Arquivo da categoria: Pintura

Obras Inquietas – 47. “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Em virtude de ter passado duas semanas viajando e palestrando por aí, atrasei as colunas do “Obras Inquietas”, motivo pelo o qual me puxaram as orelhas em mensagens.

No meu retorno, tratei de “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714) do pintor holandês Jan van Neck. Poderia ter escolhido outras versões da mesma ideia, inclusive mais famosas, como a de Rembrandt: existiu uma época na História da Arte em que era frequente pintores retratarem aulas de anatomia, o que por si só daria um longo texto. Optei por essa de van Neck por que, entre elas, é a que mais recordo, talvez pelo fato de ser a autópsia de um recém-nascido, talvez pelo detalhe destoante da criança assombrada que segura um esqueleto no canto da imagem. Existe algo de perturbador na calmaria aparente dessa pintura e, se não sou capaz de detectar, o quadro merece estar elencado nessa minha lista de perturbações.

Boa leitura.

“A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Um corpo não passa de um aglomerado de órgãos, músculos e sangue impulsionados por um espírito. Por favor, esqueçam o horror enquanto presenciam a curiosidade quase sádica dos homens ao redor da mesa, para quem o cadáver da criança é um mero objeto de estudo, e nada mais. Eles não pensam na vida que animava esse corpo ainda fresco até alguns minutos atrás, não pensam no ronco de esperança que brotou dos pulmões e, em seguida, desapareceu, não pensam no aspecto lívido da pele que esperávamos rosada, macia, tenra, e agora tem o tom marmóreo da ausência, não pensam no choro da mãe ou nos soluços do pai a ecoar pelo corredor vazio. A ciência não pode se dar ao luxo de ter piedade. Ignoram o olhar espantado do menino que segura o esqueleto do bebê; ele não consegue entender que sentimentos atrapalham o progresso e que os homens reunidos naquela sala, que dissecam o cadáver como se estivessem olhando uma borboleta morta, fazem aquilo pelo bem de todos. Somente quem se afasta da Humanidade é capaz de desvendar o humano. Mesmo assim, por maior o nosso desejo de frieza, impossível não olhar o cadáver diminuto estendido sobre a mesa e pensar em tudo aquilo que ele deixou de viver, em todas as sensações que não teve tempo de sentir, em todos os sorvetes que não comerá, em todos os sorrisos que não dará, em todos os beijos que lhe serão negados, enquanto a curiosa pinça esgravateia o corpo sem defesas e a placenta jaz sobre a mesa, morta. Pior do que morrer é nem ter a chance de ter vivido.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/22/obras-inquietas-47-a-licao-de-anatomia-do-dr-frederik-ruysch-1714-jan-van-neck/

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Obras Inquietas. 46 – “O homem em queda” (2014), James Wedge

Nessa semana, na minha coluna no “Obras Inquietas”, eu tratei de uma pintura de James Wedge chamada “O homem em queda”. A postura do homem em queda infinita e para sempre não-concretizada lembra uma fotografia icônica do século XXI, também chamada “O homem em queda”, de Richard Drew, que mostra um homem despencando para a morte após o atentado nas Torres Gêmeas nos Estados Unidos, em 2001.

Existe algo de terrível e de poético na forma com que o corpo se entrega à inevitabilidade da queda, desfazendo-se enquanto mergulha na direção de algo que não sabemos.

Boa leitura.

“O homem em queda” (2014), de James Wedge

 

Ninguém sabe precisar o momento – ninguém sobreviveu o suficiente para contar – mas existe um instante, um segundo talvez (um segundo no meio da eternidade da queda possui todos os tempos do mundo no seu interior), em que a barreira do corpo cede ao fascínio de despencar no abismo e o que era carne vira vento, o que era osso vira graveto, o que era sangue vira medo. Nesse fugaz momento, impregnado de delírio e de horror, o espírito perde as comportas que lhe confinavam no interior de pele e músculo e sente, pela primeira vez, as responsabilidades de ser livre. Nunca ficamos tão próximos de algum Deus quanto agora, o segundo em que perdemos os limites. Suspenso em uma queda que nunca será concretizada, o homem persiste caindo agora e para todo o sempre, desfazendo-se como poeira que volta a encontrar o seu destino, como deserto ondulando em dunas instáveis. O desconhecido – será um de nós? Será alguém que amamos? Será aquele para quem não estendemos a mão na hora certa, ou para quem faltou a palavra que poderia ter sido a âncora salvadora? – atravessa o vazio e se identifica com ele, lutando para manter uma coesão que, em breve, será destruída pelo concreto da realidade. Existe algo de conformismo no homem em queda; podemos escutar o grito que ele não solta ou imaginar os pensamentos que se destroçam na sua consciência esperando a chegada do fundo, do chão, do local em que a morte lhe espera sem ansiedade, enquanto olha para cima e vê o céu tão azul conspurcado por uma sombra que corre em sua direção.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/01/obras-inquietas-46-o-homem-em-queda-2014-james-wedge/

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Obras Inquietas – 45. “Cão atacando gansos” (1769), Jean-Baptiste Huet

Quem acompanha minhas colunas sabe que gosto de quadros que narram cenas de alta tensão e que estão concentradas em um momento no qual o terror e a beleza confluem como uma pororoca, e esse é o caso da pintura que tratei no “Obras Inquietas”. Em “Cão atacando gansos” (1769), de Jean-Baptiste Huet, a cena revela uma luta feroz pela vida, em que um lado está fragilizado por causa do amor e o outro se sente poderoso pela imposição física – algo que vemos muito por aí.

Boa leitura.

“Cão atacando gansos” (1769), Jean-Baptiste Huet

É no silêncio do anônimo desfiladeiro que se travará a luta decisiva. De um lado, o cão imerso em ferocidade mal esconde a raiva com que contempla as suas futuras vítimas, os dentes salivando de antecipação; do outro, o casal de gansos antepõe seus corpos diante do inimigo, protegendo a ninhada ainda indefesa de filhotes. Sob a pata do cão, os gritos agônicos de um ganso demonstram que esse é um cadáver que ainda respira por uma mera questão de tempo. Os gansos sabem que não possuem chance alguma, mas precisam lutar a batalha impossível e o farão com dignidade. Não existe a possibilidade de virar as costas e fugir, não podem abandonar os filhotes à própria sorte (apesar desse pensamento incômodo às vezes surgir como uma sombra no meio dos olhos injetados de pavor). Eles agitam as asas e grasnam com tons ameaçadores, rezando para assustar o cão, mas o inimigo traz consigo o hálito sombrio da morte, e sustenta a posição, premido pela fome que o faz investir contra a família de animais. A morte nunca é algo pessoal, mas necessário: hoje são os gansos, amanhã quem sabe se não será o cão quem restará acuado? A angústia da cena é palpável, assim como a impressão de que somos os gansos encarando a inexorabilidade do assassino que enfim colocará um termo à nossa vida, e tudo o que podemos fazer é rezar para que o inimigo mostre piedade, só um pouco, e que seja rápido e indolor com nossos entes queridos. Ave caesar imperatori, morituri te salutant, e assim os gansos lutam não para vencer, mas para que seus filhotes possam sobreviver mais alguns minutos em meio a esse mundo impregnado de crueldades e certezas.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/24/obras-inquietas-45-cao-atacando-gansos-1769-jean-baptiste-huet/

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Conto inédito em revista

Que legal: na nova Escriva, a revista virtual da Escrita Criativa da PUCRS, saiu um conto inédito meu, ao lado dos trabalhos criativos de outros colegas e escritores, além de um dossiê sobre sátira, ironia e opressões de gênero na literatura.

Quem desejar ler o meu conto e os dos outros escritores que fizeram parte da revista, segue aqui o link:

http://www.revistaescriva.com/somos-todos-assassinos.html

Em “Somos todos assassinos”, a tentativa de desvendar o mistério contido em “O assassino ameaçado” de Magritte faz com que o personagem descubra o outro homem que mora dentro do seu corpo.

Com participações especialíssimas – e creditadas – de Balzac, Rousseau, Thoreau e Iron Maiden.

Boa leitura.

Somos todos assassinos

René Magritte, “O assassino ameaçado”

Levantou cedo para caminhar no parque: precisava pensar em um artigo sobre “O assassino ameaçado”, de Magritte. Existe algo de tranquilizante quando se caminha em círculos ao redor de uma paisagem estática, um passo sucedendo ao outro, a sequência não necessariamente linear, mas progressiva, assim como funcionavam os termos de uma oração, uma letra colada na sua vizinha, a palavra posterior precipitando-se depois da anterior – ambas formando uma frase – e o consequente encadeamento de frases dando origens a parágrafos até desembocar no inevitável texto. Escrever e caminhar em círculos não é tão diferente assim, e o pensamento lhe divertiu. Não estava passeando, mas escrevendo a si próprio, e lembrou-se de mais pessoas nessa situação: Flaubert passeando entre as aleias congeladas de sua propriedade; os louvores de Voltaire ao caminhante solitário; a saída de Balzac que devia durar uma hora e acabara se estendendo por todo o dia, pois ele escreveu mentalmente os dezessete volumes de “A Comédia Humana” enquanto caminhava; os passeios infindáveis de Thoreau pela floresta onde se isolara. Ato contínuo, os fones de ouvido despejaram dentro da sua cabeça “The loneliness of the long distance runner”; sentiu-se em um lugar inóspito, onde seus passos eram o elemento destoante e onde cada pegada era única e ficaria ali pelo resto dos tempos, sem ser atrapalhada pelo vento ou por outros seres, uma lembrança de que ele deixara marcas por onde passara.

O grande obstáculo para o artigo era não entender o que estava na imagem. Era um crítico de arte de renome, e a simples existência de uma obra que não cedia diante das suas investidas interpretativas era singular. O assassino acabou de cometer o crime: todos sabiam que ele era o responsável, e vários olhos seguiam os seus movimentos. O próprio espectador acompanhava os passos sorrateiros. Ele estava de costas para a mulher assassinada, aparentando interesse pelo gramofone. Ao lado da porta, dois homens esperavam para entrar no quarto, um deles portando um porrete, o outro uma rede. Na janela, mais três desconhecidos de chapéu mantinham-se atentos, em uma atitude quase voyeur. O homem permanecia sob vigilância, mas não ameaçado. A sua calma contrastava com o ambiente repleto de tensão. Ele não agia como alguém culpado e sequer parecia com um, pois qual é o bandido que retira o casaco e o chapéu antes de cometer um crime? A semelhança dos traços fisionômicos do assassino com os guardas que estavam prestes a capturá-lo era outro ingrediente contraditório, pois dava a sensação de que todos ali se confundiam, flagrados em meio a um crime confuso.

Pensava em como iniciar o artigo – pois, afinal, uma frase seguiria a outra, em uma atração quase inevitável, o difícil era a faísca inicial – quando foi interrompido por uma mulher segurando uma planilha. Ela mascava chicletes, e as mandíbulas mexendo de forma escandalosa hipnotizaram-no por alguns segundos. No meio daquele levantar e abaixar sincopado de dentes, saiu uma pergunta meio mastigada: não quer participar de uma rústica ao redor do parque? Demorou segundos para entender o que era uma rústica. Sua primeira reação foi de raiva, pois considerou grosseira a interrupção. No entanto, logo veio a perplexidade – uma rústica? Mas ele não corria desde a época do colégio! Aprontava-se para seguir adiante quando a mulher, olhando as próprias unhas, acrescentou que uma equipe de televisão tinha vindo e ele só participaria da filmagem como figurante, para fazer volume, não era para correr a sério, não te preocupa, meia volta no parque e tu pode ir embora.

Por instantes, a imagem do assassino cercado por inimigos foi esquecida. Quem era aquela mulher para tratá-lo com tamanho desrespeito, como se ele fosse um figurante na grande história da vida, um dos anônimos que ficavam no meio das multidões nos filmes, sempre ladeando os verdadeiros atores? Ela não o chamou para correr, e sim para fechar um número aceitável de participantes capazes de justificar a presença da rústica em dez segundos de algum telejornal noturno. Era muito desaforo.

Ao mesmo tempo, cresceu a dúvida: e se? Fazia tanto tempo que não corria, nem lembrava mais como era. Não tinha ninguém ali o olhando. Ele era o perfeito desconhecido. Ninguém saberia que o famoso professor de crítica de arte entregara-se à voluptuosidade da corrida. Não existiriam julgamentos ou risadas. Por Deus, era só correr por diversão, que mal existiria nisso?

Quando percebeu, estava assinando a ficha de participação e recebendo um número para colar na camisa, 177. Com passos de quem não sabia a etiqueta para se comportar, ele se reuniu aos demais competidores, espalhados em pequenos círculos na extremidade do parque. Percebeu os olhares divertidos ao redor. Todos possuíam corpos atléticos e estavam no auge da forma física. Vendo aquele homem baixinho, com uma barriga nada discreta e a roupa inapropriada para correr, sabiam que ali não estava alguém digno de ser considerado como oponente. Era mais um daqueles retardatários que entravam na corrida para serem ultrapassados, mais um dos percalços de qualquer competição que se pretende democrática e acolhedora a todos, mas não passa de um arremedo de igualdade.

Enquanto esperava o início da prova, o homem ajeitou a sequência de músicas no seu tocador digital. Resolveu escolher a mais empolgante primeiro, em seguida outra empolgante, depois uma visceral, uma pela batida da bateria, após uma música eletrônica desgarrada e, ao final, uma romântica. Devia ser o bastante. Enquanto selecionava as músicas, deixou seu pensamento vagar: o assassino estava na sala. O piso continuava limpo. Todos sabiam, todos o acompanhavam. Mas ele não cometeu o crime, pois faltava nos seus gestos toda a intenção de se transformar em um assassino. Estava sendo implicado por algo que não fizera, e o crítico sentiu que, dependendo da sua argumentação, podia lançar uma nova e perturbadora possibilidade sobre o quadro de Magritte.

Percebeu uma movimentação no grupo. Ao longe, a equipe de televisão estava posicionada. Todos pararam junto à largada e o homem acionou a sequência de músicas escolhidas, sentindo o corpo ser preenchido pelos acordes. A música desencadeou uma reação repentina nos músculos envelhecidos. Percebeu a energia espalhar-se em ondas como uma queimação, partindo do cérebro e das orelhas. Foi violentado por algo muito maior do que a própria vida. Ergueu a cabeça e viu o céu encharcado de azul, as árvores trêmulas, duas pombas atravessando uma nuvem perdida. O ar da manhã ainda era jovem, como aquele que permeava a primeira aurora do mundo. Quando abaixou a cabeça depois de um tempo indefinido, o sangue apossou-se dos seus olhos e, por trás da civilização dos seus 55 anos, notou o animal pulsante, ansioso para se libertar da sua capa humana. Ansioso para correr.

As pessoas superestimavam a Humanidade. Existia uma besta sanguinolenta dentro de cada um, e a música nos seus ouvidos pareceu-lhe a cerimônia que ressuscitava um deus morto. Os pulmões encheram-se de ar. Os pés ciscaram o chão, inquietos. Nas suas retinas, o assassino deslizava, melífluo como a água de uma cascata, pois nunca seria pego. O gramofone, aí estava o centro do quadro. O seu pensamento não se articulava de forma coerente, tudo se misturava, ele, Balzac contendo 17 volumes dentro da sua cabeça, o latido distante de um cachorro, Voltaire diante de um lago crispado pela neve ainda imberbe, o resfolegar dos homens e mulheres ao seu redor esperando o juiz, Thoreau conversando com as árvores, o assassino ignorando a mulher morta – um mundo inteiro morava dentro dele.

O disparo.

O primeiro passo coincidiu com o momento exato em que ocorreu a troca da música. Um novo ímpeto apossou-se de si e ele se lançou na corrida. Ultrapassou a primeira pessoa e aquele foi o estímulo necessário para lançar-se à perseguição dos demais corredores. Os pés ansiavam em se libertar dos tênis, encontrar a força telúrica que morava nos cascalhos ancestrais. Não pensava em nada: o estraçalhar do vento, o desprezo à gravidade, e ele se transformara em um fio desencapado, repleto de violência. Enquanto corria, o coração bombeava sangue com raiva e os pulmões gritavam de felicidade ao se sentirem, enfim, depois de tantos anos, novamente úteis.

Ultrapassou mais alguns, e a primeira curva o encontrou logo atrás do pelotão que liderava a corrida. Risadas estranguladas escapavam dos lábios secos, e o suor tomara conta da sua camisa. Percebeu os corredores virando o pescoço por breves segundos e deixou uma gargalhada alvejar as costas inimigas. Eles não queriam correr? Pois estava na hora da aula, jovens.

Em uma manobra ousada, por fora da pista, ultrapassou os cinco competidores que mantinham a dianteira. Percebeu os olhares em pânico no momento em que a terceira música se apossou da sua alma e se entremeou no seu DNA. Sentiu as vísceras retorcerem, lembrando o motivo pelo qual dormitavam no fundo do seu corpo. Estava levando os músculos das pernas a limites que eles desconheciam. Calafrios atravessavam os seus pelos, mas ele não podia parar, e pequenos buracos negros acordaram no meio das suas coxas, mas ele não podia parar. Estava na iminência de uma falha generalizada do corpo. Ter esta noção o fez gritar mentalmente que ou eles iam correr como nunca tinham corrido ou morreriam juntos, mas desistir não era uma opção. Como um general ordenando as suas tropas, sentiu os calafrios se recolherem, os músculos das pernas se submeterem à dor, os vazios nas coxas voltarem a ser preenchidos de carne e de medo.

Quando o coração cedeu às evidências de que não poderia suportar aquele ritmo tresloucado, não depois de tantos anos de preguiça e sedentarismo, o professor começou a ofegar. Os demais competidores se aproximaram. Não dava mais conta do ritmo imposto a si mesmo e, no momento em que anteviu a possibilidade de desmoronar, a música com um tuc-tuc-tuc selvagem iniciou. Ele se concentrou no que escutava. A bateria impregnada de juventude ensinou o coração a recuperar o ritmo, a se concentrar nas batidas. Os passos passaram a acompanhar a música, assim como o coração, e logo ele voltava ao mesmo ritmo forte de antes.

Ultrapassava a metade do percurso no instante em que a idade lhe atingiu como um soco invisível. Em um princípio de pânico, sentiu os anos de excessos apresentarem a sua fatura. A cervejinha diária, o cigarro largado quatro meses atrás e ainda queimando por dentro como uma brasa obscena, os churrascos empilhando gordura nas artérias, as noites que passava sem dormir, o cotidiano dentro de um carro. Alguém da sua idade não podia fazer aquilo, correr como um desesperado inconsequente era coisa de gente jovem, por Deus, ele era um professor de respeito, um homem acostumado a dar palestras pelo país todo, um pesquisador cujas maiores caminhadas eram dadas em insossos coquetéis de universidade.  A razão saiu do canto da alma onde se escondia e, com sua língua bífida, veio lhe sussurrar motivos. A contragosto, deixou o ritmo diminuir. Concluiu que tinha ido longe demais na loucura, mas, no mesmo segundo, a música eletrônica intrometeu-se no seu playlist e lembrou-lhe da sua juventude, quando tudo parecia ao alcance da mão. Junto com tal imagem, notou que estava correndo contra si mesmo. O único oponente era o outro homem cansado que corria dentro da sua sombra, e lembrou-se de Crísias, “seguindo a sombra, o tempo envelhece depressa”, o segredo da juventude era deixar a sombra sempre correndo atrás. O pensamento foi o combustível para afastar a idade, este veneno que se espalhava como ervas daninhas pelo seu corpo, erodindo o seu espírito com a sabedoria de um musgo antigo, e ele enfim se libertou dos limites do próprio tempo.

Aproximava-se a parte final da corrida. Entrou na última reta. Não existiam mais oponentes a lhe ameaçar, mas o seu inimigo interno continuava construindo castelos de vento. Sangue ribombava pelas suas veias, triunfal, alardeando a sua passagem com os clarins de um exército vencedor. No entanto, a insuficiência do que estava fazendo começou a lhe pesar nas passadas. O que pretendia provar? Que podia correr como um jovem? Qual o sentido daquele sacrifício, de tamanha dor? Podia ver a linha de chegada crescer no horizonte, mas também sentia passos invisíveis e resfolegantes a lhe perseguirem e os dedos insidiosos da dúvida tentando interromper a jornada. Ele podia se refugiar nos louros da sua vitória interna: correra de igual para igual uma corrida impossível. Não precisava mostrar mais nada para ninguém, a única plateia que interessava era ele mesmo.

Confortava-se com tal pensamento quando o amor do passado ressuscitou dentro dos seus ouvidos, trazido pelas ondas sonoras. A recordação trouxe a menina de cabelos cacheados e olhos tristes, e ele entendeu a resposta. Mais do que o corpo, mais do que a raiva, mais do que o tempo, o que movia todos os seus passos era o amor. A música sussurrava promessas impossíveis de algo maior do que ele, e o homem viu que não era mais um ser humano, e sim uma máquina disputando a corrida da vida, sabendo que tudo faria sentido se o beijo acalentador o esperasse ao final, um cálice de calma no meio do turbilhão do mundo. Foi com o sonho de um beijo que ele atravessou a linha de chegada, saudado pelos aplausos das poucas pessoas que esperavam.

Com dificuldade, o professor parou a corrida. No mesmo momento, todo o cansaço e o desgaste lhe atingiram como se fossem corredores retardatários. Sentiu que o seu corpo se esgarçava até o limite do universo. Só não desmaiou por que a vergonha de cair na frente de desconhecidos superou a tomada de consciência do que acontecera.

Demorou um pouco para retomar o controle. Viu os demais corredores cochichando, tentando entender como o figurante anônimo conseguira se destacar. Quando percebeu os flashes, estava sobre um improvisado pódio, um arremedo de coroa de flores sobre a cabeça e câmeras apontadas na sua direção, enquanto uma medalha dependurava-se no seu pescoço.

Com passos lentos, voltou para casa. Tinha certeza de que levaria uma semana, quiçá duas, para as fibras musculares voltarem a se acalmar; lembraria da corrida quando sentasse, quando deitasse, quando sorrisse. Pensava em como explicar para a sua mulher e para os dois filhos aquela medalha. Era melhor dizer que achara em um banco do parque. Livrou-se da coroa improvisada. Demorou um pouco para perceber que os barulhos do cotidiano infestavam a cidade. O tocador digital estava silencioso. Ele analisou a ordem das músicas: ali estava o comando mental que o forçava a correr. Foi uma coincidência que ditou a sua escolha naquele dia, mas devia existir uma sequência para cada fato humano, uma ordem musical ou de quadros ou de movimentos de dança ou de livros ou de qualquer outra expressão artística, algo capaz de deflagrar o surgimento de outro homem. As pessoas passam a vida procurando a programação que irá fazê-las amar, ou escrever como se tudo na vida se limitasse a dedos e a pena, ou cozinhar jantares dignos de um panteão olímpico. Não era espantoso que Magritte tivesse colocado a verdade dentro de um quadro, diante dos olhos das testemunhas e espectadores que se detinham perante a obra: o homem retratado descobrira a sequência musical que o fazia matar e quedava-se, surpreso, diante do gramofone.

Dessa maneira atribulada, nasceu a primeira frase do texto futuro: “Somos todos assassinos, só que ainda não sabemos.” O professor apressou-se, ansioso para prender a ideia dentro das quatro linhas de um papel, a medalha esquecida na mão, a coroa de louros e a sua vitória apodrecendo dentro de um lixo anônimo.

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Obras Inquietas 44. “Melancolia I” (1514), Albrecht Dürer

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, cheguei à 44a obra que me desperta algum tipo de desconforto, e a escolhida dessa vez foi “Melancolia I” (1514). do Albrecht Dürer. Não cheguei a ler “O símbolo perdido” do Dan Brown, mas certa vez me comentaram que essa pintura é o centro de onde saem todos os mistérios resolvidos pelo personagem principal. Não surpreende: “Melancolia I” tem 503 anos de idade, e ainda engatinhamos nas tentativas de entendê-la.

Não resisti à tentação de atualizar os símbolos constantes na pintura e, assim, na minha leitura da obra de Albrecht Dürer, fiz citações indiretas aos desenhos de Goya, aos desalentos de Nietzsche, aos receios de Bernardo Soares e, por fim, mencionei trechos da peça para vocal “La nuit”, de Jean-Phillippe Rameau, e da música “Bota pra fudê”, do Camisa de Vênus. Vai aqui o link de “La nuit”:

Boa leitura.

“Melancolia I” (1514), Albrecht Dürer

Tudo tende ao vazio. Ao nada absoluto. À irrelevância. O tempo se arrasta com a paciência de quem sabe ser eterno. Paralisado, o vento suspende a sua caminhada ágil e o ar fede à morte, à imobilidade das águas paradas. Na parede, o Quadro Mágico deixa entrever os mistérios que nunca serão desvendados; enquanto isso, o compasso repousa, indeciso, nas mãos tristes do homem que não sabe para onde ir – ou será um artista à espera da sempre traiçoeira inspiração? A imagem retorce-se lentamente em torno do seu próprio centro, como uma cobra saciada que dorme sob a luz de um sol morto; os animais, os anjos e o céu estão cansados, não conseguem sair da areia movediça caprichosa em que a inação do homem os colocou. Diante da enormidade daquilo que podemos ser e do fracasso inevitável dos nossos sonhos, sentimo-nos insignificantes, incapazes de romper a inércia, incapazes de escapar do buraco negro que mora no nosso peito e diz que não podemos ser nada, que nunca seremos nada, que na nossa lápide estará escrito “nada”. Existe uma beleza tão bonita quanto o sonho, existe uma verdade mais doce do que a esperança? Qual o sentido de viver, se não conseguimos escapar de nossas fraquezas? Se nada acontece, a vida então se repete? Dentro da imagem se esconde o segredo dos erros sempre iguais, da sensação de desalento que às vezes nos acomete, da procrastinação das tarefas, do medo de começar para, então, falhar. A Melancolia é um veneno lento que sufoca a nossa liberdade – é o cadáver silencioso que nos segue dentro da sombra, sempre lembrando que somos humanos, demasiado humanos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/10/obras-inquietas-44-melancolia-i-514-albrecht-durer/

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Obras Inquietas – 43. “Mulher chorando” (1947), Cândido Portinari

Nessa semana, na minha coluna no Artrianon, eu falei sobre uma obra pouco comentada de Cândido Portinari, “Mulher chorando” (1947). A postura pasma e um tanto bovina da desconhecida revela uma mulher acostumada a sofrer e que, ainda assim, deixou a dor assumir o controle dos seus atos. Temos mais dúvidas do que certezas, mas todos nos identificamos de alguma forma com essa mulher e seu choro dolorido.

Boa leitura.

“Mulher chorando” (1947), Cândido Portinari

No silêncio da imagem, um olho mal consegue esconder o espanto, a incredulidade, a dor. As mãos desajeitadas, disformes depois de tantos anos de maus-tratos e de serem usadas até os limites das suas forças, amparam o rosto como se nunca tivessem tocado a pele que envelhece mais rápido do que o tempo. Ela não é uma mulher acostumada a acariciar e, no gesto paralisado, existe algo de mecânico, de desconforto. Do olho fechado, o silêncio dolorido cede diante do peso da sua existência e brota na forma de uma lágrima impregnada de desespero. Ela não é bonita, e sequer sabe se vestir com a elegância irreal que a sociedade exige. A mulher não se preocupa com ser, e sim com o que é, e, nesse momento, ela está preenchida pela dor, que se espalha no mundo através do olho ainda cheio de surpresa, pelo outro semicerrado que permitiu a fuga da lágrima traiçoeira. Ninguém sabe o motivo pelo qual a mulher ali jaz em silenciosa contemplação. Ninguém conhece o seu nome, ou qual o peso que angustia a sua consciência. Ainda assim, reconhecemos nela o incômodo reflexo das vezes em que choramos sozinhos no escuro, das ocasiões em que nos sentimos sufocar no meio do cotidiano, dos momentos em que perdemos o controle. Não perguntes por quem a mulher chora, pois ela pranteia todos nós.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/04/obras-inquietas-43-mulher-chorando-1947-candido-portinari/

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O sonho do arco-íris e o persistente cheiro de sangue humano

Às vezes perguntam-me o segredo de escrever bem – como se existisse algum segredo nisso, e como se escrever fosse algo mensurável – e eu respondo com o sábio conselho da minha orientadora de Mestrado e professora Léa Masina: ler e decorar um poema em jejum, assim que acordar.

Por alguns anos consegui fazer essa “dieta” com moderado sucesso, mas, nos últimos tempos, percebo que os poemas outrora decorados estão sumindo. Um lado meu lastima que as leituras posteriores estejam apagando os poemas memorizados com tamanho afinco, mas outro lado exulta, pois não quer dizer que os poemas estejam sumindo, mas que estão se mesclando ao meu estilo. Não são poucas as ocasiões em que escrevo frases e sinto fantasmas de palavras que não são minhas, mas de Drummond, de Camões, de Shakespeare, de Petrarca. Estão todos dentro do texto, meus antigos amigos.

Eles surgem nas horas mais inesperadas, e abrem passagem aos trambolhões. Percebi um fenômeno muito interessante: a persistência das imagens poéticas. Assim como o marisco que gruda no rochedo e luta contra a onda, as imagens poéticas marcantes continuam vivas dentro da minha memória, revolvendo-se e surgindo quando o “gatilho” é acionado. Esses dias alguém me comentou “Raimundo”, e eu respondi automaticamente com o verso de Drummond, “mundo mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”. Outra pessoa comentou que seu filho escrevia ótimos poemas mas nunca mostrou para ninguém, e eu mencionei o “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, “o mundo é para quem nasce para o conquistar, mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, ainda que não more nela”. Uma escritora falou da sua dificuldade de escrever poemas e eu sugeri, sem pensar, “Penetra surdamente no mundo das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário”, e só depois notei que estava citando Drummond e a “Procura da poesia”.

As imagens poéticas não seguem a métrica original, como se pode ver por esses exemplos. Estão sintetizadas, cortadas, reduzidas àquilo que mais me impactou, em uma forma selvagem que lembra não somente os autores originais mas também as minhas reflexões sobre o assunto – e a de outros escritores. Quando deixada sem controle, a memória é mais feroz do que um tigre acuado.

Ao contrário de alguns colegas, que forçam a recordação para que ela traga à tona os poemas escondidos debaixo da sua camada de gelo, eu me resignei. Deixo a memória solta para fazer a associação que bem entender, e não me esforço em lembrar o desinteressante, mas prefiro destacar aquilo que me marcou. As imagens poéticas estão por todos os lados a me atormentar, podendo surgir quando menos se espera.

Não faz muito tempo assisti a um documentário, “The truth is in the stars”, uma série de entrevistas que William Shatner – o eterno Capitão Kirk da Enterprise – fez com uma série de físicos e artistas para ver o quanto Star Trek influenciou as suas vidas, indo de Ben Stiller até Stephen Hawking. Entre as entrevistas, ele passeou por Cambridge, a faculdade que, desde o seu surgimento em 1208, viu passarem pelos seus pátios Isaac Newton, Charles Darwin e o próprio Stephen Hawking.

Enquanto estava lá, Shatner contou a história do chinês Xu Zhi Mo que, em 1928, estudando em Cambridge, escreveu um poema que se tornou muito famoso na China, mesclando a visão oriental de mundo com as formas poéticas ocidentais. Ele costumava sentar em um banco debaixo de uma árvore, na frente do lago que corta a Universidade, e escreveu o poema “On Leaving Cambridge” desse ponto de vista.

On Leaving Cambridge

Softly I am leaving,
Just as softly as I came;
I softly wave goodbye
To the clouds in the western sky.

The golden willows by the riverside
Are young brides in the setting sun;
Their glittering reflections on the shimmering river
Keep undulating in my heart.

The green tape grass rooted in the soft mud
Sways leisurely in the water;
I am willing to be such a waterweed
In the gentle flow of the River Cam.

That pool in the shade of elm trees
Holds not clear spring water, but a rainbow
Crumpled in the midst of duckweeds,
Where rainbow-like dreams settle.

To seek a dream? Go punting with a long pole,
Upstream to where green grass is greener,
With the punt laden with starlight,
And sing out loud in its radiance.

Yet now I cannot sing out loud,
Peace is my farewell music;
Even crickets are now silent for me,
For Cambridge this evening is silent.

Quietly I am leaving,
Just as quietly as I came;
Gently waving my sleeve,
I am not taking away a single cloud.

Tão famoso ficou esse poema que o governo chinês mandou encravá-lo em uma rocha, a qual foi colocada em Cambridge, próxima ao banco onde Xu Zhi Mo se sentou e teve a sua inspiração. Hoje é um ponto famoso de visita, e é muito legal ver quando algo sai da literatura e invade a realidade.

“On Leaving Cambridge”, de Xu Zhi Mo

Desde o momento em que soube essa história e li o poema, encantei-me por uma imagem: a água que está debaixo da sombra dos olmos que se projetam sobre o rio e contém, no seu interior, os sonhos do arco-íris. Tão poderosa essa construção que não consegui mais olhar as cenas filmadas em Cambridge sem imaginar como seriam os sonhos do arco-íris escondidos pelos multifacetados cristas de água que ondulam, sábios, na corrente tão enganadoramente pacífica.

Coincidência ou não, na mesma época em que assisti a esse documentário, estava lendo “Conversas com Francis Bacon”, escrito por Franck Maubert, reunindo algumas das conversas mantidas pelo jornalista com o pintor sobre arte, sobre literatura e sobre o mundo. Admiro muito a carnalidade quase obscena das obras de Francis Bacon – é o tipo de quadro que não entendo o motivo pelo qual me fascina, mas não consigo afastar os olhos. Uma explicação possível, quase indiferente, é dada pelo próprio artista: ele tenta pintar a carne fora do corpo que lhe confina, ou seja, a carne é algo que se despeja para fora do limite corporal. Essa ideia é absolutamente fascinante: quem nos garante que o corpo não é uma prisão, e a carne seria algo ansioso para explodir e se libertar da sua materialidade constrangedora?

Irritei-me um pouco com a tentativa explícita de Maubert de ver as influências da fotografia, do cinema e de outros pintores sobre o trabalho de Francis Bacon, quando o artista afirma diversas vezes que a sua fonte maior de inspiração eram as imagens presentes nos poemas de Shakespeare, de Racine, de Dante, de Yeats, de T. S. Eliot. Por que é tão difícil acreditar que a literatura pode ser fonte de criação para outras formas de expressão artística? O fato dela não possuir imagens não quer dizer que somente imagens podem inspirar outras.

“Estudo para um retrato” (1952), Francis Bacon

Nas ocasiões em que citou a literatura como meio de inspiração, o pintor menciona a inquietação que alguns textos geravam na calma do seu espírito, tão forte que a única maneira encontrada para expiar o sentimento era através da pintura. Da mesma forma que acontece comigo, Francis Bacon não lembrava os poemas completos, mas as imagens poéticas evocadas pela memória, tão poderosas que tinham sobrevivido à erosão da memória e do tempo, e assim citou de cabeça versos de Yeats e de Eliot.

Foi numa dessas recordações que Francis Bacon mencionou um verso de Ésquilo nas “Eumênides”, algo tão impactante que cravara os dentes na sua personalidade e acabara se transformando quase em um credo pessoal. O verso era “O cheiro do sangue humano não desgruda seus olhos de mim”.

No entanto, esse verso não existe. Como o jornalista fez questão de destacar em uma nota de rodapé, apesar de ter sido citada pelo pintor por inúmeras vezes dessa maneira, o verso constante na obra de Ésquilo era “O cheiro do sangue humano me sorri”. Mauteck levanta a hipótese de que Bacon tenha se apossado desse verso das “Eumênides”, deixando de ser do dramaturgo grego e passando a ser propriedade sua. Era uma criação nova, cheia de vida e de ferocidade, engendrada por uma memória que não só recordava, mas era igualmente uma força inventora dotada de mecanismos próprios.

Foi algo que acabou me trazendo um consolo: não esqueci aquilo que levei tantos anos para saber, mas estou digerindo os poemas de muitos autores inesquecíveis e, no meio dessa confusão, existem estrelas – imagens poéticas – que reluzem com raiva indômita, aparecendo nos momentos mais inesperados. Tantas pessoas reclamam da falta de memória, mas eu acredito que a minha, em um processo de sobrevivência, está se canibalizando. A memória escolhe os temas e eu dou gume, alada rima, fazendo deles flechas exímias que, após lançadas, voarão certeiras até que a presa, nosso inimigo, se lamente. Nada como acabar um texto invocando a sombra de Aleksandr Pushkin – ou a minha, já não sei mais quem está falando aqui dentro.

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