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Obras Inquietas – 33. “Stanczyk” (1862), de Jan Matejko

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, eu falei sobre “Stanczyk”, quadro pintado em 1862 pelo pintor polonês Jan Matejko.

Stanczyk foi um personagem famoso na História polonesa, apesar de existirem muitas dúvidas se ele sequer existiu. Teria sido um bobo da corte instruído, irônico e sagaz, que serviu a três reis: Alexander, Sigismundo o Velho e Sigismundo Augusto. Ele usava a sátira para avisar os seus conterrâneos dos perigos que cercavam a nação.  Tão famosas  ficaram as suas histórias que ele virou praticamente um Pedro Malasarte polonês.

No entanto, no quadro, é outra faceta dele que se revela. Stanczyk está repousando de uma apresentação e, enquanto todos se divertem, ele lamenta a queda e o massacre de Smolensk, que foi entregue aos russos por um acerto feito entre os nobres da Polônia com os inimigos. Cabe ao palhaço chorar pelos mortos, enquanto as demais pessoas se divertem, desconhecendo o alcance dos seus atos, mais preocupadas com o próprio bem-estar do que em pensar nos outros.

Boa leitura.

“Stanczyk” (1862), de Jan Matejko

No salão, o som de risadas e o estrépito de talheres e louças enchia a noite de cores. Por trás deles, a onipresente música ressoa quase abafada, ainda sacudida pelo som dos aplausos que saudaram a primeira apresentação de Stanczyk, o maior artista vivo, o palhaço mais requisitado de todo o império. Na antesala que usa para descansar nos intervalos entre as apresentações, o homem desaba sobre a poltrona. O rosto que até então troçava de todos cede ao desespero; o desalento se apossa dos seus gestos antes agitados, agora mortos. Pela primeira vez na noite, o bobo da corte permite que a tristeza tome conta do seu semblante, enquanto lembra o massacre dos seus amigos, dos seus irmãos, dos seus queridos em Smolensk. Os brindes levantados a pouco em homenagem àquele banho de sangue ainda machucam a sua memória. As luzes vibrantes do salão escondem a morte que mora no interior das risadas algo escandalosas dos nobres. Naquela noite, ninguém chorará pelas crianças e mulheres mortas em Smolensk; ninguém levantará uma prece para os homens e mulheres massacrados sem piedade. Ao contrário, os rostos estarão contorcidos em máscaras grosseiras de felicidade, enquanto os nobres se refestelarão nas suas jóias, nas comidas luxuriosas e nas bebidas em abundância. Sozinho na sala, Stanczyk sabe que logo precisará afastar a tristeza que domina a sua alma. Precisa voltar ao salão. O destino é engraçado, muito mais do que as suas piadas e trejeitos – preso na sua tarefa, o palhaço é o único proibido de chorar. O rosto só pode rir, como se a vida fosse uma eterna brincadeira, mesmo quando dançamos sobre o túmulo dos nossos irmãos. Stanczyk tem uma missão a cumprir: deve entreter os assassinos do seu povo; ele é o homem que ri por fora, enquanto grita de agonia por dentro. Afinal, ninguém melhor que um palhaço para saber que o show nunca pode parar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/06/04/obras-inquietas-33-stanczyk-1862-de-jan-matejko/

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Arquivado em Crônicas, Jan Matejko, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária, Stanczyk