Arquivo da categoria: Generalidades

Emerson e um credo pessoal

Há alguns dias penso no trecho de um ensaio de Ralph Waldo Emerson no qual ele afirma que as bibliotecas seriam gabinetes mágicos que reúnem muitos espíritos aprisionados no interior de livros. Cada volume contendo histórias seria um objeto espacialmente determinado (tamanho, espessura, páginas), mas o infinito se projeta para o seu interior, pois, antes de abri-lo, nunca saberemos o tipo de espírito que o livro esconde, se virá nos alegrar, nos assombrar, nos deixar tristes ou mesmo nos entediar. É o leitor quem determinará a sorte do espírito que surgirá diante de si. Segundo o filósofo, “a natureza e os livros pertencem aos olhos que os veem”.

Na sequência desse raciocínio, Emerson afirma que a biblioteca de um homem é idêntica a um harém, no qual ele seleciona a companhia ideal para lhe entreter, mais ou menos como um sultão diante das suas mulheres.

Imaginar-me cercado por aproximadamente 3.000 lâmpadas mágicas na forma de livros, com espíritos ansiosos para se libertarem por um tempo e infestarem a minha mente, foi um pensamento que me inquietou. Sentia-me como se estivesse sentado em meio a um campo minado, e o menor movimento pudesse detonar bombas de consequências imprevisíveis. Os livros pareciam me contemplar com seus olhinhos, todos descansando nas prateleiras.

Mas, em seguida, pensei na invulgar oportunidade que tenho. A qualquer momento do meu dia, posso chamar um amigo para me fazer companhia por alguns minutos ou mesmo algumas horas; posso sentar-me na minha poltrona e escutar Benedetti recitando poesias, ou encantar-me com as fábulas de Sheherazade, ou sonhar com os mundos impossíveis de Marco Polo e que existem somente no universo improvável que une imaginação e papel. Não tenho nenhum amigo ou amiga chata, eles sabem exatamente as palavras que preciso. Não só isso, posso olhar um quadro de Caspar David Friedrich e escutar uma música de Brahms, transportando eu e meu amigo de palavras para um local impossível que só existe dentro de mim mesmo.

Ou, como agora, posso estar admirando os quadros de Juan Manuel Blanes e escutando o maravilhoso “Canon em D” de Johann Pachebel (uma das músicas que nos aproximam da perfeição como seres humanos), enquanto leio os poemas de Borges. Esse link aqui com a música é o melhor que conheço:

Também imaginei a biblioteca como um harém, e pensei em 3.000 mulheres ondulando cicios de seda, todas ávidas por passar alguns minutos tentando me atrair com a sua sedutora conversa – pois sou alguém que olha o mundo como uma Matrix não computacional, mas como uma longa estrutura de histórias entrelaçadas e, para mim, toda sedução começa e se sustenta através de palavras. Acham que as pessoas procuram beleza, juventude ou dinheiro, mas, no final do dia, o importante mesmo é sermos capazes de estar com alguém que nos seduz contando histórias ou compartilhando a sua visão de mundo.

Ralph Waldo Emerson é um dos escritores que possuem o dom de acalmar meu espírito. É um autor que transmite serenidade e segurança – vai dar tudo certo, vai dar sim. Escreve como se cada frase fosse enganosamente simples, mas todas escondem um universo tranquilo ao invés de algo repleto de caos e destruição disfarçada, em que causa e efeito estão interligados, em que somos os frutos não de nossas escolhas, mas de nossa ética. Como não se sentir calmo após essa leitura:

“É fácil viver no mundo conforme a opinião das pessoas. É fácil, na solidão, viver do jeito que se deseja. Mas o grande homem é aquele que, no meio da solidão, mantém com perfeita doçura a independência da própria solidão.”

Os seus aforismas caem no espírito como pedras que mostram ao lago a sua natureza quebradiça. “O silêncio que aceita o mérito de alguém como o fato mais natural do mundo é o mais retumbante aplauso que qualquer pessoa pode ganhar” – persigo a verdade dessa frase. Não almejo elogios, considero-os enganosos; muito menos honrarias, pois são efêmeras como falenas. Busco o silêncio de ser alguém tão além do alcance que sequer existem palavras suficientes para classificar.

Ou então “afinal, o que é uma erva daninha, senão uma planta da qual ainda não descobriram as suas virtudes?”. Todos têm virtudes, é só uma questão de ser paciente para encontrá-las. Julgar alguém com pressa é olhar somente um detalhe. Sem contar que é perigoso: como Freud dizia, quando Paulo fala sobre João, está falando mais sobre Paulo do que sobre João.

Outra frase memorável: “A única recompensa da virtude é a própria virtude. A única maneira de ter um amigo é ser um.” Ontem fui questionado sobre a vacuidade de agir com virtude em um mundo no qual ela não só não é reconhecida, como é inclusive temida por revelar as fraquezas alheias de caráter, e disse quase o mesmo: agir com virtude não necessita de aprovação externa, a única recompensa interessante é a satisfação pessoal.

No entanto, a mais importante frase de Ralph Waldo Emerson, e que tenho quase como um credo pessoal, apesar de admitir minhas muitas e humanas falhas, está aqui:

Rir muito e com frequência; ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; merecer a consideração de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar a beleza e sempre buscar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma saudável criança, um canteiro de jardim ou uma redimida condição social; saber que ao menos uma vida respirou mais fácil porque você viveu. Isso sim é ter tido sucesso.

Ser digno de merecer essas palavras ao final da vida – este é o único objetivo a que me proponho.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Biblioteca, Filosofia, Generalidades, Johann Pachebel, Livro, Música, Ralph Waldo Emerson

Dizer as palavras que realmente importam

Quando era bem mais novo, e estava ainda começando no Direito, eu assistia a uma série de televisão que passava na Fox Brasil, “The Practice” (“O Desafio” na versão em português). Era o seriado que melhor expressava as realidades, dores e pequenas alegrias do Direito. Um grupo de advogados jovens querendo mostrar serviço, às vezes agindo de forma atabalhoada, em outras sendo brilhantes e perdendo as lutas, usando todos os métodos possíveis para que seus clientes ganhassem as disputas jurídicas. Mais ou menos como a vida de qualquer advogado que sai da faculdade e, com fogo nos olhos, tenta subjugar o mundo.

Existia um aspecto de construção do roteiro que era muito bem realizado. No início de cada episódio, o espectador era apresentado para uma série de imagens cortadas: um corpo; uma pegada; uma faca coberta de sangue; uma janela com a cortina esvoaçando. Alguém era acusado pelo crime e o restante do episódio eram os advogados pegando essas cenas e tentando construir uma narrativa verossímil que lançasse dúvidas sobre a culpa do seu cliente e permitisse que ele fosse libertado. É assim que a vida real nos apresenta toda situação – um aglomerado disforme de elementos díspares para o qual tentamos encontrar um fio condutor que forneça algum sentido.

No final do episódio, vinha A VERDADE (era como eu chamava o momento): após a condenação ou libertação do cliente, os espectadores enfim sabiam a verdade dos fatos, e podiam comparar com a narrativa fictícia criada pelos advogados para provar a sua tese. Era decepcionante quando eles faziam o espectador acreditar que o cliente era inocente, mas, na verdade, era culpado. No entanto, o pior momento era quando víamos um inocente condenado por um crime que não cometeu simplesmente por que não conseguiram contar com suficiente verossimilhança a verdade que ele insistia em dizer.

Se hoje recordo desse seriado é por causa de uma cena que marcou a minha vida, tanto que, passados mais de 15 anos, ainda a recordo em detalhes.

No episódio, os advogados receberam um caso aparentemente não tão complexo, e se entregaram a ele com fúria para conseguir libertar o cliente, pois acreditavam na sua inocência. Estavam com uma energia desproporcional para a situação – afobados demais – e estabeleceram uma série de conflitos secundários: brigaram com o juiz, com o promotor do caso, entre si, com todo mundo. Realizaram uma série de incidentes infundados, audiências paralelas e petições cansativas que foram desgastando a paciência do Poder Judiciário, aquilo que hoje chamaríamos carinhosamente de “chicanas jurídicas”. Batiam de forma insistente na mesma tecla, “dúvida provável”: se existir uma sombra de dúvida sobre a culpabilidade de alguém, por menor que seja, deve-se inocentar tal pessoa.

Eles conseguiram montar uma história verossímil, e todas as provas acabaram ficando a seu favor, tanto que consideravam certa a vitória. No entanto, o cliente foi condenado.

Ao final do episódio, um dos advogados chefes do escritório está em um banco do Forum, exaurido, derrotado, a cabeça entre as mãos. Um jurado do caso passa por ele e, mesmo sendo proibidas as comunicações durante e após o julgamento, o advogado não resiste e interpela o outro: se as provas estavam todas a favor, se a narrativa era verossímil, se tudo apontava para a “dúvida provável” do homem em julgamento, por que diabos ele foi condenado?

O jurado olha o causídico de cima a baixo: “vocês nunca disseram que ele era inocente, doutor”. E se afastou, enquanto o advogado contemplava-o fixamente. Em seguida, no momento A VERDADE, ficava demonstrado que o condenado era inocente mesmo.

A ausência de uma palavra só definiu o destino de um homem.

Às vezes, estamos tão envolvidos com uma situação que esquecemos de dizer as palavras mais importantes. Tão concentrados em analisar situações, construir justificativas e torpedear argumentos alheios que deixamos de lado a verdade contidas nas palavras mais simples. Esquecemos o essencial, iludidos pela ilusão e pelas possibilidades.

Ontem estava relendo o “Decálogo do Perfeito Contista”, do Horacio Quiroga – uma série de ensinamentos a que sempre retorno em busca de respostas não literárias, mas para a vida – e a regra VI é preciosa:

“Se queres expressar com exatidão esta circunstância – ‘Desde o rio soprava um vento frio’ -, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor de tuas palavras, não te preocupa em avaliar se são consoantes ou dissonantes.”

“Palavras, palavras, palavras”, disse Hamlet de Shakespeare, arremessando longe um livro. “Palavras, palavras e mais palavras ainda”, disse Lorde Harry de Oscar Wilde, suspirando de enfado. Quem pode dizer a respeito de si próprio que é “senhor de suas palavras”?

Acabamos nos perdendo em um emaranhado tão grande de palavras que esquecemos de dizer aquelas que realmente importam. Usamos eufemismos, metonímias, metáforas, e deixamos de lado a expressão que se  encaixa com exatidão no que pensamos.

O resultado é idêntico ao de julgamento no “The Practice”: tanto desejamos dizer algo que falamos tudo, menos a palavra decisiva.

Um dos meus poemas favoritos de Aleksandr Pushkin, “O prosador e o poeta” (tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher), afirma que, enquanto o primeiro se esmera na busca dos temas, o segundo se encarrega de transformar as palavras em flechas certeiras na direção do leitor:

O PROSADOR E O POETA

Por que te inquietas, prosador?
Escolhe os temas e, ao que for,
eu darei gume, alada rima,
e farei dele flecha exímia
que, após deixar a corda tesa
do arco dobrado servilmente,
voará certeira até que a presa,
nosso inimigo, se lamente!

Hoje vivemos uma época em que, mais importante do que a precisão da palavra brandida como flecha, o essencial é usarmos palavras como se fossem tiros de metralhadora. Muita dispersão, pouco foco. Muita força e impetuosidade, pouca clareza e direção.

Também estamos em um mundo no qual as pessoas se esquecem de dizer ou mostrar que são inocentes, e nos perdemos em distrações, detalhes, informações contraditórias ou – o pior – palavras vazias de vontade. Adorno escreveu que existem músicas que não são músicas, aquelas feitas sem nenhuma emoção e que ocupam o espaço do silêncio (aliás, por que tememos tanto o silêncio?), por exemplo, a música que toca em estabelecimentos comerciais ou dentro de elevadores.

Pois também existem palavras repetidas à exaustão, geralmente ditas sem qualquer reflexão sobre o seu conteúdo – discursos vazios, cansados, sem nenhuma vontade que não seja a de marcar uma pálida posição.

Enquanto isso, assim como em “Procura da Poesia” do Drummond, as palavras continuam esperando que alguém vá buscá-las no seu reino, paralisadas, mas sem desespero. Esquecemos de dizer as palavras que importam e, por causa desse silêncio, somos forçados a conviver com o precipício das verdades não-ditas na época certa.

2 Comentários

Arquivado em Aleksandr Pushkin, Carlos Drummond de Andrade, Direito, Horacio Quiroga, Palavra, The Practice

Duas balas, e o fim da piedade

Em qual momento deixamos de sentir piedade e passamos a nos guiar por uma lógica utilitarista, na qual somente os úteis devem ser preservados e os que consideramos “inúteis” descartados?

Essa foi a pergunta que passou a me assombrar desde o momento em que assisti “Os Canhões de Navarone” (1961), filme inglês que conta a história de como, na Segunda Guerra, um grupo de soldados invadiu a ilha de Navarone com o intuito de explodir os dois canhões que impediam o resgate de uma parte do exército aliado acuada na ilha de Kheros, na Grécia.

O chefe da expedição, o major Franklin, sofre um acidente logo no início da delicada tarefa, quebrando uma perna. Esse problema de saúde iria prejudicar o seu deslocamento e, em uma missão na qual a surpresa e a velocidade eram fatores essenciais, não é difícil imaginar que um homem de perna quebrada atrapalharia o objetivo maior, que era destruir os dois canhões e salvar centenas de soldados em perigo.

Em um primeiro momento, ainda imbuídos do espírito heroico, o grupo improvisou uma maca e passou a carregar o homem ferido. No entanto, o tempo corria cada vez mais rápido. Os homens precisavam escalar montanhas íngremes, esconder-se em cavernas, deslizar por entre florestas, e viam o objetivo distante por culpa do peso extra que precisavam carregar. Isso os levou ao questionamento inevitável: não seria melhor descartar o homem ferido, deixando-o para trás? No entanto, quando ele fosse capturado, poderia acabar entregando os planos, e isso inviabilizaria ainda mais a missão.

Consequência lógica desse impasse foi se perguntarem se não seria melhor matar o major ferido. Isso o salvaria da dor da perna quebrada (a qual estava gangrenando) e ainda evitaria que os alemães descobrissem os detalhes do plano.

É evidente que o major tinha um dedicado amigo entre os soldados, interpretando o contraponto da ideia para a plateia, que levantou toda a sorte de objeções ao assassinato do companheiro, indo desde a chantagem até as ameaças e súplicas. Justiça seja feita: o próprio major Franklin percebeu que era um estorvo e tentou se matar, mas foi impedido. E a todas essas o tempo correndo e a missão cada vez mais difícil e distante, enquanto carregavam o ferido.

Mesmo contra todas as evidências de que o sacrifício para manter o companheiro vivo era desproporcional, os homens não capitularam. Mesmo tendo várias oportunidades de matá-lo, mesmo com o aumento da dor que ele sofria na perna quebrada, o grupo de soldados deixou o homem vivo. Só o abandonaram nas mãos de um general grego à serviço dos nazistas que, com toda a galhardia possível para o momento, se comprometeu pessoalmente a prestar todos os cuidados médicos para o ferido, dizendo que “não era assim que pessoas corretas se portavam”. Na última cena em que aparece no filme, o major ferido está no hospital alemão quando escuta a destruição dos temidos canhões, e comemora em silêncio a vitória dos companheiros.

Algo nessa insistência em salvar a vida do soldado machucado, mesmo que com sacrifício pessoal e colocando em risco o objetivo maior, me incomodou. Não em relação à nobreza do gesto, mas por ver o quanto modificamos a nossa visão de mundo nos parcos 56 anos que nos separam do filme (vale realçar que o único personagem ficcional acrescentado na história real da destruição dos canhões de Navarone foi justamente o major Franklin, ou seja, a questão “devemos manter vivo ou matar aquele que nos atrapalha?” foi intencionalmente acrescentada ao filme).

Nos tempos atuais, teríamos concordado em silêncio com a morte do major ferido. Teríamos inclusive sugerido tal opção em primeiro lugar, antes mesmo de tentar salvá-lo (até antes mesmo de tentar lhe aplicar remédios), por ser o caminho mais lógico em busca do bem maior: salvar os 2.000 soldados sitiados em Kheros. A vida de um é menos valiosa do que a vida de muitos, pensaríamos com toda a tranquilidade, enquanto comemos pipoca e vemos algum soldado explodir a cabeça do “estorvo” azarado que estava no caminho da missão.

Dificilmente alguma pessoa no mundo atual concordaria em manter vivo um homem ferido. Pensariam que era melhor uma solução piedosa, uma eutanásia rápida para lhe “impedir de sofrer”. Mentira: na verdade, preferimos matá-lo por que ele está atrapalhando. Tentar salvá-lo seria colocarmo-nos em risco, pensaríamos como consolo, ao invés de ver que seguir o caminho piedoso é muito mais difícil do que aparenta.

É mais fácil matar o obstáculo do que tentar resolvê-lo. Todas as elucubrações e voos mentais que realizamos para matar o major ferido é para esconder o fato de que somos covardes e, em um dilema moral, geralmente obedecemos a solução mais simplista, posto que mais cômoda. Nenhum de nós pensa em salvar o homem que se machucou por uma questão de azar, preferimos descartá-lo o quanto antes, e, para isso, culpamos a vítima, culpamos o destino, culpamos a coincidência, culpamos qualquer coisa se, assim, conseguirmos ter um farrapo de justificativa, algo capaz de nos fazer dormir bem à noite.

Confesso – ora, sou um ser humano atual, não consigo escapar de mim – que a insistência em preservar a vida do homem ferido me irritou. Não foram poucas as  vezes que pensei “dá logo um tiro nele e acaba com essa questão”. Era visível que perdiam muito tempo tentando salvar alguém que não tinha chance de sobrevivência, parecia mais teimosia do que heroísmo.

No entanto, foi somente ao final do filme, quando vi o major Franklin vivo (justamente por terem o deixado para trás que o plano acabou se tornando um sucesso, ainda que graças àquela dose de causalidade que só existe na ficção, plantar uma mentira no homem a ser interrogado para que a mentira se espalhe entre os inimigos), que percebi que a maior vitória não foi destruírem os canhões de Navarone, mas não terem cedido aos ímpetos de selvageria e comodismo que autorizariam a morte de um inocente por mera conveniência. O verdadeiro heroísmo do filme foi não terem capitulado nos seus valores humanos, e terem mantido a piedade por um semelhante mesmo quando a lógica apontava o contrário. Lembra a famosa frase de Spock em “Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan”: “a lógica diz que as necessidades de muitos se sobrepõem às necessidades de poucos, ou de um só”. Nem sempre isso é verdade.

Não pude deixar de pensar em quantos filmes, séries e livros defendem com tranquilidade a morte de uma pessoa em benefício de outras. Está tão arraigado no nosso imaginário que bocejamos quando esse momento chega e dizemos com exasperação “tá, mata logo ele”, como se estivéssemos no anfiteatro romano esperando a próxima atração sanguinolenta. Deixamos de pensar que toda a vida é preciosa, e passamos a ver que algumas vidas são mais preciosas e necessárias do que outras, ou que algumas pessoas vieram ao mundo com o intuito único de morrer e deixarem de nos estorvar.

Existe uma mudança no pensamento atual, e isso aparece claramente nos filmes. Não há espaço para tiros de alerta ou para balas distraídas; a precisão na morte do outro tornou-se esteticamente brilhante, parece uma dança. Em filmes como “John Wick – De Volta ao Jogo” ou no seriado do “Justiceiro” na Netflix, em algumas cenas de violência percebe-se o mesmo “modus operandi”: o “heroi” (??) dá sempre dois tiros certeiros, o primeiro em algum órgão ou membro incapacitante, tipo braço, perna ou barriga, e o segundo – à queima-roupa – na cabeça do inimigo. De duas em duas balas, ele vai deixando uma fileira de mortos cujos rostos nem sequer conseguimos ver. Máxima precisão com o mínimo de desperdício de balas. Até mesmo matar pode ser um gesto econômico.

Não estamos mais vivendo na época em que salvar uma vida era salvar um mundo inteiro. Estamos no período em que matar com efetividade é mais importante do que perder tempo preservando vidas. Deixamos a piedade de lado e nos tornamos mais brutais e práticos. O mundo é dos fortes, e não dos que possuem valores sólidos.

Compreender – e aceitar isso como algo inexorável – talvez seja a melhor forma de entender o mundo em que estamos. Um local repleto de pessoas procurando explicações tênues para justificar as suas falhas de caráter. Um local em que culpamos as vítimas para esconder as nossas fraquezas. Um lugar em que é melhor destruir do que salvar.

1 comentário

Arquivado em Cinema, Compaixão, Generalidades, John Wick - De volta ao jogo, Justiceiro, Os canhões de Navarone

O Mal que mora no meio das boas intenções

Uma das grandes ingenuidades atuais é imaginar que, se alguém denuncia e descreve a existência do Mal, irá evitar que ele ocorra no futuro.

O uso errado da denúncia como força catártica e explosiva – apesar do alívio momentâneo – realiza justamente o contrário: acaba propagando o Mal. Dando ideias para outras pessoas que, se não fosse a denúncia realizada de maneira impensada, jamais teriam chegado sozinhas a tais conclusões. Como uma avalanche, a boa intenção perde a sua intenção inicial e acaba se transformando em inspiração descontrolada para novas maldades.  O Mal fomentando um Mal muito maior.

Não digo que não seja importante denunciar. Sim, precisamos saber o que acontece no mundo, precisamos compartilhar nossos receios e medos. No entanto, existe uma forma de fazer isso, e ela passa longe da ironia ferina, dos palavrões, das frases impensadas que acabam ensinando o caminho do Mal para aquele que nunca tinha pensado naquilo antes. Todos brincam com a frase de Hemingway, “write drunk, edit sober“, mas nunca imaginaram que ela pode ser uma metáfora para “viva loucamente, reflita com calma”. Mais adequado o ensinamento expresso por Horacio Quiroga na nona norma do “Decálogo do perfeito contista”: “não escreva sob o império da emoção. Deixe-a morrer, e então a evoque. Se és capaz então de revivê-la como foi, atingiste na arte a metade do caminho”. O que mais existe hoje são pessoas que escrevem com a emoção à flor da pele, sem desconfiar de que correm dois riscos: ou fazer algo ridiculamente piegas ou, de forma inadvertida, glorificar o Mal e passá-lo adiante.

Muitos anos atrás, fui contratado para defender um rapaz que cometeu um crime bobo: recém-saído dos 18 anos, com a intenção de impressionar uma moça com quem estava saindo, decidiu pegar a bolsa de uma mulher que estava fechando a garagem da sua casa. Até hoje interrogo-me o que o levou a cometer tamanha insanidade, pois era um rapaz humilde, com pais afetuosos (ele era arrimo de família), e tinha pela frente um futuro, senão glorioso, muito digno.

O roubo deu errado, como era de se esperar. Ele arrancou a bolsa das mãos da proprietária, dobrou a esquina e teve o azar de encontrar um policial à paisana que, ao ouvir os gritos da mulher assaltada, sacou a arma e desferiu um tiro no joelho do outro. Pelo resto da vida o rapaz iria mancar.

(Não existe crime “bobo”. O crime é crime ou não é. Não existe nada correto ou romântico em assaltar alguém. O policial à paisana agiu com desproporção, mas, no calor do momento, quem pode julgá-lo? Sei que muitas pessoas podem ler esse relato e imaginar que o rapaz teve o que merecia ou xingar a fúria com que ele foi tratado pelo sistema, mas, no mundo dos fatos, as coisas simplesmente são, e ninguém pode saber como agiria até passar por isso, assim como ninguém está livre de ter a sua vida inteira determinada por um único segundo de idiotice).

O rapaz foi preso e eu acabei contratado para defendê-lo. Os pais oscilavam: o homem estava desapontado com o filho, a mulher encontrava argumentos para justificá-lo. Tudo muito clichê. Não parecia tão improvável vencer o processo, conseguindo uma pena pequena e justa para que ele nunca mais cometesse aquele equívoco, até por que já tinha sido punido com o tiro no joelho. Seria algo terapêutico e – assim esperava – um “turning point” na vida do menino. Eu o orientei a ser sincero e a dizer a verdade, esperando que, com a confissão espontânea e por ser primário, a pena fosse reduzida ao mínimo legal.

Em resumo, deu tudo errado. O rapaz seguiu minhas instruções, mas pegou pela frente uma juíza extremamente rigorosa, a qual acreditava que o menor dos crimes tinha que ser punido com rigor exemplar. Ela o condenou à máxima pena possível, e a ser cumprida no Presídio Central por, no mínimo, longos 3 anos antes de passar para outro lugar. Entrei com recurso para a segunda instância e, um ano depois, peguei um desembargador que, em um acórdão de 15 páginas, ficou 12 falando sobre a classe política do Brasil e que o país estava deteriorado moralmente por causa da criminalidade para, no final, manter a sentença abusiva. Entrei com recurso para Brasília, nem chegou a ser julgado. Entrei com todos os recursos possíveis, e perdi todos.

No meio do cumprimento da pena, o rapaz morreu. Pegou tuberculose no Presídio, foi para o hospital e teve uma infecção generalizada que nunca ficou bem explicada. A essa altura do campeonato, eu não era mais o seu advogado. Os pais tentaram contratar outros profissionais, e eles viram o óbvio: todos os recursos tinham sido tentados, mas, às vezes, simplesmente não conseguimos ganhar.

Não existe explicação lógica para isso; talvez seja azar ou uma conjunção de fatores, como na queda de um avião. Nem dá para culpar a cegueira dos juízes ou a minha inaptidão técnica, pois ninguém pode ser responsabilizado, todo mundo agiu dentro dos seus papéis. Existem vidas que não deveriam ter sido, e isso é o que mais nos assombra: algumas pessoas vem ao mundo, mas era melhor que não tivessem vindo. Eis algo que não podemos dizer em voz alta, apesar de ser um medo que nos espreita a cada vez que estamos no quarto escuro: eu devia estar aqui no mundo ou não? Estou na lista do que sobrevivem ou naquela dos que serão expurgados?

Enfim, tudo isso para contar que esse caso ainda me assombra. Tive muitos depois, muitas vitórias e derrotas, mas continuo recordando desse, talvez por um detalhe quase insignificante no contexto. Eu costumava visitar o rapaz no Presídio Central: ele estava com medo, e frequentemente pedia a minha presença lá, para saber que ainda estávamos lutando para libertá-lo. Nas primeiras visitas que fiz, o rapaz chorava, implorava por Deus e pela mãe, esticava a minha permanência lá, soluçava, fazia promessas para todos os santos possíveis e imaginários. Eu sentia muita pena; tentava acalmá-lo e passar segurança, mas via um menino magro, fraco e que a vida estava esmagando com dureza desproporcional (um lado meu, envergonhado, também agradecia por não estar nessa situação, pois reconhecia – com espanto – que não era tão difícil imaginar que eu próprio podia estar no lugar do rapaz, na posição involuntária de dejeto e pária social).

Na última visita que fiz ao rapaz, não foi mais ele quem entrou no parlatório. O jovem assustado e medroso de antes tinha virado uma criatura sombria, de olhos vazios que me evitavam, sondando o ambiente. Estava com o rosto marcado por feridas, os dedos pareciam garras e até a sua voz tinha mudado, era algo mais calculado, mais frio. Ele perguntou como estava a sua situação jurídica e eu expliquei. Ao final, o rapaz perguntou sobre a aplicação de alguns artigos jurídicos, eu respondi e ele falou “doutor, pensei muito no que aconteceu, falei com meus amigos, e agora sei onde errei. Na próxima vez, quando eu sair daqui, não vou errar de novo, sei como acertar…”. Olhei para o rapaz e implorei, “cara, não pensa ‘na próxima vez’, pensa que tu nunca mais vais fazer isso, não que vais voltar a fazer, pensa nos teus pais, eles são velhinhos” e ele sorriu – hoje sei que estava rindo da minha inocência – e disse “claro, doutor, claro”. Muito tempo em contato com o Mal puro o tinha transformado em uma criatura amarga e feita de puro ódio. Não voltamos a nos encontrar.

O Mal possui uma incrível capacidade de propagação, e age por acumulação: quanto mais Mal compartilhado, mais ele se acomoda como sedimento no espírito alheio. Viver em meio ao Mal aumenta a possibilidade de se tornar como ele.

Estar em contato com a maldade humana e não saber lidar com as suas consequências é algo perigoso. Leio muitos textos que possuem uma origem boa, decente, mas que soam mais como propaganda para fertilizar outras mentes nas quais a maldade ainda está inativa. Pois o Mal também fascina: toda pessoa que denuncia algo mal consegue esconder a sua admiração relutante pelas atitudes ou pela coragem do outro, e não existe recurso mais enganoso do que as palavras. Elas nos convencem de que estamos fazendo o certo, mas, sem querer, é o contrário.

Por isso me impressiono com a ingenuidade de quem pensa que, denunciando algo, está impedindo que aconteça. Uma denúncia mal feita, realizada sob o império da emoção, acaba virando propaganda. As pessoas pensam que escrever algo é alertar os outros, mas esquecem que existe uma pequena diferença entre admiração e nojo. Não duvido que muitos leem as denúncias mal formuladas nas redes sociais e pensam “ah, agora que sei onde tal pessoa errou, vou fazer certo”. Assim como Deus, o Mal também possui desígnios misteriosos e, às vezes, o melhor lugar para achá-lo é no meio de uma “boa” intenção.

Deixe um comentário

Arquivado em Ernest Hemingway, Horacio Quiroga, Maldade

Os polemistas

Estão por todos os lugares, os polemistas, e essa é uma das suas principais características: a onipresença. A capacidade de dar o tapa, esconder a mão e apontar para outra pessoa na multidão. O aparente desdém com que iniciam uma briga inócua e depois recuam um passo, vendo a multidão se alvoroçar em dois lados vociferantes de ódio. Quando isso acontece, ele se retira até um canto e espera os momentos em que uma voz racional se erguerá tentando acalmar as fúrias. Nesse momento, o polemista precisará intervir, gerando novas ondas de raiva. Para essa figura, o diálogo é algo perigoso – tudo o que importa é a discussão.

De tão esperto na criação da sua imagem, o polemista se esconde atrás de múltiplos nomes. A melhor maneira de desaparecer é estar sempre diante dos olhos alheios até que não sejamos mais capazes de percebê-lo – como um tapete ou uma escada. Assim, ele pode ser chamado de “comentarista”, de “mediador”, de “debatedor”, de “formador de opinião”. São eufemismos para esconder a realidade: o polemista não tem opinião própria. Ele se alimenta das ideias alheias da mesma forma que uma sanguessuga exaure alguém. É um parasita do êxito que nunca lhe pertencerá. Assim como Nero queimando Roma para fazer uma música, o polemista olha o mundo desmoronar, e o sorriso habita seus lábios, pois, para ele, não há maior emoção do que ver os outros brigarem por nada.

Algumas pessoas inclusive consideram o polemista inteligente! Serão capazes de defendê-lo até a morte, pois enxergam nele um reflexo das suas ideias, ao invés de vê-lo como um espelho frio e distante que reflete somente aquilo que os outros querem ver. Inclusive o polemista inicia a conversa anunciando com a maior desfaçatez, “hoje vou fazer uma polêmica”, como se fosse um grande esforço, e todos aplaudem o vazio que é criar um debate sem a mínima intenção de melhorar o mundo, só deixá-lo pior e mais afundado na areia movediça.

O verdadeiro polemista percebe qualquer fala como uma possibilidade de gerar discórdia. Não escuta o outro, mas o analisa com a intenção de destruí-lo; procura brechas, titubeios, incoerências, e nelas concentra a sua “análise”. Uma palavra no calor do momento, e o polemista chamará a atenção da urbe até então indiferente, colocando-a sob o microscópio, vendo significados e sombras que provem a sua tese. Pois um polemista que faça jus a tal conceituação começa de uma tese e depois procura evidências que a suportem, jamais seria capaz de colher provas para depois concluir: seria horrível se as suas ideias prontas desmoronassem diante da dúvida.

O bom polemista usa chavões e palavras de ordem – existe maneira melhor de evitar o raciocínio do que se refugiar em clichês? Possui a capacidade de distorcer ideias e frases até que encaixem em alguma polêmica. Sobe aos limites rarefeitos das palavras e pretende discutir conceitos que levam a buracos negros argumentativos, para então poder declarar, triunfante, “eu sempre soube!” Quando não consegue isso, ressuscita alguma questão antiga, e olha as mesmas velhas discussões ressurgirem, renovadas. O polemista tem medo da criatividade ou de ideias jovens: prefere o ranço das discussões cansadas ao invés de se esforçar lendo ou estudando novos assuntos.

Ninguém conhece a obra do polemista, pois ele é incapaz de construir: nunca teve a angústia de erguer o edifício de um texto no meio da planície deserta da folha; nunca encostou o pincel em uma tela e perguntou-se se aquele risco de cor estava destinado à glória ou ao fracasso; nunca teve pesadelos com notas musicais atropelando-se em busca de uma ordem no meio do caos do silêncio. Da mesma forma que um abutre, ele adeja sobre a vida do outro, ansioso para cravar o bico nela e, ao menos, sentir alguma emoção genuína – a destruição. Para isso a claque é essencial: qual a graça de destruir se não existir aplausos no fundo? Contudo, a destruição promove uma satisfação momentânea, que o levará à outra destruição, e depois outra, como um Genghis Khan para sempre infeliz, ao passo que a criação – ah, o prazer dela é insuperável.

Outra característica interessante: os polemistas acham que estão salvando o mundo. Eles realmente acreditam que são essenciais, de que polêmicas levam à mudança de paradigmas, de que é bom fazer o povo se agitar com discussões estéreis. Pensam estar fazendo um favor, mas isso por que confundem a sua posição com a dos argumentadores. Esses sim têm ideias próprias, têm bagagem cultural, têm capacidade de defender um ponto de vista com tanta lógica e coerência que até mesmo o mais encarniçado dos adversários – apesar de discordar – reconhece valor nos pensamentos do outro.

O polemista pensa que tocar napalm em uma floresta é a melhor maneira de vencer o “inimigo”(considerado infantilmente como todo aquele que não comunga dos seus pensamentos). Mal sabem que, assim que a onda de napalm passar, a ideia continuará de pé no meio do campo devastado, encarando o outro com um sorriso de piedade nos lábios. Pois essa é a melhor e única forma de vencer um polemista: mostrar ao mundo o vácuo que habita no seu interior. Mostrar que ideias são à prova de balas – e de tiros de festim.

Deixe um comentário

Arquivado em Generalidades, Polêmica, Polemista

As pessoas sempre nos decepcionam

Se decepção matasse, hoje eu cairia morto.

O último baluarte da decência e da civilização acaba de desmoronar diante dos meus olhos, confirmando a constatação a que cheguei algum tempo atrás: as pessoas sempre nos decepcionam. Algumas antes do imaginado, outras depois, mas, no final das contas, elas acabam desapontando.

Estou lendo “Heróis”, de Lucy Hughes-Hallett, um livro que trata de como a Humanidade sempre temeu – e buscou – figuras individuais que poderiam ser consideradas como “salvadores da pátria”. O problema é que a característica maior do herói é ser imprevisível, louco e desprovido de padrões morais, ou seja, como diria Brecht (mas por um outro lado), “pobre do país que precisa de heróis!”. Segundo a autora, os heróis oscilariam entre dois extremos: a fúria de Aquiles ou a esperteza de Ulisses. Usando essa base como paradigma, ela analisa Alcibíades, Catão, El Cid, Francis Drake, Wallenstein e Garibaldi.

Sempre tive como uma das minhas mais inabaláveis certezas o fato de que Catão foi um dos últimos homens de verdade que pisou no planeta, e olhem que ele viveu entre os anos de 95 a.C e 46 a.C. Nós todos, os outros humanos, não passariam de meros arremedos, de pálidas sombras da grandiosidade daquilo que Catão representou.

Catão foi o homem incorruptível. Alguém que esteve diante de todos os tipos de tentação e nunca cedeu a elas. Um roched0: incapaz de contemporizar, de buscar o caminho cômodo, de ceder um milésimo que fosse nas suas convicções. Um exemplo de decência e de integridade moral em uma época de devassidão e de valores conspurcados. Um homem que fez tremer gigantes do porte de Júlio César, Virgílio, Cícero, Pompeu e tantos outros.

Não sou somente eu quem admira Catão. Ele tem um conjunto de fãs realmente invejável. Citarei alguns: Cícero afirmou “sozinho, ele [Catão] vale mais do que cem mil outros”. Horácio, que escreveu a “Arte poética”, elogiou o seu “coração feroz”. O grande Lucano o chamou de “godlike”, em uma época que tal comparação era uma ofensa religiosa, mas ninguém foi capaz de contestá-lo. São Jerônimo afirmou que Catão possuía uma glória que não poderia ser aumentada por louvações e nem diminuída por censura. Virgílio disse que gostaria de passar a Eternidade nos Campos Elíseos ao lado de Catão. Dante Alighieri colocou todos os suicidas no círculo mais baixo do Inferno, menos Catão, que foi promovido a guardião do caminho que leva do Inferno até o Purgatório. E o florentino ainda afirmou na “Divina Comédia”: “E que homem sobre a Terra é mais merecedor de representar Deus que Catão? Nenhum, certamente.” Mais “fanboy” impossível.

Não. Catão teve um admirador ainda mais apaixonado, o filósofo francês Michel de Montaigne, que escreveu:

“Eu rastejo em lama mundana, mas não deixo de ver no alto das nuvens as incomparáveis estaturas de certos espíritos heróicos, dos quais o mais sublime era Catão, esse grande homem que foi verdadeiramente um modelo escolhido pela Natureza para mostrar o quão longe a virtude humana e a coragem podem chegar. (…). Catão era um homem diante de quem até mesmo os loucos escondiam seus defeitos.”

Catão

Imaginem um homem que não se dobra nunca. Imaginem alguém que não tenha medo de desagradar outras pessoas e cujo único compromisso é com as suas posições morais. Além disso, Catão era rabugento, mau humorado e não tolerava brincadeiras, piadas e nem distrações pueris. Segundo Plutarco, Catão deixava os grandes homens de Roma angustiados, pois a sua retidão moral os envergonhava pela impossibilidade de imitá-lo. Quando alguém via Catão no júri e era culpado, recusava-se a ser julgado e assumia logo a culpa. Por isso, ele é encarado por muitos como eternamente fadado à derrota (temos como vencer sendo sempre inflexíveis ou a vitória só pode ser atingida com contemporizações e concessões?), mas também é visto como a necessária bússola moral em uma época na qual ela fazia uma falta gigantesca.

Dispondo somente da sua voz, do conhecimento das leis e da certeza que tinha sobre a própria retidão, Catão acreditou que bastava existir um único homem correto para corrigir o mundo. Uma andorinha pode, sim, fazer verão. E tão forte era a sua crença nisso que a sociedade romana lhe temia e respeitava no que foi considerado um dos mais estranhos cultos à personalidade de todos os tempos, pois ele não era belo, não era um prodígio de inteligência, não tinha fama e nem fortuna – possuía somente a cegueira da própria moralidade, e isso bastava para aterrorizar todos.

Um louco, vocês dirão. Mas, e se Catão for o único certo e nós todos estarmos errados até hoje? Impossível não rir ao pensar que Sêneca, quase cem anos depois da morte do senador romano, imaginou Júpiter descendo até a Terra em busca de um exemplo de grandeza humana e vendo o “espetáculo de Catão… de pé, ereto, em meio às ruínas do Império.” O mesmo Sêneca que, vivendo sob a sombra de Nero, manifestou a sua admiração dizendo que “ninguém jamais viu uma transformação sequer em Catão”. Assim como as baratas resistem às bombas nucleares, somente Catão era capaz de sobreviver moralmente ao escrutínio do mais poderoso dos deuses.

Não vou contar todas as histórias de Catão. Basta saber que ele foi o único homem capaz de se contrapor a Júlio César olho a olho e não esmorecer, nem mesmo no momento da sua morte. César nunca reconheceu virtudes no inimigo; odiava-o com todas as suas forças, talvez por ver nele uma integridade moral inatingível para qualquer ser humano normal. Durante 17 anos os dois se enfrentaram nas ruas de Roma, em debates no Senado, em lutas, votações e polêmicas. Ao final, como a História sabe, Catão acabou vencido em Útica e, assim, definiu-se o destino de Roma. O episódio incrivelmente violento da sua morte demonstra a fortaleza moral e a inescapabilidade dos parâmetros morais que constituem a tônica da sua vida – após ler “Fídon” de Platão duas vezes, Catão dormiu calmamente e, quando despertou, enfiou a espada na própria barriga. Ao perceber que corriam para tentar salvá-lo, com as suas entranhas saindo pelo talho, o homem empurrou o médico que tentava suturar a ferida e rasgou de novo o próprio ventre, enchendo o quarto inteiro de sangue.

Ao lado dos demais admiradores de Catão, sempre o tive como um modelo impossível de ser alcançado. Confesso ser incapaz de guardar parâmetros morais rígidos, pois ter essa conduta é condenar-se à morte ou ao ostracismo, ainda mais na sociedade atual, na qual valores morais são prova de fraqueza ou de debilidade do espírito. Assim como Sêneca, imaginava que, se existisse uma pessoa capaz de encarar o próprio Deus (ou Júpiter ou Alá ou Shiva) no olho e constrangê-lo com a sua convicção serena do que é certo, esse homem só poderia ser Catão. Era uma das poucas certezas que eu possuía – isso até eu descobrir uma história estarrecedora, algo que manchou de forma indelével a sua imagem.

Catão também tinha um podre. Contam os historiadores – e com provas documentais ainda por cima, ou seja, nem o conforto de ser uma tentativa de enxovalhar a sua imagem me salva – que Catão estava casado com sua segunda mulher, Márcia, com quem já tivera dois filhos (e ela estava grávida do terceiro) quando foi abordado por Hortêncio, o único advogado que conseguia vencer Cícero no Senado. Esse advogado queria estreitar os laços com Catão por intermédio da junção de suas famílias, e pediu em casamento Pórcia, a filha mais velha do inflexível romano. Ele recusou, pois Pórcia estava casada com outro cidadão. Diante da insistência de Hortêncio, Catão pensou em uma solução intermediária: decidiu divorciar-se da sua mulher grávida e casá-la com o outro homem. A condição era que, tão logo os dois tivessem um filho, juntando as duas famílias pelo vínculo de sangue, Hortêncio se divorciaria e Márcia voltaria a casar com Catão. Um “troca-troca” de famílias em Roma.

O plano funcionou, mais ou menos. Márcia teve um filho com Hortêncio, mas, antes que os dois se separassem, o homem acabou falecendo e toda a sua fortuna passou para Catão, o que acabou sendo um ganho inesperado. César, sempre ciumento da fortaleza moral do seu oponente, insinuou que Catão fez tudo isso por ganância e para se apossar do dinheiro de Hortêncio, mas os romanos não acreditaram, pois ele era incapaz de um plano tão vulgar.

Catão voltou a se casar com Márcia, e a vida prosseguiu. Essa situação é analisada de forma diferente por quem se deteve sobre a vida do romano. Tertuliano considerou essa transação desprezível tanto do ponto de vista afetivo quanto do lado moral. Robert Graves disse que Catão e Hortêncio trataram Márcia como se fosse uma égua reprodutora. No entanto, o historiador Ápio considerou a atitude de Catão exemplar por colocar os interesses de Roma à frente das suas veleidades afetivas.

A maioria dos defensores da conduta de Catão em relação à Márcia afirmam que ele foi coerente com a filosofia estóica: tornar-se afeiçoado em excesso por outro ser humano é tornar-se refém do destino e propiciar o surgimento da infelicidade, algo que o homem sábio não pode fazer. Todos os relacionamentos humanos são temporários e fugazes, não precisando de investimento emocional muito intenso. Permitir que o amor se misture aos princípios morais é ter que abrir mão de um em favorecimento do outro, e isso era algo que Catão, fiel à própria natureza, jamais faria. Em última análise, o gesto dele teria sido algo de notável desprendimento, a atitude mais altruísta que se esperava de um homem preocupado com a falta de moralidade que ameaçava a sua nação: desistir da felicidade pessoal para salvar o coletivo.

Tentamos explicar a conduta implacável de Catão com a sua esposa usando uma série de racionalizações, mas elas não sobrevivem à verdade dos fatos. Catão estava tão imbuído da própria retidão moral que deixou de lado aquilo que lhe tornava humano. Sacrificou a moralidade interna do seu casamento para salvar uma duvidosa moral coletiva que pretendia impor ao povo. Catão estava completamente cego pela sua própria moralidade e, como a mariposa muito próxima da lâmpada, não era mais capaz de distinguir o certo do errado. De tão apaixonado por si mesmo e pela lisura do seu comportamento, pisou em todos que lhe amavam.

Não se pode julgar os deuses da mesma forma que os humanos, e não tenho dúvidas – assim como Lucano – de que, “quando finalmente formos libertos da escravidão, se algum dia isso acontecer, Catão será deificado, e Roma terá um deus de cujo nome não se envergonhará”. No entanto, não posso deixar de lado a frustração de ver a imagem de um dos meus ídolos desmoronar como o Colosso de Rodes sacudido por um terremoto. Afinal de contas, Catão também era humano e até mesmo ele podia cometer condutas repulsivas em prol de um bem maior.

Há alguns dias que esse assunto me incomoda, mas, pensando novamente enquanto escrevo, talvez a conduta de Catão não seja objeto de decepção, e sim de libertação. Se até mesmo Catão decepcionou, qualquer um de nós é passível de frustrar os outros em algum momento. Se isso é inevitável, então, a questão torna-se aceitar tal fato – e pensar como a decepção pode atingir o mínimo alcance. Sujeitar-se a ela e ansiar para que seja de tal ordem que possamos sobreviver ao desprezo e indiferença nos olhos alheios.

Deixe um comentário

Arquivado em Catão, Generalidades, Moralidade

O dia em que fui censurado

Em todos esses anos de vida que escrevo, nunca tinha passado pela experiência de ser cerceado no meu direito de expressão ou sofrer censura, e acabou vindo do lugar mais inesperado.

Fui denunciado por “pornografia” no Pinterest. Isso por que, no meu painel sobre pinturas, onde coloco as obras que mais gosto, tive a “audácia” de colocar esse quadro de Paul Cézanne:

“Hortense dando de mamar para Paul” (1872), Paul Cézanne

Detalhe interessante: existem dezenas de pinturas nesse painel ( https://br.pinterest.com/gmeloczekster/pinturas/ ) que considero pornográficas, aplicando o conceito mais tradicional da palavra. Tenho pinturas de homens e de mulheres nus, algumas inclusive em posições sexuais, e nunca antes fui chamado de “obsceno” ou “pornográfico”. Não escolho pinturas sob esse viés, mas pela sua beleza estética e, assim, no mesmo painel, podemos encontrar desde autorretratos até paisagens, passando pela exibição de corpos nus, como não poderia deixar de ser, pois é natural da vida. Na minha visão, o importante é a pintura conter uma história inteira condensada em um único momento, e nunca parei para pensar se estou pisando além dos limites da moral e dos bons costumes – aliás, creio que, em matéria de experiência artística, esses limites sequer são claramente identificáveis.

O Pinterest já me “inocentou”, e a pintura retornou para o painel. Ainda assim, a questão persiste me intrigando: o que fez alguém se ofender tanto com uma mulher dando de mamar para o seu filho que o levou a denunciar o quadro como “pornografia”? Não existe nada de sexual aí, a não ser se consideramos o corpo feminino como algo naturalmente pornográfico. Além disso, é possível que a pessoa “enojada” com o quadro tenha se alimentado da mesma forma, ou conheça ao menos uma criança que tenha se alimentado no peito da mãe… seriam essas pessoas também pornográficas?

Não cabe a mim responder a esse anônimo ou anônima que tachou um quadro de Cézanne como “pornográfico” – até por que o anonimato garante a todos os covardes a chance de se manifestarem sem réplica. Na verdade, acho um pouco perturbador alguém pensar assim a respeito de uma cena que, até onde posso ver, é prosaica e absolutamente rotineira. Concordo que as concepções de “pornografia” variam muito entre os indivíduos, mas a ausência de lógica e de coerência daqueles que consideram a amamentação como um gesto pornográfico chega a ser risível. Darão o que para os nenês, Coca Cola? Cerveja?

Não faz muito tempo, comentei que não existia atividade mais perigosa nos tempos atuais do que escrever. Cada mínimo texto meu – cada mísera frase – é descontextualizada, fragmentada e analisada nas suas minúcias em busca de fraquezas ou posições ideológicas. Uma palavra ou expressão distraída é a senha para que não só meu texto seja destruído, mas igualmente eu acabe sofrendo ataques que escapam do âmbito das palavras e entram na esfera pessoal. O mundo está cheio de justiceiros e, como demonstra essa situação que vivi com o quadro de Cézanne, não importa o quanto o indivíduo se ache correto, a verdade é que ele possui uma visão de certo ou de errado que é somente sua.

Sob certos aspectos, sou uma pessoa afortunada. Sei medir o alcance das minhas palavras de tal forma que a patrulha tenta encontrar brechas sem sucesso, e acaba se resignando. A última vez em que fui questionado sobre um texto aconteceu alguns meses atrás, quando inadvertidamente escrevi nesse blog “a grande poeta espanhola Florbela Espanca”. Um equívoco pequeno – não sei onde estava com a cabeça, pois ela é portuguesa – , mas foi motivo suficiente para que a minha caixa de mensagens enchesse de recados. A grande maioria limitou-se a apontar o problema, mas outros foram irônicos (“logo vc, que se acha tão erudito”, adorei essa) e alguns descambaram para a fúria desarrazoada, chamando-me de preconceituoso, xenofóbico e inimigo de Portugal.

As pessoas mais preconceituosas que conheço são justamente as que pensam estar fazendo um “favor” apontando falhas, erros e preconceitos alheios. Da mesma forma, as pessoas que se dizem mais libertárias, progressistas e favoráveis à liberdade da expressão são as que mais vociferam quando alguém tem a ousadia de lhes questionar. Em geral, quem cuida das atitudes e falas dos outros diz mais a respeito de si mesmo do que dos “patrulhados”.

No mundo em que vivemos, parece inevitável ser objeto de patrulhamento e de constante vigilância. Escrever é se expor com palavras. Eu poderia fazer um longo arrazoado histórico sobre patrulhamentos, ou escrever um texto repleto de ironias, ou mesmo fazer um desabafo apaixonado a favor da minha liberdade de expressão. Poderia fazer tanta coisa, mas essa planura de pensamento me dá sono.

A única coisa que posso dizer para quem lê os textos ou observa a minha vida sob o prisma de achar erros, falhas ou preconceitos é que estão perdendo toda a diversão do caminho. Procurar fraturas em meio ao meu discurso é inútil – claro que ele possui ideologia, pois somos seres ideológicos, já diria Bakthin. A questão é: o quanto a tua ideologia sobrevive quando confrontada com a minha? És assim tão fraco(a) que uma imagem ou um texto podem te derrubar?

Os patrulhadores passam, mas a caravana continua seu caminho.

Deixe um comentário

Arquivado em Amamentação, Censura, Generalidades, Patrulhamento, Paul Cézanne