Escrevi um texto para o Caderno de Sábado do Correio do Povo, jornal do Rio Grande do Sul, sobre “Júlio César”, a peça de Shakespeare recentemente relançada com a tradução do meu amigo e comparsa-em-letras José Francisco Botelho. Como alguns leitores de fora do Estado manifestaram interesse em ler as minhas impressões sobre a peça, resolvi disponibilizá-lo também aqui.

“Júlio César” é uma das minhas peças favoritas de Shakespeare. Ela tem um poder quase hipnótico: vou ler alguma frase ou trecho e, quando percebo, estou novamente lendo tudo. Já teve épocas em que gostei mais da sedução que Cássio faz sobre Bruto no início, em outros períodos – meus tempos de faculdade de Direito – era fascinado pelos discursos de Bruto e de Marco Antônio, sem dúvida um dos pontos altos da literatura ocidental, e, atualmente, estou gostando mais do louvor à amizade (às múltiplas amizades) contido na parte final.

Bom, vamos ao texto. E a tradução do “Júlio César” feita pelo José Francisco Botelho está nas melhores livrarias do Brasil, aconselho plenamente, ainda mais para quem deseja refletir sobre os tempos em que vivemos.

 

A punhalada que nunca terminou

 

“A morte de Julio Cesar” – Vincenzo Camuccini

A qualidade do grande escritor é ser atemporal e, portanto, não surpreende que “Júlio César”, peça escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare em 1599, a qual chega ao mercado brasileiro em nova tradução realizada por José Francisco Botelho, preserve uma desagradável atualidade. “Desagradável” por ser incômodo perceber que, decorridos mais de 500 anos, padecemos dos mesmos problemas: o messianismo dos líderes políticos, mais habituados a recorrer às emoções e aos medos das pessoas do que em apresentar novas ideias; o distanciamento da elite, preocupada em preservar os seus interesses, ainda que desobedecendo a lei; a mudança repentina de humores de um povo capaz de criar heróis com a mesma rapidez com que os destrói. Quanto à atualidade de “Júlio César”, basta ler a peça para perceber que ela se encaixa não só na época em que vivemos, mas em outros momentos da História. Não à toa ela foi encenada em outros tempos e lugares, com os mais diferentes líderes ocupando o papel de Júlio César (Saddam Hussein, Barack Obama e até mesmo Donald Trump na versão mais recente, com o detalhe de que, ao ser assassinado sobre o palco, a morte era aplaudida pela plateia, atitude que gerou comoção nos Estados Unidos).

Essa atemporalidade da peça foi prevista pelo próprio Shakespeare através da boca de Cássio que, após participar do assassinato de César, afirma “em quantos séculos vindouros / será reencenado nosso grande feito / em línguas do futuro e em terras por nascer!”. No momento, Cássio jactava-se, imaginando que as pessoas saudariam os assassinos como libertadores da tirania, mas logo a balança da História transformaria esse vaticínio em tragédia, com os autoproclamados heróis tendo que fugir da fúria daqueles que pensavam ter salvo. A frase antecipa também um dos mais perenes assuntos do drama shakespeariano: o tema do traidor, ou o quanto a existência de um traidor é decisiva para a validação de uma ideia. Jorge Luis Borges trata disso no conto “Tema do traidor e do herói”, em que um importante líder revolucionário irlandês é descoberto como traidor e, ao invés de ter essa conduta escancarada, resolve participar de uma elaborada encenação em que é assassinado de maneira inesquecível, com o consentimento de todos, reprisando falas de “Júlio César” e de “Macbeth” e se tornando eterno não pela traição, mas pelo heroísmo. A história voltará a ser contada, em outras épocas; a traição irá se repetir, pois ela é essencial para alavancar a conduta do herói ou mártir que a sofreu.

Teria Júlio César o alcance que teve se a sua morte covarde, vitimado por punhaladas dos senadores (Plutarco diz 23 golpes, Shakespeare, mais exagerado, afirma serem 33), não fosse tão assustadoramente gloriosa? O detalhe da estocada final partir de Bruto, a quem amava como se fosse um filho, e a frase com que o romano se despediu da vida, “Et tu, Brute?”, deixam a história ainda mais contundente e com laivos de tragédia grega. O traidor assassinou o herói e, assim, criou a sua lenda; desde Lúcifer até Júlio César e Jesus, a figura do traidor é mais importante do que a do herói, e prova disso é que o Lúcifer de John Milton em “Paraíso Perdido” constata, com tristeza, que a sua traição estava determinada antes mesmo dele existir.

Bruto tinha a opção de não realizar essa atitude extrema e ainda assim o fez. Matou para salvar Roma da tirania, não por motivos pessoais, e nessa particularidade Shakespeare constrói a riqueza psicológica de um dos seus personagens mais fascinantes. Desde o momento em que é seduzido por Cássio para trair César até o suicídio, vemos a derrocada de um homem que acreditava atuar pelo bem público – e morre com a convicção de agir certo, apesar de sacudido pela culpa. Em Bruto, a mentalidade pública e a privada digladiam com fúria, e essa dúvida se transfere para o leitor: se precisássemos matar a quem amamos em prol da coletividade, faríamos isso? Não podemos culpar Bruto pela sua atitude – e a peça é hábil o suficiente para não pender para nenhuma resposta definitiva -, mas também não somos capazes de absolvê-lo da culpa.

Existe algo de sedutor em “Júlio César”, e a tradução segura de Botelho ajuda a destacar esse caráter quase aliciante, convincente, melífluo, do texto. O leitor sente a tensão passando por cada linha da peça, e percebe que as palavras se incrustam na sua memória e surgem no seu cotidiano. Quem melhor exemplificou isso foi um filme, “César deve morrer” (2013), dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani. Ao contar a história dos presos de uma penitenciária que são convidados a participar de uma montagem de “Júlio César” e aos poucos perdem o controle entre a realidade e a ficção, com as falas da peça surgindo em meio à sua rotina de presidiários, o filme mostra como as lutas por poder se transferem ao natural para o nosso dia a dia como se sempre estivessem ali, precisando somente de uma agulha certeira – proporcionada por Shakespeare – para puncionar o ferimento oculto e fazê-lo surgir em todo o horror e medo que imaginávamos estarem sufocados.

Merecem realce muitos pontos de “Júlio César”, e todos são abordados em uma série de estudos sobre a peça: a concentração da ação da narrativa em alguns dias na primeira metade, deixando-a em um ritmo frenético; as poucas aparições de César, mais referido nos discursos dos outros personagens do que mostrado aos espectadores, em um dos primeiros casos de fake news que se tem notícia, pois cada testemunha conta a história que deseja ver; o fato de César se achar um homem melhor que os outros, imagem essa desconstruída por Cássio; o subtexto político da época em que a peça foi encenada, com críticas sutis à rainha Elizabeth; os dilemas de Bruto, que lutou pelos interesses de Roma e foi destruído por ela. Impossível deixar de lado os discursos de Bruto e de Marco Antônio durante o funeral de César, e as nuances retóricas de cada um: enquanto Bruto puxou o seu discurso para a emoção moderada e para um racionalismo frio, Marco Antônio usou emoção desbragada, truques visuais (a exibição de um provável testamento de César para a plateia) e frases de efeito, o que desequilibrou a balança, e qualquer semelhança com o mundo atual é mera coincidência.

No entanto, “Júlio César” deixa entrever uma questão mais angustiante. Perto de onde moro, um muro diz uma frase categórica para a cidade: “a lei não é legal”. Tirando o trocadilho entre “legal” como sintoma de legalidade ou como sinônimo de agradável, persiste uma dúvida: quem nos garante que a lei ainda dá conta da justiça? A lei é imutável ou depende dos humores instáveis do povo? Alguém pode se achar acima da lei se ela for injusta? Entre a lei e a sociedade, por quem devemos lutar? Esses foram os dilemas de Bruto, o qual, ao necessitar escolher entre o amor por César e a preservação de Roma, tomou uma decisão difícil, passando para a história com a pior das pechas: a de traidor. Talvez Marco Antônio não estivesse sendo irônico ou maldoso quando disse que Bruto era um homem honrado. Não somos nós todos?

 

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