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A literatura como um farol

A produção do Fronteiras do Pensamento 2017 pediu para que eu escrevesse um ensaio sobre a obra do escritor cubano Leonardo Padura. Mas, como nada na vida é simples, pediram para que tentasse conectar o texto ao tema do Fronteiras desse ano, que, em uma síntese, seria “Num mundo onde as divisas são sutis e o impacto das culturas é real, o pensamento nos aproxima na tarefa de resgatar e fortalecer valores. O que nos define como civilização? Buscar o que nos conecta, o que nos concretiza como ‘nós’, é um dos grandes desafios atuais.”  Disseram que, se eu não conseguisse, tudo bem – algo que, claro, é a senha para eu tentar até o último suspiro literário. There’s no mountain high enough.

O resultado foi esse texto, “A literatura como um farol”. Escrevi no início do ano, mas tenho lembrado dele cada vez com mais frequência, em especial nos dias que estamos vivendo. Quando estivermos em dúvida sobre algo, ou nos sentindo desesperados e sozinhos demais, é necessário buscar tranquilidade na Arte, que serve como porto seguro para nossas agruras. A beleza e o horror estão criptografados na Arte, assim como nossos dilemas éticos e questões existenciais. Está tudo ali, em silêncio, à espera de ser decifrado por quem realmente se interessa em descobrir respostas que vão além do imediatismo.

Os que tiverem interesse no libreto completo do Fronteiras do Pensamento 2017, está aqui o link: http://www.fronteiras.com/produtos-culturais/produto/libreto-leonardo-padura 

Na segunda feira próxima, assistirei a palestra do Padura.

Boa leitura.

 

A literatura como um farol

“O farol de Bell Rock”, 1819, William Turner

Vamos pensar em um farol. Sozinho, ele luta contra a inexorabilidade furiosa das ondas que se arremessam, tentando arrastá-lo para o seu coração molhado no fundo do oceano, onde moram os fantasmas dos náufragos. Ainda assim, ele resiste ao cerco raivoso, a luz servindo de guia para as embarcações em meio ao escuro e às tempestades. Um farol sinaliza não somente o perigo de rochedos, mas o sonho de uma terra segura em que possamos descansar das agruras do mundo.

Em um livro lançado em Portugal no ano de 1968 e com coordenação de Urbano Tavares Rodrigues, perguntaram para seis escritores franceses, “Que pode a literatura?”, que se tornou seu título. Entre os escolhidos para responder essa singela – e traiçoeira – pergunta, estavam Jean-Paul Sartre, Yves Berger, Jean Ricardou e Simone de Beauvoir. O mundo atravessava momentos conturbados, em que valores eram rediscutidos à medida que os estudantes espalhavam-se pelas ruas da França lutando pelo direito de mudarem aquilo que julgavam errado. Era um período de crise e, como Urbano Tavares Rodrigues anuncia na introdução, é importante determinar se, nesse contexto problemático, estando sob ataque da crítica e da ciência, a literatura ainda teria, nos dias de então, um poder real e efetivo e, se acaso existisse esse poder, “a forma que ele se reveste, se se traduz em negação, contestação, transformação ou manifestação de impotência”. Uma dúvida que, sem muitas alterações, poderíamos aplicar nos dias atuais: a literatura é capaz de mudar o mundo e se, acaso sim, poderia salvá-lo, destruí-lo ou somente manifestar a sua impotência diante dos dilemas humanos?

Entre as respostas, a mais perturbadora e otimista foi a de Simone de Beauvoir. Após interrogar-se se a literatura ainda fazia sentido em um mundo no qual a informação possuía fácil acesso, em que o livro de um sociólogo sobre as favelas que cercam a Cidade do México era analisado de forma idêntica às descrições feitas por Balzac em “A Comédia Humana” – e estávamos antes do advento da internet, quando a informação não só se tornaria abundante como veloz -, a escritora francesa diz que, sim, a literatura fazia sentido, pois não se arvora na condição de ser verdadeira, mas pretende ser uma forma alternativa de se posicionar diante da realidade: “É este o milagre da literatura, o que a distingue da informação: é uma outra verdade que se torna minha sem deixar de ser outra. Abdico do meu ‘eu’ em favor de quem fala e, no entanto, continuo a ser eu própria. (…). A obra literária existe, na minha opinião, sempre que o escritor é capaz de manifestar e de impor uma verdade: a da sua relação com o mundo, a do meu mundo. Mas é preciso levar em conta o significado destas palavras: ter qualquer coisa para dizer não é mesmo que ter um objeto que se leve na mala e se ponha em cima da mesa, procurando descrevê-lo em seguida por palavras.”

Semelhante ao acontecido na década de 60, atravessamos outro período de turbulência. Os valores que imaginávamos intocados, como as noções de democracia e de liberdade civil, estão sob constante readequação. As fronteiras se diluíram; assoberbados pela fome e pela guerra, os povos se deslocam sem respeitar limites físicos, tornando inevitável o choque entre diferentes culturas. As instituições são questionadas, e tudo o que nos deixava seguros hoje paira sobre o clima da incerteza. Assim, torna-se imperativo retomarmos a pergunta: o que pode a literatura para manter esse equilíbrio precário que coloca em dúvida o próprio conceito de civilização?

Oportuno retornarmos à imagem do farol, mas pelo ângulo contrário. Imagine-se sobre o convés de uma embarcação, atacado pelos antigos deuses das águas, que esboroam as madeiras, ansiosos para saborear o seu último hálito. Imagine o vento fustigando a sua cara com centenas de cortes gelados, o rugido de um mundo que se contorce ao redor, o descontrole de vagar pela noite infinita onde as nuvens se unem às águas com o propósito de lhe engolir vivo. Estremecido de medo, você enxerga a luz solitária sobre a água, um bruxuleio tímido que aos poucos se firma no horizonte e lhe diz: calma, tudo vai acabar bem. Aproxime-se com cautela e, em breve, o pesadelo será passado. Toda a lógica indica que aquela luz é um farol, mas, para quem está dentro do barco enfrentando a tempestade, ela se chama Esperança.

Em tempos de crise moral e ética, é na Arte que devemos buscar aquilo que perdemos. É nela que encontramos o Humano, não a criatura multifacetada e repleta de agonia imposta pela pós-modernidade, mas o ser solitário que tenta chegar à sua essência para entender o mundo que lhe cerca. A Arte é o farol que nos conduz no silêncio da existência. É ela que tem a capacidade de fornecer a resposta para aquilo que sequer conseguimos transformar em pergunta.

Entre as artes, a Literatura ocupa um papel de relevo ao mostrar caminhos diferentes dentro da realidade, trazendo novas reflexões para dentro da vida singular que cada um ocupa. A melhor maneira de entendermos o outro é tentando enxergar o mundo através do seu ponto de vista. A Literatura é o exercício de alteridade por excelência, pois, quando lemos um livro, por um intervalo de tempo delirante, deixamos de sermos nós mesmos e nos transformamos em Gregor Samsa, em Aquiles, em Jane Eyre, em um axolote. Quanto mais lemos, maior a capacidade de entendermos os dilemas do outro e, quanto maior a compreensão, maior a tolerância e o respeito a quem nos é diferente.

É o caso do escritor cubano Leonardo Padura. A sua obra constitui um microcosmo dos séculos XX e XXI; o leitor que se debruçar sobre os seus romances, aprenderá mais sobre política, economia, sociologia e relações humanas do que qualquer busca no Google. Terá a vantagem de caminhar por uma Cuba mais real do que aquela que conhecemos: um cenário quente, de desilusões prolongadas, de desencanto e de alegrias que insistem em se esconder nos cantos das esquinas. Conhecerá um povo que sorri apesar das agruras, que sobrevive com dignidade e que possui dramas não muito distantes dos que atormentam pessoas em outros lugares do mundo. Ao contrário do que se pensa, o acesso amplo à informação é inútil se não acompanhado do toque humano de saber articular tais dados na forma de um pensamento coerente. Quando Simone de Beauvoir expressou o seu receio que o excesso de informação tornasse a literatura obsoleta, antecipou algo que Leonardo Padura demonstra nos seus romances: as informações e a pesquisa detalhada dos assuntos só possuem algum sentido quando são depuradas pelo olhar aguçado de um homem sobre o seu tempo.

Para descrever a sociedade em que vive, e fazer com que a sua obra tenha um alcance universal, Leonardo Padura escreve romances policiais, tidos por muitos como uma espécie de subgênero literário (por mais questionado que seja esse conceito). Autor da série de novelas policiais “Estações Havana”, formada por quatro livros (“Passado perfeito”, “Ventos de Quaresma”, “Máscaras” e “Paisagens de Outono”), o autor cubano criou o detetive Mario Conde, um policial atormentado por questões pessoais e que resolve crimes enquanto Cuba vive as primeiras crises do final do socialismo castrista. É um tempo de mudanças sociais e políticas e, em meio a essas incertezas que afetam o cotidiano de milhares de pessoas, Mario Conde atravessa as ruas de Havana em busca de respostas para os crimes, precisando lidar com os mais variados e ricos personagens, que dissimulam, mentem e, às vezes, até falam a verdade.

Dificilmente existe gênero literário que melhor represente a literatura como forma artística do que o romance policial. Reduzido aos seus elementos mais básicos, ele é a caçada de um criminoso realizada por outra pessoa que dispõe a mais perigosa das armas: a criatividade de unir pontos díspares em uma rede lógica de causa e efeito. Seres humanos criativos são algo a ser temido em qualquer tempo e lugar, e o romance policial faz com que os seus leitores tracem ligações e imaginem cenários que expandem as possibilidades da criatividade ao infinito.

Em um ensaio sobre o conto policial, Jorge Luis Borges, após afirmar que a literatura é algo que tende ao caótico, acaba encontrando organização dentro da história policial, “que está salvando a ordem em uma época de desordem.” Poucas sensações são mais tranquilizadoras do que juntar pistas ao lado de um detetive ficcional e trazer algum conforto e segurança ao mundo. Chesterton afirmou que o verdadeiro inimigo da história policial é o escritor, que esconde pistas com o desejo de que elas sejam encontradas. Nesse caso, Leonardo Padura é o melhor adversário que um leitor pode encontrar, pois, além de tentar encontrar sentido para uma Cuba que espelha as perplexidades de todo um século, constrói o caos de um crime dentro de um caos social maior, e faz com que o leitor se torne cúmplice na tarefa de juntar os pedaços de um mundo semi-destruído com o objetivo de dar alguma ordem que, se não for a ideal, ao menos seja satisfatória.

Retomando a pergunta motivadora desse texto, o que pode a literatura? Talvez a resposta seja outra questão: o que a literatura não pode fazer nos tempos em que vivemos? Existiria assunto tão insondável que não possa ser trazido para dentro da arena ficcional a fim de ser analisado sob todos os prismas possíveis? Com o passar do tempo, criou-se a ilusão de que surgirá alguém capaz de nos salvar, um ente iluminado que, com inteligência, guiará a nossa embarcação para longe da crise, mas, parafraseando Brecht, pobre da nação que precisa de heróis! O melhor é buscar o conforto da literatura para achar as respostas tão ansiadas, confiantes de que, como um farol em meio ao mar bravio, ela será capaz de nos conduzir quando nos sentirmos perdidos e sozinhos. Nesse cenário, a obra de Leonardo Padura continuará dialogando com os dilemas da nossa época, mostrando para o leitor que uma das grandes funções da literatura, afinal de contas, é mostrar quem realmente somos.

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Os que não cheiram a medo

Sempre que me falam de arte ou de literatura contemporânea, eu digo que não me considero contemporâneo, pois não tenho “cheiro de medo”. Quase todos me olham com incompreensão. Melhor dizendo: todos me olham com incompreensão. Na realidade, estou brincando com uma pequena história contada pelo Juan Gelman e relatada pelo Eduardo Galeano em “O livro dos abraços”:

“A arte e o tempo
Quem são os meus contemporâneos? — pergunta-se Juan Gelman. Juan diz que às vezes encontra homens que têm cheiro de medo, em Buenos Aires, em Paris ou em qualquer lugar, e sente que estes homens não são seus contemporâneos. Mas existe um chinês que há milhares de anos escreveu um poema, sobre um pastor de cabras que está longe, muito longe da mulher amada e mesmo assim pode escutar, no meio da noite, no meio da neve, o rumor do pente em seus cabelos; e lendo esse poema remoto, Juan comprova que sim, que eles sim, que esse poeta, esse pastor e essa mulher, esses são seus contemporâneos.”

Irrito-me com o “cheiro de medo” que sinto sair dos livros, das pinturas, das fotos, do politicamente correto. Irrito-me também com o escândalo fácil, com a polêmica estéril, com a vacuidade mental. Alguns anos atrás, assistindo ao ensaio de uma peça de teatro, depois da vigésima vez  que a atriz principal sugeriu tirar a própria roupa para “escandalizar a plateia”, eu propus que, ao invés de tirar, ela acrescentasse roupas – isso sim seria revolucionário. Não faz muito, ao comentar o texto de um autor contemporâneo, afirmei ter sentido o fedor do medo na hora em que ele hesitou antes que o seu personagem principal abusasse da filha (era a solução lógica, e colocar um Deus ex-machina para policiar a narrativa foi uma solução covarde). Esses daí não são meus contemporâneos.

Em compensação, às vezes encontro contemporâneos que viveram em outras épocas, e com eles sinto não somente respeito, mas também identificação. Não nas suas temáticas, e sim no espírito de se arrojarem sem medo contra as fileiras do correto, do óbvio, do clichê, do pensamento amedrontado.

Nos últimos tempos, é absoluto o meu fascínio por Octave Tassaert (1800-1874). Assim como no poema de Fernando Pessoa, ele foi aquele que perdeu todas as lutas em que entrou. A começar, na sua carreira de pintor. Mesmo com um trabalho consistente e sério, os temas sociais ou eróticos que escolhia para as suas obras faziam com que os críticos mantivessem silêncio sobre elas, fingindo que não existiam. Nunca ganhou um prêmio sequer.

Octave Tassaert – “Os abandonados”

Como não conseguia se sustentar com as pinturas, Tassaert assumiu a profissão de ilustrador para os periódicos franceses. Passou anos comendo o pão que o diabo amassou, mas nunca deixou de pintar, esperando o reconhecimento do público e da crítica. Ao invés de mudar, esperou o mundo mudar. E não é que aconteceu? Os críticos do Salão de Arte do ano de 1855 saudaram as suas obras, reconhecendo valor estético nelas. Alexandre Dumas Filho comprou alguns dos quadros. Tassaert tornou-se 0 símbolo de uma nova época e de uma nova visão artística.

Longe de ficar satisfeito com essa conquista, Tassaert entrou em depressão. Passara muito tempo esperando o reconhecimento, e ele chegava somente agora, no final da sua vida, depois de muitas provações, necessidades e sofrimento. Agora que era inútil, pois ele estava quase cego.

Octave Tassaert – “Uma família desafortunada ou a suicida”

Em 1863, o pintor vendeu todos os seus quadros para um marchand, livrando-se deles. Estava adoentado e com a vista muito fraca, e não podia mais pintar, motivo pelo qual se tornou um alcoólatra. Existem alguns relatos de pessoas que viram o pintor se arrastando pelas ruas, a sombra pálida de um artista. Em 1865 começou a escrever poesia, mas suas obras acabaram se perdendo com o tempo.

Para não dizerem que esse blog não trata de assuntos importantes, um alerta sobre as vantagens do sexo seguro vindo diretamente de mais de 150 anos atrás, antes mesmo de existirem camisinhas:

Octave Tassaert – “A amante cautelosa”

Estava praticamente cego e pobre quando, em 1874, cerrou-se no seu quarto e cometeu suicídio, asfixiando-se com dióxido de carbono.

Nos anos seguintes, Gauguin e Van Gogh manifestaram a sua admiração por Tassaert. Van Gogh, em carta enviada para Theo em janeiro de 1886, disse que Tassaert pintava de maneira “maravilhosamente audaciosa”, com uma “perfeita representação do corpo feminino”, cujas mulheres ostentavam semblantes “com expressões apaixonadas”.

Octave Tassaert tornou-se famoso pelos seus quadros que demonstravam a voluptuosidade da vida e a própria paixão. A obra mais representativa é “A mulher amaldiçoada”,  uma ode à liberdade feminina e ao prazer sem limites:

Octave Tassaert – “A mulher amaldiçoada”

Mesmo fazendo uma arte depreciada pela crítica, Octave Tassaert passou anos insistindo na mesma tecla até que viu seus esforços reconhecidos. Ele esperou o mundo entrar na sua verdade, não tentou se ajustar ao discurso artístico dos demais da sua época. Infelizmente não tinha mais vontade de lutar e de aproveitar os louros da glória, então acabou se deprimindo. Perdeu a visão e a vida, mas nunca perdeu a sua arte de vista – nunca deixou de ser honesto e sincero consigo mesmo. Nunca sentiu medo. Nunca precisou fazer concessões para ser aceito.

É isso o que desejo dizer quando sinto o “cheiro do medo” nos meus contemporâneos, e não me identifico com eles. Não sei qual o momento em que todos passaram não a suscitar opiniões alheias, mas a temê-las. Buscar o conforto comodista ao invés de manifestar uma visão de mundo. Torna-se cada vez mais importante a frase de Frank Miller em “Demolidor – o homem sem medo”: “um homem sem esperança é um homem sem medo”. Então, deixai a esperança de felicidade, ó vós que desejais serem contemporâneos.

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Texto publicado no jornal Zero Hora (01/07/2017): “A arte de viver no vulcão”

Ontem saiu no jornal Zero Hora um artigo que escrevi sobre os espíritos que moram no fundo dos vulcões, sobre a Margaret Atwood e o texto empolgado que ela escreveu com dicas de como os artistas deviam se comportar sob a égide de Trump, e terminei com Ezra Pound e a função da literatura, tudo para dizer algo que tenho refletido muito nos últimos tempos: quando a arte vem com uma mensagem social explícita, ela deixa o status artístico e vira panfleto. Pior ainda – dispara um tiro contra o próprio pé, pois afasta as pessoas, que se sentem ludibriadas quando querem refletir livremente sobre algo e acabam sendo sugestionadas por uma posição pessoal que o artista inseriu à força. A verdadeira arte é aquela que não só reflete a sociedade em que vivemos como é consequência de assuntos do passado e também pode ajudar as sociedades do futuro a resolver seus problemas.

Muitas pessoas de fora do Estado me pediram cópia do artigo, e resolvi colocá-lo aqui no blog para viabilizar uma discussão de maior alcance. Aproveitei para, em um plus, colocar os links que mencionei no texto: o trailer do documentário “Visita ao inferno” (2016), de Werner Herzog, e o texto “What art under Trump?” de Margaret Atwood.

Boa leitura!

 

A arte de viver no vulcão

 

No início do documentário “Visita ao inferno” (2016), de Werner Herzog (disponível na Netflix), que trata da relação quase mística entre seres humanos e vulcões, o líder da aldeia Endu, localizada na Ilha Ambryn, afirma existir espíritos que vivem em meio à lava. O calor imorredouro do fogo e a raiva das explosões de magma seriam os espíritos se retorcendo no fundo da terra e, diante das imagens hipnóticas da lava e dos seus contorcionismos preguiçosos, é difícil imaginar que não exista vida no fundo de um vulcão.

Pensar na fúria indômita de um vulcão leva-nos a lembrar um artigo escrito por Margaret Atwood tão logo Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos. Nesse texto, publicado em The Nation e intitulado “What art under Trump?” (“Qual será a arte sob Trump?”), presente no link  https://www.thenation.com/article/what-art-under-trump/ , a autora de “O conto da aia” traça um histórico sobre as ocasiões em que a arte esteve ameaçada pelo poder constituído – e de como, mesmo cerceada, ela vicejou em meio a terrenos tão pedregosos. Mencionando a postura dos artistas que se lamentavam sobre a vitória do republicano – alguém conhecido por desprezar qualquer expressão artística -, Atwood indica escritores que, em tempos de crise, souberam usar a arte para não só definir o tempo em que viviam, como lançaram luzes para o futuro. Com palavras que mal disfarçam a empolgação, a escritora diz que novas oportunidades se abrem para artistas: façam distopias, como Yevgeny Zamyatin; elaborem sátiras sofisticadas, como Jonathan Swift; criem “arte de testemunho”, como Anne Frank ou Nawal El Sadaawi. Contudo, Atwood alerta: façam arte e não política. A arte não funciona sob o espectro monocromático de qualquer mensagem política; ela existe para desconstruir o mundo ao invés de transmitir ideologias. Os artistas cujas obras sobreviveram não foram os que melhor denunciaram as mazelas sociais, mas quem soube usar a arte como pano de fundo de um anseio humano que atravessa todos os tempos, não só o imediatismo do dia seguinte.

O texto de Margaret Atwood serve como admoestação não só para os artistas que vivem sob a égide de Trump, mas para todos. Usar a arte com um propósito, seja ganhar dinheiro ou status, seja passar uma mensagem social, religiosa ou política, é a garantia de que a expressão artística pode até ser consumida pelo público, mas não digerida. Despertará fagulhas, jamais a chama duradoura de uma reflexão. Nunca isso foi tão evidente quanto nos tempos atuais, quando se percebe artistas mais preocupados em passar mensagens ideológicas – aqui no seu sentido mais amplo – do que em realizar uma obra consistente, algo que redimensione o universo alheio ao invés de desaparecer como se nunca tivesse existido.

Em “A arte da poesia”, Ezra Pound afirma que a função da literatura não é a de coagir, persuadir emocionalmente ou forçar as pessoas a aceitarem ou deixarem de aceitar outras opiniões, mas manter a clareza e o vigor de todos os pensamentos e opiniões. Usar a arte para impor uma visão de mundo é fazer com que ela não seja arte, mas uma simples chateação que logo passará. O verdadeiro artista não é aquele que denuncia a destruição da lava ou o avançar do fogo, mas quem está no fundo do vulcão, retorcendo-se com desconforto enquanto sonha com o céu coalhado de estrelas infinitas revelado pela boca da cratera.

 

Texto originalmente publicado em http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/noticia/2017/07/a-arte-de-viver-no-vulcao-9829635.html

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Resenha do livro: “A arte do estilo”, de Henry James e Robert Louis Stevenson (org. Marina Bedran)

Escrevi para o Amálgama ( www.revistaamalgama.com.br ) uma resenha sobre o livro “A arte do estilo”, que reúne ensaios e a correspondência mantida entre Henry James e Robert Louis Stevenson. Um diálogo epistolar educado, repleto de argumentos inteligentes e de frases que poderiam muito bem figurar nas obras de qualquer um deles, de tão poéticas e cristalinas. Um livro que me engrandeceu como escritor e como ser humano.

Boa leitura!

Henry James e Robert Louis Stevenson: uma improvável amizade literária

 

Em um mundo cada vez mais polarizado, e em que as pessoas não só possuem opiniões imutáveis como ainda são incapazes de dialogar e provar a validade das suas crenças, usando de ironia grosseira e de violência retórica, soa até estranho imaginar que, não muitos anos atrás, dois indivíduos que pensavam diferente poderiam não só expor suas divergências em busca de pontos em comum, como inclusive se tornarem amigos. O ódio insensato direcionado contra aqueles que não comungam dos nossos ideais é uma característica da pós-modernidade, amplificada pela multidão de nomes sem rosto que grassa nas redes sociais. A simples ideia de opostos estabelecerem uma conversa respeitosa que, longe de ser uma tentativa de doutrinação é mais uma forma de fortalecimento da própria ideia por meio da sua defesa contra um adversário ardiloso e convincente, parece mais ficção científica do que uma hipotética invasão alienígena.

Contudo, por muitos anos, essa foi a tônica do comportamento civilizado: ao invés de odiar o diferente, tente entendê-lo. Nesse processo, um respeito relutante acaba surgindo, e o que era uma discussão entre duas pessoas diametralmente opostas pode se transformar em uma amizade um pouco fria, mas, ainda assim, uma forma de relacionamento que permitiria a convivência de ambas as ideias sem que uma precise eliminar a outra. É o que se depreende de “A aventura do estilo” (2017), que reúne a correspondência trocada entre o escritor nascido americano e naturalizado inglês Henry James e o escocês Robert Louis Stevenson: é só através do diálogo e da troca de experiências que qualquer sociedade pode evoluir. Ainda assim, ao término da leitura, a sensação geral foi de uma relativa tristeza por ver o quanto a sociedade atual se afasta – e com alegria selvagem – dos ideais que nortearam a conversa epistolar entre os dois escritores. Em meio ao oceano de ódio que se espalha por entre as pessoas e suas mais diversas causas e matizes ideológicos, está cada vez mais difícil encontrar diálogo e razoabilidade – sem contar uma dose de inteligência, bom humor e disposição de ouvir o outro.

Antes de prosseguir, uma breve contextualização histórico-literária: dificilmente poderiam existir dois escritores mais equidistantes do que Henry James e Robert Louis Stevenson. Autor de “Os embaixadores”, “Pelos olhos de Maisie” e do inigualável “A fera na selva”, Henry James era um escritor de emoções frias e de uma prosa elegantemente construída, retratando os dramas humanos por meio de uma lente concentrada nas classes mais abastadas; na sua obra, o conflito essencial se estabelece entre civilização e barbárie, entre emoção e razão, entre os sonhos românticos de uma Europa idealizada e os valores materiais de uma América ainda jovem e impetuosa. Essas características ajudam a explicar um pouco a frase jocosa de William Faulkner, “Henry James was one of the nicest old ladies I ever met.”.

Por sua, vez, Robert Louis Stevenson escreveu obras como “A ilha do tesouro” e “O médico e o monstro”, sendo um escritor muito mais físico e menos intelectualizado, muito mais emocional do que racional; não bastando escrever uma literatura que, na sua época, era considerada mais entretenimento do que arte (status esse que acabou sendo revisto por força dos inúmeros escritores que confessaram admirar o seu estilo, entre os quais Jorge Luis Borges, Chesterton e Ítalo Calvino), Stevenson também viveu com intensidade, viajando pelo mundo a bordo de navios e passando por uma série de aventuras que registrou parcialmente na sua vasta obra.

Ao lado do frágil e sensível James, Stevenson – mesmo padecendo de uma tuberculose persistente – era não só um poço de saúde como um espírito impregnado de vivacidade. A tradutora e organizadora de “A aventura do estilo”, Marina Bedran, descreve como foi o primeiro encontro entre os dois escritores: “após um primeiro encontro, em 1879, James diria que Stevenson lhe parecera um ‘boêmio de camisa sem colarinho e um belo de um poseur (de um modo inofensivo)’. Stevenson, por sua vez, viu em James ‘um mero habitué de clubes […] de forma alguma um homem corajoso e afeito às atividades ao ar livre’, e, se estimou desde o início a precisão da escrita jamesiana, se irritava um pouco com seus preciosismos, e achou Washington Square desagradável.”

A amizade improvável entre ambos nasceu graças a uma divergência literária. Em 1884, James publicou em “The Longman’s Magazine” um ensaio intitulado “A arte da ficção”. Nesse texto, o escritor britânico refutou uma palestra proferida pelo escritor e crítico literário Walter Besant, pretendendo ver no romance uma forma de competir com a vida, transmitindo para o leitor uma realidade postiça, mas nem por isso menos real. Para James, o melhor romance seria aquele que mais sucesso tivesse em reprisar a realidade e a vida. O dever da arte – para isso ele usa o exemplo da pintura – era ser fiel ao real, e o melhor artista era aquele que mais se adequasse a esse ideal. Mais do que expor uma história, o escritor era um artista dedicado a representar o real e a transformá-lo de dentro para fora.

Stevenson enviou um pequeno texto para a revista literária, refutando a opinião de Henry James. No título, “Um humilde protesto”, expressa todo o seu respeito perante as ideias do outro: ele reconhece que não possui a erudição e o esmero com as palavras que caracteriza James, e também sabe que é considerado um autor menor para a crítica literária de então, mas isso não lhe impediu de expressar o seu ponto de vista com tenacidade. Para o escritor escocês, a arte e a vida são conceitos que possuem alguns pontos em comum, mas não se confundem entre si. Sua defesa foi apaixonada:

“Competir com a vida, para cujo sol não podemos olhar, cujas paixões e doenças nos consomem e nos matam, competir com o sabor do vinho, a beleza da aurora, o trepidar do fogo, a amargura da morte e da separação, eis a escalada aos céus que se pretende. São trabalhos para um Hércules de casaca, armado de uma pena e de um dicionário, para retratar as paixões, armado de uma bisnaga de alvaiade para pintar o retrato do sol inclemente. Nenhuma arte é verdadeira nesse sentido, nenhuma pode ‘competir com a vida’, nem mesmo a história, construída a partir de fatos que são incontestáveis, mas que tiveram sua vivacidade e sua pungência roubadas, de modo que, mesmo quando lemos sobre uma cidade saqueada ou sobre a queda de um império, nos surpreendemos e louvamos com justeza o talento do autor, se nosso coração dispara. E, como uma última diferença, essa aceleração dos batimentos é, quase sempre, puramente prazerosa: essas reproduções fantasmagóricas da experiência, mesmo as mais fiéis, causam prazer, enquanto a própria experiência, na arena da vida, pode torturar e matar”.

Essa troca de textos públicos dá início a uma troca de cartas que pretende discutir os conceitos de arte, de literatura e de vida, estabelecendo algo que se possa chamar de estilo para um romance nos tempos de então. Na primeira carta, antes de se debruçar sobre o assunto que os fascina, Henry James reconhece as diferenças entre ambos e o valor literário do colega escritor: “É um luxo, nessa era imoral, encontrar alguém que escreve – que realmente tem familiaridade com essa arte adorável. Não seria justo bater-me com você aqui; além disso, nós mais concordamos, creio eu, do que discordamos, e ainda que haja pontos sobre os quais um espírito mais impetuoso que o meu gostaria de pelejar, não é isso o que eu desejo – quero, ao contrário, lhe agradecer por tudo o que há de feliz e de sugestivo em suas observações – notadas com tanta perspicácia e ditas com tanto brilhantismo”.

Uma leitura desses dois breves trechos permite-nos ver a graciosidade repleta de inteligência e de poesia dos escritores, e é uma pena que o tamanho diminuto dessa resenha não permita destacar mais pontos de grande beleza esgrimida entre dois homens que buscavam pontes de compreensão onde existia somente diferença. “A aventura do estilo” é um livro para ser digerido com calma, não pela complexidade das ideias contidas no seu interior, mas pela construção laboriosa dos argumentos e das reflexões de ambos os autores, que encontram na sua troca de cartas um espaço privilegiado para discutir literatura e vida. De uma relação epistolar que se estabelece com cautela e respeito mútuo, aos poucos a amizade cresce, bem como as confidências e a troca de dúvidas sobre as próprias obras.

Mais do que uma discussão estéril e egocêntrica sobre estilos literários, “A aventura do estilo” revela dois escritores no auge da sua criatividade, ambos debruçados sobre a mais antiga questão: o que é mais importante, viver ou escrever? E, se escrever não é uma possibilidade, mas uma necessidade para ambos, como a forma literária pode ser trabalhada até a perfeição sem perder a sua essência humana (posto que os dois são unânimes em admitir a impossibilidade relativa de uma obra de arte atingir a perfeição incontestável). No entanto, o grande destaque do livro é a sua fluidez e a clareza argumentativa de Henry James e Robert Louis Stevenson, dois escritores que deixaram de lado as suas divergências filosóficas e estéticas para se concentrarem naquilo que realmente importava: uma boa e saudável conversa, na qual, ao tentarmos entender a opinião do outro, acabamos fortalecendo a nossa.

 

Texto originalmente publicado no link https://www.revistaamalgama.com.br/07/2017/resenha-a-aventura-do-estilo-henry-james-robert-louis-stevenson/

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Miguel Ángel Astúrias e a América Latina em carne e seiva

Ontem completamos 43 anos sem Miguel Ángel Asturias, um dos escritores que melhor soube cantar as belezas da América Latina. Fiz uma postagem no Facebook comentando o fato, e várias pessoas pediram-me para falar um pouco mais sobre esse escritor guatemalteco, então resolvi escrever algo um pouco mais dilatado aqui no blog.

Miguel Ángel Astúrias

Nós, brasileiros, conhecemos pouco sobre a obra de Ángel Astúrias. Não farei uma tabulação e nem elencarei estatísticas, mas basta observar o mundo literário local, mais preocupado com autores que vêm da Europa e dos Estados Unidos do que com a vasta literatura produzida no nosso próprio quintal. É sintomático que tantas pessoas louvem escritores que possuem uma literatura de viés mais europeu (haja vista as dezenas de palestras e homenagens a Cortázar e a Borges), deixando quase esquecido um autor que sabia escrever ao mesmo tempo em que se maravilhava pela beleza, pelas cores e pelos sabores que só existem no nosso continente.

Há alguns anos li “Homens de milho”. Era um livro muito carnal, na falta de uma palavra melhor: substancioso, forte, cheio de vida a brotar das letras. Lembro o impacto que Ángel Asturias me causou e, ao lado de Alejo Carpentier, na minha opinião são o melhor que a América Latina já produziu. Pena que quase não seja traduzido, e que boa parte das pessoas ignore não só a sua obra, mas o fato dele ter inclusive ganhado um Nobel de Literatura. 

Miguel Ángel Astúrias escreveu romances, poesias, ensaios e até se aventurou pelo teatro. Na sua obra poética, foi um adepto fervoroso do soneto, uma das mais nobres formas de escrever poesia (o que me faz lembrar de uma história contada por Affonso Romano de Sant’Anna: Manuel Bandeira, quando queria saber se a obra de algum poeta novato tinha vigor literário, pedia dois poemas de amostra, um em versos livres e o outro um soneto. Segundo ele, poeta que não sabe escrever soneto também não seria capaz de dominar a arte poética). Entre os poemas de Ángel Astúrias, gosto muito desse:

La luz corre desnuda por el río 

La luz corre desnuda por el río
huyendo sin cesar en lo movible
de la profundidad, del hondo frío
en que empieza la sombra y lo invisible.
La conoció al nacer, era rocío,
no este vano correr tras lo imposible,
imagen del humano desafío
a la divinidad. Sueño apacible
que endulza los saleros de los ojos,
mesa frugal y paz es lo que anhela
navegante, soldado y rey de antojos;
pero ¡ay! del ¡ay! del alma, no se alcanza
a volver con los remos y la vela
al puerto en que dejamos la esperanza.

Um soneto repleto de imagens poéticas fortes. Pega a metáfora do rio e a transforma em vida e depois de novo em rio com tanta naturalidade que nem parece estar conduzindo o leitor por essas águas plácidas.

A fama de Miguel Ángel Astúrias deve-se a um outro romance, “El Señor President”. O personagem nunca nominado é um retrato de tantos tiranos que conhecemos, capaz de se encaixar em qualquer cultura e espaço. Foi graças a esse romance que o guatemalteco ganhou o Nobel de Literatura, e leiam a beleza que foi o final do discurso de aceitação do prêmio (tradução minha):

“Andaimes. Escadas. Novos vocabulários. A recitação primitiva dos textos. Os rapsodistas. E, mais tarde, mais uma vez, a trajetória quebrada. A nova língua. Grandes cadeias de palavras. Pensamento descontrolado. Até chegar, mais uma vez, após as mais sangrentas batalhas lexicais, às próprias expressões. Não há regras – elas são inventadas. Depois de muita invenção, os gramáticos vêm então com suas tesouras de corte de linguagem. A América Hispânica está bem comigo, mas sem a aspereza. Gramática torna-se uma obsessão. O risco de anti-gramática. É aí que estamos agora. A busca de palavras dinâmicas. Outra magia. O poeta e o escritor da palavra ativa. Vida. Suas variações. Nada pré-fabricado. Tudo em ebulição. Não para escrever literatura. Não substitua palavras por coisas. Para procurar coisas de palavras, seres de palavras. E procure os problemas do homem, além disso. A evasão é impossível. Homem. Seus problemas. Um continente que fala, e que foi ouvido por esta Academia. Não nos peçam genealogias, escolas, tratados. Nós trazemos as probabilidades de uma palavra. Verifique-as. Elas são singulares. Singular é o movimento, o diálogo, a intriga novelística. E, o mais singular de tudo, ao longo dos tempos, nunca houve interrupção nessa criação constante.”

Toda uma teoria de construção da literatura da América Latina contida em um único discurso. A troca de histórias entre colonizados e colonizadores servindo para cimentar relações, não para desconstruir; a literatura usada como um aceno de paz, de mútua concordância e, mais do que tudo, de perdão. Ángel Astúrias levou adiante as reflexões de Ángel Rama e de Ana Pizarro, mas indo pelo viés literário, buscando uma integração pacífica por meio da literatura.

Eu lembro muito de um poema dele, “Guatemala”, que toda vez que leio dá vontade de correr para uma agência de turismo e zarpar para a Guatemala (acreditem, sou uma pessoa muito controlada). Creio que é um dos poucos casos de poema fundacional que existe, ao lado da Ilíada, mas daí é injustiça comparar – prefiro defender essa comparação falando em alguma mesa, quando não corro o risco de ser esquartejado pelas minhas palavras escritas (“verba volant, scripta manent”, blablabla).

Guatemala

Guatemala 

(Cantata)
¡Patria de las perfectas luces, tuya
la ingenua, agraria y melodiosa fiesta,
campos que cubren hoy brazos de cruces!
¡Patria de los perfectos lagos, altos
espejos que tu mano acerca al cielo
para que vea Dios tantos estragos!
¡Patria de los perfectos montes, cauda
de verdes curvas imantando auroras,
hoy por cárcel te dan tus horizontes!
¡Patria de los perfectos días, horas
de pájaros, de flores, de silencio
que ahora, ¡oh dolor!, son agonías!
¡Patria de los perfectos cielos, dueña
de tardes de oro y noches de luceros,
alba y poniente que hoy visten tus duelos!
¡Patria de los perfectos valles, tienden
de volcán a volcán verdes hamacas
que escuchan hoy llorar casas y calles!
¡Patria de los perfectos frutos, pulpa
de paraíso en cáscara de luces,
agridulces ahora por tus lutos!
¡Patria del armadillo y la luciérnaga
del pavoazul y el pájaro esmeralda,
por la que llora sin cesar el grillo!
¡Patria del monaguillo de los monos,
el atelcolilargo, los venados,
los tapires, el pájaro amarillo
y los cenzontles reales, fuego en plumas
del colibrí ligero, juego en voces
de la protesta de tus animales!
Loros de verde que a tu oído gritan
no ser del oro verde que ambicionan
los que la libertad, Patria, te quitan.
Guacamayas que son tu plusvalía
por el plumaje de oro, cielo y sangre,
proclamándote va su gritería…
¡Patria de las perfectas aves, libre
vive el quetzal y encarcelado muere,
la vida es libertad, Patria, lo sabes!
¡Patria de los perfectos mares, tuyos
de tu profundidad y ricas costas,
más salóbregos hoy por tus pesares!
¡Patria de las perfectas mieses, antes
que tuyas, júbilo del pueblo, gente
con la que ahora en el pesar te creces!
¡Patria de los perfectos goces, hechos
de sonido, color, sabor, aroma,
que ahora para quién no son atroces!
¡Patria de las perfectas mieles, llanto
salado hoy, llanto en copa de amargura,
no la apartes de mí, no me consueles!
¡Patria de las perfectas siembras, calzan
con hambre de maíz sus pies desnudos,
los que huyen hoy, tus machos y tus hembras!

Não podia concluir o texto sem voltar a esse tema que fascinou tantos escritores, desde Homero até Joyce e Borges: a volta para casa de Ulisses, que, na versão de Miguel Ángel Astúrias, foi o homem cujo corpo voltou para casa, mas o espírito continua vagando, incontrolável, pelos mares da memória. Essa imagem também é uma perfeita alegoria para a América Latina, um continente que hesita entre olhar para o futuro e cicatrizar as feridas do passado:

Ulises

Intimo amigo del ensueño, Ulises
volvía a su destino de neblina,
un como regresar de otros países
a su país. Por ser de sal marina.

Su corazón surcó la mar meñique
y el gran mar del olvido por afán,
0calafateando amores en el dique
de la sed que traía. Sed, imán.

Aguja de marear entre quimeras
y Sirenas, la ruta presentida
por la carne y el alma ya extranjeras.

Su esposa lo esperaba y son felices
en la leyenda, pero no en la vida,
porque volvió sin regresar Ulises

três Prêmios Nobel de Literatura levando um papo: Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Miguel Ángel Asturias

 

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Como melhorar uma história usando assassinatos

Uma interessante – e divertida – moda está crescendo no mundo literário anglo-saxão. Muito melhor do que autoficção e representatividade, questões amplamente não-literárias que transformaram a literatura brasileira em um longo e enfadonho desfile de platitudes, egos e estatísticas.

Ela começou com uma reflexão sobre as regras de escrita de Elmore Leonard. São regras bem práticas, bem diretas e dizem respeito ao ato de escrever qualquer história. Por exemplo, a primeira regra é “Nunca comece um livro descrevendo o tempo”. A segunda é “Evite prólogos”, e por aí as regras seguem.

O escritor Marc Laidlaw levou adiante as ideias de Elmore Leonard e tirou a ênfase da primeira frase da história, passando para a segunda:

De acordo com ele, a primeira frase de quase todas as histórias pode ser melhorada se a segunda for “E então os assassinatos começaram”.

Isso gerou uma onda de escritores imaginando histórias em que a segunda frase seria obrigatoriamente “E então os assassinatos começaram”.

Também deixa qualquer história infantil mais interessante:

Um exercício de criação literária sendo feito ao vivo e com a participação da imaginação de centenas de leitores, eis o que deixa a literatura viva e interessante.

Tenho falado muito com outros escritores sobre os motivos pelo qual a literatura é tão pouco consumida no Brasil, e uma das conclusões a que cheguei é que, no nosso país, a literatura deixou de ser arte e virou palanque para tantas causas que as pessoas passaram a considerá-la panfletária.

Tiraram toda a graça de escrever e ler uma boa história. Hoje, todos leem livros esperando que, em algum momento, ao estilo dos antigos contos de fadas, alguém vai aparecer e dizer qual a moral da história. Ou, pior ainda, leem o livro julgando o tempo inteiro a sombra que deveria pairar quase invisível por trás dele: o seu autor.

Está bem chato escrever no Brasil atual. É como carregar uma granada sem pino no meio de um campo de batalha, sabendo que, a qualquer deslize ou distração, ela pode explodir nas nossas mãos. Por enquanto ainda tive sorte, mas mesmo ela eventualmente acabará e, se existe algo que me consola é saber que, se esse dia chegar e a literatura virar não mais liberdade, mas medo, eu vou recolher-me à minha escrivaninha e continuar escrevendo em silêncio. À esta altura do campeonato, escrever não é algo que preciso tanto de outras pessoas, é mais uma questão interna do que uma necessidade de exposição.

Meu dever único é ser fiel à história. Sem concessões, sem medos. Mesmo que ninguém a leia e mesmo que eu seja julgado pelo o que digo ou pelo o que omito. Se for para escrever com medo do leitor, melhor nem escrever, até por que cada leitor vai pensar uma coisa diferente e nunca agradarei a todos.

Por isso acho relevante esse desafio literário que circula nos Estados Unidos e na Inglaterra. Parece mais importante do que discutir uma série de questões paralelas à Literatura. É um exercício de criação brejeiro e divertido, tudo aquilo que devia ser importante para nós e estamos fazendo cada vez menos. Isso por que escrever devia ser algo divertido, não a chatice que se tornou. Então, enquanto não me cercearem de vez, prosseguirei escrevendo e me divertindo, pensando em assassinatos escondidos dentro de cada livro.

 

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Crônicas de um ano inteiro: “Manter silêncio no Dia Internacional das Mulheres”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre a literatura como o mais vertiginoso exercício de alteridade que existe – e o motivo pelo qual o silêncio pode ser uma atitude mais construtiva do que ficar fazendo textões no Dia Internacional da Mulher.

Boa leitura.

Manter silêncio no Dia Internacional das Mulheres

A semana que cerca o Dia Internacional da Mulher é uma das mais complicadas do ano para o meu ofício de escritor. Isso por que os canais de comunicação que as pessoas usam para chegar até mim (e-mail, Facebook, Whatsapp) são abarrotados por mensagens pedindo textos sobre as mulheres e, infelizmente, serei obrigado a negar todos. Em outros tempos, eu costumava escrever textos – longos ou curtos – sobre a força, a beleza e a fortaleza feminina; compartilhava poemas, imagens, trechos de livros, pinturas. No entanto, nos últimos anos, fui aos poucos silenciando sobre o assunto e, agora, com exceção de algumas poucas mulheres extremamente próximas que considero dever humano (e não masculino) cumprimentar, prefiro manter-me calado.

Levei muito tempo para aprender o óbvio: eu não sou mulher, Não sei como elas pensam e se sentem e, portanto, não tenho o direito de deixar a minha vaidade assumir uma voz que não lhe pertence. Posso indicar dezenas de mulheres capazes de escrever textos maravilhosos. Sou uma pessoa afortunada, pois conheço escritoras capazes de moldar uma folha de papel em um universo, poetas capazes de fazer versos devastadores, fotógrafas que podem sintetizar sentimentos em um clique, atrizes que podem ser muitas mulheres no corpo de uma só. Qualquer uma delas é capaz de dizer muito mais sobre as mulheres do que eu. Elas podem ser políticas, podem ser líricas, podem ser agressivas, podem ser engraçadas, podem até não serem capazes de se expressar de forma esteticamente correta, mas todas sabem muito bem o que é ser mulher.

Nessas condições, o silêncio é a melhor postura para um homem. Ao invés de tentar expressar solidariedade ou se subrogar na voz alheia, ficar quieto é uma forma de respeito. Em um mundo onde todos querem ter direito de falar e desabafar seus pensamentos sobre qualquer assunto, o silêncio por vontade própria é uma virtude subestimada. Além disso, ele é um exercício de humildade: quando não somos capazes de entender algo, o melhor é aprender com quem sabe. Longe de ser uma atitude indiferente, o silêncio pode ser uma forma de ação: se não estamos falando, estamos escutando, e quem escuta algo com o intuito de aprender sempre acaba sofrendo modificações.

Por isso, em épocas nas quais se fala tanto de mulheres como a semana que cerca o Dia Internacional da Mulher, prefiro ficar em silêncio, e estou muito tranquilo com essa decisão. Pois aprendo algo muito precioso para usar no dia a dia: aprendo a alteridade, ou seja, a capacidade de sentir o mundo como se fosse outra pessoa.

Toda literatura é um exercício de alteridade. Quando lemos algo, parte essencial da relação que estabelecemos com o livro é sentirmos a história como se estivéssemos a vivendo. Quando o escritor falha nisso, falhou completamente. Se o leitor pensar, por um segundo, que é impossível que um capitão de perna de pau persiga uma baleia branca descomunal, o livro fracassou. Quando eu leio “Jane Eyre”, eu preciso ser Jane Eyre, mesmo que numa versão masculinizada, pois preciso ver a história que ela está me contando, e não é o Gustavo quem está ali, nem a Charlotte Brontë, mas Jane Eyre. A alteridade é cruel e implacável; a única forma que temos de entender o mundo da personagem é nos colocando dentro da sua mente e alma, mas isso implica em deixarmos de lado quem somos.

Uso o exemplo da literatura, mas a alteridade está por tudo. Quando escuto a história de um cliente no escritório de Direito, eu preciso entender que ele agiu daquela forma por que foi pressionado pela sua formação social, intelectual, familiar e cultural, e não pela minha lógica de advogado. Quando somos atendidos em uma quitanda por um rapaz magro, de aparelhos nos dentes e espinhas por todo o rosto, precisamos entender o mundo do seu ponto de vista, e saber que ele talvez não tenha vida social, talvez não tenha muitos amigos ou uma namorada, talvez precise estudar um turno e trabalhar o outro para ter algum dinheiro para ajudar a sua família. Como podemos tratar mal uma pessoa que já se sente mal? Não seremos nós a gota que vai fazer o copo explodir? Uma piada simpática que pode dar algum alento para alguém vai tirar um pedaço nosso? A alteridade é o que nos faz escutar o outro ser e tentar entender como ele se sente, pois não somos – e nunca seremos – iguais a ele.

Por isso, é interessante aproveitar o Dia Internacional da Mulher não para encher o mundo de demagogia barata, de palavras falsas que serão esquecidas adiante, de depoimentos lacrimosos e repletos de metáforas (quem sabe mexer com palavras sabe manuseá-las ao seu bel prazer). Podemos fazer o mais difícil: silenciar e tentar ver o mundo em que não vivemos, o das mulheres. Um local sórdido, assustador, repleto de desigualdades, com violência sempre à espreita em cada esquina. É saudável tentarmos experimentar a alteridade com quem mora ao nosso lado ao invés de se perder em tergiversações que não passam de uma arrogância disfarçada.

Eu disse antes que a alteridade é cruel, mas não mencionei um detalhe igualmente importante: entrar no mundo de outra pessoa é terrível, em especial quando viramos o pescoço e olhamos para a imagem que ela faz a nosso respeito. Aí está a verdadeira mudança, muito melhor do que elencar poemas alheios ou encher a paciência alheia com textos repletos de clichês sobre a importância da mulher: escutar o que ela tem a dizer, aprender um pouco e deixar de agir como um abobado.

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