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As pessoas sempre nos decepcionam

Se decepção matasse, hoje eu cairia morto.

O último baluarte da decência e da civilização acaba de desmoronar diante dos meus olhos, confirmando a constatação a que cheguei algum tempo atrás: as pessoas sempre nos decepcionam. Algumas antes do imaginado, outras depois, mas, no final das contas, elas acabam desapontando.

Estou lendo “Heróis”, de Lucy Hughes-Hallett, um livro que trata de como a Humanidade sempre temeu – e buscou – figuras individuais que poderiam ser consideradas como “salvadores da pátria”. O problema é que a característica maior do herói é ser imprevisível, louco e desprovido de padrões morais, ou seja, como diria Brecht (mas por um outro lado), “pobre do país que precisa de heróis!”. Segundo a autora, os heróis oscilariam entre dois extremos: a fúria de Aquiles ou a esperteza de Ulisses. Usando essa base como paradigma, ela analisa Alcibíades, Catão, El Cid, Francis Drake, Wallenstein e Garibaldi.

Sempre tive como uma das minhas mais inabaláveis certezas o fato de que Catão foi um dos últimos homens de verdade que pisou no planeta, e olhem que ele viveu entre os anos de 95 a.C e 46 a.C. Nós todos, os outros humanos, não passariam de meros arremedos, de pálidas sombras da grandiosidade daquilo que Catão representou.

Catão foi o homem incorruptível. Alguém que esteve diante de todos os tipos de tentação e nunca cedeu a elas. Um roched0: incapaz de contemporizar, de buscar o caminho cômodo, de ceder um milésimo que fosse nas suas convicções. Um exemplo de decência e de integridade moral em uma época de devassidão e de valores conspurcados. Um homem que fez tremer gigantes do porte de Júlio César, Virgílio, Cícero, Pompeu e tantos outros.

Não sou somente eu quem admira Catão. Ele tem um conjunto de fãs realmente invejável. Citarei alguns: Cícero afirmou “sozinho, ele [Catão] vale mais do que cem mil outros”. Horácio, que escreveu a “Arte poética”, elogiou o seu “coração feroz”. O grande Lucano o chamou de “godlike”, em uma época que tal comparação era uma ofensa religiosa, mas ninguém foi capaz de contestá-lo. São Jerônimo afirmou que Catão possuía uma glória que não poderia ser aumentada por louvações e nem diminuída por censura. Virgílio disse que gostaria de passar a Eternidade nos Campos Elíseos ao lado de Catão. Dante Alighieri colocou todos os suicidas no círculo mais baixo do Inferno, menos Catão, que foi promovido a guardião do caminho que leva do Inferno até o Purgatório. E o florentino ainda afirmou na “Divina Comédia”: “E que homem sobre a Terra é mais merecedor de representar Deus que Catão? Nenhum, certamente.” Mais “fanboy” impossível.

Não. Catão teve um admirador ainda mais apaixonado, o filósofo francês Michel de Montaigne, que escreveu:

“Eu rastejo em lama mundana, mas não deixo de ver no alto das nuvens as incomparáveis estaturas de certos espíritos heróicos, dos quais o mais sublime era Catão, esse grande homem que foi verdadeiramente um modelo escolhido pela Natureza para mostrar o quão longe a virtude humana e a coragem podem chegar. (…). Catão era um homem diante de quem até mesmo os loucos escondiam seus defeitos.”

Catão

Imaginem um homem que não se dobra nunca. Imaginem alguém que não tenha medo de desagradar outras pessoas e cujo único compromisso é com as suas posições morais. Além disso, Catão era rabugento, mau humorado e não tolerava brincadeiras, piadas e nem distrações pueris. Segundo Plutarco, Catão deixava os grandes homens de Roma angustiados, pois a sua retidão moral os envergonhava pela impossibilidade de imitá-lo. Quando alguém via Catão no júri e era culpado, recusava-se a ser julgado e assumia logo a culpa. Por isso, ele é encarado por muitos como eternamente fadado à derrota (temos como vencer sendo sempre inflexíveis ou a vitória só pode ser atingida com contemporizações e concessões?), mas também é visto como a necessária bússola moral em uma época na qual ela fazia uma falta gigantesca.

Dispondo somente da sua voz, do conhecimento das leis e da certeza que tinha sobre a própria retidão, Catão acreditou que bastava existir um único homem correto para corrigir o mundo. Uma andorinha pode, sim, fazer verão. E tão forte era a sua crença nisso que a sociedade romana lhe temia e respeitava no que foi considerado um dos mais estranhos cultos à personalidade de todos os tempos, pois ele não era belo, não era um prodígio de inteligência, não tinha fama e nem fortuna – possuía somente a cegueira da própria moralidade, e isso bastava para aterrorizar todos.

Um louco, vocês dirão. Mas, e se Catão for o único certo e nós todos estarmos errados até hoje? Impossível não rir ao pensar que Sêneca, quase cem anos depois da morte do senador romano, imaginou Júpiter descendo até a Terra em busca de um exemplo de grandeza humana e vendo o “espetáculo de Catão… de pé, ereto, em meio às ruínas do Império.” O mesmo Sêneca que, vivendo sob a sombra de Nero, manifestou a sua admiração dizendo que “ninguém jamais viu uma transformação sequer em Catão”. Assim como as baratas resistem às bombas nucleares, somente Catão era capaz de sobreviver moralmente ao escrutínio do mais poderoso dos deuses.

Não vou contar todas as histórias de Catão. Basta saber que ele foi o único homem capaz de se contrapor a Júlio César olho a olho e não esmorecer, nem mesmo no momento da sua morte. César nunca reconheceu virtudes no inimigo; odiava-o com todas as suas forças, talvez por ver nele uma integridade moral inatingível para qualquer ser humano normal. Durante 17 anos os dois se enfrentaram nas ruas de Roma, em debates no Senado, em lutas, votações e polêmicas. Ao final, como a História sabe, Catão acabou vencido em Útica e, assim, definiu-se o destino de Roma. O episódio incrivelmente violento da sua morte demonstra a fortaleza moral e a inescapabilidade dos parâmetros morais que constituem a tônica da sua vida – após ler “Fídon” de Platão duas vezes, Catão dormiu calmamente e, quando despertou, enfiou a espada na própria barriga. Ao perceber que corriam para tentar salvá-lo, com as suas entranhas saindo pelo talho, o homem empurrou o médico que tentava suturar a ferida e rasgou de novo o próprio ventre, enchendo o quarto inteiro de sangue.

Ao lado dos demais admiradores de Catão, sempre o tive como um modelo impossível de ser alcançado. Confesso ser incapaz de guardar parâmetros morais rígidos, pois ter essa conduta é condenar-se à morte ou ao ostracismo, ainda mais na sociedade atual, na qual valores morais são prova de fraqueza ou de debilidade do espírito. Assim como Sêneca, imaginava que, se existisse uma pessoa capaz de encarar o próprio Deus (ou Júpiter ou Alá ou Shiva) no olho e constrangê-lo com a sua convicção serena do que é certo, esse homem só poderia ser Catão. Era uma das poucas certezas que eu possuía – isso até eu descobrir uma história estarrecedora, algo que manchou de forma indelével a sua imagem.

Catão também tinha um podre. Contam os historiadores – e com provas documentais ainda por cima, ou seja, nem o conforto de ser uma tentativa de enxovalhar a sua imagem me salva – que Catão estava casado com sua segunda mulher, Márcia, com quem já tivera dois filhos (e ela estava grávida do terceiro) quando foi abordado por Hortêncio, o único advogado que conseguia vencer Cícero no Senado. Esse advogado queria estreitar os laços com Catão por intermédio da junção de suas famílias, e pediu em casamento Pórcia, a filha mais velha do inflexível romano. Ele recusou, pois Pórcia estava casada com outro cidadão. Diante da insistência de Hortêncio, Catão pensou em uma solução intermediária: decidiu divorciar-se da sua mulher grávida e casá-la com o outro homem. A condição era que, tão logo os dois tivessem um filho, juntando as duas famílias pelo vínculo de sangue, Hortêncio se divorciaria e Márcia voltaria a casar com Catão. Um “troca-troca” de famílias em Roma.

O plano funcionou, mais ou menos. Márcia teve um filho com Hortêncio, mas, antes que os dois se separassem, o homem acabou falecendo e toda a sua fortuna passou para Catão, o que acabou sendo um ganho inesperado. César, sempre ciumento da fortaleza moral do seu oponente, insinuou que Catão fez tudo isso por ganância e para se apossar do dinheiro de Hortêncio, mas os romanos não acreditaram, pois ele era incapaz de um plano tão vulgar.

Catão voltou a se casar com Márcia, e a vida prosseguiu. Essa situação é analisada de forma diferente por quem se deteve sobre a vida do romano. Tertuliano considerou essa transação desprezível tanto do ponto de vista afetivo quanto do lado moral. Robert Graves disse que Catão e Hortêncio trataram Márcia como se fosse uma égua reprodutora. No entanto, o historiador Ápio considerou a atitude de Catão exemplar por colocar os interesses de Roma à frente das suas veleidades afetivas.

A maioria dos defensores da conduta de Catão em relação à Márcia afirmam que ele foi coerente com a filosofia estóica: tornar-se afeiçoado em excesso por outro ser humano é tornar-se refém do destino e propiciar o surgimento da infelicidade, algo que o homem sábio não pode fazer. Todos os relacionamentos humanos são temporários e fugazes, não precisando de investimento emocional muito intenso. Permitir que o amor se misture aos princípios morais é ter que abrir mão de um em favorecimento do outro, e isso era algo que Catão, fiel à própria natureza, jamais faria. Em última análise, o gesto dele teria sido algo de notável desprendimento, a atitude mais altruísta que se esperava de um homem preocupado com a falta de moralidade que ameaçava a sua nação: desistir da felicidade pessoal para salvar o coletivo.

Tentamos explicar a conduta implacável de Catão com a sua esposa usando uma série de racionalizações, mas elas não sobrevivem à verdade dos fatos. Catão estava tão imbuído da própria retidão moral que deixou de lado aquilo que lhe tornava humano. Sacrificou a moralidade interna do seu casamento para salvar uma duvidosa moral coletiva que pretendia impor ao povo. Catão estava completamente cego pela sua própria moralidade e, como a mariposa muito próxima da lâmpada, não era mais capaz de distinguir o certo do errado. De tão apaixonado por si mesmo e pela lisura do seu comportamento, pisou em todos que lhe amavam.

Não se pode julgar os deuses da mesma forma que os humanos, e não tenho dúvidas – assim como Lucano – de que, “quando finalmente formos libertos da escravidão, se algum dia isso acontecer, Catão será deificado, e Roma terá um deus de cujo nome não se envergonhará”. No entanto, não posso deixar de lado a frustração de ver a imagem de um dos meus ídolos desmoronar como o Colosso de Rodes sacudido por um terremoto. Afinal de contas, Catão também era humano e até mesmo ele podia cometer condutas repulsivas em prol de um bem maior.

Há alguns dias que esse assunto me incomoda, mas, pensando novamente enquanto escrevo, talvez a conduta de Catão não seja objeto de decepção, e sim de libertação. Se até mesmo Catão decepcionou, qualquer um de nós é passível de frustrar os outros em algum momento. Se isso é inevitável, então, a questão torna-se aceitar tal fato – e pensar como a decepção pode atingir o mínimo alcance. Sujeitar-se a ela e ansiar para que seja de tal ordem que possamos sobreviver ao desprezo e indiferença nos olhos alheios.

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O dia em que fui censurado

Em todos esses anos de vida que escrevo, nunca tinha passado pela experiência de ser cerceado no meu direito de expressão ou sofrer censura, e acabou vindo do lugar mais inesperado.

Fui denunciado por “pornografia” no Pinterest. Isso por que, no meu painel sobre pinturas, onde coloco as obras que mais gosto, tive a “audácia” de colocar esse quadro de Paul Cézanne:

“Hortense dando de mamar para Paul” (1872), Paul Cézanne

Detalhe interessante: existem dezenas de pinturas nesse painel ( https://br.pinterest.com/gmeloczekster/pinturas/ ) que considero pornográficas, aplicando o conceito mais tradicional da palavra. Tenho pinturas de homens e de mulheres nus, algumas inclusive em posições sexuais, e nunca antes fui chamado de “obsceno” ou “pornográfico”. Não escolho pinturas sob esse viés, mas pela sua beleza estética e, assim, no mesmo painel, podemos encontrar desde autorretratos até paisagens, passando pela exibição de corpos nus, como não poderia deixar de ser, pois é natural da vida. Na minha visão, o importante é a pintura conter uma história inteira condensada em um único momento, e nunca parei para pensar se estou pisando além dos limites da moral e dos bons costumes – aliás, creio que, em matéria de experiência artística, esses limites sequer são claramente identificáveis.

O Pinterest já me “inocentou”, e a pintura retornou para o painel. Ainda assim, a questão persiste me intrigando: o que fez alguém se ofender tanto com uma mulher dando de mamar para o seu filho que o levou a denunciar o quadro como “pornografia”? Não existe nada de sexual aí, a não ser se consideramos o corpo feminino como algo naturalmente pornográfico. Além disso, é possível que a pessoa “enojada” com o quadro tenha se alimentado da mesma forma, ou conheça ao menos uma criança que tenha se alimentado no peito da mãe… seriam essas pessoas também pornográficas?

Não cabe a mim responder a esse anônimo ou anônima que tachou um quadro de Cézanne como “pornográfico” – até por que o anonimato garante a todos os covardes a chance de se manifestarem sem réplica. Na verdade, acho um pouco perturbador alguém pensar assim a respeito de uma cena que, até onde posso ver, é prosaica e absolutamente rotineira. Concordo que as concepções de “pornografia” variam muito entre os indivíduos, mas a ausência de lógica e de coerência daqueles que consideram a amamentação como um gesto pornográfico chega a ser risível. Darão o que para os nenês, Coca Cola? Cerveja?

Não faz muito tempo, comentei que não existia atividade mais perigosa nos tempos atuais do que escrever. Cada mínimo texto meu – cada mísera frase – é descontextualizada, fragmentada e analisada nas suas minúcias em busca de fraquezas ou posições ideológicas. Uma palavra ou expressão distraída é a senha para que não só meu texto seja destruído, mas igualmente eu acabe sofrendo ataques que escapam do âmbito das palavras e entram na esfera pessoal. O mundo está cheio de justiceiros e, como demonstra essa situação que vivi com o quadro de Cézanne, não importa o quanto o indivíduo se ache correto, a verdade é que ele possui uma visão de certo ou de errado que é somente sua.

Sob certos aspectos, sou uma pessoa afortunada. Sei medir o alcance das minhas palavras de tal forma que a patrulha tenta encontrar brechas sem sucesso, e acaba se resignando. A última vez em que fui questionado sobre um texto aconteceu alguns meses atrás, quando inadvertidamente escrevi nesse blog “a grande poeta espanhola Florbela Espanca”. Um equívoco pequeno – não sei onde estava com a cabeça, pois ela é portuguesa – , mas foi motivo suficiente para que a minha caixa de mensagens enchesse de recados. A grande maioria limitou-se a apontar o problema, mas outros foram irônicos (“logo vc, que se acha tão erudito”, adorei essa) e alguns descambaram para a fúria desarrazoada, chamando-me de preconceituoso, xenofóbico e inimigo de Portugal.

As pessoas mais preconceituosas que conheço são justamente as que pensam estar fazendo um “favor” apontando falhas, erros e preconceitos alheios. Da mesma forma, as pessoas que se dizem mais libertárias, progressistas e favoráveis à liberdade da expressão são as que mais vociferam quando alguém tem a ousadia de lhes questionar. Em geral, quem cuida das atitudes e falas dos outros diz mais a respeito de si mesmo do que dos “patrulhados”.

No mundo em que vivemos, parece inevitável ser objeto de patrulhamento e de constante vigilância. Escrever é se expor com palavras. Eu poderia fazer um longo arrazoado histórico sobre patrulhamentos, ou escrever um texto repleto de ironias, ou mesmo fazer um desabafo apaixonado a favor da minha liberdade de expressão. Poderia fazer tanta coisa, mas essa planura de pensamento me dá sono.

A única coisa que posso dizer para quem lê os textos ou observa a minha vida sob o prisma de achar erros, falhas ou preconceitos é que estão perdendo toda a diversão do caminho. Procurar fraturas em meio ao meu discurso é inútil – claro que ele possui ideologia, pois somos seres ideológicos, já diria Bakthin. A questão é: o quanto a tua ideologia sobrevive quando confrontada com a minha? És assim tão fraco(a) que uma imagem ou um texto podem te derrubar?

Os patrulhadores passam, mas a caravana continua seu caminho.

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Sempre esperamos uma mensagem de amor

Ontem assisti a uma montagem de “Yerma”, peça teatral escrita por Federico Garcia Lorca em 1936, e que revela uma incrível atualidade com questões que ainda afligem a Humanidade, como casais que não conseguem ter filhos, a pressão da família para que as mulheres engravidem, as fofocas constituintes de qualquer grupo social, os abortos e a liberdade feminina de dispor sobre o próprio corpo.

Sempre que vou assistir a uma adaptação de alguma obra literária, passo os dias anteriores e posteriores fazendo uma breve imersão no escritor e, assim, acabo redescobrindo algumas preciosidades que julgava esquecidas, bem como anotações de cenas e ideias de histórias futuras. É o Gustavo do passado deixando lembretes e migalhas para aquele que ainda virá.

Lendo a “Obra poética completa de Federico Garcia Lorca”, achei um papel com essa anotação: “Na fila do supermercado, uma moça contava para a outra a angústia que era esperar a mensagem do WhatsApp do rapaz que gostava”.

O poema foi escrito muito antes da criação destas inovações tecnológicas que, no fundo, não servem para esconder a grande verdade: sempre estamos esperando uma mensagem de amor, não interessa a forma ou o mecanismo, mas sempre esperamos.

Eis o poema que tal cena me recordou:

El poeta pide a su amor que le escriba

Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es inmortal. La piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.

Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena pues de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.

Mulher de vestido azul lendo carta – Johannes Vermeer

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A leitura selvagem

Todos dizem que a leitura está sob ameaça. Dizem que os leitores estão em extinção, substituindo os prazeres de um livro pela tecnologia cada vez mais onipresente. O governo afirma que vai investir mais e mais para ampliar a leitura de jovens e adolescentes, enquanto a sociedade reclama que falta investimento.

No entanto, não é o que vejo por aí. Sim, faz falta uma política global de estímulo à leitura, mas essa política seria melhor representada se, ao invés de lançarmos mais obras, concentrássemo-nos em proporcionar um maior acesso ao livro, além de apoio ao autor, reserva de mercado para autores locais (por quê não?), e toda uma rede de proteção à leitura que sabe que ela não se esgota com a leitura solitária de uma obra destinada ao vestibular ou a uma prova, mas é um processo a longo prazo.

Enquanto isso não acontece, percebo o crescimento de uma leitura selvagem, independente dos desejos dos governos ou das opiniões dos entendidos – uma leitura que sobrevive nos locais mais inesperados. Uma atitude quase rebelde e, por ser voluntária e não aparecer nas estatísticas, a experiência transgressora mais incrível – aquela que não é publicizada. Basta olhar para os lados e muitos leitores aparecem, apesar da nossa constante crise de desesperança.Vivenciei duas experiências recentemente:

1 – Quando voltava do Rio de Janeiro para Porto Alegre, ao meu lado no avião sentou-se uma menina de 08, 09 anos, acompanhada da sua mãe. Tão logo se acomodou, entregou-se à leitura de um livro. Curioso para saber qual obra prendia a atenção da minha colega de poltrona, espichei o olho e percebi que era “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry. Não resisti e perguntei o que ela pensava do livro. Muito séria, a menina respondeu que estava lendo pela segunda vez, para “conferir algumas coisas”, e continuava gostando bastante. Perguntou o que eu estava achando do livro que carregava (estou lendo “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby”, do Dickens, um portento de quase 1000 páginas) e respondi que também estava gostando. Assim como quem não quer nada, acrescentei “sabe, eu também escrevo livros…” Não é sempre que me identifico como escritor. A menina me encarou por uns segundos e ergueu “O Pequeno Príncipe”, perguntando “Bons como essa daqui?” Eu respondi que não, infelizmente não. Ela abriu o livro e disse “então não escreve direito, livro tem que ser bom.” Voltou a ler e não conversou mais comigo; perdi o respeito por causa da minha confissão. No meio da viagem, desistiu da leitura e se aninhou nos braços da mãe, dormindo com tranquilidade invejável.

 

Robert Doisneau, La ronde 1956

02 – No domingo passado, passava por uma avenida de Porto Alegre quando percebi um mendigo embaixo da marquise, lendo “O matuto”. Estava completamente envolvido com a leitura, os lábios formando as palavras, e eu paralisei no meio da caminhada. Não sabia que livro era aquele ou, melhor dizendo, nunca o tinha visto. Não sei o motivo, mas, na hora, recordei de José de Alencar. O mendigo percebeu que era observado e me encarou com semblante ameaçador, perguntando qual o problema. Eu confessei minha ignorância: não sabia que livro era aquele, podia me resumir a história? O mendigo ficou contente por ter um interlocutor que não o encarava com pena ou reprovação e desandou a resumir o livro, sobre um homem rico que foi raptado quando criança e levado para uma cidade do interior do país, crescendo como um analfabeto, até ser encontrado e assumir a posição de homem mais rico do país. A autora era Zibia Gasparetto, auxiliada pelo Espírito Lucius. Foi difícil me desvencilhar do mendigo, que desejava passar o dia todo falando sobre o livro. O seu entusiasmo de falar sobre a obra era tão genuíno que somente depois percebi: tanto ele não pedira dinheiro ou comida quanto eu esquecera de oferecer.

Apesar de tudo, apesar das opiniões bocejantes dos especialistas, apesar do descaso dos governos, apesar das inúmeras pessoas que apregoam a importância da leitura sem adotar nenhuma prática pessoal nesse sentido, ainda assim ela sobrevive. Não está nos holofotes, mas é um movimento subterrâneo, quase clandestino. Seja no silêncio do lar, seja em um elevador, seja debaixo de uma marquise, existe uma multidão de leitores silenciosos, e é neles que está o futuro do mundo.

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Sobre as pessoas que são ilhas

Juro que não pretendia falar sobre a palestra do escritor cubano Leonardo Padura ontem no Fronteiras do Pensamento 2017.  Comentar a fala alheia me soa meio redundante, para não dizer chato. Além disso, existem reflexões que são melhores de manter para nós mesmos – às vezes, tenho a sensação de que escrever algo mais estraga do que ajuda.

No entanto, quando alguns amigos escutaram a minha opinião sobre a fala do escritor (assim como a analogia que vi traçada dentro das suas palavras, se voluntária ou não é outra questão), pediram para que eu escrevesse. Meu pai, que não é homem de pedir textos, escutou o meu resumo da conferência e disse “tu devia escrever isso, é muito importante”. Não é sempre que escuto isso dele e, assim, só me resta obedecer.

Espero também que a organização do Fronteiras do Pensamento não queira me matar, pois Padura ainda dará a mesma conferência em São Paulo nessa semana e estou dando spoilers. Se os 200 e tantos leitores desse blog ouvirem falar que ninjas ou que a SWAT me raptaram, saibam que foi por uma causa nobre.

Uma retrospectiva. Dois anos atrás, eu palestrei para a SPPA – Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre  (outro agrupamento de pessoas que é espantoso que ainda não tenha me caçado como se faz com um tigre fugido do circo) sobre “O homem que amava cachorros”, de Leonardo Padura. Isso foi inclusive registrado em vídeo, e está aqui o link (perdoem minha verve, esqueci que estava sendo filmado e me entusiasmei um pouco, tanto que derrubei a água mineral sobre a mesa):

No momento das perguntas, alguém indagou por qual motivo Leonardo Padura não saía de Cuba. Por que não fugia, aproveitando-se de alguma viagem, e tentava se estabelecer em outro país, onde poderia começar vida nova, pois teria a sua carreira de escritor consolidada.

Se bem recordo, não fui capaz de responder essa questão de forma satisfatória, mas ela ficou ribombando na memória. Existem as opiniões mais diferentes sobre Cuba: alguns acham a ilha linda e um modelo de justiça social, outros a consideram um antro comunista. Não tenho opinião formada sobre o assunto, e ele não me interessa muito – não acho correto julgar sem ver e sem saber todas as nuances e, para mim, algo pode ser simultaneamente bom e mau. Foi estranho constatar que a posição de Padura de continuar morando em Cuba era vista tanto como uma declaração de que o regime comunista era ótimo quanto como uma demonstração de fraqueza do escritor, incapaz de escapar das “garras totalitárias”.

Ontem ele respondeu a dúvida, mas o fez de maneira tão discreta que periga ter passado em branco: para Padura, a literatura não é uma nação, mas a literatura é o escritor. A nação está dentro dele e, por extensão, dentro de cada pessoa.

É uma subversão do que estamos acostumados a imaginar: para Padura, a literatura não é o espelho da pátria (um abraço para Machado de Assis e para Joaquim Nabuco), mas uma experiência individual, assim como o próprio país. Cuba não é um espaço geográfico claramente delimitado, mas um universo interno ao escritor, repleto de personagens, situações, cores, cheiros, passado, presente e memória. Não é a Cuba real que ele aborda, mas o simulacro quase exato que existe somente dentro de si mesmo. Assim, para Padura, Cuba nunca sairá do seu interior, e o autor é incapaz de escapar do país real que corresponde à literatura que lhe habita – não pode abandonar o espaço físico onde cresceu e viveu, pois ele retroalimenta a literatura que forma a sua essência, a sua nação interna.

Estamos tão acostumados a ver a nação como um conjunto de indivíduos em prol de um objetivo comum e unidos pelo mesmo território que nunca paramos para pensar que ela existe somente no nosso interior, na visão que temos sobre a realidade circundante. Para escritores isso é mais evidente: não é o país real que eles abordam nas obras, mas a sua visão de país e de identidade nacional, algo que já passou por um filtro interno. Isso explicaria o motivo de algumas pessoas só verem o lado ruim dos países e outros só enxergarem benesses – a nação que os habita é uma diferente da do outro.

Para estabelecer essa analogia, a fala de Leonardo Padura foi sobre ILHAS, e tinha por título o verso de um poeta cujo nome me escapou: “A maldita circunstância da água por todos os lados”. A palestra tratou sobre as vicissitudes e estranhezas de morar em um país cercado por fronteiras líquidas. Abordou ainda as múltiplas maneiras através das quais os cubanos se relacionavam com as fronteiras que lhe prendiam em um lugar distante de outras terras, e as formas encontradas para rompê-las.

À medida que a fala transcorria, percebi que Padura não estava mais falando de Cuba como nação, mas de indivíduos como ilhas à solta no mundo. Não seria cada pessoa uma ilha, uma nação fechada em si, e as suas relações com o ambiente ao redor e com outras pessoas não constituiriam tentativas de escapar da solidão interna das nossas ilhas?

Nesse sentido, “a maldita circunstância de estar cercado de água por todos os lados” tem a ver com a solidão, o sentimento inexorável que cada ser humano sente por estar preso dentro da sua pele, dentro da sua individualidade. Seríamos ilhas desgarradas pelo mar do mundo, tentando nos relacionar e entender outros seres, o que explicaria o fato de algumas pessoas pensarem tão diferentes entre si – e nos permitiria compreendê-las não como formadas por opiniões, mas como ilhas com códices e vivências próprias.

Para um escritor – e aqui a reflexão é minha -, essa realidade é ainda mais desgastante. Se os outros são ilhas inconscientes tentando se ajustar por meio de acordos e tratados, nós somos territórios instáveis que preservam muito a sua independência. Devemos obediência irrestrita à nossa nação interna, e ela é caprichosa e possessiva (segundo Stendhal na sua biografia sobre Napoleão, o pequeno corso não era um homem, mas a representação do desejo da sua nação, por mais enlouquecedor que isso pareça – ser a voz de uma coletividade inteira). Estamos mapeando os limites e abismos da ilha que nos constitui, estabelecendo toda a mitologia que nos forma, e essa tarefa afasta os demais que – como já me disseram inúmeras vezes – não nos entendem. Falamos muito, mas dizemos pouco.

Quando mencionou o “Malecón”, o muro de 60 centímetros que separa Havana do mar, o escritor falou da relação dos “havaneros” com o muro: enquanto parte deles sentava e olhava para o interior da cidade, outros preferiam contemplar o oceano. Da mesma forma, alguns aproveitavam para conversar sentados no muro, enquanto outros passeavam e ainda outros praticavam o “dolce far niente”. Em alguns momentos, as imagens poéticas usadas evocavam o muro como um espaço físico que dividia as pessoas entre aquelas que preferiam contemplar a si mesmas e as outras que sonhavam com as realidades além do mar.

Ao abordar as maneiras encontradas pelos cubanos de saírem da ilha, que iam desde a fuga pura e simples até o pedido de asilo em outros países, Padura tratou da necessidade de pedir licença para morar em outro país e do esforço de compreendê-lo, das autorizações que precisamos solicitar para entrar em outros lugares. Retomando a analogia, o mesmo acontece com qualquer relacionamento: somos ilhas tentando traçar canais de comunicação e pedindo permissões para ingressar nos territórios alheios, conseguindo não a paz absoluta ou a dominação plena, mas uma relação de trocas e desvantagens mútuas.

A nossa angústia é nunca saber se a solidão será integralmente preenchida pela ilha do outro, se a ilha alheia não é mais compatível do que aquela que julgávamos ser perfeita. Chamou minha atenção o seu silêncio sobre a mais evidente das formas de sair de Cuba: a morte.

Foi com certa exasperação que o escritor disse que não podia sair da ilha, pois a sua essência estava ligada à Cuba que lhe habita. Ninguém pode sair de si mesmo. A ilha física é um detalhe que às vezes coincide ou não com a sua visão literária da Cuba, aquela que ele habita e da qual saem todas as suas histórias. Recordei o poema de Hilda Hilst: “Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.” Mesmo que estejamos distantes de onde nascemos ou acompanhados por outras pessoas, a triste realidade é que nunca conseguimos sair da solidão da nossa ilha interna. Foi o que ficou de mais fundo das palavras de Leonardo Padura: é irrerlevante se ele mora ou não em Cuba, ou a sua opinião sobre política. O que realmente importa é que as pessoas estão sempre sozinhas e insatisfeitas, e encontrar felicidades para povoar a nossa ilha interna deveria ser o único objetivo válido de vida.

Um último comentário: foi tão bonito o que Padura falou sobre Cuba, bem como as suas citações de Alejo Carpentier, que fiquei muito tentado a conhecer o lugar. Eis a força maior da literatura – sedução.

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O sonho do arco-íris e o persistente cheiro de sangue humano

Às vezes perguntam-me o segredo de escrever bem – como se existisse algum segredo nisso, e como se escrever fosse algo mensurável – e eu respondo com o sábio conselho da minha orientadora de Mestrado e professora Léa Masina: ler e decorar um poema em jejum, assim que acordar.

Por alguns anos consegui fazer essa “dieta” com moderado sucesso, mas, nos últimos tempos, percebo que os poemas outrora decorados estão sumindo. Um lado meu lastima que as leituras posteriores estejam apagando os poemas memorizados com tamanho afinco, mas outro lado exulta, pois não quer dizer que os poemas estejam sumindo, mas que estão se mesclando ao meu estilo. Não são poucas as ocasiões em que escrevo frases e sinto fantasmas de palavras que não são minhas, mas de Drummond, de Camões, de Shakespeare, de Petrarca. Estão todos dentro do texto, meus antigos amigos.

Eles surgem nas horas mais inesperadas, e abrem passagem aos trambolhões. Percebi um fenômeno muito interessante: a persistência das imagens poéticas. Assim como o marisco que gruda no rochedo e luta contra a onda, as imagens poéticas marcantes continuam vivas dentro da minha memória, revolvendo-se e surgindo quando o “gatilho” é acionado. Esses dias alguém me comentou “Raimundo”, e eu respondi automaticamente com o verso de Drummond, “mundo mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”. Outra pessoa comentou que seu filho escrevia ótimos poemas mas nunca mostrou para ninguém, e eu mencionei o “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, “o mundo é para quem nasce para o conquistar, mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, ainda que não more nela”. Uma escritora falou da sua dificuldade de escrever poemas e eu sugeri, sem pensar, “Penetra surdamente no mundo das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário”, e só depois notei que estava citando Drummond e a “Procura da poesia”.

As imagens poéticas não seguem a métrica original, como se pode ver por esses exemplos. Estão sintetizadas, cortadas, reduzidas àquilo que mais me impactou, em uma forma selvagem que lembra não somente os autores originais mas também as minhas reflexões sobre o assunto – e a de outros escritores. Quando deixada sem controle, a memória é mais feroz do que um tigre acuado.

Ao contrário de alguns colegas, que forçam a recordação para que ela traga à tona os poemas escondidos debaixo da sua camada de gelo, eu me resignei. Deixo a memória solta para fazer a associação que bem entender, e não me esforço em lembrar o desinteressante, mas prefiro destacar aquilo que me marcou. As imagens poéticas estão por todos os lados a me atormentar, podendo surgir quando menos se espera.

Não faz muito tempo assisti a um documentário, “The truth is in the stars”, uma série de entrevistas que William Shatner – o eterno Capitão Kirk da Enterprise – fez com uma série de físicos e artistas para ver o quanto Star Trek influenciou as suas vidas, indo de Ben Stiller até Stephen Hawking. Entre as entrevistas, ele passeou por Cambridge, a faculdade que, desde o seu surgimento em 1208, viu passarem pelos seus pátios Isaac Newton, Charles Darwin e o próprio Stephen Hawking.

Enquanto estava lá, Shatner contou a história do chinês Xu Zhi Mo que, em 1928, estudando em Cambridge, escreveu um poema que se tornou muito famoso na China, mesclando a visão oriental de mundo com as formas poéticas ocidentais. Ele costumava sentar em um banco debaixo de uma árvore, na frente do lago que corta a Universidade, e escreveu o poema “On Leaving Cambridge” desse ponto de vista.

On Leaving Cambridge

Softly I am leaving,
Just as softly as I came;
I softly wave goodbye
To the clouds in the western sky.

The golden willows by the riverside
Are young brides in the setting sun;
Their glittering reflections on the shimmering river
Keep undulating in my heart.

The green tape grass rooted in the soft mud
Sways leisurely in the water;
I am willing to be such a waterweed
In the gentle flow of the River Cam.

That pool in the shade of elm trees
Holds not clear spring water, but a rainbow
Crumpled in the midst of duckweeds,
Where rainbow-like dreams settle.

To seek a dream? Go punting with a long pole,
Upstream to where green grass is greener,
With the punt laden with starlight,
And sing out loud in its radiance.

Yet now I cannot sing out loud,
Peace is my farewell music;
Even crickets are now silent for me,
For Cambridge this evening is silent.

Quietly I am leaving,
Just as quietly as I came;
Gently waving my sleeve,
I am not taking away a single cloud.

Tão famoso ficou esse poema que o governo chinês mandou encravá-lo em uma rocha, a qual foi colocada em Cambridge, próxima ao banco onde Xu Zhi Mo se sentou e teve a sua inspiração. Hoje é um ponto famoso de visita, e é muito legal ver quando algo sai da literatura e invade a realidade.

“On Leaving Cambridge”, de Xu Zhi Mo

Desde o momento em que soube essa história e li o poema, encantei-me por uma imagem: a água que está debaixo da sombra dos olmos que se projetam sobre o rio e contém, no seu interior, os sonhos do arco-íris. Tão poderosa essa construção que não consegui mais olhar as cenas filmadas em Cambridge sem imaginar como seriam os sonhos do arco-íris escondidos pelos multifacetados cristas de água que ondulam, sábios, na corrente tão enganadoramente pacífica.

Coincidência ou não, na mesma época em que assisti a esse documentário, estava lendo “Conversas com Francis Bacon”, escrito por Franck Maubert, reunindo algumas das conversas mantidas pelo jornalista com o pintor sobre arte, sobre literatura e sobre o mundo. Admiro muito a carnalidade quase obscena das obras de Francis Bacon – é o tipo de quadro que não entendo o motivo pelo qual me fascina, mas não consigo afastar os olhos. Uma explicação possível, quase indiferente, é dada pelo próprio artista: ele tenta pintar a carne fora do corpo que lhe confina, ou seja, a carne é algo que se despeja para fora do limite corporal. Essa ideia é absolutamente fascinante: quem nos garante que o corpo não é uma prisão, e a carne seria algo ansioso para explodir e se libertar da sua materialidade constrangedora?

Irritei-me um pouco com a tentativa explícita de Maubert de ver as influências da fotografia, do cinema e de outros pintores sobre o trabalho de Francis Bacon, quando o artista afirma diversas vezes que a sua fonte maior de inspiração eram as imagens presentes nos poemas de Shakespeare, de Racine, de Dante, de Yeats, de T. S. Eliot. Por que é tão difícil acreditar que a literatura pode ser fonte de criação para outras formas de expressão artística? O fato dela não possuir imagens não quer dizer que somente imagens podem inspirar outras.

“Estudo para um retrato” (1952), Francis Bacon

Nas ocasiões em que citou a literatura como meio de inspiração, o pintor menciona a inquietação que alguns textos geravam na calma do seu espírito, tão forte que a única maneira encontrada para expiar o sentimento era através da pintura. Da mesma forma que acontece comigo, Francis Bacon não lembrava os poemas completos, mas as imagens poéticas evocadas pela memória, tão poderosas que tinham sobrevivido à erosão da memória e do tempo, e assim citou de cabeça versos de Yeats e de Eliot.

Foi numa dessas recordações que Francis Bacon mencionou um verso de Ésquilo nas “Eumênides”, algo tão impactante que cravara os dentes na sua personalidade e acabara se transformando quase em um credo pessoal. O verso era “O cheiro do sangue humano não desgruda seus olhos de mim”.

No entanto, esse verso não existe. Como o jornalista fez questão de destacar em uma nota de rodapé, apesar de ter sido citada pelo pintor por inúmeras vezes dessa maneira, o verso constante na obra de Ésquilo era “O cheiro do sangue humano me sorri”. Mauteck levanta a hipótese de que Bacon tenha se apossado desse verso das “Eumênides”, deixando de ser do dramaturgo grego e passando a ser propriedade sua. Era uma criação nova, cheia de vida e de ferocidade, engendrada por uma memória que não só recordava, mas era igualmente uma força inventora dotada de mecanismos próprios.

Foi algo que acabou me trazendo um consolo: não esqueci aquilo que levei tantos anos para saber, mas estou digerindo os poemas de muitos autores inesquecíveis e, no meio dessa confusão, existem estrelas – imagens poéticas – que reluzem com raiva indômita, aparecendo nos momentos mais inesperados. Tantas pessoas reclamam da falta de memória, mas eu acredito que a minha, em um processo de sobrevivência, está se canibalizando. A memória escolhe os temas e eu dou gume, alada rima, fazendo deles flechas exímias que, após lançadas, voarão certeiras até que a presa, nosso inimigo, se lamente. Nada como acabar um texto invocando a sombra de Aleksandr Pushkin – ou a minha, já não sei mais quem está falando aqui dentro.

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Dois cadáveres frente a frente

Alguns dias atrás, o Canadá descriminalizou o duelo. A partir de agora, está legalmente aceito em terras canadenses o uso de duelos para arbitrar conflitos de uma maneira civilizada. Mas não nos empolguemos: na realidade, a legislação já existia. A circunstância dela não ter sido revogada em uma recente alteração legislativa no Canadá levou a concluir que os duelos ainda seriam possíveis, acaso preenchidos os requisitos legais. Mais detalhes estão nesse link: http://mundoestranho.abril.com.br/blog/contando-ninguem-acredita/com-reforma-no-codigo-penal-canada-descriminaliza-o-duelo/

Sempre senti uma forte atração por narrativas envolvendo duelos. Gosto da ideia de uma desavença entre duas pessoas ser resolvida de maneira civilizada entre somente ambas, sem envolver multidões. Em um mundo repleto de insignificâncias e de pessoas atacando e difamando pelas costas, soa quase utópica a ideia de homens e mulheres resolvendo eventuais problemas através de uma luta justa que limpe a honra com sangue.

Como não lembrar de “O duelo”, magistral conto de Tchekhov? Ou de “Duelo”, escrito por Guimarães Rosa? Também é possível citar “Os duelistas”, de Joseph Conrad – aliás, considerei o livro mais intenso do que o filme de Ridley Scott. Contudo, minha memória literária está afetivamente ligada a uma obra menor de Alexandre Dumas, “Os irmãos corsos“. Foi um livro que li quando era pequeno, e ainda me recordo a história dos irmãos gêmeos que conseguem sentir as dores e sofrimentos um do outro à distância. Quando um deles, o mais fraco e despreparado militarmente, morre em um duelo por causa de uma mulher, o outro vai vingá-lo em um novo duelo, fiel às tradições da Córsega. É uma história muito bonita, de amor de irmãos, de honra, de luto expiado pelo sangue. Esse livro vive nas prateleiras da minha memória, pois nunca mais o encontrei nas bibliotecas do mundo.

“Duelo depois de um baile de mascarados”, de Jean-Léon Gérôme

(Nesse momento abro um parênteses para lembrar o nome do pior duelista de todos os tempos, o nosso Euclides da Cunha, que pegou um militar com a sua mulher na cama e errou dois tiros, dando tempo para o homem desnudo pegar a própria pistola e matá-lo).

Entre os escritores, o maior duelista de todos foi o russo Aleksandr Pushkin, autor do incrível “Eugene Onegin” e, na minha opinião, o maior escritor russo que já existiu (e olhem que a concorrência é pesada). Gosto muito da história do duelo em que ele deixou o adversário desconcertado quando comeu cerejas sob a mira da pistola. Contei isso no texto que está no link http://wp.me/p24M2p-Ld , e aconselho que todos leiam como um modelo de comportamento digno diante da morte.

Pushkin era um homem que se irritava com facilidade. Durante a sua curta vida, ele convidou 20 desafetos para duelos – e recebeu convites para duelar de outros sete homens. Um homem bem esquentado. O primeiro adversário que convidou para duelar foi o próprio tio, quando ele tinha 17 anos: o tio roubou a mulher com quem ele estava dançando em uma festa, e isso foi o estopim para a briga, a qual não foi levada às últimas consequências, com os dois fazendo as pazes.

Grande parte das contendas do escritor russo foram evitadas por seus amigos, que negociaram essas questões de honra antes de chegarem até o final. Não surpreende que tenha morrido por causa de um dos duelos que foi impossível negociar. Detalhe interessante é que Pushkin nunca deu o primeiro tiro nos duelos de que efetivamente participou, ou seja, nunca ganhou um mísero cara e coroa para ver quem disparava primeiro.

Pushkin teve muito azar no seu último duelo, realizado contra Georges D’Anthès, que teria sido publicamente apontado como amante da esposa de Pushkin, a famosa Natalia Gontcharova. Dessa vez o escritor pegou pela frente um atirador experiente, e os dois não observaram a distância regulamentar de 25 a 30 passos de distância para o disparo, combinando somente 10 passos. O escritor foi atingido no estômago mas, antes de cair, ainda alvejou o adversário na mão. Mesmo agonizando no hospital, preocupou-se com o destino de D’Anthès, perdoando-lhe e pedindo para que o czar Nicolau não condenasse o seu adversário à morte (duelos eram proibidos na Rússia, e esse foi realizado de forma ilegal).

“Pushkin se despede do mar”, de Ivan Aivazovski

Existiu honra no comportamento de Aleksandr Pushkin. Estava com um problema com outro homem e, ao invés de fazer uma campanha de difamação ou de xingá-lo pelas costas (ou até responsabilizar a mulher pela traição, algo que somente covardes fazem), decidiu resolver a desavença frente a frente. No mundo atual, estamos tão acostumados a ver pessoas evitando os seus problemas e preferindo culpar os outros que até parece difícil de entender que a melhor maneira de resolver uma divergência é encarando a própria fonte causadora para chegar a uma resolução.

As situações seriam muito mais simples se, ao invés de perdermos tempo envolvendo outras pessoas nos nossos próprios dramas, tentássemos resolvê-los sozinhos. Mais e mais me convenço do fato de que sou o artífice do meu destino e, quanto menos gente se envolver nos meus conflitos, melhor será para todos. Nesse sentido, oportuno lembrar o pequeno conto do escritor argentino Rodolfo Walsh, cuja lição é muito atual: quando enfrentamos o nosso problema sem interferências de outras pessoas, existem somente dois cadáveres na sala – o meu e o outro. É dessa maneira que pessoas de valor resolvem seus problemas, frente a frente, confiantes nas suas habilidades e sabendo que, mesmo derrotados, ainda assim tinham razão na sua causa.

Deixo aqui o pequeno conto de Walsh, traduzido por Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni:

 

A cólera de um plebeu

(autor chinês anônimo)

 

O rei do T’sin mandou dizer ao príncipe do Ngan-ling: “em troca de tua terra quero dar-te outras dez vezes maiores. Peço que acates minha demanda.” O príncipe respondeu: “Faz-me o rei uma grande honra e uma oferta vantajosa. Mas recebi minha terra de meus antepassados príncipes, e desejaria conservá-la até o fim. Não posso consentir nessa troca”.

O rei se zangou muito, e o príncipe mandou T’ang Tsu em embaixada. O rei disse ao embaixador: “O príncipe não quis trocar sua terra por outras dez vezes maiores. Se teu senhor ainda conserva seu pequeno feudo, quando já arrasei grandes países, é porque até agora o considerei um homem venerável e não me ocupei dele. Mas se ele agora recusa sua própria conveniência, realmente está zombando de mim”.

T’ang Tsu respondeu: “Não é isso. O príncipe quer conservar a herdade de seus avós. Ainda que lhe oferecêsseis um território vinte vezes maior, ele igualmente o recusaria”.

O rei se enfureceu e disse a T’ang Tsu: “Sabes o que é a cólera de um rei?”. “Não”, respondeu T’ang Tsu. “São milhões de cadáveres e o sangue correndo como um rio em mil léguas à roda”, disse o rei. T’ang Tsu então perguntou: “Sabe Vossa Majestade o que é a cólera de um simples plebeu?”. Disse o rei: “É perder as insígnias de sua dignidade e partir descalço golpeando o chão com a cabeça”. “Não”, respondeu T’ang Tsu, “essa é a cólera de um homem ordinário, não a de um homem de valor. Quando um homem de valor se vê obrigado a encolerizar-se, cadáveres aqui não há mais que dois, o sangue corre a apenas cinco passos. E, no entanto, a China inteira se veste de luto. Hoje chegou esse dia”.

E se levantou, desembainhando a espada.

O rei turbou-se, saudou humildemente e disse: “Mestre, volta a sentar-te. Para que chegar a isso? Já compreendi”.

Um último detalhe: adoro o final seco desse conto, em que o rei praticamente diz “meu jovem, qual a necessidade disso, senta aí e vamos conversar.”

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