As pequenas maravilhas que descobrimos sem querer: alguns dias atrás, estava lendo uma biografia de sir Walter Scott, o autor de clássicos como “Ivanhoé” e “Waverley”, e deparei-me com um resumo dos últimos anos de vida do escritor escocês. Após uma síntese seca das doenças que lhe afligiam, surge a seguinte informação:

“Nos derradeiros meses de vida, sir Walter Scott quase não deixou mais a cama. Preparava uma edição completa de suas obras, que totalizaria 48 volumes, mas não recordava os pseudônimos que utilizara nos seus primeiros anos, então precisava ler as obras para descobrir se as escrevera. Como não lembrava, atribuía a si mesmo obras que não tinha escrito.”

Percebem a maravilha? Nos seus últimos meses de vida, Sir Walter Scott deixou de ser um homem e virou a própria LITERATURA.

Por não lembrar o que escrevera – se existiam obras suficientes para encher 48 volumes e ainda não estavam todas catalogadas, podemos muito bem presumir o quão profícuo era o seu fazer literário -, liberto da agonia de lembrar, sir Walter Scott podia ler “Dom Quixote”, “Hamlet”, “Orgulho e preconceito” e dizer que era o seu verdadeiro responsável. Ele era o autor de qualquer livro que lesse, todos assinados com criativos pseudônimos como Miguel de Cervantes Saavedra, William Shakespeare ou Jane Austen.

Por alguns curtos e delirantes meses, um homem foi o autor de todas as histórias do mundo.

Sir Walter Scott

Quando eu era jovem e lia a respeito da reencarnação da alma, tão presente no budismo e no hinduísmo, nunca pensei na minha evolução espiritual. Creio ser muito mundano para ambicionar isso. Contudo, sempre imaginei o quão legal seria escrever histórias com esse corpo de agora e, depois que morresse, um dia, o outro Gustavo – ou o corpo que a minha alma reencarnaria, e esperava muito que não fosse em uma pedra ou em uma galinha – chegaria em uma biblioteca, pegaria o livro escrito por esse Gustavo daqui e pensaria “cara, que livro maravilhoso, até parece que fui eu quem o escrevi!” Muito meditei sobre essa possibilidade: e se os escritores do passado estejam reencarnados por aí em outras pessoas, cada um buscando a obra que escreveu em outra vida? E se Shakespeare for talvez um pedreiro que sonha tragédias enquanto devora a sua marmita no final do tarde, pensando que o por de sol parece as mãos ensanguentadas de uma mulher?

Prefiro imaginar que, na História da Literatura, todos os escritores não passam de vírgulas, jamais pontos finais. Somos parte de uma tradição que remonta aos primeiros contadores de histórias nas cavernas e se extinguirá quando a última e fria luz do sol for descrita poeticamente pela única criatura viva. E se é para aventar hipóteses sobre a natureza divina, que tal uma em que Deus é uma criatura formada por infinitas histórias, e todos somos pequenos pedaços de tramas que precisam ser juntas como se estivessem em um mosaico?

Não ambiciono mais a reencarnação para que possa, então, ler os livros que estou escrevendo. Hoje sou mais modesto – procuro o esquecimento. Aquele momento da vida em que não mais recordarei se escrevi ou se sonhei algo, e que poderei ler os meus próprios livros sem o peso da minha sombra a se espalhar por trás de cada mínima palavra.

Sir Walter Scott foi um grande escritor. O rol de autores que ele influenciou ou que foram atingidos pela sua leitura é imenso, indo desde Goethe até  as irmãs Brontë. Scott criou as bases do romance histórico, o que não é um feito pequeno. Teve uma vida agitada, e escrevia com prazer, com paixão. Começou na poesia, onde atingiu algum sucesso e renome, mas, ao ler Lord Byron, viu que nunca escreveria com a mesma devoção, e resolveu investir nos romances. Detalhe interessante é que sir Walter Scott sem querer inventou o fluxo de consciência, pois costumava entregar os seus originais sem acentuação alguma, os editores é quem colocavam pontos, parágrafos, vírgulas. Parece justo que ele tenha sido agraciado com tamanha benção pouco antes do fim, pois dedicou a sua vida inteira para a literatura.

Causou-me grande emoção saber que sir Walter Scott chegou a tamanho nirvana literário: o de sentir que todas as histórias tinham saído dele e, agora, estavam voltando para o seu interior na forma de leitura e de relembrança. Transformar-se no portador de todas as narrativas do mundo; virar uma criatura feita de tinta, de papel e de sonho. Se essa não é a melhor de todas as mortes, não sei qual poderia ser.

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