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Resenha do livro: “A arte do estilo”, de Henry James e Robert Louis Stevenson (org. Marina Bedran)

Escrevi para o Amálgama ( www.revistaamalgama.com.br ) uma resenha sobre o livro “A arte do estilo”, que reúne ensaios e a correspondência mantida entre Henry James e Robert Louis Stevenson. Um diálogo epistolar educado, repleto de argumentos inteligentes e de frases que poderiam muito bem figurar nas obras de qualquer um deles, de tão poéticas e cristalinas. Um livro que me engrandeceu como escritor e como ser humano.

Boa leitura!

Henry James e Robert Louis Stevenson: uma improvável amizade literária

 

Em um mundo cada vez mais polarizado, e em que as pessoas não só possuem opiniões imutáveis como ainda são incapazes de dialogar e provar a validade das suas crenças, usando de ironia grosseira e de violência retórica, soa até estranho imaginar que, não muitos anos atrás, dois indivíduos que pensavam diferente poderiam não só expor suas divergências em busca de pontos em comum, como inclusive se tornarem amigos. O ódio insensato direcionado contra aqueles que não comungam dos nossos ideais é uma característica da pós-modernidade, amplificada pela multidão de nomes sem rosto que grassa nas redes sociais. A simples ideia de opostos estabelecerem uma conversa respeitosa que, longe de ser uma tentativa de doutrinação é mais uma forma de fortalecimento da própria ideia por meio da sua defesa contra um adversário ardiloso e convincente, parece mais ficção científica do que uma hipotética invasão alienígena.

Contudo, por muitos anos, essa foi a tônica do comportamento civilizado: ao invés de odiar o diferente, tente entendê-lo. Nesse processo, um respeito relutante acaba surgindo, e o que era uma discussão entre duas pessoas diametralmente opostas pode se transformar em uma amizade um pouco fria, mas, ainda assim, uma forma de relacionamento que permitiria a convivência de ambas as ideias sem que uma precise eliminar a outra. É o que se depreende de “A aventura do estilo” (2017), que reúne a correspondência trocada entre o escritor nascido americano e naturalizado inglês Henry James e o escocês Robert Louis Stevenson: é só através do diálogo e da troca de experiências que qualquer sociedade pode evoluir. Ainda assim, ao término da leitura, a sensação geral foi de uma relativa tristeza por ver o quanto a sociedade atual se afasta – e com alegria selvagem – dos ideais que nortearam a conversa epistolar entre os dois escritores. Em meio ao oceano de ódio que se espalha por entre as pessoas e suas mais diversas causas e matizes ideológicos, está cada vez mais difícil encontrar diálogo e razoabilidade – sem contar uma dose de inteligência, bom humor e disposição de ouvir o outro.

Antes de prosseguir, uma breve contextualização histórico-literária: dificilmente poderiam existir dois escritores mais equidistantes do que Henry James e Robert Louis Stevenson. Autor de “Os embaixadores”, “Pelos olhos de Maisie” e do inigualável “A fera na selva”, Henry James era um escritor de emoções frias e de uma prosa elegantemente construída, retratando os dramas humanos por meio de uma lente concentrada nas classes mais abastadas; na sua obra, o conflito essencial se estabelece entre civilização e barbárie, entre emoção e razão, entre os sonhos românticos de uma Europa idealizada e os valores materiais de uma América ainda jovem e impetuosa. Essas características ajudam a explicar um pouco a frase jocosa de William Faulkner, “Henry James was one of the nicest old ladies I ever met.”.

Por sua, vez, Robert Louis Stevenson escreveu obras como “A ilha do tesouro” e “O médico e o monstro”, sendo um escritor muito mais físico e menos intelectualizado, muito mais emocional do que racional; não bastando escrever uma literatura que, na sua época, era considerada mais entretenimento do que arte (status esse que acabou sendo revisto por força dos inúmeros escritores que confessaram admirar o seu estilo, entre os quais Jorge Luis Borges, Chesterton e Ítalo Calvino), Stevenson também viveu com intensidade, viajando pelo mundo a bordo de navios e passando por uma série de aventuras que registrou parcialmente na sua vasta obra.

Ao lado do frágil e sensível James, Stevenson – mesmo padecendo de uma tuberculose persistente – era não só um poço de saúde como um espírito impregnado de vivacidade. A tradutora e organizadora de “A aventura do estilo”, Marina Bedran, descreve como foi o primeiro encontro entre os dois escritores: “após um primeiro encontro, em 1879, James diria que Stevenson lhe parecera um ‘boêmio de camisa sem colarinho e um belo de um poseur (de um modo inofensivo)’. Stevenson, por sua vez, viu em James ‘um mero habitué de clubes […] de forma alguma um homem corajoso e afeito às atividades ao ar livre’, e, se estimou desde o início a precisão da escrita jamesiana, se irritava um pouco com seus preciosismos, e achou Washington Square desagradável.”

A amizade improvável entre ambos nasceu graças a uma divergência literária. Em 1884, James publicou em “The Longman’s Magazine” um ensaio intitulado “A arte da ficção”. Nesse texto, o escritor britânico refutou uma palestra proferida pelo escritor e crítico literário Walter Besant, pretendendo ver no romance uma forma de competir com a vida, transmitindo para o leitor uma realidade postiça, mas nem por isso menos real. Para James, o melhor romance seria aquele que mais sucesso tivesse em reprisar a realidade e a vida. O dever da arte – para isso ele usa o exemplo da pintura – era ser fiel ao real, e o melhor artista era aquele que mais se adequasse a esse ideal. Mais do que expor uma história, o escritor era um artista dedicado a representar o real e a transformá-lo de dentro para fora.

Stevenson enviou um pequeno texto para a revista literária, refutando a opinião de Henry James. No título, “Um humilde protesto”, expressa todo o seu respeito perante as ideias do outro: ele reconhece que não possui a erudição e o esmero com as palavras que caracteriza James, e também sabe que é considerado um autor menor para a crítica literária de então, mas isso não lhe impediu de expressar o seu ponto de vista com tenacidade. Para o escritor escocês, a arte e a vida são conceitos que possuem alguns pontos em comum, mas não se confundem entre si. Sua defesa foi apaixonada:

“Competir com a vida, para cujo sol não podemos olhar, cujas paixões e doenças nos consomem e nos matam, competir com o sabor do vinho, a beleza da aurora, o trepidar do fogo, a amargura da morte e da separação, eis a escalada aos céus que se pretende. São trabalhos para um Hércules de casaca, armado de uma pena e de um dicionário, para retratar as paixões, armado de uma bisnaga de alvaiade para pintar o retrato do sol inclemente. Nenhuma arte é verdadeira nesse sentido, nenhuma pode ‘competir com a vida’, nem mesmo a história, construída a partir de fatos que são incontestáveis, mas que tiveram sua vivacidade e sua pungência roubadas, de modo que, mesmo quando lemos sobre uma cidade saqueada ou sobre a queda de um império, nos surpreendemos e louvamos com justeza o talento do autor, se nosso coração dispara. E, como uma última diferença, essa aceleração dos batimentos é, quase sempre, puramente prazerosa: essas reproduções fantasmagóricas da experiência, mesmo as mais fiéis, causam prazer, enquanto a própria experiência, na arena da vida, pode torturar e matar”.

Essa troca de textos públicos dá início a uma troca de cartas que pretende discutir os conceitos de arte, de literatura e de vida, estabelecendo algo que se possa chamar de estilo para um romance nos tempos de então. Na primeira carta, antes de se debruçar sobre o assunto que os fascina, Henry James reconhece as diferenças entre ambos e o valor literário do colega escritor: “É um luxo, nessa era imoral, encontrar alguém que escreve – que realmente tem familiaridade com essa arte adorável. Não seria justo bater-me com você aqui; além disso, nós mais concordamos, creio eu, do que discordamos, e ainda que haja pontos sobre os quais um espírito mais impetuoso que o meu gostaria de pelejar, não é isso o que eu desejo – quero, ao contrário, lhe agradecer por tudo o que há de feliz e de sugestivo em suas observações – notadas com tanta perspicácia e ditas com tanto brilhantismo”.

Uma leitura desses dois breves trechos permite-nos ver a graciosidade repleta de inteligência e de poesia dos escritores, e é uma pena que o tamanho diminuto dessa resenha não permita destacar mais pontos de grande beleza esgrimida entre dois homens que buscavam pontes de compreensão onde existia somente diferença. “A aventura do estilo” é um livro para ser digerido com calma, não pela complexidade das ideias contidas no seu interior, mas pela construção laboriosa dos argumentos e das reflexões de ambos os autores, que encontram na sua troca de cartas um espaço privilegiado para discutir literatura e vida. De uma relação epistolar que se estabelece com cautela e respeito mútuo, aos poucos a amizade cresce, bem como as confidências e a troca de dúvidas sobre as próprias obras.

Mais do que uma discussão estéril e egocêntrica sobre estilos literários, “A aventura do estilo” revela dois escritores no auge da sua criatividade, ambos debruçados sobre a mais antiga questão: o que é mais importante, viver ou escrever? E, se escrever não é uma possibilidade, mas uma necessidade para ambos, como a forma literária pode ser trabalhada até a perfeição sem perder a sua essência humana (posto que os dois são unânimes em admitir a impossibilidade relativa de uma obra de arte atingir a perfeição incontestável). No entanto, o grande destaque do livro é a sua fluidez e a clareza argumentativa de Henry James e Robert Louis Stevenson, dois escritores que deixaram de lado as suas divergências filosóficas e estéticas para se concentrarem naquilo que realmente importava: uma boa e saudável conversa, na qual, ao tentarmos entender a opinião do outro, acabamos fortalecendo a nossa.

 

Texto originalmente publicado no link https://www.revistaamalgama.com.br/07/2017/resenha-a-aventura-do-estilo-henry-james-robert-louis-stevenson/

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (03/05/2016): “A vida, essa baleia branca que tenta nos matar”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu tratei sobre o maior medo dos seres humanos: encontrar o momento perfeito – ou a obra ideal – e não ser capaz de confrontá-lo.

De lambuja, falei de Hawthorne e de Melville, uma das belas amizades forjadas através da literatura, do filme “No coração do mar” e do inusitado método de pintura do Ticiano: olhar o esboço do quadro como se encara a um inimigo.

Boa leitura!

 

A vida, essa baleia branca que tenta nos matar

 

Na semana passada, assisti ao filme “No coração do mar” (2015). Ele conta a história do baleeiro Essex que, no inverno de 1820, foi atacado em alto mar, de forma inesperada, por uma baleia a qual estava perseguindo. O depoimento de um dos sobreviventes serviu de base para Herman Melville escrever “Moby Dick”, um dos maiores romances que já existiu.

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No entanto, para mim, o filme nem foi tão interessante quanto uma subtrama que acontecia nos intervalos da destruição implacável promovida pela baleia. Em algumas ocasiões, o sobrevivente do Essex, Thomas Nickerson, mencionou para Melville que ele “não é um escritor de verdade como Hawthorne” e a história da baleia assassina nascera para ser contada por escritores de gabarito como Nathaniel Hawthorne. No filme, Melville engolia em seco e fazia de conta que não escutara, mas a sombra da perfeição literária de Hawthorne pairava o tempo inteiro sobre ele.

Não se exige adequação absoluta com a verdade para tramas ficcionais, e é possível que tal diálogo tenha alguma dose de realidade (Hawthorne foi mesmo um dos maiores escritores americanos). Contudo, não existiu tal tipo de competição de talentos entre Melville e Hawthorne. Na época em que estava escrevendo “Moby Dick”, Melville e Hawthorne já eram bons amigos, tanto que Melville dedicou a obra para o outro “com admiração pelo seu gênio”. Grandes espíritos acabam estabelecendo uma boa interlocução, e os dois autores não só apreciavam um o estilo do outro como também trocavam impressões sinceras e críticas estilísticas em frequentes cartas.

Herman Melville e Nathaniel Hawthorne eram também vizinhos de propriedade, e as famílias de ambos costumavam se visitar mutuamente. Suas terras, localizadas em Berkshire County, em Massachusetts, distavam seis milhas entre si. Um detalhe interessante sobre esta região dos Estados Unidos é que uma série de escritores fenomenais se concentraram ao seu redor: além de Melville e Hawthorne, moravam próximos Oliver Wendell Holmes, James Russell Lowell e Fanny Kemble.

Os dois escritores apreciavam longas caminhadas, e só podemos imaginar o que conversavam nos seus passeios, a troca de experiências e de ideias que ocorria nas pradarias tranquilas desta região quase bucólica dos Estados Unidos. Sophia Hawthorne observou a relação: “o Sr. Melville, geralmente silencioso e pouco comunicativo, derrama as ricas inundações de sua mente e experiência para [Nathaniel Hawthorne], tendo certeza de que será entendido, completamente seguro de uma interpretação ampla e generosa e do mais delicado julgamento”.

Chegaram até nós algumas cartas que Melville escreveu, não as respostas de Hawthorne, e elas nos permitem ver um relacionamento fraterno (parte dos biógrafos inclusive afirmam possuir uma vertente quase homossexual, mas são conjecturas) – e muitos receios sobre o fazer literário.

Uma das dúvidas chama atenção: eles deveriam mesmo escrever determinadas obras? Um homem seria capaz de escrever o abismo que se esconde dentro da sua imaginação, ou deveria deixar a obra que sonhou para outras pessoas mais calejadas, seguras e preparadas? Hawthorne – autor de “A letra escarlate” – e Melville – que, além de “Moby Dick”, escreveu clássicos como “Bartleby, o escriturário” – tinham dúvidas se eram os homens indicados para escrever as obras que imaginaram. É uma indagação que às vezes nos assombra. Somos capazes de aguentar a história – ou a carga emocional – que a vida depositou sobre os nossos ombros? Temos realmente a capacidade de suportar tanta dor, tanto sofrimento ou até mesmo tanta alegria?

Tais questões estão na origem dos pensamentos suicidas: a impressão de que a nossa existência não comporta a carga dolorosa que o destino nos legou. Uma pessoa pode considerar uma dor tão insuportável que continuar vivo não tem mais graça; outra pode achar que o amor sentido é tão grande que não existe vida sem ele. Estamos constantemente questionando nossos próprios limites, e nunca sabemos qual será a gota que vai encher de vez o copo. Para um artista, existe a severa dúvida de que a obra pode estar além das suas capacidades artísticas – que a obra pode, em suma, acabar com a sua sanidade ou, em casos extremos, até mesmo lhe matar.

Não existe exemplo mais adequado do que o escritor francês Guy de Maupassant, cuja melhor produção textual aconteceu a partir do momento em que foi diagnosticado com sífilis e sentiu a loucura se aproximando de forma progressiva. Maupassant escrevia de forma quase compulsiva para afastar os demônios, em uma corrida pela sanidade e para que a literatura lhe mantivesse vivo. Mesmo assim, tentou se matar algumas vezes, foi internado em um manicômio e nunca desistiu de pensar que a sua obra era mais importante do que a loucura e do que a morte. Quando desistiu de ter medo das suas possibilidades como escritor e soube que a vida escorria lentamente para um fim melancólico, Maupassant se entregou de forma desvairada à literatura. Somente vive de forma plena quem sabe que a morte está à espreita em cada canto da existência.

Guy de Maupassant

Guy de Maupassant

Hawthorne era um escritor cheio de dúvidas sobre as suas próprias capacidades narrativas, e talvez seja isto que o transforma em um dos maiores autores dos Estados Unidos. No livro “Hawthorne”, uma crítica longa sobre o estilo e as obras do autor, Henry James fala do diário deixado pelo estadunidense. Hawthorne estava sempre escrevendo, sempre treinando, em constante processo de aperfeiçoamento para a “grande obra”, aquela que, um dia, iria escrever. Nos seus diários (são seis longos volumes), existem questionamentos existenciais e religiosos, bem como inúmeras páginas dedicadas a descrever os movimentos de uma galinha ou as sombras de um galho na parede. Parafraseando “A fera na selva” do próprio James, Hawthorne passou a vida toda esperando o surgimento da “grande obra” e, neste intervalo, escrevia e treinava o estilo, para saber como se portar quando chegasse a hora de encontrar o tema tão sonhado.

Sobre o diário de Hawthorne, Henry James escreve, com a necessária dose de assombro: “Parecem cartas gratas e inúteis, dirigidas a si mesmo por um homem temeroso de que fossem abertas no correio e que, por isso, tivesse resolvido não dizer nada de comprometedor.” Os exercícios estilísticos de Nathaniel Hawthorne soavam incompreensíveis para uma mente cartesiana, mas Jorge Luis Borges, analisando o diário de Hawthorne e a crítica de Henry James, vai um pouco mais longe: “tenho para mim que Hawthorne registrou essas banalidades por anos a fio para provar a si mesmo que ele era real, para de algum modo livrar-se da sensação de irrealidade, de fantasmidade, que tanto o frequentava”.

Hawthorne passou a vida inteira repleto de insegurança. Sentia que caminhava ao lado de um precipício, o “romance perfeito”, aquele que definiria e justificaria toda a sua existência, e temia ser incapaz de dar concretude literária à obra cuja sombra somente divisava. Teve medo da sua própria criação, e acreditou que suas habilidades narrativas – tão arduamente experimentadas – não estariam à altura do que desejava fazer. Assim, escreveu outros livros ao invés daquele que lhe assombrava, em uma tática diversionista, e mesmo em tal atitude acabou tendo grande sucesso.

Em certo sentido, o receio de Hawthorne não é muito diferente das pessoas que divisam uma existência feliz e são incapazes de se entregarem a ela, por puro medo de que a felicidade seja boa. É mais comum do que se imagina. Conheço pessoas que possuem real receio de serem felizes e, por isso, cometem os mesmos erros ad infinitum. Elas acham melhor passar ao largo de boas situações ao invés de mergulharem nelas, mesmo que dê errado, mesmo que tudo acabe se alterando. É preferível chorar publicamente sobre a infelicidade ao invés de ser feliz em silêncio.

Não se pode ter medo da própria existência, assim como não devemos temer as obras que pretendemos concluir, e isto vale tanto para uma estátua quanto para uma construção nas nossas casas. Não existe tarefa tão gigantesca que não sejamos capazes de vencer. Passar a vida toda fugindo da obra – ou do confronto com ela – é perder tempo.

Oportuno recordar do grande pintor do Renascimento italiano, Ticiano. De acordo com Jacopo Palma, o Jovem, que era seu aprendiz e o enxergava trabalhar, o método do artista era sempre o mesmo. Em primeiro lugar, Ticiano espalhava sobre os quadros uma massa de cor que servia de “cama” (base) para a pintura que viria depois. Em seguida, com algumas pinceladas de diferentes cores, o pintor italiano quebrava a mesmice da “cama”. Nas palavras de Jacopo Palma, o Jovem: “Tendo esses princípios como única doutrina, em quatro pinceladas ele fazia surgir a promessa de uma figura perfeita. Esboços desse gênero satisfazem os maiores conhecedores e são uma guia desejada por muitos que buscam um método correto para se lançarem ao oceano da pintura”.

Em seguida, Ticiano realizava algo inesperado: virava os quadros de costas e colocava-os contra a parede. Ficava meses sem virá-los, e sem sequer encará-los. De costas, os quadros esperavam a finalização, e o pintor se negava a concluí-los, mas não resta dúvida de que a mente de Ticiano estava funcionando. Ele não precisava ver o quadro – a visão talvez até lhe atrapalhasse –, pois precisava ter a figura claramente disposta na sua mente antes de transformá-la em pintura.

Quando se julgava preparado para voltar ao esboço, com a imagem enfim pronta na sua imaginação, Ticiano virava o quadro, e a descrição perplexa de Jacopo Palma, o Jovem, merece destaque: “quando se dispunha a atacá-las [as pinturas] novamente, ele as observava severamente, como se se tratassem de inimigos mortais, a fim de discernir algum erro. Se encontrasse a menor coisa em desacordo com sua intenção, ele se portava como um cirurgião que, ao tratar um paciente, faz uma sangria, põe no lugar o osso deslocado de um braço ou endireita a posição de um pé sem piedade pelo sofrimento do doente.”

"Beldade ao espelho", de Ticiano

“Beldade ao espelho”, de Ticiano

Na descrição do método de criação de Ticiano, percebe-se o grande problema que Hawthorne recusou-se a ver: um artista não é amigo da sua criação, mas seu maior inimigo. Ela está no caminho da sua felicidade e, como tal, deve ser tratada como um obstáculo, não como sinônimo de completude. Da mesma forma, não devemos achar bonita ou agradável a vida em que estamos inseridos, ou os conflitos que nos colocaram desde que nascemos e sem sequer pedir nossa autorização, mas lutar contra ela até o último ar dentro dos nossos pulmões. Pensar que a nossa existência é miserável por causa das agruras impostas pelo destino é uma solução covarde. Melhor fazer como Nabokov com os seus personagens: pegar o chicote e fazer o destino e a vida se dobrarem à nossa vontade, seja ela qual for.

Em determinado momento de “No coração do mar”, Melville confessa aquilo que lhe dá maior medo: ser incapaz de escrever bem a história que a imaginação lhe fez desejar. Escrever mal a história sonhada. Nickerson não comenta o medo do escritor, mas seus olhos demonstram a realidade: todos nós temos que enfrentar baleias brancas e assassinas. A diferença é que alguns lutam de frente e com coragem contra elas, enquanto outros preferem o comodismo de ficar chorando e reclamando a respeito da existência que lhes foi legada.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/a-vida-essa-baleia-branca-que-tenta-nos-matar-50f0bfdbd14f#.hxygwabax

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A angústia das naturezas mortas

Acredito que, a esta altura do campeonato, é de conhecimento público que gosto muito de ler e que considero a leitura não só como uma forma de criar novos pensamentos quanto de nos libertar de qualquer prisão em que estejamos recolhidos. A leitura liberta do medo, da angústia, da morte. Ela também nos salva da maior prisão de todas, que são os limites da própria vida, mas as implicações de tal ideia seriam tema para uma longa – e, no momento, inoportuna – digressão.
Consequência disto é que as pessoas olham a palavra “livro” escrita em algum lugar e lembram de mim; veem citações de livros dentro de algum filme e recordam deste Cavaleiro da Triste Figura; escutam músicas que fazem referências literárias e, voilá, eu surjo, tal como um djinn preso em uma lâmpada empoeirada. Onde duas ou mais pessoas estiverem e um livro aparecer, meu fantasma estará entre elas. Não é algo ruim: melhor ser lembrado assim do que por alguma outra circunstância funesta.
Na semana passada, três pessoas me enviaram a mesma música que trata de livros. Era uma música que eu conhecia, “Livro Aberto”, do Vitor Ramil, mas nunca tinha me detido na letra. Ao escutá-la, tudo o que veio na minha cabeça foi um quadro não tão conhecido que Kiesling fez em homenagem a Modigliani e um estilo de arte, a “vanitas”.
Em 2012, estive na exposição “Modigliani: Imagens de uma vida”, que trouxe os quadros de Amedeo Modigliani ao Brasil. Os quadros mais famosos na exposição eram certamente as mulheres longilíneas, de pescoços compridos, elegantes tanto trajando roupas quanto despidas. No entanto, as pinturas que mais me chamaram atenção eram as quase desconhecidas e, entre elas, estava um quadro de Moïse Kisling, com quem Modigliani dividiu um atelier durante algum tempo. De acordo com a descrição do quadro, era bem possível que os dois pintores tivessem o pintado em conjunto, tanto que Kisling fez uma homenagem ao amigo, colocando uma escultura de Modigliani entre os demais elementos do atelier. A obra se chamava “Atelier de Kisling com uma escultura de Modigliani” (1918), e encontra-se abaixo.
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O que mais gostei no quadro de Kisling, excluída a intertextualidade brejeira que colocou Modigliani para dentro dele, foi ver uma natureza morta com pincéis e com tintas. Não existiu a intenção de mostrar todas as particularidades do atelier, mas só a confluência momentânea de dois pintores em busca da materialização dos quadros que assombravam a sua imaginação. Observando a mesa retratada, é possível escutar as discussões de ambos por mais espaço, no meio da divisão quase fraterna das cores e dos pincéis que seguiriam rumos diferentes assim que tocassem as telas brancas.

É uma natureza morta – mas feita com vida. Tudo ali está morto, esperando a chegada (agora impossível) dos artistas que lhe dariam vida. As obras foram suspensas. Toda tela vazia é uma espera e, por isto mesmo, ela se reveste de angústia e de ambição. Os pincéis não serão usados. As tintas não se depositarão em um quadro. A arte morreu esperando os pintores.

Eu gosto muito dos conceitos que envolvem o “vanitas”, uma modalidade de arte simbólica muito em vigor entre os séculos XVI e XVII, em que os pintores colocavam uma série de elementos que visavam a recordar a vacuidade da vida, a passagem inexorável do tempo, a inevitabilidade da morte. Uma espécie de natureza morta com elementos simbólicos. Um exemplo é “Vanitas”, de Pieter Claesz:

 

 

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Tanto no quadro de Kiesling quanto no de Claesz existe a superposição de figuras remetendo a uma ausência, a alguém que não está ali. No caso de Kiesling, o atelier se ressente da falta dos pintores, as tintas urdindo vinganças no seu silêncio. Para Claesz, existe a falta de vida, a insuficiência do tempo, o cadáver antecipado que somos.

O que me traz de volta à música de Vitor Ramil, “Livro aberto”. Um cenário é construído pela letra: um quarto sem pessoas, mas com objetos carregados de poesia e de possibilidades. Um livro está aberto sobre a cama, e ele assume múltiplas imagens: uma alegoria (prenunciando o teor da letra), uma saída (todo livro é uma saída deste mundo), uma sangria (tanto os leitores quanto os autores sangram imaginação ao conviver com uma história), uma indecência (o livro está aberto e desprotegido aos olhos de quem quiser desfrutá-lo).

Toda a letra transmite uma espera. O quarto está intacto, aguardando os humanos que irão lhe dar sentido. Ao mesmo tempo,  é uma natureza morta esperando que a vida, como uma lufada de ar fresco, penetre no seu interior e traga um objetivo para tudo. É possível sentir a angústia do cenário, paralisado na sua espera. Também se percebe que alguma cena aconteceu naquele quarto, e que agora ele está esperando a resolução do conflito. O livro aberto sobre a cama sofre uma série de metamorfoses, mas a mais importante delas é só sugerida: alguma coisa interrompeu a leitura e levou embora a vida do quarto.

Talvez a vida seja uma longa espera. Assim como a natureza morta espera a vida, assim como o livro espera o seu leitor, estamos todos como Godot, aguardando algo que sequer sabemos se virá ou se já não passou. Ou talvez sejamos como John Marcher, o protagonista de um dos mais terríveis livros que já li, “A Fera na Selva”, de Henry James: a vida toda esperando por algo que estava diante dos seus olhos, só enxergando depois que perdeu.

Enquanto as pessoas decidem seus dramas, o livro indiferente dança sobre a cama, no meio do quarto à espera.

Livro aberto – Vitor Ramil

Essa cama imensa consumindo a noite
Esse livro aberto como alegoria
O abajur perdido em sua luz
Essa água quieta desejando a sede
O controle girando no ar
A TV remota em sua fantasia
Uma alegria que não vai passar
Se você vier

Esse teto frágil sustentando a lua
Esse livro aberto como uma saída
O tapete e seu plano de vôo
O lençol revolto antecipando o gozo
Essa velha casa de coral
Essa concha muda que o meu sonho habita
A paixão invicta que não vai passar
Se você vier

Esse rádio doido de olhos valvulados
Esse livro aberto como uma sangria
Esse poema novo sem papel
O papel que cabe aos meus sapatos rotos
O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier

Esse quarto agindo à minha revelia
Esse livro aberto como uma indecência
O desejo é um naco de pão
A ilusão exposta em tanto desalinho
Uma tecla insiste em bater
No relógio o tempo é uma saudade tensa
E essa cama imensa que não vai passar
Se você vier

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