Hoje é Natal e, no melhor espírito da data, sugeriram que eu falasse no “Obras Inquietas” sobre alguma obra de arte com tema natalino. Optei por essa pintura do americano Norman Rockwell, “Volta para casa no Natal”, um bom exemplo de algo que sempre me deixou desconfortável com o estilo do artista: a plasticidade das pessoas, os sorrisos amplos que escondem falsidades, a sensação de que a cena foi cuidadosamente construída para passar uma mensagem de conformismo e aceitação. É tudo tão perfeito que tenho a sensação de que existe um universo de terrores por trás, algo escondido dentro do quadro e que se encontra ao alcance da visão, esperando o momento de ser desvendado.

Bom, se a ideia era ser natalino, creio ter falhado. Mas, além da Páscoa (em que comemoramos uma crucificação), existe feriado mais inquietante do que o Natal?

Boa leitura.

“Volta para casa no Natal” (1948), Norman Rockwell

Não enxergamos o rosto do homem, somente as costas curvadas de quem atravessou o mundo para voltar para casa – ou de quem carrega todos os problemas da Humanidade sobre uma estrutura frágil, de ossos velhos e de coluna alquebrada. Sob um dos seus braços, presentes coloridos escorregam, enquanto a mão firme segura a mala tão exausta quanto o viajante. À primeira vista, é uma cena festiva: o homem que retorna para o lar, o abraço apertado da sua esposa, os olhares de curiosidade da família e dos amigos. No entanto, existe algo oculto na tela, um desconforto na tessitura da imagem, um terror submerso que só observamos depois de algum tempo: todos os homens que encaram o recém-chegado são variações do mesmo rosto, cada um em um tempo cronológico diferente. Não precisamos ver o rosto do viajante por que ele está diante de inúmeros espelhos, todos debochando, todos ostentando risadas que mal escondem o pânico. O homem achou que podia vencer a morte e o tempo se se afastasse de si mesmo, e não conseguiu: retornou para os problemas, para os medos, para os dramas do cotidiano. Estamos sempre voltando para casa, seja real ou metafórica, e nunca conseguimos escapar de quem somos e da sutil prisão de circunstâncias e destino em que nos colocaram tão logo nascemos, prisão essa que chamamos de vida e nos sufoca lentamente com a certeza da areia movediça. O abraço da esposa aproxima-se de um enforcamento. Como Penélope ao reconhecer Ulisses, a mulher não sabe se chora, se ri ou se diz no ouvido do marido a verdade: você voltou para o lugar onde um dia vai morrer – devia ter fugido quando teve chance.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/12/25/obras-inquietas-52-volta-para-casa-no-natal-1948-norman-rockwell/

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