Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas” lá no Artrianon, eu falei sobre um quadro do pintor Italiano Pietro Pajetta, “O ódio” (1896), que, bom, como dá para ver pela imagem, captura o exato momento em que começará uma necrofilia.

Ele está baseado em duas situações diferentes, mas complementares. O fato – a violação de um túmulo e a violência sexual – realmente aconteceu em um vilarejo da Itália, uma história que causou escândalo na época mas acabou se perdendo. Em segundo lugar, o quadro foi baseado em um poema escrito sobre essa necrofilia, chamado “Canto dell’Odio”, escrito por Lorenzo Stecchetti, e cuja tradução só achei em inglês:

“As you shall sleep forgotten under the waxy soil and the cross of God shall stand upright infixed above your spoils

As both your cheeks shall melt in rot over your shaky teeth and in the foetid vacuum of your orbs maggots shall swarm and breed

For you that slumber, which to most is peace shall be renewed torment and a remorse shall come, steadfast and cold to fret upon your brain.

A remorse, the sharpest and most cruel, shall come over your burial in spite of God, and in spite of his cross to gnaw upon your bones.

I shall be that remorse. I, seeking you in the dark of the night Lamia who shuns the morn, shall come and howl as would howl a she-wolf;

I shall with mine own nails dig up the earth by your virtue made dung and split asunder the foul planks which hold your infamous carrion.

Ah, how in your heart still vermillion shall I quench the hate of old Ah, with what joy shall I protrude my claw into your shameless womb!

On your putrescent belly, nestled up I shall forever dwell A specter of vengeance and sin, a monstrosity from hell;

And at your ear, which was so fair, shall I whisper insatiable sayings which shall set your brain on fire like glowing hot iron

When you shall ask: why do you sting me, and drench me with your poison? I shall respond: don’t you remember your hair, which looked so awesome?

Don’t you recall the plentiful blond mane falling upon your chest and eyes of blackest tint, and bottomless sparkled by yellow flames?

And the audacities of your bosom, the opulence of the hip? Don’t you recall how beautiful you were provocative, and pale?

But are you not then that who her naked breasts exposed to public eyes and, foaming Licisca, made her own bed into a true traffic hub?

Are you not the one who drunks and soldiers welcomed in her embrace lowered herself to unspeakable kisses yet laughed upon my face?

And as I loved you, and fell upon my knees in front of you, and, you see when you looked at me I only wanted to die under your feet

Why deny – to me, who loved you so – a gentle glance, when for you I would have made myself a slave, I would have made myself depraved?

Why did you say no, when crawling at your feet I implored your mercy while your pimps out in the street awaited for the next batch of Brits?

You laughed? Now listen! Up from the cave grave this sinful corpse of yours your naked flesh so much I adored I am nailing to the pillory

And the pillory are those verses, whereas I condemn you to eternal blame, and punishments so harsh that you shall long for those dispensed in hell.

Here shall you ever die a new death, oh accursed slowly being pierced with pins and with your shame, my vengeance between your eyes I seal.”

Boa leitura.

“O ódio” (1896), Pietro Pajetta

Ninguém está vendo. Ninguém nunca vai saber. Esse vai ser o nosso pequeno segredo. Depois de tantos anos de humilhação, de risadinhas pelas esquinas, de olhares repletos de escárnio, hoje você vai ser minha, e não importa que o teu corpo não tenha mais o tom rosado que tanto admirei, não importa que a tua respiração não tenha mais o gosto de amêndoas que imaginei ser o sabor da tua alma, não importa que teus olhos azuis estejam cerrados para sempre na Terra, mas abertos no Paraíso. Hoje vou ter aquilo que sempre cobicei nas minhas longas noites impregnadas de ausência e de desejo. Retirarei a tua virgindade com a raiva de quem nunca escutará novamente a tua voz; vou satisfazer a minha fome, mesmo que isso cause a danação eterna das nossas duas almas. Tento ignorar a frieza da tua pele, enquanto minhas mãos passeiam pelos mistérios que me foram negados até então. Continuas imersa na imobilidade daqueles espíritos que já atravessaram o rio dos mortos, sem notar os arrepios que me percorrem enquanto luto contra o teu inoportuno vestido, o calor da minha ereção proibida contrastando com a pureza marmórea do corpo no qual, em breve, irei saciar o meu desejo. Arranquei teu corpo da terra que o continha e dos vermes que estavam ansiosos para te devorar, pois eu não podia deixar-te partir deste mundo em paz; antes de entrar no Paraíso, tu experimentarás a minha raiva e, quando eu estiver te penetrando, querida, em meio ao silêncio escandalizado dos abutres, espero que teu fantasma chore ao perceber que, se tu não tiveste amor durante a tua vida, eu te possuirei com ódio para que nunca mais te esqueças – não enquanto durar a Eternidade.

Texto originalmente publicado no link:
https://artrianon.com/2018/07/08/obras-inquietas-63-o-odio-1896-pietro-pajetta/

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Um comentário em “Obras Inquietas – 63. “O ódio” (1896), de Pietro Pajetta

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