Passei um tempo um pouco adoentado – mentira, foi forte, mas me recuso a aceitar essa evidência por motivos de teimosia -, e minha coluna no Artrianon acabou prejudicada. No entanto, agora estou voltando à carga, e nada melhor do que Juan Manuel Blanes para dar uma “up” no meu estado de espírito. Gosto muito de Blanes, há algum tempo queria escrever a respeito, e já tive a oportunidade de ver boa parte da obra dele, a qual é muito mais impactante ao vivo do que em reproduções.

Nesse quadro, “A paraguaia – imagens de seu país desolado” (1880), Juan Manuel Blanes sintetiza, em uma cena repleta de simbolismo, a derrota definitiva de Solano López na Guerra do Paraguai. Uma derrota que não acabou no campo de batalha, mas se arrastou por muitos anos – os historiadores dizem que os efeitos dessa guerra são sentidos até hoje. A luta se estendeu entre 1864 e 1870, ou seja, Blanes fez esse quadro somente 10 anos depois do seu término, mas foi capaz de constatar a ruína total e absoluta do país latino-americano, não somente nas perdas dos soldados, mas no destino das mulheres e das gerações futuras.

Às vezes, perder algo é somente o prenúncio para uma série quase infinita de micro-derrotas tão devastadoras quanto a principal. A desconhecida não está somente passando por um campo, mas pisa sobre a economia, o amor, a família, a honra (foi uma das guerras com o maior número de estupros, mas os países da Tríplice Aliança preferem silenciar) e sobre a esperança.

Boa leitura!

“A paraguaia – imagens de seu país desolado” (1880), Juan Manuel Blanes

 

O campo de batalha fede a carne queimada pelos balaços que atravessaram corpos até pouco tempo atrás repletos de vida, agora esquecidos no chão à espera do festim das moscas e do silêncio. A mulher caminha com hesitação, temendo pisar sobre o sangue de algum conhecido, de um parente, do marido que ainda não retornou para casa. As ondas de calor que emanam da terra misturam-se ao ruído desajeitado e distante de passarinhos, que espiam, sem esconder o horror nos seus gorjeios, o local onde a morte fez a sua colheita implacável desde o nascer do dia. Agricultores com dedos calejados, nobres de roupas outrora coloridas e agora impregnadas de pó, artesãos que davam vida aos objetos e foram forçados a desembainhar espadas, todos se misturam sobre o mesmo solo, mais unidos pelo fim do que no decorrer da sua vida. A morte não faz escolhas; para a Ceifadora, todos são o mesmo ser humano. Dentro do ventre da mulher, a vida dá os primeiros chutes, e ela tem medo do que o futuro reserva para quem ainda não chegou: uma terra semeada por ossos, a fome ansiosa para cravar as suas garras, os tempos de escuridão e medo que assomam no horizonte. Gostaria de dizer para o filho – tão inocente, tão despreparado para esse mundo que nos odeia tão logo chegamos – que tudo vai dar certo, mas a mentira congela dentro da garganta ressecada pela poeira sangrenta, pois a mulher sabe que não está pisando sobre os restos de uma batalha anônima, mas sobre os pedaços do seu país. Próximo da mulher, o urubu mal pode esperar o momento em que irá devorar o cadáver da esperança de milhares de pessoas, cujas roupas oscilam em meio ao vento lúgubre, o verdadeiro senhor da planície.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/02/25/obras-inquietas-54-a-paraguaia-imagem-de-seu-pais-desolado-1880-juan-manuel-blanes/

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