Nessa semana, na minha coluna no “Obras Inquietas”, tratei da estátua que Giorgio Vasari disse em “Vida dos Artistas” que era mais perfeita já feita. Em “Madalena Arrependida”, Donatello usou madeira e gesso para fazer a imagem de uma Maria Madalena muito diferente da que estamos acostumados a ver: ao invés de uma mulher sensual e jovem, a Madalena de Donatello é uma ex-prostituta velha, cansada e vestida com andrajos, que se arrasta atrás de um Jesus em busca de perdão, as mãos em súplica, os olhos repletos de angústia.

Ao melhor estilo de Donatello, também subverti um pouco a história de Madalena, afastando o dilema pecado X salvação para me concentrar na noção – um pouco defasada nos dias atuais – de que um amigo jamais abandona outro.

Boa leitura.

“Madalena Arrependida” (1453), Donatello

Perdão, Senhor. Contemple a serva maltrapilha a lhe seguir como um cachorro sarnento, ansiosa por uma migalha de carinho, e alcance a ela o bálsamo da generosidade que ainda mora nos teus olhos tão magoados, tão desiludidos com todos os amigos que te abandonaram e depois se jactarão de terem o conhecido. Esqueça a dor das humilhações infligidas ao teu corpo e espírito, esqueça o cuspe da inveja e o sangue que desliza, cansado, por entre os teus ferimentos. Foi o Senhor mesmo quem nos disse: os humanos são falhos, eles atacam aquilo que têm medo, e existe receio maior do que admitir a própria fragilidade diante dos olhos do Criador? Concentre-se em mim, Senhor, olhe para a tua serva – não levantais os olhos em direção à colina onde a Morte lhe aguarda, impaciente, ansiosa por vingar-se daquele que tantas almas tirou dos seus dentes podres. Uma vez tu afastaste os pecados que infestavam a minha consciência e fez-me ver que, debaixo da pele e da memória, ainda existia um ser humano; permita agora que minha imagem seja o rosto amigo que não o abandona nem mesmo nos piores momentos. Pois em verdade me atrevo a dizer que, antes de tudo, além de questões carnais ou vínculos familiares, somos amigos, Senhor. Na alegria e na tristeza, nunca deixarei de estar ao teu lado. Contemple as minhas mãos desajeitadas e os lábios que formulam uma prece implorando para que a tua dor seja leve, para que o teu fim seja misericordioso. Estou aqui, Senhor, a mulher que um dia lavou teus pés e os secou com os próprios cabelos, e jamais irei abandoná-lo. Sou a última amiga que te resta, um raio de reconhecimento no meio da escuridão, e o único arrependimento que tenho é não poder ajudá-lo agora da mesma forma que o Senhor um dia me salvou. Cabe a mim o destino de ser a mulher que chora pelo amor morto, e ficarei até o fim ao teu lado, meu Senhor, meu amor, meu amigo.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/03/11/obras-inquietas-56-madalena-arrependida-1453-donatello/

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