Achei uma história bonita. Está no livro “Como os advogados salvaram o mundo”, de José Roberto de Castro Neves, que saiu recentemente pela Editora Nova Fronteira.

Existiu um tempo em que os juízes das Cortes Supremas eram respeitados como as pessoas mais justas da nação. Claro que a história bonita aconteceu em outro país, mas eu ainda cheguei a pegar um curto período do tempo em que não chamávamos os juízes do STF pelo nome, mas por “Vossa Excelência” (e sem soar pejorativo ou irônico). Foram épocas inacreditáveis para os padrões atuais: épocas em que os juízes do STF eram pessoas de indubitável conhecimento não só de Direito, mas também dos fatos e mistérios da vida. Não apareciam na mídia, não exercitavam a vaidade e quase toda palavra que saía da sua boca era a mais legítima expressão da sabedoria. Foram bons tempos.

Voltando à história. Em 1954, um menino de 12 anos chamado Paul escreveu uma carta para o ministro da Suprema Corte Americana, Felix Frankfurter. Com a afobação típica da juventude, o menino informou que pretendia estudar Direito e perguntou ao ministro como deveria se preparar para a carreira jurídica desde então. O juiz respondeu com a seguinte carta:

“Meu querido Paul:

Ninguém consegue ser um advogado verdadeiramente competente se não for um homem culto. Se eu fosse você, esqueceria tudo o que diz respeito à preparação técnica para o Direito. A melhor forma de se preparar para o Direito é começar os estudos do Direito como uma pessoa culta. Somente assim se consegue adquirir a capacidade de usar a língua inglesa escrita e falada, bem como os hábitos do pensamento claro que somente uma educação verdadeiramente liberal pode dar. Não menos importante para o advogado é o cultivo das faculdades imaginativas por meio da leitura da poesia, da exposição a grandes pinturas, em seus originais ou em reproduções facilmente disponíveis, e das grandes músicas. Abasteça sua mente com uma excelente leitura, amplie e aprofunde seus sentimentos ao experimentar verdadeiramente e ao máximo os maravilhosos mistérios do universo e esqueça por completo a sua carreira futura.

Com as minhas saudações,

Atenciosamente,

Felix Frankfurter.”

Antes de aprender qualquer profissão ou ofício, a pessoa precisa ter noções de Humanidade, e isso é algo que só pode ser alcançado através da arte. Nunca precisamos tanto de uma formação humanística quanto agora: mais seres humanos dispostos a conectar com seus semelhantes, menos técnicos mais preocupados em aplicar a letra fria das suas áreas de conhecimento.

Muito do que sou no Direito devo à minha formação na Literatura. É mais fácil entender a lei quando se entende as mutações de um ser humano. Chama minha atenção a quantidade de jovens estudantes do Direito que discutem textos legais com afetação e convencimento, imaginando que o domínio da técnica é o mais importante, quando o essencial não está na lei, mas fora dela. Perguntam o que é importante para ser um bom advogado e eu respondo “leiam mais, assistam mais filmes com ótimos roteiros, visitem mais museus, escutem mais músicas!” e acham que estou brincando, mas nunca falei tão sério. Não vejo como uma pessoa pode ter sucesso em qualquer assunto se não souber investir na sua formação humanística. Pode ganhar montes de dinheiro, pode ter todos os bens que desejar, pode viajar pelo mundo todo, mas valerá a pena se não entende nada do que verá e se nada satisfazer o vazio interno que atormenta todos nós?

Tenho um pouco de pena de quem dedica a sua vida para estudar somente o aspecto técnico de qualquer profissão. Deveriam seguir o conselho do juiz Frankfurter: pensem primeiro em serem humanos, depois em serem profissionais.

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