou suplantar a sua admiração pelo trabalho do outro artista apropriando-se da musa que não lhe pertencia.

Dormir com o sonho de outro homem – eis algo inquietante.

Boa leitura.

 

18. “Retrato de mulher” (1646-50), Diego Velázquez

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Olhe o que não está ali. É atrás do singelo que se esconde o mais formidável segredo: uma pintura repleta de sexo, o princípio de um crime passional. Está diante dos nossos olhos, mas não somos capazes de ver. Toda obra de arte é inquieta, acúmulo de átomos furiosos, a questão é achar o ponto de tensão sobre o qual ela se funda. Na imagem, a mulher (nunca saberemos a cor de avelã dos seus olhos ou a leve ruga que surge sobre o lábio quando ela sorri) aponta para um papel, pensativa. O coque despretensioso revela que ela está em um lugar despojado, provavelmente em casa; a roupa branca assemelha-se a uma camisola, e o seio escapa por entre as dobras da veste, esquecido. Ela acabou de acordar, o corpo ainda guardando o suor da noite, ainda repleto de lascívia. Na cama, o amante contempla os braços carnudos, o queixo erguido, a mulher que esqueceu momentaneamente dele e vê como a luz se reflete na musa do seu ídolo. Sim, aí está o impossível, pois ele, Diego, dormiu com a musa inspiradora de outra pessoa. Cada musa pertence somente a um artista, assim como cada amor pertence a quem é atingido por ele; não existem dois amores iguais. Contudo, isso não foi obstáculo para Diego, que invadiu os devaneios alheios e levou para a cama o sonho de mulher que não era seu. Não amou aquele ser de carne, rugas e fraquezas tão humanas que conhecera, mas a imagem que o outro artista possuía dela. Enquanto o escultor tentava eternizar um sentimento, o pintor amante fartava-se na carne jovem da musa que não era sua. Não basta possuir um corpo, isso é para ignorantes. Não é suficiente exibir para o mundo a sua conquista, isso é para fracos. A verdadeira, imperdoável, traição é muito mais terrível: é dormir com o sonho de amor de outra pessoa.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/01/28/18-retrato-de-mulher-1646-50-diego-velazquez/

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Obras Inquietas – 08: “Agnus Dei” (1635-1640), de Francisco de Zurbarán

Na minha coluna “Obras Inquietas” dessa semana, um quadro de Francisco de Zurbarán com a pergunta que não quer calar: de quem somos o cordeiro hoje?

É uma obra interessante sob outros aspectos. Ela possui todos os requisitos para ser um “still life”, ou “natureza morta” como chamamos no Brasil. A riqueza de detalhes, a imobilidade do cordeiro, a vida representando a morte. O problema é que o cordeiro está vivo´, ou seja, é uma natureza morta com um ser ainda vivo, mas que sabe a iminência da morte próxima e do sacrifício. Eis a imanência da arte, tanto da pintura quanto da literatura: fazer a representação de um cordeiro se manifestar sobre a injustiça e sobre a vacuidade da vida.

Boa leitura!

 

“Agnus Dei” (1635-1640), Francisco de Zurbarán

 

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Eu sou aquele que vai morrer por causa dos seus pecados. Não fiz nada, mas, apesar disso, virei a materialização ainda pulsante e quente dos seus erros. É bom ter alguém a quem culpar, não? Cometer crimes, proferir blasfêmias, realizar atrocidades e, em seguida, limpar a consciência besuntando-se no sangue de um inocente. Não acredito que o seu Deus exige a minha morte para lhe salvar: ele também não é o meu Criador? Por que o meu criador irá destruir a vida de quem nunca errou, em troca de você e seus erros mesquinhos e crimes vergonhosos? Para você, matar-me irá eximi-lo das suas culpas, mas, para aquele que jamais cometeu nada errado contra o Senhor seu Deus, você é o assassino cruel que acordou hoje, imerso no suor da vergonha, e escolheu uma vítima incauta que teve o azar de estar passando por perto. Tive uma existência curta e sem sentido – nasci, conheci brevemente minha mãe, andei por campos, dormi sob estrelas -, mas eu gosto de viver. Não posso ter nascido só para ser assassinado por causa das fraquezas de outro. Não atrapalho ninguém, e até meus balidos são baixos para não chamar atenção. Tudo inútil, pois fui o escolhido. Não há justiça; no final do dia, os inocentes sempre morrem por causa dos culpados. Observe meu pelo sedoso, os chifres que tantas vezes raspei nas pedras, os cascos ainda jovens; em breve, eles estarão sem vida e meu sangue escorrerá em sacrifício para o chão, ainda trêmulo na lâmina faiscante usada para cortar minha garganta. Você será rápido, os dedos escondendo o nojo, ou lento, deixando cada centímetro da faca afundar-se na minha pele e sufocar o gemido estrangulado que sairá da minha garganta, enquanto morro sem saber o que fiz de errado? Senhor, tende piedade de mim, pois não sei o que fiz de errado para morrer hoje.

 

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/11/18/08-agnus-dei-1635-1640-francisco-de-zurbaran/

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Crônicas de um ano inteiro: “Outonizar-se com dignidade”

Fui convidado a integrar um belo projeto chamado “Crônicas de um ano inteiro”, uma página no Facebook que tem a seguinte proposta: a cada dia da semana, uma pessoa escreverá uma crônica sobre um assunto do cotidiano, e todos serão disponibilizados na internet. Ao final de um ano, teremos uma crônica a cada dia da semana. Eu fiquei com as segundas feiras. Ou seja, toda segunda desafiarei a tristeza alheia por outro começo de semana escrevendo um texto. Convido todos a acompanharem a página no Facebook e a lerem as crônicas dos demais colegas de empreitada.

Na minha estreia, falei do aniversariante do dia 31/10, Carlos Drummond de Andrade. Mas também aproveitei para confessar a minha paixão por uma árvore. Onde se lê árvore, contudo, podemos ler muitas outras coisas. Um texto nunca é somente um texto – também é algo a mais.

Boa leitura!

 

Outonizar-se com dignidade

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Não sei a data exata em que aconteceu. Acredito que tenha sido em torno de dois ou três anos atrás, mas pode ser quatro, talvez até cinco: o fato é que, na minha trajetória diária para o trabalho, subitamente descobri que estava apaixonado por uma árvore.

Estava passando pela rua quando percebi as folhas amarelas conspurcando o parque em pleno verão. Impossível não ver, pois, em meio às dezenas de árvores que se exibiam para o sol, todas tão iguais – e tão enfadonhas – no seu verde, aquela única se destacava por afrontar o calor da estação com folhas acobreadas pintando os galhos secos. Havia algo de rebeldia insensata nesta atitude – não me importa se os outros pensam que hoje é verão, para mim é outono. Passei pela árvore, sorrindo da sua insanidade, mas ela não passou por mim.

Nos dias seguintes, vi as folhas paulatinamente caírem até que árvore ficou desnuda. Envergonhada, ela erguia as mãos em prece para o sol inclemente. Ao seu redor, as demais riam com cicios de vento. As folhas novas surgiram e se espalharam. Acompanhei todo o processo: a árvore devagar tingindo-se de verde, em um processo de ressurreição, voltando a se orgulhar da sua existência. Não tinha passado uma semana e ela se juntava às suas amigas, mas com folhas renovadas, enquanto as outras já imploravam as chuvas rápidas do período.

Desde essa época, passei a acompanhar as metamorfoses da árvore. Percebi que ela possuía um peculiar senso de humor: quando está brava, ela encolhe seus galhos, parecendo bem menor do que é, além do cheiro de folhas podres cercarem-na como uma couraça; quando está feliz, a sombra impregnada de conforto espalha-se por uma área que vai além do seus braços e os passarinhos chilreiam com fúria, dando a sensação de que a árvore assobia. Quando todas as árvores seguem uma tendência, a minha amiga vai para o lado contrário, mas faz de forma tão extrema que se torna adorável. Ou ela possui um temperamento forte ou é uma árvore muito atrapalhada nesse ofício de ser árvore, e, em qualquer situação, eu a amo.

Ela não sabe dos meus sentimentos, mas deve desconfiar, depois de tanto tempo que a admiro e passo períodos de silêncio perto dela (ou tirando fotos, pois guardo, com orgulho, traços da nossa relação). Ainda recordo dos momentos tensos que vivemos. No ano passado, após um vendaval que devastou metade dos parques de Porto Alegre, quando pude sair de casa, fui até o seu encontro. A árvore estava lá, machucada: muitos dos seus galhos tinham caído, outros ainda pendiam do tronco. Ao seu redor, várias amigas tinham morrido, os corpos marrons espalhando-se nas proximidades do lago. Era visível o luto das sobreviventes pelas suas irmãs mortas, e não consegui sufocar um arrepio ao imaginar a terrível noite das árvores em meio à horripilante tormenta, escutando o vento e a chuva desabarem com fúria, o estalar de galhos quebrados, o estrondo de troncos caindo, as chicotadas de água. Todos passam por períodos difíceis na vida, mesmo as árvores, e só pude dar todo o meu carinho e apoio psicológico, pois cabia a ela descobrir a força indômita que mora dentro das dores.

Alguns meses atrás, sem que ninguém saiba, eu adotei a árvore. Passei a considerá-la como minha. Eu sei que pertence à cidade e que não posso levá-la para casa, mas, em espírito, a árvore me pertence. Não ando por aí abraçando troncos ou fazendo juras de amor; nosso relacionamento é silencioso e baseado no respeito. Fico perto dela, sentindo o perfume, admirando a tessitura rugosa da pele. Vejo os passarinhos que se refrescam nos seus cantos, aprendi a detectar os sons ocos que o vento faz ao passar por entre seus ramos.

É muito fácil hoje, nessa segunda feira de ressaca pós-eleitoral, estarmos tecendo considerações sobre o momento político do país, sobre a situação do time de futebol na tabela do Campeonato, sobre fantasias de Halloween, sobre a corrupção. O difícil mesmo é fazer como Carlos Drummond de Andrade, que hoje completaria 112 anos de idade, e também se apaixonou por uma árvore rebelde. Em sua crônica “Fala, amendoeira”, ele descreve o momento em que a paixão surgiu e, assim como no meu caso, foi pela estranheza:

“Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.”

A seguir, o poeta conversa com a árvore e pergunta por que ela já se despiu em doce expectativa. A amendoeira responde que está outoneando sozinha e, ao ser indagada sobre o motivo, responde: “Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.” Ao final, a amendoeira olha para o poeta e seu conselho final é sábio: “Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves… Outoniza-te com dignidade, meu velho.”

Drummond sabe a verdade: esse texto nunca foi sobre um homem apaixonar-se por uma árvore. Foi sobre eu aceitar a existência do meu outono.

Feliz aniversário, meu velho.

 

E eu não poderia deixar de acrescentar uma foto da minha árvore favorita no mundo, no auge da sua rebeldia insensata:

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Vermeer e o momento exato em que o amor surge

Um assunto que me fascina há muitos anos é o instante em que surge a obra de arte. Sempre me pareceu mágico uma pessoa estar caminhando na rua e, de repente, sem nenhum aviso, sentir – mais do que ver –  algo apossar-se do seu espírito, uma ideia, um som fugaz, um fantasma, e aquilo ter necessidade urgente, quase dolorosa, de vir ao mundo na forma de arte. Não é à toa que muitos artistas comparam o ato de criar a um parto, pois o princípio é quase o mesmo. Depois deste momento inicial, tudo se torna técnica e estudo, e é a quantidade de dedicação de uma pessoa para a sua arte que pode transformá-la em algo memorável ou em uma experiência abortada. No entanto, esse primeiro momento, quando o mundo parece se tornar lógico e amigável, em que as comportas da criação se abrem, generosas, e inundam os campos secos do cotidiano – esse momento é único.

Tanto me fascina este assunto que o abordei em um conto de “O homem despedaçado” – ainda que por meios distorcidos. Em “Uma milonga para o homem-címbalo”, Nicásio Hernándes, bandido renomado por sua violência, prepara-se para agredir um violeiro cego na porta de um armazém quando este homem toca uma nota brusca no seu instrumento. Na descrição atônita do bandido, “ele [o cego] brandiu o violão e tirou uma nota: negra, áspera, cortante, linda. Foi uma magia. Naquela nota, entendi tudo, entendi por que, nas minhas noites, contemplava o céu com insatisfação; percebi qual era o meu destino. Naquela nota, estava a milonga da minha vida.” A partir de então, Nicásio começa a agir de forma estranha: o mundo se abre diante dos seus olhos de uma forma que ele nunca tinha percebido antes. O universo começa a ressoar ao seu redor, e ele não consegue entender como tudo aquilo estava sempre ali e ele nunca escutara.

Confrontado entre o seu destino de ser uma criatura cruel feita de realidade ou um homem forjado por sonhos e encantamentos, Nicásio toma a decisão última. No entanto, a minha intenção nunca foi contar a história dele, mas a de Juan Vizcayo, que sente o chamado da arte no momento mais inesperado, fazendo jus à epígrafe do conto, uma frase de Han Yu: “Tudo ressoa, mal se rompe o equilíbrio das coisas. As árvores e as ervas são silenciosas; se o vento as agita, elas ressoam. A água está silenciosa; o ar a move e ela ressoa. Assim também é o homem. Se fala, é porque não pode conter-se. Se se emociona, canta. Se sofre, lamenta-se. Tudo o que sai da sua boca em forma de som se deve a um rompimento do seu equilíbrio. (…)  E assim, quando o equilíbrio se rompe, o céu escolhe entre os homens os que são mais sensíveis e os faz ressoarem.” Para mim, esse é o verdadeiro conceito de gênese da obra artística: quando o mundo começa a vibrar como louco e algumas pessoas conseguem, então, fazê-lo ressoar.

Algumas semanas atrás, assisti a um documentário da BBC sobre Johannes Vermeer (1632-1675) chamado “The Madness of Vermeer”. Valeu muito por ver a cidade de Delft, na Holanda, e como ela continua parecida com as pinturas que Vermeer fez quase 400 anos atrás. No YouTube, tiraram o link original que assisti, mas ainda existe o filme principal dividido em quatro partes, basta procurar pelo nome.

Discordei de uma boa parte das conclusões que os documentaristas tentaram provar. Existe um desespero natural das pessoas de tentarem explicar o motivo da criação artística, como se ela tivesse uma razão em si. Não acredito que exista: alguns indivíduos possuem mais necessidade de criar do que outros, simples assim. No entanto, existe toda uma vertente de crítica que busca motivos quase transcendentais para explicar as obras de alguém: a infância pobre se refletiria em mostrar personagens humildes nas pinturas; o casamento infeliz estaria insinuado no sorriso dissimulado de uma mulher em outro quadro; brigas políticas encontrariam expressão nas roupas negras de um oficial. Pensar assim transforma os artistas em um bando de recalcados que só criam para se vingar.

Não descarto este tipo de abordagem, mas não gosto quando ela é a única usada para interpretar a obra de alguém. E se o artista colocou um menino humilde por que achou que quebraria a monotonia do quadro, e se colocou a mulher dissimulando o sorriso por que não sabia pintar dentes, e se as roupas negras de um oficial foram determinadas pelo fato do pintor estar com preguiça de comprar tintas novas e precisava terminar com o preto? Basta um pequeno grão de poeira para desandar toda a máquina deste viés de análise em que se procura a vida do autor para justificar as nuances da obra, quase como se fossemos Sherlock Holmes destrinchando um recém-chegado em Baker Street, por isso a descarto como forma exclusiva de interpretação. Não creio que Vermeer tenha pintado cenas interiores para extravasar a sua angústia pelo fato do seu bisavô ter sido um espião ou um preso político, para ficar em um exemplo de conclusão apresentada no documentário. Mais provável que tenha pintado cenas do cotidiano por que as achava encantadoras dentro da sua simplicidade.

No entanto, em meio às pirotecnias interpretativas dos documentaristas, alguns críticos acabaram falando opiniões de alto valor. Entre elas, uma ideia dita quase de passagem, quase indiferente, acabou chamando a minha atenção: nas suas pinturas, Vermeer buscava capturar o momento exato em que o amor surgia entre duas pessoas.

É fácil pintar o amor ou a paixão. Desafiante mesmo é flagrar o instante em que o amor surge, a primeira explosão de reconhecimento, o segundo em que um homem ou mulher repentinamente olha alguma coisa diferente no outro e pensa, quase sem querer pensar, “então é ela!” ou “então é ele!”.

Não faz muito tempo, li um depoimento em que a moça falava que, ao contrário do imaginado, no seu caso o amor não surgira à primeira vista. Pelo contrário, só apareceu quase cinco anos depois de conhecer o rapaz, de terem feito dezenas de programas juntos, de se admirarem mutuamente, de serem confidentes e ótimos amigos, “lá pelo 2.253º olhar”, segundo a moça. Um dia, ela não soube direito o que aconteceu, os dois se encararam e só então souberam o que sentiam.  Concluiu de forma inusitadamente sábia: “o amor não surge na primeira vista, quem surge assim é a paixão, o desejo”, ao que eu comentei de volta, “o amor surge nos desvãos”.

Lembro também da bela descrição de amor contida em “O chefão”, de Mario Puzo, que deu origem ao filme “O poderoso chefão”, de Coppola (o livro é bem melhor, aliás). Na Sicília, o amor verdadeiro recebe como nome “O Relâmpago”, pois cortaria os apaixonados com força, impedindo-os de pensarem em qualquer outra coisa que não seja o bem estar do outro, o de possuí-lo. Neste sentido, se aproximaria da ideia de relâmpago, que surge nos momentos mais inesperados e muda toda a paisagem, eletrizando a pessoa que o recebe e que, no caso do livro, foi Michael Corleone ao se apaixonar por Apolonia.

É a mesma ideia que Vermeer tenta transportar para as suas obras: o instante exato em que surge um sentimento mútuo. As pessoas retratadas nas suas pinturas descobrem o amor, que se insinua como um rastro de luz no meio de uma existência trevosa. O melhor exemplo disso é a pintura “Oficial e moça sorridente” (1657-58):

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No quadro, percebe-se que a moça sorri e, aos olhos do oficial (incapaz de esconder o seu interesse e fascínio pela figura feminina), a luz súbita faz estremecer a sala e se reflete no semblante contente. É como se o amor, ao surgir, fizesse aflorar sorrisos, trazendo luz e novos interesses para um mundo cheio de interesses econômicos (o mapa na parede mostra as conquistas da Holanda) e burocráticos (é possível perceber que a cena normal do dia a dia não é suficiente para impedir a eclosão de sentimentos entre o casal).

Detalhe mesmo é a posição do espectador do quadro dentro da tela, outro assunto que me encanta. O espectador – ou seja, nós – estamos sobre o ombro do oficial, acompanhando a cena aparentemente ingênua, mas também nos apaixonando pelo sorriso da moça e pela luz que se insinua na sala sombria, uma alegoria provável para o coração do oficial. Somos simultaneamente cúmplices, voyeurs e participantes da cena. Estamos vendo o amor surgir, ainda inocente, na aurora do mundo criado pelo casal.

Vermeer sabe que o amor é transitório. Sabe que, em breve, ele se transformará em muitos outros sentimentos, mas, naquele momento inicial, a sua força é única e a sensação inigualável. Por este motivo, a obsessão em flagrar o transitório, aquilo que acontece em milionésimos de segundos e que mesmo os envolvidos são incapazes de perceber, é um objetivo tão vasto que chega a tirar o fôlego.

Em “Homem, mulher e vinho” (1658-1661), uma nova declaração de amor:

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O olhar de enlevo com que o homem acompanha o gesto da mulher de beber uma taça de vinho é revelador dos sentimentos que lhe acometem. A mão ainda segura a jarra; ele paralisou ao prestar atenção na outra que bebe, ainda indiferente, mal disfarçando um  sorriso. O violão foi esquecido, não existe música que se compare ao que ele está enxergando. As sobrancelhas alteadas expressam todo o seu interesse não no mundo, mas no curto espaço de sentido que é a moça bebendo vinho.

A própria posição da janela, indiscretamente revelando o amor que surge intermediado pela presença entorpecedora do vinho, não está ali por acaso. A luz ilumina a cena com carinho, quase cálida, acariciando as múltiplas cores do cenário. Um mundo ainda escuro abre-se como uma flor diante do primeiro orvalho. É o amor que surge, capturado no exato momento em que uma relação ainda indiferente transforma-se em arrebatamento.

Também é possível pensar em uma continuação deste quadro. Em “Moça com copo de vinho” (1659-1660), quase a mesma cena é reprisada, e na mesma sala da pintura anterior, como podemos notar pela janela:

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No entanto, desta vez a mulher está com a taça entre as mãos. Surgiu ainda um homem no canto da tela – há quem acredite que Vermeer tenha se colocado intencionalmente dentro do quadro, e o cavaleiro de cabeça baixa ao fundo da pintura seria o pintor visitando o próprio cenário. O olhar da mulher em direção ao espectador, o rubor nas suas faces e o sorriso meio envergonhado mostram que ela sabe o que está acontecendo. O homem lhe faz um galanteio, curvado, olhos fixos esperando as suas reações, visivelmente apaixonado. O amor já surgiu de um lado do casal, mas está ainda despertando na mulher, que evita os olhares masculinos com o mesmo receio que a corça possui diante do seu algoz.

Refletindo na ideia de que Johannes Vermeer tentava capturar o amor no momento do seu surgimento quase efêmero, como uma reação química que só conseguimos ver em um microscópio e de forma muito veloz, talvez o maior de todos os seus milagres seja mesmo “Moça com brinco de pérola” (1665-1666):

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O olhar intenso da moça, os lábios entreabertos e a tranquilidade do semblante escondendo um emaranhado de emoções confusas (não é à toa que comparam esta obra com a “Mona Lisa” de Da Vinci, pois o mistério nunca respondível da sua expressão é o que mais nos atrai) revelam que Vermeer tentou o último salto para mostrar o surgimento do amor: transformar em obra de arte o momento exato em que o pintor próprio se apaixona pela sua musa, ou pelo modelo, ou pela sua obra. O momento em que alguém começa a resplandecer na nossa memória. E consegue concluir o movimento mais incrível de todos: fazer o espectador, parado ao lado do pintor, se apaixonar com a mesma intensidade pela moça repleta de mistério e de encanto. Vermeer não só capta o amor quando surge, mas faz com que qualquer pessoa se apaixone por alguém que não existe. Esse é o sentido mais puro de magia que pode existir: criar o impossível com tanta naturalidade que é como se ele sempre tivesse existido.

Na sua vida, Vermeer pintou somente 35 quadros oficialmente reconhecidos como seus. Morreu pobre. Os seus quadros foram leiloados para pagar as dívidas da família, e vendidas a troco de quase nada. Johannes Vermeer não tinha um estúdio ou atelier para trabalhar, e é incrível imaginar que ele pintou toda a sua obra no meio da sala de casa, com os filhos correndo ao redor, resolvendo problemas ínfimos como ir ao armazém, conversando com a mulher e com a sogra (com quem se dava muito bem). Não sabemos direito nem como era a sua aparência: acreditam que o homem à esquerda do quadro “A alcoviteira” seria um autoretrato seu, mas não há provas neste sentido.

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Apesar de todos os percalços pessoais, Vermeer nunca desistiu de buscar aquele segundo efêmero em que o amor surge. Ele sabia que o amor era uma chama, mas estava mais interessado na fagulha que o iniciava do que na sua transformação em fogueira. Ao mostrar leveza na luz, Vermeer destacava os traços humanos em primeiro plano, deixando-os resplandecer como se as pinturas não fossem feitas com luz, mas revelassem os segredos escondidos por trás dela. Por saber que o amor não ia durar para sempre, o pintor holandês tentava capturá-lo ainda na sua nascente. Este talvez seja o maior propósito da arte: fazer as pessoas verem aquilo que, a olhos nus, nunca conseguiriam.

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Texto publicado no Literatortura (03/03/2016): “A beleza como forma de contágio”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura, eu falei sobre a beleza e de como ela pode nos contagiar.

Admito que, nos últimos tempos, tenho sentido uma espécie de distanciamento do resto do mundo. As redes sociais se transformaram em formas de estabelecer discussões insossas e intransigentes. E inúteis: convenhamos, para quem leu Tucídides e a história de Alcibíades que, por inveja, sofreu o ostracismo de Atenas e teve que encontrar abrigo na cidade inimiga, Esparta, onde acabou desequilibrando a Guerra do Peloponeso, veria que a história se repete, com a diferença de que os personagens atuais não possuem caráter algum e tem uma indigência cultural quase cômica. Por este motivo, ao invés de usar as palavras para tentar convencer alguma pessoa (isso é possível?), tenho cada vez mais buscado conviver com a arte, em busca de almas que me leiam, entendam e também sejam capazes de ressoar meus pensamentos.

Boa leitura.

A beleza como forma de contágio

Estava lendo um artigo sobre o pintor flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640) quando um detalhe descrito por Roger de Pilles, um dos seus maiores admiradores, acabou se destacando: ao abordar a rotina de Rubens, disse que ele começava a trabalhar às 10 horas da manhã, tendo sempre perto de si um leitor, homem ou mulher contratado especificamente para ficar “lendo bons livros, entre os quais Plutarco, Tito Lívio ou Sêneca” enquanto o pintor mexia com as suas obras. Toda a produção artística de Rubens foi feita, assim, ao som de literatura. Ao perscrutar os seus motivos, Roger de Pilles menciona, quase como se fosse algo lógico, que o pintor necessitava ter inspiração com os mestres e, para isto, era natural buscar o conforto das vozes dos antigos.

Peter Paul Rubens, Caçada ao Tigre

Peter Paul Rubens, Caçada ao Tigre

Era um detalhe quase imperceptível na trajetória de Rubens, mas me fez recordar outra história. Uma colega escritora – evitarei citar o seu nome por discrição, até por que estávamos em um momento de confidências sobre o fazer literário – disse que o seu livro dividia-se em seis partes principais, e cada uma delas se relacionava com uma das partes do conjunto de tapeçarias “A Dama e o Unicórnio”, quais sejam, paladar, visão, audição, olfato, tato e “À mon seul désir” (“ao meu único desejo”), que corresponderia ao amor, ao entendimento e à compreensão. Argumentei que o livro em questão não tinha nada de unicórnios e muito menos de damas, mas a escritora respondeu que lembrava de cada parte do bordado em cada capítulo, concentrando-se no sentido por ela explorado, e era como se estivesse vertendo em palavras, dentro da sua história, aquilo que estava contido na tapeçaria feita no século XV em Flandres, na França.

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Para pessoas que gostam de intertextualidades, como é o meu caso, aquele era um prato cheio, mas observei que o livro tinha sete capítulos se incluíssemos o posfácio, e a tapeçaria era formada por seis partes. A escritora riu e pediu para que eu lesse em voz alta o posfácio ao som do segundo movimento da Sinfonia n.º 40 de Mozart, o “Andante”, e eu veria a música ajustando-se ao texto. Quando cheguei em casa, fui conferir e era verdade, as palavras respeitavam a respiração das notas musicais pensadas por Mozart. O livro inteiro tinha sido pensado como uma caixa de ressonância artística, não como uma forma de somente contar a história, e é uma pena que quase ninguém tenha percebido esta sutileza mágica na obra da minha colega.

É ilusão nossa imaginar que uma obra de arte nasce do gênio ou da inspiração exclusiva de alguém. A verdadeira obra nasce de centenas de pequenos detalhes de outras obras e circunstâncias que, ao serem apreendidas pelo olho do artista, acabam sendo digeridas e, por fim, incorporadas ao seu estilo. Nos tempos atuais, a palavra “gênio” é comumente associada ao conceito de inovação e originalidade, o que a faz ser usada para qualquer característica que nos pareça nova, como o drible inusitado de um jogador de futebol ou a pessoa que chegou ao primeiro bilhão aplicando na Bolsa de Valores. É uma palavra que, por aplicarmos para qualquer pessoa de forma indiscriminada, está perdendo o seu sentido.

A verdadeira pessoa genial é aquela que foge da ideia de ser genial. A pessoa que admite, com humildade. que o seu trabalho faz somente parte de uma grande engrenagem da arte, na qual talvez ela seja uma porca, quando muito um parafuso. Nós passaremos, pois a vida é breve, mas a arte continuará. E é por pensar assim que os grandes artistas, longe de competirem ou de criticarem os outros, souberam usar como ninguém a noção de que a beleza e a fruição estética também são passíveis de transmissão por contágio. Ficar perto da beleza é se contagiar com ela. Pensar no belo é sentir-se melhor, é altear a alma, é atingir a sensação de sublime.

No passado, era comum que os artistas, antes de qualquer atitude criativa, estudassem de forma exaustiva não só a forma artística que pretendiam concretizar, mas também outras expressões da beleza. Picasso aprendeu a dançar para expressar melhor o corpo nas suas pinturas; Nijinski era um leitor voraz; os mais memoráveis atores são igualmente excelentes leitores de Shakespeare e de Racine; a Sinfonia n.º 40 de Mozart foi arduamente estudada por Beethoven, e os críticos acreditam que o seu quarto movimento pode ter servido de inspiração e leitmotiv para o terceiro movimento da 05ª Sinfonia de Beethoven. Existe uma voltagem invisível por trás de toda obra artística, uma força que a alimenta, invisível aos olhos do público em geral, mas da qual os artistas se embebedam com vagar, atingindo êxtases sem a ajuda de nenhuma substância química. O verdadeiro artista, quando faz a sua obra, sente-se como um empulhador, pois consegue perceber os traços dos demais de cuja fonte bebeu. Para o público, ele pode parecer original e único, mas, para sua exclusiva tristeza, o artista consegue ver as partes que formam o todo, e saber quem é o verdadeiro responsável por cada uma delas.

Contudo, também existe arte em pegar várias peças dispersas e combiná-las de uma forma inédita e, para isso, a apreciação estética é fundamental. O artista sente-se arrebatar pela beleza que desliza por trás do mundo, sempre distante, sempre ao alcance da mão. Para isso existem museus, bibliotecas, casas de espetáculos, teatros – para que possamos conhecer a beleza e nos apropriarmos dela, trazendo-a para as nossas vidas. O que chama a atenção para o fato de que, com raras exceções ao redor do mundo, estes são os lugares que menos buscamos para encontrar alguma espécie de conforto estético, preferindo o refúgio na frente da televisão ou em salas de cinema. Estamos cada vez mais preguiçosos, e a beleza que não é oferecida ao olhar de forma abundante, voluptuosa, cansa por nos forçar a procurá-la dentro de um quadro ou escutando as nuances de um concerto. Basta pensar na imensidão de pessoas discutindo filmes de duas horas enquanto poucas são as pessoas que abordam quadros, ou espetáculos musicais, ou esculturas, ou livros. O cinema é algo bom de se assistir, mas (com algumas honrosas exceções) também é uma ode à preguiça de pensar com maior vagar sobre a beleza.

Não faz muito tempo, recebi uma mensagem de teor bem-humorado, com uma dúvida que passou a me perseguir: “E se todas as bibliotecas existem não para os leitores, mas para despertar novos livros dentro das pessoas?” Por trás da inversão irônica da ideia comum (todos acham que as bibliotecas existem para servir leitores), pairava um questionamento perturbador: e se existir uma obra dentro de cada pessoa, e ela estiver esperando o livro certo, a pintura exata, a escultura imprescindível, a música única, para então vir à tona? Se pensarmos assim, a beleza não está no mundo para nos encantar, mas para despertar novas formas de beleza, em um contágio incessante, espalhando-se e gerando ondas ao redor de todo o planeta.

Por este motivo, acho muito inusitado quando leio ou escuto entrevistas de artistas contemporâneos dizendo que fazem questão de não conhecer os mestres antigos “para não se contaminarem”. Passam a ideia de que a obra dos antepassados serve como uma influência negativa, quando, na verdade, os grandes artistas trataram-nas como contágio, como forma de dispersão da beleza por eles encapsulada. Em um interessantíssimo texto publicado em 1681, Jacques Restout pregou a noção de que o verdadeiro pintor precisa ser, antes de tudo, um ótimo poeta, ao descrever as características ideais de alguém que pretenda se dedicar à pintura: “É preciso, ainda, que seja poeta, pois existe uma relação entre essa arte e a nossa: a poesia é uma pintura falante, e a pintura, uma poesia muda; de modo que o que uma escreve no papel, a outra pinta em uma tela, e ambas usam as mesmas regras para compor suas obras. Consequentemente, o pintor deve ter perfeito conhecimento da história sagrada, profana e fabulosa, bem como da astronomia, cosmografia, geografia, cronologia e, sobretudo, da aritmética, geometria e ótica, cujos princípios infalíveis são o fundamento da pintura e da poesia.” Essa noção humanística – de que o artista deve buscar todas as formas de arte para atingir a essência do humano – parece cada vez mais dissipada nos tempos atuais, em que se privilegia a fama, o lucro, o público bovino e não-questionador ao invés do desafio, da transgressão dos limites, da perfeição estilística.

Pode parecer que estou falando só da arte, mas as pessoas cada vez menos buscam o belo na sua vida. Para quem não procura achar a beleza nas coisas, tudo lhe parece feio. A beleza funciona por contágio: assim como Rubens escutando literatura clássica para pintar, ou o pintor perfeito de Jacques Restaut tendo que se aprofundar na poesia para entender a sua arte, ou mesmo a minha amiga colocando uma tapeçaria medieval e uma sinfonia em código quase invisível dentro do seu livro, a beleza encontra maneiras de se espalhar, e é um pouco temeroso viver em um mundo onde não se ensina a apreciar o belo. Um mundo assim é o local em que pessoas matam por nada e não possuem a noção horripilante de que não mataram somente alguém, mas o mundo inteiro que orbitava ao redor de tal indivíduo. A arte existe para despertar o nosso humanismo e, por preguiça e medo dos artistas atuais com o seu receio de se “contaminarem” com o belo, está cada vez mais superficial, cada vez mais indiferente. Cada vez menos humana.

 

Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2016/03/beleza-como-forma-de-contagio/

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (12/01/2016): “Os leitores assassinos”

No meu retorno à coluna da Dublinense em 2016, escrevi sobre uma modalidade de leitores que me fascinam: os assassinos. Aqueles que, talvez sem querer, acabam matando a obra ou um personagem ou até mesmo as aspirações e vontades do seu autor. Bom, alguns até podem matar os autores, mas aí seria assunto para outro texto.

A qualidade de um escritor decorre – e muito – do nível dos seus leitores. Neste sentido, não posso reclamar. Conforme menciono no texto, nos últimos tempos tenho recebido vários retornos dos leitores, com comentários, sugestões e dúvidas, e todos são muito apreciados. Aprendo muito com meus leitores, e mesmo os assassinos me ensinam bastante.

Boa leitura!

 

Os leitores assassinos

Nos últimos tempos, por um destes motivos sazonais que não possuem uma explicação lógica, tenho recebido muitas mensagens de leitores e leitoras. São todas semelhantes: um breve itinerário de como chegaram até “O homem despedaçado”, um relato de que leram meu livro (boa parte está na segunda ou terceira leitura) e, em seguida, alguma reflexão sobre os contos, ou dúvida, ou epifania que tiveram. Boa parte delas mostra certo constrangimento, como se estivessem falando o óbvio ou com receio de me incomodar. Muito pelo contrário – as mensagens são lidas com atenção. Contudo, minhas respostas são insuficientes: também sou meu leitor, e tenho tantas dúvidas quanto as que me apresentam. É ilusão pensar que o autor sabe tudo sobre o seu livro; a obra é sempre menos decepcionante do que o homem.

Em geral, os leitores são criaturas muito afáveis. Gostam dos personagens, identificam-se com as narrativas, mandam palavras de estímulo e até mesmo as suas críticas e dúvidas mostram as eventuais fraquezas de uma história. Aprendo muito com os leitores. Também é verdade que uma parcela deles me assusta um pouco, em especial os que levam tudo ao pé da letra ou que consideram seus erros de caráter legitimados pelas minhas narrativas.

No entanto, existe uma modalidade de leitor que, assim como Moriarty, desliza por entre os textos ficcionais, buscando brechas por onde possa enfiar sorrateiras facas, seus passos sempre pressentidos nas sombras dos parágrafos, seu olhar frio escondendo-se atrás dos números de capítulos. São os leitores assassinos, aqueles que, talvez sem saber, leem um livro com a intenção de matá-lo.

faca no livro

A invisibilidade destes leitores dificulta muito na compreensão dos seus métodos, mas, assim como os astrônomos, não precisamos ver um buraco negro para saber que ele existe, basta analisar o comportamento do espaço ao seu redor. Ainda não fui capaz de catalogar todos os tipos. O leitor assassino é melífluo e inconstante; adapta a sua tática às particularidades da vítima. É como o assassino perfeito descrito por Agatha Christie na última aventura de Hercule Poirot, “Cai o pano”: o assassino perfeito não é aquele que mata, mas que convence sutilmente outros a matarem em seu nome.

Uma das suas táticas é fazer com que a originalidade de uma trama seja falsa, pois o livro seria a versão ficcional de algo que realmente aconteceu. Após o livro, o leitor espalha a notícia de que é a versão não-autorizada de um episódio da sua vida e, com tal atitude, transforma a obra em um pastiche malfeito da realidade. Acontece com todos os escritores: leitores que se aproximam e dizem que a trama descrita na ficção tinha acontecido consigo, mas os nomes estariam trocados. Contudo, é mais provável que o autor tenha escutado dezenas de casos semelhantes para formar a sua narrativa, não somente uma história repleta de imperfeições.

Existe o estranho conceito de que escritores escrevem para se vingar de determinadas pessoas ou para revisar situações do passado, o que transformaria toda a História da Literatura na mera extravasação de um bando de recalcados. É possível que alguém faça isto, mas a raiva e a vingança nunca são bons conselheiros. Vejo muitos memes ou frases espirituosas no estilo de “cuidado! Se você não se comportar com um escritor(a), ele(a) poderá colocá-lo(a) em uma obra e matá-lo(a).” Não sei fazer isto, e não conheço nenhum escritor que faça. Afinal, existem pessoas bem mais interessantes para “matar” ficcionalmente do que a garçonete que me trouxe um café frio. Não somos assim tão irascíveis ou volúveis.

Gustave Flaubert foi sistematicamente atacado por este tipo de leitor assassino, como demonstra a sua correspondência, parcialmente juntada em “Cartas Exemplares”. Até terminar “Madame Bovary”, a luta do escritor francês era com o seu estilo e com a sua própria criação, tentando deixá-la o mais próxima da realidade. Foram inúmeras cartas com dúvidas estilísticas ou contando as vicissitudes da revisão forte de descrições. Após o lançamento do livro, contudo, as cartas de Flaubert tornaram-se polidas respostas para um sem-número de homens e mulheres que se enxergavam na narrativa de “Madame Bovary”, todas dizendo que não, o autor não tinha se espelhado em nenhuma história real para construir o seu livro. Algumas pessoas poderiam elogiar a aparência de verdade, capaz de fazer uma obra ficcional ficar tão vívida que é indistinguível da ficção. Entretanto, é injusto que um homem se tranque durante muitos meses em uma casa de campo para escrever o livro sonhado, tendo sofrimento inclusive físico para cumprir tal tarefa, e, ao final, tal esforço seja considerado como a narrativa desajustada de uma história que teria realmente acontecido.

Outra modalidade de leitor assassino foi identificada por José Castello: aquele que, por sua pressa, preguiça e desatenção, não lê com cautela um livro e, em seguida, fala mal por causa de algum detalhe que lhe desagradou. Está descrito em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, no capítulo “O senão do livro”, em que o escritor fala diretamente com o leitor: “O maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…”

Vivemos em um tempo em que a quantidade é mais importante do que a qualidade, e isto se espelha na leitura. Os leitores trocam impressões sobre velocidade da leitura ou número de páginas lidas e, com tal objetivo, é esperado que prefiram narrativas mais curtas, quase espasmódicas, com poucos personagens, construções gramaticais nada elaboradas, muitos e frenéticos diálogos. Uma leitura que não demande muita dedicação, mas que possa ser incluída como um vistoso troféu em uma sala de caçadores: os livros que li neste ano, neste mês, nesta semana.

O leitor assassino, agindo nas trevas, considera “chato” ou “sonolento” todo livro que não seja escrito de forma quase minimalista. Elevou a “linguagem cinematográfica” ao status de arte narrativa, quando nem tudo aquilo que funciona bem no cinema ou na televisão é adequado para a literatura. Assume, como crimes imperdoáveis, as digressões, os pensamentos, a interferência do autor, o deus ex-machina. Exige uma linguagem asséptica, sem ousadias. Recusa-se a ver as ironias ou não as compreende, preferindo as piadas mais evidentes. Não possui cultura o suficiente para entender os prismas que se escondem nos livros, mas se considera bom o suficiente para emitir julgamentos com base nas suas opiniões ainda pobres e em uma visão de mundo titubeante. Este tipo de leitor assassino é capaz de destruir um livro antes de entendê-lo e, em alguns casos, antes mesmo de lê-lo.

Também existem leitores que se especializaram na arte do assassinato de personagens. Um perigo em conversar com os leitores é dar razão para as suas críticas e ver o óbvio que se escondia dos olhares do próprio criador. Aconteceu com vários escritores, mas Anthony Trollope, autor inglês de muitas obras de ficção histórica e incompreensivelmente não traduzido no Brasil, tem a melhor descrição do momento em que tal tipo de leitor assassino o atacou:

“Eu estava sentado certa manhã trabalhando [em The Last Chronicle of Barset] no fim do comprido escritório do Atheneum Club – como eu costumava fazer na época quando havia dormido a noite anterior em Londres. Enquanto eu estava ali, dois clérigos, cada qual com uma revista na mão, sentados, um de um lado da lareira e o outro do outro lado, perto de mim. Logo começaram a criticar o que estavam lendo, e cada um lia uma parte de algum romance meu. O ponto fundamental da reclamação deles estava no fato de que eu reintroduzia os mesmos personagens com muita frequência! ‘Aqui’, disse um deles, ‘está aquele arquidiácono que aparece em todos os romances que ele já escreveu.’ ‘E aqui’, disse o outro, ‘está o velho duque sobre o qual ele falou até todo mundo se cansar dele. Se eu não pudesse inventar novos personagens, não escreveria romances.’ Então um deles se aborreceu com a sra. Proudie. Era impossível para mim não ouvir as palavras deles, e quase impossível ouvi-las e ficar em silêncio. Levantei-me e, ficando em pé entre os dois, identifiquei-me como o culpado. ‘Quanto à sra. Proudie’, eu disse, ‘irei para casa e matá-la-ei antes do final da semana. E assim o fiz.”

Anthony Trollope

Anthony Trollope

Sobre este fato, Edith Wharton conta a história vivida por Trollope (mencionando que os dois clérigos eram “dois idiotas quaisquer do clube”) e manifesta seu espanto ao perceber que a descrição da morte da sra. Proudie, “provocada de modo tão arbitrário”, é uma das maiores páginas já escritas por ele. Assim, os leitores assassinos tinham razão ao provocar Trollope, ainda que de forma involuntária. Não foram poucos os autores que mudaram todo o rumo das suas narrativas ou o destino dos seus personagens por causa da opinião ácida de um leitor. Aconteceu comigo, no terceiro livro que escrevi, quando tinha 15 anos. Mostrei para dois amigos e ambos foram unânimes: o personagem principal era um chato. Se eu o removesse, a trama ficaria bem melhor. Diante da minha incapacidade de realizar tal ato, o livro pertence hoje às minhas gavetas e, cada vez que o releio, ele continua não parecendo tão ruim quanto a opinião dos leitores assassinos deixou entrever. Mas, eu posso estar enganado e, como não tenho a coragem de Trollope de cortar um personagem importante, prefiro não mexer no original.

Como afirmei antes, é impossível descrever todas as táticas usadas pelos leitores assassinos. Eles costumam aparecer quando menos esperamos, e nem sempre são serial killers, pois assassinam um que outro livro, um que outro personagem. Ao contrário do que possa parecer, leitores assassinos são um mal necessário. É graças a eles que a literatura se desenvolve e cresce, que escritores aprendem a não subestimar a atenção do seu público e que personagens inconvenientes são removidos das tramas.

Mesmo que existam tantos leitores dispostos a assassinar uma história, o ideal de qualquer escritor é encontrar aqueles descritos por Italo Calvino em “Se um viajante numa noite de inverno”: exigentes, sim, mas que “gostariam que um escritor fizesse livros do mesmo jeito que uma macieira faz maçãs”. Leitores que sentassem à sombra das histórias para degustar a imitação de vida nela presente, não pensando na árvore que lhe deu origem, mas no gosto único, irrecuperável, que cada maçã possui. Sem pensar em cortar a macieira assim que terminarem de comer o seu fruto.

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/os-leitores-assassinos-2f100d7a0e53#.rt30j2qq7

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