Quando era bem mais novo, e estava ainda começando no Direito, eu assistia a uma série de televisão que passava na Fox Brasil, “The Practice” (“O Desafio” na versão em português). Era o seriado que melhor expressava as realidades, dores e pequenas alegrias do Direito. Um grupo de advogados jovens querendo mostrar serviço, às vezes agindo de forma atabalhoada, em outras sendo brilhantes e perdendo as lutas, usando todos os métodos possíveis para que seus clientes ganhassem as disputas jurídicas. Mais ou menos como a vida de qualquer advogado que sai da faculdade e, com fogo nos olhos, tenta subjugar o mundo.

Existia um aspecto de construção do roteiro que era muito bem realizado. No início de cada episódio, o espectador era apresentado para uma série de imagens cortadas: um corpo; uma pegada; uma faca coberta de sangue; uma janela com a cortina esvoaçando. Alguém era acusado pelo crime e o restante do episódio eram os advogados pegando essas cenas e tentando construir uma narrativa verossímil que lançasse dúvidas sobre a culpa do seu cliente e permitisse que ele fosse libertado. É assim que a vida real nos apresenta toda situação – um aglomerado disforme de elementos díspares para o qual tentamos encontrar um fio condutor que forneça algum sentido.

No final do episódio, vinha A VERDADE (era como eu chamava o momento): após a condenação ou libertação do cliente, os espectadores enfim sabiam a verdade dos fatos, e podiam comparar com a narrativa fictícia criada pelos advogados para provar a sua tese. Era decepcionante quando eles faziam o espectador acreditar que o cliente era inocente, mas, na verdade, era culpado. No entanto, o pior momento era quando víamos um inocente condenado por um crime que não cometeu simplesmente por que não conseguiram contar com suficiente verossimilhança a verdade que ele insistia em dizer.

Se hoje recordo desse seriado é por causa de uma cena que marcou a minha vida, tanto que, passados mais de 15 anos, ainda a recordo em detalhes.

No episódio, os advogados receberam um caso aparentemente não tão complexo, e se entregaram a ele com fúria para conseguir libertar o cliente, pois acreditavam na sua inocência. Estavam com uma energia desproporcional para a situação – afobados demais – e estabeleceram uma série de conflitos secundários: brigaram com o juiz, com o promotor do caso, entre si, com todo mundo. Realizaram uma série de incidentes infundados, audiências paralelas e petições cansativas que foram desgastando a paciência do Poder Judiciário, aquilo que hoje chamaríamos carinhosamente de “chicanas jurídicas”. Batiam de forma insistente na mesma tecla, “dúvida provável”: se existir uma sombra de dúvida sobre a culpabilidade de alguém, por menor que seja, deve-se inocentar tal pessoa.

Eles conseguiram montar uma história verossímil, e todas as provas acabaram ficando a seu favor, tanto que consideravam certa a vitória. No entanto, o cliente foi condenado.

Ao final do episódio, um dos advogados chefes do escritório está em um banco do Forum, exaurido, derrotado, a cabeça entre as mãos. Um jurado do caso passa por ele e, mesmo sendo proibidas as comunicações durante e após o julgamento, o advogado não resiste e interpela o outro: se as provas estavam todas a favor, se a narrativa era verossímil, se tudo apontava para a “dúvida provável” do homem em julgamento, por que diabos ele foi condenado?

O jurado olha o causídico de cima a baixo: “vocês nunca disseram que ele era inocente, doutor”. E se afastou, enquanto o advogado contemplava-o fixamente. Em seguida, no momento A VERDADE, ficava demonstrado que o condenado era inocente mesmo.

A ausência de uma palavra só definiu o destino de um homem.

Às vezes, estamos tão envolvidos com uma situação que esquecemos de dizer as palavras mais importantes. Tão concentrados em analisar situações, construir justificativas e torpedear argumentos alheios que deixamos de lado a verdade contidas nas palavras mais simples. Esquecemos o essencial, iludidos pela ilusão e pelas possibilidades.

Ontem estava relendo o “Decálogo do Perfeito Contista”, do Horacio Quiroga – uma série de ensinamentos a que sempre retorno em busca de respostas não literárias, mas para a vida – e a regra VI é preciosa:

“Se queres expressar com exatidão esta circunstância – ‘Desde o rio soprava um vento frio’ -, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor de tuas palavras, não te preocupa em avaliar se são consoantes ou dissonantes.”

“Palavras, palavras, palavras”, disse Hamlet de Shakespeare, arremessando longe um livro. “Palavras, palavras e mais palavras ainda”, disse Lorde Harry de Oscar Wilde, suspirando de enfado. Quem pode dizer a respeito de si próprio que é “senhor de suas palavras”?

Acabamos nos perdendo em um emaranhado tão grande de palavras que esquecemos de dizer aquelas que realmente importam. Usamos eufemismos, metonímias, metáforas, e deixamos de lado a expressão que se  encaixa com exatidão no que pensamos.

O resultado é idêntico ao de julgamento no “The Practice”: tanto desejamos dizer algo que falamos tudo, menos a palavra decisiva.

Um dos meus poemas favoritos de Aleksandr Pushkin, “O prosador e o poeta” (tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher), afirma que, enquanto o primeiro se esmera na busca dos temas, o segundo se encarrega de transformar as palavras em flechas certeiras na direção do leitor:

O PROSADOR E O POETA

Por que te inquietas, prosador?
Escolhe os temas e, ao que for,
eu darei gume, alada rima,
e farei dele flecha exímia
que, após deixar a corda tesa
do arco dobrado servilmente,
voará certeira até que a presa,
nosso inimigo, se lamente!

Hoje vivemos uma época em que, mais importante do que a precisão da palavra brandida como flecha, o essencial é usarmos palavras como se fossem tiros de metralhadora. Muita dispersão, pouco foco. Muita força e impetuosidade, pouca clareza e direção.

Também estamos em um mundo no qual as pessoas se esquecem de dizer ou mostrar que são inocentes, e nos perdemos em distrações, detalhes, informações contraditórias ou – o pior – palavras vazias de vontade. Adorno escreveu que existem músicas que não são músicas, aquelas feitas sem nenhuma emoção e que ocupam o espaço do silêncio (aliás, por que tememos tanto o silêncio?), por exemplo, a música que toca em estabelecimentos comerciais ou dentro de elevadores.

Pois também existem palavras repetidas à exaustão, geralmente ditas sem qualquer reflexão sobre o seu conteúdo – discursos vazios, cansados, sem nenhuma vontade que não seja a de marcar uma pálida posição.

Enquanto isso, assim como em “Procura da Poesia” do Drummond, as palavras continuam esperando que alguém vá buscá-las no seu reino, paralisadas, mas sem desespero. Esquecemos de dizer as palavras que importam e, por causa desse silêncio, somos forçados a conviver com o precipício das verdades não-ditas na época certa.

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3 comentários em “Dizer as palavras que realmente importam

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