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Obras Inquietas – 34. “Ivan o Terrível e seu filho Ivan no dia 16 de novembro de 1581” (1885), Ilya Repin

Entre os vários motivos pelos quais escolhi esse quadro do pintor russo Ilya Repin, “Ivan o Terrível e seu filho Ivan no dia 16 de novembro de 1581”,  para tratar no “Obras Inquietas”, está o fato dele já ter sofrido três atentados. Em todos o objetivo era o mesmo: o olhar aterrador e insano de Ivan o Terrível após esfaquear o próprio filho. Um deles teve sucesso, mas a imagem acabou sendo reparada. Importante lembrar que esse quadro tem mais de 2 metros de altura, ou seja, é uma pintura imponente.

A cena retrata um momento de horror inacreditável, mesmo para parâmetros russos. A esposa grávida de Ivan apareceu com trajes muito ousados diante do seu sogro, Ivan o Terrível. Ele se sentiu excitado e, ao avançar sexualmente na nora, foi repelido. Ficou tão furioso que a encheu de socos e chutes, que a levaram a abortar. Quando Ivan soube disso, foi confrontar o pai que, furioso, em um gesto impensado (nunca fiquem brabos na frente de Ivan o Terrível), pegou o cetro e acertou a cabeça do filho, matando-o. Mal tinha concluído o ataque e Ivan o Terrível já estava arrependido. Um instantâneo de crueldade e de violência aprisionados no interior de um quadro.

Boa leitura.

“Ivan o Terrível e seu filho Ivan no dia 16 de novembro de 1581” (1885), Ilya Repin

O que foi que eu fiz? Deus, o que foi que eu fiz? Onde estava com a cabeça quando ergui o cetro contra meu próprio filho e desci certeiro na sua têmpora? Nos meus braços, o calor se despede do corpo jovem, ceifado no auge da sua existência; as mãos encharcadas do sangue daquele que tanto amei ainda estão trêmulas. O instinto agiu mais rápido do que o pensamento; a fúria foi mais intensa do que a prudência. Quando percebi, o demônio da raiva tinha se apossado do meu espírito, e estava atacando o único que sempre esteve ao meu lado, aquele que se jogou na frente quando a lâmina do traidor mirou meu pescoço, o homem preparado para me suceder no trono. A loucura se apossa da minha existência, mas eu estava louco antes do golpe ou ela só se insinua agora? A última lágrima que saiu dos olhos de Ivan ainda contém a dor de ser assassinado por quem amamos. No silêncio do palácio, ninguém escuta meus gemidos de angústia e, mesmo se escutassem, não se atreveriam a aparecer . Todos me temem, pois sabem que as suas vidas valem nada. Nunca me senti tão sozinho como agora, abraçado ao corpo que tanto amei, sabendo que fui o único responsável por sua desgraça. O que mais desejo é aquilo que não conseguirei fazer: voltar no tempo. Impedir a mão assassina antes que ela fizesse a curva na direção dos olhos azuis que, mesmo naquele momento último, ainda estavam repletos de amor e de devoção. Eu errei, Ivan, você pode perdoar o seu velho e irritável pai? Pode dizer para o Criador que foi um lamentável acidente, que a sua morte foi um erro pelo qual irei sofrer o resto dos meus dias? A voz que sai do meu corpo não me pertence, transtornada pelo desespero enquanto admite o crime para as paredes indiferentes: que eu seja amaldiçoado, pois matei meu filho. Eu matei meu filho.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/06/11/obras-inquietas-34-ivan-o-terrivel-e-seu-filho-ivan-no-dia-16-de-novembro-de-1581-1885-ilya-repin/

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Obras Inquietas – 33. “Stanczyk” (1862), de Jan Matejko

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, eu falei sobre “Stanczyk”, quadro pintado em 1862 pelo pintor polonês Jan Matejko.

Stanczyk foi um personagem famoso na História polonesa, apesar de existirem muitas dúvidas se ele sequer existiu. Teria sido um bobo da corte instruído, irônico e sagaz, que serviu a três reis: Alexander, Sigismundo o Velho e Sigismundo Augusto. Ele usava a sátira para avisar os seus conterrâneos dos perigos que cercavam a nação.  Tão famosas  ficaram as suas histórias que ele virou praticamente um Pedro Malasarte polonês.

No entanto, no quadro, é outra faceta dele que se revela. Stanczyk está repousando de uma apresentação e, enquanto todos se divertem, ele lamenta a queda e o massacre de Smolensk, que foi entregue aos russos por um acerto feito entre os nobres da Polônia com os inimigos. Cabe ao palhaço chorar pelos mortos, enquanto as demais pessoas se divertem, desconhecendo o alcance dos seus atos, mais preocupadas com o próprio bem-estar do que em pensar nos outros.

Boa leitura.

“Stanczyk” (1862), de Jan Matejko

No salão, o som de risadas e o estrépito de talheres e louças enchia a noite de cores. Por trás deles, a onipresente música ressoa quase abafada, ainda sacudida pelo som dos aplausos que saudaram a primeira apresentação de Stanczyk, o maior artista vivo, o palhaço mais requisitado de todo o império. Na antesala que usa para descansar nos intervalos entre as apresentações, o homem desaba sobre a poltrona. O rosto que até então troçava de todos cede ao desespero; o desalento se apossa dos seus gestos antes agitados, agora mortos. Pela primeira vez na noite, o bobo da corte permite que a tristeza tome conta do seu semblante, enquanto lembra o massacre dos seus amigos, dos seus irmãos, dos seus queridos em Smolensk. Os brindes levantados a pouco em homenagem àquele banho de sangue ainda machucam a sua memória. As luzes vibrantes do salão escondem a morte que mora no interior das risadas algo escandalosas dos nobres. Naquela noite, ninguém chorará pelas crianças e mulheres mortas em Smolensk; ninguém levantará uma prece para os homens e mulheres massacrados sem piedade. Ao contrário, os rostos estarão contorcidos em máscaras grosseiras de felicidade, enquanto os nobres se refestelarão nas suas jóias, nas comidas luxuriosas e nas bebidas em abundância. Sozinho na sala, Stanczyk sabe que logo precisará afastar a tristeza que domina a sua alma. Precisa voltar ao salão. O destino é engraçado, muito mais do que as suas piadas e trejeitos – preso na sua tarefa, o palhaço é o único proibido de chorar. O rosto só pode rir, como se a vida fosse uma eterna brincadeira, mesmo quando dançamos sobre o túmulo dos nossos irmãos. Stanczyk tem uma missão a cumprir: deve entreter os assassinos do seu povo; ele é o homem que ri por fora, enquanto grita de agonia por dentro. Afinal, ninguém melhor que um palhaço para saber que o show nunca pode parar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/06/04/obras-inquietas-33-stanczyk-1862-de-jan-matejko/

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Obras Inquietas – 32. “Salão de bar” (1940), Edward le Bas

Sempre me fascinaram os quadros que parecem não dizer nada, ou estarem retratando uma cena do cotidiano, mas que escondem muitos segredos sob uma superfície simples. No caso desse “Salão de bar”, de Edward le Bas, sobre o qual escrevi no “Obras Inquietas”, uma cena aparentemente corriqueira – uma mulher sozinha em um bar – deixa transparecer toda uma série de possibilidades quando sabemos que o quadro foi feito no auge da Segunda Guerra Mundial, que ela está em uma festa repleta de soldados e que seu olhar revela desencanto e medo pelo futuro. Nem sempre a inquietação precisa ser algo mortal; representar pânico e dor – e a vida que precisa seguir mesmo quando estamos imersos nesses sentimentos – é algo que nos consterna pela sua proximidade.

Boa leitura.

“Salão de bar” (1940), Edward le Bas

Ela não imaginou que seria tão difícil. Na imaginação, tudo parecia mais simples: tirar a roupa de luto, sentar junto à mesa, pedir uma bebida, escutar música, olhar a vida se desenrolando ao seu redor. Sentir-se de novo parte do mundo. No entanto, foi só levar o copo aos lábios que a mulher entendeu: ele não voltaria. Estava longe, mais distante do que ela podia chegar. Nunca mais veria o seu sorriso, escutaria a sua risada, ralharia com seu detestável hábito de mastigar o palito de dentes – tudo estava irremediavelmente perdido. A imensidão da perda a atinge como um soco, e ela sente-se mergulhar em um cadinho de desespero e angústia, enquanto as pessoas, as cores, os sons e o universo se dissolvem na sombra inexistente que frequenta aquele salão, atormentando o lugar com a sua ausência repleta de culpa e de palavras não ditas no momento certo. Ela é jovem e bonita, mas sua alma carrega o sonho de uma vida que lhe foi arrancado de forma abrupta. Um homem sussurra promessas falsas e úmidas junto ao seu ouvido, mas não é a voz dele, não é e nunca será, e a mulher sente-se chafurdar no pântano das ilusões desaparecidas. Você precisa voltar a viver, todos lhe dizem. Você precisa ser feliz, mas ela não consegue e, no seu íntimo, sabe que a felicidade lhe foi negada; ela existiu por algum tempo e desapareceu, e agora a mulher terá que conviver, casca vazia e sem sentimentos, em busca de algo que nunca mais encontrará, enquanto as pessoas danças, cantam, bebem, se divertem, inconscientes de que ela não é mais uma mulher, mas uma angústia em forma humana, um grito de solidão que nunca cessa.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/05/28/obras-inquietas-32-salao-de-bar-1940-edward-le-bas/

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Obras Inquietas – 31. “O último homem” (1849), John Martin

Há algum tempo eu desejava escrever sobre John Martin, pintor romântico inglês especializado em retratar a pequenez humana diante da imensidão das situações e dos cenários. Os quadros deles sempre me suscitaram inquietação e temor, em especial pela sua capacidade de mostrar a nossa solidão diante desse mundo, vasto mundo.

Para o “Obras Inquietas” no Artrianon, eu escolhi “O último homem” (1849), o quadro que retrata a angústia de ser aquele que foi deixado pela morte para ser o último.Talvez a fonte real de inquietação desse quadro seja a última conversa que tive com a minha (recentemente falecida) avó, em que ela me perguntou se eu era capaz de imaginar o horror de viver em um mundo sem meus amigos, minha família, as pessoas que eu amava, tudo por que a Morte acabara lhe esquecendo. Um dia a Morte lembrou da minha avó, e pergunto-me se não foi com alívio que ela partiu.

Boa leitura.

O último homem (1849), John Martin

Quando colocou a derradeira pedra sobre o túmulo da sua mulher, o último homem da Humanidade ergue a cabeça e sente o silêncio como se fosse uma presença física. O silêncio das pedras, o silêncio das cinzas que infestavam o ar com a sua lembrança de morte e de isolamento. Nenhum som sai das sombras das árvores que não mais estavam ali; nenhum suspiro escapa das ruínas das cidades mortas. Só o silêncio: a ausência das risadas que não existem mais, o sumiço do vento que antes trazia os sons da vida distante, o silêncio e somente ele. No firmamento, o sol, que por tantos milhares de anos fora uma fonte de luz e de alegria, solta seus últimos estertores gelados. Ele brilha sangue. Na terra, o solo esfarelento ainda recorda da vida que outrora se arrastava por suas entranhas. O último homem do planeta olha ao redor, e não encontra nenhum conforto ou lampejo de esperança. Não resta mais nada, somente a solidão. Não restaram filhos, amigos ou inimigos; a sua vida é um longo arrastar-se por essa eternidade que se estende até a morte e chamam de vida. Sempre cobiçou a solidão e, agora que se tornou o último homem da Terra, só consegue sentir-se enlouquecer ao ouvir as batidas estrondosas do próprio coração, ou o silvo que o ar faz ao sair dos seus pulmões. Ninguém nunca lhe disse que carregaria consigo o fardo de ser o último homem que pisaria sobre esse planeta moribundo, mas tudo o que consegue pensar é que não queria se sentir tão sozinho, tão desesperadamente sozinho, envolvido pelo silêncio e pela memória. Sobreviver é o maior dos castigos para quem não tem mais alegria ou esperança.

 

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/05/21/obras-inquietas-31-o-ultimo-homem-1849-john-martin/

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Obras Inquietas – 30. “Bacanal” (1920), Auguste Levêque

No trigésimo texto que escrevi para a minha coluna “Obras Inquietas”, eu quis mostrar que também existe inquietação e medo dentro de uma orgia. Falei da obra de Auguste Levêque, “Bacanal” (1920), e os vários corpos de homens e mulheres que se contorcem em busca de prazer, e os sorrisos lânguidos que escondem gritos de dor.

Boa leitura!

“Bacanal” (1920), Auguste Levêque

Ceda ao descontrole. Deixe o animal tomar conta da sua pele; permita-se que todos os seus desejos saiam à tona. Mergulhe no corpo do outro como se ele fosse uma extensão do seu – submeta a vontade alheia aos seus impulsos, por mais selvagens que eles sejam. Grite até o limite da sua garganta, ria com frenesi, lamba pescoços, seios, torsos, pernas, sexos. Arranhe a sua parceira; tire sangue dela, faça com que seus gritos de prazer se transformem em pavor. Esqueça dos limites que a sociedade estipulou, esqueça da sombra de moralidade que anda ao seu redor dizendo o que é certo ou deplorável, esqueça do seu nome e da sua família e da sua ética e de tudo que lhe transforma em humano. Hoje é a noite do animal: da criatura que se esgueira por debaixo do seu sorriso, do medo que você não confessa nem para o travesseiro, do impulso que lhe faz ter vontade de estraçalhar, de morder, de se impor, de machucar o outro. Liberte-se da sua pele. Deseje o mal ao seu semelhante. Entregue-se ao desejo por tudo que é proibido. O outro não é seu amigo; ele é o inimigo, e deve ser devorado pelos seus dentes famintos, pela sua boca raivosa, pelos seus dedos que, como garras, enfiam-se na pele tenra e extraem dela aquilo que existe de mais sublime e de mais terrível. Encharque-se com o desespero alheio. Sinta-se mergulhar em um oceano de gritos, de gestos repletos de fúria, de beijos que mordem, de dedos que penetram. No ápice do prazer mora a mais intensa das dores, assim como, em todo grito de êxtase, esconde-se o prenúncio do horror. A melhor maneira de perder a Humanidade é afundar-se em outro ser humano até que ele grite, e nem todos os gritos em um bacanal são de alegria. Nem toda a luxúria pode ser perdoada. Bem vindo ao festim dos corpos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/05/07/obras-inquietas-30-bacanal-1920-auguste-leveque/

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Obras Inquietas: 27 – “Melancolia e mistério de uma rua” (1914), Giorgio de Chirico

No meu texto dessa semana no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon, eu falei sobre “Melancolia e Mistério de uma Rua” (1914), quadro repleto de mistérios pintado por Giorgio de Chirico. Uma obra que inquieta por nos colocar na desconfortável posição de testemunhas – voyeurs – de um crime que pode estar acontecendo ou existir somente na nossa imaginação, e não sei qual das duas alternativas é pior.

Boa leitura.

 

“Melancolia e Mistério de uma Rua” (1914), Giorgio de Chirico

 

Na placidez dos eventos mais calmos existe um universo furioso de átomos e de intenções que se esboroam e lutam entre si, ansiosos por se revelarem ao mundo. Essa é a história de um crime: se vai acontecer ou não é irrelevante, pois ele existe somente na nossa expectativa. Podemos ser os assassinos, ou a vítima, ou os salvadores, e ter tais possibilidades nos transforma em indesejados voyeurs da cena que não deveríamos – ou preferíamos – ver. A menina brinca na rua; a sua solidão mede-se através do som dos passos amortecidos pela areia, a sábia areia que sorve sangue humano desde que o início, a indiferente areia que esconde segredos, cadáveres, sonhos. A sua infância tem o sabor doce de um futuro que não conseguimos ver, mas pode ser glorioso ou medíocre, assim como são todas as inocências antes de se transformarem em flores ou em medos. A rua inteira dorme, mas a tensão se esconde nas reentrâncias das paredes, nos bocejos dos arcos, no céu impregnado de azul que ondula em meio às nuvens invisíveis. Longe do olhar sonolento da rua, a sombra espreita a alegria da menina, cobiçando a vida que se esgueira por entre as esquinas. Não existem coincidências, e a carreta com portas abertas também espera o momento em que será acionada. Somente o tempo sabe o que vai acontecer naquela anônima rua que reconhecemos como a paisagem incômoda de um pesadelo sem fim; a rua continua dormindo, enquanto a criança corre, a sombra se angustia de expectativa e a carreta espera ser acionada. Os melhores mistérios são aqueles que não serão nunca resolvidos, sobrevivendo no campo exíguo da imaginação, equilibrando-se no vazio. A menina gira a roda e corre em direção ao destino que nunca saberemos qual é, mas a sombra no horizonte sabe – e espera com a sabedoria daqueles que estão mortos antes mesmo de nascerem.

Texto originalmente publicado em https://artrianon.com/2017/04/09/obras-inquietas-27-melancolia-e-misterio-de-uma-rua-1914-giorgio-de-chirico/

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Obras Inquietas – 25. “Bela Adormecida” (1899), Henry Meynell Rheam

No meu texto dessa semana no “Obras Inquietas”, eu falei sobre uma pintura de Henry Meynell Rheam, um pintor pré-rafaelita, chamada “Bela Adormecida” (1899).

Existe algo que sempre me deixa perplexo sobre esse quadro. Quando estamos dormindo, ficamos vulneráveis e, nessa condição, qualquer coisa pode acontecer. A sensação de que alguém espia a nossa vigília é uma das mais antigas que tempos, e vem da época das cavernas. Muito dos terrores noturnos que sacodem algumas pessoas – entre elas eu – está nesse receio ancestral: o de que existem presenças que estão ao nosso lado e não conseguimos ver.

A predominância do azul no quadro também não é uma coincidência: no passado, o azul era considerado um tom opressivo.

Boa leitura.

“Bela adormecida” (1899), Henry Meynell Rheam

 

Você pode não saber, mas ele está ali, ao lado da cama, analisando os seus traços fisionômicos com um misto de escárnio e ternura. Pode não ter um nome para essa presença, mas sabe de quem estou falando. É mais um desconforto, uma sombra um pouco mais soturna que se destaca na parede do quarto, um arrepio que não devia eriçar sua pele, mas, ainda assim, está ali. As crianças tentam nomeá-lo: Homem de Areia, Devorador de Sonhos, Bicho Papão. Com o passar dos tempos, damos outros nomes (Horla, vampiro), mas a presença nunca deixa de nos acompanhar. Afinal, nomes não importam, pois ele está sempre no canto do quarto onde a luz tem medo de entrar, velando o seu sonho, tão próximo que a boca está a centímetros do beijo, tão atento que você pode sentir o toque gelado roçar a sua face. Quando está irritado, o hálito dele causa pesadelos horríveis que parecem nunca terminar, e você se sente sufocar no tempo infinito que mora dentro do horror. Quando feliz, ele sussurra histórias que lhe deixam com um sorriso bobo. No entanto, existem vezes em que essa presença invisível deseja o seu mal. Nessas noites, a criatura sem nome e sem rosto senta sobre o seu peito e sorri angelicamente enquanto pressiona o seu pescoço com dedos repletos de morte, sentindo você sufocar dentro do pesadelo, escutando os gritos sem som que você solta. Em geral, após brincar um pouco trazendo a morte para dentro do sono, a presença recua, e se regozija ao ver o seu despertar no estertor de um grito suado. No dia seguinte, você não saberá o que lhe deixou tão mal ou o pesadelo que transformou a noite em um inferno sem fim, e é provável que nunca saiba o quão próximo da morte esteve. Contudo, um dia, a presença irá cansar; os dedos serão um pouco mais firmes ao redor do seu pescoço, sua vontade um pouco menos volúvel. Nesse dia, você estará no pior pesadelo de todos e não irá sair nunca mais dele, enquanto o espectro beija seus lábios e retém o seu último suspiro como se fosse o manjar dos deuses. Algumas pessoas chamam tal presença de Medo, e saber que ele nasceu conosco e está sempre próximo, ansioso para cravar suas garras ao menor sinal de distração, é o que nos deixa em constante estado de tensão por estarmos vivos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/03/19/obras-inquietas-25-bela-adormecida-1899-henry-meynell-rheam/

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