Nessa semana no “Obras Inquietas”, eu escrevi sobre o quadro “Autoretrato com Morte Tocando Violino” (1872), do pintor suíço Arnold Böcklin, um homem que esteve cercado pela morte desde que nasceu e que estabeleceu com ela um relacionamento, senão amigável, ao menos respeitoso. Não se sabe direito o que ele quis retratar nesse quadro, mas existem interpretações um pouco esotéricas de que a Morte toca a música da nossa vida. Preferi interpretar essa música como um som incessante no vácuo da nossa consciência, algo que, aos poucos, nos enlouquece e nos faz cometer desatinos. Interessante que não poucos artistas se fascinaram com a música tocada pela Morte: um deles, Gustav Mahler, intitulou o segundo movimento da sua Quarta Sinfonia como “A Morte pega o Violino”.

Boa leitura.

“Autoretrato com Morte Tocando Violino” (1872), Arnold Böcklin

Preso no quadro, o pincel a meio caminho do destino de conspurcar a tela, o artista encara sem medo a própria morte, sabendo que irá prendê-la nesse pentagrama de tintas e esguichos, pois esse é o destino da verdadeira arte: conceder imortalidade aos demônios que nos rodeiam. No fundo de todo som que preenche o mundo de barulhos irritantes, repetitivos ou belos, no resquício de cada silêncio que mora dentro do ar imobilizado, existe uma música que nunca para. Está aí, dentro da sua cabeça, no espaço que separa a sombra da carne; de tão habituado, você não mais a escuta, mas ela continua tocando, misturando-se com os seus pensamentos de maneira tão insidiosa que parece brotar deles. Às vezes, no meio dos pesadelos, você consegue escutar o ruído rasgando a escuridão, algo que congela o espírito e que gruda no céu da sua boca com o gosto incômodo de carne putrefata. É ela, a música que lhe persegue desde o primeiro ar que se apossou dos seus pulmões ainda cheios de líquido; o som discreto e infernal que insiste em lhe bafejar a nuca, uma lembrança amarga de que tudo acabará e de que logo você será outra lápide a acumular musgo em um cemitério qualquer. Junto ao seu ouvido, a sombra do medo sussurra “não esqueça que és humano”, e você caminha com o peso da falibilidade sobre os próprios ombros. Todo ser humano carrega em si, incubada e irreversível, a morte. Ela dita os nossos passos e dúvidas, sempre nos guiando com dedos ossudos, repletos de dores e de memórias, pelos caminhos que nos levarão ao fim, e não podemos escapar da sua condução, pois nos enlouquece aos poucos ao tocar a sinfonia que compôs para cada pessoa assim que ela nasceu, uma música que nos devora com lentidão, assim como a onda paciente faz desmoronar o rochedo.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/04/01/obras-inquietas-58-autoretrato-com-morte-tocando-violino-1872-arnold-bocklin/

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