Outra crônica que publiquei no jornal Em Questão, do Alegrete.

O que mais gostei nesse texto foi a minha serenidade na condição de autor. Em geral, escrever é um ato que tenta disciplinar (sem sucesso) o caos interno de dezenas de vozes e ideias que se jogam, potros enlouquecidos tentando escapar do cativeiro mental ao qual estão submetidos. Para minha surpresa, essa crônica saiu com absoluta serenidade: sentei, liguei o computador e ela fluiu como um córrego cristalino em uma manhã de inverno ainda tímida. Não tive conflitos ou dúvidas, ela simplesmente se soltou de mim. Ao final, reli, buscando problemas ou maneiras de melhorar o texto, e nada apareceu. Li em voz alta e, com exceção de alguns ecos e cacofonias indesejadas, nada mais se destacava. Desconfiado, esperei um dia, para dar tempo para o texto “respirar”: voltei a ler em voz alta e nada chamou minha atenção.

Posso dizer que é um dos textos que ficou mais perto da minha imaginação em estado bruto e selvagem, mas foi atípico. Já voltei à programação caótica de costume.

Na crônica, relembro um conto de Juan José Morosoli, sobre um cavalo traído pelo seu amigo e sobre a solidão, condição inevitável de ser humano.

O texto está embaixo da imagem. Boa leitura.

O mundo nos olhos de um cavalo

            É possível que o leitor desse texto não tenha lido aquele que é um dos contos mais devastadores já escritos no idioma dos nossos hermanos e, se porventura o leu, peço desculpas antecipadas por lembrá-lo da desagradável história que não desaparece tão facilmente da memória.

O conto se chama “Solidão”, e foi escrito pelo uruguaio Juan José Morosoli (1899-1957). No Brasil, encontra-se no livro “A longa viagem de prazer”, lançado pela L&PM. A história não tem como ser mais simples e, por isso, mais assustadora pela sua proximidade: um homem, que contraiu diversas dívidas, observa o avançar da velhice do seu cavalo, o único ser com que ainda convivia, sua companhia nas primeiras horas da manhã, e pensa em lucrar algum dinheiro antes que ele morra. Decide vendê-lo para o circo, onde ele servirá de refeição para os leões, com o detalhe de que deve ser entregue vivo para as feras poderem caçá-lo. O conto segue os passos do homem com o seu cavalo, e as imagens vívidas do animal acompanhando docilmente aquele que tinha como amigo e que o conduz até uma traiçoeira morte por causa do dinheiro machucam mais do que gostaríamos. No final, a consciência da covardia do personagem atinge o leitor como um soco no estômago, e é impossível não se sentir mal ao reconhecer, na sombra das condutas do outro, recordações incômodas daquelas vezes em que também agimos de maneira desprezível, vergonhosa. Os momentos que retornam à nossa memória no silêncio da noite, ocasiões que gostaríamos de esquecer.

Morosoli foi um escritor atípico: durante a vida, não viajou para longe ou se afastou por muito tempo da sua cidade, Minas, no Uruguai. Ainda assim, foi capaz de resumir, em sete páginas, toda a natureza humana, essa capacidade que temos de nos comportar de maneira indigna imaginando que agimos sob nobres propósitos. Não voltamos atrás nos erros. Pedimos desculpas sem estarmos convencidos de que erramos. Não perdoamos com facilidade, sempre fica um ranço amargo. Sorrindo, enganamos quem mais amamos; chorando, iludimos até nós mesmos sobre a correção das nossas atitudes.

Na doçura com que o cavalo caminha inconscientemente para uma morte bestial, selvagem, esconde-se a injustiça do destino. Nem sempre os amigos pensam no nosso bem. É na confiança plena que se esconde o veneno da pior traição. Essa é a maior angústia que um ser humano experimenta, e está contida no título do conto: estamos sempre sozinhos. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos. Gostaríamos de acreditar que os mais próximos continuarão ao nosso lado, mas isso é algo que depende da consciência de cada um: se iremos abandonar os amigos diante do primeiro problema ou se ficaremos ao lado deles, na vitória ou na derrota. Dentro do olho do cavalo, mora um mundo; nesse reflexo cristalino, que sejamos capazes de ver ainda um herói, e não o traidor.

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