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Obras Inquietas – 37. “O suicida” (1880), Édouard Manet

Nessa semana na coluna “Obras Inquietas”, eu tratei de um pequeno quadro de Édouard Manet – pequeno no sentido de dimensões, ele possui em torno de 30 cm X 46 cm – que, sem firulas, aborda um assunto considerado tabu até hoje: o suicídio. O quadro é ainda mais singular pelo seu mistério, pois ninguém sabe quem é o suicida retratado (já tentaram ver várias pessoas, até um assistente do estúdio em que o artista trabalhava) e é um quadro que escapa das temáticas preferidas de Manet. Perturba mais por ser uma cena que acabou de acontecer, e o suicida ainda não está completamente morto, mas no limite entre a vida e a morte.

Boa leitura.

O suicida (1880), Édouard Manet

Ninguém nunca saberá qual nome eu carregava. A partir de hoje, serei conhecido somente como “o suicida”, e as pessoas evitarão pensar em mim, enquanto secretamente insultam a fraqueza ou covardia que me levou a esse gesto. Os homens e mulheres são tão fortes, tão bravos, tão destemidos, e a ideia de que existam pessoas que não aguentam o peso insuportável da vida é algo que atemoriza pela sua proximidade: todos pensam em um fim cômodo, uma forma honrosa de colocar fim aos problemas, uma saída de cena no auge da experiência. A única diferença a nos separar é que dei o último passo, enquanto os demais preferem continuar carregando a sua miséria por todos os lados, em uma vida que se prolonga, indesejada, inoportuna. Nenhuma pessoa conhecerá qual angústia carcomia os meus pensamentos no momento em que decidi acabar com o sofrimento, disparando a arma contra o peito. A dor de existir é silenciosa, mas dilacera o espírito como uma adaga a se retorcer nas tripas. Ninguém imaginará o nome que escapou dos meus lábios quando o estrondo do tiro encheu o mundo. Entrarei para o rol dos covardes, para a lista de nomes a serem esquecidos ou mencionados somente em sussurros, nos entremeios de ruidosas festas; todos temerão que a minha covardia seja contagiosa. O suicida é a pessoa mais sozinha do mundo e, no quarto de hotel em que estou, o silêncio era absoluto até o disparo atravessar a noite. Ninguém será capaz de entender o alívio que se espalhou pelos músculos até então contraídos, tendo a bala como epicentro nervoso, quando a morte invadiu meu corpo com seus dedos repletos de gelado. Não terei sequer o consolo de uma lápide; ninguém nunca mais lembrará quem fui, a não ser em alguma risada indiferente ou algum comentário debochado. Eu sou aquele que não devia ter nascido

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/07/02/obras-inquietas-37-o-suicida-1880-edouard-manet/

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Um retorno a Mallarmé

Recentemente, ao entrar em uma livraria, sofri um choque súbito, devastador.

Vendo a miríade de livros dispostos pelas prateleiras, vendo as pessoas que caminhavam desordenadas como bolas de uma máquina de pinball, vendo os livros escolhidos para um lugar de destaque nas ilhas de exibição (ilhas sempre me passam a sensação de alguém isolado pedindo por um resgate, o que talvez explique a alta rotatividade dos livros que ficam nestas), deparei-me com aquela dúvida que todo escritor passa, mais cedo ou mais tarde: meu livro está aí dentro. Em algum lugar, em alguma prateleira, ao lado de autores com quem o coitado nunca conversou, encontra-se o meu livro esperando pelo seu leitor. Contudo, como este leitor – que ainda não sabe que está procurando o livro – conseguirá chegar até ele? Como não vai se distrair ouvindo as outras sereias cheias de promessas que estão no caminho, como escolherá o meu cicio narrativo no meio de tamanha balbúrdia?

Nestas horas, o desânimo se instala e a pergunta que segue é ainda mais implacável: vale a pena juntar a minha voz à polifonia enlouquecedora das bibliotecas e das livrarias? Vale realmente a pena publicar um livro?

Uma bela e angustiante biblioteca.

Conversando com outros colegas, descobri que esta constatação é uma unanimidade. Vou citar as sábias palavras de Edgar Alan Poe, que, pelo visto, também se preocupava com este assunto:

“A multiplicação dos livros, em todos os ramos da ciência, é um dos flagelos da nossa época. É, mesmo, um dos obstáculos mais sérios à aquisição de conhecimentos exatos. O leitor encontra seu caminho obstruído por uma multidão de materiais e só tateando é que, de vez em quando, encontra alguns restos úteis, misturados por acaso aos demais.”

A escolha de um livro parece ser extremamente randômica, um ato regido mais pela sorte e por uma caminhada despretensiosa pela livraria do que pela competência em achar algo interessante. Interrogo-me se já achei a obra decisiva, aquela para qual toda a minha vivência de leitura me preparou. Interrogo-me, também, se serei capaz de achá-la ou sucumbirei no meio do deserto de livros e vozes de autores, que cantam promessas semelhantes às ilusões de um oásis. Como autor, interrogo-me se vale a pena colocar este manuscrito dentro de uma garrafa, jogá-lo no mar da Literatura e esperar que alguém leia.

No meio de tamanhas dúvidas existenciais, não parei de escrever e nem de ler. A vida me impede, eu sigo a inércia das leituras iniciadas. E foi assim que reencontrei uma antiga leitura: Stéphane Mallarmé.

Aconteça o que acontecer, devemos sempre voltar a Mallarmé. No meio de tantas pessoas que se jactam de serem inovadoras e contemporâneas, Mallarmé é um dos poucos escritores que considero novo, com uma escrita sempre capaz de se renovar e atravessar os séculos tão fresca como se tivesse acabado de sair da editora.

Mallarmé teve sorte, pois ainda cedo achou a obra que lhe desafiou e formatou a sua escrita: “As Flores do Mal“, de Baudelaire. Não precisou ficar diante de dezenas de prateleiras procurando o fantasma do livro inesquecível. Não precisou questionar a validade de colocar a própria obra no meio do labirinto e esperar o leitor que, como Teseu, irá contornar os obstáculos para encontrá-la. Tendo achado o seu livro, e sonhando em levar a obra do modelo além do original, Mallarmé pôde se entregar à criação.

Um dos detalhes interessantes de sua trajetória  é que ele assumiu a posição de “escritor maldito” com relutância. Apesar dos seus iguais o considerarem o primeiro simbolista (e, quando menciono iguais, estou falando de nada menos do que Rimbaud, Verlaine, André Gide e Oscar Wilde), o próprio Mallarmé não tinha o mesmo pensamento. Jamais desejou a fama fácil, a glória de criar um estilo literário; ele queria escrever o que sentia e, para tanto, só precisava desafiar um único livro. Sua vida exterior era calma, comum, pois se ocupava em ser chefe de família e professor. Não realizou grandes viagens ou aventuras. Sua aparência simples escondia um espírito de alta complexidade e, talvez por isto, na minha opinião, Mallarmé é um dos escritores mais singulares que existiu. Ele não precisou viver com intensidade. O seu espírito queimava por dentro, não fora do corpo. Nos tempos atuais, em que se vê qualquer escritor buscando aparentar mais e mais espírito descolado em detrimento de estudar com afinco a arte literária, soa confortador que um homem ache inovadora mesmo uma vida plácida, bucólica. Isto sim é surpreendente – e criativo.

Retrato de Stéphane Mallarmé, por Manet

Outra grande lição de Mallarmé é quando ele diz que um poema não se faz com ideias, mas com palavras. Podemos trocar poema por Literatura sem nenhuma perda de sentido. É outro detalhe que se perdeu na assim chamada pós-modernidade: quando escrevem, as pessoas pensam mais nas ideias do que nas palavras. E geralmente estas ideias estão associadas à fama ou ao lucro, daí saem livros desprovidos de amor e sem o mínimo cuidado ou pensamento no leitor, visto mais como um número ao invés de uma pessoa (questiono muito as listas de mais vendidos: busca-se qualidade ou quantidade? E estas listas parecem se retroaliemntar, trazendo mais e mais leitores para um livro que não é aquele que eles deveriam buscar espontaneamente, sem serem conduzidos).  Estes livros proliferam como ervas daninhas no meio das bibliotecas e das livrarias, e um leitor precisa ser muito atento para separar o joio do trigo. Eu próprio já caí algumas vezes na armadilha de comprar algo imaginando que a história seria excelente e me decepcionar ao ver fórmulas desgastadas, ideias requentadas e ausência quase absoluta de imaginação e graça narrativa.

Mallarmé diz que todo universo é um lance de dados. E lances de dados jamais abolirão o acaso. Existe algo de intencional em esconder uma folha seca no meio de uma floresta, pois, ao mesmo tempo em que é quase impossível encontrá-la na perfeição de tal esconderijo, ela está no lugar em que deveria estar. Um livro não está no meio da biblioteca ou da livraria à toa. Se fosse fácil encontrá-lo, ele não estaria ali,quase anônimo no meio dos seus irmãos,  e sim escondido em outro lugar. Existe algo de sagrado ou obsceno na escritura: quando se escreve um livro, se coloca uma parte da alma. E o maior altruísmo que pode existir é colocar esta alma à disposição do mundo, à procura de um leitor cujo espírito irá colidir com o pedacinho disponibilizado pelo autor e se altear aos céus.

Se todo universo é um lance de dados, se o acaso é a lei mais universal que existe, os livros devem continuar onde estão. A escritura também é um lance de dados, o sonho irracional de um ser humano. A diferença é que jogamos os dados apostando que, em algum lugar, existe alguém que também participará do jogo. E, por mais improvável que seja esta aposta, ela é correspondida. Mallarmé passou toda a vida escrevendo um livro que não concluiu, aquele que seria a sua obra máxima, intitulado “Le livre“. Considero este o maior simbolismo que nos legou – a ideia de que os maiores livros não precisam sair de dentro do autor, pois o sonho do livro perfeito mora dentro de cada um.

Henri Fantin-Latour, La lettrice (1861). A leitora encontra o livro e se absorve de tal forma no seu enlevo que os dois formam uma unidade indissolúvel: o sonho de todo artista.

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