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Obras Inquietas – 32. “Salão de bar” (1940), Edward le Bas

Sempre me fascinaram os quadros que parecem não dizer nada, ou estarem retratando uma cena do cotidiano, mas que escondem muitos segredos sob uma superfície simples. No caso desse “Salão de bar”, de Edward le Bas, sobre o qual escrevi no “Obras Inquietas”, uma cena aparentemente corriqueira – uma mulher sozinha em um bar – deixa transparecer toda uma série de possibilidades quando sabemos que o quadro foi feito no auge da Segunda Guerra Mundial, que ela está em uma festa repleta de soldados e que seu olhar revela desencanto e medo pelo futuro. Nem sempre a inquietação precisa ser algo mortal; representar pânico e dor – e a vida que precisa seguir mesmo quando estamos imersos nesses sentimentos – é algo que nos consterna pela sua proximidade.

Boa leitura.

“Salão de bar” (1940), Edward le Bas

Ela não imaginou que seria tão difícil. Na imaginação, tudo parecia mais simples: tirar a roupa de luto, sentar junto à mesa, pedir uma bebida, escutar música, olhar a vida se desenrolando ao seu redor. Sentir-se de novo parte do mundo. No entanto, foi só levar o copo aos lábios que a mulher entendeu: ele não voltaria. Estava longe, mais distante do que ela podia chegar. Nunca mais veria o seu sorriso, escutaria a sua risada, ralharia com seu detestável hábito de mastigar o palito de dentes – tudo estava irremediavelmente perdido. A imensidão da perda a atinge como um soco, e ela sente-se mergulhar em um cadinho de desespero e angústia, enquanto as pessoas, as cores, os sons e o universo se dissolvem na sombra inexistente que frequenta aquele salão, atormentando o lugar com a sua ausência repleta de culpa e de palavras não ditas no momento certo. Ela é jovem e bonita, mas sua alma carrega o sonho de uma vida que lhe foi arrancado de forma abrupta. Um homem sussurra promessas falsas e úmidas junto ao seu ouvido, mas não é a voz dele, não é e nunca será, e a mulher sente-se chafurdar no pântano das ilusões desaparecidas. Você precisa voltar a viver, todos lhe dizem. Você precisa ser feliz, mas ela não consegue e, no seu íntimo, sabe que a felicidade lhe foi negada; ela existiu por algum tempo e desapareceu, e agora a mulher terá que conviver, casca vazia e sem sentimentos, em busca de algo que nunca mais encontrará, enquanto as pessoas danças, cantam, bebem, se divertem, inconscientes de que ela não é mais uma mulher, mas uma angústia em forma humana, um grito de solidão que nunca cessa.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/05/28/obras-inquietas-32-salao-de-bar-1940-edward-le-bas/

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