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Dois cadáveres frente a frente

Alguns dias atrás, o Canadá descriminalizou o duelo. A partir de agora, está legalmente aceito em terras canadenses o uso de duelos para arbitrar conflitos de uma maneira civilizada. Mas não nos empolguemos: na realidade, a legislação já existia. A circunstância dela não ter sido revogada em uma recente alteração legislativa no Canadá levou a concluir que os duelos ainda seriam possíveis, acaso preenchidos os requisitos legais. Mais detalhes estão nesse link: http://mundoestranho.abril.com.br/blog/contando-ninguem-acredita/com-reforma-no-codigo-penal-canada-descriminaliza-o-duelo/

Sempre senti uma forte atração por narrativas envolvendo duelos. Gosto da ideia de uma desavença entre duas pessoas ser resolvida de maneira civilizada entre somente ambas, sem envolver multidões. Em um mundo repleto de insignificâncias e de pessoas atacando e difamando pelas costas, soa quase utópica a ideia de homens e mulheres resolvendo eventuais problemas através de uma luta justa que limpe a honra com sangue.

Como não lembrar de “O duelo”, magistral conto de Tchekhov? Ou de “Duelo”, escrito por Guimarães Rosa? Também é possível citar “Os duelistas”, de Joseph Conrad – aliás, considerei o livro mais intenso do que o filme de Ridley Scott. Contudo, minha memória literária está afetivamente ligada a uma obra menor de Alexandre Dumas, “Os irmãos corsos“. Foi um livro que li quando era pequeno, e ainda me recordo a história dos irmãos gêmeos que conseguem sentir as dores e sofrimentos um do outro à distância. Quando um deles, o mais fraco e despreparado militarmente, morre em um duelo por causa de uma mulher, o outro vai vingá-lo em um novo duelo, fiel às tradições da Córsega. É uma história muito bonita, de amor de irmãos, de honra, de luto expiado pelo sangue. Esse livro vive nas prateleiras da minha memória, pois nunca mais o encontrei nas bibliotecas do mundo.

“Duelo depois de um baile de mascarados”, de Jean-Léon Gérôme

(Nesse momento abro um parênteses para lembrar o nome do pior duelista de todos os tempos, o nosso Euclides da Cunha, que pegou um militar com a sua mulher na cama e errou dois tiros, dando tempo para o homem desnudo pegar a própria pistola e matá-lo).

Entre os escritores, o maior duelista de todos foi o russo Aleksandr Pushkin, autor do incrível “Eugene Onegin” e, na minha opinião, o maior escritor russo que já existiu (e olhem que a concorrência é pesada). Gosto muito da história do duelo em que ele deixou o adversário desconcertado quando comeu cerejas sob a mira da pistola. Contei isso no texto que está no link http://wp.me/p24M2p-Ld , e aconselho que todos leiam como um modelo de comportamento digno diante da morte.

Pushkin era um homem que se irritava com facilidade. Durante a sua curta vida, ele convidou 20 desafetos para duelos – e recebeu convites para duelar de outros sete homens. Um homem bem esquentado. O primeiro adversário que convidou para duelar foi o próprio tio, quando ele tinha 17 anos: o tio roubou a mulher com quem ele estava dançando em uma festa, e isso foi o estopim para a briga, a qual não foi levada às últimas consequências, com os dois fazendo as pazes.

Grande parte das contendas do escritor russo foram evitadas por seus amigos, que negociaram essas questões de honra antes de chegarem até o final. Não surpreende que tenha morrido por causa de um dos duelos que foi impossível negociar. Detalhe interessante é que Pushkin nunca deu o primeiro tiro nos duelos de que efetivamente participou, ou seja, nunca ganhou um mísero cara e coroa para ver quem disparava primeiro.

Pushkin teve muito azar no seu último duelo, realizado contra Georges D’Anthès, que teria sido publicamente apontado como amante da esposa de Pushkin, a famosa Natalia Gontcharova. Dessa vez o escritor pegou pela frente um atirador experiente, e os dois não observaram a distância regulamentar de 25 a 30 passos de distância para o disparo, combinando somente 10 passos. O escritor foi atingido no estômago mas, antes de cair, ainda alvejou o adversário na mão. Mesmo agonizando no hospital, preocupou-se com o destino de D’Anthès, perdoando-lhe e pedindo para que o czar Nicolau não condenasse o seu adversário à morte (duelos eram proibidos na Rússia, e esse foi realizado de forma ilegal).

“Pushkin se despede do mar”, de Ivan Aivazovski

Existiu honra no comportamento de Aleksandr Pushkin. Estava com um problema com outro homem e, ao invés de fazer uma campanha de difamação ou de xingá-lo pelas costas (ou até responsabilizar a mulher pela traição, algo que somente covardes fazem), decidiu resolver a desavença frente a frente. No mundo atual, estamos tão acostumados a ver pessoas evitando os seus problemas e preferindo culpar os outros que até parece difícil de entender que a melhor maneira de resolver uma divergência é encarando a própria fonte causadora para chegar a uma resolução.

As situações seriam muito mais simples se, ao invés de perdermos tempo envolvendo outras pessoas nos nossos próprios dramas, tentássemos resolvê-los sozinhos. Mais e mais me convenço do fato de que sou o artífice do meu destino e, quanto menos gente se envolver nos meus conflitos, melhor será para todos. Nesse sentido, oportuno lembrar o pequeno conto do escritor argentino Rodolfo Walsh, cuja lição é muito atual: quando enfrentamos o nosso problema sem interferências de outras pessoas, existem somente dois cadáveres na sala – o meu e o outro. É dessa maneira que pessoas de valor resolvem seus problemas, frente a frente, confiantes nas suas habilidades e sabendo que, mesmo derrotados, ainda assim tinham razão na sua causa.

Deixo aqui o pequeno conto de Walsh, traduzido por Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni:

 

A cólera de um plebeu

(autor chinês anônimo)

 

O rei do T’sin mandou dizer ao príncipe do Ngan-ling: “em troca de tua terra quero dar-te outras dez vezes maiores. Peço que acates minha demanda.” O príncipe respondeu: “Faz-me o rei uma grande honra e uma oferta vantajosa. Mas recebi minha terra de meus antepassados príncipes, e desejaria conservá-la até o fim. Não posso consentir nessa troca”.

O rei se zangou muito, e o príncipe mandou T’ang Tsu em embaixada. O rei disse ao embaixador: “O príncipe não quis trocar sua terra por outras dez vezes maiores. Se teu senhor ainda conserva seu pequeno feudo, quando já arrasei grandes países, é porque até agora o considerei um homem venerável e não me ocupei dele. Mas se ele agora recusa sua própria conveniência, realmente está zombando de mim”.

T’ang Tsu respondeu: “Não é isso. O príncipe quer conservar a herdade de seus avós. Ainda que lhe oferecêsseis um território vinte vezes maior, ele igualmente o recusaria”.

O rei se enfureceu e disse a T’ang Tsu: “Sabes o que é a cólera de um rei?”. “Não”, respondeu T’ang Tsu. “São milhões de cadáveres e o sangue correndo como um rio em mil léguas à roda”, disse o rei. T’ang Tsu então perguntou: “Sabe Vossa Majestade o que é a cólera de um simples plebeu?”. Disse o rei: “É perder as insígnias de sua dignidade e partir descalço golpeando o chão com a cabeça”. “Não”, respondeu T’ang Tsu, “essa é a cólera de um homem ordinário, não a de um homem de valor. Quando um homem de valor se vê obrigado a encolerizar-se, cadáveres aqui não há mais que dois, o sangue corre a apenas cinco passos. E, no entanto, a China inteira se veste de luto. Hoje chegou esse dia”.

E se levantou, desembainhando a espada.

O rei turbou-se, saudou humildemente e disse: “Mestre, volta a sentar-te. Para que chegar a isso? Já compreendi”.

Um último detalhe: adoro o final seco desse conto, em que o rei praticamente diz “meu jovem, qual a necessidade disso, senta aí e vamos conversar.”

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Arquivado em Aleksandr Pushkin, Duelo, Ivan Aivazovski, Jean-Léon Gérôme, Literatura, Pintura, Rodolfo Walsh

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (02/08/2016): “Três lições que a literatura me ensinou”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu cometi uma indiscrição com a equipe de gincana estudantil que me contatou e resolvi escrever um texto mais comprido do que duas linhas sobre o que a literatura me ensinou.

Só coloquei três lições, mas evidente que foram muito mais. E só citei Pushkin, Stevenson e Pizarnik, senão a lista seria infindável.

Boa leitura!

 

Três lições que a literatura me ensinou

 

Uma das partes mais importantes de ser humano é responder perguntas. Desde que nascemos estão nos exigindo respostas: já comeste hoje? Como foi o teu dia? Tudo bem? Estão sempre querendo saber minha opinião sobre algum assunto, quando o que interessa mesmo é o abismo imenso das perguntas, essas, sim, muito mais criativas e inesperadas do que as suas respostas. Responder algo é restringir o mundo. Deveríamos fazer mais perguntas sem resposta.

Foi assim que recebi, como parte da gincana de um colégio, um questionário. A tarefa era simples: os alunos deveriam buscar um escritor para responder dez perguntas. Vale 10 pontos numa escala de 200 possíveis, ou seja, pode fazer diferença entre a vitória e a derrota, entre o clarim da glória e a tumba dilacerante do fracasso (eu já fui aluno, sei como essas questões são importantes). Pediram para que eu “fosse criativo”. As perguntas eram singelas e deram duas linhas para cada resposta; nem Hemingway seria genial com tão pouco espaço. Espero que as demais turmas participantes da gincana tenham encontrado escritores mais comedidos nas suas respostas. Aliás, tenho curiosidade em saber quais são os outros colegas escolhidos e se existirá uma espécie de competição entre os escritores pelas melhores respostas para merecer os 10 pontos. Se assim for, amigos, se preparem, pois as minhas estão estupefacientes e criativas (sim, estou fazendo pressão psicológica sobre os times inimigos – eu realmente sei da importância de uma gincana estudantil).

No entanto, uma das perguntas grudou na minha memória, talvez pela sua inesperada sabedoria ou pela sua crueldade: “o que a literatura te ensinou?”. O meu primeiro instinto foi uma declaração ferina: “ela me ensinou a não responder tal questão em míseras duas linhas!”.

Mesmo depois de saciar tal curiosidade, a pergunta continuou ressoando na recordação. O que a literatura me ensinou? Em um primeiro momento, diria sem titubear que ensinou tudo o que sei. No entanto, a função da literatura não é somente ensinar, ela também possui outras atribuições, entre as quais alertar, sonhar, reconhecer, retratar, ridicularizar. Também me ensinou nada; a literatura só faz sentido quando conjugada com a emoção ou com a reflexão. Somente ler não é vivenciar algo. É necessário ler para viver e viver para ler, as duas atividades caminham juntas.

Por me negarem o espaço merecido para uma resposta (existe sabedoria nisso também, pois eu me prolongaria ao infinito), pensei em algumas lições que a literatura trouxe para a minha vida.

 

I – Ensinou-me o verdadeiro gosto das cerejas.

 

As cerejas são frutas pequenas, vermelhas, com uma semente que ocupa o centro da sua existência e, em geral, possuem gosto rançoso e sumarento. Eu comia cerejas e assim pensava sobre elas, como todos pensam, até que Aleksandr Pushkin veio e mudou a minha visão de mundo.

O incrível é que a história começa na realidade. Pushkin, o maior escritor da Rússia, também era um homem acostumado a viver no limite das paixões, o que o levava para a cama das mulheres casadas, a criar versos e histórias repletos de vida e, às vezes, até mesmo a defender a sua honra através de duelos.

Quando tinha 23 anos, Aleksandr Pushkin envolveu-se com uma discussão com um soldado do exército, tido como um dos melhores atiradores do seu destacamento. A conclusão inevitável da discussão foi a realização de um duelo, com a dupla de homens indicando seus respectivos padrinhos. Detalhe significativo é que, na época, apesar de ser o método mais utilizado para acertar questões de honra, os duelos eram proibidos pelo czar, até para evitar perdas entre as suas tropas. Ainda assim, a honra era um assunto tão forte que os duelistas desprezavam as ordens contrárias.

Na manhã seguinte, Pushkin e seu desafeto se encontraram na beira do rio. As regras eram claras: eles tirariam na moeda quem teria o direito de dar o primeiro tiro. Em seguida, andariam dez passos em sentido contrário e se virariam; o vencedor no arremesso da moeda teria o direito ao primeiro tiro. Se o adversário sobrevivesse, teria direito então a realizar o seu disparo.

Pushkin perdeu o arremesso da moeda. O competidor, que atirava melhor, teria o direito de ser o primeiro, e ele só precisava mesmo era de uma bala. Os dois andaram em direções opostas e se viraram.

Antes mesmo de erguer a pistola, o soldado provavelmente percebeu o inesperado. Pushkin não estava com medo do tiro, não receava estar exposto e sem defesa à mira da pistola inimiga. Ao contrário: enquanto esperava o tiro do outro, ocupava-se comendo cerejas, que retirava do bolso do seu casaco, passando a devorá-las e, enfim, cuspindo as sementes.

Aquilo não era normal. Nenhum homem fica diante da morte comendo cerejas. O normal era que tivesse medo, expectativa, pavor, e não tamanha calma. O soldado concentrou-se e fez a mira. Enquanto isso, o escritor russo continuava saboreando as cerejas, provavelmente o seu último alimento em vida.

O soldado atirou. E errou. Não se sabe se estava desconcentrado ou irritado demais, o incontestável é que errou o tiro que não poderia ter falhado.

Era a vez de Pushkin. Ele limpou as mãos, pegou a sua pistola e a levantou. Mirou atentamente no outro, os dois estáticos por alguns segundos… e não disparou. Abaixou a arma e saiu do local do duelo, sem nenhuma explicação. Também não fez as pazes com o adversário.

O duelo de Oneguin e Lensky, gravura de Ilya Yefimovich Repin, 1898

O duelo de Oneguin e Lensky, gravura de Ilya Yefimovich Repin, 1898

Tempos depois, o escritor publicou um conto, “O tiro”, em que relata exatamente a mesma experiência. No entanto, ele tenta enxergar o mundo através dos olhos do seu oponente, que fica descorçoado ao ver um inimigo em um duelo manifestar tanto desprezo pela vida, comendo cerejas enquanto espera o tiro, que resolve não atirar, uma vez que o adversário “não sabe o real valor da vida, pois não tem nada a perder”. Decide suspender o duelo antes do seu tiro e cobrar esta dívida de honra somente quando o outro tiver algo a perder, o que acontece no momento em que descobre que ele casou com a mulher que amava. A partir desse momento, o personagem principal procura o inimigo para retomar o duelo interrompido anos antes, e do ponto que parou: o momento em que ele ia atirar.

A maneira com que a vida real se entrelaça com a ficção fez com que o conto se tornasse inesquecível para mim. Traço maior do grande escritor, Pushkin mostra a realidade de todos nós: só valorizamos a vida quando temos algo a perder. A morte pode caminhar por aí esperando o momento de cobrar a sua fatura, e pode acontecer quando finalmente somos felizes.

Pushkin morreu em outro duelo alguns anos depois. Nem sempre teve a mesma sorte com seus oponentes. No entanto, hoje, quando como cerejas, elas não tem mais a mesma inocência de antes. Elas tem gosto de vida, de desafio, de coragem, mas também possuem o sabor que mais identifico com a morte.

 

II – Ensinou-me a ver as maravilhas ocultas que andam por aí.

 

Robert Louis Stevenson era um bom cara. Não é uma constatação minha, mas de todo mundo que teve a sorte de encontrá-lo. Até mesmo Henry James, um homem naturalmente frio , rendeu-se ao charme luminoso de Stevenson. Dizem que as histórias do escritor escocês faziam James chorar de tanto rir, e acho mais fácil acreditar em unicórnios esvoaçantes do que em tal cena.

Estou lendo “Viagens com um burro pelas Cevenas”, o segundo livro de Stevenson. Também parte de uma experiência real: durante doze dias de setembro de 1878, o escritor pegou uma burra e foi passear pela cadeia das Cevenas, localizada no sul da França. A sua burra – Modestine – é temperamental e instável, e Stevenson acaba tornando-se escravo das vontades dela, que empaca do nada e decide seus próprios percursos, e as brigas do homem com o seu meio de locomoção são hilárias por si só.

Stevenson pegou essa viagem em que deu tudo errado e transformou em um livro delicioso. Ao invés de reclamar ou de desabafar das suas agruras, ele abandonou-se à experiência de ser guiado por uma força da natureza, por alguém que não conseguia controlar, e descobriu ruínas perdidas, pessoas com histórias espantosas, vilas fora do ordinário, cenários que nunca teria visto se tivesse ficado no trajeto de sempre. Stevenson cedeu ao maravilhamento que só vem de perder o controle de si mesmo. Lendo a sua obra, percebo que a verdadeira maravilha é olhar o mundo com os olhos de quem acabou de nascer.

Stevenson e Modestine

Stevenson e Modestine

A sua filosofia de vida era mais profunda do que descobrir as maravilhas que andam por aí. Stevenson acreditava que o segredo para viver bem era abraçar o fracasso, conforme o sermão que ele preparou para a sua família no Natal de 1888, uma série de postulados para se atingir a felicidade na existência:

“Ser honesto, ser amável – ganhar um pouco e gastar um pouco menos, em geral tornar uma família mais alegre com sua presença, renunciar-se, se preciso, e não se sentir amargurado, ter poucos amigos mas estes sem se renderem jamais – sobretudo, com essa condição severa, ser amigo de si mesmo -, eis uma empresa que requer toda a força e delicadeza que um homem possa ter. Possui uma alma ambiciosa quem pedir mais, e um espírito otimista quem espera que tal empresa seja bem-sucedida. Há na sorte humana, sem dúvida nenhuma, um elemento que nem sequer a cegueira pode controverter: seja qual for a nossa tarefa, não estamos destinados ao sucesso. Nosso destino é o fracasso. É assim em toda arte e em todo estudo; é assim, sobretudo, na comedida arte de viver bem.”

Stevenson passou a vida toda vendo maravilhas ao seu redor enquanto era destruído pela tuberculose. É sintomático que um homem consiga ver graça e beleza no mundo enquanto está sendo devorado aos poucos pela doença. Nos seus últimos anos de vida, comprou um terreno em uma das Ilhas Samoa, na Nova Guiné, e dedicou-se a mais difícil das tarefas: relacionar-se com os vizinhos e com as suas guerras eternas. Até nisto Stevenson mostrou ser um bom cara, pois, em pouco tempo, tribos rivais estavam lhe ajudando com as plantações no terreno. Ele trocava essas gentilezas por literatura: todos os dias, ao final da tarde, Stevenson sentava próximo da fogueira e contava histórias para os adultos e para as crianças. Uma atrás da outra, sem parar, sempre rindo e se encantando com a dança das fagulhas no céu repleto de noite das ilhas Samoa.

 

3. Ensinou-me sobre a importância de ser metódico:

 

Estive lendo os “Diários”, da escritora argentina Alejandra Pizarnik. É um livro impactante. Comprei alguns anos atrás, quando estava no Uruguai. Uma série de coincidências me levou a isso: a camareira do hotel em que estava em Montevidéu, ao me enxergar lendo na recepção, disse com orgulho que quem não leu Alejandra Pizarnik ainda não aprendeu a ler. Dias depois, em uma livraria, estava com um livro de poemas dela na mão quando a atendente me sugeriu que eu trocasse pelo seu “Diários”, que era melhor. Ambas as mulheres tinham razão, e essa é outra das magias da literatura: o livro sempre chega ao seu leitor.

Alejandra era uma mulher metódica. Registrava seus sonhos e pesadelos em um diário, que mantinha sempre ao alcance da mão. Também fazia pequenos exercícios estilísticos. Na introdução, o editor descreve o método utilizado pela poeta para escrever: ela tinha um quadro negro. Colocava cada um dos versos e meditava longamente a respeito dele. Depois que escrevia tudo, Alejandra trabalhava o ritmo, a sonoridade, as palavras, sempre em busca da perfeição estilística. Podia passar semanas debruçada sobre um único poema, apagando e reescrevendo versos no quadro negro, até o momento em que cedia ao cansaço e encerrava o poema. Os verdadeiros poemas não são feitos de palavras, mas da exaustão dos seus autores.

A mulher não gostava de sair do seu quarto. Era tímida e fechada, não ambicionava o contato com outros seres humanos. Com o passar dos anos, o Diário que começou como uma forma de descarrego dos seus pensamentos mais secretos virou um amigo caloroso com quem Alejandra conversava. Às vezes, nossos melhores amigos não possuem pele e carne, mas só a vontade de nos escutar.

Alejandra Pizarnik

Alejandra Pizarnik

As frases curtas do Diário são mais apontamentos e lembretes do que literatura, mas ela está ali, sempre à espreita. No dia 07 de dezembro de 1952 (todas as traduções são minhas): “Eu quero morrer. Estou com medo de voltar ao passado. Eu penso em uma mulher da minha idade um século atrás. O que ela fazia quando estava angustiada?”. Ou então 18 de dezembro de 1960: “Noite crucial. Noite em sua noite. Minha noite. Minha importância. Eu mesma. A asfixiada ama a ausência de ar. Memórias de uma náufraga. Sonho de uma náufraga. O que pode sonhar uma náufraga senão que acaricia as areias da praia.” Ou o extraordinário desconforto do dia 05 de janeiro de 1961: “O horror de habitar-me, o estranho de ser minha própria convidada, meu fugaz, meu lugar de exílio.”

No dia 28 de setembro de 1962, um desejo de se proteger: “Escrever um livro em prosa, ao invés de poesia ou fragmentos. Fazer um livro ou uma habitação em que possa me abrigar.” Não foi suficiente, pois, em 25 de setembro de 1972, Alejandra Pizarnik se matou. A vida foi pesada demais para ela; os livros e as poesias já não lhe davam guarida.

Nas primeiras linhas do Diário, impregnada de alegria quase solar, Alejandra declara: “Morrer! Claro que não quero morrer! Porém, devo fazê-lo.” Quinze anos depois dessa esperança, é arrepiante ver, escrito no dia 30 de outubro de 1962, ao final de uma singela descrição do dia, a seguinte frase: “não esquecer de suicidar-se”. É importante ter método até na hora de fechar a porta e abandonar a casa.

 

Três lições sobre a vida, e as três saíram da literatura. Muitas outras possibilidades acabam surgindo dos livros, e se existe alguma coisa que as cerejas de Pushkin, o burro de Cervantes ou os pesadelos de Pizarnik trouxeram para a minha vida foram novas – e mais intensas – maneiras de ver o mundo. Mas explicar isso em duas linhas é impossível, então peço desculpas à minha equipe da gincana  – já viraram minha equipe – para revelar a resposta que dei para o que o a literatura me ensinou: ensinou-me a ser eu, nos defeitos e nas qualidades.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/tr%C3%AAs-li%C3%A7%C3%B5es-que-a-literatura-me-ensinou-e4a1fd7148c8#.j3utcvaqu

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