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O Poema sem Fim de Utrecht

Isso é muito lindo. No exato momento em que estou escrevendo essas palavras – e você está lendo -, um poema sem fim está sendo escrito com palavras e pedras na cidade holandesa de Utreicht.

Os responsáveis pelo poema são os integrantes da Guilda de Poetas de Utreicht. Cabe a eles escolherem a palavra que será escrita em pedra. O funcionamento é simples e, depois de cinco anos, transformou-se em um ritual. Todo sábado, o dono de uma pedreira local transporta uma pedra até a beira do canal local e a deixa ali, até o poeta surgir com seu formão e inscrever a letra. Em seguida, a pedra é arrastada até o fosso em que as suas irmãs se encontram, juntando-se a elas em uma linha sucessiva que forma palavras, que se juntam em versos, que virarão uma poesia que ninguém sabe como ou quando terminará – se é que terminará algum dia.

O projeto – considerado uma “escultura social feita ao ar livre” – começou oficialmente em 2012, mas nesse ano foram acrescentados 648 blocos correspondendo às letras que eram devidas desde o dia 01 de janeiro do ano de 2000, então, para todos os efeitos, é um projeto que teve o seu início com o século XXI e se estenderá enquanto existirem palavras, enquanto existirem pedras, enquanto existirem poetas.

O poema tem um título, “Cartas de Utreicht”, e a linha pela qual ele segue contorna o antigo canal da cidade (Oudegracht), mas já existe uma ideia de como expandi-la se, algum dia, o canal não for mais suficiente para a poesia. Veremos, então, o que é mais forte: o rio ou a poesia. A geografia e suas linhas duras e furiosas ou a instabilidade da imaginação.

O projeto é apoiado pela cidade, que também se mobiliza para saber qual caminho o poema tomará. Leva semanas para as palavras se formarem, e alguns meses para as orações se tornarem compreensíveis, mas quem disse que a poesia não é um trabalho de construção laboriosa e muita paciência? Desconfio muito desses poetas que se jactam de escreverem de forma compulsiva, com a inspiração à flor da pele, em um fluxo contínuo de imagens poéticas. Para mim, a verdadeira poesia se faz assim: uma letra de cada vez, as palavras sendo paulatinamente conquistadas pelo entusiasmo ou pelo cansaço, até se renderem em versos e estes em estrofes. Desconfio da poesia rápida, pois tudo aquilo que é facilmente feito, é também fácil de ser esquecido.

Não posso sequer imaginar como será o dia em que o último poeta de Utreicht – pois tudo chega até o fim, mesmo os poetas – estiver formando as derradeiras letras para colocar nos versos iniciados por uma longa linhagem de homens e mulheres que lhe antecederam, todos unidos sob a mesma bandeira e mesmo sonho. Será que a pedra terá o mesmo peso, será que as palavras ainda farão sentido? Será que ele verá o fim do poema ou o deixará inconcluso, incapaz de encerrar um trabalho de tantos anos?

O Poema sem Fim, ou as “Cartas de Utreicht”, possui os seguintes versos, traduzidos para o inglês pela equipe do Atlas Obscura (www.atlasobscura.com):

You have to start somewhere to give the past a place, the present is getting less and less. The further you are, the better. Go ahead now,

Leave your tracks. Forget the flash in which you may exist, the world is your street plan. Was there a time when you were another: it went by.

You are the other though. You are, as you know, the spell of this story. This is eternity. It takes. It’s time. Therefore, go into your story and swallow. Tell.

Tell us who you are with each step. In our story we disappear naturally, and only you remain in the long run. You and these letters, which are cut out of stone. Like the letters on our grave.

They burst into the Dom. Raised to the sky like an index finger, to indicate the guilty and demand more time. So we can go up straight, like people along the canal.

Stare at their feet. Look up! See Utrecht’s churches protruding above ground level. Raise the hands, begging with the towers to be this privilege: to be, now. The weather is nice.

Stand on. Life is witness to your gaze on the horizon. Your footsteps …

Está ficando um poema ótimo.Provavelmente não estaremos vivos para saber o seu final, e nisso existe uma lição de humildade: o Tempo não existe para a Poesia. Nós criamos o Tempo que nos encapsula, mas, para a Poesia – e para as Pedras – o Tempo é um conceito tão vago que sequer é levado em consideração. O que importa, no final do dia, é prosseguir em frente, sem saber se aquela é a última palavra, uma letra qualquer no muro da existência ou se chegamos ao verso final da vida.

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Sobre o processo de transformar palavras em igrejas

Todo mundo gosta de escrever sobre si mesmo e sobre aquilo que conhece. Desafio mesmo é escrever sobre o que não vemos e, ainda assim, existe.

Três anos atrás, fui convidado a participar de uma antologia de contos. Eu devia escrever sobre Santa Cruz do Sul, sobre algum detalhe da cidade ou de seu povo.

No final, escrevi dois contos. O primeiro, uma história de terror exemplar, “Morrer em Santa Cruz do Sul”, uma trama em que um engenheiro de tráfego descobria que as ruas da cidade tinham vida própria, escolhendo de forma caprichosa as pessoas que deviam morrer, e que cada cidade possuía um espírito sombrio esgueirando-se pelos suas tubulações, esquinas e parques. Um dia ainda pretendo publicá-lo em algum lugar (apesar de ser uma história que dificilmente me deixaria nas graças da valorosa população de Santa Cruz do Sul. É uma homenagem duvidosa, mas interessante, acreditem).

O segundo conto não se passa propriamente em Santa Cruz do Sul, mas no distrito de Rio Pardinho. Uma amiga, Andrea Kahmann, certa vez me contou que a primeira igreja luterana da cidade tinha sido construída em escassos 4 meses e meio por cinquenta e dois homens, que largaram o que estavam fazendo para realizar tal tarefa. A história me fascinou por vários motivos, em especial pela força moral desses homens e suas mulheres que deixaram tudo de lado para construir algo que atravessasse os anos. Em épocas em que somos regidos pelo signo do instantâneo, parece incrível que existem pessoas que pensem não só na satisfação egoísta e momentânea, mas em obras que sobrevivam ao próprio Tempo.

O resultado dessa reflexão foi o conto seguinte, “Cinquenta e duas agonias”, que pretendi escrever como uma homenagem a esses cinquenta e dois desconhecidos. Ainda é uma história que me deixa comovido, pois tenho a forte impressão de que escrevi algo sobre muito maior do que a simples construção de uma igreja.

Eu escrevi sobre essa igreja sem nunca tê-la visto, escutando as histórias contadas pela Andrea, os relatos de outros moradores e investigando sobre o assunto em livros e na internet. Tinha um certo receio de que encontrar a igreja fosse sepultar a minha narrativa antes mesmo que ela conseguisse nascer.

Pois ontem, três anos depois, eu enfim estive na Igreja dos Imigrantes em Rio Pardinho. Foi uma experiência única: encontrar o local que sonhei antes mesmo que ele existisse, e que existia antes mesmo de eu sonhar.

O mais incrível foi ver que a minha história deturpou a realidade: não conseguia mais estar diante da pequena Igreja dos Imigrantes sem ver a sombra dos 52 homens que a construíram. Discreto, o local quase esquecido fica sobre um morro, e a sua vista vai longe. No campanário da pequena torre, uma enorme colmeia de marimbondos despejava criaturinhas voadoras como se fossem mísseis a me cercar. E o silêncio…! Insuperável. Se existe um lugar que eu acredito que Deus possa vir se sentar às vezes para tomar um mate e comer uma cuca, seria sob a sombra da Igreja dos Imigrantes de Rio Pardinho.

Não tenho mais vontade de dedicar histórias para outras pessoas, a não ser que elas façam por merecer – E MUITO. Pois eu dediquei esse conto para a Andrea Kahmann, que não só foi a sua primeira leitora como chorou cântaros quando viu o milagre que a literatura é capaz de fazer: ressuscitar uma história quase esquecida e fazer os mortos sorrirem de novo.

Eis o conto – e com imagens da igreja cuja construção narrei (ou sonhei, o que dá quase no mesmo).

 

Cinquenta e duas agonias

Para Andrea Kahmann,  que acredita.

Ninguém sabe quando a primeira pedra apareceu; não se sabe o local onde ela repousava em mudez eterna, se ela imaginava o destino de tornar-se a primeira, se ela pensava que, algum dia, iria sustentar um templo sobre as suas costas. Assim como nenhum homem escolhe sua missão, não cabe à rocha discutir os desígnios misteriosos que fizeram dela a eleita, ao invés da semelhante que repousava ao lado. Afinal, entre todos os usos que se podia dar a uma pedra, desde assassinatos até a indiferença, fazer parte de um todo maior ainda era o mais louvável.

Os homens apareceram na manhã chuvosa, as roupas sujas e enlameadas antecipando o barro que logo se agarraria como ventosa nos corpos e nem a mais límpida água seria capaz de remover. Do barro eles vieram, e no barro voltariam a se enfiar. Ninguém lembraria o dia em que eles tomaram a decisão, pois ninguém se importa com o início, somente o fim das coisas é que se conta de geração em geração. Não sabemos se eles oraram, se alguém lhes dedicou palavras de incentivo, se eles riam ou se estavam sérios. Não sabemos quase nada sobre eles; talvez alguns nomes ainda nos espiem das lápides do cemitério, talvez eles ainda nos vejam se aproximar da obra para a qual dedicariam tantos medos. O que sabemos é que, um dia, um homem olhou para o pedaço de chão e sonhou um templo. Algumas pessoas sonham filhos, outras sonham futuros, mas este homem, no palácio da sua imaginação, desenhou uma casa para louvar Deus. Era um templo impossível: as cores que lhe foram dadas pelo sonho não existiam no mundo real, o tamanho era desproporcional ao seu custo, ele possuía colunatas, abóbadas, vestíbulos, naves e vitrais que ficariam para sempre presos na mente do homem, limitados pela realidade dura dos tempos difíceis em que viviam. Nunca conheceremos a verdadeira igreja, ela está sepultada com quem a sonhou – e perdida para sempre. Conhecemos somente a sua sombra, a imperfeição que mãos humanas transformaram em realidade. Assim como ignoramos a primeira pedra, nunca conheceremos o projeto original do sonhador, e a noção da nossa falibilidade é pedra angustiada que cai em um poço escuro sem saber onde está o alívio do chão.

Ao final do dia, cinquenta e duas pessoas trabalhavam no terreno. Cinquenta e dois homens de fé, dizia o pastor. Cinquenta e dois loucos, bradavam alguns moradores da região, rindo pelas costas daqueles que abandonaram as famílias e as plantações para construir algo pelo qual não ganhariam nada. Cinquenta e dois hereges, sussurrariam os católicos, incomodados com a ideia de um templo erguido para a pregação de palavras que não as suas. Homens de fé, loucos ou hereges, o rótulo pouco interessava. Se alguém perguntasse para eles o motivo de estarem ali, trabalhando debaixo do sol que nunca sorria e correndo o risco de prejudicar a economia das suas famílias, eles provavelmente não conseguiriam responder. Não era pelo que acreditavam, muito menos por insanidade; faziam por que alguém precisava fazer, por que a Humanidade se divide entre os que fazem e os que ficam assistindo. Precisavam deixar a sua marca no mundo e atravessar os tempos. Seus filhos e os filhos de seus filhos e os filhos destes e todos os demais saberiam de sua existência, não só pelo nome gravado na pedra deitada, mas pelas rochas postas em pé na missão de se tornarem um templo.

Os dias da construção se sucederam. Às vezes, era tão frio que os construtores não conseguiam dobrar os dedos sem a dor estilhaçar suas mãos.Enquanto a geada se espalhava como um manto branco sobre os campos e as árvores secas murmuravam promessas de vento, o mais inabalável dos espíritos encolhia-se e esfregava as mãos em busca de consolo e levantava-as aos céus à espera de mais. Em outras ocasiões, a chuva desmoronava como se o céu quisesse trocar de lugar com a terra, e relâmpagos cruzavam os campos com fúria, despedaçando o silêncio e urrando tempestades. Havia, também,os dias quentes, quando o tempo se arrastava, contado em excruciantes gotas de suor no meio do barro, e o mundo inteiro queimava, devagar e crepitante. Eram cinquenta e dois homens acostumados aos humores da natureza, mas, encolhidos no frio e fugindo do vento insidioso, ou encharcados de tanta água que a pele parecia se dissolver, ou sentindo o calor traçar rios de lava dentro das suas veias, era inevitável que tivessem dúvidas, que sentissem as forças esmorecerem. No entanto, contra todo o comodismo e conforto, não desistiram. Era difícil de explicar tal obstinação para os outros, mas os sacrifícios valiam a pena quando, no final do dia, eles viam o sol se acovardar na linha do horizonte e as primeiras estrelas os recordavam das promessas de um mundo novo, com terras férteis e comida em abundância, mas onde a fé não podia faltar. Ou, então, quando o orvalho da manhã era surpreendido pelo dia, erguendo fumaças tímidas que desenhavam imagens sobre o campo; ou quando as nuvens perseguiam o firmamento e mudavam de tonalidade à medida que o dia passava, limpando um pouco das humanidades afligidas pelo cansaço.

E a igreja subia as paredes em direção ao céu. A cada linha de pedra assentada, o trabalho se intensificava, mas a visão inebriante da obra compensava a dificuldade. Aquilo que tinha sido o sonho de um, agora virava realidade para todos. Eles paravam diante das paredes inconclusas, dos locais em que ficariam as janelas, do ponto em que seria instalado o púlpito, e também sonhavam. Não era um templo que estava naquele terreno; existiam mais cinquenta e duas almas de prédios, cada uma delas com a versão do seu construtor, sentenciada a ruir nas paragens instáveis do sonho enquanto tentava virar realidade. Cada trabalhador acreditava que a sua visão era a mais verdadeira, e, ao final, quando restasse somente uma igreja de pedra, todos teriam certeza que aquela era a sua igreja, a que tinham sonhado em silêncio no meio do campo.

Por vezes, as mulheres vinham ajudar no trabalho. Traziam cucas, pães e assados, espalhando-se ao redor do terreno em um piquenique improvisado, costurando, cerzindo e conversando, enquanto atendiam as crianças que corriam ao redor. Nenhum dos homens confessaria em voz alta, mas a visão de suas famílias e da vida que vicejava ao redor era um estímulo para o trabalho. Mesmo o pastor, com as suas incessantes pregações ao redor da obra, era incapaz de dar a mesma sensação de completude. Ele prometera que, além do culto e da doutrina, a igreja seria o abrigo das primeiras letras, das matemáticas simples e das lições de vida, servindo para formar o caráter das gerações futuras. A sensação de saber que sua obra espalharia religião e educação pelo novo mundo, aliando o divino com o conhecimento humano, também lhes dava força para prosseguir no objetivo: um olho nas pedras, outro nos céus. Entre os extremos, o horizonte ao qual eles chorariam a angústia de nunca mais saber daqueles que ficaram para trás, no velho mundo tão distante. Dali para frente, tudo cheiraria a barro: cheiraria a chão depois da chuva, a lavoura que se sulca para deitar sementes, à terra santa para repousar em paz. E, acima de tudo, o templo e o futuro que deixariam para os filhos e os filhos de seus filhos e aos filhos destes também, que cresceriam com outro clima, outras promessas, outras palavras, tão longe da fome e do flagelo da ignorância. Ou, ao menos, era nisso que acreditavam, no que precisavam acreditar, após tanto mar, tanta mata, tanta raiva, tanto medo.

Nos tempos atuais, as pessoas preferem comprar objetos prontos ao invés de fazê-los e, assim, dificilmente entenderão o que significa construir algo. Contudo, qualquer um que olhe o templo, perceberá que cada mísera pedra foi colocada por duas mãos. Nenhuma máquina ajudou. Cada linha de pedras emparelhada necessitou de força e da dose necessária de conhecimento. Cada parede surgiu graças às pedras colocadas uma a uma e, depois, unidas por argamassa. O templo não foi feito só por rochas ou sonhos, também foi construído com sangue, com calos, com unhas quebradas, com choros disfarçados, com queixas muito humanas. Os cinquenta e dois trabalhadores colocaram parte das suas almas no entremeio das pedras. As dores fazem parte do DNA da obra. Quando ela se alteia ao céu, não são pedras que clamam pela atenção divina: são cinquenta e duas agonias que erguem as suas vozes em uníssono para saudar o sol, para brincar com as nuvens, para ridicularizar os ventos e estremecer as tempestades. Cada homem é uma agonia de si mesmo, e cinquenta e duas almas reunidas no mesmo espaço são invencíveis.

E, assim como o Verbo se fez carne, a carne se fez pedra. As paredes se completaram. O altar foi cuidadosamente colocado. O púlpito para a leitura da Bíblia restou erguido; a palavra de Deus deve estar sempre acima da palavra dos homens. Por esta época, o cemitério ao lado da construção já possuía os primeiros corpos, pois a morte não teve a decência de esperar o término da obra. Não puderam colocar sinos, então sonharam com o seu som a percorrer os campos. Não puderam colocar uma torre, pois isso era proibido para locais não-católicos. As regras dos homens estragavam os sonhos dos construtores, mas o templo continuava existindo. Apesar disso, alguns deles suspiravam ao pensar que jamais escutariam o clamor festivo ou lúgubre do sino a chamar para as celebrações ou a anunciar as mortes, e que jamais veriam a torre cortar o céu azul com o espanto de um passarinho de pedra. Ser humano é conviver com a frustração, e era duro para os trabalhadores saber que nunca veriam o templo desejado. No entanto, sem que precisassem trocar uma palavra a respeito, um pacto se estabeleceu: um dia, um dia longínquo quem sabe, teriam sino e torre, e badalariam o metal na anunciação de seus matrimônios e da glória de se andar pela cidade dos brasileiros tendo pelas mãos os seus filhos legítimos reconhecidos,enfim,pela lei, e não só por Deus. As decisões políticas são passageiras, mas as obras ficam para sempre. E elas poderiam esperar por séculos, pacientes, pois não são somente as pessoas que sonham, um templo também ambiciona o dia em que será perfeito, em que será perfeito, e bom, justo e nobre – tudo conforme a vontade de Deus.

Assim como ninguém sabe quem escolheu e colocou a primeira pedra, nunca teremos noção de quem foi o trabalhador que pegou a última e a depositou na derradeira lacuna. Não saberemos nunca o que os cinquenta e dois homens pensaram ao se afastarem e verem o templo. Não saberemos se choravam, se conversavam ou se seus lábios exibiam sorrisos de júbilo. No entanto, podemos imaginar, e eu imagino o silêncio. Não o silêncio como ausência de som, mas o silêncio primitivo, aquele que existia no primeiro orvalho do mundo, aquele que aparece em intervalos minúsculos da experiência humana; um silêncio tão grande que é possível sentir a nossa alma raspando as paredes do corpo. Imagino que todas as palavras necessárias tinham sido ditas. Imagino que cercaram a entrada da igreja e se entregaram à imensidão do que tinham construído, mergulhando na espiral do mais puro e libertador dos silêncios. Um templo existe antes de ser templo e, apesar das pessoas considerarem o momento do seu nascimento como o dia do primeiro culto, para os seus construtores, ele estava concluído desde o instante em que o hesitante vento esquadrinhou as suas paredes e buliu com a poeira do chão.

Talvez algumas pessoas tenham transmitido para as suas famílias como foi o primeiro culto, mas as palavras exatas se perderam com o tempo. Não sabemos como os cinquenta e dois homens estavam vestidos, não sabemos se olhavam a sua obra com a adoração de quem está diante do objeto amado ou se preferiam lastimar os cortes e machucados nas mãos que, enfim, deixariam o ofício de construtor e voltariam para as plantações negligenciadas. Alguns dos seus nomes seriam apagados pelo tempo, outros deixariam marcas nas lápides do cemitério ao lado da igreja que construíram. Todo homem que constrói algo deixa uma parte da sua alma no objeto, seja ele um texto, seja ele um filho. Hoje, na Igreja dos Imigrantes em Rio Pardinho, cinquenta e duas almas, com suas agonias próprias, sentam-se entre nós e sussurram com vozes imemoriais a sua lição: os homens não são criaturas de poeira. Eles também são feitos de pedra e de sonho.

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O estímulo à leitura da Librairie Mollat, de Bordeaux

Uma das contas do Instagram que me dá mais alegria de acompanhar é a da Librairie Mollat, que fica em Bordeaux, na França.

Isso por que os funcionários e clientes do local encontraram uma maneira muito criativa de entusiasmar a leitura: passaram a usar as capas do livro como parte dos seus semblantes.

Alguns anos atrás, lembro que a Feira do Livro de Porto Alegre fez isso, mas, se bem me recordo, foi uma ação institucional e durou o tempo da Feira, além das capas serem fictícias (talvez por causa do receio das implicações comerciais). A Librairie Mollat pouco se importa com questões de publicidade ou de propaganda, prefere falar de livros, e suas fotos são muito engraçadas.

Tenho percebido que a literatura tem se levado muito a sério, e não precisa ser assim. É possível estimular a leitura com práticas divertidas e que não dependem da boa vontade dos governos, só usando um pouco de bom humor.

Vou colocar algumas fotos aqui, mas fica o convite para segui-los no Instagram.

 

 

 

 

 

 

 

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (09/02/2017): “A leitura como ato de guerra”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, falei das estratégias que uso para priorizar a leitura no meu cotidiano, algo que aconselharia para poucas pessoas.

Mas, como a vida também é elucubração, contei de como eliminei itens que consumiam minha atenção (como jornais e noticiários) para me concentrar nos livros; falei dos irritantes clichês que abundam no mundo (eita, acabei de fazer um clichê); contei da época em que a leitura era uma experiência coletiva; falei dos enroladores de charuto de uma fábrica que eram tão fãs de “O conde de Montecristo” que mandaram uma carta para Alexandre Dumas; falei (mal) dos saraus, que assassinam a leitura dos textos ao invés de incrementá-la; contei a história da interessante disputa entre joglars e trovadores na Europa do século XI para ver quem fazia as melhores leituras, se a literatura de entretenimento ou a literatura clássica (e tem tanta gente achando que descobriu a pólvora por aí ressuscitando uma discussão de 1.000 anos); falei das “Silent Reading Party”, um movimento que começou nos Estados Unidos, em que as pessoas se reúnem à noite em um bar para ler em silêncio e terminei contando a história de um grande homem infelizmente quase desconhecido, o tribuno Caio Asínio Polão, que, após uma vida de guerras, virou crítico literário e convidou ninguém menos do que Virgílio para fazer a primeira leitura pública – e comentada criticamente! – da “Eneida”, tudo para concluir que ler livros é o ato mais subversivo que existe.

Boa leitura!

 

A leitura como ato de guerra

 

Pergunta que sempre me fazem é como arrumo tempo para ler. Creio que a resposta seja frustrante: eu não sei. Não penso em livros como questão de tempo ou de comprometimento, mas como algo integrado à vida. É uma óbvia questão de espaço – e com frequência me angustia a proporção acelerada com que os livros chegam à minha biblioteca e a rapidez com que as prateleiras antes salvadoras tornam-se abarrotadas -, mas não um sacrifício como muitas pessoas parecem acreditar. Como qualquer coisa na vida, a leitura não precisa consumir largos períodos do cotidiano, mas pode tornar o tempo elástico o suficiente para caber dezenas de livros no seu interior. Alguns dizem que a leitura vence as noções de espaço, de realidade e até mesmo amplia a vida, mas, para mim, ler é algo que dilata o tempo ao invés de desperdiçá-lo.

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Com o passar dos anos, alguns procedimentos para deixar mais tempo para a leitura se tornaram inevitáveis, mas por causa de fatores darwinianos e não por minha vontade. Só os fortes sobrevivem. Em torno de 20 anos atrás, constatei o óbvio: não conseguiria ler todos os livros que desejo. Minha vida é curta demais. Para evitar perda de tempo que poderia ser melhor empregado, fiz cortes. Comecei eliminando as leituras de jornais; eles eram mal escritos, as notícias são enfadonhas na sua repetição e, em geral, tinham informações que não me acrescentavam muito. Hoje leio poucos suplementos de jornais, e todos ligados às novidades e análises do mundo cultural, graças aos quais estabeleço metas de espetáculos, filmes, exposições e livros. Para não me tornar um completo alienado do mundo, fiz um pequeno clipping de notícias que abastece meu e-mail com os assuntos que me importam.

Também cortei boa parte dos programas de televisão, pois eram eivados de clichês e de ideias soníferas. O clichê – a repetição ad nauseam da mesma ideia, tornando-a previsível – estava tão disseminado que até mesmo o ângulo da câmera ao explorar os cenários era evidente. Com o aumento progressivo das leituras, boa parte dos filmes do cinema e seriados de televisão também se tornaram previsíveis. Raros são os que conseguem me surpreender, mas uso os filmes e seriados mais para ver as nuances de criação de personagem. Ainda assim, depõe muito contra a cultura atual o quão previsível e datada ela se transformou, a ponto das risadas que damos de um filme agora serem ridículas quando revemos a obra poucos meses depois, demonstrando a vacuidade da ideia original.

É um movimento não cultural, mas da indústria cultural. Quanto mais vezes consumimos algo, mais gastamos. Não se realiza mais um material artístico para ser refletido e perdurar, mas somente para ser vendido várias vezes. É algo que explica a beleza apenas aparente das obras – elas são feitas para durar um pequeno lapso de tempo na nossa atenção, não para indagar questões profundas. Não usam varas curtas para cutucar onças; preferem fotografar os antílopes à distância.

No passado não era assim. A cultura não era parte do entretenimento, mas algo sério. Os artistas não produziam obras para ficarem ricos ou famosos, mas para que elas enganassem o tempo e vencessem os limites da vida do seu autor. A própria leitura era um ato coletivo. Como existiam poucos livros, as pessoas se reuniam em torno de uma pessoa, que lia a obra enquanto todos prestavam atenção. Em geral os atos de leitura aconteciam em igrejas; somente o padre tinha acesso à Bíblia, e a lia em público para as demais pessoas, conduzindo também as suas interpretações do texto sagrado. Aliás, a própria ideia de ter uma Bíblia ou consultá-la era uma heresia, pois somente os padres tinham acesso às palavras de Deus. Foi Santo Agostinho quem escreveu pela primeira vez sobre as benesses da leitura silenciosa, ao comentar sobre os hábitos de São Ambrósio – de quem era tão fã que tentava imitar – que lia para si mesmo mexendo os lábios, mas sem proferir som.

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Hoje vivemos no império da leitura silenciosa. Raramente vemos leituras coletivas, a não ser em saraus, onde elas são tão mal realizadas que geram mais desgosto do que alegrias (pois ler em voz alta também é uma arte, infelizmente desprezada pelos poetas e prosadores ao achar que a palavra escrita basta para um texto).

No entanto, existem histórias impressionantes sobre leituras coletivas feitas em ambientes inesperados, como, por exemplo, fábricas. Colocavam alguém para ler um livro enquanto os operários trabalhavam, e isso ajudava a passar o tempo e dava alívio para a rotina estafante. A mais inesperada das leituras coletivas aconteceu provavelmente na fábrica americana H. Upmann. Os operários – enroladores de charuto provenientes de Cuba – escolhiam por votação o livro que lhes seria lido enquanto trabalhavam. Gostavam tanto de “O conde de Montecristo” que decidiram mandar uma carta para Alexandre Dumas, pouco antes da sua morte em 1870, pedindo-lhe autorização para usar o nome do personagem em um charuto. Dumas aceitou, e até hoje o charuto Montecristo é apreciado ao redor do mundo.

Tão disputada era a leitura em voz alta que existiam grupos de leitores que disputavam a primazia entre si, como foi o caso dos joglars (que podem ser chamados de “menestréis”) e dos trovadores na Europa do século XI. Eram pessoas especializadas em leitura, que costumavam aparecer nas casas de nobres e até mesmo nas estalagens e tavernas para oferecer os seus serviços de leitor. A diferença crucial entre esses dois sistemas de leitura em voz alta é que os joglars eram especializados em quadras e versos populares, ou em uma literatura que podemos chamar de entretenimento, enquanto que os trovadores liam (ou faziam, pois alguns deles também eram autores) literatura clássica, em especial os versos latinos de autores como Virgílio e Homero. Uma distinção feita entre ambos é que o joglar era o intérprete de uma obra, ao passo que o trovador podia ser um intérprete ou um autor.

Os joglars eram estimados pela sua capacidade de se vergar ao interesse do público, podendo contar histórias pícaras, divertidas e de costumes, e com uma vantagem em relação aos trovadores – eles faziam leituras musicadas. Alguns deles também se vestiam como palhaços ou faziam acrobacias, ou seja, era uma leitura com muitos detalhes para chamar a atenção do espectador. Existia ainda uma diferença temática: os joglars falavam histórias eróticas, sendo que quase todos possuíam nomes de duplo sentido sexual. Eram entertainers no sentido mais amplo da palavra. Por sua vez, os trovadores, que se ocupavam do estilo clássico de leitura, acompanhados somente de músicas sóbrias, eram mais comedidos e circunspectos. Preferiam continuar fiéis ao texto escrito, sem muitos improvisos ou distrações, considerando a leitura não só como entretenimento, mas também como instrução e elevação de ideais.

Os dois sistemas de leitura em voz alta entraram em colisão. Alguns trovadores contrataram malabaristas para se apresentarem durante as suas leituras; alguns joglars fizeram composições próprias. No entanto, ambos tinham uma função muito importante, que era manter o povo calmo e sob o domínio dos poderosos: usando as leituras, tanto joglars quanto trovadores mostravam as vantagens de estar sob o jugo de quem lhes pagava, ou seja, o nobre, rei ou senhor feudal. Alguns deles inclusive passavam mensagens políticas cifradas entre diferentes reinos, atuando como espiões. Existem registros de joglars que funcionaram como fatores de rebelião de alguns povoados, algo quase impensável hoje, mas que demonstra a importância da leitura no aspecto social, econômico e político.

Talvez por isso a leitura seja a inimiga número um do poder e da tirania, o que explica a queima de livros como um gesto desesperado para impedir o surgimento de leitores. Contudo, nos tempos atuais, a lei do mercado ditou um novo tipo de queima de livros: com o surgimento maciço de obras que visam a arrecadar dinheiro, faltam aquelas que levam além o conceito de arte e despertam mais inquietações do que certezas.

Em um universo repleto de livros, é muito mais fácil esconder obras relevantes – ou evitar que elas venham ao mundo. Isso transforma o ato de ler livros como o exercício da rebeldia por excelência: estamos cercados de atrações que tentam tirar a nossa vontade de ler. Existem televisões, seriados, filmes impregnados de computação gráfica, videogames com altíssimo nível de perfeição, jornais com manchetes sedutoras. Nesse contexto, ler livros – sem abrir mão de outros prazeres – pode ser a única maneira de manter a sanidade em um mundo que tende à dispersão e à falta de foco.

Ainda existem locais de resistência; pontos em que a ignorância dos que gritam alto para impor argumentos não consegue entrar. Um ainda tímido movimento de renovação do prazer da leitura está se espalhando por cidades do mundo. Começou quatro anos atrás, em Seattle, nos Estados Unidos, e se chama “Silent Reading Party”. No bar do Hotel Sorrento, reuniu-se um grupo de pessoas que trazem os seus livros favoritos de casa, sentam-se confortavelmente nas cadeiras e, durante duas horas, em silêncio total, leem as obras. O máximo de barulho permitido são as bebidas sorvidas e o rumor das páginas virando. Ninguém faz comentários, ninguém tece opiniões, ninguém mostra conhecimento – todos se entregam à leitura compartilhada em um espaço público.

A justificativa é interessante: mesmo em casa, nem todas as pessoas dispõem de um lugar adequado para ler, o que acaba acontecendo na “Silent Reading Party”. Além disso, existe muita interferência do cotidiano – família, celular, vizinhos, obras, trânsito – que transmite inquietação para um leitor e atrapalha a sua imersão na obra. Sem contar que, como toda boa festa que se preze, sempre existe a possibilidade de conhecer pessoas interessantes irmanadas por um único ponto em comum, no caso, a leitura. Quem nunca se apaixonou pelo livro lido por outra mulher antes de gostar dela que jogue a primeira pedra.

Começou em Seattle, mas já se espalhou para Nova Iorque e para São Francisco, além de ter pulado a América do Norte e também aparecer em Roma, integrada ao movimento do Slow Food (enquanto esperam as comidas, as pessoas entregam-se à leitura dos livros ao invés de conversar entre si). Em Nova Iorque, aconteceu em um bar de Williamsburg, e uma cellista proporcionou acompanhamento sonoro não-invasivo para os leitores, enquanto que o bar entrou com um vinho especial para o momento.

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Silent Reading Party em Nova Iorque

Quanto mais tentam sufocar a leitura, mais ela viceja, e existe subversão nesse ato. Quando deixou de assistir telejornais ou opto por não ler jornais, estou na contramão da sociedade de informação; perco em atualidades, mas ganho em alegrias e redescobertas pessoais. Foi o que aconteceu com Caio Asínio Polião, um dos romanos mais ilustres que existiu e, possivelmente, um dos mais ignorados. Não irei me deter em toda a sua biografia, mas destacarei alguns pontos. Nos seus 61 anos de idade, Caio Asínio estava ao lado de Júlio César quando ele atravessou o Rubicão; em conjunto com Caio Curião, perdeu a sangrenta batalha do Rio Bagradas para o rei da Numíbia, aliado de Pompeu, e fugiu com um grupo de soldados, deixando mais de 8.000 mortos para trás; teve que aguentar o desgosto de descobrir a traição de sua esposa, Quíncia, com Dolabela, o líder da oposição ao seu cargo de tribuno; participou ativamente da guerra na Hispânia; na guerra entre Otaviano e Marco Antônio, primeiro se juntou a Marco Antônio, mas, em seguida, ajudou a costurar a paz entre eles na Paz de Brundísio.

Caio Asínio Polião teve uma vida de muita agitação militar para dedicar os seus últimos dias ao estímulo da leitura. Foi o criador da primeira Biblioteca Pública de Roma, transformando-a em um espaço onde os leitores podiam se agrupar para consultar livros. Tentando deixar o local confortável, encheu-o de obras pilhadas de outros povos ou de artistas locais, transformando a leitura em uma atividade de prazer estético mais do que uma obrigação. Após fundar a biblioteca e decorá-la com muita arte, o guerreiro aposentado transformou-se em um renomado crítico literário e historiador, tendo escrito “História Romana”, que não chegou até os nossos tempos, mas foi livro de cabeceira de muitos escritores da época, inclusive Plutarco.

Na qualidade de estimulador da leitura, Caio Asínio Polião costumava organizar leituras públicas na sua casa, ocasião em que os escritores apresentavam os seus trabalhos enquanto os convivas deliciavam-se com um banquete. Como Horácio era um dos seus melhores amigos, é muito provável que boa parte dos poemas do autor romano foram lidos em primeira mão na casa de Caio Asínio.

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Caio Asínio Polião

A leitura pública mais polêmica na casa do antigo militar foi feita por um Virgílio no ápice do seu ímpeto criativo, que apresentou, em premiére mundial, os trechos iniciais da “Eneida”, colocando o troiano Enéias como fundador mitológico de Roma. Tão esperada era essa leitura que a família de Augusto compareceu em peso para prestigiá-la, e o escritor foi muito elogiado.

Ao final da leitura de Virgílio, Caio Asínio Polião resolveu fazer uma apreciação crítica da “Eneida” – a primeira na História da crítica literária. Não temos o teor exato de todas as palavras que ele falou sobre a obra, somente de uma frase que sobreviveu a mais de 2.050 anos desde que tocou as pedras do seu salão de banquete, em uma Roma que, orgulhosa, era o centro do mundo ocidental: “Enganam-se os que dizem que a leitura é uma brincadeira; na verdade, ler é sempre um ato de guerra”. Isso foi dito por um militar que pasou a vida toda envolvido em batalhas, e considerava a leitura como estando no mesmo patamar de intensidade. Uma guerra que nunca cessa: contra o obscurantismo, contra a preguiça de pensar por conta própria, contra o tempo – e contra a nossa inefável mortalidade.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/a-leitura-como-ato-de-guerra-5e12d5a39740#.xl7svuaep

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (05/01/2017): “Longa vida aos invejosos”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falei da inveja. Tudo por causa de um presente que ganhei: um “olho de Hórus” gigante contra o mau olhado.

Mas também falei da minha visita ao Salão Nobre de Escritores de Salto, no Uruguai, e faço suposições sobre a guerra que esse Salão Nobre representaria no mundo literário gaúcho; trato de Julio Cortázar e do seu desejo de escrever como Bioy Casares (todos os escritores sonham em ser Bioy Casares) e termino falando dos epigramas de Paladas de Alexandria e a sua receita para lidar com a inveja: ser melhor do que o objeto invejado.

Boa leitura!

Longa vida aos invejosos

De todos os pecados capitais, provavelmente a inveja é o mais temido. Não são poucas as pessoas que me perguntam se tenho medo dos invejosos; em compensação, nunca ninguém me perguntou se receio os gulosos, os preguiçosos ou as luxuriosas. Não entendo o motivo pelo qual a inveja alheia iria me atemorizar. Se alguém se sente dessa forma, é um sentimento que lhe aflige, e não a mim. Enquanto a inveja não sair do espírito de outro e se meter no meu percurso, não existe razão alguma para temê-la. As pessoas se preocupam com os sentimentos que posso despertar e, assim, recebo várias orações, amuletos e imagens de santos, todas com o intuito de me defender desse inimigo oculto: o invejoso.

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A inveja é temida por que, no mundo atual, ela virou a regra. Estamos nadando em um oceano de rancor. Basta acessar qualquer rede social, ler alguma reportagem ou até mesmo conversar com um grupo de pessoas para que logo surjam expressões demonstrando a inveja sentida pelo poder de um empresário ou político, ou pela aparência de alguma atriz, ou pelo dinheiro que está nas contas bancárias que não nos pertencem. A grande regra da atualidade é cobiçar a vida do outro. A grama do vizinho é muito mais verde e bonita do que a nossa. No entanto, ao invés de melhorarmos o nosso quintal, preferimos desancar a grama que não nos pertence e atribuí-la a poderes mágicos, à sorte ou ao destino.

Três anos atrás, eu estava em Salto, no Uruguai, visitando o Museu de Horacio Quiroga, construído na casa onde ele nasceu e passou seus primeiros anos de vida. Estava sozinho no museu, e o guarda que me acompanhava convidou-me a conhecer o lugar que mais orgulho dava para a cidade. Desci as escadas e, no porão, fui apresentado ao Salão Nobre dos Escritores de Salto, o qual ostentava fotos, escrivaninhas, objetos pessoais e manuscritos de escritores da região. Com exceção de Horacio Quiroga e de mais um que outro nome que avivasse algum poema escondido na memória, eu não conhecia nenhum dos nobres integrantes do Salão Nobre dos Escritores. Ainda assim, eles estavam ali, e tinham sido alçados a membros de tal panteão por contribuírem para a arte literária nacional e serem provenientes da cidade.

O guarda perguntou se a minha cidade, Porto Alegre, dispunha de um local semelhante, um Salão Nobre onde estivessem reunidos os escritores como uma forma de reconhecimento ao seu trabalho em favor da literatura. Por segundos, passou na minha cabeça um breve filme: nunca existiria um consenso sobre qual escritor faria parte de dita honraria literária. Existiriam brigas intermináveis tanto para entrar quanto para tirar autores que fariam parte do Dream Team de Literatura da região. Existiria ranger de dentes, lágrimas, muito despeito, muita ironia, muitos memes, muita gente se revestindo de crítico literário da noite para o dia, muitas discussões sobre representatividade na lista, muitas vidas de escritores esmiuçadas em busca de máculas que justificassem a exclusão do seu nome, muitos critérios mais políticos do que de qualidade e permanência do material, infinitas discussões sobre o que é “literatura de verdade”, muitos “por que ele e não eu?”, muitos jornalistas e “formadores de opinião” dando palpite, muitos textões pretensamente inteligentes e repletos de piadas de gosto duvidoso. A Guerra de Tróia começou com o pomo das Hespérides jogado sobre uma mesa, e seria uma pálida refrega perto da batalha de inveja que um Salão Nobre desses causaria. Preferi a resposta curta, “não temos”, ao invés de dizer a verdade, “não temos maturidade para lidar com essa questão”.

Não sabemos lidar com a inveja. Consideramos algo destrutivo, e esforçamo-nos para ficar longe daqueles que nos invejam, mas ela é um sentimento que pode ser usado como trampolim para grandes realizações. Ao invés de vilipendiar o outro que secretamente invejamos, seria mais vantajoso tentarmos superá-lo. Essa é a base de toda a “angústia da influência” pensada por Harold Bloom: as grandes obras literárias se constroem por que desejamos, de forma inconsciente, destruir os autores que nos deram origem. Ao mesmo tempo em que possuímos o desejo de destruição, também padecemos de eterna angústia por não saber se conseguiremos levar a cabo tal tarefa. Nem preciso dizer que, ao transformar a tradição literária ocidental em um bando de escritores recalcados tentando vencer a inveja, Harold Bloom foi muito insultado e ridicularizado.

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Ainda assim, prefiro pensar que a inveja é uma força construtiva; se o outro é melhor do que nós, então devemos não diminuí-lo, mas suplantá-lo. Reconhecer a sua importância, adotá-lo como modelo e, em seguida, tentar ir além do ponto que admiramos. Em um dos contos mais instigantes de Julio Cortázar, “Diário para um conto”, a história inicia com o narrador afirmando textualmente a sua inveja por outro escritor:

“2 de fevereiro, 1982.

Às vezes, vai me invadindo uma espécie de comichão de conto, esse sigiloso e crescente deslocamento que me aproxima pouco a pouco e resmungando dessa Olympia Traveller de Luxo (de luxo a pobre não tem nada, mas por outro lado tem travelliado pelos sete profundos mares azuis aguentando tudo quanto é golpe direto e indireto que pode receber uma portátil metida em uma mala entre calças, garrafas de rum e livros), é assim às vezes, quando cai a noite e ponho uma folha em branco no rolo e acendendo um Gitane me chamo de estúpido (para que um conto, afinal, por que não abrir um livro de outro contista, ou escutar um dos meus discos?), mas às vezes, quando já não posso fazer outra coisa a não ser começar um conto como quereria começar este, é quando eu gostaria exatamente de ser Adolfo Bioy Casares.”

Em outros momentos do conto, o narrador vai aludir a Bioy Casares sempre com muita admiração e inveja, dizendo como o outro era melhor escritor, mais apto a lidar com os sentimentos de uma história e que, se ele está tentando escrever como se sentia em relação a Anabel, não consegue fazer justamente por não ter a capacidade de Bioy Casares. Interessante jogo é estabelecido: ele não é Bioy Casares (é Cortázar), e não consegue escrever a história como o colega escritor faria, mas, ainda assim, no meio do fracasso anunciado pelas suas tentativas de imitar o outro, a trama acaba surgindo. É a inveja sendo usada para construir, e não para destruir.

Só quem leu Bioy Casares sabe que, sim, todo escritor almeja ser como ele, na forma tranquila de narrar, na imaginação poderosa e pacífica, na maneira ordenada com que dispõe a mais complexa das tramas sem sequer parecer que está narrando. Todos sonham em ser Bioy Casares, mas acabam chegando – com muito esforço – em um Borges. Quando Cortázar brinca que gostaria de escrever como Bioy Casares, externa algo que todo autor tem no seu interior: a inveja em relação àqueles em que o narrar é quase tão natural quanto a respiração. O mesmo Flaubert sentia em relação a Balzac, ou Dostoiévski em relação a Gogol. Por isso mesmo, usaram esse desconforto para criar as sua sobras, não para diminuir os esforços dos outros.

Não se deve temer o invejoso. Nem sequer podemos dizer que ter ciúmes do sucesso alheio é algo atual, mas, sim, que foi potencializado pelo maior acesso à informação. Quanto mais conhecemos o mundo, mais inveja temos daquilo que não somos e não conseguiremos ter.

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No século IV a. C., viveu Paladas, um obscuro poeta nascido em Alexandria e que, no seu tempo de vida, almejou algum reconhecimento. Não sabemos quase nada da sua vida. Os detalhes sobre ele são tão poucos que quase poderíamos desconfiar da sua existência, se alguns poemas não tivessem chegado até nós na forma de restos e de fragmentos. Paladas de Alexandria era especializado em epigramas, forma literária em que pequenos poemas tentam alcançar o máximo de significado. Aproxima-se muito das máximas ou de propagandas, com a diferença de que são mais filosóficos e existenciais do que pretendem passar uma lição de moral ou vender algum produto.

Paladas tratou da vida e da morte, do declínio da civilização grega, das mulheres ciumentas, da velhice, mas também abordou a inveja, como no epigrama 90:

“Quão desmesurada é a maldade da inveja!

Odeia-se o afortunado a quem o deus ama.

De tal modo a inveja nos privou da razão

que nos fez prontamente escravos da loucura.

Nós, os gregos, homens reduzidos a cinzas,

só temos sepultas esperanças de mortos.

Todas as coisas estão hoje transtornadas.”

Se estavam transtornadas na época de Paladas de Alexandria, o que dizer dos tempos em que vivemos. Mas o poeta encontra uma forma de escapar da inveja que sentimos, e seria através da capacidade de rirmos de nossas próprias limitações e idiossincrasias, como demonstra o epigrama 87:

“Se não soubermos rir da vida que nos foge

e da Sorte, rameira que a corrente arrasta,

seremos a causa de nossa própria dor,

vendo os indignos mais ditosos do que nós.”

Outro efeito da inveja, detectado por Paladas de Alexandria mais de 2.300 anos atrás, é voltar as suas garras contra quem a fomenta. Quanto mais inveja sentimos, menor a nossa capacidade de vencermos um sentimento tão debilitante. Muitas pessoas afundam em sentimentos ruins, colocando-se em eterna comparação com os outros, ao invés de pensarem em maneiras de se engrandecerem. É fácil dizer que alguém conseguiu um emprego melhor, é mais bonito ou possui mais oportunidades que nós mesmos, o difícil é lutar para sermos cada vez melhores e lutar pelo nosso próprio lugar ao sol.

Pensando assim, Paladas de Alexandria resolve apelar para uma terapia de choque e mostrar que os planos de grandeza e as invejas que sentimos não são nada, pois não somos – para usar uma expressão popular – “a última bolacha do pacote”. Um pouco de perspectiva sobre a nossa realidade é sempre apreciável:

“Se lembrares, homem, como foste por teu pai gerado,

esquecerás as ideias de grandeza.

Platão, o sonhador, encheu tua cabeça de empáfia

ao te chamar de imortal, planta celeste.

De barro és feito; por que a presunção? Só fala assim

quem se compraz em fingimentos vistosos.

Mas se buscas a verdade, recorda que vieste de um

ato de luxúria e de uma gota suja.”

Se hoje escrevo sobre inveja, é sobre o presente que uma leitora enviou: um enorme olho contra mau olhado, “para colocar na parede de casa e afastar os invejosos”. Por mais agradecido que eu esteja, não darei tal destino ao presente, apesar de apreciar bastante a ideia de como o “olho de Hórus” surgiu no Egito antigo como símbolo de proteção. Não creio necessitar de um escudo contra a inveja. Afinal, se estou fazendo algo digno de ser invejado, quer dizer que estou no caminho certo. Assim, tudo o que posso desejar é uma longa vida aos eventuais invejosos, pois irão se dar mal à espera de um tropeço, e o meu desejo sincero de que tentem ir, por suas próprias forças e movido pela sua raiva, aos lugares que eu nunca chegarei.

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (15/09/2016): “Precisamos de mais dúvidas”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falei de como é bom ter mais dúvidas do que certezas em meio a um mundo que privilegia respostas.

Aproveitei para contar algumas histórias, como a da Igreja dos Jacobinos, em Toulouse, na França, que, atrás do relicário com os restos mortais de São Tomás de Aquino, esconde um segredo de várias gerações; também falo da incrível história real de Kcymaerxthaere, uma realidade alternativa que está sendo construída debaixo da nossa – e agora adquiriu vida própria e descontrole, espalhando-se em silêncio pelo mundo; termino contando a história de um escritor que não sabemos ainda se existiu ou não, François Villon, o qual, na sua curta vida, por ser um péssimo ladrão e um assassino sanguinário, passou tanto tempo na prisão que acabou escrevendo a sua obra inteira nos intervalos das torturas, obra que se encontra na origem de boa parte das escolas literárias posteriores, do maneirismo ao classicismo, tudo para concluir que o mistério é muito mais excitante do que encontrar respostas para tudo.

Boa leitura!

 

Precisamos de mais dúvidas

 

Não deixa de ser um sintoma dos nossos tempos o fato das pessoas preferirem a certeza relativa das respostas ao delírio repleto de loucura que caracteriza as perguntas. Mais do que buscar explicações, deveríamos ir atrás do mistério, daquilo que não vemos e, ainda assim, existe. As perguntas são desafiadoras, enquanto que as respostas são carregadas de conformismo e placidez. Perguntas são leões famintos correndo atrás de gazelas; respostas não passam de paquidermes se dourando ao sol à espera da comida entrar na própria boca.

Estamos ansiosos demais por respostas. A internet nos deixou acostumados a buscar explicações para tudo, outras versões, contrapontos, análises minuciosas, vídeos, gráficos, diagramas. É frequente ver, em palestras, pessoas digitando nos celulares em busca de novas informações sobre o que acabei de falar, quando era tão mais simples perguntar. Nem sempre é bom ter acesso à sabedoria, ao conhecimento. Também existe magia em não saber algo – tentar desvendar algo nos leva a outros níveis de reflexão.

No centro de Toulouse, na França, está localizada a Igreja dos Jacobinos. Construída no início do século XIII, também foi usada como sala de aula, ginásio de esportes, alojamento de soldados e museu. Somente após a I Guerra Mundial ela voltou a ser empregada como igreja e, entre os seus tesouros, encontra-se o relicário contendo os restos de São Tomás de Aquino, um dos santos-filósofos mais importantes da Igreja Católica.

No entanto, pouca gente sabe que, debaixo de um pilar duplo da Igreja dos Jacobinos, alguns metros atrás do relicário de São Tomás de Aquino, esconde-se uma pergunta que jamais será respondida: um homem esmagado. Só conseguimos ver as mãos de gesso e os pés sobrepostos, não seu rosto ou características do corpo. É bem possível que sequer corresponda a um corpo, talvez seja uma estranha homenagem deixada no interior da igreja pelo seu construtor ou pelos pedreiros.

Pilar na Igreja dos Jacobinos, em Toulouse, França

Pilar na Igreja dos Jacobinos, em Toulouse, França

Por muitos anos, tentou-se buscar uma resposta para o homem esmagado pelos dois pilares. Não existe nenhum documento registrando o motivo, e não se sabe sequer se os responsáveis pela construção da Igreja dos Jacobinos tinham conhecimento da escultura deixada com discrição diante dos seus olhos. O homem esmagado não possui nenhuma explicação e, por isso mesmo, possui todos os motivos do mundo para estar ali.

Também existe ironia em um enigma insondável estar tão próximo de são Tomás de Aquino, o homem que desvendou justamente o mistério da Santíssima Trindade, o responsável pela frase que constitui a base de qualquer método científico: “Dê-me, Senhor, agudeza para entender, capacidade para reter, método e faculdade para aprender, sutileza para interpretar, graça e abundância para falar, acerto ao começar, direção ao progredir e perfeição ao concluir.”

Não precisamos responder uma dúvida. Podemos acalentá-la, deixá-la crescer, espalhar-se de forma exponencial e ser o germe para novas e excitantes questões. Se não existissem pessoas capazes de preservar mistérios como faziam as vestais na Roma Antiga, não existiria a arte, essa trabalhosa maneira de plantar inquietações nos espíritos alheios. Não foram poucas as vezes em que, ao tentar respondermos algo, a dúvida de origem acabou sendo o início de uma revolução.

Da mesma forma que o homem esmagado de Toulouse, as pessoas nem suspeitam que, neste exato momento, existe um mundo paralelo sendo esculpido dentro do mundo em que vivemos. A intenção desta realidade alternativa é clara: um dia, ela pretende substituir o nosso universo. Dentro da velha Terra onde moramos, encontra-se um mundo inteiro sendo gestado, ansioso para vir à tona e nos destruir.

Esse outro local chama-se Kcymaerxthaere e, assim como o nosso, está repleto de histórias. Elas são tão fortes que acabam transbordando para a nossa realidade. No momento em que escrevo este texto, existem 59 pontos de intersecção de Kcymaerxthaere com o nosso mundo, todos representados por placas relativas a eventos, estátuas, locais históricos, batalhas, grandes derrotas, que aconteceram nesse universo paralelo.

Aqui na Terra, caminha entre os humanos Eames Demetrios, que é o elo de ligação entre os dois mundos, registrando no nosso planeta os eventos acontecidos em Kcymaerxthaere. Elas assumem a forma de placas, que estão em locais tão díspares quanto uma colina na Islândia, um terreno baldio em Singapura, um jardim no Japão e uma praça na Espanha. Essa última placa fica em Madrid, na Plaza de La Luna, e conta a história do evento que se sucedeu no mundo paralelo, e que transcrevo aqui:

““Hoy la llamamos la Plaza de la Luna pero su nombre original era Plaza de las Lunas, debido a que el resplandor de éstas demarcaban los límites de la plaza. En los tiempos de Kcymaerxthaere, cada 257 órbitas de nuestra luna visible, convergían en este lugar, eclipsándose, las 29 lunas visibles de las 29 dimensiones alternativas (cada una simbolizando los 29 infinitos negativos de cualquier xthaere), todas ellas en su plenitud (algunas eran más grandes que nuestro planeta), reunidas en este espacio. Esta conjunción de fuerzas puede ser la causa o La consecuencia de que esta Plaza sea un portal insólito de incalculable valor, una puerta aparentemente pacífica hacia La umbraesfera, la conexión entre todas las sombras, la oscuridad y las penumbras de este planeta que llamamosTierra.

Esta plaza era antaño peligrosa, ya que las distintas series dimensionales de sombras encadenaban sus zonas más oscuras, formando una ruta de viaje poderosa en la umbraesfera, que era transitada por los viajeros más audaces para evitar las ywrengs (fronteras del tiempo). Fueaquí, en la Plaza de lasLunas, donde Nobunaga-Ventreven, recién llegado de los gwomes de liquen, em el que denominamos Soria, siguió La ruta más veloz a Segoleno, un sitio tan inaccesible como remoto, pero que, una vez que se llega, el viajero se encuentra paradójicamente cerca de cualquier otro punto del universo. Allí, tuvo lugar el encuentro con Eliana Mei-Ning, La mujer de la voz inconcebiblemente bella, dejando su huella em La Batalla de Some Times (Algunos Tiempos), donde Kmpass, el Urgende Dios de la Direccionabilidad, fue derrotado cuanto intentó destruir toda La complejidad del mundo. Es función y deber de la Plaza de la Luna preservar la riqueza de Kcymaerxthaere, por ello celebramos aquí cada año lineal la gloria y el claroscuro que define al Festival de las Lunas Restadas.”

Placa de Kcymaerxthaere, em Víddaflakk

Placa de Kcymaerxthaere, em Víddaflakk

Soa incrível que um mundo esteja surgindo do interior do nosso, mas esse não é o detalhe mais interessante. Kcymaerxthaere é uma realidade alternativa criada através de narrativas e, como todos sabem, as histórias são incontroláveis, rebeldes, violentas. Elas se encontram e estabelecem relações novas e, assim, talvez não seja tão surpreendente o fato do mundo paralelo ter escapado do controle do seu criador. Algumas placas que surgiram no mundo dizem respeito a histórias inéditas. O mundo alternativo, em um canibalismo criativo, agora se dedica a criar as suas próprias narrativas, sem controle algum – selvagem.

Ninguém sabe exatamente como isso está acontecendo, mas Kcymaerxthaere cresce em ritmo acelerado e, em breve, a tendência é que comece a substituir pequenos trechos da nossa realidade. É o legítimo caso em que fazer perguntas pode acabar nos levando a respostas indesejadas. Melhor ficar na ingenuidade da ignorância.

Assim como existem lugares com mistérios feitos de pedra e realidades alternativas que espreitam nossos passos, também existem algumas pessoas que não são realmente reais. Vale perguntar o que transforma uma pessoa em real: o fato dela ter CPF, endereço, família, amigos, um nome? Todos são elementos muito circunstanciais para afirmar que, no mundo, só existem seres humanos reais. É claro que alguns homens e mulheres inventados estão caminhando por aí, misturados a seres de carne e osso como eu e – acredito – parte significativa de vocês.

François Villon (1431 – 1463) foi um escritor que, mesmo tendo deixado obra, ninguém sabe se chegou a existir. Na tradição de Shakespeare e Homero, é uma daquelas pessoas que deixaram obras mais vistosas do que uma vida real. No entanto, a peculiaridade que o diferencia de outros escritores de existência duvidosa é ainda mais frágil – ninguém sabe ao certo se Villon realmente existiu. Temos evidências circunstanciais – um registro de matrícula em um colégio, uma sentença de trabalhos forçados, menções em cartas -, mas são tantos nomes diferentes considerados como variações do seu que também podem se referir a outras pessoas que não sejam esse poeta francês.

A própria vida de François Villon é incrível demais para ser verdadeira. A ausência de detalhes é tão significativa que a tentação de imaginá-lo como ser ficcional torna-se mais verossímil do que aceitá-lo como ser humano. Para começar, Villon passou toda a vida sob as graças de alguns dos mais influentes e poderosos nobres da França, tais como Guillaume de Villon e o duque de Orléans, que não só perdoavam as suas desfaçatezes como ainda lhe conseguiram dinheiro e posição social na corte. Ao mesmo tempo, Villon era um rematado criminoso, e quando uso essa expressão é no sentido dele ter sido um poeta que realmente gostava da vida ilícita. Nos seus primeiros anos de vida, ele fundou um grupo de delinquentes juvenis especializados em roubar viajantes desavisados. Depois começou a carreira individual de assaltante, passou a planejar roubos cada vez mais intrincados e, enfim, tornou-se um assassino frio e calculista.

François Villon

François Villon

De forma paradoxal, o poeta não era um criminoso muito esperto, e foi preso várias vezes. Passava mais tempo em masmorras e calabouços do que solto. Também existem evidências de que ele não só tenha sofrido violências nas prisões, como também experimentou todas as torturas possíveis e imagináveis que então existiam. Villon era o legítimo “bad boy” da sua época, muito antes de outros escritores mais badalados reivindicarem tal posição, considerando-se “malditos”. Assim, como passava muito tempo entre a corte e a prisão, François Villon aproveitava os momentos de ócio na cadeia para escrever poesias, e a sua obra nasceu dentro dos cárceres franceses, nos intervalos de torturas e audiências com juízes.

Em determinada ocasião, François Villon foi inclusive condenado à morte, e escreveu uma das suas poesias mais famosas, “A Balada dos Enforcados”, planejando-a usar como seu epitáfio. Esse poema tanto é provido de extremo lirismo e inquietude sobre o fim quanto de um humor irônico muito incomum para o período. Contudo, a pena de morte acabou sendo comutada para dez anos de banimento. Quando saiu da prisão, a lenda nasceu, pois o poeta sumiu e nunca mais foi visto. A partir de então, Villon se multiplicou: foi visto em brigas em tavernas; roubou nobres em um jogo de cartas; engraçou-se com uma mulher casada e com a filha dela – ao mesmo tempo; teve filhos e começou uma carreira respeitável como alfaiate (ou padeiro, há divergências também nesse ponto); esteve por trás de todas as artimanhas políticas do período; viajou para a Inglaterra como agente secreto do trono francês.

Como desapareceu sem deixar vestígios, o poeta acabou se transformando em um fantasma e, com o passar dos anos, suas evidências físicas cessaram de existir, mas a obra sobrevive. Os poemas de François Villon notabilizam-se por oscilar da linguagem mais vulgar às construções mais eruditas; conseguem opor, dentro de uma sequência de versos, o mais sublime nível de consciência humana às necessidades mais toscas. Não suficiente, estão na origem de quase todas as escolas literárias posteriores, desde o maneirismo até o classicismo. Entre os seus poemas, destaca-se a “Balada das Coisas sem Importância”, que muitas pessoas conhecem de forma quase instintiva mesmo sem nunca terem a lido, o que demonstra que Villon não precisa mais ser um homem, somente uma voz poética a bradar do meio do nosso DNA:

Conheço se há moscas no leite,

Conheço pela roupa o homem,

Conheço o tédio e o deleite,

Conheço a fartura e a fome,

Conheço a mulher pelo enfeite,

Conheço o princípio e o fim,

Conheço pela chama o azeite,

Conheço tudo, menos a mim.

Conheço o gibão pela gola,

Conheço o rico pelo anel,

Conheço o fiel pela sacola,

Conheço a monja pelo véu,

Conheço o porco pela tripa,

Conheço o irmão pelo latim,

Conheço o vinho pela pipa,

Conheço tudo, menos a mim.

Conheço a mula e o cavalo,

Conheço o carro e a carreta,

Conheço a galinha e o galo,

Conheço o sino e a sineta,

Conheço a flor pelo talo,

Conheço Abel e Caim,

Conheço o pote e o gargalo,

Conheço tudo, menos a mim.

Ofertório

Príncipe, conheço tudo em suma,

Conheço o branco e o carmim,

E a morte que o fim consuma.

Conheço tudo, menos a mim.

 

Não sabemos se François Villon algum dia existiu. Aliás, é muita presunção imaginar que uma obra poética precisa sair de um homem – quem nos assegura que uma poesia não pode sair do nada, das estrelas, do roçar dos ramos de uma árvore? É realmente imprescindível um aparato humano, com sua fortaleza de instável carne, a sustentar um texto com a sua sombra de uma origem baseada na sua biografia? Contudo, muitas pessoas tentaram responder ao seu mistério, sem perceber que a existência de um homem mais atrapalha a obra do que a auxilia. É melhor imaginar a literatura como algo puro, desvinculado das veleidades e idiossincrasias de uma única pessoa.; melhor imaginar que a arte brota do chão ao invés de sair de uma pessoa desprezível ou criminosa, alguém indigno de ter criado poemas que mais se assemelham a mentiras e ironias do que algo capaz de elevar o espírito.

As melhores perguntas são aquelas que não conseguimos responder. Na época em que vivemos, o mundo se desespera para ter mais informações, mais certezas. Eu sigo o contrafluxo: procuro a pergunta que não se rende. A resposta impossível. O mistério escondido na neblina. A instabilidade da dúvida. Não tenho as respostas – sequer sou capaz de me entender, o que dirá entender os outros -, mas sei que a pergunta em torno da qual meu espírito se originou continua a animar minha existência com seu fogo frio.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/precisamos-de-mais-d%C3%BAvidas-a15252edd17d#.rpxyp9q8e

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (19/04/2016): “Como matar um escritor”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, aproveitei a proximidade do Dia Internacional do Livro para falar de Cervantes e de Shakespeare. No entanto, não fiquei na comparação simples das suas vidas ou obras, mas preferi falar de dois momentos em que a obra se tornou tão forte que o autor dela virou seu maior inimigo – na Alemanha nazista, no caso de Shakespeare, e na Madri de Unamuno, no caso de Cervantes. Mas também falei de Uruguaiana e do dia em que quase fui desmascarado como escritor.

Boa leitura!

 

Como matar um escritor

 

Aconteceu em Uruguaiana, cidade na fronteira do Brasil com a Argentina. Tenho o hábito de, quando estou viajando e chego em uma cidade na qual nunca estive antes, perguntar aos locais onde fica o sebo mais próximo. No hotel, os funcionários levaram em torno de 10 minutos para lembrar um sebo interessante. Eles me deram as coordenadas e, pelo o que pude perceber, ficava a algumas quadras de distância, era possível ir caminhando. No entanto, em Uruguaiana, quadras são quadras mesmo, e o sebo ficava mais longe do que eu imaginara. Cheguei lá cansado e sedento, e percebi que sequer era um sebo, mas uma casa de antiguidades, que ostentava três míseras prateleiras com alguns livros enfileirados.

Para descansar um pouco, resolvi analisar os livros e, entre exemplares antigos e mal cuidados, deparei-me com algo que não esperava encontrar: “A escrita criativa – pensar e escrever literatura”, coordenado pelo professor Luiz Antônio de Assis Brasil, um conjunto de ensaios de escrita criativa lançado pela PUCRS no decorrer daquele ano mesmo, contendo textos de alguns amigos escritores. Era uma surpresa muito deliciosa para guardar somente para mim (quem diria que, no meio de um local desconhecido quase despencando para a Argentina, encontraria um livro escrito por amigos?) e resolvi tirar uma foto da capa para mandar aos autores.

Foi quando o dono da loja de antiguidades me perguntou, meio desconfiado, o que eu estava fazendo. Expliquei a situação, disse que conhecia os autores e ia mostrar que o livro deles estava correndo o mundo. Foi quando o homem se inclinou sobre o balcão e perguntou, entre o espanto e a euforia: “O senhor então conhece um escritor?”. Eu concordei, um pouco indeciso sobre como responder, e acrescentei que conhecia alguns. Ele ficou ainda mais contente: “Mas me diga, então, como é um escritor? Sempre quis conhecer um!”.

Eu poderia responder que sou um escritor, e ele acabava de encontrar um, mas preferi silenciar sobre esta condição. Fiquei um pouco envergonhado: e se eu não estivesse à altura das suas expectativas? E se ele sonhasse em encontrar a criatura idealizada e, pela frente, estivesse somente um homem cansado e com sede? E, mais importante, seria eu um escritor suficiente para merecer tal designação?

Throes of creation, de Leonid Pasternak

Throes of creation, de Leonid Pasternak

Nos tempos atuais, o que mais existe é gente se identificando como escritor. Pelo o que vejo, basta escrever um blog ou alguns parágrafos em uma rede social ou um livro de receitas para as pessoas se considerarem escritoras. Não é algo ruim, mas, em um mundo onde todos são, na realidade ninguém é. Palavras se vulgarizam pelo uso contínuo e despropositado, e escritor não é mais uma função, mas algo agregado ao currículo: “Fulano é empresário e escritor”, “Beltrana é atriz e escritora”.

Curiosamente, os escritores que mais respeito são os que possuem maior relutância em se identificar desta forma. Não existe muita honra em se reconhecer como um autor, pois parte do princípio que precisamos afirmar o nosso estatuto para vê-lo existente e, na verdade, a literatura simplesmente é. Não precisa ser declarada para existir. Não precisa ser objeto de louvor ou de execração social: escrever é respirar, e ninguém sai por aí dizendo que respira. Mesmo que não existisse papel, mesmo que não existisse maneiras de escrever, mesmo que eu não soubesse uma linguagem, ainda assim escreveria. Não sei de qual forma, mas daria um jeito. Tudo por que não consigo conceber vida sem ar e sem água, e não consigo conceber a minha existência sem escrever.

Aliás, outro erro comum das pessoas é imaginarem que, para ser escritor, a pessoa precisa lançar um livro. Conheço ótimos autores que não fazem questão alguma de mostrar ao mundo as suas histórias, são felizes de compartilhá-las em pequenos grupos, com a namorada, amigos ou familiares. Outros excelentes escritores escrevem somente para si: participam de grupos de criação literária, lapidam o seu fazer artístico por anos e não lançam nada, são felizes em escrever bem e para o melhor leitor que possuem, ou seja, eles mesmos.

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Sei que muitos excelentes escritores reconhecem publicamente o fato de serem escritores. Ambiciono chegar a tal status, pois, no dia em que eu conseguir me identificar como escritor – sem me sentir uma fraude – será o dia em que não terei mais dúvidas, em que saberei que um texto funciona assim que o deposito em um meio físico, que gostarei dele e não verei as suas inegáveis imperfeições. Ainda não cheguei a este ponto. Cada texto é uma maldita caixa de incertezas.

Estamos na Semana Internacional do Livro e, no dia 23 de abril, comemoraremos o Dia do Livro, mesma data em que – alegadamente – faleceram dois dos maiores escritores que o mundo já teve: o inglês William Shakespeare e o espanhol Miguel de Cervantes Saavedra. Dois homens que lançaram as bases da literatura que até hoje consumimos.

Cervantes e Shakespeare

Cervantes e Shakespeare

Interessantes paralelos podem ser traçados entre os dois escritores. Ambos possuíram vidas atribuladas: entre as poucas evidências de que Shakespeare existiu, encontra-se um processo judicial pelo roubo das instalações completas do The Theatre. Sim, isto mesmo, Shakespeare e os demais integrantes da Lord Chamberlain’s Men desmontaram um teatro em um terreno e o reconstruíram em outro lugar. Sabemos também que as suas peças sempre foram sucesso de público. Quanto a Cervantes, passou parte da vida em guerra, outra parte preso por dívidas, mas ainda assim teve tempo para escrever romances (Dom Quixote), contos (Novelas exemplares) e peças de teatro (A Numancia), e fazer sucesso.

No entanto, existiu um momento delirante em que as obras de ambos se encontraram: Shakespeare era um garimpador de histórias estrangeiras, que usava para transformar nas suas peças. O sucesso de “Dom Quixote” na Espanha chamou a sua atenção, e ele escreveu uma peça de teatro chamada “Cardênio”, sobre um personagem secundário de Cervantes que encontra Dom Quixote e Sancho Pança e conta a sua história de amor frustrada para ambos. Há questão de dois anos, participei de um bate papo sobre Cervantes em que contei a história completa desta peça, a qual foi encenada em 1613 por Shakespeare (que a escreveu em conjunto com John Fletcher) e, infelizmente, acabou se perdendo. Não temos mais evidências de “Cardênio”, mas temos a imaginação, e foi o que fiz no bate papo: tentar reconstruir uma peça que não mais existe. Foi o momento mágico em que dois grandes escritores se encontraram e, como não poderia deixar de ser, aconteceu no meio de uma história, em cima de um palco.

Existe um outro paralelo entre os dois autores, e é algo perturbador: momentos que a obra foi tão forte que suplantou seus responsáveis. Foram tentativas explícitas não só de matar o autor, mas de desvinculá-lo da sua própria criação e transformá-la em outra.

Poucas pessoas sabem, mas “Hamlet” era a peça de teatro mais estimada pelo regime nazista. Foram mais de duzentas apresentações entre os anos de 1936 e 1941, quase sempre com a casa lotada. O mais conhecido intérprete de Hamlet era, não por coincidência, o maior ator que a Alemanha já possuiu, Gustav Gründgens, tão famoso que serviu de base para o livro “Mefisto”, de Klaus Mann (o que foi assunto para um longo processo judicial, mas é outra história).

Gründgens recusava-se a interpretar Hamlet como um homem repleto de dúvidas e questionamentos. Em carta que enviou para o crítico de um jornal, o ator alemão disse como enxergava ao príncipe dinamarquês: “Quando as cortinas se levantam, eu não quero interpretar Hamlet, quero regressar a Wittenberg. Contra a minha vontade é que carrego o peso de uma verdade a que não posso renunciar. Quero atuar, mas devo saber. Se for o contrário, não posso atuar.”

Por causa desta visão do personagem, o Hamlet de Gründgens era um homem valente e decidido, incapaz de mostrar qualquer vestígio de dúvida. Chama atenção o resumo da Sociedade Shakespereana Alemã fez em 1936 sobre esta versão de “Hamlet”: “Hamlet não é um personagem artisticamente fraco ou nervoso, mas um jovem brilhante cujo mundo é sacudido por incríveis fardos espirituais”. Para conseguir tal modificação, suprimiram todas as falas da peça que demonstrassem qualquer tipo de hesitação. Mais ainda, tiraram toda a quarta cena do ato IV de “Hamlet”, evitando estragar a força da interpretação. Gründgens não se vestia como um príncipe, mas colocava um casaco de pele junto com um chapéu de aba vertical, parecendo mais um arrojado estudante do que um guerreiro. Segundo Richard Biedrzynski, um crítico da época, o Hamlet de Gründgen era “mais ativo, mais mente aberta, mais perigoso, mais alerta, mais pronto para atacar”. Ou seja, bem o contrário do personagem idealizado por Shakespeare.

Diz Curt Riess, biógrafo de Gründgens: “Nasceu um novo Hamlet, um que nunca tinha sido visto antes. Um Hamlet cheio de responsabilidade, um Hamlet pronto para a ação e que não tinha medo algum de parecer um tonto. […].” O custo desta interpretação de Hamlet era afastar o seu criador do personagem. Shakespeare não podia ser mais o criador de Hamlet, pois o personagem do ator inglês não estava à altura daquilo que ele realmente significava. Assim, o único problema do verdadeiro Hamlet era o seu escritor. Shakespeare não tinha entendido direito o próprio personagem, e cabia aos nazistas “corrigirem” Hamlet.

Pode parecer engraçada a ideia de que um personagem seja tão forte que o seu criador passa a atrapalhar ao invés de auxiliar, ainda mais nos tempos modernos, em que o nome do autor precisa ganhar ascendência sobre a própria obra. No entanto, se considerarmos a grande dúvida (o que é mais importante, a trama ou o personagem?) e a sábia resposta de Aristóteles (personagem É trama), podemos dizer que o grande objetivo do escritor talvez não seja aparecer no seu livro, mas manipular a realidade de tal maneira que ele também consegue se esconder nos meandros da ficção. Assim, quando a Alemanha nazista descartou Shakespeare para reconstruir Hamlet, ele conseguiu o maior sucesso literário que um autor pode almejar: ser assassinado pela própria obra.

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Fenômeno idêntico aconteceu com Cervantes. Na época do mesmo bate papo que mencionei acima, eu estava fascinado por Miguel de Unamuno, escritor espanhol que, no livro “Vida de Don Quijote y Sancho”, defendeu uma tese inovadora: Cervantes não era o autor de “Dom Quixote”. Ao contrário, Dom Quixote é quem tinha criado o personagem Miguel de Cervantes Saavedra para escrevê-lo. Afinal, Dom Quixote era um personagem tão perfeito que simplesmente não podia ter sido criado por outro homem, ele se escrevera sozinho.

É uma ideia ousada. Unamuno declara de forma taxativa logo no início do livro: “Para falar a verdade, não se pode dizer que Dom Quixote é produto de Cervantes.” (traduções minhas do espanhol). Em seguida, pede para que o leitor não o considere um crítico literário, mas sim um Quixotista ao invés de um Cervantista. Unamuno defende que os personagens da ficção não existem somente nela, mas também em nosso mundo, havendo boas razões para acreditar que Dom Quixote foi “um louco prudente e não um rescaldo da ficção, como comumente se acredita. Ele foi um daqueles homens que comeram, beberam, dormiram e morreram.”

Não irei entrar nos detalhes da minuciosa investigação que Unamuno faz sobre “Dom Quixote” com a intenção de provar que Cervantes não poderia ter sido o seu autor, mas a sua argumentação é sedutora e convincente. Em um breve resumo, podemos dizer que, para o autor espanhol, “a ação segue o ser” e, se Dom Quixote gerou repercussões no nosso mundo, ele é mais real do que muita gente de carne e osso que anda por aí. São muito divertidas as críticas que Unamuno desfere contra Cervantes. Sobra até para o tradutor mouro Cide Hamete Benengeli, que aparece na obra, o qual Unamuno considera um truque literário baixo de Cervantes.

A partir de determinado momento do livro, Miguel de Unamuno admite que, por uma questão lógica, não pode afastar a autoria de Cervantes. No entanto, considera que o outro era um homem burro e iletrado demais para entender as nuances psicológicas de Dom Quixote. E faz a acusação mais séria que se pode lançar contra um escritor: Cervantes fez a história não por mérito próprio, mas por que Dom Quixote foi muito maior do que ele e conduziu a sua mão de autor. Para Unamuno, Cervantes foi um mero instrumento de Dom Quixote, e não o seu criador. Vai um pouco mais longe: nem o leitor é capaz de entender toda a capacidade psicológica de Dom Quixote, somente alguns detalhes, e o culpado é Cervantes, que não soube escrever direito a história que Dom Quixote lhe entregou.

Vale lembrar que a autoria de “Dom Quixote” é algo que intriga os escritores, e onde há fumaça, há fogo: talvez Unamuno não esteja exagerando. Não foi à toa que Borges escolheu Cervantes para ilustrar o seu conto “Pierre Menard, autor de Quixote”. Da mesma forma que Unamuno, a ideia de Borges é dizer que Cervantes não escreveu “Dom Quixote”, e sim Pierre Menard, um autor ficcional. É a ficção gerando os seus próprios rebentos, que passam a infestar o mundo, enfrentando a dureza da realidade.

As ideias de Miguel de Unamuno são fascinantes, mas, assim como o Hamlet de Gründgens, elas chegam ao mesmo ponto: o autor atrapalha a própria criação, posto que é humano e possui deficiências. Criar é algo que vai além de tal dimensão humana. O objetivo final de toda história é chegar a tal grau de excelência que ela prescinde da própria autoria, que se torna um fardo insuportável, posto que a limita. Um livro existe não só para questionar os leitores, mas também para afrontar aquele que lhe trouxe à vida. Livros desejam se libertar do nome que lhes aprisionou em um cativeiro de papel. É o Complexo de Édipo levado às últimas consequências: a Obra mata o Pai para conseguir crescer e casar com a Vida.

Na Semana Internacional do Livro, vale a pena refletir: não estarão todos os livros arquitetando as mortes dos seus autores para, enfim, correrem livres pelo mundo? Talvez isto explique a minha relutância em me identificar como escritor em uma pequena loja de antiguidades de Uruguaiana. Talvez esteja me escondendo, e este seja o grande segredo que norteia os autores: no mundo da imaginação, toda história é perfeita, pois tem o narrador ideal, as frases mais espirituosas, a graciosidade necessária, o comedimento exigido. Contudo, ao colocá-la na nossa realidade, o escritor estraga com a sua maravilha idealizada e, desde então, a história o persegue como um leão enfurecido, ansiosa para se libertar novamente e conhecer a perfeição que mora na não-concretude. Sócrates dizia isto: escrever é matar a memória e exterminar com as possibilidades de uma boa história, portanto, não escrevam, mas contem as histórias e deixem elas soltas. Pena que os escritores não são tão sábios – somos um bando de insensatos, nós e este hábito desagradável de chamar a Morte para dançar.

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