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Miguel Ángel Astúrias e a América Latina em carne e seiva

Ontem completamos 43 anos sem Miguel Ángel Asturias, um dos escritores que melhor soube cantar as belezas da América Latina. Fiz uma postagem no Facebook comentando o fato, e várias pessoas pediram-me para falar um pouco mais sobre esse escritor guatemalteco, então resolvi escrever algo um pouco mais dilatado aqui no blog.

Miguel Ángel Astúrias

Nós, brasileiros, conhecemos pouco sobre a obra de Ángel Astúrias. Não farei uma tabulação e nem elencarei estatísticas, mas basta observar o mundo literário local, mais preocupado com autores que vêm da Europa e dos Estados Unidos do que com a vasta literatura produzida no nosso próprio quintal. É sintomático que tantas pessoas louvem escritores que possuem uma literatura de viés mais europeu (haja vista as dezenas de palestras e homenagens a Cortázar e a Borges), deixando quase esquecido um autor que sabia escrever ao mesmo tempo em que se maravilhava pela beleza, pelas cores e pelos sabores que só existem no nosso continente.

Há alguns anos li “Homens de milho”. Era um livro muito carnal, na falta de uma palavra melhor: substancioso, forte, cheio de vida a brotar das letras. Lembro o impacto que Ángel Asturias me causou e, ao lado de Alejo Carpentier, na minha opinião são o melhor que a América Latina já produziu. Pena que quase não seja traduzido, e que boa parte das pessoas ignore não só a sua obra, mas o fato dele ter inclusive ganhado um Nobel de Literatura. 

Miguel Ángel Astúrias escreveu romances, poesias, ensaios e até se aventurou pelo teatro. Na sua obra poética, foi um adepto fervoroso do soneto, uma das mais nobres formas de escrever poesia (o que me faz lembrar de uma história contada por Affonso Romano de Sant’Anna: Manuel Bandeira, quando queria saber se a obra de algum poeta novato tinha vigor literário, pedia dois poemas de amostra, um em versos livres e o outro um soneto. Segundo ele, poeta que não sabe escrever soneto também não seria capaz de dominar a arte poética). Entre os poemas de Ángel Astúrias, gosto muito desse:

La luz corre desnuda por el río 

La luz corre desnuda por el río
huyendo sin cesar en lo movible
de la profundidad, del hondo frío
en que empieza la sombra y lo invisible.
La conoció al nacer, era rocío,
no este vano correr tras lo imposible,
imagen del humano desafío
a la divinidad. Sueño apacible
que endulza los saleros de los ojos,
mesa frugal y paz es lo que anhela
navegante, soldado y rey de antojos;
pero ¡ay! del ¡ay! del alma, no se alcanza
a volver con los remos y la vela
al puerto en que dejamos la esperanza.

Um soneto repleto de imagens poéticas fortes. Pega a metáfora do rio e a transforma em vida e depois de novo em rio com tanta naturalidade que nem parece estar conduzindo o leitor por essas águas plácidas.

A fama de Miguel Ángel Astúrias deve-se a um outro romance, “El Señor President”. O personagem nunca nominado é um retrato de tantos tiranos que conhecemos, capaz de se encaixar em qualquer cultura e espaço. Foi graças a esse romance que o guatemalteco ganhou o Nobel de Literatura, e leiam a beleza que foi o final do discurso de aceitação do prêmio (tradução minha):

“Andaimes. Escadas. Novos vocabulários. A recitação primitiva dos textos. Os rapsodistas. E, mais tarde, mais uma vez, a trajetória quebrada. A nova língua. Grandes cadeias de palavras. Pensamento descontrolado. Até chegar, mais uma vez, após as mais sangrentas batalhas lexicais, às próprias expressões. Não há regras – elas são inventadas. Depois de muita invenção, os gramáticos vêm então com suas tesouras de corte de linguagem. A América Hispânica está bem comigo, mas sem a aspereza. Gramática torna-se uma obsessão. O risco de anti-gramática. É aí que estamos agora. A busca de palavras dinâmicas. Outra magia. O poeta e o escritor da palavra ativa. Vida. Suas variações. Nada pré-fabricado. Tudo em ebulição. Não para escrever literatura. Não substitua palavras por coisas. Para procurar coisas de palavras, seres de palavras. E procure os problemas do homem, além disso. A evasão é impossível. Homem. Seus problemas. Um continente que fala, e que foi ouvido por esta Academia. Não nos peçam genealogias, escolas, tratados. Nós trazemos as probabilidades de uma palavra. Verifique-as. Elas são singulares. Singular é o movimento, o diálogo, a intriga novelística. E, o mais singular de tudo, ao longo dos tempos, nunca houve interrupção nessa criação constante.”

Toda uma teoria de construção da literatura da América Latina contida em um único discurso. A troca de histórias entre colonizados e colonizadores servindo para cimentar relações, não para desconstruir; a literatura usada como um aceno de paz, de mútua concordância e, mais do que tudo, de perdão. Ángel Astúrias levou adiante as reflexões de Ángel Rama e de Ana Pizarro, mas indo pelo viés literário, buscando uma integração pacífica por meio da literatura.

Eu lembro muito de um poema dele, “Guatemala”, que toda vez que leio dá vontade de correr para uma agência de turismo e zarpar para a Guatemala (acreditem, sou uma pessoa muito controlada). Creio que é um dos poucos casos de poema fundacional que existe, ao lado da Ilíada, mas daí é injustiça comparar – prefiro defender essa comparação falando em alguma mesa, quando não corro o risco de ser esquartejado pelas minhas palavras escritas (“verba volant, scripta manent”, blablabla).

Guatemala

Guatemala 

(Cantata)
¡Patria de las perfectas luces, tuya
la ingenua, agraria y melodiosa fiesta,
campos que cubren hoy brazos de cruces!
¡Patria de los perfectos lagos, altos
espejos que tu mano acerca al cielo
para que vea Dios tantos estragos!
¡Patria de los perfectos montes, cauda
de verdes curvas imantando auroras,
hoy por cárcel te dan tus horizontes!
¡Patria de los perfectos días, horas
de pájaros, de flores, de silencio
que ahora, ¡oh dolor!, son agonías!
¡Patria de los perfectos cielos, dueña
de tardes de oro y noches de luceros,
alba y poniente que hoy visten tus duelos!
¡Patria de los perfectos valles, tienden
de volcán a volcán verdes hamacas
que escuchan hoy llorar casas y calles!
¡Patria de los perfectos frutos, pulpa
de paraíso en cáscara de luces,
agridulces ahora por tus lutos!
¡Patria del armadillo y la luciérnaga
del pavoazul y el pájaro esmeralda,
por la que llora sin cesar el grillo!
¡Patria del monaguillo de los monos,
el atelcolilargo, los venados,
los tapires, el pájaro amarillo
y los cenzontles reales, fuego en plumas
del colibrí ligero, juego en voces
de la protesta de tus animales!
Loros de verde que a tu oído gritan
no ser del oro verde que ambicionan
los que la libertad, Patria, te quitan.
Guacamayas que son tu plusvalía
por el plumaje de oro, cielo y sangre,
proclamándote va su gritería…
¡Patria de las perfectas aves, libre
vive el quetzal y encarcelado muere,
la vida es libertad, Patria, lo sabes!
¡Patria de los perfectos mares, tuyos
de tu profundidad y ricas costas,
más salóbregos hoy por tus pesares!
¡Patria de las perfectas mieses, antes
que tuyas, júbilo del pueblo, gente
con la que ahora en el pesar te creces!
¡Patria de los perfectos goces, hechos
de sonido, color, sabor, aroma,
que ahora para quién no son atroces!
¡Patria de las perfectas mieles, llanto
salado hoy, llanto en copa de amargura,
no la apartes de mí, no me consueles!
¡Patria de las perfectas siembras, calzan
con hambre de maíz sus pies desnudos,
los que huyen hoy, tus machos y tus hembras!

Não podia concluir o texto sem voltar a esse tema que fascinou tantos escritores, desde Homero até Joyce e Borges: a volta para casa de Ulisses, que, na versão de Miguel Ángel Astúrias, foi o homem cujo corpo voltou para casa, mas o espírito continua vagando, incontrolável, pelos mares da memória. Essa imagem também é uma perfeita alegoria para a América Latina, um continente que hesita entre olhar para o futuro e cicatrizar as feridas do passado:

Ulises

Intimo amigo del ensueño, Ulises
volvía a su destino de neblina,
un como regresar de otros países
a su país. Por ser de sal marina.

Su corazón surcó la mar meñique
y el gran mar del olvido por afán,
0calafateando amores en el dique
de la sed que traía. Sed, imán.

Aguja de marear entre quimeras
y Sirenas, la ruta presentida
por la carne y el alma ya extranjeras.

Su esposa lo esperaba y son felices
en la leyenda, pero no en la vida,
porque volvió sin regresar Ulises

três Prêmios Nobel de Literatura levando um papo: Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Miguel Ángel Asturias

 

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Como melhorar uma história usando assassinatos

Uma interessante – e divertida – moda está crescendo no mundo literário anglo-saxão. Muito melhor do que autoficção e representatividade, questões amplamente não-literárias que transformaram a literatura brasileira em um longo e enfadonho desfile de platitudes, egos e estatísticas.

Ela começou com uma reflexão sobre as regras de escrita de Elmore Leonard. São regras bem práticas, bem diretas e dizem respeito ao ato de escrever qualquer história. Por exemplo, a primeira regra é “Nunca comece um livro descrevendo o tempo”. A segunda é “Evite prólogos”, e por aí as regras seguem.

O escritor Marc Laidlaw levou adiante as ideias de Elmore Leonard e tirou a ênfase da primeira frase da história, passando para a segunda:

De acordo com ele, a primeira frase de quase todas as histórias pode ser melhorada se a segunda for “E então os assassinatos começaram”.

Isso gerou uma onda de escritores imaginando histórias em que a segunda frase seria obrigatoriamente “E então os assassinatos começaram”.

Também deixa qualquer história infantil mais interessante:

Um exercício de criação literária sendo feito ao vivo e com a participação da imaginação de centenas de leitores, eis o que deixa a literatura viva e interessante.

Tenho falado muito com outros escritores sobre os motivos pelo qual a literatura é tão pouco consumida no Brasil, e uma das conclusões a que cheguei é que, no nosso país, a literatura deixou de ser arte e virou palanque para tantas causas que as pessoas passaram a considerá-la panfletária.

Tiraram toda a graça de escrever e ler uma boa história. Hoje, todos leem livros esperando que, em algum momento, ao estilo dos antigos contos de fadas, alguém vai aparecer e dizer qual a moral da história. Ou, pior ainda, leem o livro julgando o tempo inteiro a sombra que deveria pairar quase invisível por trás dele: o seu autor.

Está bem chato escrever no Brasil atual. É como carregar uma granada sem pino no meio de um campo de batalha, sabendo que, a qualquer deslize ou distração, ela pode explodir nas nossas mãos. Por enquanto ainda tive sorte, mas mesmo ela eventualmente acabará e, se existe algo que me consola é saber que, se esse dia chegar e a literatura virar não mais liberdade, mas medo, eu vou recolher-me à minha escrivaninha e continuar escrevendo em silêncio. À esta altura do campeonato, escrever não é algo que preciso tanto de outras pessoas, é mais uma questão interna do que uma necessidade de exposição.

Meu dever único é ser fiel à história. Sem concessões, sem medos. Mesmo que ninguém a leia e mesmo que eu seja julgado pelo o que digo ou pelo o que omito. Se for para escrever com medo do leitor, melhor nem escrever, até por que cada leitor vai pensar uma coisa diferente e nunca agradarei a todos.

Por isso acho relevante esse desafio literário que circula nos Estados Unidos e na Inglaterra. Parece mais importante do que discutir uma série de questões paralelas à Literatura. É um exercício de criação brejeiro e divertido, tudo aquilo que devia ser importante para nós e estamos fazendo cada vez menos. Isso por que escrever devia ser algo divertido, não a chatice que se tornou. Então, enquanto não me cercearem de vez, prosseguirei escrevendo e me divertindo, pensando em assassinatos escondidos dentro de cada livro.

 

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Crônicas de um ano inteiro: “Manter silêncio no Dia Internacional das Mulheres”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre a literatura como o mais vertiginoso exercício de alteridade que existe – e o motivo pelo qual o silêncio pode ser uma atitude mais construtiva do que ficar fazendo textões no Dia Internacional da Mulher.

Boa leitura.

Manter silêncio no Dia Internacional das Mulheres

A semana que cerca o Dia Internacional da Mulher é uma das mais complicadas do ano para o meu ofício de escritor. Isso por que os canais de comunicação que as pessoas usam para chegar até mim (e-mail, Facebook, Whatsapp) são abarrotados por mensagens pedindo textos sobre as mulheres e, infelizmente, serei obrigado a negar todos. Em outros tempos, eu costumava escrever textos – longos ou curtos – sobre a força, a beleza e a fortaleza feminina; compartilhava poemas, imagens, trechos de livros, pinturas. No entanto, nos últimos anos, fui aos poucos silenciando sobre o assunto e, agora, com exceção de algumas poucas mulheres extremamente próximas que considero dever humano (e não masculino) cumprimentar, prefiro manter-me calado.

Levei muito tempo para aprender o óbvio: eu não sou mulher, Não sei como elas pensam e se sentem e, portanto, não tenho o direito de deixar a minha vaidade assumir uma voz que não lhe pertence. Posso indicar dezenas de mulheres capazes de escrever textos maravilhosos. Sou uma pessoa afortunada, pois conheço escritoras capazes de moldar uma folha de papel em um universo, poetas capazes de fazer versos devastadores, fotógrafas que podem sintetizar sentimentos em um clique, atrizes que podem ser muitas mulheres no corpo de uma só. Qualquer uma delas é capaz de dizer muito mais sobre as mulheres do que eu. Elas podem ser políticas, podem ser líricas, podem ser agressivas, podem ser engraçadas, podem até não serem capazes de se expressar de forma esteticamente correta, mas todas sabem muito bem o que é ser mulher.

Nessas condições, o silêncio é a melhor postura para um homem. Ao invés de tentar expressar solidariedade ou se subrogar na voz alheia, ficar quieto é uma forma de respeito. Em um mundo onde todos querem ter direito de falar e desabafar seus pensamentos sobre qualquer assunto, o silêncio por vontade própria é uma virtude subestimada. Além disso, ele é um exercício de humildade: quando não somos capazes de entender algo, o melhor é aprender com quem sabe. Longe de ser uma atitude indiferente, o silêncio pode ser uma forma de ação: se não estamos falando, estamos escutando, e quem escuta algo com o intuito de aprender sempre acaba sofrendo modificações.

Por isso, em épocas nas quais se fala tanto de mulheres como a semana que cerca o Dia Internacional da Mulher, prefiro ficar em silêncio, e estou muito tranquilo com essa decisão. Pois aprendo algo muito precioso para usar no dia a dia: aprendo a alteridade, ou seja, a capacidade de sentir o mundo como se fosse outra pessoa.

Toda literatura é um exercício de alteridade. Quando lemos algo, parte essencial da relação que estabelecemos com o livro é sentirmos a história como se estivéssemos a vivendo. Quando o escritor falha nisso, falhou completamente. Se o leitor pensar, por um segundo, que é impossível que um capitão de perna de pau persiga uma baleia branca descomunal, o livro fracassou. Quando eu leio “Jane Eyre”, eu preciso ser Jane Eyre, mesmo que numa versão masculinizada, pois preciso ver a história que ela está me contando, e não é o Gustavo quem está ali, nem a Charlotte Brontë, mas Jane Eyre. A alteridade é cruel e implacável; a única forma que temos de entender o mundo da personagem é nos colocando dentro da sua mente e alma, mas isso implica em deixarmos de lado quem somos.

Uso o exemplo da literatura, mas a alteridade está por tudo. Quando escuto a história de um cliente no escritório de Direito, eu preciso entender que ele agiu daquela forma por que foi pressionado pela sua formação social, intelectual, familiar e cultural, e não pela minha lógica de advogado. Quando somos atendidos em uma quitanda por um rapaz magro, de aparelhos nos dentes e espinhas por todo o rosto, precisamos entender o mundo do seu ponto de vista, e saber que ele talvez não tenha vida social, talvez não tenha muitos amigos ou uma namorada, talvez precise estudar um turno e trabalhar o outro para ter algum dinheiro para ajudar a sua família. Como podemos tratar mal uma pessoa que já se sente mal? Não seremos nós a gota que vai fazer o copo explodir? Uma piada simpática que pode dar algum alento para alguém vai tirar um pedaço nosso? A alteridade é o que nos faz escutar o outro ser e tentar entender como ele se sente, pois não somos – e nunca seremos – iguais a ele.

Por isso, é interessante aproveitar o Dia Internacional da Mulher não para encher o mundo de demagogia barata, de palavras falsas que serão esquecidas adiante, de depoimentos lacrimosos e repletos de metáforas (quem sabe mexer com palavras sabe manuseá-las ao seu bel prazer). Podemos fazer o mais difícil: silenciar e tentar ver o mundo em que não vivemos, o das mulheres. Um local sórdido, assustador, repleto de desigualdades, com violência sempre à espreita em cada esquina. É saudável tentarmos experimentar a alteridade com quem mora ao nosso lado ao invés de se perder em tergiversações que não passam de uma arrogância disfarçada.

Eu disse antes que a alteridade é cruel, mas não mencionei um detalhe igualmente importante: entrar no mundo de outra pessoa é terrível, em especial quando viramos o pescoço e olhamos para a imagem que ela faz a nosso respeito. Aí está a verdadeira mudança, muito melhor do que elencar poemas alheios ou encher a paciência alheia com textos repletos de clichês sobre a importância da mulher: escutar o que ela tem a dizer, aprender um pouco e deixar de agir como um abobado.

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Crônicas de um ano inteiro: “Não devemos ser Sherlock Holmes”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre a minha luta implacável contra o mais ardiloso dos inimigos: a ficção.

Falei ainda dos métodos que uso para impedir que a imaginação me sufoque, assim como da minha necessidade de ficar o mais próximo possível do fato objetivo, mas também falei da “pós-verdade”, do mundo de detetives em que estamos vivendo, da morte do Teori Zavascki, de teorias da conspiração que envolvem até Walt Disney e de que é melhor ser São Tomé ao invés de Sherlock Holmes.

Boa leitura.

Não devemos ser Sherlock Holmes

sherlock

Há mais de duas décadas que enfrento o meu mais implacável inimigo: a ficção.

Ainda lembro o dia em que percebi que não era mais capaz de distinguir o real do imaginado. Para mim, imaginar e viver era a mesma coisa e, acreditem, era como uma droga: a menina não gostava de mim no mundo real? Pois na minha cabeça vivíamos um relacionamento cheio de altos e baixos, mas de pontos deliciosamente picantes. Eu não tinha conseguido o trabalho desejado? Pois então imaginava todos os percalços dele com tamanha intensidade que era um alívio não tê-lo conseguido. A ficção entrava como um substituto da realidade, um refúgio no qual poderia me esconder, uma vida alternativa repleta de alegrias. E não existem beijos como os que troquei na minha imaginação, assim como não há lugares melhores para trabalhar ou para viajar.

A ficção fornecia tudo aquilo que o mundo negava, e era melhor do que a realidade. Tão forte era a imaginação que contagiava os outros. Além disso, consegui apagar trechos inteiros da minha vida. Às vezes, acontece algo que me faz pensar “eu já passei por isso antes” e logo lembro um fato que sepultei cuidadosamente com camadas e mais camadas de ficção. Muitos eu condenei ao limbo da insignificância por causa de pensamentos encadeados com fatos mínimos, nos quais a ficção entrava com doses generosas de suposições, fazendo com que eu odiasse pessoas sem nenhum motivo real.

Quando notei isso, comecei o processo de desintoxicação. Em primeiro lugar, prendi a ficção nos textos que escrevo. Hoje, ao invés de devanear com impossibilidades, escrevo sobre elas. Em seguida, tornei-me um descrente, e não deixa de ser estranho que um escritor declare não se permitir sonhar em voz alta ou no interior da sua cabeça. Por último, passei a aceitar somente a primazia do fato: acredito naquilo que está ao alcance dos meus sentidos. Recuso-me a deixar a imaginação influir na experiência. É por isso que não adianta me atacarem com indiretas, com ironias mordazes, com tiradas cruéis. Mantenho-me restrito ao fato, apesar da ficção ficar toda hora me tentando com seus lábios de serpente e sua voz cálida.

É interessante que, após um longo e dificultoso processo de retomada da realidade, eu esteja progressivamente mais concentrado no mundo, enquanto as pessoas ao redor estão fazendo o movimento contrário, adentrando cada vez mais no confortável espaço da ficção. Estou cercado de pessoas contando histórias dotadas de alto potencial imaginativo, com severas quebras de verossimilhança e, o pior, acreditando piamente nas criações. A ficção também invadiu os meios de comunicação: os jornais e noticiários estão repletos de suposições, as quais corroboram ou negam imaginações dos seus ouvintes, que tentam responder mostrando a sua versão dos fatos. O resultado é que estamos vivendo mais em ficções criadas pelas nossas mentes do que em um mundo objetivo no qual escutamos os fatos antes de decidirmos. No afã de sermos os primeiros a descobrir as grandes histórias que andam por aí, nos tornamos péssimos ficcionistas contando mentiras com fatos quebrados, com inverdades criadas por outras pessoas, com dados parciais.

No final do ano passado, o Dicionário Oxford escolheu como palavra do ano “pós-verdade” –  a noção de que os fatos objetivos são menos importantes do que as nossas crenças pessoais. Mais vale disfarçar um pensamento nosso dentro de uma moldura séria do que procurar a verdade dos fatos. Vejo vários sites especializados em fomentar a ficção alheia, e pessoas compartilhando as notícias deles como se fossem a base da sua elaborada teoria da conspiração. São notícias tão mal fabricadas que me espanta ver pessoas que considero inteligentes as difundindo. Aliás, eis uma mercadoria em falta no mundo atual: uma fonte de notícias dotada de credibilidade, alguém que, antes de divulgar, preocupa-se em investigar muito bem o fato.

Comento isso por que, na semana passada, li as mais variadas e incríveis teorias sobre a queda do avião em que estava Teori Zavascki, ministro do STF. Com grande dose de excitação, muitas pessoas se transformaram em detetives, juntando provas a esmo e tecendo acusações. Com a imaginativa mente de quem assistiu a muitos seriados de investigação, todos juntavam evidências que confortassem as suas teses, ligando-as de maneira inverossímil, a tal ponto que, se hoje alguém disser a verdade, ninguém mais irá acreditar. Ela se transformará em outra teoria da conspiração.

Antes de tudo, eu sou um ficcionista, e teorias da conspiração me agradam demais. Se tiver uma ligando a CIA, a Aeronáutica, o Trump, o Temer, o Moro e o Walt Disney, então, contem comigo. O problema é que, em uma época repleta de detetives, as pessoas esqueceram-se da primeira personagem que usou e abusou do conceito de “pós-verdade”: Sherlock Holmes.

O detetive criado por Conan Doyle era alguém que sempre tinha uma teoria para os crimes – e usava de todos os meios para mostrar que a sua visão era correta. Holmes costumava desaparecer no meio das suas investigações para surgir na hora decisiva com uma prova irrefutável que dava razão para a sua teoria. O detetive perfeito em quem as pessoas se escoram para desvendar os segredos do mundo era um forte adepto da “pós-verdade”, alguém que omitia informações, escondia dados e realizava investigações paralelas para provar o seu ponto de vista.

Existem muitos perigos em agir assim. Quanto mais a ficção invadir a realidade, menos seremos capazes de ver o fato, e as injustiças acabarão se multiplicando. Logo estaremos envolvidos em uma cadeia de ficções geradas por outras pessoas, e elas são como a Hidra de Lerna, matamos uma e surgem sete no seu lugar. Portanto, não devemos ser como Sherlock Holmes, um homem ansioso para demonstrar a sua ideia a qualquer custo. O melhor é termos São Tomé como guia, e só acreditarmos no que está diante dos nossos olhos.

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Crônicas de um ano inteiro: “Feminicídio é ódio, e não amor”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, escrevi sobre o feminicídio. Na semana passada, por uma estranha coincidência, me contaram três feminicídios acontecidos recentemente, o que me levou a ler mais sobre o assunto e a perceber o quanto um crime de ódio é tratado como um caso de amor fracassado. Também me fez recordar um que testemunhei acontecer, e que é contado no texto.

Para acabar com o feminicídio, urgente é acabar com a visão do Romantismo, e isso passa pela mudança do discurso.

Boa leitura.

Feminicídio é ódio, e não amor

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Não estou acostumado a acompanhar noticiários e reportagens durante a semana, pois, no meu tempo livre, dou ênfase para a leitura de livros. No entanto, em meio ao clipping de notícias, chamou minha atenção o crescimento exponencial do feminicídio, ou o assassinato de mulheres pelo fato de serem mulheres. Acredito que isso sempre existiu em vastas quantidades, a diferença é que está sendo mais divulgado agora. Não bastando perceber um crescimento das manchetes, ainda escutei mais três relatos que sequer tinham surgido nas notícias, contando detalhes assustadores de outros feminicídios cometidos recentemente. Ou seja, não é um fenômeno isolado, mas um vírus cruel que se espalha, voraz, pela sociedade.

Em todos os casos que escutei, após matar a mulher, o homem cometeu suicídio. É uma subversão do ideal romântico de “morrer por amor” e, pensando no livro de Isaiah Berlin sobre as consequências nefastas que o Romantismo legou para o mundo, além do culto ao eu e ao hedonismo egoísta, poderíamos listar igualmente o feminicídio. No caso dele, o homem não mata por amor, mas por que não deseja que a mulher ame mais ninguém. Eis a suprema exibição de egocentrismo: sem a presença do homem, o mundo não pode continuar existindo para a mulher. Ainda assim, uma leitura breve nas notícias chega aos mesmos lugares comuns que tentam explicar a tragédia: “ele era ciumento”, “ele era agressivo”, “ele estava tentando voltar” e dezenas de outras expressões que, de forma educada e – espero – inconsciente, tentam atribuir um motivo lógico para o feminicídio aproximando-o de um gesto de amor tresloucado quando, na verdade, não há mais amor em tal ato.

Não existe uma explicação lógica para o feminicídio. Tentar encontrá-la é diminuir a gravidade do ato. Temos uma tendência cartesiana de achar um motivo para tudo, o que é uma forma de nos tranquilizar e dizer que não faríamos aquilo. No entanto, um feminicídio é um ato de ódio cometido contra uma mulher, e é preocupante que se tente diminuir este fato dizendo que foi um gesto de ciúme ou um desvario amoroso encerrado em tragédia.

Ainda somos escravos de uma visão romântica do mundo. Acreditamos em amores impossíveis, que os sentimentos nem sempre surgem na hora certa e precisam ser “estimulados” por meio da insistência, que as histórias possuem finais felizes e, se não chegamos lá, é porque ainda não terminou. Pior ainda, acreditamos que o amor move os seres humanos, e é pensando assim que tentamos considerar tudo de acordo com os seus termos.  Então, seguindo a imprensa, os feminicídios viram tragédias de um amor que não deu certo, com uma espécie de alerta implícito para “tomem cuidado com quem vocês se relacionam”, como se fosse tão possível prever o ódio quanto seria adivinhar a existência do amor.

Lendo as manchetes, percebe-se ainda a tentativa de classificar o feminicídio como o gesto cometido por um homem que amava demais. Eis algo inexistente: não existe como mensurar um sentimento. Ninguém ama demais ou de forma insuficiente, cada um o faz da forma que percebe o amor. Pode acontecer dele andar tão perto do ódio que os dois se tornam inseparáveis para quem é objeto de interesse e, neste caso, por imaginar – sempre seguindo essa visão que nos foi imposta pelo Romantismo – que é um amor desesperado, a mulher acaba cedendo, para, um dia, perceber que era ódio e tentar se afastar de uma relação viciosa.

Deveria existir um cuidado linguístico maior ao se tratar do feminicídio. Não acredito em programas governamentais para debelar tais práticas ou na denúncia sistemática deste crime como forma de prevenção, mas creio firmemente na força das palavras e que, diante de uma fogueira, elas podem servir tanto como água quanto como gasolina. Observando a forma com que nos referimos ao feminicídio, vejo admiração incontida: Fulano amava tanto que demonstrou tal sentimento matando a mulher amada. Ou: só ama de verdade quem mata o objeto do seu amor e, em seguida, se mata. Não pode ser uma coincidência que quase todos os homens se suicidam depois de cometerem o assassinato.  Estão entregando a sua vida ao Deus do Amor quando, na verdade, nunca amaram.

Eu estive perto de um feminicídio, e sei o quanto palavras são perigosas. Muitos anos atrás, um cliente começou a se referir com raiva à sua mulher, imaginando que ela tivesse um caso. As reclamações pontuais logo viraram discursos impregnados de perdigotos e de xingões, não só sobre a sua esposa, mas contra todas as mulheres. Eu era jovem (não que isso justifique algo, somente a minha inexperiência) e achei que fossem desabafos soltos ao vento, tanto que não me importei, não denunciei e inclusive brinquei algumas vezes sobre o assunto.

Quando o senhor F. matou a sua mulher, atirando nela dentro de um ônibus, eu percebi que todos os sinais do crime sendo premeditado estavam o tempo inteiro na minha frente. Não sei se poderia ter evitado tamanha desgraça, pois ainda não sabia o mal que se esconde no coração dos homens, mas, por algum tempo, perguntei-me o quanto a minha passividade diante das ameaças do senhor F. não serviu de chancela silenciosa para a sua conduta e se as minhas brincadeiras inconsequentes também não ajudaram a lhe dar mais convicção. Desde então, sou muito cauteloso com o que falo e com o que escuto, pois nunca se sabe qual é a extensão do fosso da alma de qualquer ser humano.

Devemos deixar de considerar como “ato romântico que deu errado” um crime de ódio. Também é essencial que tenhamos muita atenção sobre as palavras que proferimos ou que estão ao nosso redor. Podemos ser a gota involuntária que faltava para encher o copo de uma pessoa, assim como podemos escutar a tragédia antes dela acontecer. No entanto, mais do que tudo, o importante seria deixarmos de lado as fantasias românticas que cercam inclusive os discursos ao nosso redor e passar a atacar o feminicídio como aquilo que ele é: um imperdoável crime de ódio.

 

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (05/01/2017): “Longa vida aos invejosos”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falei da inveja. Tudo por causa de um presente que ganhei: um “olho de Hórus” gigante contra o mau olhado.

Mas também falei da minha visita ao Salão Nobre de Escritores de Salto, no Uruguai, e faço suposições sobre a guerra que esse Salão Nobre representaria no mundo literário gaúcho; trato de Julio Cortázar e do seu desejo de escrever como Bioy Casares (todos os escritores sonham em ser Bioy Casares) e termino falando dos epigramas de Paladas de Alexandria e a sua receita para lidar com a inveja: ser melhor do que o objeto invejado.

Boa leitura!

Longa vida aos invejosos

De todos os pecados capitais, provavelmente a inveja é o mais temido. Não são poucas as pessoas que me perguntam se tenho medo dos invejosos; em compensação, nunca ninguém me perguntou se receio os gulosos, os preguiçosos ou as luxuriosas. Não entendo o motivo pelo qual a inveja alheia iria me atemorizar. Se alguém se sente dessa forma, é um sentimento que lhe aflige, e não a mim. Enquanto a inveja não sair do espírito de outro e se meter no meu percurso, não existe razão alguma para temê-la. As pessoas se preocupam com os sentimentos que posso despertar e, assim, recebo várias orações, amuletos e imagens de santos, todas com o intuito de me defender desse inimigo oculto: o invejoso.

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A inveja é temida por que, no mundo atual, ela virou a regra. Estamos nadando em um oceano de rancor. Basta acessar qualquer rede social, ler alguma reportagem ou até mesmo conversar com um grupo de pessoas para que logo surjam expressões demonstrando a inveja sentida pelo poder de um empresário ou político, ou pela aparência de alguma atriz, ou pelo dinheiro que está nas contas bancárias que não nos pertencem. A grande regra da atualidade é cobiçar a vida do outro. A grama do vizinho é muito mais verde e bonita do que a nossa. No entanto, ao invés de melhorarmos o nosso quintal, preferimos desancar a grama que não nos pertence e atribuí-la a poderes mágicos, à sorte ou ao destino.

Três anos atrás, eu estava em Salto, no Uruguai, visitando o Museu de Horacio Quiroga, construído na casa onde ele nasceu e passou seus primeiros anos de vida. Estava sozinho no museu, e o guarda que me acompanhava convidou-me a conhecer o lugar que mais orgulho dava para a cidade. Desci as escadas e, no porão, fui apresentado ao Salão Nobre dos Escritores de Salto, o qual ostentava fotos, escrivaninhas, objetos pessoais e manuscritos de escritores da região. Com exceção de Horacio Quiroga e de mais um que outro nome que avivasse algum poema escondido na memória, eu não conhecia nenhum dos nobres integrantes do Salão Nobre dos Escritores. Ainda assim, eles estavam ali, e tinham sido alçados a membros de tal panteão por contribuírem para a arte literária nacional e serem provenientes da cidade.

O guarda perguntou se a minha cidade, Porto Alegre, dispunha de um local semelhante, um Salão Nobre onde estivessem reunidos os escritores como uma forma de reconhecimento ao seu trabalho em favor da literatura. Por segundos, passou na minha cabeça um breve filme: nunca existiria um consenso sobre qual escritor faria parte de dita honraria literária. Existiriam brigas intermináveis tanto para entrar quanto para tirar autores que fariam parte do Dream Team de Literatura da região. Existiria ranger de dentes, lágrimas, muito despeito, muita ironia, muitos memes, muita gente se revestindo de crítico literário da noite para o dia, muitas discussões sobre representatividade na lista, muitas vidas de escritores esmiuçadas em busca de máculas que justificassem a exclusão do seu nome, muitos critérios mais políticos do que de qualidade e permanência do material, infinitas discussões sobre o que é “literatura de verdade”, muitos “por que ele e não eu?”, muitos jornalistas e “formadores de opinião” dando palpite, muitos textões pretensamente inteligentes e repletos de piadas de gosto duvidoso. A Guerra de Tróia começou com o pomo das Hespérides jogado sobre uma mesa, e seria uma pálida refrega perto da batalha de inveja que um Salão Nobre desses causaria. Preferi a resposta curta, “não temos”, ao invés de dizer a verdade, “não temos maturidade para lidar com essa questão”.

Não sabemos lidar com a inveja. Consideramos algo destrutivo, e esforçamo-nos para ficar longe daqueles que nos invejam, mas ela é um sentimento que pode ser usado como trampolim para grandes realizações. Ao invés de vilipendiar o outro que secretamente invejamos, seria mais vantajoso tentarmos superá-lo. Essa é a base de toda a “angústia da influência” pensada por Harold Bloom: as grandes obras literárias se constroem por que desejamos, de forma inconsciente, destruir os autores que nos deram origem. Ao mesmo tempo em que possuímos o desejo de destruição, também padecemos de eterna angústia por não saber se conseguiremos levar a cabo tal tarefa. Nem preciso dizer que, ao transformar a tradição literária ocidental em um bando de escritores recalcados tentando vencer a inveja, Harold Bloom foi muito insultado e ridicularizado.

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Ainda assim, prefiro pensar que a inveja é uma força construtiva; se o outro é melhor do que nós, então devemos não diminuí-lo, mas suplantá-lo. Reconhecer a sua importância, adotá-lo como modelo e, em seguida, tentar ir além do ponto que admiramos. Em um dos contos mais instigantes de Julio Cortázar, “Diário para um conto”, a história inicia com o narrador afirmando textualmente a sua inveja por outro escritor:

“2 de fevereiro, 1982.

Às vezes, vai me invadindo uma espécie de comichão de conto, esse sigiloso e crescente deslocamento que me aproxima pouco a pouco e resmungando dessa Olympia Traveller de Luxo (de luxo a pobre não tem nada, mas por outro lado tem travelliado pelos sete profundos mares azuis aguentando tudo quanto é golpe direto e indireto que pode receber uma portátil metida em uma mala entre calças, garrafas de rum e livros), é assim às vezes, quando cai a noite e ponho uma folha em branco no rolo e acendendo um Gitane me chamo de estúpido (para que um conto, afinal, por que não abrir um livro de outro contista, ou escutar um dos meus discos?), mas às vezes, quando já não posso fazer outra coisa a não ser começar um conto como quereria começar este, é quando eu gostaria exatamente de ser Adolfo Bioy Casares.”

Em outros momentos do conto, o narrador vai aludir a Bioy Casares sempre com muita admiração e inveja, dizendo como o outro era melhor escritor, mais apto a lidar com os sentimentos de uma história e que, se ele está tentando escrever como se sentia em relação a Anabel, não consegue fazer justamente por não ter a capacidade de Bioy Casares. Interessante jogo é estabelecido: ele não é Bioy Casares (é Cortázar), e não consegue escrever a história como o colega escritor faria, mas, ainda assim, no meio do fracasso anunciado pelas suas tentativas de imitar o outro, a trama acaba surgindo. É a inveja sendo usada para construir, e não para destruir.

Só quem leu Bioy Casares sabe que, sim, todo escritor almeja ser como ele, na forma tranquila de narrar, na imaginação poderosa e pacífica, na maneira ordenada com que dispõe a mais complexa das tramas sem sequer parecer que está narrando. Todos sonham em ser Bioy Casares, mas acabam chegando – com muito esforço – em um Borges. Quando Cortázar brinca que gostaria de escrever como Bioy Casares, externa algo que todo autor tem no seu interior: a inveja em relação àqueles em que o narrar é quase tão natural quanto a respiração. O mesmo Flaubert sentia em relação a Balzac, ou Dostoiévski em relação a Gogol. Por isso mesmo, usaram esse desconforto para criar as sua sobras, não para diminuir os esforços dos outros.

Não se deve temer o invejoso. Nem sequer podemos dizer que ter ciúmes do sucesso alheio é algo atual, mas, sim, que foi potencializado pelo maior acesso à informação. Quanto mais conhecemos o mundo, mais inveja temos daquilo que não somos e não conseguiremos ter.

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No século IV a. C., viveu Paladas, um obscuro poeta nascido em Alexandria e que, no seu tempo de vida, almejou algum reconhecimento. Não sabemos quase nada da sua vida. Os detalhes sobre ele são tão poucos que quase poderíamos desconfiar da sua existência, se alguns poemas não tivessem chegado até nós na forma de restos e de fragmentos. Paladas de Alexandria era especializado em epigramas, forma literária em que pequenos poemas tentam alcançar o máximo de significado. Aproxima-se muito das máximas ou de propagandas, com a diferença de que são mais filosóficos e existenciais do que pretendem passar uma lição de moral ou vender algum produto.

Paladas tratou da vida e da morte, do declínio da civilização grega, das mulheres ciumentas, da velhice, mas também abordou a inveja, como no epigrama 90:

“Quão desmesurada é a maldade da inveja!

Odeia-se o afortunado a quem o deus ama.

De tal modo a inveja nos privou da razão

que nos fez prontamente escravos da loucura.

Nós, os gregos, homens reduzidos a cinzas,

só temos sepultas esperanças de mortos.

Todas as coisas estão hoje transtornadas.”

Se estavam transtornadas na época de Paladas de Alexandria, o que dizer dos tempos em que vivemos. Mas o poeta encontra uma forma de escapar da inveja que sentimos, e seria através da capacidade de rirmos de nossas próprias limitações e idiossincrasias, como demonstra o epigrama 87:

“Se não soubermos rir da vida que nos foge

e da Sorte, rameira que a corrente arrasta,

seremos a causa de nossa própria dor,

vendo os indignos mais ditosos do que nós.”

Outro efeito da inveja, detectado por Paladas de Alexandria mais de 2.300 anos atrás, é voltar as suas garras contra quem a fomenta. Quanto mais inveja sentimos, menor a nossa capacidade de vencermos um sentimento tão debilitante. Muitas pessoas afundam em sentimentos ruins, colocando-se em eterna comparação com os outros, ao invés de pensarem em maneiras de se engrandecerem. É fácil dizer que alguém conseguiu um emprego melhor, é mais bonito ou possui mais oportunidades que nós mesmos, o difícil é lutar para sermos cada vez melhores e lutar pelo nosso próprio lugar ao sol.

Pensando assim, Paladas de Alexandria resolve apelar para uma terapia de choque e mostrar que os planos de grandeza e as invejas que sentimos não são nada, pois não somos – para usar uma expressão popular – “a última bolacha do pacote”. Um pouco de perspectiva sobre a nossa realidade é sempre apreciável:

“Se lembrares, homem, como foste por teu pai gerado,

esquecerás as ideias de grandeza.

Platão, o sonhador, encheu tua cabeça de empáfia

ao te chamar de imortal, planta celeste.

De barro és feito; por que a presunção? Só fala assim

quem se compraz em fingimentos vistosos.

Mas se buscas a verdade, recorda que vieste de um

ato de luxúria e de uma gota suja.”

Se hoje escrevo sobre inveja, é sobre o presente que uma leitora enviou: um enorme olho contra mau olhado, “para colocar na parede de casa e afastar os invejosos”. Por mais agradecido que eu esteja, não darei tal destino ao presente, apesar de apreciar bastante a ideia de como o “olho de Hórus” surgiu no Egito antigo como símbolo de proteção. Não creio necessitar de um escudo contra a inveja. Afinal, se estou fazendo algo digno de ser invejado, quer dizer que estou no caminho certo. Assim, tudo o que posso desejar é uma longa vida aos eventuais invejosos, pois irão se dar mal à espera de um tropeço, e o meu desejo sincero de que tentem ir, por suas próprias forças e movido pela sua raiva, aos lugares que eu nunca chegarei.

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (31/10/2016): “Lições que a Literatura me ensinou na última semana”

Na minha coluna da semana passada no Medium da Dublinense (pois somos humanos e também nos atrasamos, oras), eu falei de três belas lições que a literatura me proporcionou nos últimos tempos (além da frase que une T. S. Eliot, neblina, Montaigne e granadas).

Na primeira lição, “viver para ser o último texto de alguém”, trato da estranha situação de descobrir que meu texto foi a última leitura de uma pessoa e que escrever é se comprometer, não dá para ser irresponsável, lembrando do Flaubert. Na segunda, “O importante é começar bem”, falo de como iniciar bem é a chave de sucesso de um texto ou de uma relação, citando dois começos que gosto muito, um do Dickens e outro do Pepetela. Na terceira lição, “transformar um ano horrível em limonada”, falo de 1772, o pior ano da vida do Marquês de Sade, que começou com uma orgia dando muito errado, passou por um julgamento em que o Marquês foi substituído por um quadro e terminou com ele sendo queimado em praça pública, e como o escritor ressuscitou e libertou a sua bestialidade no mundo.

Essas coisas lindas que os livros nos ensinam.

Boa leitura!

 

Lições que a literatura me ensinou na última semana

 

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No passado, no Programa do Silvio Santos – que durava todo o domingo, das 10 da manhã às 22 horas – existia um intermezzo chamado de “A Semana”. Era um breve noticiário apresentando de forma ligeira os fatos mais importantes no país e no mundo. Creio que durava um minuto, no máximo cinco. Se bem me lembro, era uma peça de propaganda do governo, e sempre me maravilhava como podia caber tanta coisa em uma semana tão parada como a minha.

Mas, nesta última semana que, no entremeio das minhas leituras, aprendi com T. S. Eliot que tentar destruir Montaigne é tão inútil quanto jogar uma granada no meio de uma neblina, também tive uma série de experiências ligadas à literatura, muito mais interessantes do que discutir prêmios Nobel ou falar mal de livros alheios por esporte. Literatura é vida, está por todos os lados, e livros são pálidos espectros deste longo cadinho de histórias em que estamos chafurdando.

 

I – Viver para ser o último texto de alguém

Quis o destino que um texto meu virasse o último que uma pessoa leu em vida. Não entrarei em detalhes particulares, somente no conteúdo narrado: um leitor pegou texto que escrevi e levou para o seu pai hospitalizado. O homem passaria por uma cirurgia, mas estava alegre e confiante. Leu o texto, comentou algumas passagens e riu de outras. Poucas horas depois, foi para sala de cirurgia, da qual não saiu com vida. Não era para ele ter morrido, não havia nenhum indicativo de que isso aconteceria, a cirurgia era rotineira. No entanto, uma conjunção de fatores levou a tal resultado; a morte não respeita a lógica e muito menos a decência. Apesar de triste, o leitor entrou em contato para agradecer pelo que escrevi e dizer que a última recordação do pai seria das suas risadas ao ler minhas palavras.

Tive sensações díspares ao escutar este depoimento. Em primeiro lugar, me senti culpado, pois não lembrava o texto que tinha escrito. Foi como qualquer outro: feito em meio às rotinas do dia, com gosto de café e atormentado pela sensação de não ter escrito aquilo que desejava. Contudo, em momento posterior, senti uma estranha honra por participar de memória tão definitiva: o leitor podia ter escolhido Paulo Coelho, Martha Medeiros, Dickens, Cervantes, tanta gente, mas não, coube ao meu modesto texto a honra de ser o último nesta corrida de revezamento, fui eu – e não outro – quem atravessou a linha de chegada segurando a mão do pai do leitor. Eu sou humano, e humanos possuem vaidades.

Tais impressões foram eclipsadas e o terror surgiu quando percebi a gigantesca responsabilidade que é escrever um texto. Palavras têm poder, disse Neil Gaiman, e textos são um conjunto de palavras. Na sua acepção clássica, texto significa “tecido”, ou seja, uma delicada junção de ideias, palavras, sons e seres humanos em busca da criação de algo. Textos não são leves, divertidos, amigáveis; são entidades cruéis que se apossam de almas alheias e podem elevá-las ou destruí-las.

Não foram poucas as vezes que vi escritores fazendo textos como quem amarra sapatos ou escova os dentes. Também não foram poucos que me contaram ter escrito algo sem muita vontade de escrever, só para marcar presença ou para ter status. Entretanto, os verdadeiros escritores que conheço não são aqueles que publicam livros, mas os que se torturam pelo seu comprometimento com o texto. Pois, no final do dia, isso é o que fica: escrever é comprometer-se. Cada texto pode ser o último de alguém, autor ou leitor. É necessário ter responsabilidade com aquilo que se escreve.

Gustave Flaubert era uma pessoa atormentada pelo o que escrevia. “Madame Bovary” bateu nele até cansar. Nas suas cartas, Flaubert comenta noites a fio que passou acordado, girando na cama, pensando exaustivamente em um determinado parágrafo ou uma passagem que parecia frágil. Admite também ter chorado muitas vezes por imaginar insolúvel alguma frase de “Madame Bovary” e ter realizado longas caminhadas tentando resolver seus dilemas ficcionais como se a sua vida dependesse disso. Flaubert estava comprometido com um ideal estético de perfeição, mas seu amor maior era ao texto e à sua responsabilidade como autor.

Nos tempos atuais, existe a impressão de que texto comprometido é aquele que serve a uma causa ou denuncia alguma situação, mas é uma visão primária. Todo texto possui um grau de comprometimento. Não imagino alguém se sentando para escrever algo sem estar ligado a uma visão de mundo, ainda que ela seja tão mínima quanto ganhar dinheiro, defender uma posição política ou apregoar uma religião (necessidades financeiras, políticas e religiões passam, o texto continua).

Em uma sociedade que escreve cada vez mais, seja no Facebook, no Twitter, no mundo acadêmico ou outro lugar, é imprescindível pensar na responsabilidade dos nossos textos. Eles podem salvar, mas também podem matar, trazer sofrimento, destruir. Nunca saberemos quem irá lê-lo e qual momento irá escolher para realizar tal ato. Podemos ser a pedra que derrubará alguém em um precipício moral e psíquico, e isso vale para qualquer “textão” (um aumentativo estranho, textos não são maiores ou menores, eles são do jeito que precisam ser).

Eu teria mudado algo que escrevi se soubesse que seriam as últimas palavras lidas por alguém? Provavelmente não. Contudo, não gostaria que o último livro que lerei durante a minha vida seja uma prosa estéril, vaidosa, sem nada que me acrescente. Quero que ela seja espetacular. Quero chegar ao outro lado da existência contando para todos o livro maravilhoso que li, e talvez resenhá-lo para os anjos ou demônios. Quero que ele seja o mais importante de todos, pois vai encerrar a minha longa carreira de leitor.

Estava falando de literatura, mas também gostaria que a última pessoa que eu encontrasse na vida me deixasse bem. Não quero morrer pensando nos dramas de algum ator de novela que não conheço ou com os ouvidos repercutindo planilhas econômicas. O mundo seria um lugar bem mais interessante se, ao invés de nos matarmos por causas ou por ideias, sejamos somente comprometidos a ser o melhor livro que uma pessoa irá ler na sua passagem pela Terra.

 

II – O importante é começar bem

Não existem começos bonitos, só na literatura. Quem veio ao mundo – e acredito que vocês, leitores, passaram por esta experiência uma única vez na vida – sabe que nascemos de forma atabalhoada, sem entender muito bem onde estão pés e mãos, imersos em sangue e com várias pessoas contemplando a nossa nudez, nos apertando, dando tapas e enchendo o mundo de luz. Não é à toa que nascemos chorando – como podemos rir neste cenário?

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Começar um livro é uma arte e, como toda experiência artística, necessita prática e árduo esforço para fazer o difícil soar fácil. Li em uma reportagem que, entre os livros ficcionais mais vendidos na história do mundo, o primeiro lugar, com estratosféricos 200 milhões de cópias, é “Um conto de duas cidades”, do Charles Dickens. Também é um dos meus inícios favoritos de romance, uma locomotiva a impulsionar o leitor para o restante da história:

“Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário – em suma, o período era em tal medida semelhante ao presente que algumas de suas mais ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação.”

É um início que funciona bem em língua portuguesa, e é ainda mais magnífico no original.Pela sua qualidade, não impressiona que tantas pessoas tenham lido “Um conto de duas cidades”, do Dickens, e imagino quantos leitores não compraram o livro justamente depois de terem percebido um início tão promissor. Mais inusitado é que, neste simples parágrafo, Dickens tenha descrito toda a Revolução Industrial na Inglaterra, mas fez com tanta vivacidade e brilho que nem parece estar descrevendo aquilo que contou, e sim a época em que estamos vivendo – ou qualquer tempo da História, imerso no mais absoluto caos que somente conseguimos entender em retrospectiva.

Existem muitos começos ótimos. O que marca um começo de livro é a capacidade de situar o leitor desde o início daquilo que lhe espera, mostrar cenário, personagem e narrador. Não tem uma fórmula exata, muito menos uma receita fácil. Alguns livros conseguem inclusive se sustentar sem um bom início, mas são exceções. Assim como na vida, a primeira impressão determina muito do nosso olhar. Ter uma boa apresentação, tratar bem os outros, mostrar os rudimentos de um senso de humor e deixar bem claro quem é desde o início evita muitas das decisões equivocadas que acabamos tomando. Seja em um relacionamento, seja em um livro, os problemas apresentados no começo são os mesmos que continuarão até o final.

Mas um começo de algo também pode ser uma declaração de princípios. Entre os inícios de livros, um que chamou a minha atenção foi o de “A geração da utopia”, de Pepetela:

“Portanto, só os ciclos eram eternos.

(na prova oral de Aptidão à Faculdade de Letras, em Lisboa, o examinador fez uma pergunta ao futuro escritor. Este respondeu hesitantemente, iniciando com um portanto. De onde é o senhor?, perguntou o professor, ao que o escritor respondeu de Angola. Logo vi que não sabia falar português; então desconhece que a palavra portanto só se utiliza como conclusão dum raciocínio? Assim mesmo, para pôr o examinando à vontade. Daí a raiva do autor que jurou um dia havia de escrever um livro iniciando por essa palavra. Promessa cumprida. E depois deste parênteses, revelador de saudável rancor de trinta anos, esconde-se definitiva e prudentemente o autor).”

E é verdade. O autor some depois deste início e a narrativa ficcional volta para o narrador, com quem permanecerá até o final do livro. Interessante o dilema do Pepetela: ele acreditou que poderia começar uma sentença com “portanto”, mas tal palavra se refere a alguma frase anterior, como o professor bem apontou (apesar da grosseria). Ele prometeu provar a sua tese e, ao melhor estilo de Alexandre o Grande cortando o nó górdio, encerrou a questão colocando uma interpolação pessoal no seu livro. Portanto, não se pode mais dizer que não existe uma obra literária que tenha começado com um “portanto”.

Um bom começo é a chave para uma ótima relação com o livro ou com qualquer pessoa. Mas, às vezes, um bom começo também é mostrar a língua para o leitor, pagar promessas e mostrar alguma personalidade. O importante mesmo é começar de algum jeito.

 

III – Transformar um ano horrível em limonada

O ano de 1772 começou bem para o Marquês de Sade. Depois de ser processado pela flagelação da mendiga Rose Keller em 1768 e passar um breve período encarcerado, o Marquês de Sade voltou a frequentar os círculos aristocráticos, graças à capacidade de apagar memórias realizada pelo dinheiro da sua esposa. Para a sociedade, ele era probo e devoto, investidor financeiro de paróquias, com patente militar e, como a sua filha acabara de nascer, um exemplar homem de família. Claro que, ao mesmo tempo, as pedras do castelo de La Coste, na Provence, contavam histórias bem mais escabrosas sobre este esteio da sociedade francesa: uma sucessão de orgias nababescas, maus-tratos e gritos que se perdiam na noite.

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O Marquês poderia ficar nesta vida dupla para sempre. Contudo, no dia 27 de junho, uma orgia secreta em Marselha escapou do controle. Quatro prostitutas procuraram a polícia com uma denúncia: tinham sido flageladas, espancadas e sodomizadas pelo Marquês de Sade e por seu criado, Latour. Mas o pior da denúncia – e que mais indignou a sociedade – foi um detalhe sórdido. O Marquês convencera as quatro mulheres a comerem bombons de anis contaminados com cantáridas para “fazê-las peidar” e melhorar a relação sexual. No entanto, o excesso do consumo acabara por envenená-las e, por pouco, não as levou à morte.

A Justiça processou o Marquês e seu criado, que apresentaram defesas. No entanto, o crime era tão severo que os dois processados resolveram fugir do país antes da condenação, que acreditavam ser certa. Imaginavam que, se não estivessem mais lá, o processo se encerraria de forma natural.

Contudo, a raiva popular era muito grande. A Justiça precisava ser feita de alguma forma. Foi assim que a Justiça criou a figura do “julgamento por contumácia”, ou julgamento apesar da ausência física dos acusados. Mandaram fazer pinturas do Marquês e do seu criado e prosseguiram com as acusações e xingões como se eles continuassem lá. O julgamento não podia parar.

Nervoso, o Marquês continuou acompanhando o julgamento à distância, inclusive pagando a melhor defesa possível para a sua pintura. Há quem diga que ele tinha se apaixonado pela imagem do seu retrato, mas é mais possível que fosse uma questão de vaidade. O Marquês de Sade não queria perder o julgamento. Mesmo ausente, ele precisava defender o seu nome e seu rosto, apesar de quem estar no banco dos réus ser somente uma imagem.

Não temos conhecimento dos autos do processo, mas depoimentos da época dizem que as pessoas realmente acreditavam estar processando o verdadeiro Marquês de Sade, não um simulacro. Falavam com o quadro como se ele fosse capaz de responder; acusavam-no, insultavam-no, odiavam-no, e a imagem nada respondia. Na Itália, fugindo da lei, o Marquês de Sade recebia notícias do julgamento da sua pintura e se angustiava, pois não adiantava nada responder para as paredes do castelo onde estava residia. As orgias não eram mais tão satisfatórias.

No dia 07 de dezembro, o Marquês de Sade e Latour perderam o processo. Como não estavam presentes, foram condenados à “morte por contumácia”, ou seja, uma morte simbólica. Em uma grande festa popular, as suas pinturas foram levadas até o centro da praça de Marselha, onde se procedeu à “queima das efígies”. As representações dos dois condenados arderam em chamas enquanto a cidade comemorava como se realmente tivesse extirpado o Marquês do mundo.

O Marquês de Sade nunca se recuperou da derrota judicial. Somente sua imagem tinha sido queimada, mas ele mudou. O demônio, que até então tinha se mostrado de forma breve e oculta, revelou-se na sua plenitude sombria aos olhos do mundo. Ele se considerava um morto-vivo e, como toda pessoa que morreu e voltou do mundo dos mortos, nada mais lhe assustava, pois não tinha mais algo a perder. Perseguido pela Justiça, ele continuou realizando orgias em que a morte e a dor andavam lado a lado, sendo encarcerado diversas vezes. Também passou a se dedicar mais à literatura, escrevendo “120 dias de Sodoma”, “Aline e Valcour” e “Os infortúnios da virtude” (este último em incríveis 16 dias).

Quando as pessoas me comentam que 2016 foi um “annus horribilis”, penso no Marquês de Sade e o seu fatídico 1772. O período em que ele se viu odiado, escarnecido, humilhado e, enfim, queimado vivo em praça pública. E ainda precisou assistir tudo sem conseguir se defender. Isto sim que é ter um ano horrível, inclusive para os padrões sádicos. Contudo, ao invés de choramingar, o Marquês pegou a sua raiva e considerou-se libertado dos laços que o ligavam à Humanidade. Transformou a sua chateação em algo produtivo: histórias e livros para infestar o mundo. Ao queimarmos o Marquês, libertamos o demônio, e ele carregava consigo um incômodo espelho.

1772, o ano em que o Marquês de Sade morreu. 1772, o ano em que ele perdeu a pele e assumiu a sua verdadeira natureza de sangue, tinta e terror.O Marquês de Sade nunca mentiu a respeito do que éramos. Tenho a íntima convicção de que o Marquês de Sade foi um dos poucos homens verdadeiros que já pisou no planeta. Os outros não passam de simulacros sorridentes, de imagens sorrindo em uma praça pública enquanto outras pinturas falsas xingam com suas moralidades questionáveis e seus padrões éticos distorcidos.

 

Portanto – e aqui ele está sendo corretamente empregado, Pepetela -, o que a literatura me ensinou nesta semana é que devo viver cada dia como se estivesse lendo meu último texto e que, se terminar pode ser ruim, um bom começo é também é um auspício de que coisas boas lhe sucederão. E, enquanto todos reclamam das vicissitudes do ano que se aproxima do final, o melhor é seguir o exemplo do Marquês de Sade e começar, enfim, a viver. Muitas vidas cabem dentro de uma única semana quando abrimos os olhos para aquilo que importa.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/li%C3%A7%C3%B5es-que-a-literatura-me-ensinou-na-%C3%BAltima-semana-a91f7304cbf3#.p7ro9j8u5

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