O Milton Ribeiro, jornalista do Sul21, pediu para que um grupo de leitores atentos falasse quais livros lançados ou relançados em 2017 foram os de leitura mais prazerosa. Fui um dos convidados e, quem quiser ver a lista completa com as outras sugestões – algumas inclusive agreguei na minha lista de desejos – aqui está o link:

https://guia21.sul21.com.br/livros/os-dez-melhores-livros-de-2017/

Vou destacar as minhas escolhas pessoais nessa postagem. Tem livros para todos os gostos: os contos de terror contemporâneos de Mariana Enriquez, os poemas inesquecíveis de Wallace Stevens, a mordacidade do Harold Bloom, a força da narrativa histórica da Hilda Simões Lopes Costa, as loucuras do Alfred Jarry, a diversão constante que é conhecer as diabruras dos santos na “Legenda Áurea”, o mundo como narrativa do “Sapiens”, as dificuldades de comunicação do Olavo Amaral, os poemas repletos de ritmo e dissonâncias do Guto Leite e o personagem tão real que só pode ser fictício da Patrícia Portela.

Como toda lista, é incompleta. Não expressa também a qualidade das leituras que realizei, pois boa parte dos livros lidos são de outros anos, outras eras. Ainda assim, é uma lista legal para quem está em dúvida sobre o que ler nas férias.

Vamos a ela (sem ordem de preferência):

1 – “As coisas que perdemos no fogo” – Mariana Enriquez

Os méritos de “As coisas que perdemos no fogo”, de Mariana Enriquez, são vários. A começar por trazer vigor e energia para um gênero massificado por clichês e tramas duvidosas, como é o caso do terror. Em segundo lugar, por se embeber de narrativas clássicas, ao estilo de Edgar Alan Poe e Lovecraft, para revelar doze contos repletos de tensão e angústia onipresente nas sombras. Em terceiro, por ser capaz de trazer questões contemporâneas para dentro da trama; a autora argentina escreve sobre os fantasmas da ditadura, sobre a favelização dos bairros periféricos de Buenos Aires, sobre bruxas modernas revelando-se por causa do feminicídio, sobre os traumas econômicos decorrentes de Carlos Menem e dos governos Kirschner. Porém, o maior mérito é construir histórias cuja atmosfera sombria causa forte impacto no leitor, mostrando que o maior terror encontra-se dentro do ser humano e da sua capacidade inata para o mal.

2 – “O cânone americano” – Harold Bloom

A crítica literária se divide entre os fãs e os “haters” de Harold Bloom, mas é impossível lhe ser indiferente. Em “O cânone americano”, ele parte da ideia de constelação literária, ou seja, a noção de que dois escritores em pólos distantes podem atrair, fascinar ou repudiar uma gama de outros escritores e leitores, para formar a sua escolha pessoal dos maiores autores dos Estados Unidos. Analisados em seis pares aproximados por diferenças e semelhanças (Walt Whitman e Herman Melville; Ralph Waldo Emerson e Emily Dickinson; Nathaniel Hawthorne e Henry James; Wallace Stevens e T. S. Eliot: Mark Twain e Robert Frost; William Faulkner e Hart Crane), usando muita ironia e mordacidade, Bloom fala dos mecanismos literários que levam alguns escritores a se destacarem dos demais, e de como um sistema literário necessita de paradigmas de excelência para se constituir como fonte de inspiração e progresso.

3 – “O imperador do sorvete e outros poemas” – Wallace Stevens

A única tradução de Wallace Stevens para o Brasil era de 1987, e se encontrava esgotada até a Companhia das Letras reeditar – e ampliar – o livro originalmente publicado. Wallace Stevens é um poeta que se assemelha muito a Carlos Drummond de Andrade na capacidade de fazer a poesia surgir de maneira triunfal em meio aos fatos mais cotidianos, com imagens que marcam a memória. Com grande apuro técnico e uma contenção exemplar do arroubo poético, a obra de Wallace Stevens encanta: nesses tempos em que se tornou constante longos desabafos e um apelo forte à subjetividade e à presença fisicamente impositiva do autor como “ser que enuncia o poema”, ler poesias que saem ao natural de um sorvete ou de uma gota de água são alentos para leitores cansados de um mundo feérico.

4 – “Tuiatã” – Hilda Simões Lopes Neto

Um grande romance histórico precisa ter História e muitas histórias no seu interior. Em “Tuiatã”, um romance de fôlego (nunca um clichê foi tão adequado para classificar um livro de 560 páginas que deixa o leitor sem fôlego à medida que os acontecimentos transcorrem), Hilda Simões Lopes reconta a formação do Rio Grande do Sul dentro de uma narrativa que entrelaça imaginação e realidade, personagens famosos e outros ficcionais. Fosse só isso e seria um livro comum, mas a autora sabe aliar uma vasta pesquisa documental com talento literário, construindo personagens marcantes ao mesmo tempo em que narra com inventividade. É um livro que não se nota passar, na melhor moda dos folhetins, e transmite vida a cada página ultrapassada, além do grande prazer de rever fatos históricos por dentro de uma narrativa muito bem elaborada.

5 – “O supermacho” – Alfred Jarry

Uma obra extremamente divertida para quem se encanta pelas noções de absurdo. Em “O supermacho”, Alfred Jarry – mais conhecido pelas suas obras teatrais, em especial o “Ubu” e o “Ubu Rei” – cria uma série de esquetes e diálogos entre personagens mediados por depoimentos, recortes de jornal, entrevistas, poemas, informações científicas, tudo para contar a história de André Marcueil, um homem capaz de transar mais de 80 vezes por noite, circunstância erótica que o aproxima do “Satiricon”, de Petrônio. Mas não fica somente nisso: também existe a criação de uma máquina capaz de incutir sentimentos em pessoas e uma disputa ciclística do personagem com um trem por 10 mil milhas de distância (ele estava dopado por uma substância química), para ficar em somente alguns elementos fantásticos. Considerado uma das obras precursoras da ficção científica, “O supermacho” é um livro que não cansa de divertir e de suscitar novas interpretações.

6 – “A coleção privada de Acácio Nobre” – Patrícia Portela

Usando uma das funções primordiais da literatura, que é recapturar a vida de personagens notáveis, Patrícia Portela conta a história quase inverossímil de Acácio Nobre, um homem cuja trajetória foi apagada pela ditadura de Salazar e que ressurge das páginas do livro como uma alma inquieta, inventiva, um homem deslocado do tempo e do espaço. Por meio do resgate de fragmentos deixados para trás, de cartas e de comentários dos seus contemporâneos, a escritora ressuscita Acácio Nobre, inventor, matemático e filósofo, o “Leonardo da Vinci português”, em uma narrativa que nunca perde a empolgação de quem está contando uma ótima história, passando esse sentimento para o leitor.

7 – “Talvez um instrumento o que se houve ao fundo” – Guto Leite

Uma das gratas surpresas do ano que se encerra, o livro de Guto Leite, “Talvez um instrumento o que se houve ao fundo”, é de difícil categorização: toda vez que se tenta sintetizá-lo em palavras, ele mostra novas facetas. Em tempos de massificação do fazer poético e do uso de fórmulas cansadas, é bom ler um escritor que não tem medo da forma e que as subverte até chegar ao ponto de tensão extrema. É possível dizer que é um livro de poemas, mas é mais do que isto: também é um livro de denúncias, de risadas disfarçadas, de lágrimas plenas de revolta no meio da noite, de lirismo desbragado e de poesias que surgem como espantos no meio do cotidiano. Não se pode negar, ainda, que está repleto de ritmo e de circunstâncias, uma obra que se renova a cada página e traz consigo uma surpresa e um olhar novo sobre a vida.

8 – “Legenda Áurea” – Jacopo de Varazze

Obra esgotada há muitos anos, em 2017 a Companhia das Letras relançou o clássico escrito no século XIII e que se mantém como um dos textos mais inspiradores já escritos. Ao descrever as vidas, obras e milagres de 153 santos da Igreja Católica, Jacopo de Varazze acabou realizando tanto um documento histórico quanto um livro de extraordinária ficcionalidade. Apesar de possuir um lado religioso importante (ajudou a cristalizar e a disseminar o cristianismo por meio das vidas exemplares dos santos), pode ser lido como algo fantástico e inverossímil sob variados aspectos, dizendo muito sobre o extraordinário poder da criatividade humana e, em especial, sobre a sua capacidade de criar boas histórias. Um livro muito divertido na seriedade com que descreve uma série de impossibilidades – ou, para quem prefere lê-lo assim, uma descrição apurada da época em que milagres, sacrifícios e intervenções divinas eram fatos rotineiros.

9 – “Sapiens: História breve da Humanidade” – Yuval Noah Harari

Imaginar a trajetória humana como o desejo de estabelecer uma narrativa é o grande mérito de “Sapiens: História breve da Humanidade”, de Yuval Noah Harari. Ao colocar a linguagem como o centro da evolução, o autor percebe que religião, política, sociedade e economia estão articuladas em torno da linguagem e de suas possibilidades, em especial através da ideia das “realidades imaginadas”, nas quais o ser humano sonha o seu futuro. Mesmo sob o risco de às vezes soar otimista demais, parecer auto-ajuda ou comparar realidades muito díspares para forçar o seu argumento, não se pode negar que o livro de Yuval Noah Harari é uma atraente narrativa sobre as capacidades dos indivíduos de transformarem a sua realidade, demonstrando – de forma muito hábil – que estamos no mundo para agregarmos linhas em uma história ainda em construção.

10 – “Dicionário de línguas imaginárias” – Olavo Amaral

O conto é um gênero subestimado por sua brevidade, mas muitos ignoram o quão difícil é construir um mundo verossímil e repleto de subentendidos no espaço de poucas páginas. Em “Dicionário de línguas imaginárias”, Olavo Amaral tece dez narrativas curtas, todas versando sobre as dificuldades de se comunicar. Seja criando a língua fictícia de um povo indígena que não possui palavras para “ir” e “vir”, seja entrando no fantástico em “O ano em que viramos ciborgues”, seja no homem que morre aos poucos por “excesso de palavras” e parte em uma expedição na Sibéria rumo ao fim de todas as linguagens, os contos de Olavo Amaral formam um conjunto que, ao mesmo tempo em que presta tributo aos clássicos do gênero, também demonstram uma visão de mundo desencantada em relação ao que vivemos, estabelecendo que a maior de todas as dificuldades é comunicar com precisão aquilo que sentimos e somos, pois sempre se perde algo precioso.

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