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Resenha do livro: “A arte do estilo”, de Henry James e Robert Louis Stevenson (org. Marina Bedran)

Escrevi para o Amálgama ( www.revistaamalgama.com.br ) uma resenha sobre o livro “A arte do estilo”, que reúne ensaios e a correspondência mantida entre Henry James e Robert Louis Stevenson. Um diálogo epistolar educado, repleto de argumentos inteligentes e de frases que poderiam muito bem figurar nas obras de qualquer um deles, de tão poéticas e cristalinas. Um livro que me engrandeceu como escritor e como ser humano.

Boa leitura!

Henry James e Robert Louis Stevenson: uma improvável amizade literária

 

Em um mundo cada vez mais polarizado, e em que as pessoas não só possuem opiniões imutáveis como ainda são incapazes de dialogar e provar a validade das suas crenças, usando de ironia grosseira e de violência retórica, soa até estranho imaginar que, não muitos anos atrás, dois indivíduos que pensavam diferente poderiam não só expor suas divergências em busca de pontos em comum, como inclusive se tornarem amigos. O ódio insensato direcionado contra aqueles que não comungam dos nossos ideais é uma característica da pós-modernidade, amplificada pela multidão de nomes sem rosto que grassa nas redes sociais. A simples ideia de opostos estabelecerem uma conversa respeitosa que, longe de ser uma tentativa de doutrinação é mais uma forma de fortalecimento da própria ideia por meio da sua defesa contra um adversário ardiloso e convincente, parece mais ficção científica do que uma hipotética invasão alienígena.

Contudo, por muitos anos, essa foi a tônica do comportamento civilizado: ao invés de odiar o diferente, tente entendê-lo. Nesse processo, um respeito relutante acaba surgindo, e o que era uma discussão entre duas pessoas diametralmente opostas pode se transformar em uma amizade um pouco fria, mas, ainda assim, uma forma de relacionamento que permitiria a convivência de ambas as ideias sem que uma precise eliminar a outra. É o que se depreende de “A aventura do estilo” (2017), que reúne a correspondência trocada entre o escritor nascido americano e naturalizado inglês Henry James e o escocês Robert Louis Stevenson: é só através do diálogo e da troca de experiências que qualquer sociedade pode evoluir. Ainda assim, ao término da leitura, a sensação geral foi de uma relativa tristeza por ver o quanto a sociedade atual se afasta – e com alegria selvagem – dos ideais que nortearam a conversa epistolar entre os dois escritores. Em meio ao oceano de ódio que se espalha por entre as pessoas e suas mais diversas causas e matizes ideológicos, está cada vez mais difícil encontrar diálogo e razoabilidade – sem contar uma dose de inteligência, bom humor e disposição de ouvir o outro.

Antes de prosseguir, uma breve contextualização histórico-literária: dificilmente poderiam existir dois escritores mais equidistantes do que Henry James e Robert Louis Stevenson. Autor de “Os embaixadores”, “Pelos olhos de Maisie” e do inigualável “A fera na selva”, Henry James era um escritor de emoções frias e de uma prosa elegantemente construída, retratando os dramas humanos por meio de uma lente concentrada nas classes mais abastadas; na sua obra, o conflito essencial se estabelece entre civilização e barbárie, entre emoção e razão, entre os sonhos românticos de uma Europa idealizada e os valores materiais de uma América ainda jovem e impetuosa. Essas características ajudam a explicar um pouco a frase jocosa de William Faulkner, “Henry James was one of the nicest old ladies I ever met.”.

Por sua, vez, Robert Louis Stevenson escreveu obras como “A ilha do tesouro” e “O médico e o monstro”, sendo um escritor muito mais físico e menos intelectualizado, muito mais emocional do que racional; não bastando escrever uma literatura que, na sua época, era considerada mais entretenimento do que arte (status esse que acabou sendo revisto por força dos inúmeros escritores que confessaram admirar o seu estilo, entre os quais Jorge Luis Borges, Chesterton e Ítalo Calvino), Stevenson também viveu com intensidade, viajando pelo mundo a bordo de navios e passando por uma série de aventuras que registrou parcialmente na sua vasta obra.

Ao lado do frágil e sensível James, Stevenson – mesmo padecendo de uma tuberculose persistente – era não só um poço de saúde como um espírito impregnado de vivacidade. A tradutora e organizadora de “A aventura do estilo”, Marina Bedran, descreve como foi o primeiro encontro entre os dois escritores: “após um primeiro encontro, em 1879, James diria que Stevenson lhe parecera um ‘boêmio de camisa sem colarinho e um belo de um poseur (de um modo inofensivo)’. Stevenson, por sua vez, viu em James ‘um mero habitué de clubes […] de forma alguma um homem corajoso e afeito às atividades ao ar livre’, e, se estimou desde o início a precisão da escrita jamesiana, se irritava um pouco com seus preciosismos, e achou Washington Square desagradável.”

A amizade improvável entre ambos nasceu graças a uma divergência literária. Em 1884, James publicou em “The Longman’s Magazine” um ensaio intitulado “A arte da ficção”. Nesse texto, o escritor britânico refutou uma palestra proferida pelo escritor e crítico literário Walter Besant, pretendendo ver no romance uma forma de competir com a vida, transmitindo para o leitor uma realidade postiça, mas nem por isso menos real. Para James, o melhor romance seria aquele que mais sucesso tivesse em reprisar a realidade e a vida. O dever da arte – para isso ele usa o exemplo da pintura – era ser fiel ao real, e o melhor artista era aquele que mais se adequasse a esse ideal. Mais do que expor uma história, o escritor era um artista dedicado a representar o real e a transformá-lo de dentro para fora.

Stevenson enviou um pequeno texto para a revista literária, refutando a opinião de Henry James. No título, “Um humilde protesto”, expressa todo o seu respeito perante as ideias do outro: ele reconhece que não possui a erudição e o esmero com as palavras que caracteriza James, e também sabe que é considerado um autor menor para a crítica literária de então, mas isso não lhe impediu de expressar o seu ponto de vista com tenacidade. Para o escritor escocês, a arte e a vida são conceitos que possuem alguns pontos em comum, mas não se confundem entre si. Sua defesa foi apaixonada:

“Competir com a vida, para cujo sol não podemos olhar, cujas paixões e doenças nos consomem e nos matam, competir com o sabor do vinho, a beleza da aurora, o trepidar do fogo, a amargura da morte e da separação, eis a escalada aos céus que se pretende. São trabalhos para um Hércules de casaca, armado de uma pena e de um dicionário, para retratar as paixões, armado de uma bisnaga de alvaiade para pintar o retrato do sol inclemente. Nenhuma arte é verdadeira nesse sentido, nenhuma pode ‘competir com a vida’, nem mesmo a história, construída a partir de fatos que são incontestáveis, mas que tiveram sua vivacidade e sua pungência roubadas, de modo que, mesmo quando lemos sobre uma cidade saqueada ou sobre a queda de um império, nos surpreendemos e louvamos com justeza o talento do autor, se nosso coração dispara. E, como uma última diferença, essa aceleração dos batimentos é, quase sempre, puramente prazerosa: essas reproduções fantasmagóricas da experiência, mesmo as mais fiéis, causam prazer, enquanto a própria experiência, na arena da vida, pode torturar e matar”.

Essa troca de textos públicos dá início a uma troca de cartas que pretende discutir os conceitos de arte, de literatura e de vida, estabelecendo algo que se possa chamar de estilo para um romance nos tempos de então. Na primeira carta, antes de se debruçar sobre o assunto que os fascina, Henry James reconhece as diferenças entre ambos e o valor literário do colega escritor: “É um luxo, nessa era imoral, encontrar alguém que escreve – que realmente tem familiaridade com essa arte adorável. Não seria justo bater-me com você aqui; além disso, nós mais concordamos, creio eu, do que discordamos, e ainda que haja pontos sobre os quais um espírito mais impetuoso que o meu gostaria de pelejar, não é isso o que eu desejo – quero, ao contrário, lhe agradecer por tudo o que há de feliz e de sugestivo em suas observações – notadas com tanta perspicácia e ditas com tanto brilhantismo”.

Uma leitura desses dois breves trechos permite-nos ver a graciosidade repleta de inteligência e de poesia dos escritores, e é uma pena que o tamanho diminuto dessa resenha não permita destacar mais pontos de grande beleza esgrimida entre dois homens que buscavam pontes de compreensão onde existia somente diferença. “A aventura do estilo” é um livro para ser digerido com calma, não pela complexidade das ideias contidas no seu interior, mas pela construção laboriosa dos argumentos e das reflexões de ambos os autores, que encontram na sua troca de cartas um espaço privilegiado para discutir literatura e vida. De uma relação epistolar que se estabelece com cautela e respeito mútuo, aos poucos a amizade cresce, bem como as confidências e a troca de dúvidas sobre as próprias obras.

Mais do que uma discussão estéril e egocêntrica sobre estilos literários, “A aventura do estilo” revela dois escritores no auge da sua criatividade, ambos debruçados sobre a mais antiga questão: o que é mais importante, viver ou escrever? E, se escrever não é uma possibilidade, mas uma necessidade para ambos, como a forma literária pode ser trabalhada até a perfeição sem perder a sua essência humana (posto que os dois são unânimes em admitir a impossibilidade relativa de uma obra de arte atingir a perfeição incontestável). No entanto, o grande destaque do livro é a sua fluidez e a clareza argumentativa de Henry James e Robert Louis Stevenson, dois escritores que deixaram de lado as suas divergências filosóficas e estéticas para se concentrarem naquilo que realmente importava: uma boa e saudável conversa, na qual, ao tentarmos entender a opinião do outro, acabamos fortalecendo a nossa.

 

Texto originalmente publicado no link https://www.revistaamalgama.com.br/07/2017/resenha-a-aventura-do-estilo-henry-james-robert-louis-stevenson/

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (02/08/2016): “Três lições que a literatura me ensinou”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu cometi uma indiscrição com a equipe de gincana estudantil que me contatou e resolvi escrever um texto mais comprido do que duas linhas sobre o que a literatura me ensinou.

Só coloquei três lições, mas evidente que foram muito mais. E só citei Pushkin, Stevenson e Pizarnik, senão a lista seria infindável.

Boa leitura!

 

Três lições que a literatura me ensinou

 

Uma das partes mais importantes de ser humano é responder perguntas. Desde que nascemos estão nos exigindo respostas: já comeste hoje? Como foi o teu dia? Tudo bem? Estão sempre querendo saber minha opinião sobre algum assunto, quando o que interessa mesmo é o abismo imenso das perguntas, essas, sim, muito mais criativas e inesperadas do que as suas respostas. Responder algo é restringir o mundo. Deveríamos fazer mais perguntas sem resposta.

Foi assim que recebi, como parte da gincana de um colégio, um questionário. A tarefa era simples: os alunos deveriam buscar um escritor para responder dez perguntas. Vale 10 pontos numa escala de 200 possíveis, ou seja, pode fazer diferença entre a vitória e a derrota, entre o clarim da glória e a tumba dilacerante do fracasso (eu já fui aluno, sei como essas questões são importantes). Pediram para que eu “fosse criativo”. As perguntas eram singelas e deram duas linhas para cada resposta; nem Hemingway seria genial com tão pouco espaço. Espero que as demais turmas participantes da gincana tenham encontrado escritores mais comedidos nas suas respostas. Aliás, tenho curiosidade em saber quais são os outros colegas escolhidos e se existirá uma espécie de competição entre os escritores pelas melhores respostas para merecer os 10 pontos. Se assim for, amigos, se preparem, pois as minhas estão estupefacientes e criativas (sim, estou fazendo pressão psicológica sobre os times inimigos – eu realmente sei da importância de uma gincana estudantil).

No entanto, uma das perguntas grudou na minha memória, talvez pela sua inesperada sabedoria ou pela sua crueldade: “o que a literatura te ensinou?”. O meu primeiro instinto foi uma declaração ferina: “ela me ensinou a não responder tal questão em míseras duas linhas!”.

Mesmo depois de saciar tal curiosidade, a pergunta continuou ressoando na recordação. O que a literatura me ensinou? Em um primeiro momento, diria sem titubear que ensinou tudo o que sei. No entanto, a função da literatura não é somente ensinar, ela também possui outras atribuições, entre as quais alertar, sonhar, reconhecer, retratar, ridicularizar. Também me ensinou nada; a literatura só faz sentido quando conjugada com a emoção ou com a reflexão. Somente ler não é vivenciar algo. É necessário ler para viver e viver para ler, as duas atividades caminham juntas.

Por me negarem o espaço merecido para uma resposta (existe sabedoria nisso também, pois eu me prolongaria ao infinito), pensei em algumas lições que a literatura trouxe para a minha vida.

 

I – Ensinou-me o verdadeiro gosto das cerejas.

 

As cerejas são frutas pequenas, vermelhas, com uma semente que ocupa o centro da sua existência e, em geral, possuem gosto rançoso e sumarento. Eu comia cerejas e assim pensava sobre elas, como todos pensam, até que Aleksandr Pushkin veio e mudou a minha visão de mundo.

O incrível é que a história começa na realidade. Pushkin, o maior escritor da Rússia, também era um homem acostumado a viver no limite das paixões, o que o levava para a cama das mulheres casadas, a criar versos e histórias repletos de vida e, às vezes, até mesmo a defender a sua honra através de duelos.

Quando tinha 23 anos, Aleksandr Pushkin envolveu-se com uma discussão com um soldado do exército, tido como um dos melhores atiradores do seu destacamento. A conclusão inevitável da discussão foi a realização de um duelo, com a dupla de homens indicando seus respectivos padrinhos. Detalhe significativo é que, na época, apesar de ser o método mais utilizado para acertar questões de honra, os duelos eram proibidos pelo czar, até para evitar perdas entre as suas tropas. Ainda assim, a honra era um assunto tão forte que os duelistas desprezavam as ordens contrárias.

Na manhã seguinte, Pushkin e seu desafeto se encontraram na beira do rio. As regras eram claras: eles tirariam na moeda quem teria o direito de dar o primeiro tiro. Em seguida, andariam dez passos em sentido contrário e se virariam; o vencedor no arremesso da moeda teria o direito ao primeiro tiro. Se o adversário sobrevivesse, teria direito então a realizar o seu disparo.

Pushkin perdeu o arremesso da moeda. O competidor, que atirava melhor, teria o direito de ser o primeiro, e ele só precisava mesmo era de uma bala. Os dois andaram em direções opostas e se viraram.

Antes mesmo de erguer a pistola, o soldado provavelmente percebeu o inesperado. Pushkin não estava com medo do tiro, não receava estar exposto e sem defesa à mira da pistola inimiga. Ao contrário: enquanto esperava o tiro do outro, ocupava-se comendo cerejas, que retirava do bolso do seu casaco, passando a devorá-las e, enfim, cuspindo as sementes.

Aquilo não era normal. Nenhum homem fica diante da morte comendo cerejas. O normal era que tivesse medo, expectativa, pavor, e não tamanha calma. O soldado concentrou-se e fez a mira. Enquanto isso, o escritor russo continuava saboreando as cerejas, provavelmente o seu último alimento em vida.

O soldado atirou. E errou. Não se sabe se estava desconcentrado ou irritado demais, o incontestável é que errou o tiro que não poderia ter falhado.

Era a vez de Pushkin. Ele limpou as mãos, pegou a sua pistola e a levantou. Mirou atentamente no outro, os dois estáticos por alguns segundos… e não disparou. Abaixou a arma e saiu do local do duelo, sem nenhuma explicação. Também não fez as pazes com o adversário.

O duelo de Oneguin e Lensky, gravura de Ilya Yefimovich Repin, 1898

O duelo de Oneguin e Lensky, gravura de Ilya Yefimovich Repin, 1898

Tempos depois, o escritor publicou um conto, “O tiro”, em que relata exatamente a mesma experiência. No entanto, ele tenta enxergar o mundo através dos olhos do seu oponente, que fica descorçoado ao ver um inimigo em um duelo manifestar tanto desprezo pela vida, comendo cerejas enquanto espera o tiro, que resolve não atirar, uma vez que o adversário “não sabe o real valor da vida, pois não tem nada a perder”. Decide suspender o duelo antes do seu tiro e cobrar esta dívida de honra somente quando o outro tiver algo a perder, o que acontece no momento em que descobre que ele casou com a mulher que amava. A partir desse momento, o personagem principal procura o inimigo para retomar o duelo interrompido anos antes, e do ponto que parou: o momento em que ele ia atirar.

A maneira com que a vida real se entrelaça com a ficção fez com que o conto se tornasse inesquecível para mim. Traço maior do grande escritor, Pushkin mostra a realidade de todos nós: só valorizamos a vida quando temos algo a perder. A morte pode caminhar por aí esperando o momento de cobrar a sua fatura, e pode acontecer quando finalmente somos felizes.

Pushkin morreu em outro duelo alguns anos depois. Nem sempre teve a mesma sorte com seus oponentes. No entanto, hoje, quando como cerejas, elas não tem mais a mesma inocência de antes. Elas tem gosto de vida, de desafio, de coragem, mas também possuem o sabor que mais identifico com a morte.

 

II – Ensinou-me a ver as maravilhas ocultas que andam por aí.

 

Robert Louis Stevenson era um bom cara. Não é uma constatação minha, mas de todo mundo que teve a sorte de encontrá-lo. Até mesmo Henry James, um homem naturalmente frio , rendeu-se ao charme luminoso de Stevenson. Dizem que as histórias do escritor escocês faziam James chorar de tanto rir, e acho mais fácil acreditar em unicórnios esvoaçantes do que em tal cena.

Estou lendo “Viagens com um burro pelas Cevenas”, o segundo livro de Stevenson. Também parte de uma experiência real: durante doze dias de setembro de 1878, o escritor pegou uma burra e foi passear pela cadeia das Cevenas, localizada no sul da França. A sua burra – Modestine – é temperamental e instável, e Stevenson acaba tornando-se escravo das vontades dela, que empaca do nada e decide seus próprios percursos, e as brigas do homem com o seu meio de locomoção são hilárias por si só.

Stevenson pegou essa viagem em que deu tudo errado e transformou em um livro delicioso. Ao invés de reclamar ou de desabafar das suas agruras, ele abandonou-se à experiência de ser guiado por uma força da natureza, por alguém que não conseguia controlar, e descobriu ruínas perdidas, pessoas com histórias espantosas, vilas fora do ordinário, cenários que nunca teria visto se tivesse ficado no trajeto de sempre. Stevenson cedeu ao maravilhamento que só vem de perder o controle de si mesmo. Lendo a sua obra, percebo que a verdadeira maravilha é olhar o mundo com os olhos de quem acabou de nascer.

Stevenson e Modestine

Stevenson e Modestine

A sua filosofia de vida era mais profunda do que descobrir as maravilhas que andam por aí. Stevenson acreditava que o segredo para viver bem era abraçar o fracasso, conforme o sermão que ele preparou para a sua família no Natal de 1888, uma série de postulados para se atingir a felicidade na existência:

“Ser honesto, ser amável – ganhar um pouco e gastar um pouco menos, em geral tornar uma família mais alegre com sua presença, renunciar-se, se preciso, e não se sentir amargurado, ter poucos amigos mas estes sem se renderem jamais – sobretudo, com essa condição severa, ser amigo de si mesmo -, eis uma empresa que requer toda a força e delicadeza que um homem possa ter. Possui uma alma ambiciosa quem pedir mais, e um espírito otimista quem espera que tal empresa seja bem-sucedida. Há na sorte humana, sem dúvida nenhuma, um elemento que nem sequer a cegueira pode controverter: seja qual for a nossa tarefa, não estamos destinados ao sucesso. Nosso destino é o fracasso. É assim em toda arte e em todo estudo; é assim, sobretudo, na comedida arte de viver bem.”

Stevenson passou a vida toda vendo maravilhas ao seu redor enquanto era destruído pela tuberculose. É sintomático que um homem consiga ver graça e beleza no mundo enquanto está sendo devorado aos poucos pela doença. Nos seus últimos anos de vida, comprou um terreno em uma das Ilhas Samoa, na Nova Guiné, e dedicou-se a mais difícil das tarefas: relacionar-se com os vizinhos e com as suas guerras eternas. Até nisto Stevenson mostrou ser um bom cara, pois, em pouco tempo, tribos rivais estavam lhe ajudando com as plantações no terreno. Ele trocava essas gentilezas por literatura: todos os dias, ao final da tarde, Stevenson sentava próximo da fogueira e contava histórias para os adultos e para as crianças. Uma atrás da outra, sem parar, sempre rindo e se encantando com a dança das fagulhas no céu repleto de noite das ilhas Samoa.

 

3. Ensinou-me sobre a importância de ser metódico:

 

Estive lendo os “Diários”, da escritora argentina Alejandra Pizarnik. É um livro impactante. Comprei alguns anos atrás, quando estava no Uruguai. Uma série de coincidências me levou a isso: a camareira do hotel em que estava em Montevidéu, ao me enxergar lendo na recepção, disse com orgulho que quem não leu Alejandra Pizarnik ainda não aprendeu a ler. Dias depois, em uma livraria, estava com um livro de poemas dela na mão quando a atendente me sugeriu que eu trocasse pelo seu “Diários”, que era melhor. Ambas as mulheres tinham razão, e essa é outra das magias da literatura: o livro sempre chega ao seu leitor.

Alejandra era uma mulher metódica. Registrava seus sonhos e pesadelos em um diário, que mantinha sempre ao alcance da mão. Também fazia pequenos exercícios estilísticos. Na introdução, o editor descreve o método utilizado pela poeta para escrever: ela tinha um quadro negro. Colocava cada um dos versos e meditava longamente a respeito dele. Depois que escrevia tudo, Alejandra trabalhava o ritmo, a sonoridade, as palavras, sempre em busca da perfeição estilística. Podia passar semanas debruçada sobre um único poema, apagando e reescrevendo versos no quadro negro, até o momento em que cedia ao cansaço e encerrava o poema. Os verdadeiros poemas não são feitos de palavras, mas da exaustão dos seus autores.

A mulher não gostava de sair do seu quarto. Era tímida e fechada, não ambicionava o contato com outros seres humanos. Com o passar dos anos, o Diário que começou como uma forma de descarrego dos seus pensamentos mais secretos virou um amigo caloroso com quem Alejandra conversava. Às vezes, nossos melhores amigos não possuem pele e carne, mas só a vontade de nos escutar.

Alejandra Pizarnik

Alejandra Pizarnik

As frases curtas do Diário são mais apontamentos e lembretes do que literatura, mas ela está ali, sempre à espreita. No dia 07 de dezembro de 1952 (todas as traduções são minhas): “Eu quero morrer. Estou com medo de voltar ao passado. Eu penso em uma mulher da minha idade um século atrás. O que ela fazia quando estava angustiada?”. Ou então 18 de dezembro de 1960: “Noite crucial. Noite em sua noite. Minha noite. Minha importância. Eu mesma. A asfixiada ama a ausência de ar. Memórias de uma náufraga. Sonho de uma náufraga. O que pode sonhar uma náufraga senão que acaricia as areias da praia.” Ou o extraordinário desconforto do dia 05 de janeiro de 1961: “O horror de habitar-me, o estranho de ser minha própria convidada, meu fugaz, meu lugar de exílio.”

No dia 28 de setembro de 1962, um desejo de se proteger: “Escrever um livro em prosa, ao invés de poesia ou fragmentos. Fazer um livro ou uma habitação em que possa me abrigar.” Não foi suficiente, pois, em 25 de setembro de 1972, Alejandra Pizarnik se matou. A vida foi pesada demais para ela; os livros e as poesias já não lhe davam guarida.

Nas primeiras linhas do Diário, impregnada de alegria quase solar, Alejandra declara: “Morrer! Claro que não quero morrer! Porém, devo fazê-lo.” Quinze anos depois dessa esperança, é arrepiante ver, escrito no dia 30 de outubro de 1962, ao final de uma singela descrição do dia, a seguinte frase: “não esquecer de suicidar-se”. É importante ter método até na hora de fechar a porta e abandonar a casa.

 

Três lições sobre a vida, e as três saíram da literatura. Muitas outras possibilidades acabam surgindo dos livros, e se existe alguma coisa que as cerejas de Pushkin, o burro de Cervantes ou os pesadelos de Pizarnik trouxeram para a minha vida foram novas – e mais intensas – maneiras de ver o mundo. Mas explicar isso em duas linhas é impossível, então peço desculpas à minha equipe da gincana  – já viraram minha equipe – para revelar a resposta que dei para o que o a literatura me ensinou: ensinou-me a ser eu, nos defeitos e nas qualidades.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/tr%C3%AAs-li%C3%A7%C3%B5es-que-a-literatura-me-ensinou-e4a1fd7148c8#.j3utcvaqu

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (10/05/2016): “Como sobreviver ao apogeu da era do clichê”

Na minha coluna no Medium da Dublinense dessa semana, falei de um dos maiores males da atualidade: a disseminação acelerada de clichês. As pessoas desaprenderam a pensar com as próprias palavras, e a imaginar livremente, e isto faz com que todo mundo fique repassando as mesmas ideias mastigadas.

Mas também falei das insuportáveis analogias entre a situação política vivenciada pelo Brasil atual com “House of Cards” e “Game of Thrones”; falei de Henfil e de dobermans pretos; falei de como manter a concentração; falei sobre Vermeer pintando os quadros na sua sala de estar e de Napoleão e Júlio César dormindo no meio das batalhas; contei a história de como Robert Louis Stevenson encontrou uma maneira de terminar “A ilha do tesouro” e falei de Ihara Saikaku, “o poeta dos 20 mil”, que escreveu 23.500 haicais no espaço de vida de uma mosca.

Boa leitura!

 

Como sobreviver ao apogeu da era do clichê

 

Uma das consequências mais nefastas do atual momento de instabilidade política que o Brasil atravessa é a proliferação indiscriminada de clichês. Eles nunca foram tão rápidos – e tão devastadores. Alguém tem uma ideia criativa, coloca no Twitter ou no Facebook e, minutos depois, o seu pensamento está correndo o mundo, sendo apropriado por outras pessoas não tão inovadoras, tendo imagens acrescentadas, até exaurir por completo a criatividade inicial. Estamos vivendo no apogeu da era do clichê: ele nunca esteve tão presente como nos tempos atuais.

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Não sei quem foi a primeira pessoa que comparou a situação política do Brasil aos seriados “House of Cards”, da NETFLIX, e “Game of Thrones”, da HBO. O fato é que, em algumas horas, tantas pessoas tinham feito a mesma ligação que, longe de ser algo engraçado, passou a ser um monumento à preguiça de pensar livremente. Pois isto é ser clichê: todos nós temos a capacidade de ser criativos, mas preferimos usar a ideia já gasta de outra para não precisarmos criar as nossas.

A propósito, eis outra magia dos clichês atuais: as pessoas normalmente criam referências e ideias novas com base em seriados de televisão, frases de programas de auditório e filmes do cinema. A literatura ocupa uma posição subalterna na formação dos novos clichês. Raros são os literários, e são tão intrincados que poucos são capazes de associá-los aos livros, pois não o leram. Na era da rapidez da informação, vivemos a velocidade até na hora de formular ideias gastas.

Alguns anos atrás, li um texto de Henfil com o qual tive identificação instantânea e recordo com certa frequência. A começar pelo seu título, “A inspiração é um cachorro preto, um doberman bem aí atrás de você”. Para mim, funciona exatamente dessa forma: a inspiração está sempre me caçando, em uma correria insana na qual tenta morder meus calcanhares, e escrevo sob a crescente pressão de outras histórias que persistem em tomar o lugar daquela que estou redigindo. Se parar de correr, a inspiração me engole, me mastiga e cospe longe, então só tenho a opção de não parar.

Henfil aborda assim a imagem que associou ao ato criativo: “Foi aí que eu intuí para eles que há duas formas de você criar. Uma delas é que você só cria com um cachorro preto atrás. O que significa o cachorro preto? É a urgência, é a necessidade concreta, o prazo estourando. É aquele negócio assim. Você está doente, com o joelho arrebentado, mas vem um cachorro preto, um doberman atrás de você. E aí você corre e, se preciso, até pula n’água sem saber nadar. Se for para subir num poste, você sobe. A urgência, a necessidade, é a mãe da criação. Isso tem a ver com uma frase do técnico de futebol Gentil Cardoso aos seus jogadores: ‘eu quero que vocês vão na bola como num prato de comida’. A necessidade é um negócio essencial Eu fiz alguns exercícios em relação a isso. Eu pegava, de repente, e dizia: vamos desenhar agora, tem dois minutos para acabar. Então, as coisas saíam e eles até se assustavam. Mas, claro que saíam: eu soltava o cachorro preto!”

O “doberman” não precisa ser um prazo estourando ou uma situação urgente. A própria criação possui métodos de nos pressionar para que venha à tona. A obra artística é uma necessidade por si só, não uma possibilidade. Quando o artista se expressa, ele cria um prazo particular e um tempo todo seu. A necessidade da obra de arte não segue os ditames humanos e, assim, o artista se esquece de comer, de dormir, de descansar, envolvido por uma pressão que só acabará quando colocar o último ponto na obra. Não deixa de ser uma pena que as pessoas não se comportem assim, com essa noção inata de necessidade, para os fatos da sua vida, que ficam rolando de um lado para o outro sem serem resolvidos de vez.

Vejo muita gente reclamando de bloqueios criativos, seja para escrever livros, seja para redigir teses, dissertações, ensaios, trabalhos acadêmicos. Para todos, a minha resposta é sempre a mesma: um bloqueio criativo só existe se você acreditar nele. Se tratarmos o texto como algo que deve ser conquistado a cada vez que escrevemos uma página, não temos tempo para nos dar ao luxo de vermos o bloqueio. A única alternativa é seguir em frente.

Existe uma noção romântica de que os textos surgem como uma espécie de carícia dada pelo autor na página, um enlevo espiritual. Mentira. Textos existem para serem subjugados, colocados de joelhos e implorarem por perdão. Um texto deve ser vencido, e isto acontecerá a duras penas, com perda de sangue, gritos e cicatrizes morais: na escritura, não existe a alternativa de chegar a um consenso em que as duas partes vão sair felizes. Ao contrário, os dois lados sairão insatisfeitos. O texto sai gritando em silêncio do corpo do autor, que, por sua vez, sente-se exausto ao trazer a luz a sua obra, sentindo-se como Zeus quando removeu Palas Atena da sua cabeça, levando uma bela marretada de Hefesto.

Nenhum escritor teve tamanha noção de que existia um cachorro preto correndo atrás de si do que Robert Louis Stevenson. Afinal, não bastando sofrer com o texto, ele próprio criou o doberman que iria persegui-lo. Em 1880, Stevenson viajou para Braemar, uma aldeia localizada na Escócia. Acossado por uma tosse incessante e repleta de sangue, o escritor ficou preso na cabana e, enquanto não melhorava, dedicou-se a fazer o desenho de um mapa de tesouro com o seu enteado, Samuel Lloyd Osbourne, de 12 anos. O mapa ganhou detalhes cada vez mais interessantes e, em algum momento, Stevenson sentiu a necessidade de escrever aquela história para não perdê-la, dando início ao romance que seria chamado de “A ilha do tesouro”.

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O mapa de “A ilha do tesouro”, de Stevenson

Durante um largo período, o escritor dedicou-se à história com afinco, preenchendo páginas e páginas, criando as figuras de Jim Hawkins e Long John Silver. No entanto, quando chegou ao capítulo 16, a história sumiu. Acabara a inspiração. Ele se sentia incapaz de escrevê-la, e isto o levou a fazer uma auto-análise: “Eu tinha 31 anos; era um chefe de família; estava mal de saúde; e ainda não havia encontrado o meu caminho.”

Levou um ano para Stevenson retomar a história, e tudo graças a um “doberman” que o próprio autor criou. Ele enviou o livro para uma publicação infantil chamada “Young Folks”, que começou a publicá-lo em fascículos. Imaginou que a história estava fadada ao esquecimento, mas fenômeno contrário aconteceu: os leitores adoraram, esperando os capítulos com ansiedade. O fã mais ardoroso de “A ilha do tesouro” era a mesma pessoa que mudara o seu título original (“O cozinheiro do mar”): o editor de “Young Folks”, James Henderson. Quando soube que Robert Louis Stevenson não acabara o livro e estava bloqueado, um Henderson em pânico ordenou que ele resolvesse o assunto, e o quanto antes.

Com esta pressão na cabeça, o escritor viajou para Davos, na Suiça, e tomou uma decisão crucial: não iria mais se preocupar com o livro. Ia aproveitar o descanso para colocar a leitura em dia. Quando estava prestes a desistir, a criatividade ressurgiu, e com força. Passou a escrever um capítulo por dia, em um ritmo delirante, até que concluiu a obra, espantando mais a si mesmo do que ao editor.

Para Stevenson, foi necessário criar um motivo forte para que terminar o livro. A imaginação não foi capaz de dar conta da história e, assim, somente a urgência e o desespero seriam os combustíveis necessários para terminá-la. Muitas pessoas costumam deixar os seus planos de vida inacabados. A tática do autor escocês de criar as condições necessárias para fazer a criatividade aflorar demonstra que, às vezes, se algo não está funcionando da forma que desejamos, o melhor é criar uma forma de ficarmos com medo, pois, citando Máximo Gorki, “o medo é tão saudável para o espírito quanto um banho para o corpo”.

No início de “A inspiração é um cachorro preto, um doberman bem aí atrás de você”, Henfil fala que precisamos desmistificar a ideia de que a criatividade é algo divino, “um espírito santo que baixa”, e afirma que a criatividade é uma questão de concentração. “Que sem concentração ela não acontece, e esta concentração às vezes é dolorosa, demora muito tempo e dá um trabalho danado.” É uma lição importante para qualquer coisa que se faça na vida: ser capaz de manter a concentração enquanto todo o resto tenta nos distrair. O pintor holandês Johannes Vermeer pintou todas as suas obras na sala da casa, cercado pela mulher, pela sogra e pelos 15 filhos (quatro morreram de forma precoce). Nunca se soube de Vermeer reclamando que não conseguia dosar as cores de “Moça de brinco de pérola” por que a balbúrdia das crianças estava insuportável. Napoleão e Julio César tinham o hábito de tirar gostosas sonecas em meio a batalhas sangrentas, e nenhum soldado relatou que eles reclamavam do barulho atrapalhando o seu sono. Manter a concentração para criar é o verdadeiro desafio, ainda mais em tempos modernos, onde tudo convida para a distração e para o prazer.

A concentração necessita ser exaustivamente burilada. Conseguir mantê-la é bem complicado, pois some como se fosse fumaça em meio a um vendaval. A concentração é um exercício diário e paciente, no qual às vezes perdemos e, em outras, ganhamos. Depois de ser afiada até a perfeição, qualquer pessoa será capaz de permanecer concentrada mesmo que o mundo esteja desmoronando ao seu redor.

Henfil trata também da informação: o artista necessita sempre estar informado antes de fazer a sua obra. O segredo não seria colocar toda a informação na obra, mas dissecá-la, pegar os seus elementos essenciais, e só então criar algo novo. Uma grande obra se forma quando o artista é capaz de pegar elementos díspares e recombiná-los com outra lógica. Sobre isto, Henfil menciona “Você pode olhar as coisas e não ver. É a informação que faz com que você veja as coisas”.

Quando falo dos insuportáveis clichês que preenchem o nosso cotidiano de hoje – e não se iludam, boa parte dos clichês saem justamente dos jornalistas que deveriam combatê-los com galhardia exemplar -, refiro-me à incapacidade geral de articular novas informações com base em elementos existentes. Pegar a ideia de alguém e apossar-se dela de forma displicente, fazendo de conta que é sua, pode até conseguir algumas risadas de quem pensa que o outro é original, mas ele está enganando a si mesmo. É melhor criar e errar sozinho do que ficar repetindo piadas alheias em troca de uma popularidade efêmera, pois a pessoa que não tem medo de criar acabará um dia acertando, enquanto que o repetidor de ideias nunca será mais do que uma caixa de ressonância da criatividade alheia. Qualquer um pode ser criativo, em especial se não tiver preguiça de criar.

Que o diga Ihara Saikaku, escritor japonês que viveu entre 1642 e 1693. Apenas alguns dos seus romances chegaram até nós, notabilizando-se pela descrição dos comerciantes da sua época, e por isto ele é mais conhecido como romancista. No entanto, antes de se dedicar aos romances, Saikaku foi um poeta famoso. Como integrante da Escola Danrin, Saikaku também se opunha ao mais famoso escritor de haicais da época, Matsunaga Teitoku. Eram duas maneiras diferentes de ver a literatura: enquanto Teitoku prestava atenção no lento desbastar das sílabas e imagens poéticas, o outro buscava a espontaneidade e o improviso.

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Obra de Ihara Saikaku

Em 1671, Saikaku escreveu 1.600 haicais no espaço de um dia e uma noite, feito que impressionou a sociedade literária japonesa da época. Em 1680, em novo recorde, escreveu 4.000 haicais em 24 horas. Contudo, foi em 1684 que Saikaku ganhou o apelido de “O poeta dos 20 mil”, quando escreveu extraordinários 23.500 haicais no espaço de vida de uma mosca, ou seja, algumas horas, o que representou 17 conjuntos de 17 sílabas por minuto.

Não se pode negar a extraordinária criatividade e concentração de Ihara Saikaku, capaz de escrever milhares de poemas em uma questão de horas. Muitos deles eram considerados incompreensíveis – a utilização do improviso traz consigo este dilema, nem todos os haicais funcionavam – e, por este motivo, o poeta japonês recebeu dos seus adversários literários um epíteto que o relacionava com extravagância e hermetismo: “Saikaku, o holandês”.

Os clichês que infestam o nosso dia a dia são desgastantes, mas também servem como lição. Enquanto buscarmos resolver as nossas aflições usando fórmulas batidas e receitas prontas, seremos incapazes de evoluir, e isto vale tanto para a literatura quanto para a arte, para a política, para a economia… É quando todos pensam da mesma forma que devemos olhar para o lado e pensar diferente, pois é ali que o doberman está nos esperando, ansioso para nos colocar para correr. A única maneira que existe de sermos criativos é pensar fora das ideias de todo mundo. Não sair por aí distribuindo os pensamentos alheios e tentar pensar de forma livre ainda é a melhor – e mais deliciosamente surpreendente – opção.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/como-sobreviver-ao-apogeu-da-era-do-clich%C3%AA-a0d77c1a9c36#.k8mu24dvf

 

 

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