Há questão de um mês e meio, fui convidado para escrever uma coluna no jornal “Em Questão”, do Alegrete.

Hesitei um pouco antes de aceitar – não sei se consigo escrever crônicas, um gênero mais pantanoso do que aparenta, pois é muito complexo construir algo de aparência simples, mas capaz de adentrar em águas profundas se o leitor assim desejar -, mas acabei concordando. Seduziu-me a ideia de escrever para uma cidade em que nunca estive e ter a experiência real de acessar leitores também reais. Nesses casos, existe somente duas opções: ganhar o leitor ou morrer em meio à sua indiferença. Não existe nada mais horrível do que uma crônica derrotada na sua tentativa de alcançar um leitor, e considerei isso um desafio literário muito relevante não só para meus objetivos, mas para qualquer escritor: descer do pedestal em que prêmios e honrarias insistem em nos colocar, readequar a linguagem e deixá-la certeira como uma flecha para qualquer público (desde crianças até velhos, desde acadêmicos até pessoas sem o hábito da leitura), tocar em sentimentos profundos por trás de palavras simples, sem muitas firulas ou a necessidade de alcançar várias camadas de significação.

Está sendo desafiador, e não sei se estou conseguindo, mas prossigo escrevendo. Não tenho ideia se sou lido, muito menos se sou detestado ou apreciado. Mas a Literatura não pode parar, apesar das dores e cansaços do homem por trás dela.

No primeiro texto, na minha introdução ao público, escrevi um texto que oscila entre a parábola e a fábula de costumes. Ainda estou testando o estilo que irei adotar (não quero que os alegretenses me declarem “persona non grata”). Os clichês narrativos foram milimetricamente calculados – ao contrário do que dizem, nós, leitores de verdade, adoramos um clichêzinho, desde que sem exagero e bem colocado. Falei sobre um homem incapaz de chorar, mas, na verdade, não falei exatamente disso, e sim de algo muito maior: a crueldade.

Ah, sim, o texto está embaixo da foto do jornal.

Boa leitura.

 

O homem que não chorava

Contam que, certa vez, existiu um homem que não sabia chorar.

Não que não quisesse: às vezes, a dor crescia no seu fundo e subia em direção aos olhos, abrindo caminho por entre os órgãos, mas nada acontecia. A angústia crescia na sua cabeça e o homem uivava, mas nenhuma lágrima redentora saía. Em outras ocasiões, como na morte dos seus pais e nas surras praticadas pelos colegas de escola, a sua frieza diante do medo era elogiada por todos, mas o sorriso triste nos lábios do homem revelavam o desespero que era o senhor da sua alma.

As lágrimas de alegria também lhe eram impossíveis. Não chorou quando conseguiu o primeiro emprego, quando seu time ganhou o campeonato, quando a mulher que amava aceitou casar-se com ele. Era visível o esforço que o homem fazia para chorar e tentar se solidarizar com a alegria ou a tristeza alheias, mas ele não conseguia, estava além das suas capacidades. Mesmo no dia em que o próprio filho lhe estendeu a mão e disse um indeciso “papai”, o máximo que conseguiu arrancar foi aquele sorriso leve com que o homem demonstrava a sua felicidade.

Alguns se impressionavam com a dureza do homem. Ali está um cara macho, sussurravam nas suas costas. Outros se perguntavam o motivo da ausência das lágrimas e consideravam-no cruel. Um cara que não demonstra os sentimentos não pode ser coisa boa. Deve ser promessa, indiferença ou teimosia: as hipóteses eram inúmeras, mas ninguém tinha a coragem de perguntar ao homem a razão pela qual ele se recusava a mostrar as lágrimas ao mundo. Talvez temessem a sua resposta.

Em uma noite anônima de maio, um jovem bêbado atingiu o homem com uma faca, imaginando que, quem sabe, a proximidade da morte fizesse aflorar as lágrimas escondidas no interior daquele peito morto. O homem não chorou, não gemeu, não se assustou. Também não morreu. No hospital, os parentes cercavam o seu leito e as enfermeiras não cansavam de se admirar com a calma com que o paciente recebia os cuidados mais dolorosos (sim, faziam tudo da forma mais dolorosa possível, buscando a lágrima que colocaria o seu nome na história da cidade, mas ela nunca veio).

O homem percebeu que a sua presença violentava o mundo. Não era possível atravessar uma vida sem demonstrar a fraqueza ou a felicidade que mora dentro da mais simples das lágrimas. Ele tentou fingir choro e provocar soluços, mas a falsidade era evidente. Ao seu redor, as pessoas causavam-lhe as mais diversas dores, algumas físicas e outras verbais, curiosos, sempre atrás da lágrima impossível. Quanta dor uma pessoa pode aguentar sem conseguir alívio? Dentro do homem, o desespero crescia em ondas concêntricas, mas a tempestade que traria depois a bonança nunca vinha.

Um dia, um ataque cardíaco encontrou o homem em uma esquina da cidade. Durante o enterro, as pessoas riam, conversavam e se abraçavam. Ninguém viu a bela lágrima que, diamante desgarrado, escapou do olho esquerdo e se perdeu, silenciosa, em uma dobra do caixão. Nela estava toda a dor do mundo, a angústia de quem perdeu uma vida tentando ser aceito.

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Um comentário em “Crônica: “O homem que não chorava”

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