Nessa semana, na minha coluna no Artrianon (www.artrianon.com), eu tratei de um quadro do Salvador Dalí, “Subúrbios de uma Cidade Paranoica Crítica” (1936). Um quadro cuja multiplicidade de imagens esconde uma série de símbolos e pensamentos. Além das óbvias referências às pinturas de Georgio de Chirico, na época Dalí também tinha lido os trabalhos de Kraepelin e Breuler sobre a esquizofrenia e a paranoia, desenvolvendo um método que chamou de “paranoico crítico”. O principal sustentáculo deste método era a ideia de que o indivíduo portador de tais doenças psiquiátricas conseguia ver uma série de erros na realidade, empregando-os na formação de uma realidade diversa na qual conseguia articular estes elementos díspares pelos quais nutria uma espécie de “apego apaixonado”.

É um pouco inquietante que os surrealistas tenham conseguido ver o mundo com tamanha clareza. Hoje os seres humanos se sentem oprimidos por cidades que cada vez mais, a pretexto da paz social, lhes vigiam e cerceiam discretamente os seus direitos de ir e vir. Tornamo-nos paranoicos em relação aos nossos semelhantes e críticos em relação a todos aqueles com que interagimos. Preferimos não pensar naquilo que vemos todos os dias, mas podemos oscilar entre maravilhas e horrores com a mais absoluta tranquilidade. A Cidade nos envolve e nos destrói. Não interessa o quão longe tentamos fugir, somos incapazes de escapar dos seus tentáculos de concreto.

Boa leitura.

“Subúrbios de uma Cidade Paranoica Crítica” (1936), Salvador Dalí

As esquinas se sucedem, sempre diferentes, sempre a mesma. Você anda com a sensação de não sair do lugar; o ar saturado de poluição envenena o seu corpo aos poucos. Todas as pessoas lançam olhares estranhos, e você consegue ver a crítica ao modo com que se veste, à forma com que caminha, ao seu comportamento. Mesmo sem querer, você se encolhe diante de tamanha pressão, os passos rápidos e furtivos. A Cidade é um labirinto sem Minotauro, uma boca perversa repleta de dentes ansiosos para se cravar na sanidade dos infelizes sem rumo que deslizam pelas suas ruas. Monumentos para deuses e homens desconhecidos marcam a sua trajetória, dividindo espaço com colunas feitas em um estilo que desafia o cansaço dos tempos. Uma moça lhe oferece uvas, e o cheiro doce mistura-se ao caos dos seus pensamentos. Diferentes pessoas em diferentes distâncias e perspectivas estão perto, longe, em todos os lugares, e todos a lhe julgar, a lhe condenar, a cochichar. Cercado por rostos distorcidos que se misturam em uma canibalesca mistura, aqui um olhar mais incisivo, lá um cílio inesperadamente erguido, ali uma voz rasgante, você nunca sentiu tanta solidão. A Cidade é um buraco repleto de desilusões e de gritos interrompidos, com risadas frenéticas que cortam o rugido dos carros. Você pode abrir uma porta e estar em Pequim, Londres, o inferno ou o lugar que só existe na sua imaginação. A Cidade é uma máquina feita com o propósito de enlouquecer e de confundir e, em meio às suas engrenagens, você não passa de um pião atormentado, batendo de um lado para o outro à espera do dia em que a Morte enfim lhe alcançará.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/03/04/obras-inquietas-55-suburbios-de-uma-cidade-paranoica-critica-1936-salvador-dali/

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s