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Dois cadáveres frente a frente

Alguns dias atrás, o Canadá descriminalizou o duelo. A partir de agora, está legalmente aceito em terras canadenses o uso de duelos para arbitrar conflitos de uma maneira civilizada. Mas não nos empolguemos: na realidade, a legislação já existia. A circunstância dela não ter sido revogada em uma recente alteração legislativa no Canadá levou a concluir que os duelos ainda seriam possíveis, acaso preenchidos os requisitos legais. Mais detalhes estão nesse link: http://mundoestranho.abril.com.br/blog/contando-ninguem-acredita/com-reforma-no-codigo-penal-canada-descriminaliza-o-duelo/

Sempre senti uma forte atração por narrativas envolvendo duelos. Gosto da ideia de uma desavença entre duas pessoas ser resolvida de maneira civilizada entre somente ambas, sem envolver multidões. Em um mundo repleto de insignificâncias e de pessoas atacando e difamando pelas costas, soa quase utópica a ideia de homens e mulheres resolvendo eventuais problemas através de uma luta justa que limpe a honra com sangue.

Como não lembrar de “O duelo”, magistral conto de Tchekhov? Ou de “Duelo”, escrito por Guimarães Rosa? Também é possível citar “Os duelistas”, de Joseph Conrad – aliás, considerei o livro mais intenso do que o filme de Ridley Scott. Contudo, minha memória literária está afetivamente ligada a uma obra menor de Alexandre Dumas, “Os irmãos corsos“. Foi um livro que li quando era pequeno, e ainda me recordo a história dos irmãos gêmeos que conseguem sentir as dores e sofrimentos um do outro à distância. Quando um deles, o mais fraco e despreparado militarmente, morre em um duelo por causa de uma mulher, o outro vai vingá-lo em um novo duelo, fiel às tradições da Córsega. É uma história muito bonita, de amor de irmãos, de honra, de luto expiado pelo sangue. Esse livro vive nas prateleiras da minha memória, pois nunca mais o encontrei nas bibliotecas do mundo.

“Duelo depois de um baile de mascarados”, de Jean-Léon Gérôme

(Nesse momento abro um parênteses para lembrar o nome do pior duelista de todos os tempos, o nosso Euclides da Cunha, que pegou um militar com a sua mulher na cama e errou dois tiros, dando tempo para o homem desnudo pegar a própria pistola e matá-lo).

Entre os escritores, o maior duelista de todos foi o russo Aleksandr Pushkin, autor do incrível “Eugene Onegin” e, na minha opinião, o maior escritor russo que já existiu (e olhem que a concorrência é pesada). Gosto muito da história do duelo em que ele deixou o adversário desconcertado quando comeu cerejas sob a mira da pistola. Contei isso no texto que está no link http://wp.me/p24M2p-Ld , e aconselho que todos leiam como um modelo de comportamento digno diante da morte.

Pushkin era um homem que se irritava com facilidade. Durante a sua curta vida, ele convidou 20 desafetos para duelos – e recebeu convites para duelar de outros sete homens. Um homem bem esquentado. O primeiro adversário que convidou para duelar foi o próprio tio, quando ele tinha 17 anos: o tio roubou a mulher com quem ele estava dançando em uma festa, e isso foi o estopim para a briga, a qual não foi levada às últimas consequências, com os dois fazendo as pazes.

Grande parte das contendas do escritor russo foram evitadas por seus amigos, que negociaram essas questões de honra antes de chegarem até o final. Não surpreende que tenha morrido por causa de um dos duelos que foi impossível negociar. Detalhe interessante é que Pushkin nunca deu o primeiro tiro nos duelos de que efetivamente participou, ou seja, nunca ganhou um mísero cara e coroa para ver quem disparava primeiro.

Pushkin teve muito azar no seu último duelo, realizado contra Georges D’Anthès, que teria sido publicamente apontado como amante da esposa de Pushkin, a famosa Natalia Gontcharova. Dessa vez o escritor pegou pela frente um atirador experiente, e os dois não observaram a distância regulamentar de 25 a 30 passos de distância para o disparo, combinando somente 10 passos. O escritor foi atingido no estômago mas, antes de cair, ainda alvejou o adversário na mão. Mesmo agonizando no hospital, preocupou-se com o destino de D’Anthès, perdoando-lhe e pedindo para que o czar Nicolau não condenasse o seu adversário à morte (duelos eram proibidos na Rússia, e esse foi realizado de forma ilegal).

“Pushkin se despede do mar”, de Ivan Aivazovski

Existiu honra no comportamento de Aleksandr Pushkin. Estava com um problema com outro homem e, ao invés de fazer uma campanha de difamação ou de xingá-lo pelas costas (ou até responsabilizar a mulher pela traição, algo que somente covardes fazem), decidiu resolver a desavença frente a frente. No mundo atual, estamos tão acostumados a ver pessoas evitando os seus problemas e preferindo culpar os outros que até parece difícil de entender que a melhor maneira de resolver uma divergência é encarando a própria fonte causadora para chegar a uma resolução.

As situações seriam muito mais simples se, ao invés de perdermos tempo envolvendo outras pessoas nos nossos próprios dramas, tentássemos resolvê-los sozinhos. Mais e mais me convenço do fato de que sou o artífice do meu destino e, quanto menos gente se envolver nos meus conflitos, melhor será para todos. Nesse sentido, oportuno lembrar o pequeno conto do escritor argentino Rodolfo Walsh, cuja lição é muito atual: quando enfrentamos o nosso problema sem interferências de outras pessoas, existem somente dois cadáveres na sala – o meu e o outro. É dessa maneira que pessoas de valor resolvem seus problemas, frente a frente, confiantes nas suas habilidades e sabendo que, mesmo derrotados, ainda assim tinham razão na sua causa.

Deixo aqui o pequeno conto de Walsh, traduzido por Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni:

 

A cólera de um plebeu

(autor chinês anônimo)

 

O rei do T’sin mandou dizer ao príncipe do Ngan-ling: “em troca de tua terra quero dar-te outras dez vezes maiores. Peço que acates minha demanda.” O príncipe respondeu: “Faz-me o rei uma grande honra e uma oferta vantajosa. Mas recebi minha terra de meus antepassados príncipes, e desejaria conservá-la até o fim. Não posso consentir nessa troca”.

O rei se zangou muito, e o príncipe mandou T’ang Tsu em embaixada. O rei disse ao embaixador: “O príncipe não quis trocar sua terra por outras dez vezes maiores. Se teu senhor ainda conserva seu pequeno feudo, quando já arrasei grandes países, é porque até agora o considerei um homem venerável e não me ocupei dele. Mas se ele agora recusa sua própria conveniência, realmente está zombando de mim”.

T’ang Tsu respondeu: “Não é isso. O príncipe quer conservar a herdade de seus avós. Ainda que lhe oferecêsseis um território vinte vezes maior, ele igualmente o recusaria”.

O rei se enfureceu e disse a T’ang Tsu: “Sabes o que é a cólera de um rei?”. “Não”, respondeu T’ang Tsu. “São milhões de cadáveres e o sangue correndo como um rio em mil léguas à roda”, disse o rei. T’ang Tsu então perguntou: “Sabe Vossa Majestade o que é a cólera de um simples plebeu?”. Disse o rei: “É perder as insígnias de sua dignidade e partir descalço golpeando o chão com a cabeça”. “Não”, respondeu T’ang Tsu, “essa é a cólera de um homem ordinário, não a de um homem de valor. Quando um homem de valor se vê obrigado a encolerizar-se, cadáveres aqui não há mais que dois, o sangue corre a apenas cinco passos. E, no entanto, a China inteira se veste de luto. Hoje chegou esse dia”.

E se levantou, desembainhando a espada.

O rei turbou-se, saudou humildemente e disse: “Mestre, volta a sentar-te. Para que chegar a isso? Já compreendi”.

Um último detalhe: adoro o final seco desse conto, em que o rei praticamente diz “meu jovem, qual a necessidade disso, senta aí e vamos conversar.”

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O Poema sem Fim de Utrecht

Isso é muito lindo. No exato momento em que estou escrevendo essas palavras – e você está lendo -, um poema sem fim está sendo escrito com palavras e pedras na cidade holandesa de Utreicht.

Os responsáveis pelo poema são os integrantes da Guilda de Poetas de Utreicht. Cabe a eles escolherem a palavra que será escrita em pedra. O funcionamento é simples e, depois de cinco anos, transformou-se em um ritual. Todo sábado, o dono de uma pedreira local transporta uma pedra até a beira do canal local e a deixa ali, até o poeta surgir com seu formão e inscrever a letra. Em seguida, a pedra é arrastada até o fosso em que as suas irmãs se encontram, juntando-se a elas em uma linha sucessiva que forma palavras, que se juntam em versos, que virarão uma poesia que ninguém sabe como ou quando terminará – se é que terminará algum dia.

O projeto – considerado uma “escultura social feita ao ar livre” – começou oficialmente em 2012, mas nesse ano foram acrescentados 648 blocos correspondendo às letras que eram devidas desde o dia 01 de janeiro do ano de 2000, então, para todos os efeitos, é um projeto que teve o seu início com o século XXI e se estenderá enquanto existirem palavras, enquanto existirem pedras, enquanto existirem poetas.

O poema tem um título, “Cartas de Utreicht”, e a linha pela qual ele segue contorna o antigo canal da cidade (Oudegracht), mas já existe uma ideia de como expandi-la se, algum dia, o canal não for mais suficiente para a poesia. Veremos, então, o que é mais forte: o rio ou a poesia. A geografia e suas linhas duras e furiosas ou a instabilidade da imaginação.

O projeto é apoiado pela cidade, que também se mobiliza para saber qual caminho o poema tomará. Leva semanas para as palavras se formarem, e alguns meses para as orações se tornarem compreensíveis, mas quem disse que a poesia não é um trabalho de construção laboriosa e muita paciência? Desconfio muito desses poetas que se jactam de escreverem de forma compulsiva, com a inspiração à flor da pele, em um fluxo contínuo de imagens poéticas. Para mim, a verdadeira poesia se faz assim: uma letra de cada vez, as palavras sendo paulatinamente conquistadas pelo entusiasmo ou pelo cansaço, até se renderem em versos e estes em estrofes. Desconfio da poesia rápida, pois tudo aquilo que é facilmente feito, é também fácil de ser esquecido.

Não posso sequer imaginar como será o dia em que o último poeta de Utreicht – pois tudo chega até o fim, mesmo os poetas – estiver formando as derradeiras letras para colocar nos versos iniciados por uma longa linhagem de homens e mulheres que lhe antecederam, todos unidos sob a mesma bandeira e mesmo sonho. Será que a pedra terá o mesmo peso, será que as palavras ainda farão sentido? Será que ele verá o fim do poema ou o deixará inconcluso, incapaz de encerrar um trabalho de tantos anos?

O Poema sem Fim, ou as “Cartas de Utreicht”, possui os seguintes versos, traduzidos para o inglês pela equipe do Atlas Obscura (www.atlasobscura.com):

You have to start somewhere to give the past a place, the present is getting less and less. The further you are, the better. Go ahead now,

Leave your tracks. Forget the flash in which you may exist, the world is your street plan. Was there a time when you were another: it went by.

You are the other though. You are, as you know, the spell of this story. This is eternity. It takes. It’s time. Therefore, go into your story and swallow. Tell.

Tell us who you are with each step. In our story we disappear naturally, and only you remain in the long run. You and these letters, which are cut out of stone. Like the letters on our grave.

They burst into the Dom. Raised to the sky like an index finger, to indicate the guilty and demand more time. So we can go up straight, like people along the canal.

Stare at their feet. Look up! See Utrecht’s churches protruding above ground level. Raise the hands, begging with the towers to be this privilege: to be, now. The weather is nice.

Stand on. Life is witness to your gaze on the horizon. Your footsteps …

Está ficando um poema ótimo.Provavelmente não estaremos vivos para saber o seu final, e nisso existe uma lição de humildade: o Tempo não existe para a Poesia. Nós criamos o Tempo que nos encapsula, mas, para a Poesia – e para as Pedras – o Tempo é um conceito tão vago que sequer é levado em consideração. O que importa, no final do dia, é prosseguir em frente, sem saber se aquela é a última palavra, uma letra qualquer no muro da existência ou se chegamos ao verso final da vida.

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As perguntas que devemos nos fazer

… como as pessoas conseguem dormir sabendo que um mundo terrível as espreita a cada dia, ansioso para cravar as suas garras e destroçá-las tão sem piedade quanto uma coruja destrincha os segredos e tripas da sua presa?

…  como se sentir tranquilo quando um grito desesperado no meio da noite impregnada de silêncio é subitamente interrompido em seu meio?

… como manter a esperança quando um homem transformou o seu sangue em música e ela agora cavalga por aí, chutando cachorros, esgueirando-se por bueiros, cobiçando a sua vida?

… como acreditar que tudo vai acabar bem quando Sennarcheb, rei da Assíria entre 704-681 a. C., jactou-se dos horrores e mortes que espalhou inscrevendo-os em um prisma de pedra (“O Prisma de Taylor”), um objeto que sobrevive aos séculos com sua memória de gritos, de sangue derramado, de cabeças arrancadas?

O Prisma de Taylor

… como podemos estar no mesmo mundo em que Cervantes e Dante conseguiram conter por muitos anos, dentro dos seus frágeis corpos, o Inferno e o Fantástico?

… como respirar com inocência sabendo que uma borboleta tem uma vida mais interessante do que a nossa?

… como sobreviver à ideia de que, um dia, Hieronymus Bosch caminhou pelas ruas embarradas da cidade, um outro e impossível universo se retorcendo dentro da sua cabeça?

… como aceitar que a realidade nos esmaga se fomos justamente nós quem a criamos?

… como acreditar que somos livres se não controlamos sequer as batidas de um coração, se somos impelidos a respirar, se o Destino faz o que bem deseja conosco, tratando-nos como tábuas perdidas de um naufrágio,

… como não dar risada ao escutar o 3o movimento do Concerto para Trompa número 4 de Mozart? Aliás, como não sorrir por ter vivido na mesma realidade que abrigou Mozart, Tchaikovsky e Bach?

… como saber se não estamos nesse exato momento em um labirinto, e ainda estamos indecisos se somos Teseu ou o Minotauro?

… como não ter medo do que o dia nos reserva tão logo abrimos os olhos?

… como amar sem saber que, na verdade, o verdadeiro amor mora existe somente quando o perdemos?

… como saber se existem perguntas certas ou se estamos vagando por aí em busca de respostas inexistentes?

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O estímulo à leitura da Librairie Mollat, de Bordeaux

Uma das contas do Instagram que me dá mais alegria de acompanhar é a da Librairie Mollat, que fica em Bordeaux, na França.

Isso por que os funcionários e clientes do local encontraram uma maneira muito criativa de entusiasmar a leitura: passaram a usar as capas do livro como parte dos seus semblantes.

Alguns anos atrás, lembro que a Feira do Livro de Porto Alegre fez isso, mas, se bem me recordo, foi uma ação institucional e durou o tempo da Feira, além das capas serem fictícias (talvez por causa do receio das implicações comerciais). A Librairie Mollat pouco se importa com questões de publicidade ou de propaganda, prefere falar de livros, e suas fotos são muito engraçadas.

Tenho percebido que a literatura tem se levado muito a sério, e não precisa ser assim. É possível estimular a leitura com práticas divertidas e que não dependem da boa vontade dos governos, só usando um pouco de bom humor.

Vou colocar algumas fotos aqui, mas fica o convite para segui-los no Instagram.

 

 

 

 

 

 

 

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Obras Inquietas – 24. “Garota comendo pássaro (O prazer)”, 1927, René Magritte

No meu texto da semana passada no “Obras Inquietas”, eu falei de “Garota comendo pássaro (O prazer)”, de René Magritte, um dos meus pintores surrealistas favoritos.

O que eu mais gosto nos quadros de Magritte é o deslize abrupto entre o título e a imagem. No caso desse, o título é espantosamente linear em relação à imagem, mas a expressão entre parênteses, “(O prazer)”, passa algo de proibido. Perguntado sobre a sua inspiração para o quadro, Magritte foi simples: disse que a ideia surgiu ao ver a sua esposa comendo um pássaro de chocolate. No entanto, a sequência de pinturas que ele fez na época, entre as quais estava “O assassino ameaçado”, demonstra uma certa fixação por mortes e assassinatos.

Para o meu texto, resolvi homenagear Magritte e contrastar a liberdade do pássaro com a prisão da mulher. E alertar que nem sempre aqueles que estão presos desejam se libertar, mas só tirar esse direito de outros.

Boa leitura.

 

“Garota comendo pássaro (O prazer)”, 1927, René Magritte

A liberdade é quente e tem o gosto pastoso de sangue. Nas mãos da assassina, impregnadas de fúria contida, o pássaro agoniza em espasmos de dor, a vida se esvaindo em penas e vísceras enquanto ela trinca a carne ainda vibrante de medo. O vestido a oprime; o ar pesado a cansa; viver é seguir as expectativas dos outros. A jovem nasceu para servir, para obedecer, para abaixar a cabeça, para cumprir o destino de todas as outras mulheres que lhe antecederam, e ter essa consciência machuca mais do que o esperado. O sutiã invisível corta a sua respiração; as mãos pálidas deslizam nos ossos diminutos do pássaro, quebrando-os graças à força que imprimem sem querer, mas o ser não pensa mais em fugir, ele só pode morrer, e a dor dos ossos quebrados não é nada perto dos dentes ferozes que estraçalham a sua barriga e sorvem o seu sangue. Por muito tempo, a mulher olhou os pássaros na árvore do jardim; admirou os seus chilreios, impressionou-se com a alegria deles pulando de galho em galho, observou – com inveja – quando eles voavam para longe, indo para onde bem entendessem, sem ninguém para lhes controlar. Quando se aproximou da árvore naquele dia, tinha o seu objetivo em mente; esticou a mão, prometendo uma carícia na penugem do pássaro, que se aproximou, com a lentidão dos ingênuos. A mulher ainda escuta o som que escapou dos pulmões do pássaro quando foi agarrado com firmeza, o olhar incrédulo e luzidio que lhe lançou ao ver os dentes – aquela coluna branca repleta de lâminas afiadas – aproximando-se da sua barriga. Ainda recorda o suspiro que ele largou quando foi destroçado pela voracidade da sua assassina. A mulher come o pássaro, deleitando-se com a carne cada vez mais morta. Um prazer quase indecente irradia-se da sua boca ensanguentada e preenche a sua pele enquanto ela saboreia a vida de outra criatura. Em breve a mulher voltará aos grilhões com os quais é forçada a se acostumar, mas, hoje, a liberdade do passarinho vai ser um alívio para aquela raiva fria que somente um condenado à morte é capaz de sentir. Já que ela não pode ser livre, que o pássaro também não seja.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/03/11/obras-inquietas-24-garota-comendo-passaro-o-prazer-1927-rene-magritte/

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Muita calma nessa hora

Em um mundo cada vez mais caótico, manter o controle deixou de ser uma virtude e passou a ser uma arte. Tudo conduz ao descontrole: notícias desordenadas brigam com cronologias e induzem pânico, ao mesmo tempo em que damos risadas nervosas de piadas feitas no calor do momento; pessoas matam por fatos mínimos e morrem sem nenhuma lógica; realizamos dezenas de tarefas por dia, e não somos sequer capazes de elencá-las, de tão desconcentrados que estamos. Descontrole, desordenação, desconcentração: o prefixo definidor da nossa época é “des”, e ele tem sentido negativo. Estamos nos desfazendo dentro de nós mesmos. Somos formados de átomos, e eles tendem à dispersão, oscilando precariamente em torno de um núcleo que poderíamos chamar de alma, mas que precisa ser mantido sob constante vigilância para não explodir por culpa desse mundo que insiste em bater na nossa pele.

Tenho observado esse descontrole na literatura. Usando como argumento de defesa a sua “contemporaneidade”, vejo livros que vão do nada ao lugar algum, com personagens vagando como se fossem madeiras náufragas em meio ao oceano, com conflitos batidos e cansados cujas resoluções são anti-naturais (para não dizer clichês). Tudo isso em linguagem dolorosamente poética, que se tornou um misto de propaganda mal feita e de haikais desconexos. Já dizia Sêneca que não existe vento bom para quem não sabe onde deseja ir, e tem sido uma experiência decepcionante ver boas histórias serem estragadas pela incapacidade dos seus autores exercerem um maior controle sobre a narrativa.

Na semana passada, brinquei que alguns dos meus textos se descontrolavam do nada, como se, no entremeio das linhas, eles passassem a escutar “Maniac” do Michael Sembello e desandassem a correr, a pular, a dançar. Isso me fez lembrar de Stephen King. Em “Sobre a escrita”, ao comentar sobre a fama que lhe atribuem de ser um autor que costuma realizar uma mortandade de personagens, o mestre do terror afirma que, quando começa a escrever, ele não quer matar ninguém. Gosta das suas criaturas, tem estima por elas, são pessoas com as quais gostaria de conviver.

No entanto, a partir de um certo momento, a história perde o controle e os personagens entram em uma série de situações nas quais imploram para morrer, mas o autor os ama, então evita esse destino. No entanto, chega o trecho da trama em que os personagens acabam ultrapassando os limites da sensatez, e a sua morte se torna inevitável, momento em que o autor – chateado – aceita que isso vai acontecer e lhes concede o descanso final.

Na versão de Stephen King, os personagens tomam o controle da trama e ditam o ritmo, pedindo para morrer, e o autor – esse Deus involuntário – precisa ficar desviando as facas, as pedras, os carros e as balas do caminho deles. Fico pensando no que diria Vladimir Nabokov, para quem o escritor sempre possuía o controle da narrativa, e perder tal domínio era inaceitável. Em entrevista para a Paris Review, quando perguntado sobre o que achava da opinião de E.M. Fortser (autor de “Passagem para a Índia”), grande admirador do seu trabalho e que disse “que as personagens principais de Nabokov às vezes ganham vida própria e ditam o curso dos romances”, o russo fuzilou:

“O meu conhecimento das obras de E. M. Forster limita-se a um romance, do qual não gosto. De qualquer forma, não foi ele quem deu início a essa fantasia banal a respeito de personagens que fogem ao controle; isso é mais velho do que o mundo. Se bem que, naturalmente, daria para se sentir solidário com os personagens dele, caso tentassem escapar daquela viagem para a Índia, ou para onde quer que ele os estivesse levando. Os meus personagens são verdadeiros escravos”.

Nabokov era um autor obcecado pelo controle. Ficou famosa a vez em que, no meio de uma aula, reclamando das digressões e idas e vindas de “Dom Quixote”, o escritor pegou um exemplar da obra de Cervantes e despedaçou-o raivosamente na frente dos alunos. No entanto, lendo um pouco sobre o seu método quase doloroso de escrita e as dificuldades que ele tinha para manter o controle da própria história, é possível entender um pouco do seu caráter beligerante. Em outra entrevista, desta vez para James Mossman, ao ser perguntado se escrever era um ato prazeroso ou doloroso, Nabokov respondeu:

“Prazer e agonia enquanto componho o livro em minha cabeça. Grande irritação enquanto luto com minhas ferramentas e vísceras – o lápis que precisa ser reapontado, o cartão que precisa ser reescrito, a bexiga que precisa ser esvaziada, a palavra que eu sempre vou escrever errado e preciso conferir. Depois o trabalho de ler o trabalho já transcrito por uma secretária, a correção dos meus maiores erros e até dos menores, transferindo as correções para as outras cópias; perder o lugar de cada página, tentando lembrar alguma coisa que deveria ter sido retirada ou acrescentada. Repetir o mesmo processo durante a revisão. Abrir a radiante, bela e robusta cópia pronta, abri-la e descobrir um estúpido exagero cometido por mim, mas me permitir sobreviver a isso. Depois de alguns meses mais ou menos, pegar o livro no seu estágio final e ver que ele finalmente foi ‘desmamado’ de mim. Eu agora considero isso com um pouco de efusiva ternura, assim como um homem vê não o seu filho, mas a jovem esposa de seu filho.”

Personagens não possuem vontade própria: ou o autor os comanda ou a narrativa não possui sentido, o que explica muito das chateações atuais, tanto nas artes quanto na vida, de pessoas controlando os nossos destinos e nos deixando sem eira nem beira. Estamos sendo constantemente manietados e perdendo o controle dos mais mínimos atos, seja pela família, pelo governo ou pela nossa própria moral. Aleister Crowley, que criou a única máxima legal que todo ser humano deveria seguir, “faze o que quiseres será a vossa lei”, ficaria impressionado ao ver o nosso ritmo de escravidão e de perda de liberdade, pois hoje estamos cercados por patrulhas ditando o que podemos ou não pensar.

Aliás, o ocultista Aleister Crowley podia estar livre do controle de outros humanos, mas não de deuses, fantasmas e silfos. Em março de 1904, ele queria escrever um livro para presentear a sua esposa, Rose Kelly, e resolveu convocar Thoth, o deus egípcio da sabedoria. Nos primeiros dias não deu certo, mas, passada uma semana, quando estava quase desistindo, Thoth apareceu na sala – incorporado em Rose Kelly – e disse que ele não ia ditar livros (provavelmente estava ocupado), mas, se quisesse ajuda, Hórus estava disponível, era só chamar. Crowley mudou o seu enfoque de deus egípcio, pretendendo conseguir a ajuda de Hórus, que não se dignou a aparecer, mas mandou o seu secretário, Aiwass. O ocultista teve tanto trabalho para achar um deus disposto a lhe ditar um livro que era mais fácil ter escrito um sozinho, o que só atesta a dificuldade de todo escritor para formar um romance minimamente interessante.

Nos dias 08, 09 e 10 de abril de 1904, das 12h às 13h, Aleister Crowley foi obrigado a sentar na sua escrivaninha e receber ditados de Aiwass. Nunca chegou a vê-lo diretamente – Aiwass sempre ficava atrás dele, ditando -, mas, na única vez em que o enxergou, descreveu-o como “um homem alto e escuro, de aproximadamente trinta anos, bem apessoado, ativo e forte, com o rosto de um rei selvagem, cujos olhos eram velados, pois seu olhar poderia destruir o que quer que estivesse olhando”. Foram três horas de ditado, mas delas saiu “O Livro da Lei” ou “Liber AL vel Legis”, que serviu de fundamento para todas as teorias ocultistas que ainda hoje são lidas e estudadas.

Como estava recebendo um livro ditado pelo secretário de Hórus, Crowley perdeu por completo o controle da própria obra. Não era mais dele, mas do outro. E – horror dos horrores -, enquanto estava escrevendo, o ocultista inglês começou a ver erros gramaticais no texto que lhe era passado. Não só isso: Aiwass ainda inventou de incluir narradores em cada uma das três partes do livro. Eles seriam Nuit, a Rainha do Espaço; Hadit, o Infinito Domínio das Coisas, e Ra-Hoor-Khuit, a Criança Coroada Conquistadora. Três narradores, cada um com a sua visão de mundo, mais o secretário de um deus egípcio como responsável pelo ditado controlando os narradores: Aleister Crowley perdeu completamente o controle do que estava escrevendo.

É uma pena que, pelo espaço desse texto, não possa me deter sobre o conteúdo de “O Livro da Lei”, pois é um livro fascinante; os ocultistas afirmam que cada leitor lê o que deseja ler, ou seja, estamos diante de um livro multíplice, que não possui um significado único e que cada leitor renova constantemente. É provável que eu não tenha lido o mesmo livro ditado por Aiwass, e minha leitura seja diferente da de outros leitores.

No entanto, justiça seja feita, Crowley tentou corrigir muitos trechos de “O Livro da Lei”. Tinha medo de que os erros gramaticais e de concordância fossem atribuídos a ele, não ao responsável pelo ditado. Mas Aiwass era orgulhoso, e insistia em dizer que estava certo, contra todas as evidências da gramática inglesa. É possível que o “Livro da Lei” tenha a mais estranha errata já feita, quando o autor afirma para o leitor que redigiu o livro, mas não o escreveu:

“É claro que eu o escrevi, tinta no papel, no sentido material; mas aquelas não eram e nem nunca foram as Minhas palavras, a não ser que Aiwass não fosse mais do que uma extensão do meu self subconsciente ou alguma parte disto: nesse caso, meu Self consciente, por ser ignorante acerca da Verdade do Livro e hostil à maior parte da ética e filosofia presentes Nele, Aiwass seria uma parte severamente suprimida de mim.”

De um lado, Nabokov e o seu controle absoluto sobre todo o andamento da obra; no outro, Crowley perdendo o controle narrativo por causa de um secretário divino com laivos de romancista. Entre esses extremos, está ainda Franz Kafka, que se preocupava demais com os itens que estavam fora do controle de uma narrativa.

Quando lemos uma obra literária, existem personagens secundários para os quais não damos muita importância. Eles estão fazendo figuração nas cenas dos personagens principais, em torno dos quais a história gira. Quem sabe os nomes de todos os personagens secundários mortos nas batalhas de “Guerra e Paz”, de Tolstoi? Quem sabe os nomes dos participantes dos animados bailes na casa de Bingley, como Jane Austen fala em “Orgulho e Preconceito”? Não sabemos, pois esse assunto é irrelevante.

Contudo, Kafka se preocupava com o destino dos personagens que apareciam em uma cena e, a seguir, desapareciam da obra. Quem eram, para onde iam, o que estavam fazendo? Como podiam desaparecer assim do mundo? Essa preocupação o levou a redigir uma carta em 1918 para Max Brod (tradução minha):

“Esta coisa de me obcecar pelos personagens secundários cujas vidas leio nos romances, peças de teatro, etc. Este sentimento que possuo de pertencer ao mesmo mundo deles! Em ‘As Virgens de Bischofsang’, existem duas costureiras que costuram a roupa da noiva da peça. Qual será a vida dessas duas jovens? Onde moram? O que fizeram para não obterem o direito de entrar na peça com as outras? Só lhes é permitido ficar do lado de fora, e, afogando-se em frente à Arca de Noé, comprimir o rosto contra o vidro, para que o espectador do drama perceba ali, por um instante, qualquer coisa um pouco obscura que se move.”

É o paroxismo da obsessão: querer controlar a vida de tudo e de todos, não só dos personagens principais da história, mas dos secundários. É uma atitude muito frequente nos dias atuais: pessoas que, não suficiente controlarem as próprias vidas, ainda precisam se meter e opinar na dos outros. Ao menos Kafka se preocupava com o destino dos personagens secundários dentro de um livro, não com a vida alheia.

Ainda existem aqueles que alegremente abraçaram o caos do mundo, como aconteceu com Samuel Johnson. Ao invés de ter algum controle sobre as suas leituras, o escritor inglês resolveu que, em matérias de livros, adotaria o descontrole como regra. Desenvolveu um método de leitura chamado “leitura cursória”, que consistia em pegar um livro na biblioteca, ler algumas páginas, em seguida pular para outro, abri-lo no meio e ler outras páginas, para, a seguir, escolher outro exemplar e selecionar algum trecho randômico… Johnson dizia que a sorte era tão boa conselheira quanto a erudição e, com o passar dos anos, desenvolveu a sua habilidade de leitura a ponto de não mais pegar os livros, deixando-os em meio a mais absoluta confusão, caindo e abrindo páginas, quando então o escritor as lia até cansar e deslocava a atenção para outro exemplar.

Samuel Johnson e a leitura cursória

Suas justificativas para agir dessa forma desordenada eram ótimas: “Se um homem começa a ler um livro pela metade e tem vontade de ir adiante, de nada vale parar e ir para o começo. Pode ser que ele não tenha a mesma vontade”. Ou então: “Não largar os livros antes do fim seria como querer manter por toda a vida a amizade com quem quer que se encontre pela frente”. Samuel Johnson não era obrigado a ler nenhum livro do início até o fim e escolhia a ordem que ia começar a leitura sem nenhuma interferência do autor, e tal método de leitura certamente ajudou a formar o seu invejável conhecimento, pois a mente dele estava preparada para pular entre as mais diferentes associações sem nenhum juízo de valor ou preconceito.

Cada pessoa possui a sua própria maneira de se sentir no controle de algo. Temos medo das possibilidades que o desconhecido pode acarretar e, por isso, tentamos manter a vida dentro de normas perfeitamente organizáveis e esperadas. Todos aqueles que reclamam de tédio, na realidade deveriam reclamar do controle a que se auto-impuseram. Isso por que a vida é uma longa sucessão de desatinos e instabilidades, em que a rotina nos escraviza e a falta de controle é o primeiro passo para o auto-entendimento. Portanto, é preciso perder o controle – mas sem esquecer que, assim como no poema de Elizabeth Bishop, a arte de perder também tem um método.

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