Se existe um indivíduo merecedor de toda a nossa desconfiança é o que afirma ser o portador da verdade absoluta, seja ela qual for, religiosa, econômica, política, artística. Não sei se invejo ou se temo os donos da verdade: inveja por eles serem tão seguros, tão convictos das suas certezas, tão implacáveis e altruístas na forma com que tentam abrir os olhos alheios; temor pela cegueira diante daquilo que discorde das suas crenças, pela sua surdez em escutar as palavras dos outros, pelo seu silêncio sobre a opinião contrária e coerente que apresenta um ponto importante. E se eles, os portadores da verdade absoluta, estiverem errados?

Talvez seja prudente começar pela noção de verdade e, por esse ângulo, a antiga questão filosófica surge: a verdade existe ou é construída de maneira individual de acordo com as impressões de cada um sobre as próprias experiências, ou seja, não é uma certeza inquestionável, mas uma aproximação entre diferentes versões?

Tenho especial pena daqueles que formam um convencimento através da leitura de jornais ou da análise de programas de televisão, pois estão em uma enorme enrascada se são incapazes de ver os sutis mecanismos que os manipulam sob a enganosa máscara de “estamos somente narrando fatos”. Todas as noções de pós-verdade e dos seus perigos partem do pressuposto de que existe uma verdade única ditada pela observação imparcial dos acontecimentos, sendo a pós-verdade, assim, uma distorção emocional de fatos que deveriam ser analisados com frieza. No entanto, não tenho tanta convicção sobre a existência de uma versão dos fatos que já não seja apresentada de forma distorcida pelos interesses mesmo inconscientes de quem a declara. Não existe discurso que não seja ideológico, já afirmava Bakthin, e todo discurso, por mais inocente que seja, implica em uma escolha de palavras que atestam as relações de poder, de acordo com Foucault.

O mais seguro é pensar que não existe uma verdade única, mas diferentes matizes constantemente passíveis de revisão. No conto “O credo de Pilatos”, escrito em 1920 pelo escritor tcheco Karel Capek – e presente no livro “Histórias Apócrifas” (Editora 34, 2009) – a questão é apresentada de forma singular: após a crucificação de Jesus Cristo, José de Arimateia vai pedir o seu corpo para Pôncio Pilatos e o encontra pensativo. Pilatos está recordando o rápido diálogo que teve com Jesus e com aqueles que pediam a sua morte, discutindo justamente a noção de verdade.

Logo no início da conversa, o romano estabelece uma afirmação categórica: assim que alguém proclama uma verdade, proíbe a existência de todas as demais que a questionam, pois se tornam mentiras. Isso seria um equívoco e, para demonstrá-lo, traça uma analogia – não é por que alguém construiu uma cadeira diferente que as cadeiras anteriores ou posteriores devem ser consideradas como lixos, pois ainda possuem a sua utilidade.

Em resposta, um acuado José de Arimateia afirma que a verdade é uma ordem ditada pela razão. Quem desobedece tal ordem estaria agindo de forma desarrazoada, o que lhe torna um inimigo e um traidor. Não partilhar da verdade de alguém é se transformar em um antagonista que deve ser destruído a qualquer custo; a belicosidade de tal constatação demonstra a incapacidade de aceitar a opinião do outro, algo que, na sua essência, é um procedimento totalitário, ainda que brandido por causas consideradas “nobres”.

José de Arimateia também tenta uma analogia – aponta para uma coluna branca e diz que, se alguém afirma que ela é da cor negra, estaria mentindo por contrariar a realidade empiricamente considerada. Pilatos afirma que nada impede que a coluna branca seja negra, dependendo do estado de espírito de quem lhe enxerga, e seria proveitoso conversar com a pessoa para tentar entendê-la ao invés de julgá-la mentirosa de forma sumária. José de Arimateia tenta terminar a discussão:

“ – A minha verdade não existe – protestou José de Arimateia. – Existe apenas uma verdade para todos.

– E qual é essa verdade?

– Aquela em que creio.”

Não é um argumento tão diferente dos que estão acostumados a nos impor nos tempos atuais, o que gera um perigoso silogismo: existe uma verdade única, e é a minha, o que transforma a tua verdade automaticamente em mentira (a não ser que concordes comigo). A única alternativa viável é acreditar que o outro tem razão, e tal crença está na base dos fanatismos grupais e das manadas de seguidores enfurecidos que seguem uma solitária voz, a qual, quase sempre, não tem uma estrutura intelectual e/ou emocional capaz de sobreviver ao mais simples dos debates, refugiando-se em chavões.

Pilatos rebate o mercador judeu com inesperada ponderação:

“Pareceis crianças, que acreditam que o mundo se reduz aos limites do olhar, e que, além disso, não existe nada mais. O mundo é grande, José, e muitas coisas cabem nele. Creio que muita verdade pode caber dentro da realidade. (…) Creio, José, que cada país, tomado por si, é correto; mas o mundo deve ser incomensuravelmente amplo para que tudo possa caber nele, lado a lado, uma coisa após outra. Se colocássemos a Arábia no lugar do Ponto, naturalmente isso seria errado. Isso aplica-se também às verdades. Deveríamos criar um mundo grande, amplo e livre o bastante para que nele pudessem caber todas as verdades efetivas.”

No diálogo imaginário entre Pôncio Pilatos e José de Arimateia – ao final da narrativa, o romano dará a sua versão de verdade, e ela será uma aproximação à ideia do cristão ao invés de uma refutação violenta, um pedido para que as verdades diferentes de ambos sejam amigas e não opositoras -, está sintetizado boa parte dos dilemas que ameaçam qualquer pessoa capaz de estabelecer questionamentos nos tempos atuais. Como é possível evoluir quando se encontra alguém que não permite o debate, estabelecendo uma tática de medo e de imposição para que argumentos contrários não surjam? Ou suprimindo a voz alheia por meio de um silenciamento intencional?

Adoraria viver em um mundo no qual todos pensassem como eu, mas não tenho tanta certeza assim se estou certo ou errado, e é através de diálogos, saudáveis ou não, que serei capaz de corrigir uma rota errada ou reforçar o que está certo. Conversar com alguém que se recusa a escutá-lo e ainda tenta sufocar o seu pensamento com ironias grosseiras, humilhações e palavras de ordem que não passam de clichês não só é inútil como ainda é cansativo, e o país inteiro se enche de pessoas que, cansadas de tentar argumentar, preferem o silêncio. Essas pessoas são chamadas de “alienadas”, “omissas”, “sem opinião”, mas, na realidade, elas possuem uma opinião, só preferem não externá-la para não perder tempo. O silêncio mantido não é passivo; no interior das suas cabeças, sem nenhum tipo de debate saudável que as faça modificar de opinião, as verdades subterrâneas continuam crescendo sem nenhum tipo de oposição, reforçando-se com mentiras e análises apressadas, e, na hora mais inconveniente, elas se revelarão ao mundo como o jorro desgovernado de um vulcão – e decidirão o seu destino.

Texto originalmente publicado no link https://www.revistaamalgama.com.br/03/2018/o-vulcao-das-verdades-subterraneas/

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