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Resenha do livro: “A arte do estilo”, de Henry James e Robert Louis Stevenson (org. Marina Bedran)

Escrevi para o Amálgama ( www.revistaamalgama.com.br ) uma resenha sobre o livro “A arte do estilo”, que reúne ensaios e a correspondência mantida entre Henry James e Robert Louis Stevenson. Um diálogo epistolar educado, repleto de argumentos inteligentes e de frases que poderiam muito bem figurar nas obras de qualquer um deles, de tão poéticas e cristalinas. Um livro que me engrandeceu como escritor e como ser humano.

Boa leitura!

Henry James e Robert Louis Stevenson: uma improvável amizade literária

 

Em um mundo cada vez mais polarizado, e em que as pessoas não só possuem opiniões imutáveis como ainda são incapazes de dialogar e provar a validade das suas crenças, usando de ironia grosseira e de violência retórica, soa até estranho imaginar que, não muitos anos atrás, dois indivíduos que pensavam diferente poderiam não só expor suas divergências em busca de pontos em comum, como inclusive se tornarem amigos. O ódio insensato direcionado contra aqueles que não comungam dos nossos ideais é uma característica da pós-modernidade, amplificada pela multidão de nomes sem rosto que grassa nas redes sociais. A simples ideia de opostos estabelecerem uma conversa respeitosa que, longe de ser uma tentativa de doutrinação é mais uma forma de fortalecimento da própria ideia por meio da sua defesa contra um adversário ardiloso e convincente, parece mais ficção científica do que uma hipotética invasão alienígena.

Contudo, por muitos anos, essa foi a tônica do comportamento civilizado: ao invés de odiar o diferente, tente entendê-lo. Nesse processo, um respeito relutante acaba surgindo, e o que era uma discussão entre duas pessoas diametralmente opostas pode se transformar em uma amizade um pouco fria, mas, ainda assim, uma forma de relacionamento que permitiria a convivência de ambas as ideias sem que uma precise eliminar a outra. É o que se depreende de “A aventura do estilo” (2017), que reúne a correspondência trocada entre o escritor nascido americano e naturalizado inglês Henry James e o escocês Robert Louis Stevenson: é só através do diálogo e da troca de experiências que qualquer sociedade pode evoluir. Ainda assim, ao término da leitura, a sensação geral foi de uma relativa tristeza por ver o quanto a sociedade atual se afasta – e com alegria selvagem – dos ideais que nortearam a conversa epistolar entre os dois escritores. Em meio ao oceano de ódio que se espalha por entre as pessoas e suas mais diversas causas e matizes ideológicos, está cada vez mais difícil encontrar diálogo e razoabilidade – sem contar uma dose de inteligência, bom humor e disposição de ouvir o outro.

Antes de prosseguir, uma breve contextualização histórico-literária: dificilmente poderiam existir dois escritores mais equidistantes do que Henry James e Robert Louis Stevenson. Autor de “Os embaixadores”, “Pelos olhos de Maisie” e do inigualável “A fera na selva”, Henry James era um escritor de emoções frias e de uma prosa elegantemente construída, retratando os dramas humanos por meio de uma lente concentrada nas classes mais abastadas; na sua obra, o conflito essencial se estabelece entre civilização e barbárie, entre emoção e razão, entre os sonhos românticos de uma Europa idealizada e os valores materiais de uma América ainda jovem e impetuosa. Essas características ajudam a explicar um pouco a frase jocosa de William Faulkner, “Henry James was one of the nicest old ladies I ever met.”.

Por sua, vez, Robert Louis Stevenson escreveu obras como “A ilha do tesouro” e “O médico e o monstro”, sendo um escritor muito mais físico e menos intelectualizado, muito mais emocional do que racional; não bastando escrever uma literatura que, na sua época, era considerada mais entretenimento do que arte (status esse que acabou sendo revisto por força dos inúmeros escritores que confessaram admirar o seu estilo, entre os quais Jorge Luis Borges, Chesterton e Ítalo Calvino), Stevenson também viveu com intensidade, viajando pelo mundo a bordo de navios e passando por uma série de aventuras que registrou parcialmente na sua vasta obra.

Ao lado do frágil e sensível James, Stevenson – mesmo padecendo de uma tuberculose persistente – era não só um poço de saúde como um espírito impregnado de vivacidade. A tradutora e organizadora de “A aventura do estilo”, Marina Bedran, descreve como foi o primeiro encontro entre os dois escritores: “após um primeiro encontro, em 1879, James diria que Stevenson lhe parecera um ‘boêmio de camisa sem colarinho e um belo de um poseur (de um modo inofensivo)’. Stevenson, por sua vez, viu em James ‘um mero habitué de clubes […] de forma alguma um homem corajoso e afeito às atividades ao ar livre’, e, se estimou desde o início a precisão da escrita jamesiana, se irritava um pouco com seus preciosismos, e achou Washington Square desagradável.”

A amizade improvável entre ambos nasceu graças a uma divergência literária. Em 1884, James publicou em “The Longman’s Magazine” um ensaio intitulado “A arte da ficção”. Nesse texto, o escritor britânico refutou uma palestra proferida pelo escritor e crítico literário Walter Besant, pretendendo ver no romance uma forma de competir com a vida, transmitindo para o leitor uma realidade postiça, mas nem por isso menos real. Para James, o melhor romance seria aquele que mais sucesso tivesse em reprisar a realidade e a vida. O dever da arte – para isso ele usa o exemplo da pintura – era ser fiel ao real, e o melhor artista era aquele que mais se adequasse a esse ideal. Mais do que expor uma história, o escritor era um artista dedicado a representar o real e a transformá-lo de dentro para fora.

Stevenson enviou um pequeno texto para a revista literária, refutando a opinião de Henry James. No título, “Um humilde protesto”, expressa todo o seu respeito perante as ideias do outro: ele reconhece que não possui a erudição e o esmero com as palavras que caracteriza James, e também sabe que é considerado um autor menor para a crítica literária de então, mas isso não lhe impediu de expressar o seu ponto de vista com tenacidade. Para o escritor escocês, a arte e a vida são conceitos que possuem alguns pontos em comum, mas não se confundem entre si. Sua defesa foi apaixonada:

“Competir com a vida, para cujo sol não podemos olhar, cujas paixões e doenças nos consomem e nos matam, competir com o sabor do vinho, a beleza da aurora, o trepidar do fogo, a amargura da morte e da separação, eis a escalada aos céus que se pretende. São trabalhos para um Hércules de casaca, armado de uma pena e de um dicionário, para retratar as paixões, armado de uma bisnaga de alvaiade para pintar o retrato do sol inclemente. Nenhuma arte é verdadeira nesse sentido, nenhuma pode ‘competir com a vida’, nem mesmo a história, construída a partir de fatos que são incontestáveis, mas que tiveram sua vivacidade e sua pungência roubadas, de modo que, mesmo quando lemos sobre uma cidade saqueada ou sobre a queda de um império, nos surpreendemos e louvamos com justeza o talento do autor, se nosso coração dispara. E, como uma última diferença, essa aceleração dos batimentos é, quase sempre, puramente prazerosa: essas reproduções fantasmagóricas da experiência, mesmo as mais fiéis, causam prazer, enquanto a própria experiência, na arena da vida, pode torturar e matar”.

Essa troca de textos públicos dá início a uma troca de cartas que pretende discutir os conceitos de arte, de literatura e de vida, estabelecendo algo que se possa chamar de estilo para um romance nos tempos de então. Na primeira carta, antes de se debruçar sobre o assunto que os fascina, Henry James reconhece as diferenças entre ambos e o valor literário do colega escritor: “É um luxo, nessa era imoral, encontrar alguém que escreve – que realmente tem familiaridade com essa arte adorável. Não seria justo bater-me com você aqui; além disso, nós mais concordamos, creio eu, do que discordamos, e ainda que haja pontos sobre os quais um espírito mais impetuoso que o meu gostaria de pelejar, não é isso o que eu desejo – quero, ao contrário, lhe agradecer por tudo o que há de feliz e de sugestivo em suas observações – notadas com tanta perspicácia e ditas com tanto brilhantismo”.

Uma leitura desses dois breves trechos permite-nos ver a graciosidade repleta de inteligência e de poesia dos escritores, e é uma pena que o tamanho diminuto dessa resenha não permita destacar mais pontos de grande beleza esgrimida entre dois homens que buscavam pontes de compreensão onde existia somente diferença. “A aventura do estilo” é um livro para ser digerido com calma, não pela complexidade das ideias contidas no seu interior, mas pela construção laboriosa dos argumentos e das reflexões de ambos os autores, que encontram na sua troca de cartas um espaço privilegiado para discutir literatura e vida. De uma relação epistolar que se estabelece com cautela e respeito mútuo, aos poucos a amizade cresce, bem como as confidências e a troca de dúvidas sobre as próprias obras.

Mais do que uma discussão estéril e egocêntrica sobre estilos literários, “A aventura do estilo” revela dois escritores no auge da sua criatividade, ambos debruçados sobre a mais antiga questão: o que é mais importante, viver ou escrever? E, se escrever não é uma possibilidade, mas uma necessidade para ambos, como a forma literária pode ser trabalhada até a perfeição sem perder a sua essência humana (posto que os dois são unânimes em admitir a impossibilidade relativa de uma obra de arte atingir a perfeição incontestável). No entanto, o grande destaque do livro é a sua fluidez e a clareza argumentativa de Henry James e Robert Louis Stevenson, dois escritores que deixaram de lado as suas divergências filosóficas e estéticas para se concentrarem naquilo que realmente importava: uma boa e saudável conversa, na qual, ao tentarmos entender a opinião do outro, acabamos fortalecendo a nossa.

 

Texto originalmente publicado no link https://www.revistaamalgama.com.br/07/2017/resenha-a-aventura-do-estilo-henry-james-robert-louis-stevenson/

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (26/07/2016): “As idealizações que criamos”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falo sobre aquele velho sonho dos leitores: estar dentro da obra de um escritor.

Mas também, não sei por que cargas d’água, desando a falar sobre escritores russos que morreram prematuramente, seja em duelos, seja “suicidados”; admito que o objetivo secreto de toda a obra é mostrar um pouco de morte para o autor e para o leitor; falo de Malba Tahan (de novo, recuso-me a falar da decepção que foi descobrir que Malba Tahan não era um árabe que andava por aí resolvendo dúvidas matemáticas, é um trauma de infância) e do problema do “cálculo da metade da pena de uma prisão perpétua”; conto da polêmica briga que Émile Zola teve com Paul Cézanne, Édouard Manet e Claude Monet – inimigo pouco é bobagem – por causa do personagem de um livro; menciono as sacanagens que Hemingway fazia com o coitado do Fitzgerald, em especial o personagem que criou em homenagem a ele e termino falando da bonita amizade entre Harper Lee e Truman Capote, que começou na infância, passou por brigas contra o bullying, teve um “road trip” de escritores pelo sul dos Estados Unidos e teve o seu ápice com os dois escrevendo livros e criando personagens um em homenagem ao outro.

Boa leitura!

 

As idealizações que criamos

 

Acontece com todos nós. Em algum momento, seja de forma pública ou particular, alguém vai se aproximar e fazer a pergunta fatídica: “tal evento do seu livro se refere a algum episódio vivido?” Ou então: “o personagem tal foi baseado em alguém que você conhece?”. Existe uma curiosidade um tanto mórbida em querer saber isso. É como se a vida necessitasse constantemente irrigar a criação, como se existisse uma relação de causa e efeito entre vida e obra.

Falo isso por que, em decorrência de um curso que ministrei sobre literatura russa, acabei relendo muitas obras e notei um padrão. Durante um determinado período da literatura russa, era costume que escritores se envolvessem em duelos e, como alguns eram bons de letras e nem tanto de tiro, acabaram morrendo por causa desta tendência, como foi o caso de Pushkin e Lermontóv. Na época da revolução russa e do período soviético, um número considerável de escritores morreu na prisão e outros em suicídios mal-explicados, como aconteceu com Mandelstam, Isaac Bábel e Maiakóvski. Muitos viveram longe de duelos ou de brigas políticas, caso de Tolstoi, Akhámatova, Tchekhov e Gorki, mas os escritores de morte prematura tiveram a capacidade de entender qual era o seu destino antes dele acontecer – e deixaram obras inesquecíveis no seu curto espaço de existência. Pareciam saber que iam morrer e, antes de tal evento, escreviam de forma compulsiva. Alguns escritores são a chama duradoura de uma acha de lenha; outros, em compensação, queimam como um fogo fátuo e deixam o mundo, mas ainda recordamos da sua explosão efêmera.

Ora, se existe uma característica que nos transforma em seres humanos é justamente desconhecer o momento em que iremos morrer. Uma das obras que marcou a minha adolescência foi “O homem que calculava”, de Malba Tahan (não vou nem comentar a grande decepção que foi descobrir que Malba Tahan era um pseudônimo, eu imaginava um árabe andando por aí resolvendo problemas matemáticos, mas a vida é cheia de frustrações mesmo). Entre as situações do livro, encontrava-se a questão do vizir que, ao determinar a diminuição das penas de todos os bandidos pela metade, não soube como resolver o problema de um homem condenado à prisão perpétua. Se não sabemos quando ele morrerá, como conhecer o momento em que chegou à metade da pena? Após uma interessante elucubração, misto de filosofia e de matemática – está no livro, não irei resumir senão estragarei tudo – o sábio Beremiz Samir chegou à única conclusão possível: não sabemos quando o homem morrerá e, assim, a única forma de ser justo é mantê-lo em liberdade condicional. No prefácio da obra que recentemente recomprei, Malba Tahan admite que este caso não possui solução possível, pois ninguém sabe o término da vida de alguém. Então, o mais correto foi apelar para a Justiça e para a Compaixão do vizir, alcançando a liberdade condicional não como forma matematicamente justa, mas como o mais humano a se decidir no caso.

Ou seja, até Beremiz Samir, o homem que calculava, refugou nesta questão, mas não a arte. O verdadeiro artista tem consciência de que o seu fazer artístico é uma pulsão de morte. A criação não se vincula somente à vida, mas ao conhecimento de que a morte espreita cada passo nosso, desde o primeiro momento em que respiramos até a última lufada do anônimo ar que saciará nossos pulmões no segundo final. O fim de um livro ou de um conto é, assim como o orgasmo, uma pequena morte. Cada obra é um morrer constante e gradual, e o verdadeiro artista não se preocupa em retratar a vida através do filtro da sua arte, mas em deixar algo maior do que si mesmo.

Por isso estranho um pouco a pergunta sobre qual parte da minha vida ou das pessoas que conheço estão nas minhas obras. Parece-me óbvio que tudo o que vivi está ali – e, ao mesmo tempo, nada. Não crio voltas desnecessárias na história para comportar mensagens elípticas ou lições de moral disfarçadas, e muito menos perco tempo me vingando ou idolatrando alguém através da ficção. Meu objetivo não é retratar a vida, mas lutar contra a morte que me observa de dentro das páginas em branco. Corro contra o tempo, e aqui lembro de Marguerite Yourcenar: “Os livros não contém a vida; contém apenas as suas cinzas”.

No entanto, ao mesmo tempo em que é tudo novo, aquilo que vivi está ali, de uma forma condensada e distorcida. Eu consigo ver a fonte original de onde saiu cada detalhe do que escrevo, e me impressiono com a maneira disforme com que a ficção encara a realidade, amalgamando uma situação vivida com dezenas de relatos, de cenas de filmes, de trechos de músicas e tudo usando a imaginação como argamassa, saindo um verdadeiro Frankenstein em que distingo cada uma das partes formadoras, mas com vida própria e autônoma. Uso a realidade não para me inspirar, mas por que não consigo ficar longe de quem sou, ainda mais em algo tão íntimo quanto é escrever.

O que me faz lembrar a saia justa enfrentada por Émile Zola. Em 1886, ele lançou o livro “A obra”, em que, aproveitando a sua aproximação com os impressionistas e o fato de também fazer críticas de arte, contou a história de um pintor, Claude Lantier, que, ao contrário dos demais pintores da sua época, pretendia fugir dos temas mitológicos então em voga para retratar a fluidez da natureza. Depois de uma série de fracassos, acaba se isolando no campo, onde casa com a sua modelo, Christine, e os dois têm um filho. Resolvem voltar para Paris, para Claude novamente tentar a sorte. A morte do filho acaba gerando uma pintura baseada nele, enfim aceita pelo establishment artístico que, no entanto, acaba por ridicularizá-la, levando o pintor à loucura.

É uma história repleta de reflexões sobre o fazer artístico e sobre os limites quase insanos que separam a criação da vida. No entanto, não foi isto que fez a sua fama, mas o fato de que Cézanne – muito amigo de Zola – identificou-se com o personagem Claude Lantier e os dois trocaram uma série de correspondências enfurecidas, com Zola afirmando que fizera uma ficção e não retratara o amigo. Mas não parou por aí: tanto Édouard Manet quando Claude Monet também foram publicamente apontados como possíveis referências para o personagem principal de “A obra”, o que fez a delícia dos jornais de então. Zola sempre disse que era uma obra de cunho ficcional com base nas suas próprias observações do mundo, mas os críticos detectaram várias semelhanças do agir e do pensar de Claude Lantier com Cézanne. Além disso, uma das obras desenhadas pelo pintor ficcional é uma descrição exata de um dos quadros de Manet, “O almoço na grama” (1862).  As relações dos três pintores e do escritor se deterioraram de tal forma que nunca mais voltaram ao normal.

Édouard Manet, "O almoço no jardim"

Édouard Manet, “O almoço no jardim”

A necessidade das pessoas de acharem uma relação da obra artística com elas mesmas sempre soa um tanto arrogante. O importante para Émile Zola era fazer o seu livro criar vida, e usou as experiências de vida e as pessoas que conhecia para escrever. O fato de três pintores impressionistas se verem no interior de Claude Lantier é prova de que, ao descrever um personagem como símbolo, podemos encontrar várias pessoas no seu interior. É o sintoma da obra bem escrita: perder a sua origem e tornar-se uma universalidade indistinta de outros seres e situações.

Mas claro que artistas são seres humanos, e também possuem a vontade quase indecente de sacanear alguém. Transformar isto em algo que consiga ser uma obra autônoma e apta a ter vida própria fora do objeto da maldade, eis o verdadeiro talento. Na amizade atribulada de Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, o primeiro – que era um enorme sacana e aproveitava qualquer possibilidade literária para envergonhar ou embaraçar o colega – resolveu fazer um personagem em “As neves de Kilimanjaro” em homenagem do escritor sulista, ridicularizando a sua visão de que os problemas dos ricos são diferentes dos pobres. Hoje conhecemos o personagem como “pobre Julian”, mas, na primeira versão do livro, ele se chamava “Scott”, em lembrança direta à Fitzgerald. No entanto, o escritor reclamou para Max Perkins, e a reclamação chegou ao conhecimento de Hemingway, que trocou o nome para “Julian”, o qual, ainda assim, guardava uma última brincadeira: Julian era o personagem principal de “Uma nova folha”, conto de Fitzgerald, que o escritor próprio admitia ter baseado muito em si mesmo.

Hemingway não podia desperdiçar a piada e muito menos a chance de ridicularizar Fitzgerald, mas, mesmo fazendo isso, não perdeu o prumo da história, tanto que “As neves de Kilimanjaro” é um dos seus mais festejados contos.  Ser uma alfinetada no colega escritor não tira nada da sua força, só adiciona um pouco mais de cor a uma relação literária, imortalizando a piada.

No entanto, nem sempre a arte é usada como forma de confrontar pessoas reais com ficcionais, ou como objeto de problemas. Também pode ser uma troca de experiências e um intercâmbio de ideias, ainda mais quando as duas pessoas se dispõem a uma relação harmônica dentro e fora dos limites da obra.

Harper Lee e Truman Capote cresceram na mesma vizinhança, e eram amigos desde os cinco anos de idade. Costumavam ler em voz alta um para o outro – Harper Lee lia as aventuras de Sherlock Holmes, Capote lia as obras de Edward Stratemeyer. Eram tão amigos que a escritora não raro entrava em brigas no colégio, protegendo o vizinho do “bullying” praticado pelos demais colegas. Quando tinha quatorze anos, o pai de Harper Lee presenteou-lhe com uma máquina de escrever, e os dois passavam as tardes ditando histórias para o outro datilografar.

Harper Lee e Truman Capote

Harper Lee e Truman Capote

A relação se estendeu pela vida. Quando Truman Capote escreveu “A sangue frio”, Lee foi a sua assistente de pesquisa, primeira leitora e revisora, ao ponto de não poucos críticos acreditarem que ela escreveu parte do livro e nunca ganhou o merecido crédito. Apesar de insinuarem que os dois escritores tinham brigado por ausência até de uma menção a Harper Lee, isto não ficou evidente em nenhum momento. Inclusive, dois anos após o lançamento de “A sangue frio”, Capote e Lee decidiram fazer uma viagem de carro pelos locais da sua infância, mostrando a solidez da sua amizade. Quando perguntada quem era os maiores escritores que conhecia, Harper Lee sempre citava Capote, e a recíproca também acontecia.

Tal relação não podia ficar longe das suas obras e, assim, em “O sol é para todos”, Harper Lee fez um personagem claramente decalcado em Truman Capote, Dill Harris, e muitos dos diálogos estabelecidos com Scout são conversas que os dois escritores mantiveram na vida real. Em retribuição, Truman Capote retratou a amiga como a personagem Idabel Thompkins em “Outras vozes, outros lugares”, uma menina que se vestia como rapaz (“tomboy”), vivaz, alegre e com respostas rápidas. Foi a forma que ambos encontraram de prestar tributo à relação de amizade que os unia: trazê-las para dentro de uma obra literária e gerar uma outra pessoa, alguém que lembra o outro mas não é ele, possuindo vida própria.

Apesar de acharem que somente artistas possuem esta capacidade de distorção do real para colocar na sua obra, é um processo que todos nós fazemos. Nunca vemos a realidade do outro, ela está sempre misturada com a nossa imaginação e com pensamentos pré-concebidos. Não nos inspiramos em fatos reais ou em pessoas existentes, mas eles servem de argila para que possamos criar um mundo idealizado, e isto existe em todos os lugares, seja na pessoa que começa uma relação e vê o espectro de outras no seu interior, seja naquele que jura não cometer os mesmos erros de sempre – e os comete, inapelavelmente.

Criamos obras artísticas para afastar a morte e, no meio do caminho, acabamos achando as vidas não só que passaram pelo nosso caminho, mas as vidas que sequer imaginamos ser capazes de tocar. Vivemos melhor quando sabemos que podemos morrer a qualquer momento e, da mesma forma, chegamos mais perto da essência dos outros se sabemos ser somente uma passagem, e não um fim. Quando Zola cria um personagem que junta três pintores em um só corpo, ou quando Hemingway debocha de Fitzgerald no interior de um conto, ou quando Harper Lee e Truman Capote colocam a amizade de uma vida inteira dentro das suas obras, não estão fazendo nada diferente do que fazemos todos os dias: olhar a vida dos outros e tentar entendê-las do nosso jeito. Fazer perdurar o instante até o infinito.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/as-idealiza%C3%A7%C3%B5es-que-criamos-f689cb607342#.yhdjclb0f

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Resenha do livro “Poesia Reunida”, de Adélia Prado

O Amálgama (www.revistaamalgama.com.br) pediu para que eu resenhasse “Poesia Reunida”, da escritora mineira Adélia Prado, um volume que reúne toda a sua obra poética. Foi um grande prazer realizar uma releitura da Adélia, descobrir poemas que não conhecia e lembrar de outros que já tinha lido. Foi um dos poucos livros de poesia que, assim que se aproximava ao final, dava vontade de começar a lê-lo de novo, como se algo muito importante tivesse sido perdido e estivesse ali, ao alcance dos olhos, ansioso para ser subjugado e acalentado.

Nem preciso dizer que recomendo muito a leitura do livro. Adélia Prado é da estirpe de poetas cuja leitura faz o mundo se tornar um lugar melhor.

Boa leitura!

 

A poesia indesmanchável de Adélia Prado

 

É relativamente fácil achar bons poetas; o complicado mesmo é encontrar os excepcionais, aqueles que lemos com a sensação de que a nossa visão de mundo está modificando no momento exato da leitura. Quando estamos diante de um poeta verdadeiro, alguém que se entrega à sua subjetividade com técnica, usando cada palavra como se fosse a mais preciosa joia, sentimo-nos como barro sendo manuseado por mãos sábias; a cada verso, sentimos que uma breve pressão foi aplicada na nossa personalidade, e algo se modificou de forma eterna; a cada poema, sentimos que ele sempre esteve dentro de nós, mas não tínhamos a capacidade de transformá-lo em carne e palavras.

A poesia existe para nos aproximar do divino, e tal conceito independe de religião, fama ou bens materiais, mas está vinculado àquele algo maior que almejamos em silêncio. Neste sentido, “Poesia reunida”, de Adélia Prado (Editora Record), mais do que uma compilação de todo o material já produzido pela escritora mineira, é uma apologia ao fazer poético. Não é um livro que explode em epifanias ou que possui pontos da mais plácida calma. Ao contrário, a reunião dos poemas de Adélia Prado revela a consistência dos seus temas ao longo dos tempos, a tranquilidade com que utiliza a palavra para construir imagens, a sabedoria do poetar sem pressa.

Adélia Prado

Adélia Prado

Por reunir todos os livros publicados por Adélia Prado, o tamanho de “Poesia reunida” pode assustar leitores incautos. No entanto, entre as 543 páginas que constituem o exemplar, um pouco mais de 80 são dedicadas a um extenso levantamento bibliográfico e a três textos, um escrito por Carlos Drummond de Andrade, outro por Affonso Romano de Sant’Anna e o terceiro por Alberto Mussa. Os textos ajudam a deixar a obra de Adélia Prado ainda mais prazerosa, pois abordam características comuns dos seus poemas. De Drummond, optou-se por trecho da crônica que ele escreveu para o Jornal do Brasil, onde revelou as suas primeiras – e maravilhadas – impressões sobre a obra da escritora mineira até então desconhecida. Affonso Romano de Sant’Anna relata o que sentiu quando leu os originais de Adélia. Nas suas palavras: “Não aguentei e telefonei para Drummond: Mestre, acaba de aparecer uma poetisa no interior de Minas. E isto eu dizia como um astrônomo no observatório nacional, feliz com uma nova possibilidade de vida fora de mim, do que conhecia, do que lia.” Alberto Mussa optou por um texto inédito, descrevendo cada livro de Adélia e apresentando algumas de suas chaves de escritura para deixar mais completa a fruição dos poemas.

Ainda assim, quando nos deparamos com a obra de Adélia Prado, vemos as pouco mais de 460 páginas de poesia se sucederem com prazer crescente. Não é um livro cansativo; afastamos o olhar dele não para refletir, mas para deixar que o encantamento gerado pelo poema – ainda de leitura fresca – continue mais alguns segundos na memória. Se existe um mérito em uma obra poética de tamanha envergadura é este: lemos os poemas não como se eles fossem uma sucessão de palavras em formato de versos, mas como se estivessem respirando na nossa frente. É possível sentir cada palavra com a mesma emoção original que a gerou. A poesia flui do livro assim como saiu da poeta – sem dificuldades, sem sobressaltos, com o avançar inexorável de uma catarata. O mundo torna-se uma grande poesia, vertido pelas palavras elegantemente exatas de Adélia Prado, e o leitor se torna parte delas, tanto da poesia quanto da poeta.

Ao analisar a obra reunida de qualquer escritor (e vale aqui lembrar que é “Poesia Reunida” ao invés de “completa” por que Adélia Prado ainda se encontra produzindo poemas, com a velocidade que o seu fazer poético autoriza, sem se curvar à fome crescente dos leitores e do mercado editorial), alguns temas acabam se destacando. Em primeiro lugar, analisando as epígrafes e citações contidas no interior dos poemas, é possível notar a forte influência que a Bíblia deixou sobre a poeta mineira. Mas não toda a Bíblia, e sim as frases mais repletas de beleza e os livros mais poéticos, em especial o “Cântico dos Cânticos”, assumidamente a obra mais literária do texto sagrado. Dito desta forma, poderia sinalizar que a obra de Adélia Prado possui um forte cunho religioso, mas escapa deste rótulo no momento em que articula temas bíblicos no meio do cotidiano. Além disso, muitas de suas poesias aproveitam mais o ritmo dos textos da Bíblia, em uma toada que lembra a estrutura da oração, como no poema “A boca”:

“Se olho atentamente a erva no pedregulho

uma voz me admoesta: mulher! mulher!

como se me dissesse: Moisés! Moisés!

Tenho missão tão grave sobre os ombros

e quero só vadiar.

Um nome para mim seria A BOCA

ou a SARÇA ARDENTE E A MULHER CONFUSA

ou ainda e melhor A BOBA GRAVE.

Gosto tanto de feijão com arroz!

Meu pai e minha mãe que se privaram

da metade do prato para me engordar

sofreram menos que eu.

Pecaram exatos pecados,

voz nenhuma os perseguiu.

Quantos sacos de arroz já consumi?

Ó Deus, cujo reino é um festim,

a mesa dissoluta me seduz,

tem piedade de mim.”

O poema acima revela outra característica da produção de Adélia Prado: as memórias da infância. As preocupações simples da época de criança, as recordações quase tácteis, os cheiros, sons e cores são revividos através dos poemas, mas sem o ranço de saudosismo. A poeta traz a infância para dentro da sua obra não a título de nostalgia ou melancolia, mas como uma sucessão de momentos luminosos que continuam a residir na mulher já adulta – e que nunca serão perdidos, posto que se tornaram parte da sua essência. Em geral, quando nos recordamos do passado, tendemos a imaginá-lo como algo perfeito. No entanto, em uma abordagem criativa para a sua infância, Adélia a trata como um espaço de dúvidas, incertezas, medos e alegrias, sem idealizações. Apesar da sua voz autoral manter uma certa reminiscência da voz infantil (possível perceber no poema “A boca”, em que a voz do poema oscila da fase adulta para a criança temerosa da reação dos pais), não é por tratar deste período da vida como uma fase de confrontos, mas como espaço para constante maravilhamento.

Alberto Mussa destaca a forte tensão sexual existente na poesia de Adélia, algo não declarado de forma explícita, mas que percorre os seus versos como uma voltagem invisível. Grande parte desta sensação de voluptuosidade surge das suas descrições repletas de sentidos e da forma faminta com que trata do corpo masculino e feminino. São poemas de relativa intensidade, escritos com palavras quentes, e parte do calor se transmite através da leitura. Em épocas de erotismo desbragado (e mal feito), é interessante ver como um poema pode ser sexualmente excitante sem usar nenhum estratagema fácil. Exemplo é o poema “Ofício parvo”, no qual se sente uma atmosfera sexual sem, no entanto, existir nenhuma cena que leve a tal conclusão, a não ser a imaginação forte do leitor:

“Quero limpar a boca e as entranhas

do sonho que me sujou

mais que se em vigília

as mesmas podres coisas me sujassem.

O tentador me cobra sem descanso

uma prova de fé.

Virgem, Porta do Céu, em meu favor,

pisa com teu pé de menina

a cabeça de cobra que ele tem,

me livra da tentação

de sofrer mais do que Deus.”

Lendo o conjunto da obra de Adélia Prado até agora, também merece realce a força que ela dá para a mulher no interior dos seus poemas. Não quer dizer que sejam trabalhos feministas, mas poemas repletos de temas femininos articulados de maneira universal. Ao invés de realizar denúncias ou descrever situações de machismo, a poeta aborda o feminino com coragem e força poética, mostrando dúvidas, como em “Mural”:

“Recolhe do ninho os ovos

a mulher

nem jovem nem velha,

em estado de perfeito uso.

Não vem do sol indeciso

a claridade expandindo-se,

é dela que nasce a luz

de natureza velada,

seu próprio gosto

em ter uma família,

amar a aprazível rotina.

Ela não sabe que sabe,

a rotina perfeita é Deus:

as galinhas porão seus ovos,

ela porá sua saia,

a árvore a seu tempo

dará suas flores rosadas.

A mulher não sabe que reza:

que nada mude, Senhor.”

Nas entrevistas, Adélia Prado afirma que o seu tema preferencial é o cotidiano. Ser capaz de ver os temas universais que se escondem no meio do habitual é a característica principal de qualquer grande poeta. Afirmou Percy Bysshe Shelley no clássico ensaio “Em defesa da poesia”: “a poesia ergue o véu de beleza oculta do mundo, e torna familiar objetos como se não fossem familiares; reproduz tudo o que representa e as interpretações revestidas nesta luz Elísia permanecem, desde então, nas mentes daqueles que, uma vez, as contemplaram como memoriais daquele conteúdo, gentil e exaltado, que se estende sobre todos os pensamentos e ações com as quais coexistem.” Neste sentido, Adélia Prazo produziu uma obra que, mais do que revelar a beleza do mundo, também agregou novas cores nele. E ninguém melhor do que ela própria para se definir, em um verso do poema “Branca de Neve”: “sou curva, mista e quebrada, sou humana.”

Ao buscar o Deus indiferente que reside em cada mínimo objeto, a poeta ergueu um memorial poético em honra ao ser humano. Talvez por causa disto, a surpresa de Adélia Prado no dia seguinte ao lançamento bem-sucedido do seu primeiro livro – o medo de que a sua poesia tenha morrido – revela-se engraçado, conforme ela confessa no poema “Fluência”, quando o despertar do dia seguinte a faz procurar a voz poética, saber se ela ainda existe, se a poeta não morreu no momento em que o livro nasceu:

“Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,

não perdi a poesia.

Hoje depois da festa,

quando me levantei para fazer café,

uma densa neblina acinzentava os pastos,

as casas, as pessoas com embrulho de pão.

O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.

Persistindo, a necessidade dos relógios,

dos descongestionantes nasais.

Meu livro sobre a mesa contraponteava exato

com os pardais, os urinóis pela metade,

o antigo e intenso desejar de um verso.

O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.

Como antes, graças a Deus.”

 

Resenha originalmente publicada no link http://www.revistaamalgama.com.br/03/2016/a-poesia-indesmanchavel-de-adelia-prado/

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“Philip Roth e o direito de silenciar”, texto publicado no Amálgama em 14/11/2012

Em novembro de 2012, publiquei este texto no Amálgama (www.amalgama.blog.br) sobre o anúncio da aposentadoria do Philip Roth e o direito que todo escritor possui de deixar de escrever.

Foi um texto feito apressadamente. Um pouco irônico, pois não simpatizo muito com a obra de Philip Roth, mas admirei demais a decisão espontânea dele de largar a literatura por saber que não tem mais nada a dizer. Os escritores deveriam ter isto não só como direito, mas também como obrigação. Sinceramente, eu invejo quem chegou ao ponto de ter esgotado toda a sua criatividade. Isto não deve ser visto com medo, e sim como um ideal de vida.

 

Philip Roth e o direito de silenciar

 

roth

 

No livro Papa Hemingway, contando os últimos dias de Hemingway antes do suicídio, seu amigo e editor A. E. Hotchner transcreveu a impressão deixada pelo grande escritor americano no seu médico, Vernon: “Hotch, honest to God, if we don’t get him to the proper place, and fast, he is going to kill himself for sure. It’s only a question of time if he stays here, and every hour it grows more possible. He says he can’t write any more—that’s all he’s talked to me about for weeks and weeks. Says there’s nothing to live for. Hotch, he won’t ever write again. He can’t. He’s given up. That’s the motivation for doing away with himself.” Em uma tradução livre, esta foi a constatação do médico: “Hotch, sendo completamente honesto, se não o levarmos até um lugar apropriado, e rápido, ele com certeza vai se matar. É somente uma questão de tempo se ele continuar aqui, e a cada hora que passa fica mais possível. Ele diz que não pode mais escrever – é tudo o que ele tem me falado por semanas e semanas. Diz que não existe mais nenhum motivo para viver. Hotch, ele nunca mais vai escrever. Ele não consegue. Ele desistiu. Esta é a motivação para que acabe com a própria vida.” De todas as análises feitas para tentar explicar o suicídio de Hemingway, chama atenção que os motivos sejam clínicos, fáceis de entender, como se o suicídio fosse uma questão lógica: ele estava deprimido, sentia dores lancinantes em decorrência de um acidente em um safari, estava paranoico, bebeu demais. Ninguém fala na ausência das palavras antes abundantes, no abismo deixado na alma, no silêncio de se saber finito, na inexorabilidade do tempo.

Como um escritor acaba?

Philip Roth, escritor americano, autor de Nêmesis, Operação Shylock e O teatro de Sabbath, entre outros livros, recentemente anunciou que estava abandonando a escritura. Em entrevista à revista francesa Les Inrockuptibles, em outubro de 2012, ao ser perguntado se ainda mantinha o desejo de escrever, Roth surpreendeu ao anunciar que não tinha mais tal vontade, que não mais lançaria livros e que se dedicaria a trabalhar nos seus diários e arquivos. Diante da pergunta “Você não está exagerando um pouco?”, Roth respondeu: “Escrever é estar sempre errado. Todos os nossos rabiscos contam a história de nossos fracassos. Não tenho mais a energia da frustração, nem a força de me confrontar. Porque escrever é se frustrar: passamos todo nosso tempo escrevendo a palavra errada, a frase errada, a história errada. Nos enganamos sem parar, falhamos sem parar e, assim, precisamos viver em uma frustração perpétua. Passamos o tempo dizendo a nós mesmos: isso não está funcionando, preciso recomeçar. Agora estou numa fase diferente da minha vida: perdi toda forma de fanatismo. E não sinto nenhuma melancolia.”

Por maior que seja a racionalização feita por Philip Roth para explicar a desistência, uma das críticas mais feitas aos seus últimos romances era a repetição dos temas. Sem entrar em méritos literários ou críticos, nesta mesma entrevista, Roth anunciou que tal decisão foi tomada após o projeto pessoal de reler a sua obra e ser incapaz de ultrapassar O complexo de Portnoy. Cada livro lançado dissipa um pouco a voz interna do escritor, a sua frustração, o seu confronto; Philip Roth deve ter escutado a voz do passado repetindo-se dentro da obra atual. E pode ter chegado à inédita conclusão de que tudo que precisava dizer já foi dito, que as palavras não eram mais necessárias, que a fonte da inventividade secou. Que ele viraria um plagiador de si mesmo, algo inaceitável para qualquer artista.

É uma ilusão imaginar que tudo pode ser eterno. Até mesmo a criatividade acaba: a única diferença é que, às vezes, a criatividade termina ainda em vida e, em outras, a morte é piedosa com o autor, silenciando o corpo e sepultando a inconformidade interna que lhe animava. Muitos são os casos de escritores que lançaram somente uma obra e depois foram incapazes de escrever outra: em algumas ocasiões, a necessidade de contar a história é mero fio de água, fácil de ser obstruído. Hemingway não foi o primeiro escritor cuja voz narrativa interna silenciou, mas talvez tenha sido mais um a tomar a decisão extrema de confundir literatura e vida. Pensando na decisão de Roth, não posso deixar de lembrar outro trecho da biografia de Hemingway, onde Hotchner menciona a extraordinária dificuldade que o escritor passava para diminuir The dangerous summer de 92.453 palavras para 40.000. Cabe destacar que Hemingway é considerado um dos escritores com maior poder de síntese, sendo que as suas regras para bem escrever sempre se basearam justamente no corte de situações e palavras desnecessárias. Pela primeira vez, o editor viu a insegurança, a incerteza, a incapacidade de lidar com a matéria prima do fazer literário: a própria palavra. Hemingway tinha pesadelos com o livro e mencionou viver uma história digna de Kafka para resumir o seu trabalho. Nas palavras de Hotchner, o escritor estava “abatido física e emocionalmente” devido a este embate interno.

Quando a decisão de Philip Roth de aposentar a sua escritura foi anunciada, milhares de fãs protestaram por todo o mundo. Imaginaram-se traídos pelo seu autor favorito. Não há razão em tal inconformidade, pois é visível a confusão feita entre a eternidade da arte e a figura mortal e pálida do próprio criador. A possibilidade do autor silenciar a sua voz narrativa é um direito à dignidade. Não à dignidade própria, mas ao respeito maior pela própria arte, respeito tão grande que o leva a abdicar da própria literatura para não destruir o legado erigido em anos de cuidadoso labor. Philip Roth ganhou as maiores honrarias que um escritor pode conseguir em vida, com exceção do Prêmio Nobel de Literatura, que todos sabem que é um prêmio que leva em consideração mais a política do que o valor literário. Ele não precisa mais provar nada.

A vida é uma peça de teatro, já dizia Shakespeare. Existe grande dignidade em saber o momento em que se deve abandonar o palco. Além disso, é preciso ser humilde como nunca quando se percebe que a presença do autor mais atrapalha a obra do que ajuda. Existe uma interessante discrepância: o autor cria a obra, mas ela possui vivência própria, a qual pode ser atrapalhada pelo demiurgo que lhe gerou. Ter o direito de não estragar o próprio legado de glórias com a veleidade da ruína causada pelo tempo é o direito máximo de um ser humano. Shakespeare soube como ninguém abandonar a peça; sua saída foi tão silenciosa que todos sabem que um ator brilhante estava interpretando, mas ninguém o viu entrar e nem percebeu a sua retirada. Hemingway escolheu a saída mais violenta na sua lógica brutal: se literatura é vida, a ausência da literatura é a morte. De acordo com notícias veiculadas na imprensa e repercutidas pelo mundo, Gabriel García Marquez enfrenta sérios problemas de memória, um indicativo de que a sua degeneração mental teve início. Sua saída será lenta e acompanhada com angústia pelo público, que o confrontará com a sua obra passada, em uma comparação que ele só pode perder. Prefiro pensar que, quando García Marquez escreveu Viver para contar, não era um simples título, e sim uma evocação desafiadora para o tempo, uma última audácia: “estou vivo e ainda lembro”.

Muito podemos aprender com a dignidade de Philip Roth: podemos rever os próprios atos, ver o momento em que a escala descendente da vida começa a comprometer a imagem deixada no mundo. Quando ficavam velhos, os romanos abandonavam as intrigas da cidade e iam para o campo se dedicar aos afazeres mais simples e à filosofia. Quantos políticos podemos dizer que sabem o momento de abandonar a arena, quantos donos de empresa aferroam-se ao poder e lutam para mantê-lo? Sem a necessidade de Philip Roth ser Philip Roth, com o direito ao silêncio e à circunspecção assegurados, ele pode reencontrar o homem que um dia foi, sem máscaras ou facetas sociais que lhe foram impostas. Talvez o verdadeiro e mais excitante desafio que ele possa ter, aquele que imaginou não mais existir quando a literatura silenciou, esteja começando agora.

A incomodação com o anúncio de Philip Roth pode estar em outro nível. Em Mil e uma noites, Sheherazade nos ensinou que escrever é adiar o próprio fim. Quando um autor para de escrever, sente-se que ele admitiu a proximidade da morte. Não existem mais encantos ou truques para afastá-la. Ao anunciar o seu desejo de parar de escrever, Roth também admite que a sua voz acabou e que, agora, a morte pode levá-lo. É o mesmo que o fim da memória de García Marquez lhe representa: uma morte em vida. Contudo, a julgar pelos últimos livros lançados, percebe-se que o autor pode estar virando o personagem da própria história, admitindo a contragosto a velhice, a perda do poder sexual, o cansaço, a onipresença da morte a lhe rodear. Philip Roth admite que até os deuses do Olimpo literário podem sangrar e morrer, e esta é uma lição que todos deveriam saber desde o primeiro ar que entrou nos pulmões. Uma lição tão implacável que Hemingway preferiu morrer, algo que todos nós um dia precisaremos encarar: assim como a literatura, tudo acaba.

(Originalmente publicado no link: http://www.amalgama.blog.br/11/2012/philip-roth-e-o-direito-de-silenciar/)

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Os pássaros que moram em nós

Acontece com quem lê vários livros diferentes ao mesmo tempo. Logo o assunto de uma obra reverbera nas páginas da outra, o tema preferido de uma personagem encontra eco nos anseios da sua antípoda que caminha em distintas páginas, as perguntas de um narrador acabam sendo respondidas pelo seu irmão desconhecido que transita por outro livro.

Nas minhas últimas leituras, chamou-me atenção o aparecimento de pessoas que convivem com pássaros no seu interior.

Eu sei que é uma alegoria: acho difícil que abra a minha boca e uma caturrita escape por entre os lábios (difícil, mas não impossível). Os pássaros representam o último estatuto da liberdade. Voar é libertar-se da gravidade e do mundo.

Imaginar que existem pássaros dentro de cada um é o mesmo que dizer que somos criaturas repletas de sonhos que, libertados, podem alcançar píncaros ainda desconhecidos. Frida Kahlo, no “Diário”, indagou “pés, para que os quero, se tenho asas para voar?”. Conhecendo a sua sofrida trajetória de vida, é gratificante ver que ela dispensava a presença dos pés enquanto pudesse criar e voar com a sua imaginação, livre das amarras físicas.

No conto que dá título ao livro de contos de Samanta Schweblin, “Pássaros na boca”, a personagem principal tem a estranha característica de só se alimentar de pássaros vivos. O horror do seu desejo torna-se ainda mais flagrante quando ela somente gosta de ingeri-los vivos, como se a liberdade alheia e a capacidade de voar sem controle fosse o verdadeiro objeto da sua fome.

Dirão os vegetarianos que existe pouca diferença entre comer pássaros mortos e pássaros vivos, o essencial é a vida que se vai, mas, ainda assim, a ideia de uma vida ser destroçada por implacáveis dentes e ter o seu sangue quente sorvido no mesmo ato é a inversão do conceito poético de que pássaros podem morar no peito humano. No caso, os pássaros são assimilados e destruídos pelo corpo ou, mantendo este idílio criado por mentes sensíveis, os pássaros que moram dentro da personagem exigem um tributo na forma de seus congêneres ainda livres. Pássaros da alma devorando pássaros soltos; canibalismo levado às últimas consequências.

Por isto, Neruda, que leva os pássaros para dentro da mulher amada, identificando-a também com a liberdade das ondas e do vento:

“Para meu coração basta o teu peito
para que sejas livre as minhas asas.
De minha boca chegará até o céu
o que dormido estava em tua alma.

Tu trazes a ilusão de cada dia.
Chegas como orvalho nas corolas.
Com tua ausência escavas o horizonte.
Eternamente em fuga, irmã das ondas.

Já disse que o teu canto era o do vento
como cantam os mastros e os pinheiros.
És como eles alta e taciturna.
Entristeces de pronto, como uma viagem.

Acolhedora como a antiga senda.
Abrigas ecos e vozes nostálgicas.
Desperto e alguma vez emigram, fogem
pássaros dormindos em tua alma.

“Veinte poemas de amor y una canción desesperada” (na tradução de Thiago de Mello)

 

"Freedom comes from the inside", por ammozart.

“Freedom comes from the inside”, por ammozart.

Contudo, percebi que, em algumas pessoas, também moram pássaros sombrios. São corvos que, enquanto crocitam seus horrores, devoram a carne que os cerca. Alejandra Pizarnik disse “não sei sobre pássaros, não conheço a história do fogo. Mas creio que a minha solidão deveria ter asas”. A possibilidade de desalojar sentimentos, incômodos pássaros que desaprenderam, a voar também é uma possibilidade perturbadora. Todos podem se libertar das suas aflições se abrir a gaiola dos sentimentos e deixá-los sair. Neste caso, por que não conseguimos fazer isto? Por que mantê-los?

De todos os pássaros negros abancados no interior dos corpos, acredito que Fernando Pessoa, ao colocar grandes pássaros que espreitam o limiar do seu ser, tocou no terror silencioso que pode morar dentro de cada um:

Grandes mistérios habitam

O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.

São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.

No meu percurso de leituras, chamou atenção os pássaros que adejavam sobre diferentes escritores, sempre objeto de fascínio. Não sei o motivo da coincidência que me levou a notar este detalhe. Também existe a possibilidade do meu inconsciente ter procurado leituras que remetessem a pássaros, e esta é uma questão pessoal inquietante.

Eu possuo corvos, abutres e urubus no meu espírito, mas eles ficam nas partes mais obscuras, alimentando-se das liberdades que vou aos poucos matando.

"Transfiguration", Sócrates Magno Torres

“Transfiguration”, Sócrates Magno Torres

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Outra resenha no Amálgama

Saiu mais uma resenha minha no Amálgama (www.amalgama.blog.br).

Desta vez, trato do livro “Balzac e a Comédia Humana”, de Paulo Rónai, livro de ensaios do escritor húngaro naturalizado brasileiro abordando várias possibilidades e chaves de leitura da portentosa obra de Honoré de Balzac, que está sendo relançada no Brasil. Para quem já conhece o livro (ou partes dele, “A Comédia Humana” é gigantesca), vale a pena ver o aprofundamento de alguns temas e a abordagem de novas formas de leitura, em especial o “dilema do mandarim” como questão fulcral na obra balzaquiana.

Segue o link:

http://www.amalgama.blog.br/04/2013/balzac-e-a-comedia-humana-paulo-ronai/

Boa leitura!

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Nova resenha no Amálgama

E prosseguem as minhas resenhas no Amálgama (www.amalgama.blog.br). Desta vez, eu tratei do livro “Viagens na minha terra”, do português Almeida Garrett, uma narrativa deliciosamente caótica que pretende ser uma provocação a Xavier de Maistre: se o espanhol pode fazer um livro viajando pelo seu quartoi, por que o português não pode escrever um manual de viagem nas cidades próximas a Lisboa? Partindo deste mote, o escritor romântico se entrega a desvarios, comentários, ironias e apupos enquanto anda pelo Portugal antigo. Vale a leitura.

O link é este:

www.amalgama.blog.br/02/2013/viagens-na-minha-terra-almeida-garrett/

Boa leitura!

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