Há alguns dias penso no trecho de um ensaio de Ralph Waldo Emerson no qual ele afirma que as bibliotecas seriam gabinetes mágicos que reúnem muitos espíritos aprisionados no interior de livros. Cada volume contendo histórias seria um objeto espacialmente determinado (tamanho, espessura, páginas), mas o infinito se projeta para o seu interior, pois, antes de abri-lo, nunca saberemos o tipo de espírito que o livro esconde, se virá nos alegrar, nos assombrar, nos deixar tristes ou mesmo nos entediar. É o leitor quem determinará a sorte do espírito que surgirá diante de si. Segundo o filósofo, “a natureza e os livros pertencem aos olhos que os veem”.

Na sequência desse raciocínio, Emerson afirma que a biblioteca de um homem é idêntica a um harém, no qual ele seleciona a companhia ideal para lhe entreter, mais ou menos como um sultão diante das suas mulheres.

Imaginar-me cercado por aproximadamente 3.000 lâmpadas mágicas na forma de livros, com espíritos ansiosos para se libertarem por um tempo e infestarem a minha mente, foi um pensamento que me inquietou. Sentia-me como se estivesse sentado em meio a um campo minado, e o menor movimento pudesse detonar bombas de consequências imprevisíveis. Os livros pareciam me contemplar com seus olhinhos, todos descansando nas prateleiras.

Mas, em seguida, pensei na invulgar oportunidade que tenho. A qualquer momento do meu dia, posso chamar um amigo para me fazer companhia por alguns minutos ou mesmo algumas horas; posso sentar-me na minha poltrona e escutar Benedetti recitando poesias, ou encantar-me com as fábulas de Sheherazade, ou sonhar com os mundos impossíveis de Marco Polo e que existem somente no universo improvável que une imaginação e papel. Não tenho nenhum amigo ou amiga chata, eles sabem exatamente as palavras que preciso. Não só isso, posso olhar um quadro de Caspar David Friedrich e escutar uma música de Brahms, transportando eu e meu amigo de palavras para um local impossível que só existe dentro de mim mesmo.

Ou, como agora, posso estar admirando os quadros de Juan Manuel Blanes e escutando o maravilhoso “Canon em D” de Johann Pachebel (uma das músicas que nos aproximam da perfeição como seres humanos), enquanto leio os poemas de Borges. Esse link aqui com a música é o melhor que conheço:

Também imaginei a biblioteca como um harém, e pensei em 3.000 mulheres ondulando cicios de seda, todas ávidas por passar alguns minutos tentando me atrair com a sua sedutora conversa – pois sou alguém que olha o mundo como uma Matrix não computacional, mas como uma longa estrutura de histórias entrelaçadas e, para mim, toda sedução começa e se sustenta através de palavras. Acham que as pessoas procuram beleza, juventude ou dinheiro, mas, no final do dia, o importante mesmo é sermos capazes de estar com alguém que nos seduz contando histórias ou compartilhando a sua visão de mundo.

Ralph Waldo Emerson é um dos escritores que possuem o dom de acalmar meu espírito. É um autor que transmite serenidade e segurança – vai dar tudo certo, vai dar sim. Escreve como se cada frase fosse enganosamente simples, mas todas escondem um universo tranquilo ao invés de algo repleto de caos e destruição disfarçada, em que causa e efeito estão interligados, em que somos os frutos não de nossas escolhas, mas de nossa ética. Como não se sentir calmo após essa leitura:

“É fácil viver no mundo conforme a opinião das pessoas. É fácil, na solidão, viver do jeito que se deseja. Mas o grande homem é aquele que, no meio da solidão, mantém com perfeita doçura a independência da própria solidão.”

Os seus aforismas caem no espírito como pedras que mostram ao lago a sua natureza quebradiça. “O silêncio que aceita o mérito de alguém como o fato mais natural do mundo é o mais retumbante aplauso que qualquer pessoa pode ganhar” – persigo a verdade dessa frase. Não almejo elogios, considero-os enganosos; muito menos honrarias, pois são efêmeras como falenas. Busco o silêncio de ser alguém tão além do alcance que sequer existem palavras suficientes para classificar.

Ou então “afinal, o que é uma erva daninha, senão uma planta da qual ainda não descobriram as suas virtudes?”. Todos têm virtudes, é só uma questão de ser paciente para encontrá-las. Julgar alguém com pressa é olhar somente um detalhe. Sem contar que é perigoso: como Freud dizia, quando Paulo fala sobre João, está falando mais sobre Paulo do que sobre João.

Outra frase memorável: “A única recompensa da virtude é a própria virtude. A única maneira de ter um amigo é ser um.” Ontem fui questionado sobre a vacuidade de agir com virtude em um mundo no qual ela não só não é reconhecida, como é inclusive temida por revelar as fraquezas alheias de caráter, e disse quase o mesmo: agir com virtude não necessita de aprovação externa, a única recompensa interessante é a satisfação pessoal.

No entanto, a mais importante frase de Ralph Waldo Emerson, e que tenho quase como um credo pessoal, apesar de admitir minhas muitas e humanas falhas, está aqui:

Rir muito e com frequência; ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; merecer a consideração de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar a beleza e sempre buscar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma saudável criança, um canteiro de jardim ou uma redimida condição social; saber que ao menos uma vida respirou mais fácil porque você viveu. Isso sim é ter tido sucesso.

Ser digno de merecer essas palavras ao final da vida – este é o único objetivo a que me proponho.

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