Arquivo da categoria: Documentário

Texto publicado no jornal Zero Hora (01/07/2017): “A arte de viver no vulcão”

Ontem saiu no jornal Zero Hora um artigo que escrevi sobre os espíritos que moram no fundo dos vulcões, sobre a Margaret Atwood e o texto empolgado que ela escreveu com dicas de como os artistas deviam se comportar sob a égide de Trump, e terminei com Ezra Pound e a função da literatura, tudo para dizer algo que tenho refletido muito nos últimos tempos: quando a arte vem com uma mensagem social explícita, ela deixa o status artístico e vira panfleto. Pior ainda – dispara um tiro contra o próprio pé, pois afasta as pessoas, que se sentem ludibriadas quando querem refletir livremente sobre algo e acabam sendo sugestionadas por uma posição pessoal que o artista inseriu à força. A verdadeira arte é aquela que não só reflete a sociedade em que vivemos como é consequência de assuntos do passado e também pode ajudar as sociedades do futuro a resolver seus problemas.

Muitas pessoas de fora do Estado me pediram cópia do artigo, e resolvi colocá-lo aqui no blog para viabilizar uma discussão de maior alcance. Aproveitei para, em um plus, colocar os links que mencionei no texto: o trailer do documentário “Visita ao inferno” (2016), de Werner Herzog, e o texto “What art under Trump?” de Margaret Atwood.

Boa leitura!

 

A arte de viver no vulcão

 

No início do documentário “Visita ao inferno” (2016), de Werner Herzog (disponível na Netflix), que trata da relação quase mística entre seres humanos e vulcões, o líder da aldeia Endu, localizada na Ilha Ambryn, afirma existir espíritos que vivem em meio à lava. O calor imorredouro do fogo e a raiva das explosões de magma seriam os espíritos se retorcendo no fundo da terra e, diante das imagens hipnóticas da lava e dos seus contorcionismos preguiçosos, é difícil imaginar que não exista vida no fundo de um vulcão.

Pensar na fúria indômita de um vulcão leva-nos a lembrar um artigo escrito por Margaret Atwood tão logo Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos. Nesse texto, publicado em The Nation e intitulado “What art under Trump?” (“Qual será a arte sob Trump?”), presente no link  https://www.thenation.com/article/what-art-under-trump/ , a autora de “O conto da aia” traça um histórico sobre as ocasiões em que a arte esteve ameaçada pelo poder constituído – e de como, mesmo cerceada, ela vicejou em meio a terrenos tão pedregosos. Mencionando a postura dos artistas que se lamentavam sobre a vitória do republicano – alguém conhecido por desprezar qualquer expressão artística -, Atwood indica escritores que, em tempos de crise, souberam usar a arte para não só definir o tempo em que viviam, como lançaram luzes para o futuro. Com palavras que mal disfarçam a empolgação, a escritora diz que novas oportunidades se abrem para artistas: façam distopias, como Yevgeny Zamyatin; elaborem sátiras sofisticadas, como Jonathan Swift; criem “arte de testemunho”, como Anne Frank ou Nawal El Sadaawi. Contudo, Atwood alerta: façam arte e não política. A arte não funciona sob o espectro monocromático de qualquer mensagem política; ela existe para desconstruir o mundo ao invés de transmitir ideologias. Os artistas cujas obras sobreviveram não foram os que melhor denunciaram as mazelas sociais, mas quem soube usar a arte como pano de fundo de um anseio humano que atravessa todos os tempos, não só o imediatismo do dia seguinte.

O texto de Margaret Atwood serve como admoestação não só para os artistas que vivem sob a égide de Trump, mas para todos. Usar a arte com um propósito, seja ganhar dinheiro ou status, seja passar uma mensagem social, religiosa ou política, é a garantia de que a expressão artística pode até ser consumida pelo público, mas não digerida. Despertará fagulhas, jamais a chama duradoura de uma reflexão. Nunca isso foi tão evidente quanto nos tempos atuais, quando se percebe artistas mais preocupados em passar mensagens ideológicas – aqui no seu sentido mais amplo – do que em realizar uma obra consistente, algo que redimensione o universo alheio ao invés de desaparecer como se nunca tivesse existido.

Em “A arte da poesia”, Ezra Pound afirma que a função da literatura não é a de coagir, persuadir emocionalmente ou forçar as pessoas a aceitarem ou deixarem de aceitar outras opiniões, mas manter a clareza e o vigor de todos os pensamentos e opiniões. Usar a arte para impor uma visão de mundo é fazer com que ela não seja arte, mas uma simples chateação que logo passará. O verdadeiro artista não é aquele que denuncia a destruição da lava ou o avançar do fogo, mas quem está no fundo do vulcão, retorcendo-se com desconforto enquanto sonha com o céu coalhado de estrelas infinitas revelado pela boca da cratera.

 

Texto originalmente publicado em http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/noticia/2017/07/a-arte-de-viver-no-vulcao-9829635.html

1 comentário

Arquivado em Documentário, Ezra Pound, Margaret Atwood, Temas de crítica literária, Werner Herzog

Documentário: “The White Stripes – Under Great White Northern Lights”

 

Há algum anos, descobri que sou uma criatura que vive fora do tempo. Tudo aquilo que é moda ou novidade acaba levando um tempo maior para me atingir. A literatura atual, com raras exceções, não me atrai. Devoto-me à leitura dos clássicos como se eles tivessem sido lançados ontem. Meus escritores preferidos atualmente são Henry Fielding, Cervantes e Charles Dickens. Ouço a música sem saber a data em que ela foi lançada ou a conjuntura mundial em que estava inserida. Os quadros e pinturas favoritas são aqueles que me tocam em especial e que contam uma história, não dou atenção para escolas ou movimentos artísticos.

Portanto, foi com certo espanto que ontem assisti um documentário sobre a banda The White Stripes – que lançou vários discos e inclusive foi desfeita há quase um ano, ou seja, nem existe mais – e me espantei ao perceber que tinha gostado. Mais do que isto: Jack White, que sempre pensei ser um merdinha convencido qualquer, mostrou facetas e detalhes que me fizeram pensar que estava diante de um gênio, alguém com uma fúria criativa/destrutiva tão grande que só seremos capazes de entender muito tempo depois da sua passagem pela Terra.

O nome do documentário é “Under Great White Northern Lights” (2009). A história que cerca o vídeo já é incrível: muitos anos atrás, o White Stripes teve problemas para tocar no Canadá. Entretanto, em 2007, eles iam iniciar uma nova turnê, e passariam pelo Canadá. Jack White disse que somente iria se eles tocassem em todas as províncias. O documentário acompanha a jornada deles no interior do país, registrando shows, conversas e outros momentos da dupla.

As surpresas do documentário são várias: por exemplo, para marcar o show na última província do Canadá, o The White Stripes decide fazer o assim chamado “Concerto de uma Nota Só”. Eles convocam o povo, que enche uma rua. A dupla chega de limusine, abrindo caminho no meio do público. Jack e Megan White descem, abanam para o público, sobem no palco, tocam uma única e raivosa nota, se despedem, entram na limusine e vão embora. Em qualquer lugar do mundo, eles seriam linchados. No entanto, no contexto do vídeo, a ideia é tão diabolicamente criativa que eu, telespectador, achei impactante. A nota era um conserto inteiro, um grito de raiva, uma interjeição de despeito. Era tudo isto, mas também era uma nota só.

Outra iniciativa do The White Stripes era realizar pocket shows em cada cidade por onde passavam. Estes shows seriam surpreendentes, em locais incomuns, e seriam avisados com uma hora de antecedência pela internet (no final da turnê, o tempo tinha caído para 10 minutos). A cena de Jack White subindo em um bar de beira de estrada e perguntando se podia tocar um pouquinho é muito inusitada. Da mesma forma, o show feito em um asilo, com as velhinhas pedindo para ele tocar uma quadrilha e ele cedendo, foi interessante. O show dentro do ônibus também foi marcante (a dupla levou um menino para cantar com eles no show normal, e foi um sucesso).

Claro que estas histórias foram entremeadas com músicas, muitas músicas. E, novamente para meu espanto, elas eram muito boas, melhores do que eu imaginava (até diria que o The White Stripes terá uma longa e frutuosa carreira, mas eles já encerraram as atividades). Não imaginava que bateria e guitarra pudessem casar tão bem, a bateria dando o ritmo para a guitarra agredir, ou a guitarra seguindo as batidas da bateria como uma coadjuvante de luxo. Qualquer outro instrumento vira um diminuidor da força inerente da guitarra e da bateria. As imagens, granuladas ou em cores fortes, com predomínio do vermelho e branco que os caracterizava, também se destacam no conjunto do vídeo.

No entanto, foi nas entrevistas dadas pelo agitado e irrequieto Jack White, acompanhado da tímida Megan, que a genialidade dele surge com força. As suas respostas, além de serem coerentes e dotadas de insuspeitada sabedoria, eram condizentes com a de alguém que convive com uma crítica nada auspiciosa, reconhecendo o valor das opiniões divergentes, mas consciente de que não estava compondo e escrevendo músicas para aquele momento. Da mesma forma, o contraste entre ele e Megan deixa uma tensão quase palpável no ar. A qualquer momento, parece que ele vai dar um tapa nela ou, talvez, um beijo. A passividade e a voz baixa dela, assim como seus gestos tímidos e contidos, deixam Jack White parecendo ainda mais vibrante, ainda mais descompensado. Nos shows, às vezes ele ignora ela, em outras chega bem próximo, em um terceiro momento canta canções apaixonadas. Sentados no sofá durante a entrevista, ela alterna o olhar embevecido, repleto de admiração, e o olhar terno, carinhoso, quase como se Jack fosse uma criança inconsequente. A vibração entre eles é constante e intensa. Impressionante.

Por este motivo, chama atenção a cena em que Megan fala algo bem baixinho (como é típico) e Jack White explode, mandando ela gritar. Ela alteia a voz e pede desculpas por ter tocado mal naquela noite, os olhos baixos, flagrada pela câmera em uma atitude de quase humilhação. Jack a elogia, diz que ela tocou bem, mas acrescenta que é uma droga não ouvir as coisas, cita um pensador qualquer e conclui que o inferno deve ser silencioso. A câmera mostra imagens de Megan olhando o mar e contemplando geleiras, destacando o seu silêncio e a sua solidão.

Neste quadro tempestuoso, destaque para a derradeira cena do documentário: Jack White toca uma música no piano, com Megan White sentada ao seu lado. A interpretação é tão sentida, a música tão poderosa e envolvente que ela explode em lágrimas ao final. E Jack White, o homem cortante, o guitarrista inquieto, o gênio enfurecido, olha para Megan, cinge-a entre os seus braços, acaricia as suas lágrimas e lhe beija na cabeça. É uma imagem muito comovente. Deixei de ver o guitarrista genial e vi um homem que também estava comovido, também estava tocado, também sentia.

Não gosto de imaginar que tenho preconceitos musicais. The White Stripes nunca tinha me chamado atenção, somente isto. Mas, assistindo o documentário, vendo o extraordinário alcance humano que foi dado para a história de duas pessoas diferentes unidas por uma jornada comum, acabei percebendo que a música pode se tornar até um detalhe – mesmo quando devia ser o foco principal.

Achei uma música do documentário, “Black Jack Davey”. Segue o vídeo:

6 Comentários

Arquivado em Cinema, Documentário, Música, The White Stripes