Arquivo da categoria: Não há amanhã

Entrevista sobre o livro “Não há amanhã”

No dia 21 de maio, tive o privilégio de ser entrevistado pelo escritor Dilan Camargo sobre o meu livro novo, “Não há amanhã”. Além de ser um grande escritor, o Dilan é um leitor arguto, e as suas perguntas e colocações foram ótimas. Em alguns momentos senti que não fui capaz de me explicar direito, mas eu também sou meu leitor, e minhas perplexidades e dúvidas não são tão diferentes quanto as das outras pessoas.

Segue o link da primeira parte da entrevista que dei para o Dilan Camargo no programa “Autores e Livros”, em que, além de ficar evidenciada a simpatia e a inteligência do Dilan, também restaram indubitáveis outras questões, tais como:

1 – eu existo. Agora não tenho mais dúvida (ué, esse tempo inteiro espelhos podiam estar mentindo e vocês interagindo com uma voz, então é bom ver que não sou um fantasma);

2 – consegui falar quase 30 minutos sem correr o risco de ser processado por ninguém, o que deve ser um recorde pessoal;

3 – eu não posso garantir 100% de certeza em relação ao que comentei sobre meu livro. Até aparecer alguma opinião mais abalizada, valerá a minha palavra de autor;

4 – “escritores não falam, eles escrevem” (CZEKSTER, Gustavo Melo. Não há amanhã. Porto Alegre: Zouk, 2017, p. 69-74)

5 – se eu sobrevivi à leitura atenta e arguta do Dilan, e se fui interrogado diante da câmera e aguentei firme sem desandar a chorar e pedir desculpas pelo o que fiz, pouca coisa no mundo pode me assustar agora.

Eis a primeira parte.

E aqui está a segunda parte:

 

 

 

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Gustavo Melo Czekster, Não há amanhã, Vídeo

Um conto para você, leitor e leitora do blog

Olá, leitor e leitora do blog.

Sim, você mesmo. Não olhe para trás, não estou falando com outra pessoa. Pois é, hoje vim falar com você mesmo. Rompi a barreira que separa autor do leitor, e resolvi deixar de ter um texto como intermediário para conversarmos de forma direta.

Em primeiro lugar, para pedir desculpas. Sou um blogueiro meio ingrato. Em geral não penso muito nos leitores. Às vezes, inclusive acho que não tenho nem seguidores e nem leitores, e que o WordPress brinca comigo criando visualizações para não me desanimar. Talvez o WordPress não queira me ver deprimido: “puxa, vou dar uma força para o cara, ele fez o texto com tanto esforço, merece umas visualizações e, voilá, eis 200 visualizações, Gustavo”. Parece muito verossímil. É um pouco difícil de acreditar que existem pessoas que leem meus longos textos! Então, se for isso, muito obrigado pela mentira, WordPress.

Aliás, o meu nível de ingratidão é tão grande que nem sei quantas visualizações tem esse blog. Sou ruim de números, e eles não me importam tanto, somente o texto. Mea culpa, mea maxima culpa: isso que dá escrever sem pensar em ser lido, às vezes a gente acaba sendo lido mesmo. Pois hoje descobri que tenho 95.367 visualizações – até esse momento. Pois é. Quase 100 mil vezes esse blog foi acessado. Se colocasse todas as pessoas deitadas em fila, se transformasse cada visualização em um barbante de 10 cm, se todas as pessoas estivessem em um estádio… não sei o que aconteceria. Como eu disse, não sou bom em números.

Falando em tamanho de textos… são grandes, não é? Sei disso por que, às vezes, alguns dos leitores do blog me mandam e-mails comoventes – quase súplicas – pedindo para que eu escreva menos, pois não possuem tempo para ler tudo. Ah, não foram poucas as pessoas que vaticinaram que esse blog não seria lido por causa da extensão dos textos, que o mundo pós-moderno não quer saber de textos longos e sim de memes, e outras previsões do tipo e…. bom, 95.367 acessos. Estavam errados. Podem não ser milhões de acessos como seria se eu falasse sobre celebridades televisivas ou fofocas políticas, mas também não é um número insignificante. E números nem importam tanto.

O mais impressionante foi notar hoje que tenho 340 seguidores! Poderia, em tese, começar uma religião. Ou, talvez, dar início a um povoado. Se conseguirmos treinamento militar, dá até para ocupar um país pequeno.

Passei os olhos pela lista de seguidores e percebi que, tirando a família e alguns amigos, em torno de 290 pessoas são amplamente desconhecidas. Não sei nem como chegaram aqui e começaram a me seguir. Para ser sincero, tenho até um pouco medo de saber. Pois a única explicação lógica é que essas 290 homens e mulheres estavam vagando pela internet, chegaram – por caminhos desconhecidos – a esse blog, gostaram do que leram e resolveram ficar. Se isso for verdade, é tão incrível que nem sei o que dizer.

Aliás, esses 290 seguidores sequer me conhecem ou sabem como sou. Alguns deles são de outros países (é isso ou os hoaxes andam cada vez mais criativos). Por isso, deixem eu mostrar quem sou:

Esse sou eu. Muito prazer a todos. Se algum dia me verem passando por aí, por favor, digam que me leiam e vamos conversar e trocar ideias.

Acredito que boa parte de vocês desconfia, mas também sou escritor. Bom, sou muitas coisas, nem todas dizíveis em horário nobre, mas escritor também. Escrevi um livro de contos, “O homem despedaçado” (isso mesmo, o nome do blog), e agora está saindo o segundo livro de contos, “Não há amanhã”. Olhem que legal ficou a capa dele:

Aliás, vou dar um spoiler: esse banco de praça abandonado em uma praça tem muito a ver com dois contos do livro. Não está aí por coincidência.

Para quem estiver a fim de adquirir o livro, ele já está à venda no site da editora e, em breve, estará por várias livrarias do Brasil, virtuais e físicas. Para quem tiver dificuldade de encontrar – ou ser como eu, um paranoico rematado em compras via internet – podem entrar em contato comigo, que dou um jeito do livro chegar até onde estiverem. Enquanto isso, segue aqui o link para quem desejar adquiri-lo no site da Editora Zouk:

http://www.editorazouk.com.br/pd-43a8cb-nao-ha-amanha.html?ct&p=1&s=1

Não posso terminar essa postagem sem agradecer a todos vocês pela confiança nesses cinco anos de blog, e pelos quase 100 mil acessos. Obrigado mesmo. Perdoem o fato de eu ser um pouco “mocorongo” nessas questões virtuais e por ter criado um blog que, como um amigo me disse certa vez com desespero na voz, é o “ambiente mais hostil já criado para um leitor virtual”.  Aqui não tem espaço para fracos.

Deixo um presente, para vocês que me acompanham com tanta fidelidade. Um conto que não entrou em “Não há amanhã” (já tem 30 contos no livro, chega uma hora de parar, né) e que só existirá aqui, pois não pretendo publicá-lo. Ele tem uma proposta de escritura meio arrojada, uma constante inversão de narradores (dentro do mesmo parágrafo) e é uma ode à criação e às criaturas ou, como gosto de pensar, sou eu quem crio ou a criação que me inventou?

Boa leitura, pessoal, e nos falamos – sempre – por aqui.

Pigmalião inversus

Quando aparei a última aresta, pequeno defeito no ombro, senti a sua respiração, e foi algo bom, mistura de arrepio e neblina: as coisas mudaram e eu soube que lhe tirara da pedra para me fazer companhia, e tudo pareceu com tanto sentido de repente, como se o mundo parasse de rodopiar para dizer que você era o meu prêmio por tanto trabalho e miséria e sofrimento e as coisas que acontecem quando não se tem dinheiro, mas dom nas mãos. Sim, você, a minha maior criação e aquela que ninguém verá, pois os olhos dos homens e mulheres são indignos de tocarem nos pontos onde somente a minha mão pode passear, na carícia do formão ou na pancada gentil do martelo. Você não nasceu para ser colocada com outras estátuas, ultrajaria a sua nudez de mármore, transformaria o amor com que cuidei de cada detalhe em algo corriqueiro, você e o seu púbis saltado, as coxas fortes de quem escalava oliveiras na Arcádia, sorriso saciado, sêmen ainda escorrendo pela virilha, pelo canto dos lábios, por entre os dedos entreabertos, sêmen de sátiro passeando pelo corpo da ninfa violentada. Você existe para me servir, a ilusão do sonho que não acaba, a mulher que não envelhece, não trai, jamais abandona. Não mexer as pernas, é horrível, pior que o sorriso paralisado, este sorriso mentiroso – estou me vendo no espelho da sala, horror duplo o de ser e enxergar aquilo que se é – tão satisfeito e que só serve para esconder o grito da minha condição. Ele me fixa com olhos de louco, as mãos repletas de pedaços meus, barba por fazer, e suas mãos quentes, ambiciono este calor, sinto tanto frio, passeiam na aspereza do corpo que nada sente. Você me tirou da pedra e da sua cabeça, me sentenciou a uma vida de amargura, recolhida neste gelo sólido. Destruiu a minha essência de centenas de anos inocentes para que servisse ao seu egoísmo, por que você se ama tanto que me fez à sua imagem, ou não percebe que os olhos que encara nasceram da sua solidão, o sorriso satisfeito é aquele reservado para o final de um dia de trabalho, o meu corpo feminino feito para se adequar às investidas e recuos do seu membro. Tão preocupado você estava em criar a perfeição que descobriu a mulher incapaz de se mexer, alguém preso a esse amor doentio que o move.

Doente de merda, filho da puta insensível, as palavras de Lúcia ainda ecoam na minha cabeça, assim como a batida da porta que a tirou para sempre da minha vida. Como podia explicar para ela o amor que nos une, este amor bonito de pedra e carne, ela nunca iria entender que não existe espaço para duas no meu coração e, entre ela e você, mil vezes o sabor duro das suas juntas ao invés da incerteza da carne feminina. Você é imortal, como gostaria que compreendesse a extensão do presente que lhe ofertei, o maior presente que alguém pode dar a outra pessoa, mas você não entende, fica aí com este ar sensual, sem saber que está diante do homem que desafiou o Tempo para estar ao lado da mulher sonhada no meio de uma bebedeira; ah, querida, você me tirou da companhia da garrafa, afastou as más influências, me guiou pela escuridão e mostrou o amor eterno. Explicar para você, que não consegue me ouvir, é o mesmo que explicar para Lúcia o que ela viu quando abriu a porta do atelier, ela foi capaz de entender o simbolismo do ato e nem tentou entender, me julgou com só um olhar, condenou e bateu a porta, doente de merda, filho da puta insensível, eu, cujo único pecado foi amar, eu, que disse para Lúcia na nossa primeira noite juntos que nunca a amaria, meu coração pertencia a outra. Você não pode ouvir, mas se colocar a cabeça no meu peito saberá que imploro pela liberdade, ambiciono a minha antiga forma e não este arremedo repleto de curvas desagradáveis, sinto tanto frio, tanto. Não é minha culpa que você deseje preencher as faltas de sua vida. Pensa ter criado, mas você destruiu, não consigo mais lembrar como era, e o sorriso abestalhado do espelho, aquele que você me deu, mostra que estou satisfeita, mas eu não estou. Gostaria tanto de sentir novamente o calor do sol na aurora de tudo, quando só existia o silêncio e não haviam criaturas para brincar com nossa aparência, seres com egoísmo tão grande que criavam para não se sentirem sozinhos. Agora tenho que aguentar o seu olhar injetado diante do meu rosto, bafejando na face imóvel, lambendo a orelha de pedra e sussurrando palavras de amor falso, mentiroso e passageiro como tudo o que a carne sente. Você é fraco, não passa de poeira em acúmulo, já vi centenas do mesmo material que você, eles passaram e eu continuo, eterna na minha existência e na vergonha das coisas que presenciei você fazer com meu corpo.

Eu não tive culpa. Quando concluí a última batida e vi a perfeição que agora respirava em silêncio, imobilizada na pedra, o impulso de adorá-la foi demais, e nunca foi tão bom ver o sêmen correndo pelas pernas de uma mulher, você nasceu para ser diariamente homenageada, merece ser o acúmulo insensível do meu esperma. Pena que Lúcia tenha interrompido, mas acabou sendo bom. Logo ela teria que entender que somente você, com seu olhar vazio e os cabelos de Medusa, consegue me fazer sentir algo, e isto é o mais próximo que já cheguei do amor, este amor para o qual me julgava invulnerável e que me acertou quando vi a mulher perfeita em um sonho de bêbado, amor que precisava ser desgarrado do sonho para virar uma estátua. Passar a vida presa em uma situação insustentável, este é o meu dilema: não passo de um capricho da criatura que concebeu esta forma bestial, despindo a aspereza que me acompanhava desde o início. Algo na minha nova estrutura atinge os olhos e o membro deste ser, que não cessam de verter lágrimas, cristalinas ou brancas, como se eu fosse o sentido da sua vida passageira, que absurdo, dedicar uma existência tão frágil à adoração da pedra, ele devia juntar-se aos seus iguais e não perder tempo com algo que lhe ultrapassa. As criaturas de carne prendem a transitoriedade em seres imutáveis, perdem tempo, fazendo como esta pessoa, parada na minha frente e imaginando estar diante do amor da sua vida quando ele acabou de bater a porta e ir embora. Pena que não entendem a verdade, não podem amar um pedaço de pedra, somente iguais amam, as criaturas de carne e pó dedicam o amor à busca da perfeição, ao passo que a pedra possui sentimentos que não mudam, dores que não esquece, tristezas insondáveis no fundo do mármore.

Agora preciso viver desta maneira vazia, sem sonhos, estou diante da mulher que sonhei e ela está sorrindo e nós transamos (na medida do possível), ela sorri quando eu conto o meu dia e o seu sorriso malicioso me convida a um novo sacrifício a escorrer pelo seu corpo eterno, ela sabe que nunca poderá me abandonar. Tem pés fixos, mas não está triste, pois, na sua cabeça constante, com pensamentos femininos materializados no tempo e espaço, ela me ama. Prendi o amor na pedra. Contudo, há um abismo no meu peito, um buraco dizendo que não adianta estar ao lado de uma mulher se ela não pode sentir e não posso senti-la por inteiro. O amor ideal continua tão longe quanto na época em que o forjei dentro do sono, estar ao lado de uma mulher que não pode amar e só ser amada é tão horrível quanto não estar. Pare de me encarar com estes olhos imersos em mansidão, olhos que refletem a angústia de quem foi modificada para lhe servir, virar depósito das coisas que saem do seu corpo. Pedra eu sou e continuarei sendo pelo resto dos tempos, criatura eterna em contraste com a sua fraqueza, ser de poeira. Você precisa se conformar com a sua natureza, pois nada mais é do que uma passagem, um intervalo, enquanto eu sou o ponto em comum que o une com seus antecessores e posteriores, eu sou a que estava e a que vai ficar para ver a geração que lhe seguir, e a outra, e a outra. Modificar a minha forma não altera a solidão da sua vida. Os olhos castanhos refletem um vazio comparável à minha imensidão, um corpo inerte que não possui maiores objetivos, uma criatura que necessitaria ser moldada pela minha paciência, isto, claro, se quisesse aprender que, diante de mim, você não representa coisa alguma e se assemelha a um aglomerado de sujeira marrom. Encare minha frieza, criatura de gesso e líquido, e começará a entender que mudar a minha forma é atingir a imortalidade, se equiparar à minha beleza, nada sentir, tudo ser e jamais recear o fim.

Contudo, a vida existiu por um motivo, e esta vida foi preâmbulo do sonho em que lhe criei, amada minha, e talvez este sonho tenha um significado maior do que conseguimos ver, pois não fui um homem, mas somente uma criatura que sonhou o motivo da sua morte. Agora sei que, sem você, não posso viver. Cumpri a missão, criar o motivo pelo qual morrerei, uma morte por amor desenfreado, existe uma única forma de nos juntarmos e, se não pode ser em carne, que o seja na rigidez dos que nada sentem, na ausência de respiração, na dureza que é sua maior virtude, um encontro na eternidade para a qual me dirijo. Espirro de areia, você foi útil, despertou pensamentos sobre o que sou e o que posso ser, e agora vejo você se afastar com passos rápidos, tensos, e me sinto sozinha, como se o seu calor se transmitisse, sinto saudades surpreendentes. Quando o vejo com a faca, disparo gritos em silêncio com este sorriso zombeteiro, não tente se juntar a mim, pois você é poeira e eu sou pedra, não tente, não tente e você não escuta. A faca entra no peito frágil que eu odeio, e só então entendo que o amo com toda a força que uma pedra pode amar o homem que lhe prendeu, e vejo você cair e sua mão tocar meu peito, a coxa, resvalar até o chão, seu sangue na minha sombra branca, você tentou me resgatar da pedra virando uma, meu pequeno amor, tola criatura de poeira que aprendi a amar.

Uma lágrima corre do olho. O líquido vermelho esquenta a sola do meu pé. Grito ao entender o que perdi e, desta vez, o som sai, se espalha no atelier, dançando nas cortinas, nas roupas do homem enrijecido.

“Pigmalião e Galatéia”

3 Comentários

Arquivado em Contos, Gustavo Melo Czekster, Literatura, Não há amanhã, Produção Literária