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Miguel Ángel Astúrias e a América Latina em carne e seiva

Ontem completamos 43 anos sem Miguel Ángel Asturias, um dos escritores que melhor soube cantar as belezas da América Latina. Fiz uma postagem no Facebook comentando o fato, e várias pessoas pediram-me para falar um pouco mais sobre esse escritor guatemalteco, então resolvi escrever algo um pouco mais dilatado aqui no blog.

Miguel Ángel Astúrias

Nós, brasileiros, conhecemos pouco sobre a obra de Ángel Astúrias. Não farei uma tabulação e nem elencarei estatísticas, mas basta observar o mundo literário local, mais preocupado com autores que vêm da Europa e dos Estados Unidos do que com a vasta literatura produzida no nosso próprio quintal. É sintomático que tantas pessoas louvem escritores que possuem uma literatura de viés mais europeu (haja vista as dezenas de palestras e homenagens a Cortázar e a Borges), deixando quase esquecido um autor que sabia escrever ao mesmo tempo em que se maravilhava pela beleza, pelas cores e pelos sabores que só existem no nosso continente.

Há alguns anos li “Homens de milho”. Era um livro muito carnal, na falta de uma palavra melhor: substancioso, forte, cheio de vida a brotar das letras. Lembro o impacto que Ángel Asturias me causou e, ao lado de Alejo Carpentier, na minha opinião são o melhor que a América Latina já produziu. Pena que quase não seja traduzido, e que boa parte das pessoas ignore não só a sua obra, mas o fato dele ter inclusive ganhado um Nobel de Literatura. 

Miguel Ángel Astúrias escreveu romances, poesias, ensaios e até se aventurou pelo teatro. Na sua obra poética, foi um adepto fervoroso do soneto, uma das mais nobres formas de escrever poesia (o que me faz lembrar de uma história contada por Affonso Romano de Sant’Anna: Manuel Bandeira, quando queria saber se a obra de algum poeta novato tinha vigor literário, pedia dois poemas de amostra, um em versos livres e o outro um soneto. Segundo ele, poeta que não sabe escrever soneto também não seria capaz de dominar a arte poética). Entre os poemas de Ángel Astúrias, gosto muito desse:

La luz corre desnuda por el río 

La luz corre desnuda por el río
huyendo sin cesar en lo movible
de la profundidad, del hondo frío
en que empieza la sombra y lo invisible.
La conoció al nacer, era rocío,
no este vano correr tras lo imposible,
imagen del humano desafío
a la divinidad. Sueño apacible
que endulza los saleros de los ojos,
mesa frugal y paz es lo que anhela
navegante, soldado y rey de antojos;
pero ¡ay! del ¡ay! del alma, no se alcanza
a volver con los remos y la vela
al puerto en que dejamos la esperanza.

Um soneto repleto de imagens poéticas fortes. Pega a metáfora do rio e a transforma em vida e depois de novo em rio com tanta naturalidade que nem parece estar conduzindo o leitor por essas águas plácidas.

A fama de Miguel Ángel Astúrias deve-se a um outro romance, “El Señor President”. O personagem nunca nominado é um retrato de tantos tiranos que conhecemos, capaz de se encaixar em qualquer cultura e espaço. Foi graças a esse romance que o guatemalteco ganhou o Nobel de Literatura, e leiam a beleza que foi o final do discurso de aceitação do prêmio (tradução minha):

“Andaimes. Escadas. Novos vocabulários. A recitação primitiva dos textos. Os rapsodistas. E, mais tarde, mais uma vez, a trajetória quebrada. A nova língua. Grandes cadeias de palavras. Pensamento descontrolado. Até chegar, mais uma vez, após as mais sangrentas batalhas lexicais, às próprias expressões. Não há regras – elas são inventadas. Depois de muita invenção, os gramáticos vêm então com suas tesouras de corte de linguagem. A América Hispânica está bem comigo, mas sem a aspereza. Gramática torna-se uma obsessão. O risco de anti-gramática. É aí que estamos agora. A busca de palavras dinâmicas. Outra magia. O poeta e o escritor da palavra ativa. Vida. Suas variações. Nada pré-fabricado. Tudo em ebulição. Não para escrever literatura. Não substitua palavras por coisas. Para procurar coisas de palavras, seres de palavras. E procure os problemas do homem, além disso. A evasão é impossível. Homem. Seus problemas. Um continente que fala, e que foi ouvido por esta Academia. Não nos peçam genealogias, escolas, tratados. Nós trazemos as probabilidades de uma palavra. Verifique-as. Elas são singulares. Singular é o movimento, o diálogo, a intriga novelística. E, o mais singular de tudo, ao longo dos tempos, nunca houve interrupção nessa criação constante.”

Toda uma teoria de construção da literatura da América Latina contida em um único discurso. A troca de histórias entre colonizados e colonizadores servindo para cimentar relações, não para desconstruir; a literatura usada como um aceno de paz, de mútua concordância e, mais do que tudo, de perdão. Ángel Astúrias levou adiante as reflexões de Ángel Rama e de Ana Pizarro, mas indo pelo viés literário, buscando uma integração pacífica por meio da literatura.

Eu lembro muito de um poema dele, “Guatemala”, que toda vez que leio dá vontade de correr para uma agência de turismo e zarpar para a Guatemala (acreditem, sou uma pessoa muito controlada). Creio que é um dos poucos casos de poema fundacional que existe, ao lado da Ilíada, mas daí é injustiça comparar – prefiro defender essa comparação falando em alguma mesa, quando não corro o risco de ser esquartejado pelas minhas palavras escritas (“verba volant, scripta manent”, blablabla).

Guatemala

Guatemala 

(Cantata)
¡Patria de las perfectas luces, tuya
la ingenua, agraria y melodiosa fiesta,
campos que cubren hoy brazos de cruces!
¡Patria de los perfectos lagos, altos
espejos que tu mano acerca al cielo
para que vea Dios tantos estragos!
¡Patria de los perfectos montes, cauda
de verdes curvas imantando auroras,
hoy por cárcel te dan tus horizontes!
¡Patria de los perfectos días, horas
de pájaros, de flores, de silencio
que ahora, ¡oh dolor!, son agonías!
¡Patria de los perfectos cielos, dueña
de tardes de oro y noches de luceros,
alba y poniente que hoy visten tus duelos!
¡Patria de los perfectos valles, tienden
de volcán a volcán verdes hamacas
que escuchan hoy llorar casas y calles!
¡Patria de los perfectos frutos, pulpa
de paraíso en cáscara de luces,
agridulces ahora por tus lutos!
¡Patria del armadillo y la luciérnaga
del pavoazul y el pájaro esmeralda,
por la que llora sin cesar el grillo!
¡Patria del monaguillo de los monos,
el atelcolilargo, los venados,
los tapires, el pájaro amarillo
y los cenzontles reales, fuego en plumas
del colibrí ligero, juego en voces
de la protesta de tus animales!
Loros de verde que a tu oído gritan
no ser del oro verde que ambicionan
los que la libertad, Patria, te quitan.
Guacamayas que son tu plusvalía
por el plumaje de oro, cielo y sangre,
proclamándote va su gritería…
¡Patria de las perfectas aves, libre
vive el quetzal y encarcelado muere,
la vida es libertad, Patria, lo sabes!
¡Patria de los perfectos mares, tuyos
de tu profundidad y ricas costas,
más salóbregos hoy por tus pesares!
¡Patria de las perfectas mieses, antes
que tuyas, júbilo del pueblo, gente
con la que ahora en el pesar te creces!
¡Patria de los perfectos goces, hechos
de sonido, color, sabor, aroma,
que ahora para quién no son atroces!
¡Patria de las perfectas mieles, llanto
salado hoy, llanto en copa de amargura,
no la apartes de mí, no me consueles!
¡Patria de las perfectas siembras, calzan
con hambre de maíz sus pies desnudos,
los que huyen hoy, tus machos y tus hembras!

Não podia concluir o texto sem voltar a esse tema que fascinou tantos escritores, desde Homero até Joyce e Borges: a volta para casa de Ulisses, que, na versão de Miguel Ángel Astúrias, foi o homem cujo corpo voltou para casa, mas o espírito continua vagando, incontrolável, pelos mares da memória. Essa imagem também é uma perfeita alegoria para a América Latina, um continente que hesita entre olhar para o futuro e cicatrizar as feridas do passado:

Ulises

Intimo amigo del ensueño, Ulises
volvía a su destino de neblina,
un como regresar de otros países
a su país. Por ser de sal marina.

Su corazón surcó la mar meñique
y el gran mar del olvido por afán,
0calafateando amores en el dique
de la sed que traía. Sed, imán.

Aguja de marear entre quimeras
y Sirenas, la ruta presentida
por la carne y el alma ya extranjeras.

Su esposa lo esperaba y son felices
en la leyenda, pero no en la vida,
porque volvió sin regresar Ulises

três Prêmios Nobel de Literatura levando um papo: Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Miguel Ángel Asturias

 

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Livro: “As crônicas de gelo e fogo – Vol. 01: A guerra dos tronos”, de George R.R. Martin

Depois de tanto ouvir comentários elogiosos sobre a série “Crônicas de gelo e fogo”, escrita por George R.R. Martin, resolvi começar a ler este portento (nem me atrevo a calcular o número total de páginas para não desanimar) pelo volume 01, intitulado “A guerra dos tronos”.

Destaco que, além dos comentários elogiosos que ouvi vindo de pessoas acima de qualquer suspeita literária, também chamou a minha atenção a quantidade enorme de pessoas que vi carregando o livro pelas ruas ou lendo-o nos ônibus. Para fazer tanta gente ler um livro de vistosas 617 páginas, no mínimo eu devia esperar uma obra instigante.

Após o término da leitura, a minha sensação é de que todas estas pessoas me enganaram. Só posso ter sido vítima de alguma complexa trama internacional que pretendeu incutir a leitura deste livro na minha cabeça, trama esta que inclui dezenas de anônimos postados pelas ruas com exemplares do livro e chegou até a produção de uma série de TV pela HBO (a qual eu não vi).

Não percebi nada de especial no livro. É um romance estilo old school, enorme, caudaloso, repleto de personagens e subtramas a serem exploradas, mas somente isto. Balzac e Proust fizeram “romanções” deste tipo com muito mais qualidade e vivacidade. Cortázar fala que, se a literatura fosse uma luta de boxe, um conto ganha por nocaute e um romance ganha por pontos. No caso de “A guerra dos tronos”, a luta deve começar no ringue e prosseguir por toda a cidade com dois lutadores se estapeando e soqueando até muito depois dos limites da exaustão.

Contudo, a melhor definição foi firmada pela minha esposa, que disse que “As crônicas de gelo e fogo” constituem em um novo ramo literário, chamado “literatura obesa”. A história é realmente gordurosa, fibrosa, preenchendo os sentidos com muitas informações e pouco conteúdo, quase como um sanduíche do McDonald’s. Muito interessante esta definição, que mostra a obesidade se espalhando por todos os ramos sociais, incluindo as artes. Vou desenvolver mais este assunto no futuro.

Em alguns momentos, o livro ficou irritantemente mal-escrito, com um abuso impressionante de clichês, deuses ex-machina, descrições genéricas e a sensação de que o autor comprou um prato de espaguete e está espichando cada fiozinho para alimentar centenas de pessoas. Na minha opinião, quase todos os personagens são planos e óbvios (a menina revoltada, a orfã abusada, o princípe malvado, a rainha conspiradora, o rei bonachão, o nobre de consciência limpa), transformando o elenco que surge no livro em uma sucessão de arquétipos literários/cinematográficos. Os próprios conflitos surgidos no livro demandam soluções simplórias. Como a HBO deve ter constatado, este é o legítimo caso de livro que pode virar um filme melhor ainda se for condensado em algumas cenas.

Entretanto, continuo destacando a quantidade de pessoas que elogiaram o livro nas redes sociais, pessoas que eu considero excelentes leitores. Pensando melhor, grande parte dos elogios deve ter surgido do fato de que a HBO iniciou uma série tratando deste livro. Contudo, pensar assim é praticamente dizer que, se uma rede de televisão selecionou um livro para ser filmado, ele atingiu o Olimpo da Literatura. O fato que passa pela minha cabeça é uma sensação de “colonialismo literário”. Suspeito que estas pessoas que elogiaram o livro viram seus congêneres americanos elogiando e simplesmente transplantaram os elogios para o Brasil, gerando uma série de leitores interessados por um material que, acaso tivesse sido lançado aqui, estaria condenado aos fundos das prateleiras dos sebos. Vale a pena refletir sobre esta dúvida: o quanto ainda não somos dependentes da “metrópole”. Este percurso foi feito pelo Silviano Santiago, pelo Roberto Schwarz e por tantos outros, mas a discussão continua atual.

Mas nem tudo é desgraça. Se eu pudesse salientar alguma coisa no livro, destacaria que, em uma trama tão caudalosa e que atira para tantos lados, é impossível não se identificar com a história de parte das dezenas de personagens e desejar ver o que vai acontecer com eles. Eu me interessei pelo destino de alguns, em especial vilões. Minha mulher – que leu toda a série até o momento e está cheia de spoilers – disse que é melhor eu nem me interessar muito, pois a mortandade de personagens é grande. Talvez o mais surpreendente seja o anão, responsável pelas grandes tiradas cômicas do livro em razão da sua perspicácia, mas me deixa um pouco desconfortável o clichê de “personagem deficiente que troça da própria deficiência e utiliza a inteligência como maior arma”.

Também é importante deixar claro que, em um livro desta magnitude, talvez a proposta seja realmente ler, ler, ler, e se perder nas intrincadas curvas e labirintos da história. Talvez o grande objetivo do George R.R. Martin seja um romance que fale sobre TUDO, ao contrário do sonho de Flaubert, que era realizar um romance sobre nada. Também existe a possibilidade de todas as pessoas serem grandes clichês ambulantes e que todas as histórias já foram escritas, cabendo ao seres humanos realizar um grande revival de dramas requentados… pode ser.

Reconheço o mérito existente em uma história sem grandes pretensões além do desejo de pegar um novelo de tramas e deslindá-las devagar, ao longo de nove volumes. Entretanto, sei que é um livro que lerei desta vez e não terei grande interesse em retornar a lê-lo, ao mesmo tempo que sinto que lembrarei genericamente das tramas e dos personagens. Ao contrário do que imaginava, esta perspectiva não me entristece, pois sei que é um livro para ser consumido e que pouco acrescentará para a mninha biblioteca interna – além de gordura literária. Qualquer tipo de leitura vale a pena – até a insípida.

Um último detalhe. Chama a atenção que, apesar de ter visto um sem-número de pessoas comentando e lendo o livro um da série, não vi ninguém comentando ou lendo o volume 2 e os subsequentes. Duas possibilidades: ou a overdose de leitura do volume um exauriu os leitores ou o financiamento invisível das hordas que me convenceram a ler “A Guerra dos Tronos” acabou.

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