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Texto publicado no Literatortura (31/03/2016): “Quantas Capelas Sistinas destruímos por dia?”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura, falei de um assunto que me desperta constante fascinação: como as pessoas falam coisas e não sabem direito o que estão dizendo. Lutar com palavras é a luta mais vã, dizia Drummond, e Neil Gaiman acrescenta que palavras possuem poder, mas, ainda assim, as pessoas insistem em usar palavras cujo alcance completo são incapazes de entender. Uma palavra mal usada é tão perversa quanto uma faca.

Boa leitura!

Quantas Capelas Sistinas destruímos por dia?

Se tivéssemos a capacidade de colocar problemas na mira de um microscópio de altíssima resolução, como cientistas, e fossemos capazes de ver o que se esconde na raiz das nossas aflições, provavelmente nos decepcionaríamos ao ver o quanto as preocupações possuem origens mínimas. Aquilo que vemos hoje como um elefante de guerra da época de Aníbal pode não passar de um minúsculo rato que, por jogo de sombras e espelhos, tornou-se muito maior do que a realidade.

Na base de todos os nossos problemas sociais – a violência, a corrupção, o descaso com os outros e a ignorância – encontra-se uma circunstância ínfima, e é incrível que possa crescer até virar uma avalanche: falamos palavras que não entendemos direito. Pior ainda, somos capazes de discursar por horas e preenchermos livros inteiros sem saber direito o que estamos fazendo. Sofremos de um grave problema conceitual.

Antes de mais nada, observem o pronome pessoal que utilizo: “nós”. Eu estou incluído entre estas pessoas. Não tenho certeza de que possuo algum tipo de razão, nem mesmo quando escrevo estas palavras. Duas semanas atrás, alguém me comentou que achava um gesto de extrema coragem escrever e tornar públicas as minhas palavras, ao que acrescentei “não é coragem, é loucura”. Olhem ao redor: o mundo está cheio de gente escrevendo. Alguns possuem maior habilidade, outros não, mas o fato é que passamos boa parte do dia escrevendo, lendo e transformando pensamentos em imagens, palavras, sons. Neste contexto, sou somente mais uma pessoa cheia de palavras a escorrer em telas de computador e papéis. O que talvez me diferencie são meus constantes questionamentos. Parto do princípio não de estar sempre correto quando escrevo, mas de errar o mínimo possível. Sou como o enxadrista sábio: não busco a vitória, mas tenho como objetivo não perder a partida.

Esta dificuldade conceitual está em todos os lugares, só não somos capazes de enxergar. Espalha-se por todos os cantos, e é algo tão insidioso que, quando vemos, já aconteceu e é tarde demais para voltar atrás.

Nesta semana, li o necrológio que a revista VEJA fez sobre o jogador de futebol Johann Cruyff. No início do texto, o repórter traça um paralelo entre a habilidade de Cruyff e o momento em que Picasso inaugurou o cubismo ao desmontar corpos femininos em Les Demoiselles d’Avignon. Não suficiente, disse que a inovação trazida pelo jogador holandês para o futebol foi como o momento em que Bob Dylan pegou a guitarra elétrica para tocar Like a Rolling Stone, rompendo com o folk e começando novos caminhos para a música. As duas comparações foram feitas com o intuito de demonstrar que Cruyff foi um jogador tão genial que elevou o futebol à categoria de arte.

Não. Lamento informar, mas futebol não é arte. Na realidade, é um esporte e, como muitos esportes, às vezes o seu ideal de perfeição o aproxima da noção de arte, da impressão de que aquilo está além dos limites humanos. Importante lembrar que os gregos antigos costumavam ir aos estádios e centros de treinamento para ver corpos se exercitando, e muito dos ideais estéticos que possuímos hoje nasceu dos esportes. No entanto, por mais incrível jogador que tenha sido, Johann Cruyff foi um esportista, e não um artista.

Pode parecer uma discussão pequena, mas esconde uma série de questões relevantes. Se considerarmos que o futebol é algo em que determinados futebolistas podem se transformar em artistas, por que não alcançamos o mesmo direito aos demais esportes? Ao atletismo, à natação, ao levantamento de peso? Em pensando assim, o número de artistas cresceria velozmente ao redor do mundo. A propósito, quais seriam os critérios capazes de definir o que é um bom esportista e diferenciá-lo de um artista? Concordo que o futebol pode ser usado como instrumento de arte, que o digam os textos de Nelson Rodrigues, mas não como arte em si mesma.

Podemos ir além: por qual motivo circunscreveríamos ao esporte a possibilidade de alguém virar um artista? Um professor, um advogado, um engenheiro, qualquer pessoa é capaz de ser um artista na sua área de atuação. Pensando assim, a palavra “artista” e a sua origem, “arte”, tornar-se-iam usuais, sendo usadas de maneira tão indiferente que, não raro, seriam aplicadas para qualquer pessoa que fizesse uma atitude correta. “Fulano é um artista, pois hoje correu e pegou o ônibus”. Eis o risco de vulgarizar as ideias e desconhecer o conceito das palavras: em um mundo onde qualquer pessoa é artista, ninguém mais é artista de verdade.

Usei o exemplo do futebol, pois está recheado de metáforas e de analogias inflamadas. No seu afã de elogiar – e de conduzir o louvor ao paroxismo -, os repórteres usam palavras a rodo, gerando expectativas injustas sobre determinados esportistas. Em alguns momentos, aproximam a experiência de uma simples partida de futebol a algo que está além do bem do mal, a uma experiência semi-religiosa em que Deus vem à Terra para ser adorado enquanto marca gols e dribla zagueiros,  à contenda entre dois exércitos selvagens (não estranho o clima belicoso que cerca as partidas de futebol atual, pois o discurso usado ao redor delas é de extrema violência). Se usarmos palavras, podemos mudar o mundo. No entanto, se usarmos palavras a esmo e sem atentar para a sua verdadeira noção, podemos acabar com a Humanidade em não mais do que dois ou três discursos desastrados.

Eu tinha falado sobre o meu desgosto com as pessoas que atualmente usam as palavras “heroi”, para quem faz qualquer coisa certa, e “genial”, para quem atinge a excelência em uma tarefa que realizou. Se vamos para conceituação clássica, “herois” são pessoas muito maiores do que quem agiu de forma correta. O verdadeiro heroi é aquele homem ou mulher que, mais do que acertar, também consegue se recuperar dos seus erros. Ele é um somatório de atitudes certas e erradas. Aquiles foi um herói, mas era um psicopata. Heitor era um heroi, mas igualmente uma vítima da sua criação militar. Ulisses fez dezenas de burradas no seu caminho para Ítaca, e é um heroi, não pelo tanto que acertou, mas pela habilidade de conviver com os próprios erros.

Da mesma forma, dizer que Fulano é “genial” tira toda a força da palavra. As pessoas “geniais” são aquelas tão inovadoras e espantosas que não possuem mais classificação possível que os distinga do resto do gênero humano. Não sei se a Humanidade conheceu até hoje 10 ou 12 pessoas geniais, e alcançar tal adjetivo para qualquer um, longe de elogiá-lo, é fazer uma ironia bem perversa. Leonardo da Vinci foi uma pessoa genial, cuja vida e obra ainda repercutem no nosso mundo. Assim, chamar um domador de cavalos qualquer de “genial” é como compará-lo a Leonardo da Vinci, e isto é quase uma ofensa pelo exagero despropositado.

A utilização errada das palavras – ou com propósitos mal intencionados –  me faz lembrar do mais virulento crítico de Michelangelo. Pietro Aretino era um nobre da região de Arezzo que foi expulso de Roma e se instalou em Veneza, onde era sustentado pelos ricos. Ele se jactava de ser o maior crítico de arte que já existiu, além de poeta. Fazia jornalismo panfletário, no qual comentava obras de arte de forma espirituosa e cáustica. Dava a si mesmo o título de “Secretário do Universo” e de “Flagelo dos Príncipes”, demonstrando bem o medo que os poderosos tinham dos seus comentários. Foi amigo de Ticiano, de Rafael e de Jacopo Sansovino, de Vasari e de Salviati, além de ser conselheiro de jovens artistas que buscavam a sua proteção para iniciar no mundo das artes.

"Pietro Aretino", por Ticiano

“Pietro Aretino”, por Ticiano

Até o momento em que soube de Michelangelo pintando o teto da Capela Sistina. Detalhe interessante é que, por ter sido expulso de Roma, Aretino nunca vira o trabalho de Michelangelo, mas somente ouvira opiniões, entre as quais a de Vasari, que lhe enviara uma carta em que chamou o artista de “o Deus próprio da escultura”. Observem o exagero das palavras e da comparação fascinada de Vasari, em geral um homem comedido.

Tudo o que o crítico conseguiu pensar é em si mesmo: no quanto o seu nome estaria inscrito para sempre na História da Arte se as suas ideias servissem de inspiração para Michelangelo. Estava enciumado da atenção que Michelangelo recebia dos outros artistas por conta de uma pintura que jamais poderia enxergar em razão do seu exílio; neste momento, Ticiano já visitara a Capela Sistina e dissera que o colega não só era o maior artista vivo, como deveria servir de paradigma para todos os pintores e poetas que lhe sucederiam.

Por este motivo, em um gesto ousado, Aretino tentou colocar a sua assinatura invisível na obra que não lhe pertencia. Mandou uma longa correspondência, intitulada “Carta ao divino Michelangelo”, com o propósito manifesto de louvar o artista e tentar seduzi-lo através da vaidade. No meio da carta, colocou a sua visão do final dos tempos – o “Juízo Final” – e sugeriu, de forma discreta, que Michelangelo devia adotá-la como modelo para a sua pintura. Em determinados momentos, falou sobre o poder das suas críticas de arte e o quanto ele é temido, deixando sempre um leve tom ameaçador para que Michelangelo saiba o que poderia acontecer se não seguisse as suas ideias. Ao final, o crítico sugeriu uma série de imagens que podiam ser adotadas na obra ainda em fase de realização, bem como as alegorias que deveriam aparecer na imagem. Concluiu dizendo que eram somente sugestões, mas Michelangelo não devia descartá-las, pela óbvia experiência de Pietro Aretino no assunto artístico. Em suma: pretendeu ensinar para Michelangelo o que era arte de verdade.

Dois meses depois, em novembro de 1537, o pintor toscano respondeu a carta. De forma que podemos entender como irônica, Michelangelo lamentou que a carta original tenha chegado depois da conclusão do “Juízo Final”. Em uma estocada deliciosa, diz que, se Deus fosse começar o Juízo Final naquele dia mesmo, com certeza iria se inspirar nas palavras e imagens idealizadas por Aretino, tão perfeita a descrição. Se é para puxar o saco, Michelangelo faria com classe.

Contudo, o artista cometeu um erro, pois prometeu fazer qualquer coisa para agradar ao crítico, o qual, em carta imediatamente enviada como resposta, pediu de presente um desenho qualquer, até um rascunho, qualquer papelzinho mínimo contendo uma imagem e que Michelangelo pretendesse jogar no fogo.

O pintor nunca respondeu – ele tinha o teto inteiro da capela Sistina para se ocupar – e isto atraiu a animosidade de Pietro Aretino. A mesma paixão e subserviência antes demonstrada na carta metamorfoseou-se em ódio. Foi assim que, em 1545, oito anos depois, aproveitando-se das discussões religiosas na Europa, Aretino fez um texto atacando frontalmente o “Juízo Final” exposto no teto da Capela Sistina, argumentando que eram pinturas imorais por conter nus, ou seja, tais imagens jamais poderiam fazer parte de uma igreja.

A campanha de Aretino foi forte, e tinha um único objetivo: se Michelangelo não seguira as suas ideias sobre o “Juízo Final”, a obra inteira deveria ser destruída. Os adjetivos outrora usados na carta – divino, magnífico, magistral, genial – foram substituídos por outros menos nobres – torpe, insignificante, vulgar, trabalho infeliz. Afirma que o teto da Capela Sistina inteiro é uma obra derivada de um homem “impiedoso” (Michelangelo não professava a fé católica como se esperava), além de ser licenciosa e possuir total falta de decoro. Continua afirmando que Michelangelo era um artista excelente, mas aquela pintura deveria ser destruída pelo bem da religião católica.

Apesar de todo o veneno destilado por Pietro Aretino, a obra sobreviveu à campanha difamatória e, se conseguimos hoje enxergá-la e nos admirar com o gênio de Michelangelo, foi por que as palavras insensatas dirigidas contra o afresco não foram levadas em consideração. Entretanto, existiram anos a convicção artística da Igreja Católica balançou, e não foram poucos os momentos em que a obra de Michelangelo correu risco de ser destruída por “fogo amigo” de religiosos, e as palavras de Aretino voltaram à tona, e em todas as ocasiões a pintura conseguiu sobreviver, mas sempre em uma luta ingrata contra a inveja do homem outrora preterido.

"O Juízo Final", de Michelangelo

“O Juízo Final”, de Michelangelo

Sobre este episódio que envolveu um crítico de arte e um dos mais completos artistas que já existiu, fica uma dolorosa lição. Quantas vezes não usamos as palavras de forma criminosa, tentando demolir os outros, sem atentar para a força das nossas opiniões? Um elogio falso pode esconder a vontade nada disfarçada de subjugar o outro; quando não pensamos no alcance real das palavras que dizemos, podemos não estar ajudando, mas atrapalhando. Recordo ainda o caso de uma amiga que colocava várias fotos na internet, sendo sempre elogiada pela sua beleza, até o dia em que um rapaz a recusou por achá-la feia e ela nunca mais se recuperou. Quem foi pior, o rapaz que disse o que pensava ou as pessoas que lhe inflaram o ego com elogios vazios? Sempre fiquei em dúvida.

Por pouco Aretino não destruiu a Capela Sistina com as suas opiniões repletas de vaidade e orgulho (vale lembrar que, por muitos anos, as partes consideradas “obscenas” da obra de Michelangelo foram tapadas para não ferir susceptibilidades religiosas). Podemos destruir várias capelas Sistinas por dia se não atentarmos para as palavras que usamos sobre aquilo que sentimos. Se está com vontade de dizer “eu te amo”, diga sentindo de verdade ou então não diga, pois mentir sobre isto é imperdoável. Se pretende dizer “eu te odeio”, que não seja por um motivo pueril como política ou futebol, mas diga com vontade de odiar e por questões intransponíveis. Se tiver a intenção de chamar alguém de “amigo”, reserve estas palavras para os verdadeiros amigos, não para pessoas que sequer conhece.

No momento em que usamos palavras cujo sentido foi esvaziado, podemos estar destruindo as aspirações de alguém. Ao chamarmos de “heroi” uma pessoa que não entra na ideia de heroísmo, de “artista” alguém que não faz arte ou de “genial” quem teve um único lance de sorte ou de habilidade, estamos não elogiando, mas criando uma bolha conceitual que pode explodir a qualquer momento – e até se virar contra nós. Coloquemo-nos dentro de um microscópio e perceberemos que grande parte dos nossos problemas e preocupações poderão ser evitados se simplesmente falarmos as palavras certas ao invés de criarmos ilusões discursivas.

Texto originalmente publicado em http://literatortura.com/2016/03/quantas-capelas-sistinas-destruimos-por-dia/

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As palavras cansadas

* imagem de Hussein Zare

* fotografia de Hussein Zare

“Cansei de falar e de avisar ele, doutor. Sabe como é, as palavras também se cansam.”

Não, eu não sei como é. A cliente vai embora e me deixa com este problema: palavras se rendem ao desespero? Elas desistem de ter sentido e se tornam uma massa amorfa de sons ou sinais? Palavras cansam de ter esperança?

Sempre acreditei na força das palavras. Acredito que o mundo só pode mudar através delas. Acredito que uma palavra sempre tem algo a dizer, mesmo quando não queira dizer nada. Acredito que as guerras nascem por causa da sua capacidade de erigir fogueiras nas consciências humanas. Acredito que sentimentos iniciam e acabam com palavras. Acredito que, antes de tudo, veio o Verbo, e somente através dele o mundo conseguiu se articular.

Ainda assim, entendo que as palavras possam cansar. Todos os dias elas são vergastadas e abusadas em praça pública. O mundo inteiro fala demais e ao mesmo tempo. Ninguém procura a palavra exata, aquela que diz tudo sobre uma situação, acreditando que a enxurrada insana de termos acabará passando a ideia. Basta ler os textos que trafegam pelo nosso dia a dia ou prestar atenção na conversa das pessoas que ficará nítido que são utilizadas muitas palavras para passar uma ideia simples.

Para Gustave Flaubert, o ideal de qualquer escritor era buscar “le mot juste” (a palavra justa). A expressão exata que fecha com o pensamento. A palavra que precisa estar ali a qualquer custo e não pode ser substituída sem a perda irreparável do que deseja transmitir. Pena que, nos tempos atuais, as pessoas não procuram mais as palavras exatas, e sim buscam se comunicar bastante e com um certo frenesi. Somos criaturas cheias de palavras, se derramando impunentemente por aí.

Não surpreende que as palavras estejam cansadas. Elas não têm a mesma força que possuíam décadas atrás. Foram vulgarizadas até o extremo.  Procuram a ajuda de outros idiomas para se manterem respirando. Caminham pelas ruas e pelas casas atrás daqueles poucos que respeitarão a sua força, que tirarão o máximo de sentido da sua extensão e do seu som, que lhe darão novo oxigênio. Que lhe ressucitarão do mundo das palavras desperdiçadas.

A poesia é o último refúgio da palavra. Somente poetas sabem o valor que elas possuem, a capacidade de abrir portais no meio do deserto, a habilidade que mescla som e substância. Como neste poema da Alfonsina Storni, que trata exatamente da capacidade das palavras de cortarem as estrelas:

Dos palabras

Esta noche al oído me has dicho dos palabras
Comunes. Dos palabras cansadas
De ser dichas. Palabras
Que de viejas son nuevas.

Dos palabras tan dulces que la luna que andaba
Filtrando entre las ramas
Se detuvo en mi boca. Tan dulces dos palabras
Que una hormiga pasea por mi cuello y no intento
Moverme para echarla.

Tan dulces dos palabras
—Que digo sin quererlo— ¡oh, qué bella, la vida!—
Tan dulces y tan mansas
Que aceites olorosos sobre el cuerpo derraman.

Tan dulces y tan bellas
Que nerviosos, mis dedos,
Se mueven hacia el cielo imitando tijeras.
Oh, mis dedos quisieran
Cortar estrellas.”

Enquanto existirem poetas, as palavras nunca cansarão de sorrir.

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Elogio (tardio) à poeta desconhecida

Enquanto as palavras voltam lentamente, como ovelhas assustadas pelo rasgar destruidor de um trovão, eu espero o seu retorno com a paciência de um pastor que, em meio à escuridão do mundo, só pode rezar para que elas saibam o caminho de casa. Acabo me ocupando com tarefas correlatas, como escanear as pilhas de material inédito que possuo e, assim, ganhar espaço . E redescubro dezenas de fatos do passado, alguns que eu preferia esquecer, outros que dá um certo orgulho em retomar. Também encontro uma quantidade significativa de fichas de RPG, esboços de campanhas, contos e livros iniciados e nunca acabados e, em especial, uma nada desprezível quantidade de textos bons, quase todos anteriores às oficinas literárias. Não ficarei no passado, este material é somente para consumo e estudo interno, mas está sendo interessante encontrar um outro Gustavo que eu imaginava perdido entre as caixas.

Mas também achei mistério. No caderno de Língua Portuguesa da 08a série, um pequeno envelope que nunca abri, provavelmente por que não o encontrei. Preso entre as folhas, está um envelope amarelo, com nenhuma indicação de quem o deixou entre os meus pertences. Dentro do envelope, um papel preto e, escrito com caneta cinza, o poema. Irei transcrevê-lo:

Tempestade

Descansas tranquilo

Imponente

Eterno enigma

E não me vês

Ao longe

À espreita

Observando.

Enfim o momento

Um sopro

Tensão

Apenas um raio

E te encontro.

Para o meu oceano

Com amor.

Tentei escanear de todos os jeitos para colocar aqui no blog, mas a escolha do material impossibilita esta tarefa: mal é possível ler as palavras. Acredito que a tinta da caneta cinza era mais luminosa na época em que ele foi escrito, mas, passados 22 anos desde a oitava série do primeiro grau, o cinza ficou esmaecido. Mais alguns anos e provavelmente não será mais visto, engolfado pelo preto que lhe cerca. Não deixa de ser inteligente um poema capaz de se consumir no abismo da sua própria forma.

A poesia perde o poeta, mas não perde o momento.

A poesia perde o poeta, mas não perde o momento.

Evito a curiosidade de saber quem foi a sua autora, ou o seu autor, se era minha colega ou não. Não adiantaria de nada, seria a típica curiosidade inútil. Nada da minha vida ou das minhas escolhas mudaria com este conhecimento. Provavelmente quem o escreveu – assim como eu – seguiu com a sua vida, realizou ou não o seu destino, possui uma circunstância de vida que a descoberta tardia deste poema pode acabar embaraçando. É um ato de piedade que ele continue sendo o que ainda é: uma poesia feita em um certa época da vida que foi descoberta em outra. E nada mais.

O que realmente me impressiona é a qualidade do poema, a beleza do seu formato singelo, quase um haikai. Não existem palavras descartáveis. As imagens são adequadas, exatas. A forma é quase agressiva de tão sintética. Cada verso é usado com a máxima força de significação, como se fosse uma facada. A poesia não sai da forma derramada com que éramos acostumados a escrever; a pessoa que o redigiu tinha suficiente domínio formal para escapar da tentação das imagens simples. Não só isso, a poesia tem um duplo significado: ao mesmo tempo em que se refere a um homem, ela também pode tratar do oceano. O raio não pode amar o oceano onde se despeja de forma carinhosa, o trovão não pode ser um grito para chamar a atenção das águas amadas e indiferentes?

Não me recordo de ter conhecido no colégio alguma pessoa que tivesse tamanha capacidade poética. Seja lá quem fosse, era suficientemente discreta para manter esta habilidade em segredo. Ou talvez eu estivesse cego pelas circunstâncias ou meus sensores não estivessem tão calibrados: a oitava série foi um período de especial turbulência (quem estava lá sabe exatamente do que estou falando), e as lutas foram tão intensas e cobraram preços tão altos que não é impossível que a realidade estivesse diante dos meus olhos e eu nem suspeitasse.

Mas também existe uma outra possibilidade, e é para esta que rendo o meu elogio. Talvez a poesia tenha surgido como um gêiser no meio do coração de alguém que não soubesse lidar com ela. Talvez a inconformidade, a indiferença e a minha cegueira tenham contribuído para alguém usar palavras para tentar me atingir e quebrar a resistência. Em um gesto de desespero, usando palavras como se fossem pedras, alguém tentou abrir meus olhos. E o plano acabou falhando, pois não descobri a poesia. E a pessoa pensa que eu a li e a descartei, talvez arrependendo-se do impulso que a levou a escrever.

No passado, os poetas se diziam bafejados pelas Musas. A inspiração divina era a regra. Sempre fui um descrente desta possibilidade. Sou mais prático e sigo a proporção clássica: um texto é 10% inspiração e 90% transpiração. No entanto, ao descobrir esta espantosa poesia, sinto um certo desconforto ao concluir que qualquer pessoa pode descobrir o veio de ouro do bom texto. Basta ser colocado em circunstâncias anormais de pressão e de necessidade de comunicar um sentimento que a poesia pura e forte pode aflorar. Este é objetivo principal da poesia: usar o eu do poeta para atingir o eu do leitor, fazer o sentimento sair de uma pessoa e invadir a outra. Questiono o meu convencimento: boa literatura pode sair da inspiração, pode lograr a transpiração e apresentar-se tão imaculada como no dia em que foi concebida.

Outra característica que identifico com a boa poesia é a sua possibilidade de ser metapoética. Em um momento de vida que luto com o sumiço das necessárias palavras, é consolador imaginar que elas podem estar nas nuvens sombrias do horizonte, ansiosas para voltar a me encontrar, observando o meu esforço de aproximação, mas sabendo que precisam dar um tempo de silêncio para voltar a falarem com o meu espírito.

Não sei quem foi a pessoa que escreveu a poesia. Seja lá quem for, saiba que foi um excelente trabalho. Apesar dos 22 anos que levei para receber a mensagem, saiba que ela chegou na hora exata não para mudar a minha vida, mas para mostrar que as Musas possuem desígnios e artíficios que não cabem aos humanos questionar.

Um sopro debaixo de nuvens tempestuosas também é esperança. Às vezes, alguns oceanos correm na direção dos raios.

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Santa Maria e o desaparecimento das palavras

Depois da última postagem no blog, hoje eu queria escrever sobre assuntos alegres. Talvez contar as minhas impressões sobre um filme ou sobre algum seriado (estou com vários débitos). Ou falar de literatura. Ou abordar outro assunto. Qualquer um.

Mas a realidade acabou comigo. No dia 26 de janeiro de 2013, um incêndio matou mais de 200 jovens na boate KISS em Santa Maria, RS. E eu, que não costumo ficar sensibilizado com tragédias, considerando-as como parte deste ônus de estar vivo e ser parte de uma Humanidade que se retorce por todos os lugares – por conseguinte, um mundo onde tragédias são inevitáveis, pois como podemos deslizar sem nos bater de vez em quando? – subitamente me vi desprovido de palavras. Elas desapareceram. Todas. Ao mesmo tempo.

Junto com o sumiço das palavras, também veio a pergunta inevitável: do que elas valem em um mundo cheio de desgraças? Um texto meu impedirá uma tragédia? Um conto pode salvar uma vida? Para que escrever se tudo é loucura e desespero, desilusão e abismo? Nenhuma palavra é capaz de dar conta da dor. Não existe nada que uma palavra possa fazer para acalmar alguém, para apagar o passado, para salvar de uma recordação. Palavras são inúteis. E ridículas. Vivemos uma ilusão de que elas podem fazer tudo e, na realidade, é no silêncio que a verdade se manifesta, mostrando a nossa fragilidade e a nossa empáfia. Somos poeira que fala, e só isto. Pretensões cheias de justificativas e desculpas.

Em algum lugar da escuridão do deserto, palavras se escondem.

Em algum lugar da escuridão do deserto, palavras se escondem.

Menos mal que não fui o único a experimentar o silêncio interno e a sensação de que as palavras eram insuficientes e inúteis. A Carol Bensimon também passou por esta experiência e relatou em um texto, que também considero um retorno pesaado à vida inocente que nos foi roubada: http://www.blogdacompanhia.com.br/2013/01/no-final-de-um-corredor-sonolento/

Com o passar dos dias, as palavras estão voltando. Receosas, titubeantes, um pouco desconfiadas, mas pedindo para voltarem ao mundo. Ao contrário dos mortos de Santa Maria, nós continuamos. E persistimos com somente a palavra para espalhar a sua memória e dor pelo mundo. Não temos onde nos refugiar. Somos criaturas cheias de palavras. Gostemos ou não, precisamos gritar para todo mundo aquilo que também não sabemos expressar direito.

Mas não se preocupem: não vou desonrar a memória dos mortos com insuficientes palavras, com declarações de impacto, com a pretensão de efeitos estilísticos. Tudo seria em vão. E estranhamente vazio neste mundo em que, de repente, todo mundo se descobriu poeta e com vontade de fazer declarações constrangedoras sobre o indescritível. Poucas horas após a tragédia começar a se desenhar, dezenas de textos passaram a assolar a internet, cada um tentando ser mais criativo, mais original, mais compungido do que o outro. Todos insuficientes. Não há palavras. Simplesmente não há.

Os antigos tinha suas maneiras de lidar com a dor. Depois da batalha de Salamina, em que perdeu grande parte do seu prodigioso exército, o imperador Xerxes mandou chicotear o mar, culpando-o pela sua desgraça. Ele precisava extravasar a sua raiva pela morte inútil do seu exército, precisava expiar a culpa que lhe corroía como um verme traiçoeiro. Culpou o mar e, como se fazia a um escravo desobediente, mandou açoitá-lo.

Contam que, após perder três legiões romanas na Batalha da Floresta de Teutoburgo, o imperador Augusto passou várias noites insone, com pesadelos que lhe atormentavam. Seus criados relataram que, por algumas semanas, ele foi visto caminhando pelos corredores do palácio, gritando “Quintili Vare, legiones redde!” (‘Quintilius Varus, devolva minhas legiões!’) enquanto batia a cabeça nas paredes. Ele precisava pedir desculpas para as dezenas de vidas que mandou para a morte, ele precisava do perdão.

São duas formas de lidar com o luto. Podem parecer estúpidas diante dos nossos olhos pós modernos, mas demonstram a angústia de quem viu uma tragédia se desenhar e não sabe como sobreviver a ela da mesma forma. E tudo ficou diferente. Estamos mais desconfiados. Estamos mais tristes. As palavras voltaram, mas perderam um pouco da inocência. Elas também se tornaram mortais. Lembro da triste lição do Padre Antônio Vieira sobre a nossa efemeridade: “A vida é uma lâmpada acesa; vidro e fogo. Vidro, que com um assopro se faz; fogo, que com um assopro se apaga.” Ele também dizia que a vida não é nada, uma poeira no Universo. Talvez realmente não seja nada. Mas, se assim for, por que dói tanto?

E tudo que eu gostaria era de bater a cabeça em uma parede e suplicar para que me devolvam as 235 vidas que o incêndio apagou do mundo. Ou que existisse um mar que eu pudesse chicotear. Mas até isto a modernidade roubou: o direito de fazer uma atitude insensata para pedir o impossível.

Continuarei perseguindo as escorreitas palavras. Tudo está igual, tudo está diferente.

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A palavra como adaga

Em uma das ocasionais conversas que a profissão me força a ter com outras pessoas, certa vez deparei-me com um homem pérfido. Não é estranho que um advogado encontre pessoas malvadas na sua rotina, mas, até aquela data, eu nunca tinha encontrado um homem capaz de ser maléfico e destrutivo usando somente a palavra como cunha para destruir a auto-estima das outras pessoas.

Ao me relatar um acidente de trânsito em que teria se envolvido (e pelo qual era responsável), o homem deparou-se com uma mulher que saiu do carro atingido, furibunda, despejando-lhe uma torrente de palavrões e xingões. Segundo ele, esperou o momento certo para o contra ataque. Quando a mulher baixou a guarda, ele abriu a porta do carro e a apunhalou com uma única palavra: “gorda”.

Assim que contou esta história, desatou a rir. Confesso que não entendi o motivo da sua felicidade e perguntei se considerava a palavra “gorda”  mais ofensiva do que os inúmeros palavrões que insultavam a sua mãe, os seus filhos, as suas capacidades sexuais, a honra de sua esposa. E ele disse que “gorda” era o xingão exato para uma mulher, pois ela não tem como responder. Não tem como dizer “mas eu sou magra!”, pois isso implica em um juízo de valor particular. Além disso, toda mulher pensa estar acima do peso, ou seja, quando ele a chamou de “gorda”, transformou o seu pior receio em realidade e, não só isso, em algo visível para todo mundo, inclusive um desconhecido. Por fim, como o homem fez questão de salientar, este é o típico xingão que crava no espírito da mulher e a sangra progressivamente: ela não conseguirá dormir direito, pensando na palavra; ela diminuirá a sua comida ou iniciará uma dieta, e cada alimento a menos que consumir irá lembrar da forma com que foi insultada; ela encherá os ouvidos das suas amigas e interrogará seus familiares procurando “gordurinhas” inexistentes. Ou seja, toda a vida da pessoa irá sofrer as consequências cruéis de uma única palavra, certeira como uma flecha que atinge o centro do alvo.

De todas as palavras que o ser humano é capaz de engendrar, as que mais me fascinam são aquelas que funcionam como adagas: espetam-se na alma alheia e a desintegram aos poucos. Cada movimento da pessoa é drenado pela adaga; a sua energia vital se dissolve, enquanto ela procura arrancar a traiçoeira haste de metal do corpo, cauterizar a ferida, manter somente a tranquilizante cicatriz no lugar da morte lenta.

A qualquer momento, uma palavra à esmo pode atingi-lo.

A qualquer momento, uma palavra à esmo pode atingi-lo.

É necessário habilidade para se manejar palavras como adagas. Para começar, é difícil de reconhecê-las. Suas funções sintáticas e semânticas aplicam-se em vários contextos, não só para causar sofrimento. Para seu correto uso, elas dependem de uma série de circunstâncias, que vão da entonação até o momento exato da sua invocação. Além disso, necessitam do conhecimento prévio do ponto de fraqueza do outro, detectar onde a sua muralha psíquica é frágil, investigar com olhos argutos a rachadura por onde a palavra pode passar, atravessando a armadura para se enfiar no espírito alheio. É necessário muito treino e muita observação para atingir esta arte. Contudo, assim que se chega na sua essência, a tentação de destruiralguém esboroando a sua auto-estima se torna um poder quase hipnótico. Não é à toa que meu cliente ria diante da felicidade de estragar o dia, a semana e talvez o ano da mulher que teve o azar de se atravessar no seu caminho.

A adaga pode demorar para ser detectada; conheço pais que enfiaram adagas nos seus filhos quando eles ainda eram jovens e as crianças jamais conseguiram desenvolver o seu pleno potencial, sempre esbarrando na limitação que lhes foi imposta. Acredito que psiquiatras, psicólogos e psicanalistas são profissionais que dedicam as suas vidas para remover as palavras adormecidas nos corpos alheios, dar algum tipo de conforto para as feridas em hemorragia lenta, inexorável.

Às vezes, a palavra se torna uma adaga no momento errado, e acaba perfurando o outro sem querer. São cortes repletos de crueldade, mas, como são feitos em um momento impensado, são mais fáceis de serem perdoados, ainda que a sua sombra permanecerá perturbando. Incomoda-me mesmo as pessoas que sabem deste poder debilitante das palavras e as usam para realizar o mal. É difícil apagar os efeitos dolorosos de uma palavra, ainda mais quando ela se enfia tão fundo na alma do outro que se torna quase impossível removê-la. Temos a tendência de considerarmos (e julgarmos) somente o último ato de um suicida, mas ninguém é capaz de ver quantas palavras encontravam-se enfiadas no seu espírito, enfiadas de forma intencional (ou não) por pessoas interessadas no declínio de outro ser humano.

Quando escreveu a última aventura de Hercule Poirot, Agatha Christie fez aquele que eu considero um de seus livros mais interessantes. A maioria da crítica considera o “Assassinato no Expresso do Oriente” e “O Caso dos Dez Negrinhos” como os pontos literários de excelência da autora inglesa. São livros brilhantes, mas típicos da literatura de detetive, aquela em que o leitor acompanha pistas em busca do culpado. Eu considero “Cai o Pano” como seu livro mais singular, pois ela desenvolve a ideia do assassino perfeito: aquele que não mata ninguém, mas detecta a fraqueza do outro e o convence a se matar ou a matar outra pessoa.

Agatha Christie

É o assassinato impossível de ser previsto ou evitado, pois não deixa evidências físicas da sua perpetração. Além disso, utiliza táticas sutis de convencimento que envolvem a psicologia do assassino e a da vítima. É um jogo travado dentro da cabeça de alguém; enquanto o assassino crava facas através de palavras muito bem pensadas e manieta a vítima, ele vai estrangulando a sua vida, até que a decisão de colocar fim a ela ou matar outrem torna-se o último ato de um destino que foi pacientemente escrito.

Um Hercule Poirot envelhecido e cansado enfrenta este mestre oculto do mal. A lista de pessoas que ele matou é enorme, mas não existe uma prova sequer da sua participação. O assassino faz isto por que gosta do jogo psíquico. O ato de cravar palavras no espírito de alguém lembra muito as bandeirolas presas no touro durante a tourada; elas o cansam e exaurem sua vontade, mas não lhe matam. No entanto, desde a primeira que é fincada, o touro começa a morrer devagar – o seu futuro se torna conhecido, inclusive para ele. Mesmo que prorrogue a luta, ela se torna uma questão de tempo.

O detetive belga sempre foi um especialista no uso da palavra, na discrepância do discurso do assassino, na sua capacidade de prever e evitar os atos mortais. Neste último livro, ele é forçado a abandonar a tática psicológica de prever e derrotar o inimigo, desmascarando-o diante da lei. Considero um pouco melancólico que, no mais absoluto desespero de saber que não existe maneira de vencer o crime perfeito, Poirot seja forçado a utilizar um truque físico para enganar o oponente. E que só consiga uma vitória pelo expediente nada honroso de matar o outro. É a confissão da sua incapacidade de vencer um assassino que utiliza a mais mortífera arma para subjugar os outros: a palavra.

Por tal motivo, quando escutei este homem se vangloriando da sua capacidade de destruir uma mulher utilizando a palavra “gorda”, eu pensei que ele estava mexendo com forças de alcance imenso. Brigar com palavras é a luta mais vã, mas não por que elas vão embora, e sim por que elas podem machucar mais do que um soco ou um chute. Palavras podem matar, a menor das adagas pode se imiscuir no corpo de alguém e roçar o coração. Se as pessoas soubessem da importância daquilo que falam – e da capacidade latente de, em uma palavra, estar contida a possibilidade de destruir uma vida – elas seriam muito mais cautelosas com aquilo que deixam vir ao mundo através da sua boca.

Sem querer, ou talvez querendo, você pode estar matando alguém agora.

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