Nessa semana, no “Obras Inquietas”, eu tratei de um dos meus pintores favoritos, Sir John Everett Millais. Preferi uma obra nem tão conhecida, mas que encerra uma série de significados. Em “A Garota Cega” (1856), as duas irmãs estão na beira da estrada quando ocorre um duplo arco-íris, que deixa assustada a que enxerga. A outra, cega, só pode imaginar o pavor da sua companhia, mas não será ainda maior o medo quando não somos capazes de enxergá-lo em meio às trevas? Prefiro pensar na maravilha e do horror que se escondem ao alcance da nossa visão e da qual nos encontramos privados, mas as interpretações são várias. Detalhe para a borboleta pousada no ombro da garota cega: foi a interessante maneira que Sir John Everett Millais encontrou para demonstrar que o pavor é tão grande que as duas moças estão paralisadas, incapazes de se mexerem.

Boa leitura.

“A Garota Cega” (1856), Sir John Everett Millais

Disseram-me que algo maravilhoso está acontecendo agora, um milagre de Deus ou talvez seja o fim dos tempos, mas, seja lá o que for, nada me atinge ou perturba nas trevas a que fui condenada viver. Ao redor, um mundo insiste em se renovar, gritante e entusiasmado, mas eu estou excluída da alegria dele. A dor perturba com o seu gosto de morte, o incômodo é uma constante nesse universo repleto de aparas e superfícies cortantes e o medo não cansa de visitar a minha imaginação, mas as maravilhas da Criação continuam me sendo negadas: sempre ao alcance de um simples olhar que me é impossível, sempre imersas na penumbra a que chamo de vida. Dentro do abraço, consigo sentir o corpo apavorado da minha irmã, enquanto as suas palavras tentam explicar a aparição súbita de cores no céu ainda estremecido da chuva de momentos atrás e a mão suada aperta com força a minha, revelando com mais clareza a maravilha que me é negada do que qualquer insuficiente descrição. Esse é o meu destino, deslocar-me em meio ao veludo da escuridão infinita, divisando matizes menos e mais claros de trevas, enquanto o mundo dos que vêem tenta me sufocar em meio aos seus constantes, invisíveis espantos. Existe vantagem em não ver os horrores que me cercam, mas também há angústia em saber que tenho uma vida pela metade, pois nunca verei a limpidez de uma gota de chuva, ou as cores dos pássaros que gorjeiam nas minhas costas, ou as nuances de verde e amarelo que se espalham em meio aos campos saudados pelo sol. Mergulhada na escuridão, rezo para o Deus que mora nas profundezas, pedindo para que espalhe sua sombra por todo o mundo e faça com que todos sejam tão ignorantes das maravilhas do mundo quanto eu sou.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/04/29/obras-inquietas-60-a-garota-cega-1856-sir-john-everett-millais/

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