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Obras Inquietas – 39. “A Vida e a Morte” (1916), Gustav Klimt

Nessa semana na minha coluna Obras Inquietas, no Artrianon, tive a oportunidade de falar de um dos pintores que mais admiro: Gustav Klimt. Em “A Vida e a Morte”, Klimt deixa de lado as mulheres etéreas ou as paisagens vagas e trata, de forma simbólica, da relação entre uma vida que insiste em preservar aquilo que temos, na forma de um abraço carinhoso, e uma morte que espreita ao redor, ansiosa para terminar com aquela unidade. Curiosamente, muitos críticos consideram-no uma pintura otimista, afirmando que os seres humanos dormem ao lado de sombra tão nefasta por que estariam a desprezando. Eu não penso assim: para mim, a morte é quase como um tigre de tocaia em torno de um acampamento, esperando pacientemente que alguém se distraia para, então, atacar com ferocidade.

Boa leitura!

“A Vida e a Morte” (1916), Gustav Klimt

Enquanto estivermos juntos, estamos protegidos. Basta ficarmos abraçados, protegidos sob a luz e em meio ao conforto cálido do nosso contato, e nada de ruim vai acontecer. Podemos sentir a adversária à espreita, rondando o círculo de proteção em que estamos, ela e a sua caveira sem alma, ela e seus dentes gélidos que nunca sorriem. Basta um segundo de distração, um momento em que tentamos avançar além do seguro, para que o porrete da inimiga desça e acabe com o nosso sonho. Então, só podemos ficar sempre juntos, homens, mulheres e crianças, e dizer que a noite não existe longe do nosso abraço, que a morte não nos espera faminta, que podemos ser felizes enquanto existir luz, enquanto existir cor. Mas não nos iludamos: o bafo pútrido dela cerca o mundo, cobiçando a chama dos nossos olhares, a candura dos nossos amores, ansiosa para nos tocar com os seus dedos repletos de escuridão. Passamos a existência toda tentando evitá-la, mas ela sabe que, mais dia ou menos dia, iremos nos distrair – todos se distraem, seja atravessando uma rua, seja subestimando a pessoa errada – e, neste momento, ela ceifará a nossa vida com toda a fúria que a inveja lhe proporciona. Ela está sempre vigilante e nunca descansa, andando em círculo em torno da pequena esfera de felicidade que ousamos criar. Ela sabe que a felicidade é efêmera e o fim inevitável; um dia, iremos sair do abraço que nos protege e entrar no seu manto sombrio. Tudo é passageiro, menos a paciência da morte, e ela segue esperando o instante em que os nossos entes amados irão se distrair para, então, plantar a dor no seio da nossa – tão rápida, tão cintilante – alegria e se deliciar, vendo desmoronar o mundo perfeito que cuidadosamente criamos ao nosso redor. Aproveite os dias de sol hoje, pois eles irão acabar, e somente o pântano da recordação irá nos lembrar da época em que éramos felizes e não sabíamos. Enquanto dormimos o sono dos inocentes, a morte nos contempla – e espera.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/07/23/obras-inquietas-39-a-vida-e-a-morte-1916-gustav-klimt/

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