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O sonho do arco-íris e o persistente cheiro de sangue humano

Às vezes perguntam-me o segredo de escrever bem – como se existisse algum segredo nisso, e como se escrever fosse algo mensurável – e eu respondo com o sábio conselho da minha orientadora de Mestrado e professora Léa Masina: ler e decorar um poema em jejum, assim que acordar.

Por alguns anos consegui fazer essa “dieta” com moderado sucesso, mas, nos últimos tempos, percebo que os poemas outrora decorados estão sumindo. Um lado meu lastima que as leituras posteriores estejam apagando os poemas memorizados com tamanho afinco, mas outro lado exulta, pois não quer dizer que os poemas estejam sumindo, mas que estão se mesclando ao meu estilo. Não são poucas as ocasiões em que escrevo frases e sinto fantasmas de palavras que não são minhas, mas de Drummond, de Camões, de Shakespeare, de Petrarca. Estão todos dentro do texto, meus antigos amigos.

Eles surgem nas horas mais inesperadas, e abrem passagem aos trambolhões. Percebi um fenômeno muito interessante: a persistência das imagens poéticas. Assim como o marisco que gruda no rochedo e luta contra a onda, as imagens poéticas marcantes continuam vivas dentro da minha memória, revolvendo-se e surgindo quando o “gatilho” é acionado. Esses dias alguém me comentou “Raimundo”, e eu respondi automaticamente com o verso de Drummond, “mundo mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”. Outra pessoa comentou que seu filho escrevia ótimos poemas mas nunca mostrou para ninguém, e eu mencionei o “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, “o mundo é para quem nasce para o conquistar, mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, ainda que não more nela”. Uma escritora falou da sua dificuldade de escrever poemas e eu sugeri, sem pensar, “Penetra surdamente no mundo das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário”, e só depois notei que estava citando Drummond e a “Procura da poesia”.

As imagens poéticas não seguem a métrica original, como se pode ver por esses exemplos. Estão sintetizadas, cortadas, reduzidas àquilo que mais me impactou, em uma forma selvagem que lembra não somente os autores originais mas também as minhas reflexões sobre o assunto – e a de outros escritores. Quando deixada sem controle, a memória é mais feroz do que um tigre acuado.

Ao contrário de alguns colegas, que forçam a recordação para que ela traga à tona os poemas escondidos debaixo da sua camada de gelo, eu me resignei. Deixo a memória solta para fazer a associação que bem entender, e não me esforço em lembrar o desinteressante, mas prefiro destacar aquilo que me marcou. As imagens poéticas estão por todos os lados a me atormentar, podendo surgir quando menos se espera.

Não faz muito tempo assisti a um documentário, “The truth is in the stars”, uma série de entrevistas que William Shatner – o eterno Capitão Kirk da Enterprise – fez com uma série de físicos e artistas para ver o quanto Star Trek influenciou as suas vidas, indo de Ben Stiller até Stephen Hawking. Entre as entrevistas, ele passeou por Cambridge, a faculdade que, desde o seu surgimento em 1208, viu passarem pelos seus pátios Isaac Newton, Charles Darwin e o próprio Stephen Hawking.

Enquanto estava lá, Shatner contou a história do chinês Xu Zhi Mo que, em 1928, estudando em Cambridge, escreveu um poema que se tornou muito famoso na China, mesclando a visão oriental de mundo com as formas poéticas ocidentais. Ele costumava sentar em um banco debaixo de uma árvore, na frente do lago que corta a Universidade, e escreveu o poema “On Leaving Cambridge” desse ponto de vista.

On Leaving Cambridge

Softly I am leaving,
Just as softly as I came;
I softly wave goodbye
To the clouds in the western sky.

The golden willows by the riverside
Are young brides in the setting sun;
Their glittering reflections on the shimmering river
Keep undulating in my heart.

The green tape grass rooted in the soft mud
Sways leisurely in the water;
I am willing to be such a waterweed
In the gentle flow of the River Cam.

That pool in the shade of elm trees
Holds not clear spring water, but a rainbow
Crumpled in the midst of duckweeds,
Where rainbow-like dreams settle.

To seek a dream? Go punting with a long pole,
Upstream to where green grass is greener,
With the punt laden with starlight,
And sing out loud in its radiance.

Yet now I cannot sing out loud,
Peace is my farewell music;
Even crickets are now silent for me,
For Cambridge this evening is silent.

Quietly I am leaving,
Just as quietly as I came;
Gently waving my sleeve,
I am not taking away a single cloud.

Tão famoso ficou esse poema que o governo chinês mandou encravá-lo em uma rocha, a qual foi colocada em Cambridge, próxima ao banco onde Xu Zhi Mo se sentou e teve a sua inspiração. Hoje é um ponto famoso de visita, e é muito legal ver quando algo sai da literatura e invade a realidade.

“On Leaving Cambridge”, de Xu Zhi Mo

Desde o momento em que soube essa história e li o poema, encantei-me por uma imagem: a água que está debaixo da sombra dos olmos que se projetam sobre o rio e contém, no seu interior, os sonhos do arco-íris. Tão poderosa essa construção que não consegui mais olhar as cenas filmadas em Cambridge sem imaginar como seriam os sonhos do arco-íris escondidos pelos multifacetados cristas de água que ondulam, sábios, na corrente tão enganadoramente pacífica.

Coincidência ou não, na mesma época em que assisti a esse documentário, estava lendo “Conversas com Francis Bacon”, escrito por Franck Maubert, reunindo algumas das conversas mantidas pelo jornalista com o pintor sobre arte, sobre literatura e sobre o mundo. Admiro muito a carnalidade quase obscena das obras de Francis Bacon – é o tipo de quadro que não entendo o motivo pelo qual me fascina, mas não consigo afastar os olhos. Uma explicação possível, quase indiferente, é dada pelo próprio artista: ele tenta pintar a carne fora do corpo que lhe confina, ou seja, a carne é algo que se despeja para fora do limite corporal. Essa ideia é absolutamente fascinante: quem nos garante que o corpo não é uma prisão, e a carne seria algo ansioso para explodir e se libertar da sua materialidade constrangedora?

Irritei-me um pouco com a tentativa explícita de Maubert de ver as influências da fotografia, do cinema e de outros pintores sobre o trabalho de Francis Bacon, quando o artista afirma diversas vezes que a sua fonte maior de inspiração eram as imagens presentes nos poemas de Shakespeare, de Racine, de Dante, de Yeats, de T. S. Eliot. Por que é tão difícil acreditar que a literatura pode ser fonte de criação para outras formas de expressão artística? O fato dela não possuir imagens não quer dizer que somente imagens podem inspirar outras.

“Estudo para um retrato” (1952), Francis Bacon

Nas ocasiões em que citou a literatura como meio de inspiração, o pintor menciona a inquietação que alguns textos geravam na calma do seu espírito, tão forte que a única maneira encontrada para expiar o sentimento era através da pintura. Da mesma forma que acontece comigo, Francis Bacon não lembrava os poemas completos, mas as imagens poéticas evocadas pela memória, tão poderosas que tinham sobrevivido à erosão da memória e do tempo, e assim citou de cabeça versos de Yeats e de Eliot.

Foi numa dessas recordações que Francis Bacon mencionou um verso de Ésquilo nas “Eumênides”, algo tão impactante que cravara os dentes na sua personalidade e acabara se transformando quase em um credo pessoal. O verso era “O cheiro do sangue humano não desgruda seus olhos de mim”.

No entanto, esse verso não existe. Como o jornalista fez questão de destacar em uma nota de rodapé, apesar de ter sido citada pelo pintor por inúmeras vezes dessa maneira, o verso constante na obra de Ésquilo era “O cheiro do sangue humano me sorri”. Mauteck levanta a hipótese de que Bacon tenha se apossado desse verso das “Eumênides”, deixando de ser do dramaturgo grego e passando a ser propriedade sua. Era uma criação nova, cheia de vida e de ferocidade, engendrada por uma memória que não só recordava, mas era igualmente uma força inventora dotada de mecanismos próprios.

Foi algo que acabou me trazendo um consolo: não esqueci aquilo que levei tantos anos para saber, mas estou digerindo os poemas de muitos autores inesquecíveis e, no meio dessa confusão, existem estrelas – imagens poéticas – que reluzem com raiva indômita, aparecendo nos momentos mais inesperados. Tantas pessoas reclamam da falta de memória, mas eu acredito que a minha, em um processo de sobrevivência, está se canibalizando. A memória escolhe os temas e eu dou gume, alada rima, fazendo deles flechas exímias que, após lançadas, voarão certeiras até que a presa, nosso inimigo, se lamente. Nada como acabar um texto invocando a sombra de Aleksandr Pushkin – ou a minha, já não sei mais quem está falando aqui dentro.

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Texto publicado no jornal Zero Hora (01/07/2017): “A arte de viver no vulcão”

Ontem saiu no jornal Zero Hora um artigo que escrevi sobre os espíritos que moram no fundo dos vulcões, sobre a Margaret Atwood e o texto empolgado que ela escreveu com dicas de como os artistas deviam se comportar sob a égide de Trump, e terminei com Ezra Pound e a função da literatura, tudo para dizer algo que tenho refletido muito nos últimos tempos: quando a arte vem com uma mensagem social explícita, ela deixa o status artístico e vira panfleto. Pior ainda – dispara um tiro contra o próprio pé, pois afasta as pessoas, que se sentem ludibriadas quando querem refletir livremente sobre algo e acabam sendo sugestionadas por uma posição pessoal que o artista inseriu à força. A verdadeira arte é aquela que não só reflete a sociedade em que vivemos como é consequência de assuntos do passado e também pode ajudar as sociedades do futuro a resolver seus problemas.

Muitas pessoas de fora do Estado me pediram cópia do artigo, e resolvi colocá-lo aqui no blog para viabilizar uma discussão de maior alcance. Aproveitei para, em um plus, colocar os links que mencionei no texto: o trailer do documentário “Visita ao inferno” (2016), de Werner Herzog, e o texto “What art under Trump?” de Margaret Atwood.

Boa leitura!

 

A arte de viver no vulcão

 

No início do documentário “Visita ao inferno” (2016), de Werner Herzog (disponível na Netflix), que trata da relação quase mística entre seres humanos e vulcões, o líder da aldeia Endu, localizada na Ilha Ambryn, afirma existir espíritos que vivem em meio à lava. O calor imorredouro do fogo e a raiva das explosões de magma seriam os espíritos se retorcendo no fundo da terra e, diante das imagens hipnóticas da lava e dos seus contorcionismos preguiçosos, é difícil imaginar que não exista vida no fundo de um vulcão.

Pensar na fúria indômita de um vulcão leva-nos a lembrar um artigo escrito por Margaret Atwood tão logo Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos. Nesse texto, publicado em The Nation e intitulado “What art under Trump?” (“Qual será a arte sob Trump?”), presente no link  https://www.thenation.com/article/what-art-under-trump/ , a autora de “O conto da aia” traça um histórico sobre as ocasiões em que a arte esteve ameaçada pelo poder constituído – e de como, mesmo cerceada, ela vicejou em meio a terrenos tão pedregosos. Mencionando a postura dos artistas que se lamentavam sobre a vitória do republicano – alguém conhecido por desprezar qualquer expressão artística -, Atwood indica escritores que, em tempos de crise, souberam usar a arte para não só definir o tempo em que viviam, como lançaram luzes para o futuro. Com palavras que mal disfarçam a empolgação, a escritora diz que novas oportunidades se abrem para artistas: façam distopias, como Yevgeny Zamyatin; elaborem sátiras sofisticadas, como Jonathan Swift; criem “arte de testemunho”, como Anne Frank ou Nawal El Sadaawi. Contudo, Atwood alerta: façam arte e não política. A arte não funciona sob o espectro monocromático de qualquer mensagem política; ela existe para desconstruir o mundo ao invés de transmitir ideologias. Os artistas cujas obras sobreviveram não foram os que melhor denunciaram as mazelas sociais, mas quem soube usar a arte como pano de fundo de um anseio humano que atravessa todos os tempos, não só o imediatismo do dia seguinte.

O texto de Margaret Atwood serve como admoestação não só para os artistas que vivem sob a égide de Trump, mas para todos. Usar a arte com um propósito, seja ganhar dinheiro ou status, seja passar uma mensagem social, religiosa ou política, é a garantia de que a expressão artística pode até ser consumida pelo público, mas não digerida. Despertará fagulhas, jamais a chama duradoura de uma reflexão. Nunca isso foi tão evidente quanto nos tempos atuais, quando se percebe artistas mais preocupados em passar mensagens ideológicas – aqui no seu sentido mais amplo – do que em realizar uma obra consistente, algo que redimensione o universo alheio ao invés de desaparecer como se nunca tivesse existido.

Em “A arte da poesia”, Ezra Pound afirma que a função da literatura não é a de coagir, persuadir emocionalmente ou forçar as pessoas a aceitarem ou deixarem de aceitar outras opiniões, mas manter a clareza e o vigor de todos os pensamentos e opiniões. Usar a arte para impor uma visão de mundo é fazer com que ela não seja arte, mas uma simples chateação que logo passará. O verdadeiro artista não é aquele que denuncia a destruição da lava ou o avançar do fogo, mas quem está no fundo do vulcão, retorcendo-se com desconforto enquanto sonha com o céu coalhado de estrelas infinitas revelado pela boca da cratera.

 

Texto originalmente publicado em http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/noticia/2017/07/a-arte-de-viver-no-vulcao-9829635.html

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Documentário: “The White Stripes – Under Great White Northern Lights”

 

Há algum anos, descobri que sou uma criatura que vive fora do tempo. Tudo aquilo que é moda ou novidade acaba levando um tempo maior para me atingir. A literatura atual, com raras exceções, não me atrai. Devoto-me à leitura dos clássicos como se eles tivessem sido lançados ontem. Meus escritores preferidos atualmente são Henry Fielding, Cervantes e Charles Dickens. Ouço a música sem saber a data em que ela foi lançada ou a conjuntura mundial em que estava inserida. Os quadros e pinturas favoritas são aqueles que me tocam em especial e que contam uma história, não dou atenção para escolas ou movimentos artísticos.

Portanto, foi com certo espanto que ontem assisti um documentário sobre a banda The White Stripes – que lançou vários discos e inclusive foi desfeita há quase um ano, ou seja, nem existe mais – e me espantei ao perceber que tinha gostado. Mais do que isto: Jack White, que sempre pensei ser um merdinha convencido qualquer, mostrou facetas e detalhes que me fizeram pensar que estava diante de um gênio, alguém com uma fúria criativa/destrutiva tão grande que só seremos capazes de entender muito tempo depois da sua passagem pela Terra.

O nome do documentário é “Under Great White Northern Lights” (2009). A história que cerca o vídeo já é incrível: muitos anos atrás, o White Stripes teve problemas para tocar no Canadá. Entretanto, em 2007, eles iam iniciar uma nova turnê, e passariam pelo Canadá. Jack White disse que somente iria se eles tocassem em todas as províncias. O documentário acompanha a jornada deles no interior do país, registrando shows, conversas e outros momentos da dupla.

As surpresas do documentário são várias: por exemplo, para marcar o show na última província do Canadá, o The White Stripes decide fazer o assim chamado “Concerto de uma Nota Só”. Eles convocam o povo, que enche uma rua. A dupla chega de limusine, abrindo caminho no meio do público. Jack e Megan White descem, abanam para o público, sobem no palco, tocam uma única e raivosa nota, se despedem, entram na limusine e vão embora. Em qualquer lugar do mundo, eles seriam linchados. No entanto, no contexto do vídeo, a ideia é tão diabolicamente criativa que eu, telespectador, achei impactante. A nota era um conserto inteiro, um grito de raiva, uma interjeição de despeito. Era tudo isto, mas também era uma nota só.

Outra iniciativa do The White Stripes era realizar pocket shows em cada cidade por onde passavam. Estes shows seriam surpreendentes, em locais incomuns, e seriam avisados com uma hora de antecedência pela internet (no final da turnê, o tempo tinha caído para 10 minutos). A cena de Jack White subindo em um bar de beira de estrada e perguntando se podia tocar um pouquinho é muito inusitada. Da mesma forma, o show feito em um asilo, com as velhinhas pedindo para ele tocar uma quadrilha e ele cedendo, foi interessante. O show dentro do ônibus também foi marcante (a dupla levou um menino para cantar com eles no show normal, e foi um sucesso).

Claro que estas histórias foram entremeadas com músicas, muitas músicas. E, novamente para meu espanto, elas eram muito boas, melhores do que eu imaginava (até diria que o The White Stripes terá uma longa e frutuosa carreira, mas eles já encerraram as atividades). Não imaginava que bateria e guitarra pudessem casar tão bem, a bateria dando o ritmo para a guitarra agredir, ou a guitarra seguindo as batidas da bateria como uma coadjuvante de luxo. Qualquer outro instrumento vira um diminuidor da força inerente da guitarra e da bateria. As imagens, granuladas ou em cores fortes, com predomínio do vermelho e branco que os caracterizava, também se destacam no conjunto do vídeo.

No entanto, foi nas entrevistas dadas pelo agitado e irrequieto Jack White, acompanhado da tímida Megan, que a genialidade dele surge com força. As suas respostas, além de serem coerentes e dotadas de insuspeitada sabedoria, eram condizentes com a de alguém que convive com uma crítica nada auspiciosa, reconhecendo o valor das opiniões divergentes, mas consciente de que não estava compondo e escrevendo músicas para aquele momento. Da mesma forma, o contraste entre ele e Megan deixa uma tensão quase palpável no ar. A qualquer momento, parece que ele vai dar um tapa nela ou, talvez, um beijo. A passividade e a voz baixa dela, assim como seus gestos tímidos e contidos, deixam Jack White parecendo ainda mais vibrante, ainda mais descompensado. Nos shows, às vezes ele ignora ela, em outras chega bem próximo, em um terceiro momento canta canções apaixonadas. Sentados no sofá durante a entrevista, ela alterna o olhar embevecido, repleto de admiração, e o olhar terno, carinhoso, quase como se Jack fosse uma criança inconsequente. A vibração entre eles é constante e intensa. Impressionante.

Por este motivo, chama atenção a cena em que Megan fala algo bem baixinho (como é típico) e Jack White explode, mandando ela gritar. Ela alteia a voz e pede desculpas por ter tocado mal naquela noite, os olhos baixos, flagrada pela câmera em uma atitude de quase humilhação. Jack a elogia, diz que ela tocou bem, mas acrescenta que é uma droga não ouvir as coisas, cita um pensador qualquer e conclui que o inferno deve ser silencioso. A câmera mostra imagens de Megan olhando o mar e contemplando geleiras, destacando o seu silêncio e a sua solidão.

Neste quadro tempestuoso, destaque para a derradeira cena do documentário: Jack White toca uma música no piano, com Megan White sentada ao seu lado. A interpretação é tão sentida, a música tão poderosa e envolvente que ela explode em lágrimas ao final. E Jack White, o homem cortante, o guitarrista inquieto, o gênio enfurecido, olha para Megan, cinge-a entre os seus braços, acaricia as suas lágrimas e lhe beija na cabeça. É uma imagem muito comovente. Deixei de ver o guitarrista genial e vi um homem que também estava comovido, também estava tocado, também sentia.

Não gosto de imaginar que tenho preconceitos musicais. The White Stripes nunca tinha me chamado atenção, somente isto. Mas, assistindo o documentário, vendo o extraordinário alcance humano que foi dado para a história de duas pessoas diferentes unidas por uma jornada comum, acabei percebendo que a música pode se tornar até um detalhe – mesmo quando devia ser o foco principal.

Achei uma música do documentário, “Black Jack Davey”. Segue o vídeo:

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